sábado, 7 de agosto de 2010

2314) O certo e o errado (7.8.2010)



O fato de que “2 + 2 = 4” exprime a tendência da Natureza a apresentar padrões e relações invariáveis. As quantidades são objetivas; o número é subjetivo. É a mente humana quem cria esse signo em comum entre dois pássaros, duas palavras ou dois dias. O número é uma abstração para ordenar coisas concretas. Quando começamos a conceber níveis mais rarefeitos, como a raiz de menos 2, é que entramos no terreno dos números que não pertencem à Natureza, mas apenas à Cultura. Números que já são mera linguagem, não exprimem coisas. É como a passagem da pintura figurativa para a pintura abstrata.

Já o Bem e o Mal, o Certo e o Errado... Jorge Luís Borges contou um episódio que ilustra bem este conceitos tão elusivos. Num clube chique de Buenos Aires um homem, numa noite de jogatina, perdeu tudo quanto tinha. No dia seguinte, recusou-se a pagar a dívida, alegando que não podia jogar a família na miséria por causa de uma noite de loucura. Borges comenta com sarcasmo a reação horrorizada dos outros cavalheiros portenhos, que passaram a tratar esse indivíduo “como se fosse um leproso”. Para eles, a palavra dada e o compromisso assumido num contexto entre “gentlemen” eram mais importantes do que o destino da pobre família, porque “não observar as dívidas de honra seria cair no anarquismo”.

Existe uma certa lógica no comportamento desses cavalheiros, se quisermos levar em conta apenas as relações matemáticas envolvidas na questão. Um jogo envolve sempre uma disputa entre habilidades matemáticas em que, como se trata de um processo quantitativo, é sempre possível refinar os números até alcançar um desempate. Se os amigos de Borges jogavam roleta, estão disputando a capacidade de prever o comportamento de um elemento aleatório. Se jogavam baralho, estão disputando quem é capaz de realizar combinações mais bem sucedidas com elementos (as cartas) recebidos aleatoriamente. A fascinação matemática que tais atividades despertam em pessoas com esse tipo de mentalidade é enorme. Tão enorme que em muitos momentos deixam em segundo plano coisa como família, filhos, posses, etc.

O Bem e o Mal não são leis da natureza, são construções artificiais inventadas pelos seres humanos. Mas acabaram se revelando úteis, tão úteis quanto os números. O Bem e o Mal não existem num mundo sem seres humanos. Fomos nós que criamos esses conceitos, como criamos os conceitos de Norte e Sul como direções. (Eles existiam apenas como polos magnéticos da Terra; usá-los para orientar-se é criação humana, é Cultura).

O que é mais importante, honrar uma dívida de jogo e mandar a própria família para a miséria, ou dizer “não pago, e pronto”? A resposta a um problema como este define duas formas de cultura bem diferentes. Não chegarei ao ponto de dizer que uma está certa e a outra errada, porque se aderirmos cegamente a qualquer uma das duas vamos ter problemas. Mas são um Norte e um Sul, para quem quiser ver.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

2313) O estilo de Saramago (6.8.2010)



Nunca terminei nenhum dos romances de José Saramago, embora ache excelentes todos os que li até a metade. Sou um leitor indisciplinado e descontínuo. Prosa mais elaborada me cativa mas me desnorteia. Me força a passar às vezes um dia inteiro lendo e relendo uma página, atrapalhado mas sabendo o quanto aquilo me traz de lucro intelectual e prazer estético. Ótimo – mas é um ritmo de leitura arriscado para enfrentar um romance de 300 páginas. Quando abandono um desses livros não é por estar pensando “ah, que saco, que livro chato, estou perdendo meu tempo”. É com a sensação de que ele me exige um esforço intelectual que não estou em condições de empreender no momento. Melhor interromper a leitura, devolver o livro à estante e pegar, na pilha de “leituras obrigatórias” (ou na de “aquisições recentes”, ou na de “referências necessárias para um trabalho em andamento”, ou na de “releituras de obras lidas na imaturidade”, etc.) algo que flua mais depressa, que possa ser lido no metrô, no aeroporto e na fila do Banco.

Não consigo ler Saramago ou Osman Lins ou Nabokov na fila do Banco, mas consigo ler Roberto Bolaño ou Philip K. Dick ou Isaac Bashevis Singer, que considero tão bons quanto os anteriores, e cuja leitura flui sem se deixar perturbar pelo barulho em volta. Isto coloca de maneira útil a velhíssima e equivocada questão de que escritor bom tem que ser difícil, e que se um escritor é difícil é porque é bom, e se é fácil então certamente deve ser ruim. Jorge Amado (exemplo de escritor que tem coisas muito boas e coisas muito fracas) é sempre fluente, independentemente da qualidade. O que há é que a leitura fluente é aquela em que não precisamos de muito esforço para pegar de volta uma leitura interrompida uma semana ou um mês atrás (o que comigo é muito frequente). Pego o livro que larguei na página 245, volto uma ou duas para me situar, e daí em diante é como se tivesse parado de ler na véspera.

Outros autores não permitem isso. Se o fazemos é ao preço de perder muito do que têm de bom para nos dar. Alguns autores exigem, seja pela densidade da linguagem, seja pela complexidade do enredo, que no momento da leitura tenhamos vívidos na memória centenas de elementos recém-referidos, no parágrafo anterior, na página anterior, no capítulo anterior. Existe uma acústica de ressonâncias que, numa leitura muito interrompida, acabamos sem perceber. Alusões que nos fazem “cair a ficha” se lembramos de algo dito cinco páginas atrás; se já esquecemos (porque a página foi lida na semana anterior), a ficha cai no vácuo.

Voltando a Saramago: o momento do que ele narra é sempre muito nítido, muito visualmente realista e concreto, mas seus enredos gostam de um labirinto. E sua pontuação (de que ele tanto se orgulhava, com motivos) é um irritante cacoete para alguns leitores, que simplesmente não conseguem assimilá-la. Há leitores para quem uma interferência nesse aspecto estraga qualquer prazer.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

2312) “Casanova e a Revolução” (5.8.2010)




Há um subgrupo da ficção histórica que eu chamaria de “Encontros Meta-Históricos”, narrativas em que o autor imagina um possível encontro (que não aconteceu na vida real) entre personagens históricos que foram contemporâneos uns dos outros e que, teoricamente, poderiam ter se cruzado nesta ou naquela circunstância. O que teria resultado desse encontro? 

O primeiro texto desse gênero que me chamou a atenção foi a peça Travesties de Tom Stoppard, que imagina o que aconteceria se se encontrassem em Zurique três indivíduos que viveram lá na mesma época: Vladimir Lênin, James Joyce e Tristan Tzara.

Casanova e a Revolução é um filme de Ettore Scola (1982) que postula um encontro parecido. O escritor e conquistador Giacomo Casanova, o escritor, polemista e pornógrafo Rétif de la Bretonne e o revolucionário norte-americano Thomas Paine viajam na mesma estrada por onde Luís XVI e Maria Antonieta fogem incógnitos de Paris. 

O casal real quer se reunir às tropas anti-revolucionárias prestes a invadir a França para botar a casa em ordem, ou seja, botar o Absolutismo de volta no trono. 

Este episódio ficou conhecido como “A Noite de Varennes”, porque foi nessa cidadezinha que o Rei foi reconhecido, preso e recambiado até Paris e, depois, a guilhotina. E tudo que ocorre em volta, na França conturbada pós-Revolução, é visto e comentado por aqueles três personagens, em seu encontro fictício, improvável mas não impossível. 

O melhor do filme é Marcello Mastroianni. Velho e decrépito, ele faz o papel de Casanova velho e decrépito. E mostra que velhice e decrepitude não necessariamente cancelam a inteligência e o charme de um indivíduo.

O filme é um “road movie” setecentista, o que parece uma contradição em termos, porque quando falamos em “road movies” pensamos em Dennis Hopper, em Wim Wenders, em cineastas beatniks, em andarilhos hippies. Mas estrada é sempre estrada, e a estrada no cinema serve para o mesmo fim, seja ela percorrida por motos ou por carruagens. 

Temos um bloco fixo de personagens que conversam o tempo todo, e enquanto isso a estrada vai passando, o mundo os visita, o país em que estão os cumula de surpresas. Os viajantes veem-se a cada passo desafiados pelos imprevistos do caminho e se safam como podem. 

Uma crítica que li sobre este filme de Ettore Scola reclama que há muita conversa e pouca ação; curiosamente isto me trouxe à mente os romances do século 18, que são exatamente isto. Os romances de Voltaire, Sterne, Diderot, Fielding (e os de Casanova e Rétif de la Bretonne) são romances picarescos em que acontecem relativamente poucas coisas, comparadas às quilométricas discussões filosóficas dos protagonistas. 

Scola dá ao seu filme esse espírito de época, mais difícil de captar e de realizar do que um simples figurino ou cenografia de época. É uma história feita ao perfil do seu tempo, e ao perfil da obra dos escritores que são seus protagonistas.






quarta-feira, 4 de agosto de 2010

2311) A palavra andróide (4.8.2010)



A palavra “andróide” se incorporou ao nosso vocabulário através da ficção científica e da também do noticiário científico. Andróide é um ser artificial que, ao contrário do robô (que é metálico, e apenas imita vagamente a forma humana) é feito de circuitos eletrônicos recobertos com algum tipo de material orgânico ou sintético que o torna parecido a uma pessoa, a ponto de poder ser confundido. O exemplo mais conhecido são os andróides do filme Blade Runner. Na verdade, deveríamos usar dois termos, andróides e ginóides, para designar respectivamente as criaturas com aparência masculina e feminina. Mas isto é a típica reclamação de filólogo. Seria demais esperar que o pessoal da área tecnológica se preocupasse com esse tipo de detalhe.

A primeira menção oficial da palavra, ao que se diz, aparece numa patente para um “Autômato de Brinquedo”, registrada em 1863 em nome de um certo J. S. Brown, do Distrito de Colúmbia, inventor de “um novo e aperfeiçoado (tipo de) autômato de brinquedo ou boneco andróide”. Isto aconteceu quase um século antes de Philip K. Dick escrever Do Androids Dream of Electric Sheep? (“Será que os Andróides sonham com carneiros elétricos?”), o livro que deu origem a Blade Runner, escrito em 1966 e publicado em 1968.

Note-se que usamos também termos como “antropóide”, para designar, de preferência, animais que têm traços semelhantes ao do homem, principalmente macacos e primatas em geral; e também “humanóide”, muito usado na FC para indicar raças extra-terrestres que evoluíram, por conta própria, de maneira semelhante à nossa e que por isso têm aparência física semelhante à nossa.

Não é improvável que venhamos a produzir andróides capazes de, em certa medida, não apenas substituir seres humano, mas até de serem confundidos com eles. Isto pode se dar através do nosso avanço em algumas áreas principais:

1) Robótica. Estamos avançando bastante na produção de estruturas mecânicas de todo tipo, capazes de simular o movimento humano; essas estruturas podem ser no futuro acopladas a um conjunto artificial de órgãos, tecidos, sistema nervoso, etc. 2) Informática e Inteligência Artificial. Desenvolvimento de chips, processadores, circuitos integrados cada vez menores criando redes cada vez mais complexas; e os softwares embutidos para fazer com que tudo isso seja capaz de ter cinco sentidos (ou apenas os mais urgentes: visão, audição, tato), de se comunicar, exercer tarefas, tomar decisões simples. 3) Células-Tronco. Se as células-tronco, que só agora começam a ser exploradas a sério, servirem realmente para reconstituir medulas e órgãos danificados, não demorará muito a produção de órgãos, nervos, neurônios, músculos, etc., que possam ser acoplados. 4) Tele-ensino através de TV, games de treinamento, emissões de rádio, download de programas e “dicionários”, que possibilitarão ao andróide um armazenamento maior e processamento de informações mais rápido do que os nossos.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

2310) O caba bêbo (3.8.2010)



O bom do caba bêbo é que tudo é possível. Não tou dizendo que o caba bêbo consegue realizar qualquer coisa. “Fôra, fazê-lo, assaz temerário”. Mas ele acha que pode! Esta iluminação mística o assalta até no mictório do bar, quando tenta achar botões onde só existe um fechicler. Pouco importa! O bêbo sente-se potencializado mentalmente, capaz de ascender píncaros, de sobrevoar nebulosas, de correr para a marca do pênalte e fazer o gol de letra e com cavadinha, aos 48 do 2o. tempo da decisão da Copa. Direis agora: “Tresloucado amigo! Vai dormir que teu mal é sono!...” Não, não é. Engana-se quem pensa que pálpebras pesadonas são curva descendente. É que a cabeça do bêbo está passando-marcha em todo o seu poder de processamento, o uso de CPU está esbarrando no ridículo limite de 100%, ele está alçando voos, seu nome nesse momento é Zunindo Vertiginoso, ele acaba de colapsar em soluções cristalinas problemas milenares como a quadratura do círculo, o sorriso da Gioconda, a morte de Lee Oswald, o teorema de Fermat, o final de “Blow Up”, a constante de Eddington... O caba bêbo acessa vislumbres. Usa cordilheiras como trampolim. Magnifica os quarks do universo até ver neles universos tão mais complexos quanto mais cantábiles. Ninguém o subvenciona, mas ele raciocina, impertérrito, como se cada sinapse levada a cabo lhe rendesse 0,10 centavos como ocorre na TV interativa. Pensem na prodigiosa força geratriz que o Brasil está perdendo, um Itaipu de neurônios trovejando comportas - para a bruma, através da bruma, rumo ao coisíssima nenhuma!... Onde estão as autoridades competentes que não concedem ao bêbo uma Bolsa para simplesmente pensar, e só pensar? Pensam que pensar é fácil? Antes fosse! Pensar implica compromissos, implica em deixar de frequentar festas, deixar de ir a estréias e a lançamentos apenas para ficar puxando aros metálicos de cerveja, escutando aquele espirro gelado, e cumprindo o antiquíssimo ritual que já tinha lugar nos círculos de Stonehenge ou em outros oratórios místicos onde os avatares promoviam luaus esotéricos em que todo mundo tinha direito a pensar durante uma noite inteira, desde que na manhã seguinte não fizesse muita questão de lembrar do que tinha acontecido e retornasse para suas casas tirando a grama do cabelo e dizendo à família que tinha perdido o último ônibus e fora forçado a dormir num estábulo de uma fazenda cuja proprietária, lampião em punho, lhe indicara o proverbial monte de feno dos filmes de faroeste, só que junto a ele encontrava-se outro monte de feno proverbial, o dos romances-sem-capa do século 19, sobre o qual estava deitada uma aldeã com o rosto e os atributos secundários de uma atriz de Hollywood cujo nome será melhor omitir. O mundo do bêbo é assim, compatriotas: uma cebola à qual é adicionada uma nova camada a cada novo pensamento concebido, e onde tudo colapsa numa revelação sobrenatural: não são botões, idiota, é um fechicler. Zzzzzzip! Ufa.

domingo, 1 de agosto de 2010

2309) Notas de um mendigo taciturno (1.8.2010)




“Nasci em berço dourado, de sangue antigo e sobrenome nobre. Desde pequeno meus preceptores me transmitiram o senso das grandes responsabilidades que pesavam sobre mim, e dos vastos horizontes à minha espera. Estudei, preparei-me, viajei pelo mundo para adquirir experiências e forjar amizades. Meus múltiplos talentos e minha personalidade forte impressionavam todos que entravam em contato comigo, e previa-se um grande futuro meu à frente do conglomerado de empresas da minha família, do qual eu era herdeiro inevitável.

“O que ninguém sabia era que minha condição de filho único produzira em mim, desde a infância, uma fantasia inofensiva que com o correr dos anos se cristalizou em certeza. Imaginei que em algum lugar do mundo eu tinha um irmão gêmeo, um menino com minha idade, meu nome e meu rosto, cuja vida seguia paralela à minha mas era seu reflexo invertido. Se eu morava numa mansão, ele morava num pardieiro; se eu desfrutava de lautas refeições e envergava trajes refinados, ele vestia andrajos e comia sobejos; se eu desfrutava de estudos e lazeres, ele mourejava noite e dia, ainda menino, em trabalhos embrutecedores. Éramos o oposto simétrico um do outro, e a partir de uma certa idade era-me impossível ter o prazer mais banal sem que me viesse à mente que o outro estaria não só sendo privado daquilo como talvez experimentando uma dor igualmente intensa.

“Uma noite, quando tive febre e acessos de asma, uma idéia estranha me veio à mente: a de que, enquanto eu tentava sorver grandes haustos de ar, meu outro estava em sua esteira incômoda, respirando em paz. E, de tanto imaginar e tentar imitar o modo como ele respirava, pela primeira vez em várias noites pude adormecer. Deliberei então que dali em diante tentaria equilibrar nossa mútua condição. Passei a me privar de prazeres da mesa, do conforto doméstico. Os hábitos espartanos que adotei causaram surpresa, mas foram aprovados pelo meu pai, homem rigoroso e disciplinador. A cada vez que eu madrugava no inverno para um banho frio, imaginava o outro, dormindo aconchegado em seu cobertor.

“O que dizer? Cheguei assim à idade adulta, desfazendo-me de tudo quanto herdara. Minha mãe, depois de viúva, deixou-se morrer de desgosto ao me ver desmontar o império de meu pai (e eu visualizava a mãe do outro, vendo o filho, homem feito, terminar a construção de um casebre para si próprio). Mantive-me celibatário para que ele fosse marido e pai; deixei-me adoecer para que ele tivesse saúde; desci da riqueza para a modéstia, e desta para a penúria, e da penúria para a mendicância. Hoje, velho e tossindo, durmo envolto em jornais para que ele possa desfrutar lençóis de linho e travesseiros de plumas; entrego-me passivamente à doença para que ele possa enfim ter uma velhice feliz. Não me queixo, e na verdade a única inquietação que me assalta às vezes, dormindo nesta calçada, é não saber se ele sabe que existo; e o que pensa de mim.”


(Este conto está incluído no livro Histórias para Lembrar Dormindo, Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2011).




sábado, 31 de julho de 2010

2308) Drummond: “Também já fui brasileiro” (31.7.2010)



(Mário de Andrade, por Lasar Segall, 1927)

Depois do grito-do-ipiranga literário que foi o Modernismo de 1922 este poema de Drummond (em Alguma Poesia, que comemora 80 anos de publicação) talvez seja o sinal de um refluxo cauteloso do entusiasmo inicial do movimento, ou quem sabe (deixo isto aos historiadores das idéias) não passe de uma meia-trava oriunda do próprio espírito desconfiado do poeta, cujos arroubos coletivos só o levavam até a esquina. Chegando lá, Drummond deixava o cordão dos entusiasmados seguir seu caminho e voltava para casa vagaroso, de mãos pensas. Quando ele diz que também já foi brasileiro e moreno, isto parece uma despedida precocemente nostálgica de tudo que o Modernismo rasgava às escâncaras: nossa mestiçagem, nossa ginga. Nesse livro, que em muitos aspectos é uma das grandes afirmações do nosso Modernismo, mesmo publicado 8 anos após seu brado inicial, este poema já cria uma problematização dos trunfos que o Modernismo espalhava na mesa.

Um detalhe interessante é o modo como o poeta diz: “Eu também já fui brasileiro / moreno como vocês”. Vocês quem, cara pálida? Os paulistas da Semana de 22, entre eles Mário de Andrade, a quem o livro é dedicado com um laconismo que diz tudo (“A Mário de Andrade, meu amigo”)? “Ponteei viola, guiei forde” parece alusão conjunta a Mário e Oswald; é curioso notar que “forde” é um aportuguesamento de ocasião que não pegou como pegou, por exemplo, “bonde”. A violinha do capiau e o automóvel do dândi eram sintomas do Modernismo; contradizendo-se, o reforçavam. Ambos negavam o inimigo comum, o Parnasianismo de Bilac, que Drummond destrói na segunda estrofe, chamando as estrelas (com uma ironia que lembra alguma “boutades” de Jorge Luís Borges) de “substantivos celestes”.

O poeta afiança que já teve ritmo, “fazia isso, dizia aquilo”, e que “meus amigos me queriam, / meus inimigos me odiavam”. Como é de praxe em toda frente de batalha literária. Em toda a carreira de Drummond, contudo, fases de empolgação e loquacidade por um ideal qualquer são seguidas por fases em que o poeta se recolhe, se melancoliza, queixa-se da dificuldade em dizer as coisas. Em sua poesia, há sempre uma análise de hoje sopesando as dívidas deixadas pelo entusiasmo de ontem. Mesmo nesse momento inicial, um mero menino de 28 anos, o poeta já treina para sisudo, já confessa que perdeu o rebolado: “Hoje não deslizo mais não, / não sou irônico mais não, / não tenho ritmo mais não”. Deslizamento, ironia e ritmo estão presentes justamente nesta negação tripla que nos lembra São Pedro na noite da prisão de Cristo. Apóstolo modernista em crise, Drummond bota sua própria fé na balança e se angustia ao ver como esta mal estremece. Não importa: este momento de dúvida tão bem registrado acaba por dar credibilidade aos outros (muitos) momentos de afirmação modernista no restante do livro. Mas é sintomático que o poeta o tenha colocado logo nas páginas iniciais. Para fazer constar na ata.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

2307) O Ulisses russo (30.7.2010)



Falei aqui, dias atrás, sobre a lista do crítico Joshua Cohen sobre os livros equivalentes ao Ulisses de James Joyce em diferentes países. 

Muitos leitores torcem o nariz para Joyce. Pegaram um romance para ler, e quando abriram a primeira página depararam-se com uma cerca de arame farpado. A cerca era a prosa de Joyce. Cada linha de cada página parece feita de um arame indobrável, e espigada de espinhos dolorosos. Dez palavras desconhecidas por linha, e de nada vale socorrer-se do dicionário, o qual as desconhece também. 

O leitor arremessa o livro contra a parede, danificando a parede. Julga-se ludibriado. Ulisses (junto com o livro posterior, Finnegans Wake) é um dos becos-sem-saída mais notáveis da literatura. Produto de uma época em que a linguagem do romance alcançou liberdades iguais às da poesia. 

Esta, por sinal, é a qualidade mais elogiada no livro que Cohen considera “o Ulisses russo” – Petersburgo, de Andrei Biely, publicado em 1913. Cohen assim o resume: 

“O romance de Biely é uma bomba-relógio contando a história de uma bomba-relógio. Um jovem revolucionário, Nikolai Apollonovich, recebe a ordem de assassinar seu próprio pai, Apollon Apollonovich (um importante funcionário do Czar) colocando uma bomba em seu escritório. Começa aí uma corrida contra o relógio que dura 24 horas, enquanto Biely, um mestre do Simbolismo russo, nos faz ouvir a voz de São Petersburgo, desde a algaravia dos camponeses até o blá-blá-blá dos intelectuais”. 

O livro de Biely é anterior ao de Joyce, que só começou a ser publicado (serializado na Little Review) em 1918. Mais do que causa ou influência, predomina aí o espírito experimentalista do tempo. Um dos grandes movimentos nesse sentido ocorreu justamente na Rússia, com a poesia de Khliébnikov, Maiakóvski e outros. 

O fato de ambos os romances descreverem 24 horas na vida de um indivíduo e de uma cidade é típico da literatura urbana européia na segunda metade do século 19, quando as cidades tornaram-se tão personagens quanto as pessoas. 

Em seu blog Praxis (http://tinyurl.com/3ahkn6j), Duncan Law faz um extenso comentário do livro, e cita um trecho da introdução feita pelos tradutores ao inglês (Robert A. Maguire e John E. Malmstad), que dizem: 

“Troca de categorias gramaticais, ataques à sintaxe convencional, estranhas, (ou “impossíveis” para alguns) combinações de palavras, súbitas compressões e elipses, manipulação de sons e da semântica – destas e de outras maneiras Biely cria uma textura verbal altamente idiossincrática, que oferece surpresas constante ao leitor russo, deliciando os aventurosos e horrorizando os conservadores”. 

Descrição que caberia em Joyce e caberia em todos os gigantescos Romances Urbano-Mitológicos da Linguagem, dos quais Ulisses é o mais famoso. (Duncan Law, aliás, considera medíocre a outra tradução inglesa, feita por David McDuff, porque feita a partir de uma versão mais longa e menos modernista do romance).








quinta-feira, 29 de julho de 2010

2306) “O Olho do Diabo”(29.7.2010)



Ingmar Bergman é um dos grandes realistas do cinema, mas seus filmes fantásticos também são notáveis, entre outras coisas porque, como todo grande realista, quando ele conta histórias fantásticas sabe dar-lhes espessura realística, o que torna o fantástico também mais espesso. É o caso de um dos seus filmes mais famosos, O Sétimo Selo, em que um cavaleiro medieval joga xadrez com a Morte.

O Olho do Diabo (1960) é um filme menor, desdenhado (ao que se diz) pelo próprio Bergman, que o dirigiu apenas para atender ao produtor de A Fonte da Donzela, que fez no mesmo ano. É um filme com estrutura e apresentação teatral, onde um ator, folheando um livrão, anuncia que vai contar uma história. A história é a de uma moça (Bibi Andersson) que pretende casar virgem; isso incomoda o Diabo, que convoca Don Juan para vir à Terra e seduzi-la. É, portanto, um conto moralista à moda do século 18 ou 19, e que Bergman narra com mão leve e ágil. Ele evita a farsa, sabendo que não é seu terreno; a história tem charme e leveza em alguns momentos, e em outros mergulha nas angústias existenciais e enigmas metafísicos de que o diretor tanto gosta.

Don Juan está condenado a uma eternidade no inferno: seu tormento é o de todos os dias receber em seus aposentos mulheres desesperadas ou apaixonadas, que ele seduz, mas que desaparecem quando ele consegue levá-las para a cama. Sua vinda à Terra é supervisionada por um Diabo vestido de padre, que se transforma de vez em quando num gato preto. Don Juan traz consigo seu fiel criado Pablo, o qual, enquanto o patrão seduz a mocinha, faz o mesmo com a mãe dela, cujo marido, um pastor bonachão e meio papalvo, hospeda os dois em sua casa sem desconfiar de nada. O melhor do filme de Bergman é que, ao narrar uma historieta tão esquemática quanto um libreto de ópera bufa, trata realisticamente os personagens. Todos são contraditórios. Todos são surpreendentes. Nenhum deles fica ancorado à caricatura, e todos produzem pequenas reviravoltas na narrativa, que de galhofeira fica repentinamente séria, ou vice-versa.

“A pureza de uma mulher é um terçol no olho do Diabo”, diz o provérbio citado na abertura do filme. Bibi Andersson e Gertrud Firdh, que interpretam a mãe e a filha, dão uma riqueza de nuances às suas personagens , que variam o tempo inteiro entre pudicas e oferecidas, vulneráveis e sedutoras. As cenas do Inferno (na verdade um escritório cuja janela dá para o Fogo Eterno) reproduzem o conceito tradicional do Diabo como uma mistura de aristocrata e burocrata. No final, há um diabo-assistente capaz de ouvir à distância (e relatar) os ruídos e as falas da mocinha em sua noite de núpcias. Há outra cena divertida em que Don Juan, antes da viagem, recebe instruções sobre as características da sensualidade das mulheres nórdicas. O Olho do Diabo é também um filme inesperadamente perceptivo sobre a mecânica da sedução.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

2305) O juramento dos mafiosos (28.7.2010)



Meu pai tinha uns amigos que frequentavam nossa casa quando eu era pequeno. De quando em quando parava um carro em frente da nossa casa e desciam uns homens de terno, que já estavam sendo esperados com bebida e salgadinhos ou um jantar, dentro das limitações modestas de uma casa de classe média. Conversavam cheios de bom-humor sobre o tempo, o trânsito, o bairro; falavam de futebol e às vezes de política. Encerrada a parte social, meu pai nos mandava ir para a parte dos fundos da casa e ficava com eles durante mais uma hora, conversando em voz baixa. Depois, iam todos embora. Meu pai me dizia: “Agradeça a eles tudo que você tem, e tudo que você terá um dia”. Quando meu pai morreu, ele pagaram todas as despesas, e um dia me chamaram para uma reunião. O que aconteceu nessa reunião? Não posso dizer, porque antes dela houve um longo ritual em que tive de fazer uma série de promessas irrevogáveis, juras inquebráveis, ao preço da minha vida e da minha alma.

O parágrafo apócrifo acima pode ser o trecho inicial das memórias de qualquer mafioso. Ser membro da Máfia é algo que passa de pai para filho ao longo de gerações. E em toda máfia existe um contrato de adesão que varia muito de país para país, de grupo para grupo, mas que em síntese diz: “Você só deve lealdade a nós, não deve lealdade ao governo, nem à igreja, nem aos partidos, nem ao exército, nem ao povo, nem a sua família, nem a Deus, nem mesmo a você. Você só deve lealdade a nós”. O cara é livre para dizer que não topa, que não está interessado. Em geral eles dizem: “Então está bem, pode ir embora. Mas, já que você não está conosco, está contra nós. Já que não é nosso escravo, é porque é escravo dos nossos inimigos, e de agora em diante é nosso inimigo também”. Pense numa escolha difícil!

Esses juramentos de fidelidade são exigidos na Máfia, Camorra, Yakuza, máfia chinesa, máfia coreana, etc. A questão é: o sujeito pode se arrepender de ter feito essa jura de silêncio, esse pacto indissolúvel de fidelidade (“omertà”, em italiano)?. Sabemos que esses pactos existem porque alguns indivíduos quebraram o voto e contaram tudo à imprensa ou a polícia. Alguns pagaram com a vida. E já vi relatos em que eles dizem: “Eu não sabia que era um grupo criminoso. Eram os patrões do meu pai. Eu tinha 18 anos. Por que não iria jurar? Só soube depois.”

Isto é interessante porque sempre me lembra o conflito ético de Daniel Ellsberg, o funcionário do Pentágono que surrupiou mil páginas de documentos secretos sobre o Vietnam e os entregou à imprensa anti-Nixon, provocando uma das grandes crises políticas dos EUA. Os liberais norte-americanos o consideram um herói. Eu também. Mas a verdade é que foi um heroísmo a um preço caro: romper o voto de lealdade para com seus empregadores e seus colegas. Se ele era de fato um sujeito ético, isso deve lhe ter sido tão custoso quanto compactuar com a política sórdida do Pentágono. Pense numa decisão difícil.