quarta-feira, 14 de abril de 2010

1910) O efeito Kulechov (23.4.2009)



Há uma figura retórica em filosofia a que se chama informalmente de “postoquismo”, porque vem da expressão latina “post hoc ergo propter hoc”. Isto quer dizer mais ou menos: “Se foi depois disto, então foi causado por isto”. Às vezes vemos dois fatos acontecerem um depois do outro e imaginamos que o segundo foi causado pelo primeiro. Se a Abolição da Escravatura foi em 1888 e a Proclamação da República foi em 1889, isto não quer dizer que uma foi causa e a outra foi efeito. (Na verdade, ambas foram efeitos de um conjunto de causas mais complexas).

Nossa mente tem uma tendência para fabricar causalidades onde existe apenas sucessão. A montagem cinematográfica tem um exemplo clássico, que se chama “efeito Kulechov”, nome do cineasta que o criou. Kulechov foi um dos primeiros a compreender que a sucessão de imagens na tela leva a mente do espectador a praticar uma associação de idéias, “fundindo” essas imagens numa idéia mais complexa que não estava contida em nenhuma delas isoladamente. Assim como nossa retina funde várias imagens estáticas sucessivas, num movimento virtual que só existe em nosso cérebro, nossa imaginação cria laços entre as imagens pelo simples fato de vê-las juntas.

A experiência de Kulechov foi basicamente de pegar a mesmíssima imagem de um ator, e montá-la com imagens, respectivamente, de um prato de comida, uma pessoa morta e uma jovem deitada na cama. Os espectadores viram no rosto do ator expressões diferentes: fome, tristeza e ternura – mas a expressão era a mesma, pois era a mesma imagem.

Jorge Luís Borges tem um ensaio famoso, “A Muralha e os Livros”, sobre o imperador chinês Shih Huang Ti, que teria mandado construir a Grande Muralha da China, e teria também mandado queimar todos os livros escritos antes do seu reinado. Borges examina de vários ângulos este relato e a certa altura diz: “Também poderíamos supor que erigir a muralha e queimar os livros não tivessem sido atos simultâneos. Isto (conforme a ordem que escolhêssemos) nos daria a imagem de um rei que começou destruindo e depois se resignou a conservar, ou a de um rei desenganado, que destruiu o que antes defendia”.

Nossa mente fabrica essas conexões, impondo sentido a uma sucessão de fatos que muitas vezes não têm a menor ligação. Fazemos isto desde bebês, para sobrevivermos, para perceber continuidade entre os fatos. Um belo dia percebemos que aquelas dezenas de seios são um só seio. Percebemos que aquelas mulheres com rostos que parecem diferentes, com vozes, roupas, cheiros diferentes são sempre a mesma. Esses pequenos triunfos intelectuais nos dão, com um ou dois anos, nossa primeira sensação de onipotência, quando acordamos de manhã e reconhecemos o lugar onde estamos. Não importa se algumas dessas conexões são erradas; se não fizesse isto o tempo todo, nosso cérebro se diluiria. Os estímulos que recebemos podem ser caóticos. Nossa mente é um processo Kulechov permanente, impondo sentido ao mundo mesmo quando ele não tem.

1909) Duas flechas no ar (22.4.2009)



Um artigo de William Langewiesche na revista Vanity Fair procura dar um balanço, depois que a poeira assentou, nos fatos que conduziram ao acidente entre um Boeing da Gol e um avião Legacy pilotado por dois norte-americanos, em 2006. Foi um dos maiores acidentes aéreos já ocorridos no Brasil, e tornou-se ainda mais grave porque a culpa acabou sendo dividida entre os controladores de vôo brasileiros (mal pagos, mal preparados, estressados, etc) e os dois norte-americanos, que pilotavam de forma talvez descuidada um jatinho de luxo destinado a executivos de multinacionais. O avião da Gol, com seus cento e tanto passageiros, foi a vítima azarada dos erros e descuidos cometidos por esses dois grupos de técnicos.

Não discutirei aqui a respectiva percentagem de culpa que cabe a cada um, mas transcrevo um comentário feito pelo jornalista no parágrafo final de seu artigo, que pode ser encontrado aqui: http://www.vanityfair.com/magazine/2009/01/air_crash200901?currentPage=all. Diz ele, ao recordar sua conversa com os índios caiapós, sobre cuja reserva o acidente ocorreu:

“Em última análise, o acidente nos leva a avaliar um paradoxo associado ao progresso e aos tempos modernos. Falei aos caiapós para levarem em conta que em todo o céu por sobre aquela floresta havia apenas aqueles dois aviões no ar. Era como se num espaço do tamanho da aldeia caiapó – não, mais do que isto, um espaço que se estendesse até a rodovia – índios disparassem duas flechas na direção um do outro, e as flechas se chocassem. Quais eram as probabilidades de algo assim acontecer? No passado, jamais aconteceria. Mesmo se tivessem sido guiadas para a mesma rota aérea, as ‘flechas’ teriam passado uma pela outra, devido à falta de exatidão inerente ao voo. Mas agora foram inventadas ‘penas’ mais aperfeiçoadas, e isto se tornou um requisito obrigatório para aeronaves que voam em alta velocidade. Como resultado disto, as novas flechas voam com uma exatidão espantosa, o que permite que uma quantidade muito maior delas esteja cruzando os céus ao mesmo tempo, mas com uma dependência muito maior nos sistemas interligados que controlam esses voos. O céu continua grande, como sempre foi, mas a margem de erro se estreitou. E quando os sistemas falham? Foi isto que aconteceu sobre a terra dos caiapós. O paradoxo envolvido no caso foi: exatidão. Erros foram cometidos, o Diabo interferiu, e as duas flechas bateram de frente”.

Os erros neste caso foram todos humanos, e não do equipamento. Os pilotos esqueceram de ligar o transponder, os controladores entenderam mal ou transmitiram mal as informações, etc. Quando os humanos cometem erros, nossa solução é criar “máquinas que não erram” (como se isto pudesse existir) e colocá-las no lugar dos humanos. Não lhes ocorre preparar melhor os humanos, dar-lhes melhores salários, melhor treinamento, maior disciplina, cargas horárias compatíveis com a intensidade do trabalho que executam.

1908) Dez grandes canções de Roberto (21.4.2009)



O Rei Roberto Carlos faz 50 anos de carreira. A imprensa fica pedindo listas das dez melhores canções. Difícil escolher. É como tomar um copo de água gelada num sábado de sol e alguém de prancheta em punho nos perguntar quais foram as dez melhores gotas. Mas o leitor gosta de comprar. Cheio de esperança, alinho-me entre os vendedores. E aqui vão dez, sem ordem de valor.

Primeiro, “O Calhambeque”, uma fascinante mistura do cantado com o falado, precursora de tantos “raps” de 30 anos depois, e com um irresistível “bip-bip!” para a platéia repetir em uníssono. Por trás, a chuckberryana saga urbano-adolescente do rapaz que, sartreanamente, só existe ao volante de um carro, nem que seja uma fubica. Depois, “Quero que vá tudo pro inferno”, que abre com um órgão arrebatador, um vocal lancinante, uma letra irreverente para a época. Uma canção pro cara cantar bêbado, de madrugada, embaixo da janela da respectiva, no melhor estilo “venha senão eu morro”.

Canções de amor são o forte do Rei, e aqui vai uma trinca de ases. “Como é grande o meu amor por você”, “Quase fui lhe procurar” (Getúlio Cortes) e “Ninguém vai tirar você de mim” (Edson Ribeiro & Hélio Justo) são canções que toco e canto desde que o vinil que as imortalizou ainda estava quente. Há outras melhores? Talvez. Mas estas são as minhas. Para complementar, o clássico “Detalhes”, sobre a qual já correu um itapemirim de tinta e não preciso comentar.

O Rio descobriu, num show de Caetano Veloso, que a pequena obra-prima “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” tinha sido composta por Roberto para ele, durante o exílio. É engraçado. Na época, todo mundo sabia disso. Só posso atribuir tal surpresa à faixa etária de imprensa atual. Outra canção-de-amigo que virou hino foi “Amigo”, para Erasmo Carlos, que mostra um lado importante das músicas de RC: a verdade autobiográfica. Eu, que tanto louvo o “Eu poético distanciado”, tiro aqui o chapéu para o poeta cujo Eu é geralmente ele mesmo.

Já vamos em oito, e até agora só falei títulos óbvios! Vou completar a lista com duas músicas que ninguém conhece ou lembra. Uma delas é “Do outro lado da cidade” (Helena dos Santos): “A cidade agora / do outro lado tem / alguém que vive sem saber / que eu vivo aqui também...”, com uma melodia simples e tocante. Uma canção de distância urbana, de jovem sozinho, sem paradeiro e sem amor, numa cidade sem sol que poderia ser a Seattle de Kurt Cobain ou a Detroit de Eminem. A outra é “Nasci para chorar”, versão de Erasmo para uma canção italiana: “Eu levo a minha vida chorando pelo mundo / talvez até tivesse algum desgosto profundo / procuro na memória, procuro me lembrar / mas eu não posso – nasci para chorar...” É uma canção dilacerada, adolescente, pessimista, mas de um pessimismo “pra cima”, revoltado, sem submissão ao Destino, o pessimismo rock-and-roll de quem diz “morro, mas morro atirando”. Acabou a lista? Mas rapaz, eu ainda tinha uma quarenta!

1907) Um réptil ao volante (19.4.2009)




São duas coisas muito parecidas: um sujeito ao volante de um automóvel, e um sujeito ao teclado de um computador. E ficam mais parecidos ainda quando o que eles estão fazendo ali começa a ser atrapalhado – a máquina recusa-se a funcionar, ou alguém de fora interfere no que ele está fazendo. Existe coisa mais exasperante do que clicar um comando e nada acontecer? Existe tortura pior do que uma conexão lenta, ou que cai com frequência? Existe maior tormento do que uma tela congelada à nossa frente, sobre a qual ficamos passeando às tontas um cursor transformado em ampulheta?

É nisso que penso quando contemplo à distância o desespero dos motoristas no trânsito. É o engarrafamento que deixa o sujeito trancado por todos os lados, como Amir Klink na Antártida, tendo que esperar que o degelo do verão faça os carros à sua volta se moverem, permitindo que ele vá embora. É a raiva cega e homicida contra o descuidado que bloqueou seu carro no estacionamento e foi embora. É o dedo impaciente premindo a buzina sem parar, para que o décimo carro lá na frente, o mais próximo ao sinal de trânsito, perceba que ele ficou verde. É o palavrão histérico contra o imbecil que não ligou a sinaleira; é o revólver em punho contra o agressor que lhe deu uma fechada.

Artefatos tão high-tech quanto um automóvel e um computador parecem ser destinados ao nosso neo-córtex cerebral, a parte mais evoluída do nosso cérebro, que lida com linguagens, sistemas, idéias abstratas. Na prática, contudo, quem os manipula é a parte mais ancestral e primitiva do cérebro, o chamado “complexo R”, ou “cérebro reptiliano”, diretamente ligado aos nossos reflexos, nossa atividade motora, nossas respostas instantâneas ao que ocorre no ambiente. (Entre os dois, existe o sistema límbico, ou “cérebro mamífero”, responsável pela afetividade, o gregarismo, as emoções.) É este cérebro reptiliano que nos garante a sobrevivência entre predadores e concorrentes; é ele que durante milhões de anos nos fez, numa fração de segundo, decidir se valia a pena lutar contra uma ameaça ou se era melhor fugir a toda velocidade.

Automóveis e computadores, à medida que se aperfeiçoam, dão respostas cada vez mais rápidas e eficazes aos nossos comandos. Um toquezinho, e ele já obedeceu. Acostumamo-nos com isto, e o funcionamento da máquina vira um extensão de nosso sistema perceptivo e motor. O cérebro reptiliano gosta de ações e reações instantâneas, de controle total, de superação rápida de obstáculos. Por isso os motoristas e internautas ficam tão irritados quando os comandos não lhes obedecem ou quando outros motoristas interferem com sua atividade. O cérebro reptiliano é rápido, interesseiro, competitivo, pensa apenas em executar o mais rapidamente e mais satisfatoriamente possível aquela tarefa. Qualquer contratempo desperta sua ira. Quando rosnamos de ódio diante do volante ou do monitor, é a língua bífida do réptil primitivo que emerge da nossa boca.



1906) “O Quinto Poder” (18.4.2009)




Este thriller de Alberto Pieralisi é um dos filmes brasileiros mais raros e elusivos. Ouvi falar nele pela primeira vez por volta de 1967, e só consegui vê-lo agora, 42 anos depois, no Canal Brasil. A cópia exibida tinha legendas em inglês, e uma advertência de que se tratava da única cópia existente. Ao que parece o filme foi proibido pela Censura do regime militar, e suas cópias foram destruídas ou se perderam.

Ele tem uma premissa de ficção-científica: o controle mental da população através de mensagens subliminares transmitidas pelo rádio e pela TV. Sob o efeito dessa lavagem cerebral imperceptível, o Brasil entrega-se aos saques, à depredação, ao crime, habilmente sugeridos pela montagem de manchetes das páginas policiais de jornais da época (noticiando inclusive o famoso incêndio do circo em Niterói com centenas de mortos) e cenas de passeatas, quebra-quebras, etc.

Os responsáveis pela conspiração (que falam alemão entre si) pretendem com isto assumir o poder num país desorientado e caótico.

[Aqui, o filme completo:
https://www.youtube.com/watch?v=amcp7zgJHyw ]

Em seu blog no Estadão, Luiz Zanin nota as influências hitchcockianas no filme de Pieralisi, como na luta no bondinho do Pão de Açúcar e na cena final em que o chefe dos espiões é perseguido pelo Exército no interior na estátua do Cristo Redentor. As cenas de perseguição (de automóveis, inclusive) têm um dinamismo de encenação, câmara e montagem que era muito raro no cinema brasileiro em 1962.

Do ponto de vista da ficção científica, a realização visual obedece, por economia de tempo e de dinheiro, a todos os clichês dos filmes B dos anos 1950: caixas metálicas cheias de mostradores, luzes piscando, osciloscópios, etc., além de referências tipo “mensagem HRB-350”.

O mais interessante é o conceito em si, porque mensagens subliminares (ou subliminais) são raras no cinema de FC da época, e só em décadas mais recentes foram tratadas a sério, como em Videodrome de David Cronenberg (1982).

Ainda no blog de Zanin há uma informação de Marcelo Miranda de que o produtor Carlos Pedregal, espanhol, dividiu com o italiano Pieralisi a direção do filme, encarregando-se das cenas de ação e perseguição. Isto faz deste filme pioneiro de FC no Brasil uma curiosa “intriga internacional”. Pedregal também teria sido o “marqueteiro” de uma campanha de Adhemar de Barros, e o criador do curioso slogan “Rouba, mas faz” que o político paulista usou desde então.

Essas informações ganham relevo no contexto de um filme cujo tema é a manipulação da mídia para provocar o caos no país e abrir caminho para a tomada do poder por um grupo radical. Um sintoma da convulsão social provocada pelos espiões são as manchetes dos jornais bradando: “Revolução: única saída!”, diante da mortandade desenfreada que campeia no país.

É claro que o governo militar pós-64 se sentiu incomodado com o filme, que, com suas evidentes limitações, é um dos melhores que o Brasil já produziu nesse gênero, e é mais atual hoje do que na época em que foi feito.









terça-feira, 13 de abril de 2010

1905) O livro de Sivuca (17.4.2009)



Sivuca foi um dos maiores sanfoneiros do Brasil. A palavra “sanfoneiro” perdeu (espero) o tom levemente depreciativo que já a cercou, e isto se deve em grande parte a Sivuca, Dominguinhos, Oswaldinho e muitos outros mestres que mostraram que um sanfoneiro pode ser um músico tão completo e tão complexo quanto um pianista. Mesmo assim, foi como sanfoneiro que ele caiu no gosto e na memória do povo, principalmente na Paraíba; é com esse termo informal e próximo que nós da imprensa nos referimos ao músico de tantos talentos e tantas surpresas.

Hoje às 21 horas, no Espaço Cultural, será lançado num concerto da Orquestra de Câmara da UFPB, com Toninho Ferragutti como solista convidado, o álbum com partituras da obra sinfônica composta por Sivuca, É uma obra que a maioria dos paraibanos (eu incluído) desconhece. Desconhece porque as apresentações ao vivo foram raras, e porque o CD em que registrou a maioria delas (Sivuca Sinfônico, com o maestro Osman Gioia e a Orquestra Sinfônica do Recife) não se encontra com facilidade nas lojas nem é apregoado pelos ensurdecedores carrinhos-de-mão que vendem CDs piratas do Bessa ao Cabo Branco. É, em vários sentidos, uma obra rara.

Reza a lenda que Miles Davis teria escrito certa vez uma carta a Sivuca agradecendo-lhe por ter mostrado a ele que a sanfona era um instrumento musical tão sério e rico em possibilidades quanto qualquer outro. Para nós, isso passa como uma certa ingenuidade e desinformação do grande jazzista, mas é compreensível quando pensamos que nos EUA a sanfona é ainda mais marginalizada do que no Brasil, sendo apenas um instrumento acessório nas músicas “cajun” e “zydeco” na Louisiana. Ainda assim, os americanos produziram grandes mestres do instrumento, e Dominguinhos, por exemplo, já reconheceu sua dívida para com músicos como Tommy Gumina e Art Van Damme.

Um dos números mais pitorescos e mais aplaudidos dos shows de Sivuca era aquele em que ele executava “Vassourinhas” em estilo escocês, árabe, russo, argentino, etc. Apenas com a sanfona e a voz, ele fazia um “photoshop” étnico e sonoro no frevo. Era o seu lado popular, brincalhão, de menino risonho e vaidoso das próprias façanhas. O outro lado é o Sivuca meticuloso e erudito que transparece neste álbum, que inclui também arranjos seus para grupo de câmara incluídos no disco Sivuca e Quinteto Uirapuru e no DVD O Poeta do Som.

Sivuca foi a vida inteira um desafio e um questionamento à divisão entre música erudita e música popular. Divisão das mais incoerentes, porque lida com critérios heterogêneos. Se o critério fosse o grau de absorção, pelo músico, da “norma culta” musical, deveríamos dividir a música, talvez, em música erudita e música espontânea. Se fosse a origem social da forma praticada, deveríamos falar em música aristocrática e música popular. Sivuca é uma das muitas provas de que é possível ser de origem popular e alcançar o universo erudito, e vice-versa.

1904) Sequestro virtual (16.4.2009)



(drangooble)

É um dos golpes mais banais dos bandidos cariocas; não sei se já está em prática na Paraíba. Ligam para a família de uma pessoa, em geral uma criança ou adolescente, e dizem que o garoto foi sequestrado, está em poder deles. A família tem que levar não-sei-quantos-mil reais num lugar assim-assim, agora, já, senão o menino morre. A verossimilhança do golpe é garantida quando o bandido diz: “Se a senhora não acredita que é seu filho, escuta só”. O fone é passado para alguém e ouve-se uma voz abafada, histérica, tartamudeando pedidos de socorro; e logo retorna o primeiro interlocutor: “Vem logo, madame, porque seu filhote tá sangrando muito”.

Qual o pai ou a mãe que não treme na base quando uma bigorna dessas lhe cai na cabeça? Eu me considero um homem de sorte, porque já recebi uma dúzia desses telefonemas, mas na primeira vez que aconteceu era cedo da noite, e enquanto a voz desesperada gritava no receptor “pai, pai, eles vão me matar!” eu estava vendo meu filho a poucos metros, lanchando na cozinha. Desliguei o telefone, depois puxei-o para fora do gancho e deixei ali a noite toda, como a polícia aconselha fazer. Não tendo resposta, os caras ligam para o próximo número da lista e vão tentar a sorte com outro infeliz.

Na segunda vez foi mais dramático. Meu filho estava no colégio, era meio-dia, não tinha chegado ainda. A ladainha era parecida, “pai, pelo amor de Deus, tão me batendo!”. Bati o telefone. Mas ele ainda estava na rua... quem me garantia coisa alguma? Foram dez minutos de suplício psicológico até que a chave girou na porta e surgiu a silhueta desengonçada, mochila às costas, cabelão, camisa “Clockwork Orange”, e aquele ar desligado de quem está sempre pensando noutra coisa e nem sequer estranha chegar em casa para o almoço e ver o pai ajoelhado no centro da sala, beijando o sinteco.

A polícia aconselha ter um código para identificar se é ou não o filho. Zuenir Ventura, no “Globo” sugere tratar os bandidos com ironia. O bandido diz: “Quero dez mil pra devolver seu filho!” E a gente responde: “Dez mil?! Se você me devolver esse pentelho, eu vou querer vinte mil, de indenização!!!”. Talvez funcione. Mas já surgiu uma variante. Falsos pesquisadores ficam rondando a sala de espera dos cinemas, de prancheta em punho. Abordam um adolescente, dizem que é uma pesquisa do Ibope (todo brasileiro acredita na existência do Ibope), pedem nome completo, telefone de casa, nome dos pais, etc. Quando o garoto ou a garota entra na sala de exibição e desliga o celular, eles ligam para casa, já com a ficha completa, sabendo a aparência, como estava vestido, etc., e dizem: “Olhe, madame, só não boto pra falar com a senhora porque meus colegas acabaram de levar ela pro quarto dos fundos”. Os pais ficam no mesmo dilema de Pascal quanto à existência de Deus. A possibilidade de perda, se acreditarmos e aquilo for mentira, é pequena; mas se não acreditarmos e for verdade, quem pode calcular?

1903) O futuro de Terry Bisson (15.4.2009)




(Terry Bisson)

A revista norte-americana Locus está para a ficção científica assim como a Rolling Stone está para o rock. É ali que está a informação mais atualizada e mais confiável, mesmo que as análises mais críticas e mais profundas estejam em outra parte. 

Nos últimos anos, a Locus convidou o escritor Terry Bisson para contribuir com pequenas vinhetas de meia-dúzia de linhas sobre acontecimentos do futuro, sob o título “This Month in History”. O resultado, em forma de pequenas notícias sobre fatos espantosos ou surpreendentes, é um conjunto de pseudo-profecias que além de divertidas lançam uma certa luz sobre o nosso presente. Vejamos:

“29 de outubro de 2064. Chegaram os besouros. Atendendo a um pedido pessoal do Prefeito Trump, o Departamento de Saúde de New York aprova o Crunch Crazy, a primeira rede de fast-food baseada em insetos fritos, a tempo de permitir sua inauguração na semana de Halloween. As pequenas iguarias têm se mostrado populares principalmente entre os turistas de Times Square” (Locus, outubro 2008). 

A notícia sugere um prolongamento político da dinastia de Donald Trump e a invasão da cultura chinesa (e do dinheiro chinês) na economia americana – de onde seriam, afinal, esse turistas em Times Square?

“1 de outubro de 2123. Meca substitui Greenwich. Muçulmanos do mundo inteiro comemoram, e os cartógrafos lamentam, na data em que é oficializado o novo Primeiro Meridiano do globo terrestre” (Locus, outubro 2008). 

Achamos engraçado porque nunca nos perguntamos porque motivo o zero cartesiano dos fusos horários fica em Londres. Mas quem sabe se daqui a um século outro valor mais alto não se alevanta?

Estas duas historietas demonstram não apenas a leveza e mordacidade do humor de Terry Bisson, mas uma tendência do mundo e da FC norte-americana: a transferência gradual de poder do Ocidente para o Oriente, que começou com a criação da União Soviética, cuja decadência na segunda metade do século 20 correu paralela ao crescimento do Japão como uma das grandes economias mundiais. A crise do petróleo dos anos 1970 revelou o poder de um grupo de países árabes, contrastando com a pobreza de grande parte dos demais.

Na virada para este século, foi a China que disparou como grande potência. As nações do grupo chamado de Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) continuam a ser consideradas como forças ascendentes (reascendente, no caso da Rússia). A força política dos países islâmicos, aliada a suas riquezas, transferiu para países como Afeganistão, Iraque e Irã uma fronteira bélica-política que tem sido uma das principais sangrias financeiras dos EUA, e uma das maiores razões para sua perda de popularidade. 

Autores de FC, antenados com essa evolução, e sempre atentos para “a direção em que o vento sopra”, começam a diversificar seus cenários, como o irlandês Ian MacDonald que recentemente escreveu romances ambientados na Índia e no Brasil. O futuro é aqui fora, e os americanos sabem disso.







1902) O Espontaneísmo (14.4.2009)



Falar na contracultura dos anos 1960 é retomar alguns temas básicos: drogas, religiões orientais, vida comunitária, sexo livre, redes descentralizadas de produção e relacionamento. Existem, no entanto, aspectos que são típicos daquela época e que desde então não têm parado de se alastrar, e cada vez mais fazem parte do espírito do tempo. Se isto é algo bom ou ruim... “aí, varêia”, como diz o pessoal em Campina.

Falarei do Espontaneísmo. Naquela época e em toda a primeira metade do século 20 predominava na cultura uma mentalidade vertical, hierárquica. Os pais falam, os filhos escutam. Os professores ensinam, os alunos aprendem. Os mais velhos mandam, os mais novos obedecem. Pois bem, quando a Contracultura (incluídos aqui o rock, o movimento estudantil de maio de 68, a imprensa alternativa, a poesia marginal, a música independente, o cinema underground) começou a travar sua refrega contra a cultura oficial, passou a propor (e em algumas áreas a impor) a visão contrária. E na criação artística isto acabou se transformando no que chamo de Espontaneísmo.

O que é ele? É uma forma de anti-intelectualismo. A não-necessidade de treinamento, cultura, formação, etc. para fazer algo, especialmente nas artes. Todos são iguais. A criação de todos tem o mesmo valor. O que vale é a intuição, a sensibilidade, a auto-expressão, etc. De repente, para ser músico, não era mais preciso estudar em Conservatório: bastava um violão mal-afinado e uma voz cheia de entusiasmo e boas intenções. Para escrever um romance, não era preciso ter lido romances, bastava ter folheado uma edição do “Finnegans Wake” experimentando um baseado (ao que me dizem, esta é uma experiência irreversível, o cara nunca mais será o mesmo). Para ganhar a vida, não era preciso “se formar”: bastava ficar sentado numa praça criando arabescos com fios de cobre e vidrilhos coloridos. E assim por diante.

Era uma forma de anti-autoritarismo, anti-intelectualismo no bom sentido. Era uma das muitas utopias coletivistas e democratizantes daqueles anos em que um dos lemas era “Eu sou ele, como você é ele, como você é eu, e nós somos e estamos todos juntos”. Era uma forma de dizer “não” a uma velha geração travada, repressora porque insegura, autoritária porque sem argumentos, egoísta por medo e hipócrita por egoísmo. Uma maneira de dizer: “Isto que estamos fazendo é mal feito, é desordenado, é sujo, mas é nosso, isto exprime a totalidade do que somos, mais do que se fizéssemos uma obra-prima seguindo os critérios de vocês”.

Como explosão localizada de revolta, isto tem o mesmo valor terapêutico das rebeldias adolescentes e das “picardias estudantis” que toda geração experimenta. Quando isto passa, fica a questão: Como conciliar esse humanismo estético com critérios rigorosos de escolha? Os últimos 40 anos têm sido dedicados ao trabalho de criar um novo sistema de critérios, algo que faça a ponte entre a velha razão e o Espontaneísmo da contracultura.

1901) A cantoria de Viola (12.4.2009)



Peço desculpas aos apologistas do repente; este artigo não versa sobre um violeiro, mas sobre um artilheiro, que já fez as alegrias de muitas torcidas e deu dores de cabeça a todas. Vi-o pela primeira vez no longínquo 1988, quando eu assistia num domingo à noite os “Gols da Rodada” na Globo, e “a voz marcante de Léo Batista” anunciou: “E agora vamos ver a festa da torcida do Corinthians, que acaba de se sagrar campeão paulista, e ver também o gol do título, marcado pelo jovem jogador Viola...” E lá veio a imagem, nos últimos minutos do jogo, da bola cruzada rasteira da ponta direita e aquele neguinho magrela jogando-se de carrinho e empurrando-a para dentro do gol. No domingo passado, 5 de abril, Viola deu um depoimento a Pedro Motta Gueiros, do Globo, e o resultado é o perfil de um jogador cuja origem social não difere muito das de muitos repentistas. Foi um menino pobre, virou atleta rico, foi campeão do mundo pela Seleção em 94, hoje tem 40 anos e joga no Duque de Caxias (RJ).

Diz ele: “No mundo do futebol, você tira cinco que nasceram em berço de ouro. Pega o Kaká, o Caio... O Leonardo também era? Não sabia. O cara fala dez línguas, tinha que ter dinheiro. Eu não falo nem português. (...) Meu pai descarregava caminhão no Brás. Ele se chama Dor, de dor... celino. Dorcelino, dolorido. E a mãe, Joana, era empregada doméstica. A gente morava num barraquinho de madeira, chovia dentro porque os caras tacavam pedra”.

Viola fala da infância difícil, quando fugia da escola para jogar pelada ou carregar sacola de madame na feira. “A gente fazia muita fogueira para se alimentar. Batata-doce é de graça. Em qualquer mato, você capina e arranca uma fenomenal. Em volta do fogo, tinha cinco legais e outros cinco que saíam para roubar”. É uma estatística intuitiva, mas que expressa bem a visão dos rapazes de favela ou de periferia. Metade vira bandido, metade não vira. E sempre que vejo um cara assim, dando duro, fico me perguntando o que o fez preferir ser honesto e ganhar uma merreca, quando poderia entrar para o crime e ter a chance de viver uns poucos anos de riqueza. Claro que eu sei por que foi, uma vez que eu também não entrei para o crime. Mas fico pensando.

Viola tem amigos de infância, com quem convive até hoje, chamados Buteco, Sessenta e Calango. Ganhou dinheiro? “O que eu ganhei já se foi. Para mim, dinheiro continua sendo do capeta, mas num país como o nosso é preciso tê-lo. Se não, você vai no hospital público com dor de cabeça, te aplicam uma injeção, te matam e fazem negócio com a funerária para te vender”. Viola é falastrão, e não perdeu a “goga” de todo boleiro: “Quem encerrou a carreira do Baresi fui eu. Naqueles minutos que joguei na final da Copa de 94, dei dois cortes, ele já caiu sentindo um problema na coluna e nunca mais voltou. Tenho o vídeo.” Grande Viola, grande reportagem, grande Brasil.