terça-feira, 3 de novembro de 2009

1345) Um título é sempre uma promessa (6.7.2007)



(Jacques Derrida)

Jacques Derrida dizia que “um título é sempre uma promessa”. (Não quero botar pose de leitor de Derrida: li a citação num livro de outro cara.) Isto é interessante porque o Papa da Teoria da Desconstrução é um desses filósofos que desconfiam de tudo, que levantam o tapete em todas as salas, que olham qualquer frase contra a luz para ver se é falsificada. 

Que ele chame a algo uma promessa é uma declaração de confiança implícita, de concessão momentânea à fé.

É fácil concordar com isto quando pegamos livros intitulados Guia Prático da Tradução Inglesa ou A Vida de Napoleão. Títulos assim são auto-explicativos, não nos permitem muita dúvida, além de serem de uma concisão admirável. 

Chegamos a um alto grau de síntese se nos compararmos aos nossos colegas do século 18. Diz-se que o primeiro livro impresso no Brasil intitulava-se Relação da Entrada que fez o Excelentíssimo, e Reverendíssimo Senhor D. Fr. Antonio do Desterro Malheyro, Bispo do Rio de Janeiro, em o primeiro dia deste presente Anno de 1747, havendo sido seis Annos Bispo do Reyno de Angola, donde por nomiação de sua Magestade, e Bulla Pontificia, foy promovido para esta Diocesi

O título já diz tudo. Parece aquela parábola de Borges sobre um país onde a Cartografia estava tão avançada que o mapa de um Estado era do tamanho do próprio Estado.

O escritor Carlos Emílio Corrêa Lima sugeriu certa vez que o livro mais borgiano seria um que se limitasse a enumerar títulos de livros imaginários. A tarefa parece desnecessária, porque catálogos de editoras e de livrarias fazem chover sobre nós, sem parar, títulos magníficos que jamais se transformarão para nós em livros, pela simples razão de que não teremos tempo de vida bastante para ler todos.

Dizem que a trilogia O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo iria se chamar O Vento e o Tempo, e só em cima da hora de ir para a gráfica o autor fez a mudança final. (Podem achar bobagem, mas eu acho que melhorou 100%.) 

O mesmo com Vidas Secas de Graciliano Ramos, que em estágios sucessivos de sua preparação esteve para se chamar “O Mundo Cheio de Penas” (uma frase desgraciosa e confusa) ou “Baleia” (dando excessiva ênfase a um personagem menor). Na hora de ir para a gráfica, a sabedoria instintiva do autor falou mais alto.

Um belo título é uma fonte de maravilha eterna. 

À Sombra das Raparigas em Flor 
A Lua vem da Ásia 
Notas de Manfredo Rangel, Repórter, a Respeito de Kramer 
Os Frutos Dourados do Sol
O Jardim das Veredas que se Bifurcam 
Perto do Coração Selvagem 
A Sombra do Arco-Íris 
Será que os Andróides Sonham com Carneiros Elétricos?
Se um Viajante numa Noite de Inverno 
Apontamentos de História Sobrenatural 
O Clube dos Valetes de Copas 
Os Morcegos Estão Comendo os Mamãos Maduros 
O Círculo de Giz Caucasiano 
A Noiva Estava de Preto 
A Volta ao Dia em Oitenta Mundos 
Riverão Sussuarana...




segunda-feira, 2 de novembro de 2009

1344) O Gráfico Amador (5.7.2007)




Entre 1954 e 1961, um grupo de jovens recifenses criou uma pequena editora para imprimir seus próprios livros. Recife não tinha uma editora profissional de livros; quem quisesse publicar suas obras tinha que recorrer ao Rio e São Paulo. Os rapazes eram cultos, bem informados, interessavam-se por literatura e pelas artes gráficas. Dispunham de algum dinheiro. Compraram impressoras manuais, conjuntos de tipos (fontes) e passaram a produzir seus próprios livros, todos eles com grande inventividade gráfica e bom conteúdo literário. Os rapazes chamavam-se Aloísio Magalhães, Orlando da Costa Ferreira, José Laurenio de Melo e Gastão de Holanda.

A história detalhada desta aventura está contada em O Gráfico Amador: As Origens da Moderna Tipografia Brasileira de Guilherme Cunha Lima (Rio: UFRJ, 1997). O Gráfico Amador tinha sócios pelo Brasil, que contribuíam com uma mensalidade e recebiam exemplares das obras, produzidas sempre em tiragens de alguns centenas ou até mesmo dezenas de exemplares. João Cabral de Melo Neto e Ariano Suassuna foram alguns dos que freqüentavam o grupo e publicaram através dele suas obras (Cabral sempre foi um experimentador com as artes gráficas, tendo sua própria gráfica artesanal quando morou na Espanha).

O livro registra minuciosamente todos os títulos publicados pelo O Gráfico Amador em seus sete anos de existência, livrinhos que hoje são raridades e podem valer muito (se encontrar algum deles, caro leitor, entesoure-o; é melhor investimento do que comprar dólar). Ao que parece, não existe nenhuma coleção completa destes títulos; a pesquisa foi feita reunindo os exemplares das coleções de José Mindlin, Paulo Bruscky, Jorge Martins e do próprio autor do livro.

O que O Gráfico Amador fez durante este período poderia ser chamado, sem intenção pejorativa, de “cordel de rico”. Ou seja, uma solução artesanal para veicular textos literários que as editoras profissionais não se interessavam em publicar. O grupo não tinha intenções de lucro: apesar de profissionalíssimo em termos de conhecimento técnico e sofisticação estética, era amador mesmo, no que se refere a lucro. Imprimia apenas a quantidade que conseguia distribuir.

No mesmo Recife onde apareceu na década de 1890 a indústria do cordel popular de Leandro Gomes de Barros surgiu na década de 1950 este grupo. Duas iniciativas parecidas e diferentes. O cordel popular de Leandro surgiu para dar vazão aos poemas orais e “versos de traslado” que circulavam no Nordeste, decorados ou em cópias feitas à mão. Aos poucos, a existência do veículo aumentou a produção literária, e foi criada uma verdadeira indústria subterrânea do verso popular, à margem das grandes editoras. O “cordel de rico” do Gráfico Amador era feito por amor à arte, e nunca teve, ao que parece, a finalidade de proporcionar sustento aos que o faziam, tanto é assim que o grupo se desfez à medida que seus integrantes foram avançando na carreira profissional.





1343) O avião que não pousa (4.7.2007)



O sucesso é um avião que decola, com você dentro, e nunca mais pousa. Lembro-me deste aforismo todas as vezes que comparo as aspirações de um sujeito, no passado, com o que ele efetivamente veio a conquistar no futuro. É uma das ironias da vida. Ou você não tem sucesso, ou acaba tendo um sucesso muito maior do que pretendia, e ficando escravo dele. Como diz outra velha frase, “cuidado com o que você pede a Deus, porque ele atende”.

A revista Rolling Stone brasileira do mês de maio, com Darth Vader na capa, traz uma enorme entrevista com o diretor George Lucas, feita na época em que ele tinha acabado de lançar o primeiro filme da (agora) hexalogia Guerra nas Estrelas. Há duas coisas interessantes. Primeiro, o fato de que Lucas não tinha a menor idéia do espantoso sucesso que seus filmes iriam fazer. Lidas hoje, suas declarações parecem ingênuas e provincianas, mas se justificam, porque era num contexto em que filmes de ficção científica (hoje um dos pilares da indústria de Hollywood) eram execrados, porque não tinham público. E em segundo lugar, o fato de que Lucas, hoje, mantém praticamente as mesmas opiniões, embora a vida o tenha arrastado na direção oposta ao que pretendia.

Já comentei nesta coluna (“O evangelho segundo Lucas”, 3.6.2005) uma entrevista de Lucas à revista Wired em que ele dizia estar meio cansado de produzir super-espetáculos, e com vontade de fazer filmes parecidos com os filmes experimentais que fazia quando era estudante de cinema na Califórnia. Essa entrevista é de maio de 2005, e me fez ficar pensando em como um sujeito é arrastado pelo próprio sucesso numa direção que não previa. Em 1977, Lucas dizia: “Além do mais, também percebi que as vendas de produtos, junto com as seqüências, garantiriam uma renda suficiente para que pudesse me aposentar da função de fazer filmes profissionais e me dedicasse ao meu tipo de filme – às minhas coisas pessoais, bizarras, experimentais”.

Ou seja: em agosto de 1977 Lucas imaginava que os brinquedinhos de plástico associados a Guerra nas Estrelas vendessem apenas o suficiente para que ele não dependesse de fazer sucesso com outros filmes. Ledo engano. As miniaturas de Darth Vader e Han Solo são hoje uma indústria de bilhões de dólares. O pequeno estúdio de efeitos especiais criado para o primeiro filme da série transformou-se na Industrial Light & Magic, uma empresa gigantesca que produz e terceiriza efeitos especiais para o mundo todo. Lucas achava, há trinta anos, que um ou dois filmes de sucesso lhe dariam a chance de se aposentar e fazer o que gostava. Coitado! A espaçonave levantou vôo com ele dentro, e não parou até agora. Comparar as duas entrevistas, a da RS em 1977 e a da Wired em 2005 é ver a tragédia (uma tragédia bastante confortável, reconheçamos) de um cineasta que gostaria de fazer filmes “cult” e experimentais mas foi seqüestrado para sempre pelo próprio sucesso de biheteria.

1342) Contradições do nacionalismo (1.7.2007)



Hoje, quem diz ser nacionalista é taxado de antiquado, e logo escuta: “Essa coisa de nação acabou. Com a globalização da economia, os governos vão perder cada vez mais poder, as fronteiras vão passar a ser limites meramente simbólicos. Os governos serão administrações territoriais eleitas pela população, mas quem manda de fato são as grandes corporações, o grande capital”. É o que está acontecendo, concordo, e em alguns casos a única maneira de um país se opor a essa invasão silenciosa é através do autoritarismo esbravejante, como é o caso de Hugo Chávez na Venezuela, e de sua versão com menos decibéis na Bolívia de Evo Morales.

O Nacionalismo não deve ser xenofobia, recusa rancorosa a tudo que é estrangeiro. Pelo contrário. Tudo que é estrangeiro deve nos interessar – menos, é claro, uma invasão militar estrangeira, ou uma invasão econômica estrangeira. Dos estrangeiros me interessa a sua Cultura. Quero saber o que eles pensam, conhecer o que eles criam. Me interessa o turismo, para que eles possam vir conhecer as coisas interessantes que temos aqui com a mesma alegria e proveito com que eu conheço as deles quando viajo. Me interessa a possibilidade de fazer trabalhos conjuntos em que ambos possamos ganhar dinheiro e sair satisfeitos. Mas para isso tudo eu preciso ter uma situação política estável, uma economia firme, uma cultura altiva e em paz consigo mesma a ponto de não ter complexo de inferioridade diante da cultura alheia.

O nacionalismo está para os países assim como a cidadania está para os indivíduos. Não se trata de negar os direitos alheios, mas de afirmar os seus. Se a economia se globaliza cada vez mais, e os países perdem a autonomia sobre o que se passa dentro de suas fronteiras, então isto está se equivalendo ao que mais se criticava no Comunismo: os indivíduos perdendo a autonomia sobre sua própria casa, e o Estado onipotente invadindo tudo, mandando e desmandando em tudo. A Globalização Econômica pode criar isso: um Stalinismo em escala mundial, um Super-Estado transnacional formado por grupos sem ideologia, sem pátria, cujo único objetivo é a aplicação maciça de capital num país para arrancar o máximo possível de lucro no mínimo possível de tempo. Nacionalismo é dizer a esse pessoal: “Vão fazer isso na casa-da-mãe de vocês! Na minha casa não”.

Algumas pessoas que defendem o “exercício da cidadania”, os “direitos do cidadão”, “direitos do consumidor” e tudo o mais falam também que no mundo cosmopolita todas as nações se equivalem, que as fronteiras não existem mais. Eu discrepo. Acho que os povos têm personalidades próprias, como os indivíduos, e devem dialogar como os indivíduos dialogam: cooperando fraternalmente, respeitando-se, ajudando-se, tendo uns arranca-rabos de vez em quando como acontece com os indivíduos, e resolvendo tudo na base da diplomacia. Mas acima de tudo conscientes de que todos são únicos, diferentes, cada um tem algo de específico para contribuir.

1341) Cem filmes americanos (30.6.2007)


(Cidadão Kane)

Acaba de ser divulgada a lista dos “100 Melhores Filmes Americanos” segundo o American Film Institute, votada periodicamente por mais de 1.500 cineastas, atores, críticos e técnicos. O primeiro lugar tem sido imperturbavelmente ocupado há anos por Cidadão Kane (1941) de Orson Welles. O segundo atualmente é de O Poderoso Chefão (1972) de Francis Coppola e o terceiro de Casablanca (1942) de Michael Curtiz. O filme mais recente entre os dez primeiros é A Lista de Schindler (1993) de Steven Spielberg, apontado em 8o. lugar, sendo que Touro Indomado de Scorsese (1980) está em quarto.

Filmes mais antigos predominam, pelo conhecido fenômeno do prestígio adquirido e da fama cumulativa. Os mais antigos de todos são Intolerância (1916) de Griffith em 49o. lugar, A General (1927) de Buster Keaton em 18o. e Aurora de F. W. Murnau (1927) em 82o. O único filme do século 21 a surgir na lista, em 50o. lugar, é O Senhor dos Anéis – Parte I de Peter Jackson (2001). À parte este, os mais recentes são O Resgate do Soldado Ryan de 1998 em 71o. lugar, Titanic de 1997 em 83o., e O Sexto Sentido de 1999 em 89o.

Para quem é cinéfilo, a elaboração e comparação de listas assim é um passatempo (ou melhor dizendo um “perdetempo”) inofensivo, que não traz nenhuma informação nova, nenhum novo ângulo de interpretação sobre os filmes assim considerados. Quem quiser conferir a lista completa, dê um pulo aqui: http://edition.cnn.com/2007/SHOWBIZ/Movies/06/21/afi.movies.ap/index.html. Eu me admiro (agradavelmente, porque são filmes que aprecio) com a longevidade de filmes como Cantando na Chuva (5o. lugar), E o Vento Levou (não é grandes coisas, mas segura em 6o. lugar), Lawrence da Arábia (7o.), Um corpo que cai (9o.) e O Mágico de Oz em 10o. Observo também os filmes de ficção científica citados: Star Wars em 13o., 2001 em 15o., E.T. em 24o., Dr. Fantástico em 39o., King Kong (o original, de 1933) em 41o., Laranja mecânica em 70o., e o eternamente injustiçado (pelo menos nos EUA) Blade Runner em 97o.

Americano adora fazer listas, principalmente as listas dos “dez melhores”. A lista satisfaz dois dos principais componentes da mentalidade pragmática e puritana do americano médio: a ordem e a hierarquia. A civilização americana gosta de ordem, de serialidade, de lugares nítidos e funções inequívocas para todas as coisas. Numa lista numerada, não existe lugar para dúvidas poéticas sobre quem está em 5o. e quem está em 6o. lugares: um é um, o outro é o outro, e acabou-se. E, como em toda sociedade de “self made men”, baseada na iniciativa privada e nos projetos de crescimento individual, gosta de comparar, de dizer “A é melhor do que B, e B é melhor do que C”. Isto lhes dá a impressão de viverem num mundo nítido, funcional como um mecanismo, onde sabemos a todo instante, e sem incertezas subjetivas, o quê é o quê, quem é quem, e quanto vale cada coisa.

1340) O livro e a revista (29.6.2007)



Dizem que o brasileiro lê pouco, ou melhor, compra pouco. Muita gente atribui isto ao preço do livro e ao baixo poder aquisitivo do leitor. Pode ser. Toda vez que algum plano econômico elevou esse poder, as vendas dos livros subiram rapidamente. Brasileiro gosta de ler, mas nem todo mundo dispõe de 30 ou 40 reais para pagar por cada livro que lhe interessa.

Tem uma outra coisa, no entanto, que talvez influa. É a expansão do mercado de revistas, que nunca viveu um momento tão florescente e de tanta concorrência. Sou um freqüentador de bancas de revistas desde os 9 anos, quando ficava lendo quadrinhos no Abrigo Maringá, de pé junto ao balcão, até que o dono da banca me mandasse embora. Na banca de Henrique, ali no Calçadão, comprei em 1965 uma coleção inteira de Seleções que levei aos poucos para casa, um pacote por dia, durante um mês. E posso afiançar que nunca vi tanta revista diferente como hoje em dia.

Revistas de História surgem uma atrás da outra (houve até um processo entre duas delas, por plágio de projeto editorial). Revistas de literatura e língua portuguesa se acotovelam: compro uma por mês, variando os títulos. Revistas de eletrônica, de guitarra, de teclado, de MP3, de informática. Revistas de corte e costura, de culinária, de moda feminina. Revista de fofocas fonográficas e televisivas. Revista de ginástica e dieta, de “fitness”, de ioga, de meditação, de aeróbica. Revistas de economia, de Bolsa de Valores, de microempresas, de administração. Revistas de ciência, de tecnologia, da História da Ciência, de biografias de cientistas e autores de ficção científica. Revistas de interesse geral, de quadrinhos, de sacanagem... E não se avista o fim.

Uma família com grana tem dezenas de títulos para interessar ao Pai, à Mãe, ao Filhão e à Filhinha. Se têm dinheiro bastante para poder investir em leitura, é bem possível que todo esse dinheiro se esvaia diretamente nas bancas de revistas, sem chegar à livraria. A oferta é gigantesca, os interesses são variados, a leitura é leve, agradável, colorida. O Livro tem que cortar um dobrado para enfrentar um concorrente que ostenta tamanha biodiversidade. Uma pesquisa recente do Ipea mostra que no total de gastos com leitura os brasileiros gastam 68,8% com revistas e jornais, contra 11,2% com livros.

O mais curioso é que não vejo muitas revistas literárias. Trinta anos atrás víamos nas bancas a Escrita, a Ficção, a José e outras. Era a época do “boom” dos contistas brasileiros. Hoje, quais as revistas que publicam um singelo conto de autor nacional? O mercado de revistas é informativo e de utilidades variadas (vide listagem acima), mas nele não há espaço para a ficção. Parece que o leitor de hoje encara a leitura como um processo pragmático de adquirir conhecimentos factuais e de melhorar seu corpo, sua mente, sua aparência pessoal, sua conta bancária, etc. E a literatura, ao que parece, não contribui para nada disto.

sábado, 31 de outubro de 2009

1339) Prêmio de “Melhor Depoimento” (28.6.2007)


(Eduardo Coutinho)

Tenho visto muitos documentários ultimamente, de curta e de longa metragem, e fico pensando nas pequenas coisas que fazem do documentário uma arte totalmente diversa da arte do filme de ficção. Nos festivais que envolvem filmes de ficção, por exemplo, dá-se prêmio para Melhor Ator, Melhor Atriz, etc. Prêmios cuja justificativa é óbvia: cabe aos atores e às atrizes encarnar a condição humana naquelas histórias, passar para nós toda a complexa urdidura de emoções em que a história se revela, e assim por diante. Se existem “prêmios técnicos” como Melhor Fotografia, Melhor Montagem e assim por diante, poderíamos dizer que os prêmios para os atores são os “prêmios humanos” de um Festival.

Pois quando existem documentários envolvidos, a coisa muda de figura. Ali não há atores, há pessoas de verdade relacionando-se com a câmara e mostrando, da maneira que podem e que o diretor orienta, a sua verdade pessoal. Sugiro, portanto, que nos festivais de cinema onde concorrem documentários seja criada uma nova categoria de premiação: Melhor Depoimento.

Porque, ao fim e ao cabo, muitos documentários bons não são outra coisa senão um longo e editado depoimento. Uma câmara e um gravador ligados, um cineasta sugerindo temas ou fazendo perguntas específicas, e um entrevistado que, no centro da imagem cinematográfica, revela seu rosto e sua alma, com todas as suas rugas e verrugas.

Em festivais recentes como o Cine-PE de Recife e o Cineport de João Pessoa vi filmes notáveis que nada têm de excepcional em sua fotografia, roteiro, trilha sonora ou qualquer outro quesito técnico, mas não obstante tornam-se grandes filmes devido às pessoas que prestam seu depoimento. São documentos humanos, centrados na pessoa dos entrevistados, e a competência da equipe se revela justamente em sua sabedoria de não interferir com piruetas ou malabarismos de câmara, de edição, etc.

Pessoas falando com intensidade suas verdades pessoais e contando suas histórias de vida podem resultar em grandes filmes com um mínimo de firulas de linguagem. Em casos assim, o que mais importa é saber escolher o ambiente e o momento, estabelecer com o entrevistado um contato fraterno e respeitoso que lhe dê liberdade total para falar e a segurança de saber que o que disser não será usado de forma leviana. Como exemplo de documentarista especializado nesta difícil arte da empatia e da confiança, posso citar Eduardo Coutinho (Santo Forte, Cabra Marcado para Morrer, Edifício Master, O Fim e o Princípio, etc.).

Quando um documentarista consegue esse grau de empatia, consegue fazer um grande filme quase sem tirar a câmara do lugar. O filme pode não ter brilhantismo técnico, mas tem qualidade humana, e muitas vezes um júri, comovido ou entusiasmado pelo que viu, sente-se parcialmente frustrado por não dispor de nenhuma categoria para premiar aquele filme, porque suas qualidades específicas não estão previstas na grade de premiação.

1338) Máquina de escrever e mediunidade (27.6.2007)




Existe coisa mais fascinante do que a mente humana? Duvido. Ela é como aquelas casas antigas, imensas, labirínticas, onde a gente se perde com facilidade, e onde, quando menos espera, descobre um aposento onde jamais havia entrado. Ao que parece, a invenção da máquina de escrever produziu um novo aposento nas mentes humanas, gerando uma experiência de dissociação psíquica talvez comparável à que outros indivíduos experimentaram em períodos remotos da História quando a escrita se impôs como um veículo para a produção de um texto a sós.

Uma resenha de Joan Acocella sobre o livro The Iron Whim: A Fragmented History of the Typewriter, de Darren Wershler-Henry, cita uma porção de episódios curiosos na história deste nobre instrumento. Escritores sempre cultivaram uma relação de enfrentamento físico com a escrita, mas essa relação sempre foi íntima, quase sensual, com a ponta úmida da pena rascando de leve a epiderme do papel, deixando ali as senhas manuscritas através das quais os pensamentos do autor podiam ser reconstituídos. A escrita se assemelhava um pouco ao desenho. Era uma relação íntima, silenciosa.

Chegou a máquina de escrever com seus mecanismos e seu estardalhaço, e pareceu que o mundo ia se acabar. Era preciso dar uma pancada com o dedo, fazendo o martelinho desferir outra pancada no papel, amortecida pela fita úmida que imprimia o negror da letra. Em meus bons tempos de tradutor-por-sobrevivência, já trabalhei de 8 a 10 horas por dia numa máquina de escrever mecânica: quando ia dormir, as unhas estavam em frangalhos, os dedos inchados e insensíveis. Mas o mais interessante é que a máquina exigia outro tipo de relação mental. O livro de Wershler-Henry fala que após a morte de Henry James, sua datilógrafa,Theodora Bosanquet, dizia continuar ouvindo a voz do escritor ditando-lhe textos, e que outros escritores já mortos, como Thomas Hardy ou John Galsworthy, também estavam querendo ditar-lhe textos.

Wershler-Henry afirma que “as pessoas acreditavam que o que era escrito numa máquina era ditado, por uma voz que não era a mesma da pessoa que datilografava; mesmos as pessoas que compunham seus textos diretamente na máquina achavam que estavam seguindo um ditado vindo de outra parte”. Bastava isto para um escritor meio visionário como William S. Burroughs inventar em alguns de seus romances fantásticos uma máquina que ele chamava The Soft Typewriter (“A Máquina-de-Escrever Mole”), uma espécie de máquina orgânica que escrevia não só nossos livros como nossas próprias vidas.

Pode ser mediunidade; ou pode ser simplesmente um processo esquizóide benigno brotado na nossa mente, o mesmo que me permite estar agora datilografando uma frase que já pensei enquanto com o mesmo cérebro já estou tentando pensar a próxima. Cada nova tecnologia-de-pensar cria um novo puxado em nossa mente, esta casa infinita que malassombramos com nossa alma.





1337) Let’s hablar Europanto! (26.6.2007)



No websaite “Metafilter”, um dos meus bancos-de-idéias preferidos, encontrei pouco tempo atrás um comunicado nestes termos: “Que would happen if, wenn Du open your Metafilter, finde eine message in esta lingua? No est Englando, no est Germano, no est Espano, no est keine known lingua - aber Du understande! Wat happen zo! Habe your computero eine virus catched? Habe Du sudden BSE gedeveloped? No, Du esse lezendo la neue europese lingua: de Europanto!”

That’s right! Es mucho posible understand qualquiera cosa che se parle de mode organized, empleando palavras avec un sonido vaguely familiar. Mas, como isto é uma idéia dos europeus, deixemo-los às voltas com seu babelismo bem intencionado e restrinjamo-nos ao nosso belo idioma, capaz de verbos barrocos como o que acabei de exemplificar, e que europeu algum entenderia.

Tenho uma certa impaciência com as pessoas que querem entender tudo e que, ao ler um livro, empacam diante da primeira palavra cujo sentido não compreendem. Se não houver um dicionário à mão, interrompem a leitura ali mesmo. Eu acho que gente que faz isto é porque não gosta de ler. Quem gosta, passa por cima de palavras desconhecidas, de frases incompreensíveis, parágrafos obscuros, páginas tediosas. Quem gosta de ler passa por dentro do texto sem parar para checar “o cunho vernáculo de um vocábulo”.

De vez em quando me chega pela Internet uma mensagem curiosa. Diz ela que podemos ler sem porblema farses intieras com palarvas onde as letars estão mistruadas no miolo, mas mantendo a letra inicial e a última. Por quê? Porque nossos olhos reconhecem “o desenho” da palavra, o seu formato geral, e passam por cima do resto. Acho que existe um processo semelhante em nosso contato com uma língua informal como o Europanto. Temos uma certa familiaridade com palavras inglesas. As palavras francesas, espanholas e italianas compartilham conosco uma base latina comum, com milhares de radicais semelhantes. Tudo isto nos permite – se não somos do tipo cri-cri que empaca diante da primeira dificuldade – passar “a vôo de pássaro” por um texto escrito desta forma, como nos parágrafos iniciais deste artigo.

O Europanto não é uma língua, é uma experiência informal facilitada pela Internet (para mais informações, em http://www.neuropeans.com/topic/europanto/what/more.php há um artigo extenso e explicativo). Tem uma possibilidade razoável de “pegar” junto aos mais jovens, mais ágeis, mais informais, mais superficiais, ou seja, para essas pessoas que rapidamente aprendem a usar um celular novo. Por quê? Porque são jovens, têm curiosidade, não têm medo de errar, erram pra caramba e não esquentam a cabeça. Gente com o juízo já cristalizado fica impaciente quando erra, procede pé ante pé quando está diante de uma experiência nova. Os jovens, para quem tudo é novo, erram o tempo todo, mas vão em frente, de celular em punho, conversando em Europanto. E se entendem.

1336) O espírito americano (24.6.2007)



Lendo uma resenha sobre um livro de Danny Fingeroth a respeito de super-heróis (Superman on the Couch: What Superman Really Tells us About Ourselves and Our Society) deparei-me com esta frase, com que ele tenta explicar por que motivo os americanos se identificam tanto com esses personagens: “Nós lutamos nossas próprias batalhas, fazemos nossas próprias regras, desafiamos aquele que tentam nos destruir. Estamos sozinhos, seja para vencer ou fracassar, para triunfar ou sucumbir. Nós fazemos os nossos próprios destinos”. Essa mistura de altivez solitária com a arrogância de quem não-quer-se-misturar é um componente importante para entendermos a psicologia dos nossos coleguinhas mais ao Norte, tanto no seu modo de fazer cinema quanto na sua maneira de fazer guerras.

É até comovente a maneira como os americanos idolatram seus heróis. Na ficção científica, há um subgênero obscuro, muito em voga há cem anos, que os historiadores chamam de “Edisonades” (algo como “as edisonagens”). São aventuras cujo herói é Thomas Alva Edison, o inventor do fonógrafo e da lâmpada elétrica. Nas suas últimas décadas, Edison, que faleceu em 1931, tornou-se um grande divulgador da Ciência, viajando pelo país inteiro, dando palestras, fazendo campanhas de propaganda. Na década de 1890, contudo, ele já tinha fama internacional, e foi quando surgiu uma série de histórias em revistas (as chamadas “dime novels”, “romances de vintém”) tendo como herói Tom Edison Jr., um jovem inventor. Em 1886 já surgira na França o romance A Eva Futura de Villiers de L’Isle Adam, onde Edison produz uma espécie de andróide para substituir a noiva infiel do protagonista. Em 1898, Garrett P. Serviss escreveu Edison’s Conquest of Mars, em que o inventor lidera uma expedição ao planeta vizinho onde, munido de armas poderosas, “passa no rodo” a civilização marciana e implanta ali o domínio militar terrestre. O livro é uma clara resposta ao derrotismo de A Guerra dos Mundos de H. G. Wells, que acabara de ser publicado.

Os títulos das aventuras de Edison são muito numerosos para serem enfileirados aqui (o gênero caiu em desuso após 1940), mas eles exprimem um aspecto importante da cultura americana. Na mente do americano, um cientista pode ganhar proporções de super-herói. Até um político pode: alguém aí lembra o desenho animado Super Presidente, em que um presidente dos EUA se transformava numa espécie de Capitão Marvel? Não está muito distante disso o personagem de Bill Pullman no filme Independence Day – um presidente americano que acaba pilotando um dos caças a quem cabe destruir os alienígenas que invadem a Terra. Essa infantil capacidade de produzir fantasias heróicas a respeito de si próprios é um traço norte-americano que impulsiona tanto a sua cultura de massas quanto a sua política externa. São como milhões de crianças que pulam do alto do celeiro imaginando que podem voar, e o diabo é que de vez em quando um deles voa mesmo.