sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

1614) O cordel do futuro (15.5.2008)



Muito se fala nas futuras encarnações da literatura de cordel, neste tempo de computadores, internet, etc. Prefiro falar nas futuras encarnações do Romanceiro Popular Nordestino, que é o conjunto de histórias em versos a que chamamos de “literatura de cordel” por mera analogia material com o formato gráfico usado para publicar esse Romanceiro desde que Leandro Gomes de Barros começou a publicar seus primeiros folhetos no Recife, nos anos 1890. O Romanceiro usou os folhetos de cordel, mas não depende deles. Longa vida aos folhetos, é o que desejo; mas o Romanceiro já existia antes dos primeiros folhetos serem impressos. Não devemos confundir um conjunto de obras literárias com o formato gráfico preferido para sua disseminação e comercialização. São duas coisas diferentes.

Pensemos nos folhetos jornalísticos, por exemplo, nos famosos folhetos de reportagem e comentários aos fatos da atualidade: um crime célebre, a morte de alguém famoso, a eleição de um político, a conquista de um campeonato no futebol, etc. Folhetos assim fizeram a fama e a fortuna de numerosos cordelistas, porque, em termos da palavra impressa, mais rápido do que o cordel só mesmo os jornais diários. No auge do cordel, que foi mais ou menos entre as décadas de 1930 e 1950, se morria um figurão no domingo podia-se ter como certo que na segunda-feira já haveria folheto sendo vendido na rua, versando toda a história.

O que me traz a esse conceito tão usado nos tempos da Internet: “tempo real”. Duas coisas ocorrendo simultaneamente em espaços diferentes. O ideal de um “poeta repórter” (como se auto-intitulava o pernambucano José Soares) seria poder colocar o folheto na rua mal o fato tivesse acabado de ocorrer, ou, no caso de fatos contínuos (uma guerra, p. ex.) fazer a cobertura à medida que novos eventos fossem se sucedendo.

Imagino que no ano 2050 o Poeta Repórter será um cara jovem, articulado, bem informado, com um saite onde ele comentará em versos os principais acontecimentos. Um saite como o do jornalista Ricardo Noblat, em Brasília. No auge do escândalo do mensalão, o saite de Noblat (cuja cobertura dos fatos, e opinião sobre eles, todo mundo queria saber) chegou a ter dezenas de milhares de acessos por dia. Noblat conhece cordel (tenho em meus arquivos um artigo seu dos anos 1970). Esse repórter do ano 2050 será um Noblat que sabe fazer versos na hora, com um olho no Plantão do Jornal Nacional e outro no teclado, onde batuca as sextilhas à medida que as informações se sucedem.

No Brasil inteiro, em lan-houses, residência, escolas públicas, a rapaziada jovem acessará o saite desse Poeta Repórter do Futuro sempre que precisar de um comentário mordaz e agudo sobre o que está acontecendo – e um comentário em versos, que é o diferencial do cordel. Um poeta talentoso e rápido poderá fazer folhetos eletrônicos em tempo real, sem papel, sem tinta. Uma futura encarnação muito bem vinda, e, quem sabe, inevitável.

1613) A literatura e a imaginação (14.5.2008)



(Spellbound, de Hitchcock)

Toda leitura exige um esforço de imaginação. O simples fato de você enxergar estes insetozinhos pretos na página do jornal e imaginar que estamos dialogando é uma prova do quanto a ficção é necessária para acessarmos a realidade.

A gente lê na manchete do jornal: “Furacão mata dez mil pessoas em Myanmar”. Que gigantesca ficção mental temos que montar para entender esta frase!

Primeiro, temos que imaginar um furacão, que nunca vimos ao vivo (eu pelo menos não). Nossa referência sobre ele são algumas imagens desfocadas na TV.

Depois temos que imaginar o que são dez mil pessoas, dez mil seres humanos. Eu acho impossível imaginar com um mínimo de nitidez dez mil indivíduos, dez mil rostos, dez mil nomes, dez mil biografias. O que fazemos? Eu, pelo menos, visualizo uma poeira de pontinhos pretos espalhada sobre um mapa.

E finalmente temos que imaginar o que é Myanmar, um país que mudou de nome há algum tempo e que eu conhecia pelo nome anterior. Não faço a mínima idéia de onde fica. Como dizia a tia de Quaderna, “deve ser longe como o diabo, ali por perto da Turquia, já quase na beira do mundo!”

Será, amigos, que a imagem mental que me produz aquela manchete é igual à sua? Duvido que seja, e que duas pessoas imaginem uma mesma coisa do mesmo jeito. Cada um de nós produz ficções mentais sobre tudo que lê e imagina.

E quantas vezes, ao nos depararmos em carne e osso com uma pessoa ou um local de quem ouvíamos falar, verificamos que “não é como imaginávamos”! Quando a imagem do nosso arquivo mental é desmentida pela dura realidade, sentimo-nos quase ofendidos, como se alguém estivesse nos chamando de mentirosos.

Muitas experiências turísticas redundam em desapontamento quanto o turista abrigava em si imagens mentais meio fantasiosas. Para não falar em namoros por correspondência.

Por isso me surpreendo quando alguns amigos me dizem que não conseguem ler ficção científica porque não conseguem visualizar o planeta Trantor de Asimov, ou a cidade futurista de Nessus, de Gene Wolfe. Não obstante, esses meus colegas lêem Homero, lêem Cervantes, lêem Tolstoi. Quantos já terão visto uma trirreme, um moinho de vento, uma estepe nevada?

Imaginar é tudo. Quem rejeita a literatura imaginativa, rejeita o fenômeno literário por inteiro. Quem duvida de Flash Gordon tem que duvidar também de Madame Bovary. Quem recua diante de um futuro “cyberpunk” deveria recuar também diante dos castelos de Proust.

A imaginação criativa não é necessária apenas para ler e escrever os contos de Andersen ou os romances de Kafka: ela é necessária também para ler livros de História do Brasil, relatos jornalísticos sobre a Guerra do Iraque, romances realistas.

Se uma literatura específica exige mais da nossa imaginação, é porque ainda temos o que aprender, ainda temos o que crescer como leitores. A ficção científica está aí para isso mesmo – para que possamos imaginar o mundo real e enxergá-lo melhor.








1612) A pisa do Flamengo (13.5.2008)



Ainda estou tentando digerir a pisa de 3x0 que o Flamengo levou do América do México, no Maracanã, semana passada. Como um avestruz tentando digerir um bloco de mármore. Demora a descer, mas desce. O pior da demora é que o bloco não é esférico, é cheio de eriçamentos e anfractuosidades, como uma estrela-do-mar, por isso leva anos para descer. A derrota da Seleção Brasileira na Copa de 2006, por exemplo, não desceu ainda, e como as duas estão enganchadas não tenho outro remédio senão comparar uma com a outra.

O Flamengo transformou uma disputa numa festa, um jogo decisivo numa comemoração. Os papalvos dirão: “Como assim, jogo decisivo? Era um jogo que estava praticamente ganho!” Amigos, o jogo era tão decisivo que o Flamengo foi eliminado. Não se ganha jogo na véspera. E vejam a imensa ironia contida no erro retórico da expressão “era um jogo praticamente ganho”. Porque na verdade era um jogo “teoricamente ganho” – a prática só acontece quando rola a bola no gramado, e aí o time da Gávea sofreu uma das derrotas mais justas e mais indiscutíveis da sua história.

Eu mal tinha ouvido falar no América do México. Dele não sabia nem a cor da camisa. Mas tiro meu chapéu metafórico para esses 11 jogadores que deram ao Brasil inteiro uma aula de seriedade num jogo de futebol. Jogaram para ganhar, ganhar limpamente, na bola, na técnica, na tática; e ganharam. O Flamengo jogou para fazer exibição diante de sua torcida, que a estupidez dos cartolas e da imprensa carioca tentou (e parece que conseguiu) fazer tombar como patrimônio imaterial da Humanidade, ou alguma besteira desse tipo.

Entende-se por quê. O Flamengo tem um time medíocre (repito isto há anos) e quem lhe ganha os jogos é a torcida. Mas a vaidade de cartolas como Márcio Braga, Kleber Leite e companhia acha pouco. Quer transformar um jogo valendo a vaga numa entrega de faixas, numa despedida do técnico, com flores, placa comemorativa, e tudo o mais. Muito parecido com o que Ricardo Teixeira e seus apaniguados fizeram na Copa de 2006 com nossa melancólica Seleção, hospedada num castelo como príncipes encantados, e esquecendo o jogo.

A carruagem rubronegra começou a virar abóbora no vestiário, com as câmaras da Globo gravando “a última preleção de Joel Santana ao time campeão”... Time que abre seu vestiário para a imprensa perde a moral. Vestiário é lugar de trabalho, de concentração, de motivação, de discussão tática. Mas como no Brasil quem manda é a TV, é preciso abrir os vestiários para a TV, para o espetáculo, para a badalação dos puxa-sacos, para a comemoração antecipada de um jogo “praticamente ganho”. Os deuses do futebol não gostam disso. Quando viram o Flamengo vaidoso, auto-complacente, arrogante, não contaram conversa. Transferiram para o América do México a garra, a flama, a fibra. Nunca no futebol um resultado foi tão justo. E serve de aviso a todos os times que pensam que “o jogo de volta já está ganho”.

1611) As modas literárias (11.5.2008)



(Rubem Fonseca)

Houve uma época, a partir dos anos 1960, em que o sucesso de Guimarães Rosa e James Joyce dava aos jovens da minha geração a idéia de que escrever bem era inventar palavras novas o tempo inteiro, recriar o “fluxo de consciência” dos personagens, etc. Foi um momento salutar para a literatura. Ajudou a libertar o talento de escritores que tinham instintivamente esse perfil mas não achavam um ambiente propício junto à crítica e o público. Rosa e Joyce os libertaram para ser quem realmente eram. O problema é com os escritores que não eram assim, mas acharam que para serem publicados e admirados teriam que escrever assim. A gente sente, instintivamente, quando o autor não tem uma idéia muito clara do que está fazendo e o faz somente para seguir uma moda.

Talvez Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Rubem Fonseca sejam os autores brasileiros com maior número de seguidores hoje em dia. “Seguidores” são pessoas que sofreram uma forte influência. São os que se identificaram a tal ponto com Fulano de Tal que absorveram suas idéias, suas opiniões, seu vocabulário, seu ritmo de fala, seus cacoetes, seus preconceitos, seus equívocos. Ao escrever, vibram em uníssono com o espírito de Fulano, e o que fazem não é nem sequer imitação, chega a ser quase uma psicografia mediúnica (mais admirável ainda quando se trata de autor vivo).

No caso de Clarice e de Rosa, é principalmente a linguagem que escraviza os jovens imitadores. Há leitores com uma propensão instintiva para o jogo lúdico da linguagem, a montagem e desmontagem de palavras novas, a derivação imprevisível, que são características de Rosa. Como ainda são muito jovens, não tiveram tempo de desenvolver isto por conta própria, e ao ler Grande Sertão na adolescência sofrem uma conversão brutal e definitiva como a que São Paulo sofreu na estrada de Damasco. Tornam-se rosianos, antes de terem tempo de ser quem são.

O mesmo se dá com Clarice, com sua sintaxe truncada que corresponde de maneira tão tocante às dificuldades dos adolescentes em produzir um raciocínio coerente com começo, meio e fim. Estão ali as crises de identidade em que nos sentimos dezenas de seres contraditórios e incompatíveis. As neuroses mansas que em vez de nos destruir como um fogo nos mantêm insones como uma luz. A catação incessante de cacos de uma realidade nunca apreendida por inteiro, e onde tudo oscila entre o urgente e o irremediável.

Já Rubem Fonseca veio ao encontro de numerosos escritores com propensão para a prosa jornalística, a ética estóica do “roman noir” americano, e um cinismo “blasé” e auto-suficiente que é tão carioca. Rubem fez com a narrativa policial brasileira o que Dashiell Hammett fez com a americana. Suas lições (como as de Rosa e Clarice) são numerosas e enriquecedoras, mas mais fácil do que estudar seus métodos (o que certos autores fazem com êxito) é tentar reproduzir seus resultados, o que já naufragou tanta gente.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

1610) Dylan e João Gilberto (10.5.2008)




No recente show de Bob Dylan no Rio (v. “Dylan, o Espírito sobre as Águas”, 11 de março) voltei a experimentar o estranhamento que Dylan produz nas próprias canções, ao cantá-las de forma ininteligível (pela dicção) e imprevisível (do ponto de vista melódico).

É sempre assim. Ele as canta como se dissesse: “Amigo, o que importa aqui é a letra, a melodia pode ser qualquer uma que me der na telha”.

É pena que essa opção (e o fato de que a voz dele, ao vivo, aos 66 anos, está meio nelson-cavaquinho) escondem o fato de que Dylan é um rei do fraseado, o rei da divisão. Como João Gilberto. Com o qual, afora isto, em nada se parece.

Não há muita gente que cante parecido com Dylan no Brasil. Há cantores que, à força de ouvir Dylan, sintonizaram um diapasão específico com certas qualidades suas como cantor. Vejam Zé Ramalho. A voz de Zé é grave, soturna, cavernosa, messiânica. Não parece a de Dylan em nenhuma das fases deste.

 O que Zé Ramalho tem de Dylan é o canto-falado ou a fala-cantada, que minimiza a melodia para absorver entonações da fala. Fala de arauto, de pregador no púlpito, de orador na praça, entonações que têm sua musicalidade própria (como Luiz Tatit seria capaz de provar cientificamente – eu não sou).

E, além disso, a elocução implacável dos versos, cada um deles se encerrando com um ponto final, definitivo como a martelada de um leiloeiro, um ponto final tipo “é isso e acabou-se”, um ponto que é um Juízo Final.

Dylan e João Gilberto são mestres na arte de deixar a cadência adiantar-se à sua frente para logo alcançá-la, ultrapassá-la, esperar por ela. Como um cara que se diverte em pular para fora de um trem em movimento, depois para dentro de novo, divertindo-se sem esforço. Mais característico de Dylan que de João é ter versos com mais sílabas poéticas do que notas musicais, mas isso não é problema, porque ele as comprime se necessário e sempre chega na hora.

Caetano Veloso faz um link entre Dylan e João, embora ao modo indireto e alusivo típico do baiano. Ele conclui a canção “O Estrangeiro”, do disco do mesmo nome, citando (e parafraseando), em inglês, um trecho do texto de encarte de Bringin’ it all back home: “Some may like a soft Brazilian singer, but I've given up all attempts at perfection" (“Alguns podem gostar de um suave cantor brasileiro, mas eu desisti de tentar a perfeição”).

O álbum de Dylan é de 1965, quando a bossa-nova começava a pipocar pelos EUA, após o concerto no Carnegie Hall em 1962. Se Dylan ouvia João Gilberto a ponto de sofrer influências é irrelevante, pois seu senso único de divisão vem mesmo é dos “talking blues” e dos blues em si.

Além do mais, sua atitude irreverente e “metamorfose ambulante” em relação às próprias canções difere muito do perfeccionismo neurótico de João. Mas um dos prazeres de ouvir Dylan hoje é vê-lo dividir aquelas letras (que sabemos de cor) numa melodia e num andamento que parecem estar sendo inventados na hora.






1609) As lições de Syd Field (9.5.2008)



(ilustração: Angel Boligan)

Já falei aqui sobre a fórmula descoberta pelo roteirista Syd Field para um filme de ficção de longa-metragem: três atos, dois pontos de viradas, duas “pinças” no meio do segundo ato, e assim por diante. 

Field virou um deus-pequenino no universo dos roteiristas, professores e produtores de cinema. Seus livros têm o tom messiânico, jovial e otimista que encontramos nos livros de auto-ajuda. Ele repete e repisa as coisas que acha importantes – e está muito certo. Professor que diz uma coisa importante apenas uma vez não irá longe na profissão.

O problema com Field é o dos que descobrem uma fórmula para fazer uma coisa: começam a achar que a fórmula deles é a única. Foi assim com o Surrealismo, com a Poesia Concreta, com o Rock Progressivo, com o Punk. O sujeito se deslumbra com o universo que acabou de criar, abraça-se a ele, e esquece do Universo maior que está em volta dos dois. 

Field repete até a exaustão clichês do cinema americano, como o de que “cinema é conflito” (do qual discordo radicalmente). É um conceito de cinema que pretende agarrar a atenção do espectador, seqüestrar sua mente sem largá-la por um segundo sequer. 

Um conceito de espetáculo mais próximo da TV (onde há mil distrações, e a possibilidade de mudar de canal) do que do cinema. Cinema não é para agarrar o espectador, é para chamá-lo, ir na frente, esperando que o espectador o siga, sem se distanciar. No máximo levando-o amigavelmente pela mão.

Ainda assim, Field diz coisas essenciais. “A essência da tragédia”, reconhece ele, “não deriva de um personagem estar certo e o outro errado, mas de ambos estarem certos, só que em direções opostas”. O cinema maniqueísta de hoje bem que podia dar atenção a este detalhe. 

Outro conselho essencial repisado por Field é “entrar na cena tarde, e sair cedo”. Grande parte dos filmes se tornam chatos porque a cena surge na tela muito antes do necessário. (Não me refiro aqui ao cinema que explora os silêncios e as demoras, como os filmes de Jim Jarmusch ou Bergman) Se o que queremos é ação narrativa, o melhor é entrar na cena com a ação já acontecendo, e sair antes que ela termine de todo.

Outro mandamento importante: “O espectador deve descobrir o que está acontecendo ao mesmo tempo que o personagem” Isto leva o espectador para o centro da ação e das surpresas. Claro que o contrário disso também funciona: quando sabemos o que vai acontecer, o personagem não sabe, e ficamos nos desesperando em nome dele. Mas o que Field quer dizer é que o cinema pode nos transmitir, como nenhum outro meio, a sensação do imprevisível e do inesperado que há na vida. 

O que bate certinho com outro conselho dele: “Evitar que os incidentes e os acontecimentos sejam muito planejados e muito previsíveis”. A vida não é assim, e num filme de intenções realistas tudo não pode dar muito certinho. Fica parecendo uma pessoa que telefona para a gente e está lendo num papel – a gente percebe na hora.






1608) A perfeição é a morte (8.5.2008)




Já comentei aqui (“O mundo em progresso”, 2 de março) o conto de Arthur C. Clarke “Os Nove Bilhões de Nomes de Deus”, em que o Universo deixa de existir quando um super-computador calcula todos esses nomes. Com isto, a Humanidade cumpre sua função e deixa de ser necessária. Clarke nos induz a pensar que o Universo é um processo que busca a completude, e que, uma vez completado, não terá mais razão de ser. Por outro lado, essa lista dos nomes de Deus talvez não tenha que ser um recenseamento de nomes próprios (Allah, Iavé, Adonai, etc.) mas uma reconstituição verbal de todos os elementos que são o reflexo do Divino no mundo material, seus átomos, por assim dizer. Como um nome contém (de acordo com certas doutrinas) a totalidade da coisa que nomeia, no momento em que conseguíssemos relacionar tudo que existe no Universo material teríamos criado um reflexo total desse Universo no mundo da palavra. O Universo se veria duplicado. Estaria, impossivelmente, transformado em dois Universos idênticos, e assim um deles teria que deixar de existir.

O leitor há de recordar um dos contos mais curtos e mais conhecidos de Edgar Allan Poe, “O Retrato Oval” (1842), onde se conta a história de um artista que está pintando o retrato a óleo de sua mulher. À medida que ele se dedica ao trabalho, ao longo de meses, a mulher enfraquece, fica anêmica. No instante em que ele dá a última pincelada, exclama: “Isto aqui é a vida, a vida propriamente dita!” E quando olha para a esposa percebe que ela acabou de morrer. O retrato era tão perfeito que equivalia a uma duplicação da mulher; e não podem existir no Universo dois seres idênticos. No momento em que uma duplicação assim ocorra, um dos dois tem que deixar de existir.

Esse impasse está na raiz de todas as histórias de ficção científica que envolvem a desmaterialização e rematerialização de objetos ou de pessoas. O famoso “teletransporte” ou “teleportagem” da FC seria, em tese, um processo em que na cabine A o corpo de um sujeito é desmaterializado, transformado em informação, essa informação é remetida à velocidade da luz para uma cabine B, e ali é usada para materializar um corpo idêntico ao primeiro. Os desenhos do Cartoon Network nos acostumam desde a infância a essa noção básica, que é utilizada apenas para permitir viagens instantâneas de um lugar para outro. Escritores mais espertos, contudo, questionam o processo. Uma das formas de questioná-lo é perguntar: “E se o primeiro corpo não precisasse ser desmaterializado? Se bastasse escaneá-lo, e depois produzir um corpo igual? Teríamos dois gêmeos idênticos? Poderíamos produzir um exército de clones?” Obras de FC como Rogue Moon de Algis Budrys (1960) e The Prestige de Christopher Priest (1995) trataram esse tema indo ao fundo de suas complicações existenciais e filosóficas. Se um sujeito igual a mim pode ser criado artificialmente, qual deles sou eu? Como distinguir entre o original e a cópia?

1607) O filme de Al Gore (7.5.2008)




Vi na TV a cabo o documentário Uma Verdade Inconveniente, sobre as palestras que o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, faz pelo mundo, alertando as pessoas para os perigos do aquecimento global. Gore tem tido algum sucesso. Recentemente perguntaram ao presidente Bush se ele achava que iria mergulhar na obscuridade ao sair da presidência, e ele disse: “Bem, Al Gore depois que deixou a vice-presidência já ganhou um Oscar e um Prêmio Nobel, de modo que deixar o poder não chega a ser o fim do mundo”.

O fim do mundo é de certa forma o que Gore tenta nos fazer enxergar, numa palestra bem conduzida com imagens e estatísticas mostrando aquilo que eu chamo “o terremoto em câmara lenta” – a destruição vagarosa do nosso planeta pela industrialização desenfreada. Como é em câmara lenta, dá tempo da gente ir se mudando daqui para ali, e achar que adiou o problema. Ou que ele não existe.

Vi algumas críticas ao filme dizendo que é uma “egotrip” de Al Gore, que o filme se concentra o tempo todo na pessoa dele, etc. Essas críticas erram o alvo. O filme é um filme de Al Gore (mesmo dirigido por outras pessoas), para divulgar a palestra sobre aquecimento global que Al Gore tem feito pelo mundo (ele diz já ter feito essa palestra mil vezes). O filme não tem nada a ver como a Arte Cinematográfica nem com a Metalinguagem Documental. É uma peça de agitprop, agitação e propaganda. Equivale a um panfleto que recebemos num comício político. E seu objetivo é atingir um público maior que o das palestras. Eu, por exemplo. Gore fez a tal palestra aqui no Rio, há um ou dois anos, mas era só para convidados ilustres. Se não fosse o filme, eu não ficaria sabendo.

Não repisarei aqui as estatísticas citadas por Gore. O filme está nas locadoras, e aconselho a todos que o vejam. Como nenhum de nós tem condições de votar em Gore (ou em Hillary, em Obama, em McCain), acho que somos um tanto neutros ao que o filme contiver de propaganda política dos democratas. Eu vejo Gore, neste caso, como um porta-voz de escritores de ficção científica que há 50 anos nos alertam para os problemas que estamos causando ao meio ambiente. A mensagem apocalíptica de Gore se encaixa como uma luva (ou melhor: se encaixa como a costa leste do Brasil à costa oeste da África) à mensagem de outro filme, The Corporation, já comentado aqui (em 1.7.2005). É tudo o mesmo fenômeno. A atividade predatória e desenfreada das corporações, em busca de cada vez mais lucro, nos leva a um uso irracional da energia, um consumo excessivo, e uma exploração acelerada de recursos naturais não-renováveis. O aquecimento global é apenas uma das conseqüências disto, mas é uma das mais fatais.

Vai ver que não dão muita atenção a Gore por causa da boa aparência dele. Parece um executivo de megacorporação. Se ele usasse um camisão branco, um bastão nodoso, e deixasse a barba crescer, talvez evocasse um arquétipo mais poderoso e conseguisse salvar as vidas dos nossos netos.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

1606) Flamengo 3x1 Botafogo (6.5.2008)




O Campeonato Carioca de 2008 foi uma grande marmelada. Na verdade, o campeonato é fluminense, porque envolve vários clubes do interior do Estado, e não apenas da Capital. Mas nunca o campeonato foi tão carioca quanto o deste ano. Inventaram um critério obscuro para desqualificar os estádios dos times menores, e estabeleceram que todo jogo entre um dos grandes (Flamengo, Botafogo, Fluminense, Vasco) e um time menor aconteceria no Maracanã. O resultado é o que se viu: os “grandes” derrotando seu esforço os pequenos (cujo único trunfo costuma ser jogar em casa, com sua torcida, no seu estádio), e mesmo os clássicos no decorrer do turno foram esvaziados, porque já se sabiam quem seriam os quatro times do quadrangular final de cada turno. Em suma, uma grande farsa. Resultado da política de uma Federação que vem consistentemente empurrando o futebol do Rio para uma posição mediana no país, com clubes endividados, diretorias delirantes, e pernas-de-pau que se consideram craques.

Mas vamos ao jogo. Nas finais, o Flamengo obteve duas vitórias dentro de campo, que serviram (acho) para apagar a impressão confusa deixada pela conquista da Taça Guanabara com um pênalte questionado, arbitragens incompetentes, e tudo o mais. O Fla ganhou os dois jogos com autoridade, ambos no segundo tempo. Aí se revela um dos grandes mistérios do treinador Joel Santana. Sua tática é a seguinte: ele coloca o time em campo, no primeiro tempo, numa postura recuada, cheia de botinudos. Em geral, o Flamengo sai do primeiro tempo perdendo, ou, quando sai no empate, sai visivelmente inferiorizado em volume de jogo. No segundo tempo, Joel coloca dois atacantes – em geral, Obina e Tardelli – e ganha a partida. A pergunta óbvia: por que não começa a ganhar a partida logo no começo, indo para o ataque? Ninguém sabe.

Joel é um técnico de perfil italiano. Gosta do time recuado, chamando o adversário sobre si, cercando-o, dando o bote, roubando a bola e partindo num contra-ataque célere e mortal. Obina e Tardelli acabaram com o Botafogo no segundo tempo desta decisão. O primeiro gol foi uma cobrança de falta jogada “no bolo” da área, com Obina alcançando a bola a meia-altura, num vacilo da defesa, e cabeceando onde o goleiro não enxergava. O segundo foi uma jogada brilhante de Juan (já há muito tempo um dos melhores e mais consistentes jogadores do time), que avançou, driblou, e da linha de fundo entregou o gol de bandeja para Tardelli marcar. O terceiro uma arrancada espetacular de Tardelli, que tomou a bola na defesa, partiu com ela até a lateral da área e mais uma vez (como fizera no domingo anterior) rolou para que Obina, no meio da área, empurrasse para o gol vazio.

Lamento pelo Botafogo, que é um time solidário e talentoso; e pelo técnico Cuca, que há muito tempo merece um título. Mas o Flamengo, no segundo tempo, foi o Flamengo de sempre e ninguém mais que ele mereceu o título. Respeita o Mengo, mundiça.

1605) Entre o chicote e o chiclete (4.5.2008)



(monumento a Isaac Newton na British Library)

Dizem que Sir Isaac Newton, depois de perder cerca de 20 mil libras em especulações financeiras, desabafou: “Eu consigo prever os movimentos dos astros, mas não a estupidez dos homens”. O que é uma ótima notícia para todos nós. Enquanto existirem seres humanos imprevisíveis, capazes de atitudes inesperadas, nenhuma ditadura poderá se manter eternamente. Nem as ditaduras do chicote, nem as ditaduras do chiclete. Nem aquelas que se baseiam na violência, no terror e na intimidação, nem aquelas que se baseiam no pão e circo, na alienação, no controle das massas através do entretenimento e do consumo.

Não são apenas as ditaduras que tentam prever o comportamento humano. As utopias também. Utopias são uma espécie de ditaduras benignas, ditaduras do Bem. São aqueles governos que projetam, com boas intenções, a sociedade ideal, onde todos tenham direito a tudo, sem nenhum tipo de injustiça, bibibi, bobobó. O problema é que para obter isso as utopias fazem uma “limpa” total na sociedade. Não admitem a bagunça, a rebeldia, a contradição. Dizem que na “República” de Platão os poetas seriam expulsos. Por quê? Ora, porque são imprevisíveis.

No tempo de Platão não existiam muitos instrumentos para avaliar as opiniões das massas, mas mesmo assim os gregos inventaram lá o seu formato de democracia, com eleições e tudo. Hoje, com as infinitas possibilidades do controle eletrônico, das pesquisas de opinião, dos mecanismos interativos de comunicação de massas, da lavagem cerebral proporcionada pelo rádio, TV, etc., é claro que todo tecnocrata com sonhos mais audaciosos pensa consigo mesmo: “Chegou a hora! Agora vai ser possível não apenas saber o que 180 milhões de pessoas querem de fato, como também fazer com que todas elas queiram justamente o que nos convém”.

Nem o próprio Isaac Newton resistiria a um desafio como este. Porque existem dois tipos de cientista: os Grandes Individualistas e os Técnicos Competentes. Os primeiros têm por sua própria natureza um certo desprezo para com as massas, que aos seus olhos não passam de um admirável gado novo. Os segundos talvez nem sintam esse desprezo, mas vêem nas multidões o laboratório ideal para experimentos quantificadores em larga escala, que é o que lhes interessa. Quando um governo ambicioso consegue formar um quadro tecnocrático onde os dois tipos estejam bem representados, já está no meio do caminho para articular sua máquina privada de pesquisa e manipulação.

E o que nos salva é aquele herói que o cinema norte-americano, paradoxalmente, sempre endeusou. O indivíduo indomável, o individualista por conta própria, que não se acha superior a ninguém, quer apenas que o deixem em paz, dono do seu nariz, com as mãos ocupadas no que lhe apraz e com as pernas livres para ir onde quiser. Este é o indivíduo que comete as estupidezes lamentadas por Newton, mas que em última análise é o último homem livre, seja ele ovelha negra ou lobo solitário.