domingo, 2 de maio de 2010

1986) O Homem na Lua (21.7.2009)



E assim se passaram quarenta anos. A descida do homem na Lua está sendo comemorada no mundo inteiro pela imprensa – nós jornalistas adoramos um assunto momentoso sobre o qual a documentação é farta. Não sei se os cientistas comemoram. A maioria o faz por nostalgia do tipo “como era bom naquele tempo”, não por entusiasmo pelas conquistas atuais. A NASA fez seis descidas de astronautas na Lua: duas em 1969, duas em 1971 e duas em 1972. De lá para cá, nada. Dá para sentir que o projeto espacial tripulado alcançou um pico nessa época e depois se retraiu. Me lembra a famosa frase de Fellini ao recordar, muitos anos depois, o êxito de bilheteria de A Doce Vida: “Eu pensei que aquilo era o começo do meu sucesso, mas acabou sendo o ponto mais alto dele”. Pois é.

Não que os projetos espaciais tenham soçobrado desde então. EUA e Rússia fizeram alguns projetos conjuntos, acoplagens, voos mistos; tivemos a construção da Estação Espacial com a cooperação de várias nações; as numerosas missões dos ônibus espaciais; o lançamento em órbita do Telescópio Hubble, e várias missões não-tripuladas para Marte e outros destinos. Tudo isto traz informações importantes para a ciência. Mas – e aqui que me perdoem os colegas da ficção científica – o que isso indica é que o sonho de voos tripulados pelo Sistema Solar era somente um sonho mesmo, e que o nosso destino é nunca sairmos do nosso planeta. Não digo que não seja possível, para os EUA, a China ou a União Européia, mandar um ou outro sujeito para Marte e trazê-lo de volta. Não é improvável. O que acho improvável é o sonho dos escritores de FC: frotas permanente de naves indo e voltando, bases e cidades lunares, colonização e terraformação (criação de um ambiente natural favorável à vida humana) de Marte. Isso aí, meu amigo, acho que é uma janela de hipótese que se abriu um dia mas já se fechou.

Quando estou lendo Fundação de Asimov ou Hyperion de Dan Simmons me parece inevitável a perspectiva de uma Via-Láctea fervilhante de civilizações e raças, com intercâmbio comercial, guerras, milhões de naves indo-e-voltando. Isso, no entanto, só ocorre na página. Fora dessa jurisdição retangular, não consigo crer numa civilização terrestre-interplanetária. Para mim é tão complicado quanto acreditar em Deus. Por que? Uma das melhores críticas já feita ao conceito de Deus é que ele não é plausível, mas é extremamente desejável. Seria tão bom se houvesse de fato um Deus onisciente, onipotente, bondoso e justo! Nosso desejo de que isto seja verdade acaba criando uma espécie de certeza de que o é. Do mesmo modo, nosso desejo de uma humanidade esplendorosamente expansionista, civilizando planetas, fincando bandeiras terrestres galáxia afora, é uma hipótese tão bonita, tão desejável... Mas, ai! Não basta isso para ser plausível, e para mim não é. Acho que nossa expansão será qualitativa. Iremos (precisamos) salvar este planeta, e não conquistar os outros.

1985) A desinvenção do cigarro (19.7.2009)



Eu vejo uns 10 ou 15 filmes por mês, a maioria deles no DVD e na TV a cabo. Filmes de todas as épocas, desde o cinema mudo até lançamentos atuais. E, nos filmes mais antigos, uma coisa que sempre me impressiona é a quantidade de cigarros que o pessoal fuma. Toda cena tem alguém fumando. Casais namoram no sofá, trocando juras de amor e beijos, e cada um tem um cigarro fumegante entre os dedos. Sabemos hoje que a indústria do cigarro investiu pesado no cinema como canal de merchandising subliminar, para impor ao público dos anos 1940, 1950, por aí, a noção de que fumar era sofisticado, era chique, era moderno, era para os homens uma demonstração de masculinidade e para as mulheres uma afirmação de independência. O resultado? Comprem um maço de cigarro e olhem no verso.

No cinema se explica: os diretores perceberam logo que as volutas de fumaça davam um charme à imagem luminosa, davam um movimento, uma poesia visual. Como dizia John Ford, “nada como uma fogueira acesa para dar vida a um plano”. E os atores gostavam, porque o cigarro lhes dava (como disse certa vez James Bond) “algo que fazer com as mãos”. Mas na vida real o câncer, o enfisema e o enfarte foram comendo o mercado do fumo pelas beiras. Em Nova York, há mais de dez anos, fiquei intrigado ao ver dezenas de executivos de ambos os sexos, no frio, parados no pátio externo dos edifícios de escritórios, em grupos de vinte ou trinta pessoas. Alguns conversavam, mas a maioria estava apenas parada, o olhar perdido, o gesto impaciente... e fumando. Tinham que sair do prédio para fumar. Isto me surpreendeu. Na época, os aviões reservavam os assentos do fundo para os fumantes. Não havia a campanha feroz que existe hoje.

Li um depoimento de um combatente do fumo em que ele afirmava: “No futuro, os cigarros e os cinzeiros serão tão obsoletos e parecerão tão estapafúrdios quanto nos parecem, hoje, os rolos de tabaco levados no bolso e as escarradeiras nos lugares públicos”. E de fato, eu ainda alcancei um tempo em que as pessoas, numa bodega, mordiam e mastigavam aquele fumo-de-rolo escuro, e cuspiam o resultado em esguicho, na calçada.

Os EUA inventaram o mito e o comércio do cigarro – e agora o estão desinventando. No filme de Al Gore, Uma Verdade Inconveniente, ele conta que a fortuna da família veio com plantações de tabaco, e que a irmã, fumante, morreu de câncer no pulmão. Uma pequena metáfora de todo esse processo. Existe hoje uma mobilização geral no país para restringir os espaços dos fumantes. Por outro lado, na Europa, principalmente na França, com seu pendor anti-dominação-americana, existe um apego ao cigarro como “exercício da liberdade”. Os franceses se apegam ao fumo como demonstração de independência cultural. Mas a desinvenção do cigarro é mais um exemplo da “grana que ergue e destrói”. Se os EUA acabarem de fato com o hábito do fumo, pra mim isso é uma prova de que nada no mundo é impossível.

1984) Raul Rock Seixas (18.7.2009)



Há dois discos que nunca ouço sem me comover: Rock and Roll (1975) gravado por John Lennon, e Raul Rock Seixas (1977), que escuto agora enquanto escrevo. São dois exemplos da força crua do rock, de seu amálgama instintivo entre batida forte, som eletrificado e musicalidade de blues negro-rural. E tudo isso na voz de dois estrangeiros que nada tinham a ver com o peixe. Não se enganem quanto a Lennon – apesar de ingleses e americanos falarem línguas parecidas, são tão diferentes um do outro quanto o são de um baiano ousado. Os dois discos têm apenas duas faixas em comum (“Ready Teddy” e “Be-Bop-a-Lula”). Foram gravados em parte por homenagem (os dois artistas celebrando a música que os sequestrou “forever” em plena adolescência) e em parte pelo puro prazer, para um compositor de peso, de botar garganta afora canções não-autorais em que nada tem para provar a ninguém e tudo tem para saborear para si mesmo.

Raul também devia aos Beatles, como todo mundo que empunhou uma guitarra antes ou depois deles. Mas quem o criou como cantor foi Elvis, sua ginga de quadris, casaco negro de couro, trunfa arrogante, óculos escuros, voz querendo se encorpar em barítono. Raul era um branquelo magro mas encarou a si mesmo com heroísmo. Criou uma persona que era homenagem e cartum, era tributo e comentário oblíquo, era vontade infantil de “fazer aquilo também” e cachoeira irreprimível de coisas diferentes para dizer, coisas que o projetaram muito além do “cover” e deram origem a coisas como “Ouro de Tolo”, “Gita”, “Metrô 743”, “Metamorfose Ambulante” e por aí vai. Alturas – de compositor – que Elvis jamais pôde atingir.

Livros-coletânea como O Baú de Raul ou Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor trazem reproduções fac-símile dos cadernos infantis de Raul, e mostram que por trás da metamorfose ambulante havia um garoto inquieto que nunca mudou. O rock lhe serviu para compor uma “persona” satanista, para se fantasiar de James Dean e Marlon Brando, para se entregar por inteiro à promessa sagaz de Modernidade que o capitalismo distribui mundo afora, ofertando pentes e espelhinhos aos indígenas em troca de seu ouro e diamantes. É irônico, mas Raul foi apenas um entre milhões de outros jovens inconformistas que trocaram o ouro-de-tolo do conservadorismo classe-média pelo ouro-de-tolo da rebeldia midiática, onde nove em cada dez milionários morrem entupidos de drogas. Preciso citar nomes?

Quando celebramos aqueles que foram consumidos pelas drogas, pela loucura e pela dissipação não podemos mitificar quem os destruiu. Os monumentos aos mortos na Guerra celebram a vida que se perdeu, não a guerra que os matou. Celebram os mortos, independentemente da justeza ou não da guerra para onde foram enviados. Celebram sua juventude cortada ao meio, seu talento que se consumiu como uma lâmpada super-voltada, que brilhou mais do que podia e pagou o preço.

1983) O jornalista Gay Talese (17.7.2009)



Nunca li Gay Talese, grande jornalista norte-americano que esteve de passagem pelo Brasil para participar da Feira Literária de Paraty. Também não li Tom Wolfe, outro responsável pela mistura de jornalismo investigativo e alta literatura que os americanos inventaram há algumas décadas. Meus exemplos, quando penso nesse gênero, são Truman Capote, Norman Mailer e Hunter Thompson. Mas ao longo dos anos vi muitas entrevistas de Talese, artigos sobre ele, citações e transcrições de textos seus. É um daqueles casos em que a gente nunca leu mas já conhece.

Desta vez, o melhor texto sobre GT que vi na imprensa foi um artigo de Arthur Dapieve no Globo de 12 de julho. Dapieve mediou um debate do norte-americano, e diz: “No palquinho do Instituto Moreira Salles, na noite da última quarta-feira, tive oportunidade de fazer seis ou sete perguntas a Talese. Duas minhas, as outras da platéia. No breve encontro antes do encontro e no jantar a seis que a ele se seguiu, Talese me fez umas 273 perguntas. O que você faz para viver, além de escrever? Você escreve basicamente sobre o que? Você assiste a futebol só pela TV ou também vai aos estádios? De qual cidade da Itália o seu bisavô veio para o Brasil? O que ele fazia? E o seu avô, vivia do quê? Onde trabalhou seu pai? Ele frequentou uma universidade? Você frequentou uma universidade? De quê? Você teve bolsa? Você tem filhos? Quantos anos ela tem? O que quer fazer? (...)”

Um jornalista é um cara que se interessa mais pelos outros do que por si mesmo. Muitos que vemos hoje na TV, entrevistando pessoas, passam a impressão de estar ali impacientes, olhando para o relógio, doidos que a entrevista acabe logo e eles possam ir encontrar a namorada. Não há interesse real pelo entrevistado, nem antes (procurando se informar sobre quem é, o que faz), nem durante (olhando olho no olho, entendendo, aprofundando o perguntório) nem depois (se no ano que vem tiver que entrevistar de novo a pessoa, nem vai lembrar que já a conhece).

Jornalismo é curiosidade pelas pessoas, pelos fatos, pelo mundo. Vontade de ficar sabendo. Vontade de entender direito um assunto obscuro ou complicado. Vontade de desemaranhar histórias mal-contadas por gente que tem algo a perder se a história for contada direito. Talese afirmou (na TV, para Edney Silvestre) que tudo que fez veio de uma simples determinação: a de fazer com pessoas reais o que os grandes escritores faziam com pessoas imaginárias. Se um romance sobre um camponês imaginário ou uma peça teatral sobre um caixeiro-viajante imaginário podem ser grandes obras de arte e revelar verdades humanas universais, por que motivo uma reportagem sobre um camponês de verdade ou um caixeiro-viajante de verdade também não poderiam? Desse propósito surgiram seu artigo famoso sobre Sinatra, seu estudo sobre a vida sexual dos americanos, e dezenas de outros projetos que, sendo grande jornalismo, são também grande literatura.

sábado, 1 de maio de 2010

1982) Moiré, o infotografável (16.7.2009)



(Moiré, à esquerda)

Existem pessoas não-fotografáveis, pessoas cuja imagem, por alguma razão, é impossível captar através das câmaras? Um artigo de Lytle Shaw, publicado no Cabinet Magazine (http://www.cabinetmagazine.org/issues/7/ernstmoire.php) diz que era justamente isto que acontecia com o fotógrafo suíço Ernst Moiré (1857-1929). As fotos de Moiré que sobrevivem (e que Shaw reproduz em seu artigo) mostram imagens distorcidas. Uma interferência visual impede que seus traços sejam corretamente captados pelas lentes ou reproduzidos depois no papel fotográfico. Segundo ele, Moiré deu seu nome ao efeito muito conhecido nas artes visuais, em que duas séries justapostas de linhas paralelas produzem um efeito de ondas ou de curvas distorcendo as linhas que as compõem.

Ou teria sido o contrário? O efeito já existia, e Shaw, numa jogada borgiana que hoje já virou lugar comum (eu mesmo a emprego a três por dois) inventou um autor fictício para justificar o nome? Diz ele que Moiré existiu, sim, e que, segundo o governo suíço, um fotógrafo chamado Moiré era considerado, na Suíça dos anos 1920, como impérvio à fotografia, e que esses seus desaparecimentos bizarros tornaram-se uma fonte de orgulho nacionalista. Moiré era louvado, por ser um Ludita anti-tecnológico, pelos membros anti-modernistas da cultura popular suíça, por essa sua “neutralidade visual” que driblava o rigor tecnológico. Diz-se (continua Shaw) que os arquivos municipais de Zurique abrigam uma coleção de fotografias em que aparece uma figura borrada, “ilegível”, que seria em todos os casos o próprio Moiré.

O artigo de Shaw prossegue relatando sua ida a Suíça, financiada pelo “Cabinet Magazine”, sua exumação do passado da família Moiré, e sua descoberta de outros detalhes enigmáticos da vida do fotógrafo, como o fato de que costumava não assinar os próprios documentos, e de que fez várias descobertas técnicas no campo da reprodução fotográfica mas foi incapaz de patenteá-las, sendo sistematicamente ultrapassado por outros pesquisadores que, hoje, figuram nos livros de História. A criação do termo “efeito Moiré” deveu-se a um erro de impressão (placas fotográficas mal alinhadas, produzindo um borrão) num trabalho para o governo; o sócio de Moiré, Willi Ostler, tentou esquivar-se à fúria do contratante dizendo que o defeito de impressão tinha sido culpa de Moiré.

Bem, não posso resumir aqui todo o longo artigo de Shaw. Seja ele verdadeiro ou seja uma “pegadinha” borgiana, o fato é que o tema do indivíduo infotografável foi retomado por Bruce Sterling em sua série de histórias sobre o personagem Leggy Starlitz, uma espécie de herói picaresco do século 21, eternamente envolvido com contrabando, negociatas, espionagem industrial e política. Toda vez que alguém tenta fotografá-lo ou filmá-lo, a máquina enguiça. Por que? O próprio Starlitz não sabe. Pode ser o efeito Moiré: o fato de que o Mito só é visível para a mente.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

1981) Fantasia Cartesiana (15.7.2009)




(René Descartes)
 

A abreviatura tradicional para “science fiction” é SF. Indico de saída o termo inglês porque foi nos EUA que essa literatura, antes dispersa em obras individuais, transformou-se, por força do ímpeto comercializador dos norte-americanos, em gênero literário. 

É bem verdade que na Grã-Bretanha usava-se o termo “scientific romance” para designar obras como as de Julio Verne, H. G. Wells e outros. Mas o que colou, pra variar, foi o termo norte-americano, que aqui em português acabamos traduzindo como “ficção científica”. 

Este termo, aliás, traduz a rigor a expressão parecida “scientific fiction”. “Ficção ciência” seria a tradução mais ao pé da letra. Uma palavra bem mais rica de conotações seria a designação italiana para o gênero: “fantascienza”, que em português daria “fantasciência”, fazendo uma correta alusão ao elemento de fantástico ou de fantasia que permeia o gênero. 

Em alemão existe um termo igualmente adequado do ponto de vista semântico: “Wissenschaftlich-phantastische Erzählung”, ou “narrativa científico-fantástica”. Mas quem seria capaz de utilizar um semelhante escolopendro na linguagem cotidiana? Usa-se a siglazinha FC, e estamos conversados. 

Assim como serve para designar “ficção científica”, FC serviria também para indicar um outro rótulo igualmente aplicável ao gênero: Fantasia Cartesiana. Não imagino que este termo venha a suplantar o já consagrado, mas como alusão à ciência moderna ele me parece insuperável. 

Poderíamos dizer, para justificá-lo, que o lema da Fantasia Cartesiana é: “Penso, logo existe”. Se eu penso em alguma coisa, ela torna-se real no plano do pensamento. Os pensamentos que ocorrem numa mente humana são tão reais quando os objetos físicos – eis um postulado capaz de ser aprovado tanto pelos Materialistas Empedernidos quando pelos Idealistas Radicais. 

Tudo que se passa em nossa mente atinge um nível inicial de realidade; se é registrado por algum meio de expressão (fala, escrita, representação visual), sobe a um patamar mais alto de realidade; se é captado por outras consciências e se propaga, atinge um patamar mais alto ainda. Torna-se mais real. Existe com mais intensidade. 

Além do mais, lembremo-nos de que foi Descartes quem concebeu a arte de, com um eixo de coordenadas numéricas (as famosas “ordenadas” e “abscissas”), criar uma equivalência entre grandezas aritméticas e formas geométricas – entre o digital e o analógico, portanto. (Ver artigo “A cruz de Descartes”, 5.11.2003.) 

Uma equação do 1o. grau é uma linha reta; uma de 2o. grau é uma parábola. Cada intersecção entre um “x” e uma “função de x” determina um ponto que se torna um átomo de uma imagem. Podemos gerar imagens a partir de dados numéricos, e vice-versa. 

A Fantasia Cartesiana homenageia aquele que, sem o prever, criou a base para a Computação Gráfica, os efeitos especiais e a arte eletrônica. Ele pensou. E agora, algo existe.







1980) A praga do PPS (14.7.2009)



Não se passa um dia sem que eu receba um spam em forma de arquivo PPS (que imagino significar Power Point System ou coisa parecida). O Power Point é um programa do Windows que produz aquilo que antigamente chamávamos de “projeção de slides” – uma sucessão de imagens fixas e de textos, com ou sem acompanhamento de áudio. Um recurso que o programa torna facílimo produzir. Daí que nossas caixas de mensagens amanheçam todos os dias entupidas por PPSs de todos os tipos.

Não vou dizer que não olho. Olho de vez em quando, e com proveito. PPSs com fotos da natureza, de paisagens, de arquitetura e imagens deste ou daquele país, etc., costumam ser de uma beleza surpreendente. Imagino que o pessoal captura isso de saites como National Geographic. Prefiro aqueles que vêm sem trilha sonora, a qual costuma ser com melosos violinos, pianos dietéticos ou gravações padronizadas de folclores locais. Os PPSs de mensagem cristã eu pulo por cima; afinal já li e assimilei a Bíblia (embora ainda esteja atrasado nos Apócrifos). Os PPSs de mulheres peladas têm qualidade variável, mas se existe uma coisa fácil de obter hoje em dia na Internet é foto de mulher pelada. É mais rápido do que ver que horas são.

Um recurso que me irrita sempre é o fato de que o programa dá ao usuário diversas opções sobre a maneira como o texto vai ser adicionado. Em vez de simplesmente aparecer a foto e depois, sobre ela ou ao lado dela, aparecer o texto correspondente, criou-se um mecanismo teratológico que trata o texto como se as linhas fossem serpentinas e as letras confetes. Aparece uma foto interessante, mas o texto que a explica surge como se o computador estivesse bêbado. Uma linha desliza horizontalmente da direita para a esquerda, a linha seguinte faz o mesmo da esquerda para a direita... Ler uma coisa assim é um suplício.

Pior ainda é quando o engraçadinho faz com que as letras venham caindo de uma em uma do alto e se encaixando em suas posições. Quem faz isso lê pouco, ou lê “assoletrando”. Não perceberam que ninguém lê palavras letra-a-letra. Reconhecemos a forma inteira da palavra, quando já a conhecemos, sem atentar para os detalhes. É por isto que cometemos tantos erros ortográficos, porque não damos atenção ao detalhe, e sim ao conjunto. É por isto que também circulam por aí outras mensagens provando que podemos ler um texto em que as palavras estão escritas com erros, desde que se mantenham iguais a primeira e a última letra. Difereçnas peqeunas são ignroadas durnate a leitrua; as palarvas são reconecihdas pelo seu fomrato e pela probablidade estatítica de frequêcnia das letars.

Meu conselho à galera do PPS: deixem o leitor ler em paz. Não obriguem as letras a fazerem rodopios, piruetas, cambalhotas. Isto incomoda a vista, atrapalha a concentração... Equivale a telefonar para alguém junto de um liquidificador ligado. A menos que seja PPS de mulher pelada. Nesse caso, tanto faz, ninguém vai ler mesmo.

1979) O país dos espiões (12.7.2009)



(William Gibson)

Em seu recente Spook Country, William Gibson produz um curioso romance de espionagem que “The New York Times Book Review” chamou de “o primeiro exemplo do romance pós-11 de setembro, cujos personagens estão cansados de serem empurrados para lá e para cá por forças maiores do que eles – a Burocracia, a História, e, sempre, a Tecnologia – e finalmente decidiram-se a enfrentá-las”. Chamar o livro de Gibson de “thriller” seria forçar um pouco a barra, porque um thriller é por definição um livro que visa produzir emoções fortes, e Gibson afasta-se mais disso a cada livro que publica. Seu estilo é lúcido, contemplativo, e mesmo quando descreve intensa ação física, como uma perseguição, uma tentativa de atropelamento, uma briga, ele verbaliza as coisas de tal modo que o leitor sente estar tendo acesso a uma descrição analítica de um fato, e não à ilusão do fato propriamente dito.

Spook Country conta a minuciosa preparação de algo que imaginamos ser um atentado terrorista, ou um assalto de grande porte, ou um crime político... Vemos os preparativos, mas os vemos através dos olhos de personagens que no livro são protagonistas, mas não passam de meros figurantes no fato. Eles entendem as coisas fragmentadamente, com avanços e recuos, dúvidas e surpresas... Aos poucos vão montando o quebra-cabeças; e nós também.

A certa altura, um dos personagens de Gibson diz: “Uma nação consiste em suas leis. Uma nação não consiste em sua situação num dado momento. Se a moral de um indivíduo é uma moral situacional, este indivíduo não possui uma moral. Se as leis de uma nação são leis situacionais, essa nação não possui leis, e dentro em pouco deixará de ser uma nação. (...) Será que vocês estão tão apavorados com os terroristas que estão dispostos a destruir as estruturas que fizeram da América o que ela é? (...) Se for assim, estarão permitindo que os terroristas vençam. Porque esse é exatamente o seu objetivo, seu único e específico objetivo: amedrontar vocês até fazê-los abrir mão de suas leis. É por isto que são chamados terroristas. Eles usam ameaças aterrorizantes para fazer com que vocês degradem sua própria sociedade. (...) E tudo se baseia no mesmo defeito da psicologia humana que faz as pessoas acreditarem que podem ganhar na loteria. Estatisticamente, quase ninguém ganha na loteria. Estatisticamente, ataques terroristas quase nunca acontecem”.

Desde que Gibson inventou o conceito literário de ciberespaço e fundou o movimento “cyberpunk” sua literatura mudou enormemente, embora em essência permaneça a mesma. Seu estilo tornou-se mais límpido; perto de Spook Country, um livro como Neuromancer é um delírio surreal. Seu tema básico – humanismo vs. alta tecnologia – continua a perpassar tudo que escreve. Vinte e cinco anos após sua estréia em livro, o humanismo está descendo aos Infernos, e a tecnologia subindo ao Paraíso. Gibson tem a ubiquidade de espírito necessária para documentar os dois.

1978) Os jogos simétricos (11.7.2009)



Não deve ter escapado à maioria dos torcedores a curiosa simetria de resultados nos dois jogos da semana passada, realizados em Porto Alegre. Na quarta-feira, o Internacional recebeu o Corinthians para decidir o título da Copa do Brasil. Na quinta, o Grêmio recebeu o Cruzeiro, na decisão da semifinal da Copa Libertadores da América. Os dois times gaúchos estavam em desvantagem, pois ambos tinham perdido o primeiro jogo para seus adversários por dois gols de diferença: o Corinthians vencera em São Paulo por 2x0, e o Cruzeiro vencera o jogo de Belo Horizonte por 3x1. Mesmo assim, tanto os colorados quanto os gremistas tinham esperanças justificadas, pois bastaria vencerem por 2x0 (no caso do Grêmio) ou por 3x1 (no caso do Inter) para ganharem a disputa. Resultado normais em jogos entre equipes equivalentes.

Na quarta-feira, no entanto, o Corinthians desmantelou as esperanças do Inter logo no primeiro tempo, quando marcou dois gols e aumentou sua vantagem acumulada nos dois jogos para 5x1. Mesmo sendo um dos melhores times brasileiros do momento (na minha opinião), o Inter não tinha como tirar uma diferença tão grande em 45 minutos, enfrentando um time tão bom quanto o seu. Ainda assim, conseguiu fazer dois gols no segundo tempo. O jogo acabou 2x2, e o Corinthians foi campeão com o placar acumulado de 5x3.

Imagino as gozações que os torcedores do Grêmio fizeram durante o dia seguinte, zoando dos derrotados e esperando a noite, quando teriam a chance de ganhar do Cruzeiro e completar a festa. Quando a bola rolou, parecia um VT do jogo da véspera. O time visitante, que já entrara em campo com vantagem de dois gols, fez mais dois no primeiro tempo e foi para o intervalo com vantagem de quatro. O Grêmio, abatido, jogou no segundo tempo sem muita esperança de vitória, apenas para honrar a camisa. Fez dois gols; empatou o jogo em 2x2, mas saiu tão derrotado quanto saíra o Inter na véspera.

É muito raro que duas partidas importantes, na mesma cidade, em dias consecutivos, envolvendo dois times rivais, tenham uma marcha do placar absolutamente idêntica. Até mesmo no detalhe de que o último gol de cada jogo foi marcado aos 30 minutos, o que daria tempo, teoricamente, para que o time em desvantagem fizesse, nos quinze minutos que restavam, os 3 gols de que precisava para vencer a disputa. Não aconteceu, claro. Os visitantes souberam administrar a vantagem que tinham. Corinthians e Cruzeiro ganharam com méritos, principalmente o primeiro, considerando-se que o time do Inter é muito superior ao do Grêmio.

Jung falava em sincronicidades – coincidências significativas e inexplicáveis. Mais do que isso, no entanto, às vezes me parece que a vida é um poema rimado. Simetrias improváveis aparecem quando menos se espera, e nos dão a impressão de que vimos a repetição de um padrão, de um ornato, a justaposição de duas coisas que alguém tornou iguais porque isso lhe dava algum tipo de prazer estético.

1977) Michael Jackson (10.7.2009)



Me deixem correr aqui o restinho de tinta que sobrou para falar desse personagem. MJ surgiu para mim como um neguinho de cabelo bombril, cantando, no Jackson Five, uma açucarada canção de amor, “Ben”, que fez sucesso enorme nos anos 1970 e foi sua primeira música a atingir o #1 da “Billboard”. O que ninguém sabe é quem era Ben. Não, não era um menininho impúbere. Ben era um rato inteligente. Ele se comunicava meio telepaticamente com Willard, um garoto esquisitão cuja mãe viúva era maltratada pelo dono da casa onde viviam, a tal ponto que o garoto e o rato, agora comandando um exército deles, desencadeiam uma horripilante vingança sobre o vilão, interpretado por Ernest Borgnine.

Willard (1971), dirigido por Daniel Mann, foi um sucesso de bilheteria tão estrondoso que logo veio uma continuação, Ben (1972), dirigido por Phil Karlson. Este segundo filme lançou a canção interpretada por Jackson (composta por Walter Scharf e Don Black). Vejam só: um menino antissocial e vingativo, cujo melhor amigo (ousarei dizer “cujo único amor”?) é um rato assassino, a quem ele dedica essa canção... Fico imaginando as dezenas de vezes em que Jackson, com 14 anos, viu e reviu os filmes que lhe deram seu primeiro grande sucesso, e as cenas em que os ratos, comandados por Willard & Ben, devoravam vivo o adulto cruel que os perseguia.

A vida de Jackson foi uma mistura de tudo isso: filme B de terror, palco de megashow, barraco-de-família-pobre. Ele era frágil, temperamental e histérico, como aqueles “castrati” de ópera do século 18, produzidos pela indústria do sucesso a qualquer custo. Virou um perverso polimorfo, que menos explorou do que foi explorado. Era tão pouco pedófilo quanto Lewis Carroll.

Sentia-se um Deus e um Monstro. A imprensa diz que ele comprou o esqueleto de J. Merrick, o “Homem Elefante”, por um milhão de dólares. Jackson negava, mas dizia: “Eu gosto da história do Homem Elefante. Ele parece muito comigo, e eu consigo entendê-lo. Essa história me fez chorar, porque eu me vi refletido nela, mas não, nunca tentei comprar nada... Onde iria pôr aqueles ossos? E para quê iria querer ossos?”.

Jackson tentou fazer em seu próprio rosto aquele “morph” que transformava umas pessoas em outras no seu clip “Black and White”. Foi um dos primeiros a tentar manipular a própria carne e o próprio osso como se fossem pixels, grãos de luz digital. Devia considerar sua imagem mais real do que seu corpo. Era um ser artificial num corpo biológico, algo que os EUA têm produzido em série, como seu contemporâneo Ronald Reagan, um canastrão obtuso que exerceu a Presidência dos EUA como se interpretasse um papel a mais em mais um filme, decorando textos e obedecendo instruções da equipe. Jackson fazia o mesmo, só que era um menino violentado, ressentido, afetado e talentoso, capaz de se apaixonar por um rato. Parecia-se mais com sua estátua no Museu de Cera de Madame Tussaud do que com uma pessoa.