sexta-feira, 13 de agosto de 2010

2319) “A Origem” (13.8.2010)



Este filme de Christopher Nolan está sendo chamado de “Matrix do Século 21” (não esqueçamos que o Matrix que abriu a trilogia é de 1999), e com razão. Bastante parecido, e diferentíssimo. Nolan é famoso hoje pelos seus dois filmes de Batman (Batman begins, 2005, 150 milhões de dólares; Batman, o Cavaleiro das Trevas, 2008, 185 milhões) mas pra mim ele é acima de tudo o cara que fez dois filmes personalíssimos: Amnésia (2000, 5 milhões), aquela história de crime contada de trás para diante, e O Grande Truque (2006, 40 milhões), a peleja entre dois mágicos na Inglaterra vitoriana, adaptando um romance de Christopher Priest. A Origem (“Inception”) é um filme de 160 milhões de dólares e de certo modo tenta fazer a ponte entre os filmes de ação e os filmes-cabeça do diretor. Estou citando esses orçamentos porque são números essenciais para definir um gênero. Até que ponto é possível (nos EUA) fazer um filme de ação bem sucedido com 5 milhões de dólares? Até que ponto é possível fazer um filme-cabeça bem sucedido com 160 milhões?

É nessa corda-bamba que se equilibra Nolan, um diretor que tem ambições mentais, quer contar histórias complexas, quer tocar em questões metafísicas através de enredos de ficção científica, e de fato se beneficiou em parte do sucesso de filmes como Matrix para poder alavancar (este verbo tão hollywoodiano) projetos como Origem. Como o filme entrou recentemente em cartaz, não discutirei em detalhe o roteiro, que tem as previsíveis surpresas e reviravoltas do gênero. Mas comentarei um aspecto dessa fusão de dois gêneros (ação e cabeça).

Não se trata de uma fusão, mas de uma colagem. Nolan bolou um enredo sobre pessoas capazes de penetrar nos sonhos das outras e viver lá dentro como se fosse uma realidade virtual a mais. Isto daria um ótimo thriller psicológico – vejam que não estou reivindicando nada do tipo Alain Resnais ou David Lynch. Pra mim, thriller psicológico tá de bom tamanho, é uma fórmula que pode resultar num ótimo filme. Como chegar a essa fórmula? Muito simples: tirando as cenas de ação, e o filme não perderia nada. Não perderia nada sem: 1) a perseguição a DiCaprio através da feira livre de um país oriental; 2) as duas perseguições à van onde os “ladrões de sonhos” fogem pela cidade, van que é atingida por cerca de 500 balas de alto calibre e só um cara é ferido; 3) o cerco e assalto à fortaleza na neve, que um crítico ironicamente chamou de “o momento Estação Polar Zebra do filme”. Para mostrar que não tenho nada contra cenas de ação, eu deixaria toda a sequência inicial, e depois toda a sequência em gravidade zero no hotel de luxo (tem que ver o filme para entender do que se trata). Os intermináveis, explosivos e ruidosos trechos de ação estão aí para fazer com que 2/3 da platéia assistam o restante do filme. Origem é como aqueles filmes-cabeça de Robbe-Grillet, cheios de cenas de sexo, sem as quais não seriam financiados, exibidos ou vistos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

2318) Drummond: “Toada do amor” (12.8.2010)



Os poemas de amor de Alguma Poesia (cujos 80 anos de publicação o Brasil está comemorando, ou melhor, os 8,12% do Brasil que leem poesia) parecem hoje meio bobinhos, meio dejavi, certamente porque antes de lê-los no livro de 1930 tomamos conhecimento das diluições que sofreram nos anos 1980. E olha que o amor nem foi o território em que Drummond, ao estrear em livro, produziu maiores abalos sísmicos, pelo menos comparado à constatação existencialista “avant la lettre” da vacuidade de sentido prévio à presença humana sobre a Terra (“No meio do caminho”). “Toada do amor” (que já no título questiona obliquamente, plebeiamente, a noção de “canções de amor”) é um poeminha singularmente banal e incomodamente irredutível a explicações. Reduzamo-lo.

Começa assim: “E o amor sempre nessa toada: / briga perdoa perdoa briga”. Essa repetição invertida é uma das figuras retóricas preferidas de Drummond. Exprime aquela notória rotina de todos os namorados presos aos nós das relações em que se concede a “A” o direito do questionamento e a “B” o dever da explicação, e vice-versa. Nunca se sai do lugar, porque o assunto em si nunca importa. Importa o exercício do Poder da Briga para poder exercer o Poder do Perdão.

“Não se deve xingar a vida”, aconselha o poeta; “a gente vive, depois esquece. / Só o amor volta para brigar, / para perdoar, / amor cachorro bandido trem”. Eis uma estrofe que começa bem e termina num rébus. Só me resta tentar interpretá-la literalmente. Cachorro: a gente o enxota a pontapés e ele volta fiel, de língua de fora. Bandido: a gente não pode confiar em nenhum trato, nenhuma jura. Trem: tudo bem, a gente perde um, daqui a pouco vem outro.

“Mas se não fosse ele, também / que graça que a vida tinha?” Ouso afirmar que nenhum Parnasiano ou Simbolista fez essa pergunta, mesmo deixando de lado a linguagem de flanelinha-de-estacionamento-de-show. Para os ânteros, o Amor era uma maiúscula inquestionável. Quase um imperativo categórico. Os Modernistas são mais jovens, mais leves com a bola nos pés, mais dispostos a driblar (e consequentemente a serem driblados sem perder a esportiva). Que coisa boa, esse tal de amor! O problema é que acaba logo, mas o camarada vai fazer o que? Suicidar-se com absinto, com láudano, com garrucha de dois canos?

Não, amigos. O Modernismo fez um acordo com o Amor. É a coisa mais-maior da humanidade, tudo bem, mas só é infinito enquanto dura. Ninguém precisa perder a gravata nem penhorar o sobrenome da família. O amor é um fenômeno, digamos, meteorológico, produzido pela Natureza, mas que ao fim e ao cabo deixa-a intacta no essencial. É preciso amar, e por isto mesmo não se pode atribuir a cada Amor um sentença de vida e morte. “Mariquita, dá cá o pito / no teu pito está o infinito”. O que é o pito? Não sei, e do ponto de vista retórico é bom que não o saibamos, porque cada um continuará a procurá-lo, Santo Graal inesgotável das terras do Sem-Fim.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

2317) O aleatório controlado (11.8.2010)



Ter que escrever todos os dias é um excelente exercício para os músculos da inspiração, os quais, tais como os músculos da respiração (diafragma, etc.) tanto podem funcionar de modo automático quanto de modo deliberado. Assunto nunca falta. Quando parece estar faltando, basta-me olhar para a parede da esquerda e estender a mão para a estante de livros à minha direita, pegar um livro ao acaso, abrir ao acaso, e naquela página encontrar o “assunto para a coluna de hoje”. Estou usando a palavra Acaso de maneira distorcida, porque não se trata de um Acaso total, e sim do que eu chamo “o aleatório controlado”.

Por que motivo eu não encontraria, nessa página apanhada às cegas, um assunto que me motivasse a escrever? O livro foi apanhado às cegas mas não foi comprado às cegas, foi fruto de uma escolha no ato de adquirir e de outra escolha no ato de mantê-lo na estante (porque são muitos os chamados, e poucos os escolhidos). Se está aqui ao alcance de mão é porque fala de algo que me interessa, e sendo assim seria eu muito burro se não conseguisse encontrar, num livro que me interessa, algo que valha a pena ser discutido publicamente. Algo como “Técnicas Artesanais Para Filtrar Processos Randômicos de Direcionamento de Discussões Intelectuais”.

Houve um tempo em que eu acordava, ligava o computador, e pensava: “Vou escrever a coluna de hoje em torno de algum assunto que venha na minha caixa de emails”. Bingo! Nesses dias, por uma mágica subjetiva, me aparecia não apenas um, mas três ou quatro assuntos bons de desenvolver. Alguns eram aleatórios: spams, circulares, propaganda, coisas que foram mandadas para mim sem estarem sendo mandadas para mim especificamente. Outros eram coisas encomendadas por mim, mas sem poder prever nem o conteúdo nem o momento em que chegariam às minhas mãos: newsletters de saites e de publicações sobre assuntos que me interessam (ciência, literatura, poesia, cinema, FC e por aí vai). Um belo dia abro a caixa e lá está um email da revista Edge discutindo os recentes aspectos científicos do conceito de Moral e Ética. Só está lá porque eu cliquei num botão, meses atrás, dizendo que estava interessado em qualquer coisa que essa revista viesse a discutir.

O primeiro exemplo é o aleatório puro; o segundo é o aleatório controlado. Podemos controlar o que nos chega por Acaso se escolhermos uma fonte de estímulos aleatórios. É como ligar o rádio para ouvir músicas. Não podemos escolher as músicas uma por uma, elas nos vêm de acordo com a vontade do programador. Mas eu sei que se ligar na rádio A tenho mais probabilidade de ouvir rock, e se ligar na rádio B provavelmente vou ouvir MPB. Fechamos um pouco o leque de opções, mas ainda deixando-o suficientemente aberto para saber que o resultado, impossível de prever de forma específica, ainda assim estará dentro de uma faixa de controle e escolha da nossa parte.

domingo, 8 de agosto de 2010

2315) Darcy e Feynman (8.8.2010)





Reparei um dia destes que nesta coluna vivo a falar elogiosamente de Richard Feynman, dizendo que é um dos sujeitos mais inteligentes que já vi. Não retiro uma vírgula, mas acho engraçado que eu nunca tenha me dado o trabalho de dizer o mesmo sobre um cara que mora metaforicamente aqui na esquina. 

Darcy Ribeiro, sob muitos aspectos, é o Feynman brasileiro. Fãs de um e fãs do outro hão de erguer agora, respectivamente, a sobrancelha esquerda e a direita, diante desta leve heresia. Não pode haver uma dupla de cidadãos mais dessemelhantes. 

Darcy era mineiro, foi simpatizante do comunismo, estudou etnologia, viveu dez anos entre os índios, tornou-se educador, fundou a Universidade de Brasília, viveu no exílio, foi vice-governador do Estado do Rio. 

Feynman era um norte-americano, filhos de judeus de ascendência polaca; trabalhou em pesquisas de energia atômica, ganhou um Prêmio Nobel de Física. O que têm em comum?

Basta ver as imagens dos dois falando (vocês pensam que o YouTube só serve pra ouvir música?) que qualquer pessoa percebe. Feynman e Darcy eram dois faladores compulsivos, incessantes. Alguém disse uma vez que para conseguir uma entrevista completa com Darcy bastava dizer: “Boa tarde, professor Darcy”, e ele começava: “Boa tarde, aliás uma belíssima tarde, típica da civilização tropical que o Brasil está construindo para o terceiro milênio, porque o choque das raças ocorrido neste território...”, e ia embora numa banguela de uma hora e meia. 

Darcy falava rápido como uma metralhadora; Feynman mais lentamente, mas talvez seja porque as imagens dele a que temos acesso já são dos seus últimos dez anos, durante sua queda-de-braço final contra o câncer. Mas, mais do que falar, ambos eram sujeitos ligados o tempo todo. Pense em dois cérebros com todas as luzes acesas! 

Darcy e Feynman são a prova viva, por exclusão, da teoria de Colin Wilson de que nós, seres humanos, somos todos zumbis, passamos a vida quase toda no piloto automático.

Senso de humor é outra característica dos dois. Não o senso de humor blasé e egoísta tão em moda nos nossos círculos pseudo-intelectuais, mas um senso de humor de quem se diverte com a estupidez humana sem deixar de se comover com o destino humano. E sem perder o afeto pelos humanos à sua volta, principalmente se forem só humanos, sem títulos, cargos ou posses.

Outro traço em comum: eram questionadores inveterados, indivíduos que nunca tiveram papas na língua, nem medo de contradizer, desafiar ou desmentir qualquer autoridade, por maior que fosse, que tivesse a infelicidade de dizer uma bobagem na sua frente. E o faziam com um sorriso divertido no rosto, sem rancor, sem agressividade, usando apenas a maior arma do intelecto: a verdade dos fatos. 

Usando apenas isto, incomodaram muita gente, enfrentaram tempestades administrativas e políticas, pagaram caro muitas vezes pela sua honestidade intelectual, e fizeram um enorme bem aos países onde atuaram.





sábado, 7 de agosto de 2010

2314) O certo e o errado (7.8.2010)



O fato de que “2 + 2 = 4” exprime a tendência da Natureza a apresentar padrões e relações invariáveis. As quantidades são objetivas; o número é subjetivo. É a mente humana quem cria esse signo em comum entre dois pássaros, duas palavras ou dois dias. O número é uma abstração para ordenar coisas concretas. Quando começamos a conceber níveis mais rarefeitos, como a raiz de menos 2, é que entramos no terreno dos números que não pertencem à Natureza, mas apenas à Cultura. Números que já são mera linguagem, não exprimem coisas. É como a passagem da pintura figurativa para a pintura abstrata.

Já o Bem e o Mal, o Certo e o Errado... Jorge Luís Borges contou um episódio que ilustra bem este conceitos tão elusivos. Num clube chique de Buenos Aires um homem, numa noite de jogatina, perdeu tudo quanto tinha. No dia seguinte, recusou-se a pagar a dívida, alegando que não podia jogar a família na miséria por causa de uma noite de loucura. Borges comenta com sarcasmo a reação horrorizada dos outros cavalheiros portenhos, que passaram a tratar esse indivíduo “como se fosse um leproso”. Para eles, a palavra dada e o compromisso assumido num contexto entre “gentlemen” eram mais importantes do que o destino da pobre família, porque “não observar as dívidas de honra seria cair no anarquismo”.

Existe uma certa lógica no comportamento desses cavalheiros, se quisermos levar em conta apenas as relações matemáticas envolvidas na questão. Um jogo envolve sempre uma disputa entre habilidades matemáticas em que, como se trata de um processo quantitativo, é sempre possível refinar os números até alcançar um desempate. Se os amigos de Borges jogavam roleta, estão disputando a capacidade de prever o comportamento de um elemento aleatório. Se jogavam baralho, estão disputando quem é capaz de realizar combinações mais bem sucedidas com elementos (as cartas) recebidos aleatoriamente. A fascinação matemática que tais atividades despertam em pessoas com esse tipo de mentalidade é enorme. Tão enorme que em muitos momentos deixam em segundo plano coisa como família, filhos, posses, etc.

O Bem e o Mal não são leis da natureza, são construções artificiais inventadas pelos seres humanos. Mas acabaram se revelando úteis, tão úteis quanto os números. O Bem e o Mal não existem num mundo sem seres humanos. Fomos nós que criamos esses conceitos, como criamos os conceitos de Norte e Sul como direções. (Eles existiam apenas como polos magnéticos da Terra; usá-los para orientar-se é criação humana, é Cultura).

O que é mais importante, honrar uma dívida de jogo e mandar a própria família para a miséria, ou dizer “não pago, e pronto”? A resposta a um problema como este define duas formas de cultura bem diferentes. Não chegarei ao ponto de dizer que uma está certa e a outra errada, porque se aderirmos cegamente a qualquer uma das duas vamos ter problemas. Mas são um Norte e um Sul, para quem quiser ver.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

2313) O estilo de Saramago (6.8.2010)



Nunca terminei nenhum dos romances de José Saramago, embora ache excelentes todos os que li até a metade. Sou um leitor indisciplinado e descontínuo. Prosa mais elaborada me cativa mas me desnorteia. Me força a passar às vezes um dia inteiro lendo e relendo uma página, atrapalhado mas sabendo o quanto aquilo me traz de lucro intelectual e prazer estético. Ótimo – mas é um ritmo de leitura arriscado para enfrentar um romance de 300 páginas. Quando abandono um desses livros não é por estar pensando “ah, que saco, que livro chato, estou perdendo meu tempo”. É com a sensação de que ele me exige um esforço intelectual que não estou em condições de empreender no momento. Melhor interromper a leitura, devolver o livro à estante e pegar, na pilha de “leituras obrigatórias” (ou na de “aquisições recentes”, ou na de “referências necessárias para um trabalho em andamento”, ou na de “releituras de obras lidas na imaturidade”, etc.) algo que flua mais depressa, que possa ser lido no metrô, no aeroporto e na fila do Banco.

Não consigo ler Saramago ou Osman Lins ou Nabokov na fila do Banco, mas consigo ler Roberto Bolaño ou Philip K. Dick ou Isaac Bashevis Singer, que considero tão bons quanto os anteriores, e cuja leitura flui sem se deixar perturbar pelo barulho em volta. Isto coloca de maneira útil a velhíssima e equivocada questão de que escritor bom tem que ser difícil, e que se um escritor é difícil é porque é bom, e se é fácil então certamente deve ser ruim. Jorge Amado (exemplo de escritor que tem coisas muito boas e coisas muito fracas) é sempre fluente, independentemente da qualidade. O que há é que a leitura fluente é aquela em que não precisamos de muito esforço para pegar de volta uma leitura interrompida uma semana ou um mês atrás (o que comigo é muito frequente). Pego o livro que larguei na página 245, volto uma ou duas para me situar, e daí em diante é como se tivesse parado de ler na véspera.

Outros autores não permitem isso. Se o fazemos é ao preço de perder muito do que têm de bom para nos dar. Alguns autores exigem, seja pela densidade da linguagem, seja pela complexidade do enredo, que no momento da leitura tenhamos vívidos na memória centenas de elementos recém-referidos, no parágrafo anterior, na página anterior, no capítulo anterior. Existe uma acústica de ressonâncias que, numa leitura muito interrompida, acabamos sem perceber. Alusões que nos fazem “cair a ficha” se lembramos de algo dito cinco páginas atrás; se já esquecemos (porque a página foi lida na semana anterior), a ficha cai no vácuo.

Voltando a Saramago: o momento do que ele narra é sempre muito nítido, muito visualmente realista e concreto, mas seus enredos gostam de um labirinto. E sua pontuação (de que ele tanto se orgulhava, com motivos) é um irritante cacoete para alguns leitores, que simplesmente não conseguem assimilá-la. Há leitores para quem uma interferência nesse aspecto estraga qualquer prazer.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

2312) “Casanova e a Revolução” (5.8.2010)




Há um subgrupo da ficção histórica que eu chamaria de “Encontros Meta-Históricos”, narrativas em que o autor imagina um possível encontro (que não aconteceu na vida real) entre personagens históricos que foram contemporâneos uns dos outros e que, teoricamente, poderiam ter se cruzado nesta ou naquela circunstância. O que teria resultado desse encontro? 

O primeiro texto desse gênero que me chamou a atenção foi a peça Travesties de Tom Stoppard, que imagina o que aconteceria se se encontrassem em Zurique três indivíduos que viveram lá na mesma época: Vladimir Lênin, James Joyce e Tristan Tzara.

Casanova e a Revolução é um filme de Ettore Scola (1982) que postula um encontro parecido. O escritor e conquistador Giacomo Casanova, o escritor, polemista e pornógrafo Rétif de la Bretonne e o revolucionário norte-americano Thomas Paine viajam na mesma estrada por onde Luís XVI e Maria Antonieta fogem incógnitos de Paris. 

O casal real quer se reunir às tropas anti-revolucionárias prestes a invadir a França para botar a casa em ordem, ou seja, botar o Absolutismo de volta no trono. 

Este episódio ficou conhecido como “A Noite de Varennes”, porque foi nessa cidadezinha que o Rei foi reconhecido, preso e recambiado até Paris e, depois, a guilhotina. E tudo que ocorre em volta, na França conturbada pós-Revolução, é visto e comentado por aqueles três personagens, em seu encontro fictício, improvável mas não impossível. 

O melhor do filme é Marcello Mastroianni. Velho e decrépito, ele faz o papel de Casanova velho e decrépito. E mostra que velhice e decrepitude não necessariamente cancelam a inteligência e o charme de um indivíduo.

O filme é um “road movie” setecentista, o que parece uma contradição em termos, porque quando falamos em “road movies” pensamos em Dennis Hopper, em Wim Wenders, em cineastas beatniks, em andarilhos hippies. Mas estrada é sempre estrada, e a estrada no cinema serve para o mesmo fim, seja ela percorrida por motos ou por carruagens. 

Temos um bloco fixo de personagens que conversam o tempo todo, e enquanto isso a estrada vai passando, o mundo os visita, o país em que estão os cumula de surpresas. Os viajantes veem-se a cada passo desafiados pelos imprevistos do caminho e se safam como podem. 

Uma crítica que li sobre este filme de Ettore Scola reclama que há muita conversa e pouca ação; curiosamente isto me trouxe à mente os romances do século 18, que são exatamente isto. Os romances de Voltaire, Sterne, Diderot, Fielding (e os de Casanova e Rétif de la Bretonne) são romances picarescos em que acontecem relativamente poucas coisas, comparadas às quilométricas discussões filosóficas dos protagonistas. 

Scola dá ao seu filme esse espírito de época, mais difícil de captar e de realizar do que um simples figurino ou cenografia de época. É uma história feita ao perfil do seu tempo, e ao perfil da obra dos escritores que são seus protagonistas.






quarta-feira, 4 de agosto de 2010

2311) A palavra andróide (4.8.2010)



A palavra “andróide” se incorporou ao nosso vocabulário através da ficção científica e da também do noticiário científico. Andróide é um ser artificial que, ao contrário do robô (que é metálico, e apenas imita vagamente a forma humana) é feito de circuitos eletrônicos recobertos com algum tipo de material orgânico ou sintético que o torna parecido a uma pessoa, a ponto de poder ser confundido. O exemplo mais conhecido são os andróides do filme Blade Runner. Na verdade, deveríamos usar dois termos, andróides e ginóides, para designar respectivamente as criaturas com aparência masculina e feminina. Mas isto é a típica reclamação de filólogo. Seria demais esperar que o pessoal da área tecnológica se preocupasse com esse tipo de detalhe.

A primeira menção oficial da palavra, ao que se diz, aparece numa patente para um “Autômato de Brinquedo”, registrada em 1863 em nome de um certo J. S. Brown, do Distrito de Colúmbia, inventor de “um novo e aperfeiçoado (tipo de) autômato de brinquedo ou boneco andróide”. Isto aconteceu quase um século antes de Philip K. Dick escrever Do Androids Dream of Electric Sheep? (“Será que os Andróides sonham com carneiros elétricos?”), o livro que deu origem a Blade Runner, escrito em 1966 e publicado em 1968.

Note-se que usamos também termos como “antropóide”, para designar, de preferência, animais que têm traços semelhantes ao do homem, principalmente macacos e primatas em geral; e também “humanóide”, muito usado na FC para indicar raças extra-terrestres que evoluíram, por conta própria, de maneira semelhante à nossa e que por isso têm aparência física semelhante à nossa.

Não é improvável que venhamos a produzir andróides capazes de, em certa medida, não apenas substituir seres humano, mas até de serem confundidos com eles. Isto pode se dar através do nosso avanço em algumas áreas principais:

1) Robótica. Estamos avançando bastante na produção de estruturas mecânicas de todo tipo, capazes de simular o movimento humano; essas estruturas podem ser no futuro acopladas a um conjunto artificial de órgãos, tecidos, sistema nervoso, etc. 2) Informática e Inteligência Artificial. Desenvolvimento de chips, processadores, circuitos integrados cada vez menores criando redes cada vez mais complexas; e os softwares embutidos para fazer com que tudo isso seja capaz de ter cinco sentidos (ou apenas os mais urgentes: visão, audição, tato), de se comunicar, exercer tarefas, tomar decisões simples. 3) Células-Tronco. Se as células-tronco, que só agora começam a ser exploradas a sério, servirem realmente para reconstituir medulas e órgãos danificados, não demorará muito a produção de órgãos, nervos, neurônios, músculos, etc., que possam ser acoplados. 4) Tele-ensino através de TV, games de treinamento, emissões de rádio, download de programas e “dicionários”, que possibilitarão ao andróide um armazenamento maior e processamento de informações mais rápido do que os nossos.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

2310) O caba bêbo (3.8.2010)



O bom do caba bêbo é que tudo é possível. Não tou dizendo que o caba bêbo consegue realizar qualquer coisa. “Fôra, fazê-lo, assaz temerário”. Mas ele acha que pode! Esta iluminação mística o assalta até no mictório do bar, quando tenta achar botões onde só existe um fechicler. Pouco importa! O bêbo sente-se potencializado mentalmente, capaz de ascender píncaros, de sobrevoar nebulosas, de correr para a marca do pênalte e fazer o gol de letra e com cavadinha, aos 48 do 2o. tempo da decisão da Copa. Direis agora: “Tresloucado amigo! Vai dormir que teu mal é sono!...” Não, não é. Engana-se quem pensa que pálpebras pesadonas são curva descendente. É que a cabeça do bêbo está passando-marcha em todo o seu poder de processamento, o uso de CPU está esbarrando no ridículo limite de 100%, ele está alçando voos, seu nome nesse momento é Zunindo Vertiginoso, ele acaba de colapsar em soluções cristalinas problemas milenares como a quadratura do círculo, o sorriso da Gioconda, a morte de Lee Oswald, o teorema de Fermat, o final de “Blow Up”, a constante de Eddington... O caba bêbo acessa vislumbres. Usa cordilheiras como trampolim. Magnifica os quarks do universo até ver neles universos tão mais complexos quanto mais cantábiles. Ninguém o subvenciona, mas ele raciocina, impertérrito, como se cada sinapse levada a cabo lhe rendesse 0,10 centavos como ocorre na TV interativa. Pensem na prodigiosa força geratriz que o Brasil está perdendo, um Itaipu de neurônios trovejando comportas - para a bruma, através da bruma, rumo ao coisíssima nenhuma!... Onde estão as autoridades competentes que não concedem ao bêbo uma Bolsa para simplesmente pensar, e só pensar? Pensam que pensar é fácil? Antes fosse! Pensar implica compromissos, implica em deixar de frequentar festas, deixar de ir a estréias e a lançamentos apenas para ficar puxando aros metálicos de cerveja, escutando aquele espirro gelado, e cumprindo o antiquíssimo ritual que já tinha lugar nos círculos de Stonehenge ou em outros oratórios místicos onde os avatares promoviam luaus esotéricos em que todo mundo tinha direito a pensar durante uma noite inteira, desde que na manhã seguinte não fizesse muita questão de lembrar do que tinha acontecido e retornasse para suas casas tirando a grama do cabelo e dizendo à família que tinha perdido o último ônibus e fora forçado a dormir num estábulo de uma fazenda cuja proprietária, lampião em punho, lhe indicara o proverbial monte de feno dos filmes de faroeste, só que junto a ele encontrava-se outro monte de feno proverbial, o dos romances-sem-capa do século 19, sobre o qual estava deitada uma aldeã com o rosto e os atributos secundários de uma atriz de Hollywood cujo nome será melhor omitir. O mundo do bêbo é assim, compatriotas: uma cebola à qual é adicionada uma nova camada a cada novo pensamento concebido, e onde tudo colapsa numa revelação sobrenatural: não são botões, idiota, é um fechicler. Zzzzzzip! Ufa.

domingo, 1 de agosto de 2010

2309) Notas de um mendigo taciturno (1.8.2010)




“Nasci em berço dourado, de sangue antigo e sobrenome nobre. Desde pequeno meus preceptores me transmitiram o senso das grandes responsabilidades que pesavam sobre mim, e dos vastos horizontes à minha espera. Estudei, preparei-me, viajei pelo mundo para adquirir experiências e forjar amizades. Meus múltiplos talentos e minha personalidade forte impressionavam todos que entravam em contato comigo, e previa-se um grande futuro meu à frente do conglomerado de empresas da minha família, do qual eu era herdeiro inevitável.

“O que ninguém sabia era que minha condição de filho único produzira em mim, desde a infância, uma fantasia inofensiva que com o correr dos anos se cristalizou em certeza. Imaginei que em algum lugar do mundo eu tinha um irmão gêmeo, um menino com minha idade, meu nome e meu rosto, cuja vida seguia paralela à minha mas era seu reflexo invertido. Se eu morava numa mansão, ele morava num pardieiro; se eu desfrutava de lautas refeições e envergava trajes refinados, ele vestia andrajos e comia sobejos; se eu desfrutava de estudos e lazeres, ele mourejava noite e dia, ainda menino, em trabalhos embrutecedores. Éramos o oposto simétrico um do outro, e a partir de uma certa idade era-me impossível ter o prazer mais banal sem que me viesse à mente que o outro estaria não só sendo privado daquilo como talvez experimentando uma dor igualmente intensa.

“Uma noite, quando tive febre e acessos de asma, uma idéia estranha me veio à mente: a de que, enquanto eu tentava sorver grandes haustos de ar, meu outro estava em sua esteira incômoda, respirando em paz. E, de tanto imaginar e tentar imitar o modo como ele respirava, pela primeira vez em várias noites pude adormecer. Deliberei então que dali em diante tentaria equilibrar nossa mútua condição. Passei a me privar de prazeres da mesa, do conforto doméstico. Os hábitos espartanos que adotei causaram surpresa, mas foram aprovados pelo meu pai, homem rigoroso e disciplinador. A cada vez que eu madrugava no inverno para um banho frio, imaginava o outro, dormindo aconchegado em seu cobertor.

“O que dizer? Cheguei assim à idade adulta, desfazendo-me de tudo quanto herdara. Minha mãe, depois de viúva, deixou-se morrer de desgosto ao me ver desmontar o império de meu pai (e eu visualizava a mãe do outro, vendo o filho, homem feito, terminar a construção de um casebre para si próprio). Mantive-me celibatário para que ele fosse marido e pai; deixei-me adoecer para que ele tivesse saúde; desci da riqueza para a modéstia, e desta para a penúria, e da penúria para a mendicância. Hoje, velho e tossindo, durmo envolto em jornais para que ele possa desfrutar lençóis de linho e travesseiros de plumas; entrego-me passivamente à doença para que ele possa enfim ter uma velhice feliz. Não me queixo, e na verdade a única inquietação que me assalta às vezes, dormindo nesta calçada, é não saber se ele sabe que existo; e o que pensa de mim.”


(Este conto está incluído no livro Histórias para Lembrar Dormindo, Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2011).