segunda-feira, 26 de outubro de 2009

1330) Que mistério tem Clarice (17.6.2007)



A propósito de uma exposição sobre Clarice Lispector que ocorre em São Paulo, Zuenir Ventura, num artigo no “Globo”, perguntou-se, e a nós: “Como uma escritora tida como hermética, inacessível, introspectiva, é capaz de tanto sucesso de público?” A pergunta do mestre Zuenir é a mesma que me fiz por muitos anos, até perceber que não tem resposta porque é uma pergunta iludida, uma pergunta cujas premissas não batem com a realidade. Eu, por exemplo, me perguntava como é que uma autora tão intelectual conseguia ser tão lida, copiada, citada e imitada por adolescentes. Ora, não é bem isso. Se existe uma autora brasileira que não é intelectual é Clarice. Ou melhor: ela não é intelectual no sentido livresco-erudito da palavra, e sim no sentido metafísico, no sentido em que o jagunço Riobaldo é um dos grandes intelectuais da nossa literatura.

Clarice não é uma racionalista: é uma intuitiva que usa palavras simples e diretas para exprimir sensações mentais tortuosas e obscuras. Introspectiva? Isso, sim. Tudo que lhe acontece é da retina para dentro. Ela é capaz de escrever um livro inteiro narrando os poucos minutos de contemplação mútua entre uma mulher e uma barata numa cozinha. Enredo não era seu forte, porque quando ela começa a contar uma história a história dispara a galope para dentro dela e começa a contá-la. Tudo acontece dentro da mente dela. Mesmo quando descreve uma cena com pessoas almoçando e conversando numa sala não temos a impressão de ver a sala, e sim de estar olhando uma foto de Clarice e na pupila do seu olho estar acontecendo a cena, como se fosse uma janelinha do YouTube.

Num texto publicado aqui (“Claríssimo Espectro”, 14.11.2004) falei que ela criava a loucura como quem cria um cachorro dentro do apartamento. Era o seu estilo de conviver com o paradoxo, de dizer “eu sou mais forte do que eu”, “Eu não sou Tu, mas mim és Tu” e outros paradoxos lógicos que a Razão não comporta mas que são a essência da Literatura. Para a lógica aristotélica, A é A e B é B, e a questão acaba aí. Para a sensibilidade literária, A pode ser B. Ou pode ser X, pode ser 345, pode ser um coelho correndo em cima de um muro. Qualquer coisa, no momento da fagulha poética, pode ser qualquer outra, porque o Inconsciente (isto que popularmente é chamado de “emoção”) é o amálgama que “dá liga” entre as duas, que as funde numa única essência. E o Inconsciente não é racional. Pode ser analisado racionalmente, como descobriram Freud, Jung, etc., mas ele próprio não funciona pelas leis da Razão e da Lógica.

Por que motivo os adolescentes em geral entendem e amam Clarice? Porque em seus momentos de introspecção é assim que eles se sentem, são A e são Não-A ao mesmo tempo, movidos pelo choque e antagonismo entre corpos em plena metamorfose, pressões familiares e sociais, obrigação de tomar partido em disputas que não entendem, exigências e dilacerações que os deixam sem saber se são uma pessoa ou uma barata.

1329) “Clube da Luta” (16.6.2007)



Clube da Luta, de David Fincher (1999) é um desses filmes polêmicos cujos críticos contra e a favor se exaltam a tal ponto que a gente vê a hora eles se transformarem em outro clube-da-luta como aquele em que Edward Norton e Brad Pitt se esmurram até transformarem a cara um do outro em postas sanguinolentas. O filme tem uma história inquietante, um roteiro extremamente tenso e energético, uma realização visual rica de efeitos. Mas eu não gosto do filme. Por quê?

Ele se divide em três partes. Na primeira, mostrando a vida de um executivo rico, “banana”, abestalhado, o filme é uma crítica ao consumismo, à passividade, à burocracia. Na segunda, quando ele fica amigo de Pitt e os dois criam um clube dedicado a brigas corporais, ocorre uma regressão ao animalismo, ao vitalismo, ao sentido zoológico da vida, ao materialismo corporal como reação à falta de sentido da vida em sociedade. Na terceira parte, eles começam a criar milícias voltadas para a violência cega, para a destruição gratuita de símbolos do Poder Econômico, como as firmas de cartões de crédito. A esta altura, o filme descambou para um homossexualismo machista sem sexo, fundado na agressividade, num sadomasoquismo militarizado e anarquista.

O primeiro terço do filme é uma excelente sátira à sociedade americana. O segundo terço é um desabafo vitalista, uma sacudida brutal que choca, impressiona, e é intelectualmente compreensível. O terceiro terço é um sintoma da desorientação dos próprios autores, que acabam mergulhando no delírio que criaram e acreditando na fantasia para-fascista com que tentaram satirizar a sociedade que renegam. Quando os cidadãos pacatos começam a participar do Clube da Luta (a respeito do qual é preciso manter segredo absoluto), sentem-se como garotos admitidos no interior de uma Sociedade Secreta onde podem dar vazão a sua agressividade, mesmo que seja ao preço de ter os dentes e o nariz partidos. Sentem-se vivos pela primeira vez. A mim, isto lembra a teoria do “Outsider” de Colin Wilson – o sujeito de inteligência superior que não consegue se adaptar a uma sociedade incapaz de compreendê-lo e de utilizar seus talentos. Para não morrer de tédio ou de depressão, ele às vezes vira um criminoso – só “para se sentir vivo de verdade”.

O filme de Fincher tem uma visão Bin Laden da política: para combater os males do capitalismo, basta explodir seus arranha-céus. É uma visão apocalíptica, destrutiva e fascista da política atual. Por ser tecnicamente muito bom, o filme inquieta, já que tudo que diz parece plausível. E o filme emperra numa situação que sempre existiu no cinema, mas parece estar existindo cada vez mais: o cara mostra aquilo tudo para criticar, ou porque gosta daquilo e quer mostrar a todo mundo? É uma discussão antiga, principalmente com filmes violentos. Fincher parece às vezes aquele fotógrafo que vai cobrir uma passeata e acaba participando dela.

1328) As árveres somos nozes (15.6.2007)



Está no YouTube, a caverna de Ali Babá do video alternativo. Tudo está no YouTube, desde vídeos domésticos até turmas de jovens bêbados acenando para a câmara até videocassetadas e clássicos do cinema mudo. O vídeo de que falo hoje é um desses sucessos efêmeros que todo mundo vê e todo mundo recomenda a todo mundo. As febres do YouTube são assim, rápidas, intensas, logo substituídas por uma febre semelhante em torno de um produto diferente. Algum tempo atrás, a febre era em torno de “Tapa na Pantera”, um video de uns 10 minutos com uma atriz cinqüentona elogiando os efeitos da maconha (efeitos que aliás são visíveis na protagonista durante todo o depoimento). Muito engraçado, mas não se compara ao caso em pauta.

O caso em pauta é um vídeo de pouco mais de 3 minutos cuja parte principal é a trilha sonora: duas pessoas tentando ensinar um sujeito a repetir a frase: “O jardineiro é Jesus, e as árvores somos nós”. Trata-se de uma gravação original em áudio, com desenhos rudimentares que ilustram e comentam as besteiras que escutamos. Porque o camarada simplesmente não consegue repetir a frase. Tem horas que ele parece débil mental, tem horas que parece alcoolizado, ou que parece fazer de propósito – enfim, ele diz: “O zardineiro é Zesus...” Aí é interrompido: “Não, não. O jardineiro é Jesus, e as árvores somos nós”. Ele tenta de novo: “O jardineiro é Jesus, e as árveres...” Os outros o corrigem: “Ár-VO-res!” E ele: “Ár-VO-ROS!” “Não, não: as árvores somos nós” E ele: “As árveres somos nozes”.

Não vou repetir tudo porque perde a graça, e aliás não tem muita coisa fora isto. Já recebi desde janeiro uns 50 emails de gente conhecida e desconhecida me indicando este video, com link e tudo. E já devo tê-lo mostrado, em minha casa e na casa dos outros, a outras 50 pessoas. Por que? Creio eu que é pelo apelo irresistível do besteirol, uma das principais forças propulsoras da Internet. Fazer besteirol com cobrança de ingresso é coisa para profissionais como o Casseta & Planeta. Nem todo mundo está dispostos a pagar para ouvir isso. Mas na Internet você exibe sem pagar nem ganhar, e um milhão de pessoas assistem sem ganhar nem pagar. E fica tudo em casa.

O zardineiro é a Internet, esta capacidade incrível de semear idéias, sejam elas a Teoria do Campo Unificado Einsteiniano ou uma coroa elogiando o baseado. O jardeneiro semeia, espalha, pulveriza, ou – no idioma local – disponibiliza, e as pessoas chovem sobre aquilo como abelhas chovem sobre as flores, transformando-se em agentes involuntários da polinização. O YouTube é uma invenção recente de dois caras de 20 e poucos anos, e hoje vale bilhões de dólares. Eles são os jardineiros, são Chessús, são o grande mestre da sinapse social. E as árveres somos nozes, para o Bem e para o Mal, bebês engatinhando no novo patamar da comunicação, um mundo que para as gerações futuras será o único possível, e não conseguirão imaginar como era o mundo antes.

1327) Os homens que mataram o facínora (14.6.2007)



Com este título, inspirado no faroeste clássico de John Ford, o jornalista Moacir Assunção publicou (Rio, Ed. Record, 2007) mais uma obra na bibliografia sobre Lampião. Desta vez, o foco não cai sobre o cangaceiro, embora muita coisa seja dita sobre sua vida, sua família e seus combates. Como o título indica, Assunção se volta para os antagonistas de Virgolino Ferreira, tanto os que foram por ele próprio considerados seus inimigos mortais – seu ex-vizinho Zé Saturnino, o chefe de volantes Zé Lucena, quanto Mané Neto, um dos mais valentes perseguidores dos cangaceiros, e João Bezerra, o chefe da volante que em julho de 1938 surpreendeu o bando de Lampião na famosa Grota de Angicos e matou 11 deles, entre os quais o Capitão e sua mulher Maria Bonita.

Assunção é um jornalista dedicado, que além de consultar livros e jornais viaja pelos lugares onde os fatos aconteceram e entrevista os sobreviventes dessas epopéias sertanejas de quase um século atrás. A história do cangaço vive sendo reescrita sem parar, mas uma das coisas que mais prejudicam sua compreensão é o intenso emocionalismo de muitos que escrevem contra ou a favor. Para uns Lampião era um criminoso sádico, interesseiro, bajulador de coronéis; para outros, um cavaleiro andante combatendo injustiças, perseguido por governos corruptos e policiais sanguinários. Ora – como se diz por aí, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Relatos imparciais são sempre bem vindos, quando mais não seja para colocar os fatos em primeiro plano.

O livro tem histórias trágicas, episódios curiosos. Um detalhe interessante é a menção ao combate em 1924 entre Lampião e as forças de Teophanes Ferraz Torres, perto da Lagoa do Vieira (PE); ferido no pé, Lampião passou 40 dias escondido na Serra do Catolé, nas proximidades da Pedra do Reino, ou Pedra Bonita.

Uma história que me comoveu foi a do massacre da família Gilo, na Fazenda Tapera (PE). Um cabra de Lampião chamado Horácio Grande era inimigo do fazendeiro Manoel Gilo, e falsificou uma carta em nome dele, insultando e desafiando Lampião. Lampião foi até lá com o bando, e depois de uma noite de tiroteio matou 13 pessoas entrincheiradas na casa da fazenda. O velho Manoel foi o último: trazido à presença de Lampião, afirmou que não tinha mandado carta alguma, até porque não sabia escrever, e que o autor da mentira era Horácio. Este puxou do revólver e matou o fazendeiro ali mesmo. Fosse eu o Rei do Cangaço, o tal do Horácio não ficava vivo nem mais um minuto. Lampião limitou-se a expulsá-lo do bando.

O livro de Assunção não tem a profundidade interpretativa de outro que estou folheando, Guerreiros do Sol, de Frederico Pernambucano de Melo. Como a maioria dos livros sobre cangaço, é uma recolha de episódios contados e recontados de diferentes pontos de vista. Pertence ao que poderíamos chamar de “história oral preservada por escrito”.

1326) O preconceito de gênero (13.6.2007)


(Raymond Chandler)

Tem certas perguntas que já me preparei para responder pelo resto da vida. Uma delas é: “A ficção científica é sub-literatura?” Troque “ficção científica” por “literatura policial, de terror, etc.” e calcule os milhares de vezes que um sujeito tem que suspirar e puxar do bolso a mesma resposta. Não, não é. Nenhum gênero literário é uma garantia de sub-literatura “a priori”, assim como nenhum deles é garantia de Obra de Arte “a priori”. Um gênero é um conjunto de regras, de convenções formadas espontaneamente pelos que o praticam. Cada obra brota do zero, e o ponto de qualidade que ela vai atingir depende apenas do artista.

Assim como existe o preconceito negativo contra alguns gêneros, existe um “preconceito positivo” com relação a outros. Alguns praticantes do “romance social”, por exemplo, consideram que basta ser um romance “que exprime a realidade social de um país” para que qualquer livro escrito sob essas convenções narrativas seja uma Obra de Arte. Pois não é. Pode ser um livro bem intencionado, cheio de princípios nobres e de disposição para retratar o país, etc.; e com tudo isso pode ser um livro literariamente péssimo. Sub-literatura. Os exemplos são inúmeros.

O erro contra os gêneros (principalmente os que têm popularidade) têm várias razões. Uma delas é a desinformação dos elitistas. Um sujeito elitista é exigentíssimo, não lê qualquer coisa, não escuta qualquer coisa. Com o tempo, vai se parecendo com aquele cientista que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, até “saber tudo sobre nada”. Já vi crítico literário dizendo: “Admirável Mundo Novo não é ficção científica, é literatura”. É o mesmo que alguém dizer: “Hamlet não é uma tragédia elizabetana, é uma peça teatral”.

Eu talvez nem devesse dar exemplos com ficção científica, que, bem ou mal, até que não é muito vilipendiada em nosso país. Mas em nossa imprensa temos pelo menos dois termos que equivalem a uma verdadeira maldição, anátema, condenação prévia. São eles “axé music” e “auto-ajuda”. Quando alguém quer recorrer a um exemplo extremo de má qualidade, de banalidade, de ausência de talento, joga um desses termos na mesa e estamos conversados. Não precisa explicar por quê. “Todo mundo sabe” que esses dois rótulos só se referem a coisas que, por definição, não prestam.

O sujeito elitista não ouve axé-music porque parte do princípio de que esse gênero de música é incapaz de produzir uma boa canção. Está errado. O mesmo vale para o livro de auto-ajuda, e para o filme de super-heróis, e para a peça besteirol, e assim por diante. Raymond Chandler dizia que o grande escritor é o que consegue produzir uma grande obra dentro de uma forma pobre ou desgastada. Quanto maiores as limitações do gênero escolhido, maior o mérito do artista e da obra que o elevaram. É como o jogador de futebol que consegue “dar um drible em cima de um lenço”, ou seja, com pouquíssimo espaço disponível.

domingo, 25 de outubro de 2009

1325) “Cangaceiros” (12.6.2007)



Cangaceiros, de José Lins do Rego, é um romance que enxerga o cangaço pelo lado de fora, ou em volta dele. Em vez de descrever o dia-a-dia dos cangaceiros, seus combates, suas fugas, prefere contar a vida das pessoas que são parentes ou amigas dos cangaceiros, que pensam neles o tempo todo, que os temem, que os protegem, que torcem por eles ou contra eles. A toda hora chegam-lhes relatos das façanhas e das crueldades praticadas tanto pelos cangaceiros quanto pelas volantes de soldados que os perseguem. A trama acompanha Bento, irmão do cangaceiro Aparício. Através dele, na fazenda onde que se refugia, ficamos vendo a quantidade enorme de boatos, de lendas, de informações falsas e de histórias mal contadas que cercam a atividade desses indivíduos, num Sertão da década de 1920, carente de comunicações e de estradas.

A literatura de Zé Lins desenvolveu um monólogo interior com feição própria, extensos parágrafos que se expandem por páginas e mais páginas, nos quais ele acompanha as idas e vindas do pensamento do personagem, seus avanços e recuos, suas decisões, hesitações, suas intermináveis discussões íntimas nos momentos de ameaça ou de crise. Como Zé Lins usa um vocabulário claro e direto, o leitor acompanha sem muito esforço essas reviravoltas mentais sem perceber o labirinto de idéias em que está se metendo.

O livro, que aliás é uma continuação direta de “Pedra Bonita”, formando com ele uma unidade sem cesura, mostra um enorme entendimento do autor da mecânica social do ambiente que descreve, e uma grande familiaridade com usos e costumes, resultado de uma memória vívida, de um ouvido infalível. Isto lhe permite criar personagens de peso como os três irmãos Vieira: o cangaceiro Aparício, o pacífico Bento, e Domício, o poeta cantador que acaba enveredando pelo cangaço.

Mas os dois grandes personagens do livro são para mim os dois neuróticos. O primeiro é o Capitão Custódio, desmoralizado pela vergonha de ter visto seu filho ser morto pelo Coronel Cazuza Leutério e nada ter feito para vingá-lo. O código de honra do Sertão da época não admitia que um pai não vingasse o assassinato do filho, e o Capitão remói sua culpa e sua humilhação em todas as cenas em que aparece. O outro personagem é o Mestre Jerônimo, que foi embora do Brejo por ter cometido um crime de morte, não gosta do Sertão, e vai pouco a pouco entrando num delírio paranóico equivalente ao do Capitão Custódio. São dois personagens trágicos, que mostram o remoer de angústias e ansiedades que existe às vezes por trás da fisionomia impenetrável do sertanejo. Numa interiorização progressiva de culpas, ressentimentos, humilhações e medos, os dois vão sendo consumidos de dentro para fora diante dos nossos olhos. Quando Bento procura fugir dali, nos últimos capítulos, está fugindo ao terrível futuro que o ameaça, o de se tornar um cangaceiro como os irmãos ou um doido como os seus dois protetores mais velhos.

1324) O que faz um best-seller (10.6.2007)



Ninguém sabe o que faz um livro tornar-se sucesso de vendas. De vez em quando aparece por aí um Nome da Rosa, Código da Vinci, Alquimista e vende horrores. Por quê? Ninguém sabe: nem o autor, nem o editor, nem as pessoas que estão comprando, porque ao lado livro daquele tem outro, do mesmo autor, ou sobre o mesmo assunto, que está entregue às moscas.

Um dos grandes sucessos da década de 1980 foi Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. O editor Caio Graco Prado era amigo do rapaz, que nunca tinha escrito um livro, e sugeriu-lhe escrever suas memórias. Marcelo era filho de um deputado de esquerda “desaparecido” pela ditadura, e tinha ficado paraplégico ao dar um mergulho de mau jeito. Apesar disso, era um sujeito “alto astral”. Caio Graco encomendou-lhe um livro prometendo que iria vender uns 30 mil exemplares. Vendeu 500 mil; está vendendo ainda hoje. Ninguém sabe por quê – ou melhor, depois que acontece, todo mundo acha que sabe, e toda vez que tenta repetir a receita, não dá certo.

Curtis Sittenfeld, autora do recente best-seller Prep não sabe por que motivo seu livro (no qual a própria editora não botava muita fé) vendeu 133 mil cópias em capa-dura e mais 329 mil em edição de bolso, além de ter sido negociado para 25 países e para o cinema. Tanto a autora quanto os editores foram colhidos de surpresa por uma resposta totalmente desproporcional à sua expectativa. “Na maior parte do tempo, é uma profissão regida pelo acidente,” diz William Stratchan, da Carroll & Graf. “Se alguém tivesse a chave do segredo, seria muito rico, mas ninguém a tem”.

Uma mudança interessante – e bem ao espírito capitalista – ocorreu em anos mais recentes, com a Internet. A facilidade e rapidez na troca de informações faz com que os editores de hoje possam pesquisar seu mercado quase tão bem quanto as redes de TV ou os estúdios de cinema. Num saite como a Amazon.com, leitores deixam páginas inteiras de comentários, fazem listas de livros preferidos, e de certo modo traçam um perfil da multidão silenciosa que consome livros. Os Blogs de leitores também são importantes neste processo. É um bom sinal? Não creio. Uma das melhores coisas no mercado do livro é a imprevisibilidade do próximo sucesso. No dia em que o mercado leitor puder ser passado num pente-fino pelos Ibopes especializados, aí sim, o livro vai mesmo ser tratado como se fosse um detergente ou um sabonete.

Nos EUA, diz o agente Eric Simonoff, as outras indústrias ficam perplexas com o rudimentarismo da indústria editorial: “porque é tão imprevisível, porque as margens de lucro são tão pequenas, os ciclos são tão longos, e pela ausência quase total de pesquisa de mercado”. Para nós, autores e leitores, isto são boas notícias. Tremo-na-base ao pensar no dia em que um gerente de marketing vai me estender dez laudas de pesquisas tabuladas nos mínimos detalhes e dizer: “Está tudo aqui, agora só falta escrever o livro”.

1323) A solidão do tenista (9.6.2007)



A TV a cabo está exibindo o torneio de tênis de Roland Garros, onde o nosso Guga foi campeão três vezes e ficou na História como o maior tenista brasileiro de todos os tempos. Devido ao fuso horário não vejo esses torneios ao vivo (passam de manhã), acabo vendo o VT durante a tarde, tendo antes o cuidado de não assistir o Globo Esporte – assim não sei quem ganhou, e é como se o jogo não tivesse acontecido ainda.

Sempre sonhei (ainda sonho) em ser jogador de futebol. Mas se pudesse voltar no tempo e escolher um esporte como vocação, missão e profissão, eu escolheria o tênis. O futebol é um jogo coletivo, onde ficamos à mercê do talento dos companheiros, da sorte ou azar dos companheiros, etc. No tênis, é o cara, a bola e a Providência Divina. Mais nada. Existe o lado negativo de não ter com quem comemorar e compartilhar a alegria das vitórias; mas tem o lado positivo de não se poder botar a culpa em outras pessoas. O tênis é um exemplo do individualismo no que ele tem de mais pesado, no sentido de tomar decisões sozinho e assumir responsabilidades sozinho.

Há um filme do “Free Cinema” inglês, de Lindsay Anderson, cujo título é: The loneliness of the long-distance runner. A solidão do corredor de longa distância – o maratonista, o cara que faz “cross country”, etc. Aplica-se também ao tenista, que por 2 ou 3 horas enxerga à sua frente apenas a raquete, a bola, a rede, a quadra, o adversário. É um esporte que exige uma concentração enorme, uma enorme capacidade de não fraquejar, não se desorientar, não se afobar, e isto sem um instante sequer para descontrair. No futebol ocorre às vezes do jogador ficar quatro ou cinco minutos sem participar do jogo: tudo está acontecendo do outro lado, a bola não vem para onde ele está. No tênis, a bola está vindo na sua direção o tempo todo, horas a fio, sem parar.

Num desses torneios conquistados por Guga houve um ponto decisivo. Ele começou mal o jogo, estava perdendo, e chegou um momento em que o adversário tinha o chamado “match point”: se ganhar aquele ponto, ganha o jogo. O cara sacou, Guga defendeu, ficaram trocando bolas, e ele ganhou o ponto. Aí disputou e ganhou o ponto seguinte. E ganhou aquele “game”. Ganhou o “game” seguinte. E o outro. E o outro. Ganhou o set, e o próximo set, e foi em frente até vencer a partida. Continuou no torneio, e acabou sendo o Campeão. Mas o título inteiro dependeu daquela jogada solitária em que houve uma troca de bolas durante a qual Guga sabia que se errasse perdia o jogo e estava fora do campeonato.

O tênis é uma disputa em que o cara pode ir de 1% de chances a 99% de chances (ou vice-versa) em questão de meia-hora. É um jogo de personalidades. Disse um comentarista que o nível atual de preparação técnica é tão grande que os títulos são decididos por fatores puramente emocionais: autocontrole, concentração, calma, obstinação, persistência infatigável. Pense numa coisa parecida com a Literatura!

1322) Os piratas e os sebistas (8.6.2007)



Sou freqüentador de sebos (livrarias que vendem livros usados) há mais de meio século. Cerca de dois terços dos livros que possuo em casa foram comprados em sebos ou equivalentes (calçada, banquinhas de rua, etc.). Por que? Primeiro, pelo preço. Um livro que na livraria custa 50 reais pode ser encontrado na calçada ou no sebo por 20 ou menos. Segundo, pela escassez. Uma livraria, por mais boa vontade que tenha para com um livro de cinco anos atrás, só o mantém no balcão ou nas paredes se ele estiver vendendo bem. Se eu quero um livro que não é novidade de catálogo, é mais provável que o encontre num sebo do que numa livraria. Em terceiro lugar, por algo que faz fronteira com a escassez, mas é outra coisa: a improbabilidade. Em livrarias a gente só encontra o que foi visto pelo livreiro num catálogo, pensado, discutido, encomendado à editora. Em sebo a gente vê de tudo, principalmente bibliotecas inteiras de colecionadores que passaram a vida reunindo coisas obscuras e que, quando morrem, a viúva se livra daquilo tudo a preço de banana em menos de um mês. Para onde vai? Para o sebo.

Num sebo (ou numa calçada) encontrei algumas raridades que me orgulho de possuir: A Liga dos Planetas de Albino Coutinho, o primeiro romance interplanetário brasileiro, de 1923; uma primeira edição de A Amazônia Misteriosa de Gastão Cruls, pela qual teria pago 100 reais mas o cara me ofereceu por 1 real; uma primeira edição das Vies Imaginaires de Marcel Schwob (1896), que inspirou Borges a escrever sua História Universal da Infâmia, e que achei por 10 reais; as traduções de Edgar Poe feitas por Baudelaire em reedições da década de 1890; a primeira edição de Sagarana, de Corpo de Baile. Tudo isto a preço de banana.

Nada disto poderia ser encontrado numa Saraiva ou numa Siciliano. Nem sequer numa Travessa, Cultura ou Leonardo da Vinci. O sebo é a província do imponderável, do inesperado, do raro, do obscuro, daquilo que deixou de existir um dia mas não foi obliterado de todo. Às vezes, um exemplar encontrado num sebo depois de cinqüenta anos leva um editor a dar vida nova a um livro ignorado, transformá-lo em sucesso póstumo.

Imaginem só se as livrarias oficiais, e os escritores, começassem a fazer campanha contra a existência do sebos, chamando aquilo de pirataria. Porque um sebo não paga um centavo às editoras, não paga um centavo ao autor. Se um livro meu vende na livraria eu ganho 10% do preço pago pelo leitor; num sebo, não ganho nada. Mas nem por isso temos o direito de combatê-los. O sebo prolonga a vida útil do livro, alcança o leitor de bolso raso, atinge o leitor jovem, atinge todos aqueles que têm muita curiosidade mas pouco dinheiro. Não são concorrentes da livraria. Trabalham noutra faixa de mercado. Há livros que comprei por 5 reais num sebo, meio estragadinhos, e que depois de ler corri a comprar um exemplar novo na livraria por 30 ou 40. Por que? Porque pude arriscar, e conhecer.

1321) O paradigma indiciário (7.6.2007)




Há conceitos considerados o “sine qua non” da Ciência: exatidão, possibilidade de quantificação (reduzir tudo a números e estatísticas), previsibilidade de resultados, controle total dos processos, etc. Governos modernos e tecnocráticos, p. ex., trabalham em função disso. Ora, a predominância de tais conceitos se deve ao desenvolvimento de ciências como a Física, a Astronomia, a Química, etc., a partir do século 17. Alguns chamam a esse conjunto de conceitos “o paradigma de Galileu”, porque foi o grande experimentador italiano quem, de certo modo, deslanchou essa revolução.

Daí vem a desconfiança que os cientistas dessas áreas têm, p. ex., com as Ciências Médicas e as Ciências Sociais, cuja relação com o mundo não se reduz aos mesmos termos. (Embora tentem: os Economistas, por exemplo, são um caso à parte.) Li a transcrição parcial de um artigo de Carlos Ginsburg (em Mitos, Emblemas e Sinais, Cia. Das Letras) onde ele tenta fazer um do-in nesse ponto inflamado do conhecimento humano. Diz ele: “O verdadeiro obstáculo à aplicação do paradigma galileano era a centralidade maior ou menor do elemento individual em cada disciplina. Quanto mais os traços individuais eram considerados pertinentes, tanto mais se esvaía a possibilidade de um conhecimento científico rigoroso”.

Quer dizer – científico no outro sentido do termo. Não se pode criar um bebê como se constrói um edifício, e não se pode examinar uma pessoa doente como se examina um motor com defeito. (Como diz um médico amigo meu: “A principal diferença é que a pessoa sabe que está doente, e o motor não sabe que está defeituoso”) Tudo que envolve matéria orgânica apresenta complicações que a matéria inorgânica não tem. O que é físico e biológico é mais complexo do que o que é apenas físico. O que envolve a consciência envolve maiores complexidades. Tudo que envolve o relacionamento social é mais complexo ainda – embora, como alívio, o comportamento dos grupos sociais possa ser previsto estatisticamente, assim como pode-se prever estatisticamente o movimento coletivo das partículas sub-atômicas.

Diz Ginsburg que é necessário criar um paradigma “fundado no conhecimento científico do individual”. É o que pedem as disciplinas “indiciárias” (que incluem a medicina), onde tão importantes quanto as verdades genéricas sobre a espécie, etc. são os indícios específicos que aquele indivíduo fornece ao examinador e que caracterizam o seu caso – o qual tanto pode ser mediano e típico como pode ser extraordinariamente raro, e nem por isso menos cientificamente real. Quando nos queixamos de que o médico do nosso Plano de Saúde faz duas ou três perguntas, olha nossa língua e depois receita um antibiótico, sabemos por intuição que ele está se recusando (por negligência ou por exaustão de carga horária) a procurar o que nosso caso tem de único e específico, e que talvez seja crucial para nossa cura.