sábado, 13 de março de 2010

1787) As palavras encantadas (30.11.2008)




(Machado, por Cláudio de Oliveira)


Guimarães Rosa dizia que as palavras tinham “canto e plumagem” como os pássaros; Olavo Bilac escutava na língua portuguesa instrumentos contraditórios: “tuba de alto clangor, lira singela”. Palavras têm um encantamento próprio e quanto mais mistério guardam mais poder sugerem. Pablo Neruda conta num poema como descobriu a palavra “orégano” e saiu a gritá-la pelas ruas, fazendo com que os leões se ajoelhassem com temor e espanto. Toda palavra é mágica quando a ouvimos pela primeira vez e não sabemos o que quer dizer. Muita tinta da USP já correu para nos tranquilizar a respeito de tutaméias e nonadas.

A FC tem suas palavras misteriosas. O romance de Robert Heinlein Um Estranho numa Terra Estranha conta a história de um marciano que, na Terra, usa a torto e a direito o verbo “grokkar” (“to grokk”), que não se explica a não ser pelo contexto. Grokkar exprime o ato em que sujeito e objeto se fundem numa única entidade mental. É um “comprender” que produz identificação total entre aquele que compreende e aquilo que é comprendido. É muito mais que isto, claro. A cada passo o marciano põe-se a grokkar de forma diferente. Quando beija as mulheres terrestres, todas se apaixonam pelo seu beijo. Por que? Porque ele grokka enquanto está beijando.

Na última linha do romance de A. E. Van Vogt As Casas de Armas, um alienígena, após uma complicada trama de enfrentamento com os terrestres, afirma sobre eles: “Essa é a raça que irá dominar o sevagram!” O romance se encerra com esta palavra misteriosa, que traz consigo doses maciças de estranheza e promessa. Foi descoberto depois ser um termo em Hindi para “vilarejo”, mas seu uso, fazendo encerrar um romance com uma incógnita algébrica, teve um tremendo impacto literário quando a história foi publicada (abril de 1943).

A palavra encantada pode ser simplesmente uma palavra velha num contexto novo. O conto de Machado de Assis “Caso da Vara” mostra um seminarista que foge do colégio contra a vontade do pai. E o texto diz a certa altura: “O pai ficou furioso e quis quebrar tudo; bradou que não, senhor, que o peralta havia de ir para o seminário, ou então metia-o no Aljube ou na presiganga”. Já pensou que ameaça mais terrível? Tenho certeza de que quando li este conto pelas primeira vez, aos dez anos, grokkei de imediato que tanto o Aljube quanto a presiganga deveriam ser sádicas punições da época.

Por razões mágicas, nunca as busquei num dicionário ou enciclopédia. Não quis me sujeitar ao anticlímax de que o Aljube fosse uma mera casa de correção (espécie de Febem) e a presiganga, talvez, um colar de ferro com correntes, que se aferrolhava ao pescoço dos escravos. Melhor nunca ficar sabendo, e deixar que as palavras valham pelo seu som e, mais ainda, pelo contexto de ameaça terrível que as envolve. Quando ameaçarem alguém, amigos, esqueçam o feijão-com-arroz. Engrossem o tom da voz e disparem uma palavra desconhecida. Faz muito mais efeito.




1786) A moral na FC (29.11.2008)



(Ursula Le Guin)

Na coluna de Roberto Causo no “Terra Magazine”(http://tinyurl.com/yf2zvhv)leio, a propósito de um romance de ficção científica militarista, esta citação de Ursula K. Le Guin: "Onde a FC mais freqüentemente fracassa como literatura, como boa escrita ou boa obra por qualquer definição, é na questão ética. Ela é inventiva, intelectualmente engenhosa, mas moralmente trivial; e portando falha, insensatamente, de ato em ato, de violência em violência. O que poderia ter sido dramático é meramente teatral, o que poderia ter sido imaginativo é uma fantasia estereotipada. Rocha e ferro, carne e sangue, se tornam brinquedos de plástico, e o Espaçotempo em si, o grande tema, encolhe para a mediocridade de um cenário de estúdio de TV."

Le Guin é a maior voz feminina da ficção científica, e olha que há muitas. Suas idéias são sempre sensatas, e poucas tanto quanto estas. De certo modo, LeGuin se aproxima do que Thomas M. Disch afirmou certa vez, que a ficção científica era um subgênero da literatura infantil. Isto levantou uma gritaria enorme nos arraiais da FC, mas o exagero de Disch era o exagero da caricatura, que aumenta e torna visível algo que já existia e era característico.

A FC é uma literatura típica de adolescentes quando visa à excitação da aventura, da intensa ação física, da curiosidade pelo desconhecido, do questionamento intelectual do tipo “quem somos, de onde vimos, para onde vamos”. Tais desafios são típicos da adolescência, tanto quanto a socialização, a inserção em grupos, a arte de conviver em tribos. Há uma parte considerável da FC cujas histórias, personagens e heróis se voltam para essa faixa mental (não chamo de “faixa etária” porque isso se prolonga até a velhice).

As revistas de FC nos anos 1930 pareciam os video-games de 2000. O excesso de ação física e violência se sobrepõe às escolhas morais, que se tornam rasas, oportunistas, imediatistas, egocêntricas. Os video-games ensinam a crueldade sem ensinar a coragem. A coragem só pode ser aprendida diante de desafios e perigos reais, situações que exijam sacrifícios dolorosos e responsabilidades verdadeiras. Algo ausente nos jogos, onde pode-se inclusive morrer e começar tudo de novo, como se a própria morte nunca tivesse ocorrido.

A sem-cerimônia com que a violência é tratada na FC de hoje tem origem nisto. Escritores jovens e talentosos, filhos da classe média, que nunca tiveram que enfrentar problemas de sobrevivência, de adaptação num meio hostil, nunca tiveram que começar a trabalhar cedo, nunca fizeram grandes sacrifícios... E eles se divertem falando de canibalismo, mutilações, massacres, serial-killings, tortura e assim por diante. Vivem num mundo virtual, na proteção de um apartamento em condomínio. Temem a violência, porque se sabem despreparados para enfrentá-la. E a exorcizam através de jogos ou livros em que parecem estar gritando: “Eu não tenho medo disso! Eu não tenho medo disso!”

1785) O custo da farra financeira (28.11.2008)



No saite BoingBoing, Cory Doctorow transcreve uma interessante analogia preparada por Barry Ritholtz (ver em: http://www.boingboing.net/2008/11/25/bailout-costs-more-t.html) sobre os valores numéricos da crise atual. Ele compara esta crise com uma série de grandes investimentos ou grandes prejuízos financeiros do passado, sempre comparando o dólar da época com o de hoje, e fazendo a devida correção monetária. Tudo isto, diz Ritholtz, para nos dar uma idéia do que significa “um prejuízo de 4,62 trilhões de dólares”.

Segundo ele, o Plano Marshall (ajuda financeira dos EUA para reconstrução da Europa após a II Guerra Mundial), custou 12,7 bilhões de dólares na época, que seriam 115,3 bilhões em moeda de hoje. A compra do estado da Louisiana, nos EUA, por 15 milhões de dólares da época, teria custado, hoje em dia, 217 bilhões. A corrida espacial para a Lua (36,4 bilhões) custou em moeda de hoje nada menos do que 237 bilhões de dólares. A Guerra da Coréia custou 54 bilhões, o que seria hoje algo em torno de 454 bilhões. A crise da poupança e dos empréstimos dos anos 1980 nos EUA (“Savings & Loan Crisis”) resultou num prejuízo de 153 bilhões de dólares pagos pelo contribuinte norte-americano, que seriam cerca de 256 bilhões em moeda de hoje. E tem também o “New Deal” do Presidente Roosevelt, para tirar o país da Grande Depressão dos anos 1930: o governo gastou na época 32 bilhões, que hoje chegariam a mais ou menos 500 bilhões.

Não pára por aí. Vamos somar a essa lista a invasão do Iraque, com um custo de 551 bilhões de dólares, que seriam 597 bilhões com o ajuste financeiro. Vamos somar a Guerra do Vietnam e seus 111 bilhões, que hoje em dia representariam 698 bilhões de dólares. E o custo da NASA (o jornalista não explica se isso é o custo total de todos os programas da NASA ou apenas as despesas operacionais, mas vá lá), num total de 416,7 bilhões, que corrigidos resultariam em 851,2 bilhões de dólares.

Parece muito dinheiro gasto, não é? E gasto em empreendimentos titânicos, que muitas vezes se estenderam ao longo de décadas. Pois bem: Ritholz diz que tudo isto, somado, não se compara ao que o mundo gastou nos últimos meses para pagar o prejuízo causado pela especulação financeira, pela “bolha de prosperidade”, pela “nuvem de dinheiro” que circulava o planeta, chovendo onde lhe dava na telha. Todos estes empreendimentos acima, somados, chegam apenas a 3,92 trilhões de dólares. São empreendimentos de porte gigantesco, que mudaram a história dos EUA e de outros países (Iraque, Coréia, Vietnam) e em alguns casos a história da Humanidade inteira, como o programa espacial. E tudo isto somado não consegue se igualar aos tais 4,62 trilhões de dólares que o conto-do-vigário neo-liberal fez evaporar, e que nós todos iremos pagar do nosso bolso nos próximos anos.

Pois é. Eu vivi para ver o fim do Comunismo, e nunca pensei que veria o fim do Capitalismo logo a seguir. Bem feito para os dois.

1784) Lendas Urbanas (27.11.2008)




Lendas Urbanas não passam de uma adaptação das lendas rurais, do mecanismo de invenção de histórias absurdas que há milênios funciona em regiões onde todos os contatos são face-a-face e toda a troca de informação é por via oral. 

A Lenda Urbana é um folclore adaptado, um mecanismo que se transplanta do campo para a cidade, confortavelmente instalado nos neurônios de gerações de migrantes. 

Na cidade os temas são outros, os ambientes, os personagens; mas a mecânica de criação de história é a mesma. “Mutatis mutandis”.

Isto não quer dizer que o meio urbano não interfira no mecanismo. 

Uma das minhas Lendas Urbanas favoritas é a história dos bombeiros que estão apagando um incêndio florestal numa montanha e encontram ali o cadáver semi-carbonizado de um mergulhador, com óculos, pés-de-pato e tanque de oxigênio. 

A explicação: os helicópteros de combate ao fogo iam até o litoral e desciam até o mar uma caçamba metálica, que enchiam de água para despejar no incêndio. Uma dessas caçambas “engoliu” o mergulhador e veio despejá-lo no fogaréu.

O que há de fascinante nessa Lenda Urbana é aquilo que os surrealistas chamavam de “dépaysement”, deslocamento, junção inesperada de duas coisas distantes, ou a colocação súbita de um elemento num ambiente totalmente distante dele. 

Encontrar um mergulhador carbonizado numa floresta de montanha é como a famosa cena visualizada por Lautréamont, “o encontro de um guarda-chuva e uma máquina de costura em cima de uma mesa de dissecação”. 

O alto grau de improbabilidade da cena parece conspirar em favor de nossa crença. É como se disséssemos; “Não, uma coisa tão fantástica não poderia ter ocorrido a uma mente humana! Somente a realidade pode produzir paradoxos desse tipo.”

E eu completaria: somente a realidade urbana, em que paradoxos desse tipo (só que em grau menor de excentricidade) podem ser observados todos os dias, desenvolvendo em nós uma sensibilidade especial para (e uma aceitação tácita de) tudo que é bizarro, incongruente, ou meramente exótico. 

Simplificando muito uma realidade complexa, a gente pode dizer que o mundo rural é bem homogêneo em seu aspecto social e humano, e heterogêneo no que diz respeito à natureza, a eterna fonte de surpresas e de fatos extraordinários. 

No mundo urbano, é o contrário – o ambiente da cidade, em si, é algo aparentemente sob controle, planejado, criado por urbanistas e engenheiros, e é na fauna humana e nas suas infinitas recombinações culturais que reside o laboratório das surpresas.

Segundo Jon Brunvand, pesquisador de lendas urbanas, muitas delas surgem da criatividade de um sujeito que vê algo acontecendo e pensa: “E se...?” E se esse helicóptero que estou vendo no “Jornal Hoje”, pegando água do mar, recolhesse um mergulhador? 

A vida urbana, com seus bilhões de possibilidades combinatórias, nos dá o começo quase pronto de uma história bizarra. Basta apenas a gente inventar o final.







sexta-feira, 12 de março de 2010

1783) Por que celular não vai dar certo (26.11.2008)



(um celular steampunk)

Historiadores do futuro, de meados do século 21, descobriram nos arquivos da Nokia Corporation, no Japão, um curioso documento datado das últimas décadas do século 20, quando tiveram inícios as pesquisas para a criação do telefone celular. Um grupo de trabalho examinou as propostas dos técnicos, chegou à conclusão de que a idéia de um telefone pessoal portátil era inviável, e deu as suas justificativas.

1) Portabilidade. As pessoas têm resistência a conduzirem mais e mais objetos consigo. A tendência do futuro é que as pessoas andem leves, sem sobrecarregarem seus bolsos e suas bolsas com um número excessivo de objetos. Além do mais, seria impraticável conduzir consigo, durante um dia inteiro, um aparelho que só vai ser usado poucas vezes. Ele acabaria sendo visto como um trambolho. Pessoas tenderiam a esquecê-los em mesas de reuniões ou de restaurantes, no cofre do carro, etc.

2) Invasão. Um telefone conduzido o tempo inteiro pelo próprio usuário acaba se transformando num meio de vigilância, permitindo que ele seja rastreado sem parar. Os conceitos modernos de individualismo se rebelam contra essa vigilância “Big Brother”, que é uma ameaça à liberdade individual. Será muito mais prático multiplicar o número de telefones públicos (“orelhões”) para que os usuários possam recorrer a eles sempre que necessário.

3) Sobrecarga dos sistemas. Nenhum sistema de telecomunicação conseguirá administrar a complexidade dos roteamentos necessários para manter conectado um telefone móvel. Suponhamos um casal que more em cidades diferentes (com celulares locais) e que esteja de visita a um terceiro lugar. Se A ligar para o telefone de B, a ligação terá que percorrer um trajeto do celular de A para uma estação em C (a cidade onde estão), de onde a chamada será direcionada para a central de A, de onde irá para a central de B, que em seguida contactará uma estação em C, que daí completará a chamada no celular de B. Multiplique-se isto para alguns milhões, e teremos o caos.

4) Preço. Aparelhos multi-funcionais deste tipo, conduzidos na rua junto ao corpo do usuário (bolsos, etc.) serão alvo preferencial de ladrões, por serem objetos relativamente pequenos e muito caros. Usuários de tais telefones terão que andar armados, além de pagarem seguros caríssimos para as hipóteses de roubo ou perda.

5) Complexidade. Existe a sugestão de que os telefones pessoais exerçam múltiplas funções: relógio, câmara fotográfica, transmissor de mensagens de texto, etc. Isto irá requerer que cada usuário faça cursos intensivos de habilitação para poder dominar técnicas tão diferentes e complexas. A mudança de comandos a cada mudança de função requer treinamento, concentração e rapidez, o que é muito difícil de adquirir sem um treinamento profissional e dispendioso. A situação é ainda mais grave no caso dos usuários jovens, cujo baixo limiar de atenção lhes vetará o uso de tais aparelhos.

1782) Dawkins versus Harry Potter (25.11.2008)


O professor Richard Dawkins é um cara que gosta de pegar briga pesada. Recentemente escreveu um livro contra Deus (A Ilusão de Deus). Agora, não satisfeito, foi mais longe e resolveu enfrentar Harry Potter. 

Numa entrevista recente, Dawkins protestou contra o que ele acredita serem hábitos nocivos que os livros de J. K. Rowling estão disseminando entre os jovens, os quais, segundo ele, “estão sendo criados no hábito de acreditar em feiticeiros e encantamentos”. “O livro que vou escrever no ano que vem,” disse Dawkins, “será um livro destinado às crianças, mostrando-lhes como refletir sobre o mundo, e mostrando o contraste entre o pensamento científico e o pensamento mítico”. 

Se for apenas isto, estou de acordo, porque pensamento científico e pensamento mítico são duas coisas muito diferentes, e que precisam ser identificadas com clareza. O nó da questão, no entanto, é que Dawkins provavelmente vai dizer no seu livro que o pensamento científico é o único que está certo, e o pensamento mítico está errado. É justamente nessa bifurcação que eu divirjo e discrepo do nobre pensador. 

O pensamento científico nos serve para entender o mundo material que nos cerca. As ciências que cultivamos deveriam ser chamadas de Ciências da Matéria, porque afinal não é de outra coisa que tratam. 

O pensamento mítico, por outro lado, trata das Ciências da Mente, um domínio totalmente diverso. Elas funcionam de outro jeito, e manipulam outros parâmetros. Dawkins talvez seja (espero não estar sendo injusto com o professor) um desses caras para quem a palavra grega “mito” significa “mentira”, e este simples fato torna desnecessário qualquer estudo a respeito. Se é mentira não é verdade, e se não é verdade, para que perder tempo com isto?! 

O professor ficaria surpreso se visse que grande parte dos garotos que lêem Harry Potter e suas aventuras feiticeiras também lêem autores de ficção científica como Isaac Asimov. As duas mentalidades não apenas podem coexistir, como a literatura é justamente o melhor espaço para essa coexistência. 

A literatura imaginativa desperta a curiosidade de garotos e garotas a respeito do mundo da matéria, do mundo da mente, do mundo dos átomos, do mundo da mitologia. Garotos e garotas inteligentes lêem com o mesmo prazer livros sobre feitiçaria e sobre espaçonaves, livros sobre cavaleiros medievais e sobre robôs. Para eles, tudo pertence ao mundo da imaginação, pertence às fronteiras da realidade. Se umas coisas funcionam na vida prática e outras não, qual é o problema? É de literatura e de imaginação que estamos falando. 

Dawkins me parece às vezes um Inquisidor ao contrário, um sujeito que está numa cruzada ateísta para banir a religião do mundo mesmo que seja à base de fogueira e Santo Ofício. Um procedimento nada científico, professor. Nada científico. Me dá às vezes a impressão de que ele sofreu algum tipo de enfeitiçamento, mas, cala-te boca.





1781) A liberdade de expressão (23.11.2008)



No ginásio, nas aulas de Ciência, surgia de vez em quando esta questão perturbadora: “O que acontece quando uma Força Irresistível encontra um Obstáculo Inabalável? Quem ganha?” Uns votavam numa, outros votavam no outro. Alguns tentavam ser salomônicos dizendo que o Obstáculo “balançava mas não caía”. (Uma variante do mesmo problema envolvia um Solvente Universal e um Recipiente Invulnerável.) Até que um dia um professor nos sugeriu considerar o seguinte: uma Força Irresistível e um Obstáculo Inabalável não podem existir no mesmo universo. A existência de um elimina o outro. Se existir uma Força Irresistível, nenhum obstáculo será inabalável, e vice-versa.

Existem casos, contudo, em que um termo entra em contradição consigo mesmo. É o caso desta misteriosa condição chamada “liberdade de expressão”. É uma noção que em princípio conta com a aprovação de qualquer pessoa – mas quando vamos pô-la em prática vemos que na medida em que aumenta a liberdade de expressão de A diminui a de B.

Sempre que coloquei em público esta questão apareceu alguém para dizer de imediato: “Então quer dizer que o sr. é contra a liberdade de expressão?” Este é a típica generalização apressada de quem só entende uma questão radicalizando-a em dois extremos. Não se trata de “ser contra” a liberdade de expressão, mas de reconhecer que ela tem limites por sua própria natureza. Não existe uma utópica e fantasiosa “liberdade de expressão universal e permanente”. Tudo que se ganha de um lado se perde do outro.

Como muita gente só entende imagens exageradas, costumo propor a seguinte questão: “O que é pior – a Censura ou o Nazismo?” Porque ou você tem uma coisa, ou tem a outra. Se você é a favor da liberdade de expressão, tem a obrigação moral de garanti-la também para essa rapaziada que tatua suásticas no bíceps, espanca nordestinos e judeus, e prepara atentados contra Barack Obama. Caso você seja um defensor da liberdade de expressão, precisa concedê-la a esses caras, para que se expressem, publiquem livros e artigos, façam comícios públicos, criem canais de TV divulgando suas idéias, elejam deputados e senadores, promulguem leis a seu favor, coloquem no currículo das escolas públicas cadeiras explicando que o Holocausto foi uma farsa.

Eu, por exemplo, não concordo com essas idéias. Acho que são prejudiciais à convivência pacífica entre as pessoas, e, portanto, sou a favor da Censura contra elas. Por mim, devem ser proibidas. Outras idéias com as quais não concordo – a Numerologia, a Teoria da Atlântida, etc. – me parecem inofensivas e não vejo razão para censurá-las.

Todo mundo é assim. Todo governo, todo cidadão. Permitimos aquilo que aprovamos e aquilo que nos parece irrelevante mas inofensivo; e censuramos o que faz mal. Liberdade universal de expressão não pode existir numa sociedade onde pessoas diferentes defendem idéias diferentes. Sempre vai haver uma idéia tão perigosa que alguém vai achar preciso proibir.

1780) “A Ilha dos Mortos” (22.11.2008)




Não sei o que é mais fascinante, se uma obra literária que nos evoca a impressão de um sonho, ou se uma pintura que consegue o mesmo efeito. 

“A Ilha dos Mortos” é um quadro de Arnold Böcklin que tem no campo do Fantástico uma posição parecida com a de “O Grito” de Edward Munch ou “Duas Crianças Ameaçadas por um Rouxinol” de Max Ernst, ambos já comentados nesta coluna. 

O quadro de Böcklin surgiu de uma idéia recorrente que fez o pintor produzir cinco versões sucessivas, entre os anos de 1880 e 1886. Das cinco, uma (a quarta) foi destruída durante a II Guerra Mundial, e as demais encontram-se em museus de Nova York, Basiléia, Berlim e Leipzig. Elas podem ser admiradas e comparadas no verbete da Wikipedia, em: http://en.wikipedia.org/wiki/Isle_of_the_Dead_(painting).

Trata-se de uma ilha rochosa que emerge abruptamente do oceano, com enormes paredões de pedra que parecem traçar um semi-círculo, tendo no seu interior um bosque de ciprestes negros que se erguem a imensa altura. Nos paredões, vemos as entradas de câmaras mortuárias escavadas na rocha. Diante do bosque, vêem-se os degraus de um atracadouro, para onde se dirige um barco com duas figuras humanas (um barqueiro, sentado, e um vulto de pé, envolto num sudário branco) e à frente deles um ataúde branco com guirlandas de flores vermelhas.

O quadro sugere um sonho ominoso, e não um pesadelo de terror propriamente dito. Há uma sensação opressiva de morte já ocorrida, não de ameaça. A ilha-cemitério surge da água como que do nada, sem outra função senão a de receber os corpos que para lá são transportados. É uma ilha sem praias, sem relva, sem vida: apenas um bosque de ciprestes sepulcrais, rodeado por penhascos rochosos onde alguém escavou imensas criptas. 

Em duas versões mais recentes, uma cripta do lado direito traz as iniciais do pintor, “A.B.” E o barco que chega parece trazer para ali uma alma que acompanha o sepultamento do próprio corpo.

O verbete da Wikipedia cita os personagens famosos que tiveram fascinação por este quadro (Sigmund Freud, Adolf Hitler), e numerosas obras literárias que se diz serem parcialmente inspiradas nessa paisagem, como A Invenção de Morel de Bioy Casares e alguns contos de J. G. Ballard. 

O escritor britânico Ian McDonald tem um conto intitulado “The Island of the Dead” que certamente também se inspirou nele. 

O quadro de Böcklin tem estranheza bastante para gerar significados contraditórios e mutuamente estimulantes – quanto mais pensamos nele como um quadro triste mais o achamos belo. Quanto mais é amedrontador, mais nos transmite uma impressão de paz e repouso. Isto é intensificado pelo fato de existirem diferentes versões do quadro – uma é diurna, outra é noturna, uma tem um céu tempestuoso, o céu da outra é uniforme... É o retrato de um portal para o Além e, como tudo que não pertence ao mundo da matéria, está diferente a cada vez que o fitamos.





1779) A palavra “aventura” (21.11.2008)



Sempre me foi difícil explicar o que seria o “romance de aventura”, um desses gêneros literários que a gente sabe intuitivamente o que é, mas não consegue definir com precisão científica. Não é fácil dizer o que têm em comum clássicos do gênero como A Ilha do Tesouro de Stevenson, As Minas de Salomão de Haggard, Robin Hood de autor anônimo, Cinco Semanas num Balão de Julio Verne, Os Três Mosqueteiros de Dumas, Scaramouche de Rafael Sabatini, Na Terra do Mahdi de Karl May...

Um dia uma voz me segredou: “Procure na etimologia. Qual era o significado mais antigo, o que fez surgir a palavra?...” Meu Dicionário Houaiss lista uma porção de fósseis linguísticos e chega ao latim, com o verbo “advenire”, que quer dizer: “chegar, sobrevir”. Vejam bem, trata-se de algo que “ad + vem”, algo que se aproxima de nós, que vem na nossa direção. Aventura é qualquer situação em que não somos totalmente donos do nosso destino, em que nos submetemos ao imprevisto, ao que não podemos controlar, ao que pode nos advir a qualquer momento.

A palavra contém também “ventura”, cujo sentido mais imediato é “boa sorte”. Dizemos: “Tive a ventura de nascer numa família de bons princípios...”, não é mesmo? “Ventura” também tem origem no verbo latino “venire”, vir. São as coisas que vêm até nós, tudo que nos advém, que nos sobrevem. (E a esta altura da Reforma Ortográfica já não sei se tais verbos se acentuam ou não). Mas “ventura”, no sentido de sorte, parece vir (mesmo que não venha) de alguma raiz latina de onde nos vem a palavra “vento”. Porque o vento é uma das mais antigas imagens do imprevisível, do que muda sem avisar, do que pode ser favorável num instante e desfavorável no outro, tudo de que dependemos (se somos navegadores antigos, em barcos à vela, trirremes, caravelas, galeões, jangadas) para viver ou morrer.

Viver uma aventura significa estarmos expostos aos ventos, dependentes de forças além da nossa vontade, do sopro de deuses invisíveis que podemos apenas cortejar, engambelar com sacrifícios, subornar com orações. A aventura é essa corda-bamba entre nosso livre arbítrio e um Destino imprevisível e indecifrável. E significa (porque a palavra tem raízes também em “venturum”, vindouro, fato futuro, fato que ainda não aconteceu) estar à mercê de um futuro que talvez já exista, um Destino que esteja vindo ao nosso encontro sem que ainda possamos saber do que se trata.

O romance de aventura se constelou em torno de imagens (balões, piratas, perseguições, espadachins, cavalgadas, tiroteios, viagens, expedições a lugares remotos) que dizem respeito às sociedades e culturas em que foi criado e escrito. No sentido mais amplo, contudo, romance de aventura é todo aquele no qual o autor nos transporta para um mundo onde tudo é possível, qualquer coisa pode acontecer. Um mundo (é curioso!) mais parecido com a vida, cada vez mais imprevisível, do que com a literatura, hoje tão convencional.

quinta-feira, 11 de março de 2010

1778) Os títulos mais estranhos (20.11.2008)




Entre as coisas inúteis que coleciono estão os livros com títulos excêntricos. Alguns são excêntricos porque são criativos, e pertencem a obras literárias notáveis. 

Exemplos que me ocorrem ao acaso são O acrobata pede desculpas e cai de Fausto Wolff, Que pequena bicicleta de guidom cromado no fundo do corredor? de Georges Perec ou Será que os andróides sonham com carneiros elétricos? de Philip K. Dick. 

Mas alguns são excêntricos porque seus próprios autores são fora-de-esquadro.

Vai daí que algum tempo atrás descobri a existência de um prêmio, o “Diagram Prize for Oddest Book Title of the Year”. O prêmio existe há 30 anos, e para celebrar a data foi publicada uma antologia de concorrentes e vencedores, sob o título (extraído de um dos premiados) de Como Evitar Grandes Navios. 

O livro reproduz em fac-símile as capas dos concorrentes. Quem quiser saber mais dê um pulo aqui:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Diagram_Prize_for_Oddest_Title_of_the_Year

Como diz o organizador, Philip Stone, “existe um alegre fascínio na fascinação do próprio público por algo que seja único e excêntrico”. Horace Bent, o curador do prêmio, recorda com carinho o primeiro livro a ser premiado: Atas da Segunda Oficina Internacional sobre Ratos Nus. 

Muitos títulos malucos acontecem porque seus autores (às vezes de mentalidade excessivamente técnica) estão tão concentrados no próprio livro que esquecem o mundo em volta. Não se apercebem das nuances ou dos duplos sentidos que eles venham a apresentar. É o caso de Estruturas Rígidas de Alto Desempenho (vencedor em 2000).

Títulos malucos podem corresponder a assuntos fora do comum, a mau gosto, a irrelevâncias, a expressão defeituosa. 

Na edição mais recente do prêmio, três concorrentes se afunilaram na reta de chegada: Problemas de Queijo Resolvidos e Eu fui Torturado por uma Rainha do Amor Pigméia acabaram sendo derrotados por Se Você Quer Encerrar Sua Relação, Comece Fechando Suas Pernas. 

O histórico dos últimos trinta anos nos presenteia algumas jóias como:

A Alegria das Galinhas 

A Madame como Empresária: Administração de Carreira em Casas de Prostituição 

O Livro da Marmelada: seus Antecedentes, sua História e seu Papel no Mundo de Hoje

Assuntos médicos ou psicológicos geram coisas surpreendentes como Manual de Segurança para o Sadomasoquismo Lésbico ou Sadismo Oral e a Personalidade Vegetariana. Ao passo que a auto-ajuda se expande rumo a novos horizontes em: 

A Arte de Rolar no Sentido do Comprimento 

Aumento Natural do Busto: Como Aumentar os Outros 90% de sua Mente para Aumentar o Tamanho dos Seus Seios 

Pessoas Que Não Sabem Que Estão Mortas: Como Elas se Agarram a Transeuntes Desprevenidos, e o que Fazer a Respeito Delas 

Como Defecar no Mato: Abordagem Ambientalista de uma Arte em Extinção. 

Enfim, amigos – mesmo depois de terminado o livro, as possibilidades, como sempre, são infinitas.