quarta-feira, 24 de março de 2010
1820) Olavo Bilac e João Cabral (8.1.2009)
À primeira vista, não podem haver dois poetas mais dessemelhantes. Quem lê um e logo em seguida pega um livro do outro precisa passar por alguns minutos de adaptação mental, como aqueles mergulhadores que têm de voltar à tona aos poucos, de tão grande que é a diferença de pressão.
O mundo de Bilac nos lembra uma imensa galeria do Louvre cheios de quadros históricos e de langorosos nus femininos, pintados por Courbet, Degas, William Bouguereau, Alma-Tadema. São figuras da mitologia, episódios épicos ou bíblicos, virgens diáfanas envoltas em tules e musselinas, bosque sombrios, pássaros canoros, ameias e torreões de castelos, casais pré-rafaelitas enlaçados nos transportes da paixão.
Já o mundo de Cabral nos arrebata para um deserto árido e cheio de arestas, povoado por cabras e retirantes; mangues pegajosos, cidades rústicas que mal se distinguem das colinas pedregosas que as cercam. Seu mundo lembra, até pelo exame permanente do traço, da forma, da dinâmica abstrata dos processos, a fase de gravuras geometrizantes de Max Ernst, ou as xilogravuras de cortes brutais de Segall, Scliar ou Darel.
E, mesmo assim, poucos poetas defenderam com tanta eloquência, em tribunas opostas e até antagônicas, os mesmos princípios estéticos.
Tanto Bilac quanto Cabral são os poetas da construção, do perfeccionismo, do intelecto avassalador apropriando-se das mais ínfimas tarefas da criação poética.
Os dois divergem no temperamento pessoal e nos assuntos que abordaram, mas o modo de empunhar a poesia é o mesmo.
É costume contrapor a obra de Bilac à de Castro Alves, pois os dois foram os mais populares e festejados poetas brasileiros do século 19.
Castro Alves é inspiração torrencial, transbordante, indisciplinada, produzindo poemas gigantescos e tonitruantes crivados de pequenos defeitos. Diz-se que era um bom improvisador de versos, e de fato tinha as qualidades e os defeitos de qualquer repentista. O surgimento de Bilac enxugou a poesia brasileira desses excessos. Cabral foi ainda mais longe, e reduziu a poesia a osso, viga, concreto, medula.
Em sua famosa “Profissão de Fé”, Bilac invoca como modelos de poeta o Ourives (que ele prefere) e o Escultor. Já Cabral elegeu o Engenheiro e o Arquiteto.
Por diferentes que sejam, todos trazem em si o traço que une os dois poetas: o propósito de construir, em vez de apenas “parir” o poema. Com a mente lúcida e a mão minuciosa. Reescrevendo dezenas de vezes até achar a palavra certa, a sílaba tônica ou átona na posição exata, a simetria quase imperceptível de consoantes em pontos opostos da linha. Ritmo, sonoridade, evocação sensorial de imagens, tudo isto é pesado e medido, com balança de precisão, lupa e bisturi.
Que profissões simbólicas serão invocadas como modelo pelos poetas construtivistas do futuro? Engenheiro de software? Webdesigner? DJ? Programador de mosaicos verbais logarítmicos com variáveis randômicas? As possibilidades, como sempre, são infinitas.
1819) Tia Nunum (7.1.2009)

Chamava-se Anunciada, e era a mais jovem e a mais divertida das minhas tias maternas. Mesmo tendo convivido com ela até sua velhice, a imagem que guardo comigo é a de uma moça de vinte e tantos anos com cabelo louro, rosto claro e um permanente sorriso aberto. Consolo-me pensando que está viva e imutável, e que a senhora de 83 anos que faleceu dias atrás era outra pessoa.
Pela pouca diferença de idade, ela era para mim e para minha irmã Clotilde uma espécie de prima mais velha, com autoridade para nos dar ordens e disposição para ser uma infatigável companheira de brinquedos. Jogávamos ludo, damas, relancim. Tide, num artigo recente, lembra episódios da nossa infância, inclusive o que deu origem ao termo “O Raio da Silibrina”, que eu inadvertidamente tornei famoso. Já falei sobre isto aqui – procurem “Silibrina” no meu blog (http://mundofantasmo.blogspot.com). Na minha lembrança, certa noite meus pais foram jantar fora, e Tia Nunum resolveu pregar-lhes uma peça. Chamou nós dois; reunimos umas roupas velhas, sapatos, um chapéu. Recheamos aquilo com jornais amassados para fazer volume. A cabeça era um travesseirinho com uma máscara de carnaval presa com elástico, e o chapéu em cima, firmando. Um par de luvas formava as mãos, que seguravam um copo e um cigarro. O “judas” foi sentado no sofá da sala, e ela pregou no peito dele um pedaço de cartolina onde escreveu: “O Raio da Silibrina”. Escondemo-nos atrás da poltrona. Quando meus pais chegaram e acenderam a luz, houve o previsível espanto, e as nossas gargalhadas.
Nossa memória é infiel, elusiva, escorregadia, mutante, parece-se mais com o delírio verbal de James Joyce no fim da carreira do que com as filigranas apolíneas de Marcel Proust, o homem que nada esquecia. Lembro Tia Nunum desenhando num caderno rostos femininos de longas pestanas, copiando letras de músicas, inclusive uma (que ainda creio ter em alguma pasta) de uma música que ela cantava muito, e que enumerava e comentava todos os bichos do Jogo do Bicho, de 1 a 25. Foi também ela que nos ensinou a jogar “Disparate”, em que pessoas fazem listas aleatórias de nomes, ações e lugares, e depois vão encadeando essas listas, formando frases absurdas como “Napoleão Bonaparte – e Tia Neuza – pescando caranguejo – no planeta Júpiter”.
Era a mais bonita de todas as irmãs, e nunca se casou, talvez pelo excesso de responsabilidade. Um namorado que teve a achava parecida com Lauren Bacall, e eu, que era apenas um garoto, me senti orgulhoso porque também já tinha pensado a mesma coisa. Já mais idosa, com quarenta, cinquenta anos, ainda passava temporadas inteiras na casa dos meus pais. Jogávamos crapô, víamos filmes na TV, e no auge da minha fase john-lennon cabia a ela aparar de vez em quando minha cabeleira hirsuta, que eu jamais confiaria aos barbeiros do Calçadão. Tia Nunum foi alegre, triste, jovem e velha, bela e contida, mas sempre cheia de amor para distribuir. Morreu no Natal, como Carlitos.
1818) Diálogos filosóficos (6.1.2009)

(Platão e Aristóteles, detalhe de A Escola de Atenas, de Rafael Sanzio)
Era uma tarde amena e primaveril na planície do Peloponeso, e dois filósofos pré-socráticos caminhavam pela estrada, esgrimindo suas dialéticas. Disse Empedóclito:“O conceito de ser, meu caro Herístocles, tem que necessariamente passar pelos sentidos. Posso te garantir, por exemplo, que aquela nuvem de poeira que se aproxima ao longe está sendo causada pelo rinoceronte que galopa no meio dela. Como poderia eu perceber as duas coisas, nuvem e rinoceronte, se não fosse dotado de visão?” Herístocles deu uma risada e contrapôs: “Eu poderia te desmentir de dez maneiras diferentes, caro amigo. Mas teus argumentos são tão fracos que me é muito mais divertido corroborá-los, mesmo sabendo que estão na pista errada. Porque ainda que fosse eu um cego, poderia perfeitamente perceber a aproximação do teu rinoceronte imaginário, devido ao rumor do seu tropel, e ao impacto do seu peso sobre o chão, que percebo através das minhas sandálias”.
“Concordas então,” disse Empedóclito, “que as mensagens dos sentidos são suficientes para atestar a realidade de um ser?” Ao que Herístocles retorquiu: “Nem de longe, caro amigo. Nossos sentidos nos enganam o tempo inteiro. No deserto, fazem-nos imaginar a proximidade de um oásis; e quantas vezes julgamos ouvir vozes humanas no grito de um pássaro ou ladrar de um cão!” Empedóclito insistiu: “Não podes negar, contudo, que este rinoceronte é real, e que se aproxima de nós!” “Como sabes que se aproximas?” “Ora, porque sua imagem aumenta a olhos vistos, bem como fica mais forte o ruído do seu galope”. “De fato, concordo, mas seria igualmente lícito imaginar que ele não galopa, apenas sapateia imóvel lá onde está, e que é seu corpo que cresce, torna-se mais volumoso e pesado, hipótese que responderá também pelo ruído mais forte de suas patas sobre a terra”.
Empedóclito enxugou a testa numa dobra da túnica, e sugeriu: “Vês aquele garoto que se banha no rio, ao longe? Será que um terceiro testemunho não poderia dirimir nossas dúvidas?” Herístocles deu de ombros: “Não creio. Em primeiro lugar, ele talvez registrasse apenas a existência de um rinoceronte cuja imagem diminuía, e cujos passos se tornavam menos audíveis. Algo que de modo algum coincide com nossa experiência, sendo mesmo o inverso dela.” “Mas claro,” disse Empedóclito, “se ele está do lado oposto, é natural que...”
Não pôde concluir sua frase, porque nesse instante o rinoceronte rompeu através dos dois com suas cinco toneladas de peso, mais que suficientes para esmagar qualquer dupla de filósofos, caso filósofos ali houvesse. Empedóclito e Herístocles constataram assim sua própria não-existência (pois de fato nunca existiram), ao passo que o rinoceronte, não-personalizado, não-específico, se impôs com seu peso arquetípico de conceito universal, e prosseguiu galopando. Platão, então um mero garoto a banhar-se no rio, viu tudo e nunca mais esqueceu.
1817) O Bálsamo da Amnésia (4.1.2009)

(Salvador Dali, Sonho Causado pelo Voo de um Inseto em Volta de uma Romã um Segundo Antes do Despertar)
Antonio desceu do ônibus perto do Colégio das Damas e atravessou a Praça da Bandeira, rumo ao Calçadão, para tomar um cafezinho antes de subir para o escritório. Uns motoboys discutiam aos berros. Ele parou (gostava de olhar briga à distância) e nesse instante o espaçotempo se fendeu e ele foi arrebatado por uma criatura lagartiforme, que prendeu entre os dentes a gola de seu casaco e começou a subir correndo uma escadaria de degraus larguíssimos, toda feita de mármore com incrustações de frutas cristalizadas. Enquanto o fazia, a criatura lhe explicava, com a outra boca, o princípio básico do Existencialismo sartreano: “A existência precede a essência,” dizia ela, “ninguém é nada a-priori, as pessoas e coisas surgem fisicamente, primeiro, e só depois tornam-se o que são”. Depositou-o aos pés de uma estátua em forma de adjetivo, fez com que beijasse seus doze pés, e disse: “Esquecerás tudo”.
Antonio atravessou a rua, entrou no Café São Braz e pediu um cafezinho. Enquanto mexia o açúcar deu de cara com Zé Alberto, que o convidou para participar de um bolão da Mega-Sena. “Já joguei muito dinheiro fora,” disse Antonio. “Se eu pudesse recuperar todo o dinheiro que já investi nessa besteira eu fazia minha independência econômica”. Conversaram futebol e estavam se despedindo à porta quando sob os pés de Zé Alberto surgiu uma abertura hexagonal e ele deslizou por um canal escorregadio, a uma velocidade espantosa, até ser despejado num enorme caldeirão onde dezenas de animais se debatiam aos gritos. O líquido do caldeirão começava a borbulhar. Zé Alberto brigou, nadou, esmurrou, conseguiu aproximar-se da borda e saltar, mas passava por ali um gancho de guindaste que o elevou até o Posto de Controle. O Controlador era um buldogue com três metros de altura que grampeava documentos com a boca. Olhou para Zé Alberto e diagnosticou: “Estás com uma válvula cardíaca defeituosa mas nunca o saberás porque não vais ao médico. Morrerás num dia 28 de julho, daqui a seis anos. Agora cai fora e me deixa trabalhar. Esquecerás tudo”.
Zé Alberto deu uma tapinha no ombro de Antonio e voltou devagar para a Lotérica; faltavam duas pessoas para completar o bolão. Nisso ele avistou Suely, tentou se esconder mas não pôde. “Bonito pra sua cara,” disse ela, cruzando os braços. “Fiquei plantada a noite toda, tomando chope sozinha”. Zé Alberto improvisou uma desculpa mas ela já sabia que ele tinha ido para o aniversário de Fátima. “Não me ligue mais, e vê se me esquece,” concluiu ela. Saiu andando, pisando com força, e desceu a Venâncio Neiva, sem rumo certo, só para dobrar uma esquina e sumir da vista dele. Estava furiosa. Em momentos assim, imagens monstruosas e delirantes passavam pela sua mente, sem que ela soubesse de onde vinham. Teve a sensação de que algo espantoso acabara de lhe acontecer e que esquecera quase tudo. Invejou a placidez desmemoriada dos rostos que passavam por ela e sumiam para sempre.
1816) Encontrado dentro de um livro (3.1.2009)

(marcador de livros da Idade Média)
Existe um curioso fetichismo em quem ama os livros, porque não só os livros, mas tudo quanto os cerca, parece capaz de despertar uma paixão reverente que tanto beira o êxtase religioso quanto roça o erotismo. Folheei certa vez numa biblioteca um tratado que estudava os farrapos de pergaminho usados pelos copistas medievais para marcar as páginas dos livros que estavam lendo. Eram meras tiras de “papel” com alguns centímetros de largura, mas quando tinham uma certa extensão era possível decifrar o que havia escrito nelas, e até mesmo deduzir de que tipo de texto haviam sido rasgadas. Cochilando durante séculos entre as páginas dos velhos alfarrábios, em mosteiros tipo “O Nome da Rosa”, esse modestos farrapos eram pacientemente descobertos, catalogados, examinados e descritos por um PhD qualquer, que apesar de seus muitos títulos acadêmicos certamente não achava estar se rebaixando ao estudá-los.
Agora vi no caderno de literatura do “New York Times” um curioso artigo de Henry Alford na mesma linha, “A Gente Nunca Sabe o Que Vai Encontrar num Livro” (http://www.nytimes.com/2008/12/21/books/review/Alford-t.html?_r=1&8bu&emc=bub1). Alford baseou-se nas suas próprias experiências e consultou outras pessoas, perguntando-lhes: “Qual foi a coisa mais esquisita que você já encontrou num livro?” As respostas variam, e diz ele que incluem desde uma fatia de bacon frito (encontrada pelo romancista Reynolds Price) até um bilhete, achado pelo dramaturgo Mark O’Donnell, com a intrigante advertência: “Não me escreva sob o nome de Gail Edwards, aqui eu sou conhecida como Andrea Smith”. Outros achados incluem uma bala de arma de fogo, o dente de um bebê, drogas, fotos pornográficas, e as inacreditáveis 40 notas de mil dólares achadas pelos funcionários de um sebo.
O músico Dan Zanes possuía uma foto raríssima do escritor J. D. Salinger, que nunca se deixa fotografar. A foto lhe fora dada por sua mãe, e ele a guardou num livro, tão bem guardada que há décadas não sabe mais onde está: “Com certeza não está em nenhum dos livros atualmente em minha casa”. Caso parecido é o de Sherman Alexie, que em sua época de universitário fazia farras homéricas, e, com medo de gastar tudo que tinha quando bêbado, adquiriu o hábito de esconder notas de 10 ou 20 dólares dentro dos livros, para achá-las meses depois.
O melhor, contudo, é a peça que Meg Wolitzer e uma amiga, quando estudantes, pregaram a algum rato-de-bibliotecas do futuro. Num pedaço de folha de caderno, imitaram a letra da escritora Sylvia Plath, escreveram uma bobagem sobre “uma redoma de vidro” (título de um livro da poetisa), envelheceram artificialmente o papel e o deixaram entre as páginas de uma obra de referência da biblioteca, para ser descoberto um dia. Certamente por algum pesquisador incauto que não lê nem o New York Times nem o Jornal da Paraíba.
segunda-feira, 22 de março de 2010
1815) Os subterrâneos dos maias (2.1.2009)

(subterrâneo em Chavín de Huántar)
As civilizações pré-colombianas são um livro semi-destruído do qual só foram lidas umas poucas páginas. Quando os primeiros exploradores chegaram a Macchu Picchu em 1911, o mundo se espantou diante das fotos daquela cidade em ruínas mas intacta, perdida entre a selva e as nuvens. Foi a última descoberta de grande impacto, mas desde então inúmeros outros mistérios vêm sendo encontrados e (às vezes) esclarecidos pelos arqueólogos.
Uma característica importante dessas culturas, que a cada década fica mais clara, é o uso que faziam de cavernas e subterrâneos, aproveitando a região montanhosa e cheia de cavidades. Arqueólogos descobriram este ano um complexo de cavernas submersas interligadas com túneis acima do nível da água, incluindo uma estrada subterrânea com cerca de 100 metros de comprimento, tida como o caminho para um reino mítico subterrâneo chamado Xibalba. De acordo com o Popol Vuh, livro sagrado dos maias, esse caminho vivia cheio de obstáculos, inclusive rios cheios de escorpiões, de sangue e de pus, além de habitações escuras cheias de morcegos. Penetrar ali equivaleria mais ou menos (penso eu) a descer fisicamente ao reino dos infernos.
Essas descobertas coincidem com pesquisas nas ruínas de Chavín de Huántar, nos Andes peruanos. O povo Chavín é anterior aos maias e aos incas. Seus templos cujas ruínas são agora exploradas foram construídos entre 1300 e 600 a.C., e foram terminados mais ou menos na mesma época em que Nabucodonosor estava construindo os Jardins Suspensos de Babilônia. Os pesquisadores descobriram um intrincado labirinto subterrâneo, com planos superpostos e numerosos túneis. As paredes internas têm imagens talhadas na pedra, e os efeitos acústicos do local são impressionantes. Os pesquisadores imaginam que uma cerimônia de iniciação da época consistia em fazer o indivíduo tomar um chá alucinógeno (cacto de São Pedro) e conduzi-lo no escuro através do labirinto de túneis, enquanto trombetas aproveitavam a reverberação das galerias para produzir um efeito aterrorizante.
William Burroughs, que estudou drogas “in loco” e tinha uma curiosidade específica pela cultura maia, confirma isto indiretamente. Para ele, a sociedade maia se baseava numa dominação completa da população por parte dos sacerdotes, que exerciam sobre o povo um poder quase hipnótico. A julgar pelo que diz Burroughs, o calendário e as drogas eram dois instrumentos cruciais da manutenção do poder. Os sacerdotes maias mantinham a população praticamente hipnotizadas pelo uso experiente desses recursos. A realização de festivais periódicos – que possivelmente incluíam experiências como as descritas acima – lhes dava um controle antecipado sobre a população. Os sacerdotes controlavam o calendário, forneciam drogas, aterrorizavam indivíduos-chave com experiência incompreensíveis, sugeriam estar de posse de super-poderes e em diálogo direto com deuses sanguinários. Precisa mais?
1814) “Na ponta do verso” (1.1.2009)

No Brasil há numerosas formas de poesia improvisada, geralmente com acompanhamento musical. Só aqui no Nordeste temos a Cantoria de Viola, o Coco de Embolada, o Aboio e outras. Todos esses gêneros já foram objeto de estudo em livros e ensaios, mas são raros, ao que eu saiba, os volumes que tentam dar uma visão geral em todas as nossas formas de improviso popular. Um volume saído recentemente é “Na Ponta do Verso”, editado pela Associação Cultural Caburé (cabure@cabure.org.br), do Rio de Janeiro. O livro foi precedido por uma série de espetáculos realizados no Centro Cultural banco do Brasil, no Rio, em que diferentes grupos de improvisadores se exibiram, em 2005.
Deixo logo claro o meu envolvimento com o projeto, pois sou o autor do ensaio sobre Cantoria de Viola que abre o volume. Os demais ensaios são: “Aboio: canto de trabalho e gênero poético”, de Maria Ingnez Ayala, da UFPB; “Samba novo: a poesia do maracatu de baque solto”, autoria conjunta do compositor Siba (do grupo “Fuloresta do Samba”) e de Astier Basílio, nosso coleguinha aqui do jornal; “Coco de embolada: mágica na palavra e no pandeiro” também de Maria Ignez Ayala; “Partido-alto: a receita do samba integral” do compositor e pesquisador Nei Lopes; “O calango fluminense” de Cáscia Frade; “Versos de improviso nas chulas de palhaços de folias de reis”, de Daniel Bitter; “Cururu paulista”, de Alberto Ikeda e “A pajada no Rio Grande do Sul” de Paulo de Freitas Mendonça.
Para completar, o volume de 172 páginas vem acompanhado de um CD com 16 faixas. Entre elas destaco um baião de sextilhas com Ivanildo Vila Nova e Sebastião da Silva, extraído dos shows do projeto no CCBB. O coco “Boi Tungão” com José da Silva Sobrinho e Manuel Fausto de Lima, é uma gravação de 1938 feita pela Missão Mário de Andrade em Sousa (PB). Da mesma missão cultural é a rara gravação de um martelo agalopado com Belarmino de França e Lourival Batista, feita também em 1938 em Pombal. Outra gravação histórica é o partido alto cantado por Clementina de Jesus e João da Gente, extraído de um disco de 1966. As demais gravações são de data recente, em discos ou apresentações ao vivo, e trazem, entre muitos outros, os mestres de maracatu Siba, João Paulo e Barachinha, e os partideiros Tantinho da Mangueira e Marquinho China.
Este é um excelente portal de acesso para uma coisa que mesmo no Nordeste há quem não veja de forma muito nítida: o Repente. O Repente, amigos, não é uma estrofe específica, não é uma melodia, nem um estilo de cantar ao som de um só instrumento. As formas são inúmeras, e de algumas delas este livro-CD dá uma amostra. Repente é o verso improvisado, composto ou recomposto em fração de segundo. O Repente é o relâmpago, o verso súbito. Pode até ter sido extraído da memória, mas isso acontece em função do momento: para responder ao verso do parceiro, para atender um pedido da platéia ou para reagir a um fato que acabou de acontecer.
1813) Resoluções, e agora é pra valer! (31.12.2008)

Todo dezembro anuncio minhas “Resoluções para o Ano Novo”. Ao reler, um ano depois, me deprimo. Meus objetivos são simplórios, acessíveis, mas por alguma razão cósmica sou incapaz de cumpri-los. Agora, é o momento de mudar de tática. O presente texto é um repositório de missões impossíveis, coisas que estou “por fazer” há muitos anos. Se eu conseguir cumprir pelo menos uma delas, 2009 não será perdido.
1) Ler Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, cuja leitura venho adiando há quarenta anos por achar que ainda sou jovem demais. 2) Juntar na poupança o dinheiro suficiente para comprar uma casa à vista. 3) Comprar um violão novo, com cordas de nylon. 4) Entrar para uma academia para fazer alongamento, correção de postura e um pouco de musculação. 5) Terminar de escrever um dos 14 romances que iniciei de dez anos para cá.
6) Conhecer a África, e de preferência ir às Pirâmides do Egito e penetrar numa de suas galerias. 7) Assistir as oito horas de Berlin Alexanderplatz de Fassbinder. 8) Gravar um CD, para ver se me deixam em paz. 9) Reduzir em pelo menos um terço a quantidade de pastas de papéis acumuladas no meu escritório nos últimos 25 anos. 10) Viajar pelo Cariri paraibano e pernambucano, o Epicentro da Cantoria, entrevistando poetas e gravando repentes. 11) Terminar de postar em meu blog (http://mundofantasmo.blogspot.com) os cerca de 1.800 artigos que já publiquei aqui no Jornal da Paraíba. 12) Conhecer a Ásia e de preferência andar alguns quilômetros pela Grande Muralha da China. 13) Escrever um livro sobre o Treze, o glorioso Galo da Borborema, rememorando as grandes jornadas, as vitórias sensacionais, os gols inesquecíveis, os episódios pitorescos.
14) Conhecer as estátuas da Ilha da Páscoa. 15) Visitar os Estados brasileiros onde nunca fui até hoje, de preferência Amazonas, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. 16) Comprar uma câmara e aprender a fotografar feito gente. 17) Escanear e tirar cópias de uma porção de fotos, papéis e documentos raros de família que por mais de uma vez escapei de perder para sempre. 18) Aprender a dar nó em gravata. 19) Escolher 12 óperas importantes, comprar os livros e CDs necessários, passar o ano escutando-as e lendo a respeito, para deixar de ser ignorante. 20) Fazer uma lista de alguns amigos e amigas que não vejo há mais de dez anos, e visitá-los.
21) Escrever um roteiro de um filme por minha própria cabeça, sem ninguém me dizendo o que pode e o que não pode fazer. 22) Reler o Dom Quixote. 23) Ler uma edição inteira das Mil e Uma Noites. 24) Conhecer Cordisburgo, o Morro da Garça e a Gruta de Maquiné. 25) Criar um moto perpétuo, equacionar a quadratura do círculo, forjar a pedra filosofal, produzir um software de tradução literária instantânea, moralizar a arrecadação de direitos autorais de música, dar um jeito em Campina Grande, na Paraíba e no Brasil. Por enquanto.
1812) “Os Intrusos” (30.12.2008)

("Saki", H. H. Munro)
A Sincronicidade, a ciência das coincidências significativas, implica na idéia de um campo semântico inconsciente, que nos empurra (sem que a gente perceba) na direção de informações que vibram em uníssono com o momento mental que estamos vivendo. Pode ser um estado de espírito passageiro, que dura algumas horas ou dias, e pode ser uma sintonia com áreas mais profundas, com o momento histórico que atravessamos.
Caiu-me sob os olhos, numa antologia, um conto que eu já lera mais em português, e cujo título em inglês (“The Interlopers” – “Os Intrusos, ou Os Intrometidos, ou Os Que Interferem”) não reconheci. O conto é de “Saki”, pseudônimo de H. H. Munro, um mestre britânico da história curta que morreu na I Guerra Mundial. O conto se abre narrando a rixa secular entre duas famílias nos Montes Cárpatos. Por causa uma imprecisão na demarcação da fronteira entre as propriedades, as duas famílias vivem se agredindo e se matando há gerações.
Certa noite tempestuosa, Ulrich Von Gradwitz percorre o bosque à procura de intrusos quando se defronta com seu inimigo histórico, Georg Znaeym. Mal os dois erguem as armas um contra o outro, um raio se abate sobre uma árvore próxima, que cai sobre os dois, machucando-os. Ulrich e Georg sobrevivem, feridos, presos sob os galhos, impossibilitados de se mover. Enquanto a tempestade prossegue, os dois começam por se amaldiçoar mutuamente, cada um deles dizendo que quando for encontrado cuidará para que o outro seja fuzilado. As horas passam. A tempestade cessa. Ulrich consegue tirar do bolso um frasco de vinho, do qual toma alguns goles que o reanimam. Oferece-o a Georg. O outro aceita.
Daí a pouco os dois estão conversando, tirando a limpo suas dúvidas, suas rivalidades, a longa história de ódio entre as duas famílias. E um deles faz a proposta: por que não acabar com tanta violência inútil? E se, quando forem salvos, chamarem suas famílias, explicarem o quanto aquela guerra é insensata? Ulrich e Georg se entusiasmam com essa possibilidade; e começam a gritar para atrair a atenção das pessoas que àquela altura certamente estarão, de um lado e do outro, à procura dos dois. Ouvem um rumor distante, e, à luz da lua, percebem vultos que correm na sua direção, cada vez mais próximos, atraídos pelos gritos. Georg pergunta: “São os meus homens? São os seus?” E Ulrich, com uma risada de desespero: “Não. São lobos”.
O que tem isto a ver com Sincronicidade? Tem o fato de que este conto me retornou durante estes dias em que as nações do mundo se debatem em desespero, tentando tapar rombos de trilhões de dólares que elas mesmas fizeram, nas suas concorrências e guerras insensatas. Vivem hoje um desastre que elas mesmas plantaram: a crise ambiental, a falência da produção de alimentos, e estão vendo a aproximação dos Lobos da Barbárie. Tomara que eu esteja errado, e que um dia, cofiando uma longa barba branca, possa murmurar: “Como eu era pessimista em 2008!”
1811) Alguns filmes de 2008 (28.12.2008)

O melhor filme de 2008 foi Não estou lá, de Todd Haynes, uma biografia fictícia de Bob Dylan através de meia-dúzia de personagens com nomes e histórias diferentes, que nunca se cruzam, interpretando fases de Dylan ao longo de suas sucessivas encarnações. Não é documentário, não é ficção: não é doc, não é fic. É um filme diferente de todos, magnificamente fotografado, e com interpretações notáveis, principalmente a de Cate Blanchett no papel de “Dylan em 1966”, que no filme se chama “Jude Quinn”. Já vi o filme três vezes e ainda não acertei um ângulo de abordagem para comentá-lo aqui nesta coluna; mas já que estou dando um balanço, fique o registro. Ah, falei na trilha sonora? Nem precisava.
Falar “o melhor filme” é de uma arrogância sem par, o cara dá a entender que viu todos os outros. Não vi nada. Nem os críticos profissionais vêem, quanto mais eu. Vou pouquíssimo ao cinema. Quando um filme me interessa, espero pelo DVD. Ainda assim, vi alguns bons lançamentos. Meu nome não é Johnny foi o melhor lançamento brasileiro que vi este ano. Não é um grande filme, no sentido de que o Encouraçado Potemkin e Deus e o Diabo...” são grandes filmes. Mas é um filme necessário para discutir uma das grandes questões do mundo: o fato de que metade da população urbana quer tomar drogas e a outra metade quer proibi-las. Além disso, tem uma direção segura, e grande interpretação de Selton Melo no seu estilo largadão/elétrico.
Já falei aqui sobre Across the Universe, aquele filme baseado nas canções dos Beatles. Na História do Cinema ele se situa mais ou menos naquela altura em que “Little Child” se situa no cancioneiro de Lennon e McCartney; mas é uma bela experiência áudio-visual acompanhar os novos arranjos e as ilustrações visuais de cada canção. Só o coloco na lista por ter sido um dos poucos filmes que vi mais de uma vez.
Juno, aquele filme sobre uma adolescente que fica grávida, foi um dos filmes mais simpáticos do ano. Já falei aqui sobre ele, comparando-o a Little Miss Sunshine: uma luz de esperança para um cinema americano que foge dos super-heróis em Som Dolby e 3.500 cópias. Um cinema que quer contar histórias simples e imprevisíveis sobre gente imprevisivelmente complexa, porque não há personagem mais simples que um Super-Herói, e ninguém mais complexo do que a filha adolescente do vizinho do lado.
O Gangster de Ridley Scott e Senhores do Crime de David Cronenberg foram dois policiais violentos e verazes, centrados em personagens sólidos, interpretados por Denzel Washington e Viggo Mortensen, respectivamente. A Culpa é de Fidel é um filme político de segunda geração, que em vez de se concentrar nas atividades revolucionárias dos pais registra a perplexidade dos filhos, que se sentem jogados para escanteio. Dirigido pela filha do para do cinema político, Costa-Gavras, tem uma função de ajuste de contas levada a cabo com discrição e sensibilidade.
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