domingo, 12 de dezembro de 2010

2425) Vou ali comprar cigarro (12.12.2010)



Eram 18:43 de uma noite de verão quando o dr. Amadeu Felinto, dobrando o jornal que lia, ergueu-se da poltrona, vestiu de novo o paletó, caminhou pelo corredor e, chegando à sala onde sua esposa, D. Marilena, estava pondo a mesa do jantar, anunciou: “Vou ali comprar cigarro e já volto”. Ela assentiu com um gesto, continuou a distribuir talheres e pratos no leiaute costumeiro, mas, ao ouvir a porta da frente se fechando, estremeceu.

Toda mulher sabe. Está gravado nos seus neurônios com o mesmo dedo de fogo com que os Dez Mandamentos estão gravados nas Tábuas de Moisés. Se um dia, antes do jantar, um marido sair dizendo que vai comprar cigarros, ele nunca mais volta. Dobrará aquela esquina pela última vez e nunca mais será visto. Sumirá na multidão, perderá o nome e o rosto, as impressões digitais, o código genético. Virará uma sombra sem substância, como o Wakefield do conto de Hawthorne. Um espectro que uma maldição milenar e enigmática proíbe de retornar ao lar.

D. Marilena puxou uma cadeira e sentou-se, pois percebeu que a vertigem a faria desabar. As crianças brincavam no quarto; a TV estava ligada baixinho na sala; o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranquilo em redor de D. Marilena. Só não estava tranquilo seu coração, corroído pelo mais sulfúrico dos ácidos: o pavor diante do Estava Escrito. Naqueles minutos cruciais que determinaram toda sua vida futura, ela equacionou bens contra despesas, a poupança contra as mensalidades escolares dos filhos, as prestações e seu minguado salário de enfermeira. Traçou um plano de resistência às ironias e falsa piedade das vizinhas. Localizou com presteza uma dúzia de conhecidos que em breve começariam a ligar: “A sra. precisa sair, espairecer, a vida continua...”, e para cada um rascunhou uma desculpa convincente. Não, não amaria mais ninguém depois de Amadeu. Mesmo sendo abandonada de forma tão humilhante. Até o momento daquela derradeira e fatídica frase, ele tinha sido um marido ideal. Mesmo tendo sumido para sempre, era o marido ideal.

Ergueu-se. Foi à cozinha verificar se água do café já fervera. Passou o café numa mistura de piloto automático e sonambulismo, calculando quando pediria pelo carro, pois não sabia dirigir. Descartou de início quaisquer proventos da seguradora, pois sabia que seguradoras só pagam diante de cadáveres, não de homens que saem para comprar cigarros e se transformam em ectoplasma.

Pôs o café na garrafa térmica, arrolhou-a. Foi à porta do quarto. Clarice e Amadeuzinho brincavam, nos últimos momentos felizes que teriam. Não deram pela sua presença; como reagiriam à ausência do pai? D. Marilena foi até a sala, e teve a sensação de estar vendo aqueles móveis e paredes pela primeira ou pela última vez. A porta se abriu. Dr. Amadeu entrou tranquilo, cigarro aceso nos dedos, olhou-a: “Que cara é essa?” Ela arrancou um suspiro, foi até ele, retirou um fiapo de sua lapela e disse apenas: “Demorou...”

sábado, 11 de dezembro de 2010

2424) “Praça Saens Peña” (11.12.2010)



Tenho visto poucos filmes brasileiros, mas um que me deixou pensativo foi Praça Saens Peña de Vinicius Reis. A Tijuca foi um dos primeiros lugares em que morei no Rio, quando foi inaugurada a estação Saens Peña do metrô. Criei um afeto pelo bairro; e mesmo radicado na Zona Sul, que adoro, sinto-me pessoalmente ofendido sempre que o pessoal da ZS faz piada (e como faz!) com quem é da Zona Norte. Quanto mais você se afasta da Zona Sul, mais o Rio fica parecido com qualquer cidade brasileira. Em geral, quando se diz “o Rio de Janeiro” é apenas uma abreviatura de “a Zona Sul do Rio de Janeiro”. As praias.

O filme de Vinicius Reis fala de pessoas que moram num apartamento apertado, sonhando com casa própria, pagando as contas do mês na ponta do lápis. O marido, Paulo (Chico Diaz) dá aulas num colégio e fica entusiasmado quando uma editora o incumbe de escrever um livro sobre o bairro. Começa a recolher histórias, e a certa altura aparece entrevistando Aldir Blanc, tijucano ilustre. A esposa, Maria Padilha, fica meio jogada para escanteio e acaba tendo um caso com um rapaz cujo apartamento posto à venda ela foi avaliar. A filha única do casal sente o que está se passando e perde o diálogo com os pais.

Raras cenas do filme se passam fora da Tijuca. Tudo é contado de uma maneira intimista, aparentemente banal. O filme fala de droga (um tijucano, interpretado por Guti Fraga, queixa-se de que a polícia invadiu-lhe o apartamento e fuzilou seu filho no meio da casa). Mas a violência não aparece. A não ser, reiteradamente, nas conversas. Isto é realismo. É assim que grande parte dos cariocas vivencia a violência: falando sobre ela, todos os dias.

Uma cena resume o espírito deste tipo de cinema. A mulher casada vai à noite no apartamento do rapaz solteiro. Os dois sentam de lados opostos de uma mesinha pequena, encostados à parede, com uma iluminação meio fraca, ficam tomando cerveja na lata e comendo queijo. Charme zero. O rapaz pega a faca, tira uma fatia de queijo, come, oferece a ela... E os dois vão, para usar uma expressão em voga, “se conhecendo melhor”. É o que os romancistas franceses chamavam de “tranche de vie”, uma fatia de vida, um pedaço intensamente real, pelo menos na minha realidade, que já tomei muitas vezes aquela cerva.

O cinemão, no entanto, se tiver que colocar uma cena de um casal se conhecendo melhor, impõe que seja num colorido bar na praia, ou um restaurante metido a besta com maître de black-tie e champanhe na flauta. A cena do filme de Vinicius Reis me comoveu porque me deu aquela sensação cada vez mais rara no cinema de hoje, de ver algo importante que não é tratado como espetáculo. Que parece uma coisa acontecendo de verdade. Atores, diálogos, luz, gestual, o subtexto implícito empurrando um para o outro... Parece besteira, mas é até um negócio meio amedrontador, porque a gente vê o quanto o cinema pode, quando quer, se aproximar de nossos momentos mais íntimos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

2423) WikiLeaks e os Little Brothers (10.12.2010)



(Julian Assange)

O mundo está acompanhando a batalha de Julian Assange, o cara do saite WikiLeaks, perseguido por governos do mundo inteiro, tendo à frente o dos EUA, por divulgar documentos secretos. Num mundo cada vez mais impregnado de informação transmissível (os telefonemas que dou, as compras que faço no cartão, os saites que acesso, os emails que recebo, as calçadas que percorro acompanhado por câmaras de segurança) somos massacrados pela impressão permanente do gigantismo do Estado. O mundo parece um imenso Big Brother, de olho nas pegadas que deixamos até dentro de nossa casa, copiando nossas impressões digitais em cada copo de plástico em que bebemos água, lendo nossos pensamentos e os transmitindo por encefalograma para algum misterioso Serviço de Segurança que arquiva tudo para utilização futura na hora em que a gente cometer a primeira bobagem.

O lado positivo desse 1984 permanente é o próprio gigantismo da máquina. Quanto mais peças tem uma máquina maior a possibilidade de que uma delas dê defeito, e, como afirmou genialmente Conan Doyle, nenhuma corrente é mais forte do que o mais fraco dos seus elos. Um acúmulo tão espantoso de informação aleatória não pode passar muito tempo sem deixar vazar (vazar = to leak) filetes de uma informação que o Sistema preferiria deixar desconhecida e inalcançável.

O WikiLeaks cumpre uma função parecida com a que Daniel Ellsberg fez ao roubar e divulgar os famosos “Papéis do Pentágono” sobre o Vietnam, ou o que Mark Felt, da CIA, fez ao se transformar no “Garganta Profunda” que ensinou o caminho das pedras para a investigação que levou à renúncia de Richard Nixon. São centenas de milhares de gravações, transcrições de conversas reservadas, grampos de telefones e o escambau, envolvendo presidentes de vários países, ministros, embaixadores, agentes de segurança. Sem falar em vídeos revelando atrocidades de guerra e saias-justas dos bastidores da política.

Fala-se tanto em liberdade de imprensa. Nenhuma imprensa é livre para revelar essas coisas. É algo fluido demais para ser provado, ou explosivo demais para ser manipulado em público. Às vezes uma revelação assim queima nosso adversário, mas também respinga napalm em meia dúzia de aliados ou inocentes neutros. A imprensa, mesmo livre, se auto-censura, se auto-limita e com isto, também, se auto-protege. Um desses grandes jornais (o New York Times, acho) tinha como lema: “All the news that’s fit to print”, “Todas as notícias adequadas para publicação”. Vejam o espírito retentivo e puritano desabrochando em toda sua plenitude! O lema do Wiki Leaks poderia ser: “Todas as notícias que é possível publicar”.

Num mundo governado pelo Big Brother, sugiro batizarmos essa galera do WikiLeaks como The Little Brothers. Os pequenos irmãozinhos que vão à luta, rasgam a barriga de governos corruptos, ditatoriais ou invasivos, e mostram a sujeira no interior de suas entranhas. Ninguém escapa.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

2422) A renovação da linguagem (9.12.2010)



Li num jornal literário este comentário de um crítico, que transcrevo sem citar a autoria, porque na verdade não me interessa contradizer o autor, e sim examinar por que motivo eu, que já disse a mesma coisa numerosas vezes, sempre o fiz com um certo desconforto e insatisfação. Dizia ele: “Fulano de Tal, com seu livro, não se propõe a renovar a linguagem literária. Ainda bem, porque de tentativas de renovação da linguagem a literatura brasileira está saturadíssima. Hoje em dia, essa prática se tornou lugar comum entre os escritores ‘bem’ pensantes. Mas afinal, depois de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, isso seria possível?”

Me parece verdadeiro, mas também me parece insatisfatório. Tenho uma certa impaciência com tentativas de “renovar a linguagem literária brasileira”, como se isto fosse tarefa para cada novo escritor que desembarca nas livrarias. Ao mesmo tempo me pergunto: será que acabou tudo com Guimarães Rosa e Clarice? Será que fechou a tampa, e não é preciso renovar mais nada? E, aliás, por que usamos o termo “renovar”? Renova-se uma literatura como quem renova um guarda-roupa durante uma viagem? Ou como quem renova um modelo de automóvel (tirando o acendedor de cigarros e botando um tocador de MP3, p. ex.)?

Não sabíamos (acho) que era possível ver o mundo com olhos como os de Kafka, até que Kafka surgiu e nos mostrou. Não imaginávamos (acho) que perscrutações íntimas, contraditórias, paradoxais e sem-desfecho, como as de Clarice Lispector, pudessem resultar em boa literatura; os livros de Clarice mostraram que sim. Muita gente escrevia romances sobre detetives durões que investigavam crimes brutais, cercados por mulheres sedutoras; eram livros rústicos, sensacionalistas, descuidados. Parecia impossível produzir boa literatura com ingredientes assim, mas Raymond Chandler mostrou que não. O romance regionalista rural era considerado um gênero estático, impermeável ao resto do mundo, sobre pessoas de baixo Q.I.; Guimarães Rosa mostrou que não.

Muitas tentativas de renovar a linguagem literária se frustram porque os autores, paradoxalmente, querem escrever parecido com o autor da renovação mais recente. A renovação se auto-destrói, cai no vazio, porque a comparação é inevitável entre o original e a cópia. O que seria de Rosa se tentasse escrever parecido com Afonso Arinos, e de Chandler se tivesse querido adotar o estilo de Dashiell Hammett, a quem admirava?

Não sei se todos os grandes autores queriam renovar nada. Queriam apenas se exprimir (acho) dentro de suas habilidades e seus limites. A literatura é uma Língua Geral cuja sintaxe e vocabulário pode receber acréscimos de qualquer autor. Os grandes individualistas trazem sua maneira de ver e maneira de dizer. Algo disso se incorpora. Mas aposto que eles não estavam querendo “renovar” nada. Escreviam assim porque não conseguiriam escrever de outra forma.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

2421) “The Diamond Age” (8.12.2010)



Li apenas dois livros de Neal Stephenson, e é como se tivesse lido vinte. Faz tempo não vejo um autor capaz de tal densidade informacional por página. Nevasca (“Snow Crash”), publicado pela editora paulista Aleph, com 470 páginas, tem mais peso específico do que a “Trilogia da Fundação” de Asimov. E agora acabei de ler este outro, que em 499 páginas é capaz de equilibrar uma balança que tenha no prato oposto toda a obra de Charles Dickens. A comparação não é despropositada, porque Dickens é uma das grandes inspirações de Stephenson para este romance vitoriano passado no futuro. Um dos prazeres proporcionados pela FC é essa possibilidade de decolar em voos históricos e sociológicos de longo alcance. Os escritores realistas acham que a FC é minúscula porque estão caminhando a pé e dela só veem o risco branco no céu azul.

A época da história é mais ou menos o ano 2100, quando a humanidade controla a nanotecnologia a ponto de todo mundo ter em casa, assim como tem hoje um microondas, um “compilador de matéria”. Basta digitar as coordenadas e ele produz dentro de alguns minutos uma calça, um par de sapatos, uma cadeira... Há limitações tecnológicas que impedem este aspecto de virar uma “varinha de condão”. A parte principal da história ocorre na região que hoje é Shangai, então habitada por uma sociedade neo-vitoriana de lordes e damas sofisticadíssimos a ponto de não recorrerem aos “compiladores”: roupas, móveis, etc., são todos feitos à mão, coisas que só pessoas riquíssimas podem encomendar.

Um Lorde lamenta que a nova geração esteja ficando muito acomodada e encomenda, para a futura Rainha, a criação de um e-book que não apenas contenha toda a formação cultural necessária a uma menina pré-adolescente, mas também estimule nela um temperamento rebelde, contestador, quase subversivo. Essa tarefa cai para J. P. Hackworth, que produz um Super-Livro, uma mistura de e-book e console-de-games em que a garota lerá histórias, aprenderá qualquer técnica (desde artes marciais até idiomas estrangeiros) e ao longo dos anos irá formando seu caráter através das etapas sucessivas das aventuras de “Princesa Nell”, um gigantesco game educativo, em que contracena (falando) com atores contratados para isto.

A grande reviravolta, que ocorre a cerca de 1/3 do livro, é que Hackworth tira uma cópia clandestina deste Super-Livro, e ela vai parar nas mãos de uma menina pobre, que passa a ser educada por ele ao mesmo tempo que a Princesa. Não, leitor, não diga que já viu como vai terminar. Isto é só a ponta deste iceberg barroco-cinemascope (como dizia Brian Aldiss), que vai em muitas direções (todas surpreendentes e plausíveis) ao mesmo tempo. O futuro descrito por Stephenson é estonteante em sua riqueza, diversidade e coerência de detalhes. As aventuras são divertidas, e existe aqui um pouco mais de maturidade do que em Nevasca, outro excelente livro mas que às vezes parece feito apenas para garotos que jogam joguinhos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

2420) Flu: campeão por exclusão (7.12.2010)



E assim chegamos ao final de mais um Campeonato Brasileiro meia-bomba, decidido sem emoção em jogos onde os candidatos ao título enfrentavam times desmotivados ou rebaixados. Assim como ocorreu ano passado com meu Flamengo, o Fluminense foi campeão por exclusão. No confronto dos pouco competentes, foi o que errou menos, o que tropeçou menos, e, assim como o Flamengo, nem pode dizer que conquistou um título, mas que o título perdido por todos acabou caindo no seu colo. Que aproveite. (O Flamengo é um exemplo de como não aproveitar.)

Durante muitos anos sonhei, eu, fã do futebol, com um Campeonato Brasileiro disputado em pontos corridos, acreditando que fosse esta a fórmula mais adequada para premiar o melhor time. Hoje tenho minhas dúvidas, não quanto à eficácia da fórmula para escolher o vencedor (premia-se o time mais regular e mais consistente, o que não são critérios de se jogar fora), mas quanto ao resultado disto para o espetáculo.

Há muitos jornalistas que torcem o nariz para o presente modelo, e acho que estou começando a torcer o meu também. No ano passado vi um Flamengo travado e sem convicção ser campeão diante de um Grêmio que claramente não queria beneficiar seu rival, o Inter. Este ano vi um Fluminense travado e nervoso ser campeão diante de um Guarani tecnicamente fraco, psicologicamente entregue. Jogos chochos, sem técnica, sem emoção. Tive saudade daquelas decisões de alguns anos atrás em que só dois times podiam ser campeões: os dois que entravam em campo para se enfrentar, “com a faca nos dentes” e na ponta dos cascos.

Não digo isto para menosprezar o título tricolor. Foi merecido pela campanha sólida, mesmo com repetidos escorregões e tropeços em jogos bobos, que só não lhe custaram a Taça porque os adversários fizeram exatamente a mesma coisa. Foi merecido, por exemplo, por Conca, um jogador que não é nenhum Maradona mas é um exemplo de jogador que eu gostaria de ter no meu time, tanto pela técnica quanto pelo caráter (ou pelo menos o que percebemos dele pelas suas atitudes).

O título do Flu carimbou um valor simbólico especial para o técnico Muricy. Como os torcedores se lembram, logo quando Dunga foi demitido da Seleção após o fracasso na Copa a CBF convidou Muricy para ser o técnico, e ele aceitou. Isto foi às 10 da manhã. Ao meio-dia, Muricy informou a CBF de que o Fluminense não o liberava, e que ele, como tinha contrato assinado, tinha que manter a palavra e obedecer à ordem do Fluminense para que ficasse.

Muitos técnicos guardariam um gosto de azinhavre na boca e, mais adiante, iriam tirar o pé do acelerador, numa vingança quase inconsciente contra a diretoria que cancelou seu maior sonho profissional. Muricy trabalhou como um mouro e deu a Taça ao clube que o prejudicou. Isto deve significar alguma coisa, num futebol tão egoísta quanto o nosso. Não acho Muricy o sujeito mais simpático do mundo, mas é a ele (não à diretoria do Flu) que dou meus parabéns.

domingo, 5 de dezembro de 2010

2419) O repentista Bob Dylan (5.12.2010)




Toda criação poética é uma oscilação contínua entre o racional e o intuitivo, entre decisões planejadas e coisas que parecem cair do céu. 

“Toda”, no caso, é um exagero, porque se há milhões de poetas há milhões de poéticas; mas essa regra, que vale para mim, deve valer pra mais gente. 

Lembrem aquela famosa cena de Sociedade dos Poetas Mortos, em que um dos alunos de Robin Williams diz ser incapaz de escrever versos. Ele manda o garoto ficar de pé e fechar os olhos, manda-o girar sobre si mesmo e ficar dizendo o que lhe vem na cabeça, até que o garoto, que era o mais travado da turma, começa a balbuciar coisas e acaba gritando uns versos bem aceitáveis. Ele larga o garoto e diz no seu ouvido: “Nunca se esqueça disto”.

Nunca se esqueça de quê? De que a poesia não é necessariamente uma atividade de concatenação entre conceitos abstratos, como o raciocínio filosófico. Ela pode ser, e frequentemente é, uma justaposição de imagens concretas e contraditórias. A arte está em juntar as duas coisas. 

Em seu livro Positively 4th. Street, David Hajdu descreve como Bob Dylan compôs muitas das canções de seu primeiro disco genuinamente folk-rock, Bringin’ it all back home. Diz Hajdu, citando uma testemunha:

“Ele espalhava dúzia de fotografias arrancadas de jornais e revistas, arrumando-as no chão, e sentava entre elas com o violão. Começava com uma levada musical simples, um acompanhamento de blues que ele pudesse repetir indefinidamente, e então fechava os olhos. Não copiava as coisas literalmente das fotos, mas usava a impressão deixada por elas como um modelo visual para produzir uma linguagem caleidoscópica. Parecia estar cantarolando qualquer coisa que lhe vinha à cabeça, frases desconexas mas com sentimento poético. Quando surgia algo que lhe agradava, ele rabiscava aquilo às pressas, para não perder o clima, e fazia isso até ter versos suficientes para uma canção”.

Parece maluquice, mas cada um de nós tem métodos semelhantes. Um dos meus preferidos é ficar rasqueando o violão, cantarolando uma melodia sem letra, escolher um objeto qualquer no ambiente e procurar palavras que rimem com ele. Num instante a letra começa a aparecer. 

O método de Dylan (e o de Robin Williams) nos lembra que o motor da poesia é o intelecto, mas o combustível é a emoção. Um, sem o outro, não funciona. O intelecto é capaz de ficar uma tarde inteira parado, ponderando um adjetivo, mas quem escreve sabe que precisa botar o motor em movimento. Para isso, uns recorrem ao violão, outros ao uísque, outros a um baseado, outros a uma vida cotidiana insone e caótica que os deixa 24 horas por dia num estado alterado de consciência. Os surrealistas praticavam a escrita automática. 

Tudo é válido para “passar primeira” e tirar o cérebro da imobilidade. A grande criação literária (para muitos, é claro; nada disso se aplica a todo mundo) ocorre na terceira marcha. O problema é chegar lá.




sábado, 4 de dezembro de 2010

2418) As ilusões da memória (4.12.2010)




(cartum de Bennett)

O passado é tão modificável quanto o presente, pela simples razão de que o único lugar onde o passado existe é em nossa memória. 

Às vezes lembramos, com nitidez absoluta, coisas que nunca ocorreram a não ser em nossa imaginação. Mexemos nesses arquivos o tempo inteiro, e, assim como fazemos com os arquivos do computador, o mero ato da consulta nos faz corrigir um detalhe aqui, aumentar um espaço acolá, mudar uma formatação... 

Quando terminamos de acessar aquela lembrança, a mente pergunta se queremos salvar as alterações, e dizemos que sim. Invariavelmente. Lembrar um fato é modificar essa lembrança.

Num livro de Christopher Chabris e Daniel Simons se conta um episódio ocorrido com Hillary Clinton, que durante a campanha presidencial de 2008 recordou uma viagem que fez à Bósnia em 1996, na cidade de Tuzla, onde teria descido do helicóptero sob fogo de atiradores de elite, correndo abaixada para proteger-se. 

Repórteres que fizeram a mesma viagem publicaram fotos da chegada de Hillary, em que ela aparece sendo recebida diante do helicóptero, cumprimentando autoridades e beijando uma criança que leu um poema. 

A questão (levantada na campanha política) era: Hillary estaria sendo vítima de uma auto-ilusão, ou estaria mentindo deliberadamente?

Não posso responder pela ex-primeira dama, mas a verdade é que todo mundo, no momento em que está contando uma história, costuma enfeitar, corrigir, completar, arredondar, esticar, resumir. 

Não por intenção deliberada de contar mentiras, mas porque em nossa mente (ou pelo menos na mente de uma porção de pessoas) a função fabulatória muitas vezes entra de parceria com a função recordadora. Quando contamos um episódio em que estivemos envolvidos, somos levados a visualizar as cenas, reconstituir a sequência de ações, recompor fragmentos de diálogos. 

Quando alguém nos faz perguntas sobre detalhes que no momento não tínhamos observado, acabamos preenchendo essas lacunas por conta própria. Não por má fé, mas porque é mais fácil preenchê-las e continuar narrando do que interromper a narração, tentar lembrar, encontrar dificuldade, estancar a conversa... 

Lembramos que Fulano chegou em nossa casa, alguém pergunta como, e dizemos: “Chegou de táxi”. Não sabemos (e depois alguém pode provar que não foi verdade). Mas para não quebrar o ritmo da narrativa, preenchemos esse espaço vazio sem pensar muito, e vamos em frente.

Ademais, Freud (cuja estudos sobre falsas memórias são famosos) mostrou que nossa mente costuma misturar episódios diferentes num só. Lembramos de maneira vívida um fato da infância, mas noutra casa, e não na casa em que ele de fato ocorreu. Lembramos ter visto um filme na companhia de alguém; não foi, foi com outra pessoa. 

Lembramos sempre fragmentos, e às vezes somos forçados a pegar duas ou três cenas incompletas para com elas compor uma lembrança falsamente completa, mas que parece fazer sentido, tem uma aparência satisfatória.






sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

2417) Os planejadores e os espontâneos (3.12.2010)




(H. G. Wells)

Hoje liguei a TV às 10 da manhã e estava passando A Gata e o Rato, que era um dos meus seriados preferidos há 25 anos. 

Bruce Willis e Cybill Shepherd estão (pra variar) discutindo. Ele defende a espontaneidade nas conquistas amorosas (e em tudo na vida) e ela defende a análise e a cuidadosa ponderação de possibilidades antes de se decidir. (Toda a cena é um mero pretexto para ficarem jogando charme um no outro.) 

Pensei: “Ora que diabo, aqui estou revendo uma série de TV boba! Vai trabalhar, vagabundo!”. 

Desliguei a TV e peguei um livro autobiográfico de H. G. Wells, que estou consultando para a redação de um prefácio. E me deparo com a descrição que ele faz de seu relacionamento com a escritora Rebecca West, com quem ele manteve um romance extraconjugal, com um filho e tudo, durante anos.

Wells descreve e comenta o romance dela, The Judge. Os dois viram passar, numa cidade onde estavam a passeio, um juiz muito pomposo, cercado de acólitos. E ela lembrou uma notícia na imprensa sobre um juiz que morrera de enfarte num bordel; decidiu usar algo parecido. Imaginou a história de um juiz que seduz uma mulher sem saber que ela era a viúva de um homem que ele condenara à forca anos atrás. A mulher reconhece o juiz e o atrai ao seu quarto, pensando em matá-lo. Quando o juiz a vê empunhando uma faca, morre do coração.

A ideia daria um conto interessante, mas ela resolveu escrever um romance, pois achou que precisaria “forrar” melhor essa situação meio folhetinesca com verossimilhança psicológica. 

E começou a contar a história (“muito ousadamente”, diz Wells) antes mesmo do marido e da esposa se conhecerem. E de lá veio, tecendo a vida de um e do outro, criando “um livro do tamanho de uma baleia” e tentando conectar a infância de uma mulher em Edimburgo e de um homem no Rio. 

E o livro, segundo Wells, se conclui quando acontece o crime cometido pelo marido. Foi publicado com o título “O Juiz” porque era o que estava no contrato com a editora.

Wells conclui dizendo: “Ela escreve como um tear produzindo um tecido belíssimo sem ter a menor ideia de como será seu formato final, enquanto que eu escrevo para cobrir uma estrutura de ideias”. 

Conectando estes dois casais, não posso deixar de imaginar que aparentemente Wells e Maddie, “a Gata” se dariam bem, o mesmo ocorrendo com David, “o Rato” e Rebecca West. Ou talvez não, quem sabe? Talvez os opostos se atraiam. 

Em todo caso, existem de fato os escritores que planejam tudo que vão fazer (J. K. Rowling escreveu todo o resumo, inclusive o final, da série “Harry Potter” num caderno, antes mesmo de escrever o primeiro livro) e os que saem inventando pra ver no que vai dar. 

Hoje mesmo (é o dia das coincidências) li uma frase do poeta Robert Frost: “Nunca comecei um poema sabendo como vai ser o seu final. Escrever poesia é um ato de descoberta”. Acho que alguém está querendo me dar um recado, mas quero ser mico de circo se souber qual é.









quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

2416) Atravessando o abismo (2.12.2010)


É o único trajeto que ele percorre, às vezes diariamente, às vezes dia sim dia não. 

Nunca deixa de ser, para quem mora sozinho, uma aventura e um pesadelo. Sair do apartamento, descer dois lances de escada, chegar à rua, fazer compras rápidas, voltar para casa. 

Tudo não dura uma hora, mas para Seu Tomás equivale a caminhar num fio esticado entre dois arranha-céus. Oito décadas de ferrugem nas juntas não lhe ajudam os movimentos, e seis décadas de cigarro lhe empedraram os pulmões; mas não é o desgaste físico do trajeto que o faz estremecer. É o que ele se habituou a chamar, consigo mesmo, de Os Altos e Baixos. 

Por exemplo: sair de casa. Ao fechar atrás de si a porta, troca um olhar de passagem, no corredor, com a vizinha do 603. D. Lucíola: seu azedume, suas reclamações, suas fofocas. 

Profundamente infeliz, Seu Tomás se arrasta para o elevador, desce. À sua volta tudo poreja pessimismo e hostilidade. Pensa que se o prédio se incendiasse morreria feliz, vendo-o arder. 

Na portaria, Gilson, magrinho, de óculos, atencioso, lhe estende um envelope que acabou de chegar. O mundo se transforma. É o contracheque da aposentadoria, com seis dias de atraso. Seu Tomás o guarda como se fosse a chave do Paraíso, e é o Paraíso que encontra ao chegar à calçada e se misturar aos transeuntes. Bom dia, calçada. Bom dia, banca de revistas. Bom dia, ônibus lotados, carros, barulho, bom dia buzinas, bom dia vitrines e anúncios em néon. 

O Paraíso avança ao seu redor enquanto ele caminha, mas se fende com brutalidade quando ele se aproxima da banca, vê os jornais dependurados lado a lado como lençóis para secar, e vê o caderno de esportes lembrando a derrota da véspera. E ainda mais com uma manchete sarcástica. E o retrato do artilheiro, que passou em branco, com as mãos no rosto. E a notinha apocalíptica sobre a proximidade da zona de rebaixamento. E o rebaixamento do Paraíso a Purgatório, onde nas almas punge a dor da incerteza, uma dor talvez maior, porque em movimento incessante, que a dor da condenação, que pelo menos é a Paz do Nada. 

Uma noite moral se abate sobre o quarteirão. Seu Tomás desiste de ir à padaria, desiste com tal desânimo que se esquece de impedir que as pernas continuem a conduzi-lo. Não quer ir à padaria. Quer voltar para casa. Agora. Não. Quer deitar na calçada, agora. Quer enrodilhar-se como um cão friorento, como uma minhoca atingida, quer fazer como a serpente mitológica que engole a própria cauda até sumir por completo. 

Mas, ai! – as pernas o trouxeram à padaria, e quem está hoje no caixa senão Donana, a negrinha catita? Quando o vê ela abre um sorriso de dentes alvos e batom rubro. “Seu Tomás! Quem é vivo sempre aparece!” Os peitinhos estão ali, sob a blusa branca e engomada, prontos, quem dera, para qualquer eventualidade. Seu Tomás abre um sorriso, abre a carteira, abre um par de asas, faz a parte publicável do seu pedido, volta pra casa sem tocar o chão.