domingo, 21 de junho de 2009

1110) “Les 400 Coups” (5.10.2006)



Revi na TV a cabo este belo filme de François Truffaut, seu primeiro longa, lançado em 1959 (no Brasil, Os Incompreendidos). Um adolescente vive com problemas na escola (a qual, aqui pra nós, é um pé no saco), e também em casa, com a mãe indiferente e um padrasto que é boa-praça, mas até um certo ponto. Truffaut ficaria durante décadas contando a vida deste personagem, Antoine Doinel, sempre interpretado pelo ótimo Jean-Pierre Léaud, numa experiência rara de cine-biografia à qual os críticos não parecem dar a devida importância, por estarem sempre preocupados em discutir como Godard posicionou a câmera.

A câmera de Truffaut segue Antoine como um cão fiel, por uma Paris em preto-e-branco que perde muitíssimo na TV, mas que na tela larga era tão rica de formas e tons que ninguém conceberia aquela cidade filmada em cores. Truffaut é um cineasta narrativo, acima de tudo. Seus enquadramentos e movimentos de câmara são feitos em função do modo como os atores se deslocam, naquele balé discreto que nos afasta, nos aproxima, nos faz pular de um campo para um contracampo, de um plano de detalhe para um plano geral, de uma maneira tão fluida que não percebemos os cortes. A fotografia, aliás, é de Henri Decae, e me trouxe uma grande saudade daquele tempo em que a enorme tela do cinema era toda preenchida com uma imagem P&B.

Bons filmes nunca param de trazer surpresas. A seqüência final mostra Doinel fugindo do reformatório, correndo na estrada, pernas-pra-que-te-quero, acompanhado pela câmara num interminável carrinho lateral que mantém em quadro o menino, até que este chega na praia, corre até a água, molha os pés na espuma, vira-se para a câmara e tem sua imagem congelada, com um olhar desafiador, perdido, insondável. Pela primeira vez me toquei o quanto esta seqüência lembra os planos finais de Deus e o Diabo na Terra do Sol, a corrida desabalada de Manuel e Rosa, e no fim o Mar invadindo tudo.

Quando vi o filme pela primeira vez, era pouco mais velho que o protagonista, e nem prestei atenção nos adultos. Revendo-o trinta anos depois percebo o quanto ele narra a coexistência de dois mundos, o dos adultos e o dos garotos, que se misturam, se relacionam, são interdependentes, mas parecem não registrar a existência um do outro. Os adultos só se preocupam com seus próprios assuntos, e tudo que Doinel faz, de certo ou de errado, passa batido: furtar dinheiro, cuidar da casa... O título mais adequado em português seria “Os Despercebidos”.

Os garotos do filme (e de sempre) são espertos, sagazes, cheios de recursos, solidários, fazem as maiores burradas, metem-se em enrascadas infantis, mas sempre com a seriedade de quem joga a vida em cada lance. Hoje nos comovemos com a ingenuidade do crime que leva Doinel à cadeia e ao reformatório, entregue pelos próprios pais. Vai ver que naquele tempo, furtar (e depois tentar devolver) uma máquina de escrever era o pior que podia acontecer com um garoto de família.

1109) A Razão Deslocada (4.10.2006)



Chamo de “razão deslocada” aqueles comportamentos que parecem racionais e lógicos, mas são inadequados àquela aplicação específica. Para algumas pessoas, basta que um comportamento tenha uma razão de ser (uma única razão de ser) para estar justificado, e ninguém ter que dar explicações. Visto à distância, contudo, este comportamento racional torna-se absurdo, no contexto maior de todos os fatos envolvidos. É aquele célebre exemplo de Bertolt Brecht: “Isto equivale a pintar a parede do camarote de um navio que está indo a pique”.

Uma vez alguém me perguntou por que motivo eu não arrumava os livros da minha estante por ordem alfabética. Expliquei que prefiro arrumar por assunto. Ficção científica nesta prateleira aqui, Arsène Lupin e assuntos nordestinos ali embaixo, cantoria-de-viola e cinema de terror ali à direita... Pode não ter muita lógica, mas tudo que eu procuro eu acho em poucos segundos, é um sistema mais eficaz do que o Google.

Jorge Luís Borges usou certa vez o termo “a desordem alfabética”, que é de uma lucidez cristalina. A ordem alfabética é uma desordem, se considerada, por exemplo, do ponto de vista da cronologia ou da nacionalidade. Todas as vezes que impomos o crivo de um critério, explodimos todos os outros. Um dos casos mais curiosos de coincidência (que de vez em quando me acontece) é ver, numa bibliografia, dois livros sobre o mesmo assunto aparecendo lado a lado porque os seus autores se chamam Hoffmann e Hoffmannstahl, por exemplo.

Razão Deslocada é o caso daquelas pessoas que têm uma inflamaçãozinha de garganta e se entopem de antibióticos, pouco ligando para os efeitos colaterais. É o caso do sujeito que trabalha 15 horas por dia, mas, como está gastando mais do que ganha, resolve fazer hora-extra para equilibrar o orçamento (em vez de gastar menos). É o caso de um sistema de Previdência que, ao perceber milhares de contas fantasmas criadas por seus próprios funcionários, exige que todos os velhinhos do país compareçam pessoalmente ao guichê para provar que existem. É o caso do rei que, ao ouvir falar que nasceu um Messias, manda degolar todos os bebês do reino para preservar o trono.

Qualquer ação pode ser racionalmente justificada, principalmente hoje em dia, quando o uso compulsivo e obrigatório da Razão foi capaz de deslocá-la na direção que mais convém a forças que lhe são opostas, inclusive o Absurdo. Desenvolveram-se em nosso mundo centenas de discursos racionais paralelos, todos auto-justificáveis, e quase todos incompatíveis entre si. Governos, exércitos, corporações e diretorias de clubes de futebol são os exemplos mais notórios do emprego da Razão Deslocada, porque cada um tem sua agenda secreta, cada um tem seus propósitos que não podem ser declarados em público, mas cada um dispõe de equipes teorizadoras e de porta-vozes capazes de justificar, com lógica e racionalidade, qualquer coisa. E estou dizendo Qualquer Coisa, mesmo.

1108) Os paradoxos do jornalismo (3.10.2006)




(livro de F. Fraser Bond)

Stanislaw Lem observou que no conto “A Loteria de Babilônia” de Jorge Luís Borges, tudo obedece simultaneamente ao Acaso e ao Determinismo. Um universo tão contraditório quanto o das gravuras de M. C. Escher, onde há elementos espaciais e visuais que se excluem mutuamente. Se um deles existir, o outro é impossível. 

Algo dessa relação existe na maneira como tratamos a imprensa e o jornalismo. Porque todo mundo que fala ou escreve sobre este assunto recorre o tempo todo a dois conceitos que para mim não podem coexistir no mesmo Universo. São os conceitos de “liberdade de imprensa” e de “jornalismo imparcial”.

O conceito de liberdade de imprensa sofreu uma distorção benigna, mas ainda assim uma distorção, durante os longos 20 anos da ditadura militar. A imprensa queria denunciar tudo que havia no Brasil daquela época: as prisões, as torturas, as arbitrariedades, a corrupção, as pequenas máfias que foram se formando à sombra dos abusos de poder. Pedia-se liberdade de imprensa o tempo inteiro, e esta expressão ficou sendo encarada como um Absoluto, um dogma inatacável. 

Liberdade tinha que ser ampla, geral e irrestrita. Quem sugerisse qualquer limitação à liberdade de imprensa (ou a qualquer outra) era chamado de nazista ou coisa pior.

Ao mesmo tempo, as faculdades de jornalismo procuram advertir os estudantes de que o jornalismo deve ser imparcial, não deve tomar partido, tem que ficar eqüidistante, “parecendo a imagem da Justiça”. O jornalista não deve se envolver ideologicamente ou emocionalmente com os fatos reportados. 

Ora, esta é uma situação ideal, própria dos manuais e dos decálogos de mandamentos, mas difícil de alcançar na vida prática. Todo mundo se envolve, mais cedo ou mais tarde. Não se envolve em tudo, claro. Mas acaba se envolvendo em algo, ainda que movido pela “indignação cívica” ou outro conjunto equivalente de boas intenções. Envolve-se, e torna-se parcial, quando defende o que acha Certo contra o que acha que é Errado.

Liberdade e imparcialidade são dois extremos de uma escala. Quando pedimos liberdade de imprensa, não é para publicar receitas de bolo, é para publicar coisas que vão incomodar alguém. Liberdade para dizer coisas que gente importante preferia que não fossem ditas. Liberdade para botar a boca no trombone, dizer que o rei está nu, e que existe algo de podre no reino da Dinamarca. 

Liberdade, num mundo cheio de conflitos de interesses, cedo ou tarde vai incomodar alguém, cedo ou tarde vai tomar partido, vai dizer ao público: “Está acontecendo tal e tal coisa, e isto está errado”. Ou seja, quando pedimos liberdade de imprensa, estamos pedindo justamente que a imprensa tenha o direito de não ser imparcial, de tomar partido, de ficar do lado de A ou de B quando A e B estão travando algum tipo de combate. 

Um jornalista (ou um juiz, etc.) não pode ser totalmente imparcial e ao mesmo tempo defender o Certo contra o Errado, conceitos escorregadios como o mercúrio.






1107) Erros criadores (2.10.2006)




Iron Butterfly foi uma fugacíssima banda de heavy metal cujo disco In-A-Gadda-Da-Vida ouvi muito nos anos 1970. O nome da banda tinha um curioso paralelismo com o do Led Zeppelin, mas nunca entendi o significado do nome do disco até ler que o título, extraído da faixa mais longa, pretendia ser “In the Garden of Eden”, mas os músicos estavam tão chapados durante a gravação e com a voz tão pastosa que os técnicos assim anotaram, e assim ficou, forever.

Erros criadores estão por trás de muita coisa que só vemos depois de pronta e não entendemos como chegou a ser assim. Alguém conhece um pássaro chamado “assum”? Não vale falar em “Assum Preto”, porque já me foi garantido que o pássaro na verdade é “anum preto”, e o título da música, escrito a mão, gerou por erro de leitura esse pássaro imaginário que, “não vendo a luz, canta de dor”. Não acho que a versão seja fantasiosa.

Ocorreu a mesma coisa na feitura do disco Paê-Birú, que Zé Ramalho e Lula Cortes gravaram nos anos 1970. Queriam saber como era o nome indígena do “Caminho da Montanha do Sol”. Raul Córdula informou por telefone que era “Pê-á-Birú”, mas alguém copiou errado e o resto é História.

Me contaram que o cartunista Henfil visitou certa vez, em Vitória da Conquista, o músico Elomar, que o encantou com sua criação de bodes e suas canções trovadorescas, que ele pensava em reunir num espetáculo intitulado o Auto da Caatinga. Henfil voltou para o Rio fascinado, criou o personagem Bode Orellana (que comia livros para ficar intelectual) e morava num lugar chamado “Alto da Caatinga” (que hoje dá 285 menções no Google, contra zero do “Auto”, que ao que parece nunca saiu do papel).

Baseado numa tradução equivocada da palavra “raios de luz”, Michelangelo esculpiu um par de chifres na cabeça de sua famosa estátua de Moisés. As luminosas emanações divinas se converteram nesse acessório cáprico, que nos séculos seguintes forneceu munição para teorias satanistas e o escambau.

Dizem que as descontraídas entrevistas do Pasquim surgiram de um erro de transcrição. A primeira delas, com Ibrahim Sued, teve suas fitas copiadas na íntegra pelas secretárias, com todas as hesitações, palavrões, bate-bocas, risos, erros, correções em voz alta. Por descuido, não passou por copidesque, e foi publicada na íntegra. Revolucionou a imprensa brasileira.

Num ensaio sobre Alain Resnais, o crítico Jonathan Rosenbaum, do Chicago Reader, comenta que uma confusão involuntária entre os nomes do dramaturgo Henry Bernstein e do maestro Leonard Bernstein acabou ditando o estilo do filme Mélo, que Resnais dirigiu em 1986. Rosenbaum chama a isto “desvio criativo” (“creative indirection”): é quando estamos indo numa direção, pegamos um desvio por engano, e acabamos chegando num lugar diferente do que pretendíamos, mas muito mais interessante. Ou, pelo menos, depois do fato consumado só nos resta dar de ombros e sacramentar: “Deixa, não mexe não, ficou bem melhor assim”.




1106) Os Nove Desconhecidos (1.10.2006)




(Gilbert Garcin: "L'Inconnu")

Entre as Teorias da Conspiração que circulam por aí, uma das mais curiosas é a dos Nove Desconhecidos. As fontes a respeito são contraditórias, ou melhor, caóticas e desencontradas, mas concordam num aspecto básico. 

Dizem que há muitos séculos existem no mundo nove indivíduos espiritualmente íntegros, detentores de um saber extraordinário e secreto, cuidadosamente guardado e transmitido através dos tempos. Algumas versões falam que cada um desses indivíduos é guardião de um Livro, o qual nunca pára de ser atualizado com novas descobertas.

Seriam nove livros contendo os segredos essenciais de nove ramos do conhecimento: 

1) lingüística; 
2) fisiologia; 
3) microbiologia; 
4) transmutação dos metais; 
5) telecomunicações; 
6) gravitação; 
7) cosmogonia; 
8) luz; 
9) sociologia. 

Esta é uma das diferentes listas que são reproduzidas em livros e saites por aí. Me parece uma lista meio caótica, até porque os itens 6, 7 e 8 lidam com assuntos muito próximos e pela lógica científica deveriam constituir um único campo. 

Em todo caso, dizem que às vezes acontecem “vazamentos” de informações em alguma destas áreas. O Judô, por exemplo, teria tido origem num vazamento do Livro 2, onde se fala de técnicas que possibilitam matar ou imobilizar um indivíduo apenas tocando em seu corpo, sem o emprego de armas. A Alquimia Medieval teria sido outro vazamento, desta vez de processos contidos no Livro 4. E assim por diante.

Segundo outras interpretações, no entanto, a coisa é menos conspiratorial e mais filosófica. Os Nove Desconhecidos são um número meramente simbólico. Não existem “Livros” secretamente mantidos e atualizados – fico imaginando, aliás, quantos milhares de páginas teriam estes livros, a esta altura do campeonato.

A lenda dos Nove Desconhecidos assevera que deve-se a eles a sobrevivência moral da Humanidade, e o fato de que a nossa espécie ainda não tenha sido consumida pelas guerras, pelas pestes ou pelo caos social. Incógnitos, anônimos, humildes, eles trabalham em surdina, enquanto os governos, os exércitos e as corporações depredam o mundo. 

Mas não são apenas nove. São muitos mais.

Há uma narrativa sobre um sujeito que dedica sua vida a investigar esta lenda. Procurando aproximar-se dos detentores dos nove livros mágicos, ele estuda a fundo todas estas matérias, deduzindo que cedo ou tarde, se se aprofundar o bastante, seu caminho acabará cruzando com pelo menos um desses mestres. Torna-se muito respeitado entre os outros sábios, embora ninguém o conheça nos meios intelectuais, nas cortes, no meio da nobreza. 

Já bem velho, perto de morrer, alguém lhe traz, para traduzir, um documento escrito num idioma obscuro, garantindo-lhe ser a prova concreta da existência de um dos Nove Desconhecidos; é a biografia completa de um deles. Quando começa a ler, ele descobre ali a história de sua própria vida. Ele era um dos sujeitos que mantinham viva a sabedoria e a honestidade.






1105) Nonada (30.9.2006)



O doutor de óculos chega de visita no sitiozinho do velho jagunço. Senta no alpendre, alguém lhe oferece água, diz que o dono da casa chega já. Durante o copo dágua, o visitante ouve tiros e mais tiros nas proximidades: pá, pá, pá... Daí a pouco chega o jagunço velho, cumprimenta-o, deixa-se cair na rede da varanda. O doutor exprime sua preocupação: está havendo briga, tiroteio com inimigos?... O velho dá uma risada e diz: “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego...”

Guimarães Rosa pegou uma das palavras mais esquecidas da língua e trouxe-a para o proscênio, desnudando-a para sempre à luz dos holofotes da posteridade. Quem se disponha a entrar nas seiscentas e tantas páginas de “Grande Sertão: Veredas” vai ter que fazê-lo pela mão dessa palavrinha meninota, novinha em folha. E que significa “quase nada”. Um nadinha de nada. Coisa sem importância, coisinha ínfima, bagatela.

Minha definição pessoal de “nonada” se baseia nessa forma, que me parece óbvia: “não-nada”. Parece uma fórmula minimizadora: “ah, não foi nada não...” Mas não-nada é para mim aquilo que em Matemática chamamos “diferente de zero”, usando como notação diante do zero o sinal-de-igual cortado por uma barra oblíqua. Diferente de zero pode ser algo como 0,001. Quase nada. Um nadica de nenhuma coisa, mas uma lasquinha de coisa que para se representar na página gasta mais tinta do que um 1.

Por que essa preocupação, essa minúcia oftalmológica de enxergar tamanhinhos ciscos, tamanhinhos grãos? Porque tudo tem importância. O doutor precisa saber que aqueles tiros não foram para matar gente. Foram tiros virtuais, tiros estéreis, descarga de projéteis sem alvo humano envolvido. Não foram uma coisa, mas foram outra. Nada no mundo é o zero total, tudo tem uma vírgula e um colar de zeros com um 1 lá na ponta. Tudo que existe é um não-nada, é negação do vazio.

Por que lembro disto logo agora? Porque hoje no espelho vi um jagunço velho que nunca deu um tiro, nunca se travou de faca com seu-ninguém, nunca foi chamado a descobrir se é ele mesmo ou não, e ficou achando que nada do que faça tem tutano e matéria. Acha, por exemplo, que nada do que faça pode sacudir este País de cima a baixo, como ele sonhou um dia que era sua predestinação. Esse tempo, se veio, passou sem ser notado, e ele hoje se acha um zé-às-dúzias, um joão-grosa, um desses milhões de doutores de óculos que não sabem nem pra que lado se aponta um parabelo. Mas ele se consola em saber que, em dia de eleição, ele é um dos cem milhões de eleitores que vão às urnas. É um não-nada: aproximadamente 0,00000001. Ele é um voto somente, mas um voto é um tiro virtual, um tiro com que a gente derruba todos e deixa de pé apenas um. Abram alas, por favor. Amanhã o velho jagunço troca de roupa, empunha o título e sai de casa, sabendo que se errar vai fazer uma diferença danada.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

1104) Superstição e megalomania (29.9.2006)



(ilustração: Tony d'Agostinho)

Em seu famoso ensaio sobre o “Uncanny” (o Estranho, o Sinistro), Sigmund Freud aponta, como um dos fatores propiciatórios desse contato com uma realidade perturbadora, o que ele chama de “onipotência do pensamento”, que conduz ao pensamento mágico. Do que se trata? Trata-se da sensação instintiva de que o nosso pensamento é capaz de modificar a Realidade sem tocar nela, por um simples esforço da vontade. Freud situa isso numa fase da evolução da mente infantil, em que a criança imagina ou deseja ser capaz de impor suas venetas às pessoas e objetos à sua volta.

A literatura fantástica está cheia de ilustrações dessa fantasia inofensiva, que, quando tratada realisticamente, produz pesadelos arrepiantes. Há um conto de Jerome Bixby, adaptado por Steven Spielberg para um dos episódios do seu Fronteiras da Realidade (Twilight Zone), versão cinematográfica do antigo seriado de TV Além da Imaginação, onde um menino é capaz de transformar seus desejos em realidade. No filme, os adultos vivem humilhados, aterrorizados, bajulando o garoto sem parar, porque sabem que basta uma pequena contrariedade para que ele os faça desaparecer com um piscar de olhos.

Toda a Magia se baseia nisto, tanto a dos índios primitivos quanto a dos intelectuais europeus da Renascença e do Iluminismo. Eles criam que rituais encantatórios, cumpridos à risca, podiam influenciar o Mundo sem ter com ele nenhum tipo de contato. Todos nós lembramos a divertida frase de João Saldanha: “Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano só terminava empatado”. A frase é perfeita, mas do ponto de vista técnico, os adeptos da Magia podem argumentar que o Campeonato de lá é na verdade uma disputa para ver quem é capaz do feitiço mais bem-feito, do ritual executado com mais rigor. É esse quem decide os gols de uma partida na Fonte Nova ou no Barradão.

Eu que o diga. Quando eu tinha 13 anos, um simples jogo do Treze era cercado dos mais complicados rituais. Nos meus cadernos de anotar resultados, tinha canetas que davam sorte e outras (eu só o descobria tarde demais!) que davam azar. Quando o Treze foi campeão invicto em 1966, vi todos os jogos com a mesma camisa. Quando ouvia os jogos pelo rádio, eu cismava que todas as vezes que aumentava o volume o time jogava bem, e quando o abaixava o time jogava mal. Daí a pouco, a altura do rádio estava insuportável. Minha mãe surgia esbravejando à porta da cozinha, colher-de-pau em punho. Que fazia eu? Esperto, dava uma abaixada total no volume, e ficava aumentando de tiquinho em tiquinho cada vez que a bola rondava a grande área.

Toda superstição é uma forma de humildade (reconhecimento de que o Universo é movido por forças mais poderosas do que nós) e de megalomania – o palpite de que essas forças podem ser bajuladas, seduzidas, estudadas, manipuladas de forma solerte, transformando-nos, ao trilar do apito final do juiz, em Senhores do Universo.

1103) Penumbras do idioma (28.9.2006)



Há um pequeno artigo de Freud (“The Antithetical Sense of Primal Words”, 1910) onde ele comenta uma característica da língua do Antigo Egito, observada pelo filólogo K. Abel. Ao que parece, existiam nessa língua palavras que significavam coisas exatamente opostas. A mesma palavra servia para dizer, p. ex., “quente” e “frio”, ou “forte” e “fraco”. Além disso, havia também palavras compostas de dois sentidos contrários, mas que se referiam a apenas um deles. Por exemplo: a palavra “velhojovem” significando “jovem”, a palavra “pertolonge” significando “longe” e assim por diante. Abel sugere que palavras assim indicam um processo de evolução da língua, processo em que os conceitos vão ficando gradualmente mais nítidos e mais independentes com o passar do tempo.

Freud retoma esta discussão em seu ensaio “The Uncanny” (1919), onde ele começa discutindo o termo alemão “Heimlich”, que tem um duplo significado: algo que é conhecido, familiar, comum, e ao mesmo tempo algo que é secreto, oculto. O “Unheimlich” (em inglês, “the Uncanny”; em português, “o Estranho, o Sinistro”) é uma forma negativa que de certo modo acaba intensificando ambos os conteúdos, contraditórios, da palavra inicial. Freud define o Estranho ou o Sinistro como algo que era familiar mas foi reprimido e ficou oculto, e quando emerge parece-nos ao mesmo tempo estranho e próximo.

Já comentei aqui este conceito (“Freud explica o Unheimlich”, 4.6.2006), quero agora comentar essa questão de palavras contraditórias. Nossa linguagem é cheia delas. No Nordeste, por exemplo, uma solteirona é chamada de “moça velha”, onde “moça” não significa jovem, e sim virgem. Usa-se menos (mas usa-se) o termo “rapaz velho” para um solteirão; “rapaz” no caso não indica que o sujeito é virgem, mas que não constituiu família. Envelheceu na idade sem atingir a maturidade social, por assim dizer.

Quando dizemos “Comi um cachorro-quente frio” não sentimos contradição porque a palavra “quente” incorporou-se ao nome do produto, não é mais indicativa da eventual temperatura dele. O mesmo se dá com termos como “gelo seco”, “carne de soja”, etc., onde os termos são usados comparativamente e não soam como contradição. Ainda assim, nossa linguagem é cheia de “oxímoros”, conjuntos de duas palavras que parecem negar-se mutuamente. O Dr. Mardy Grothe dedica a isto seu saite Oxymoronica (http://www.oxymoronica.com/oxymoralist.shtml), onde lista (em inglês) expressões equivalentes a “fogo amigo”, “aproximadamente igual”, “realidade virtual”, “morto vivo”, “rock clássico” e assim por diante.

Estas expressões não nos levam de volta ao estado remoto e indiferenciado do vocabulário do Antigo Egito. Elas são um estágio mais avançado em que a multiplicidade de usos enriquece as conotações e funções de uma palavra, que pode ser usada fora do contexto original, ou ironicamente, ou comparativamente, ou só num sentido muito específico. Figuras da linguagem – para usar mais um oxímoro.

1102) Terror para todos (27.9.2006)



Pouco tempo atrás a polícia britânica anunciou ter desmascarado uma conspiração terrorista para explodir aviões usando uma combinação de preparados químicos que iriam na bagagem dos passageiros. Impossíveis de detectar por raios-X, essas substâncias iriam acondicionadas em frascos de xampu, pasta de dentes, etc. Uma vez no ar, em pleno vôo, bastaria aos terroristas levar esses frascos para o banheiro, fazer a mistura, e pronto. A explosão resultante seria o bastante para arrombar a parede do avião (imagino), e naquela altitude o resto seria inevitável.

Desde então, passageiros não podem mais embarcar conduzindo bagagens de mão, têm que levar um saco plástico transparente, selado pelas autoridades, etc. Na verdade, não sei se tudo isto continua valendo. Houve um zum-zum-zum danado na imprensa internacional durante a primeira semana, depois não se falou mais no assunto. Será que todos já se acostumaram tão rapidamente com a Nova Ordem?

O blog Boing Boing, de Cory Doctorow (http://www.boingboing.com/), publicou um “post” de Stephen D. Levitt, o autor do livro Freakonomics. Diz ele: “As autoridades do aeroporto confiscaram meu desodorante e meu creme dental. Mas, é claro, permitiram que eu levasse o frasco com o líquido para minhas lentes de contato. Hmmm. Se eu fosse um terrorista, não acham que eu conseguiria achar um jeito de destampar o frasco e colocar algum explosivo nele? Não há o menor sentido em criar proibições que causam um transtorno enorme para pessoas inocentes mas que um terrorista pode contornar com a maior facilidade. Será que eles acham que isto tudo está levando a algum resultado?”

Esta situação me lembra um aspecto do filme Psicose de Hitchcock que virou um lugar comum dos críticos. O crime mais violento acontece com cerca de 30% do filme transcorridos. Os outros são meramente alusivos, mas a lembrança do primeiro é tão traumática que o espectador fica apavorado. Ora, algo me diz que Bin Laden, lá em sua caverna afegã, passa a noite vendo velhos DVDs de Hitchcock (sem barba, Osama deve ser a cara de Anthony Perkins). E ele sabe que gato escaldado tem medo de água fria. A porrada do 11 de setembro foi tão grande que hoje em dia, para apavorar o Ocidente, a Al-Qaeda não precisa mais repetir a façanha. Basta ameaçar.

Algo parecido ocorreu aqui no Rio, diversas vezes. Os telefones das lojas começam a tocar, e uma voz diz: “Aê, meu tio, na moral. Fecha a loja senão o Comando vai aí e fuzila todo mundo”. Quando isso acontece, o comércio fecha. Já fuzilaram uma meia-dúzia. Vocês deixariam a loja aberta, pagando pra ver? Eu mesmo não. A receita do terrorismo internacional é a mesma. Basta-lhes vazar uma informação, dando pista de uma nova ameaça, e nem é preciso cumpri-la. Basta deixar que os ocidentais fiquem se destruindo por dentro. Não precisa mais matar. Basta ameaçar, e os poderosos morrerão aos poucos, de puro terror.

1101) As faculdades de literatura (26.9.2006)





Este é um assunto que volta e meia reaparece na imprensa. Há alguns meses divulgou-se a criação de um destes cursos de formação de escritores no Rio Grande do Sul, e a polêmica recrudesceu. Como o moído é grande, pegarei para analisar apenas duas idéias, uma de cada lado. 

A turma A diz: “É impossível ensinar alguém a ser escritor. Qual foi a faculdade que ensinou a Machado de Assis, a Guimarães Rosa?” 

A turma B diz: “Ser escritor é uma profissão como qualquer outra: médico, engenheiro, jogador de futebol... Queremos ensinar a técnica, o talento é por conta do aluno”.

Vamos à frase A. Guimarães Rosa, Machado, e tantos outros são exemplos de auto-didatismo que deu certo. Eles não freqüentaram cursos de literatura. Cada um deles criou um curso de literatura para uso próprio. Leram de tudo, e leram em vários idiomas, para não ficar dependendo apenas do mercado editorial da província. Conviveram em diferentes círculos de idéias; compararam uns aos outros, superaram a todos. Grandes escritores formam-se, muitas vezes, à margem das regras e das normas. Se houvesse escolas de literatura naquele tempo, e eles as tivessem freqüentado aos vinte anos, talvez tivessem sido inutilizados para sempre. Muitos (tão bons quanto eles) provavelmente foram.

Vamos à frase B. Ser escritor é uma profissão? Às vezes. Eu, por exemplo, sou um escritor profissional. Ganho a vida escrevendo artigos de jornal, traduções, press-releases, críticas e resenhas, roteiros de cinema e TV, letras de música, ensaios, peças de teatro. Só não escrevo bula de remédio e bilhete de suicida. É possível ganhar a vida como escritor, mas isso não tem nada a ver com a Arte Literária. Talvez em cada vinte escritores profissionais, no Brasil, apenas um viva de Literatura.

Escrever profissionalmente é outra coisa, e para esta, cursos e faculdades são necessários. Um escritor profissional deve saber mais gramática do que a média da população, saber usar diferentes registros de voz e de discurso, imitar estilos, produzir texto sob encomenda com idéias que não são suas (se não concordar com elas, é só recusar a encomenda). Um escritor profissional escreve por si e por outras pessoas. Para isto, precisa de formação básica, treino, rigor, auto-crítica.

Curso de literatura não é para formar grandes autores, assim como uma Auto-Escola não visa formar um campeão de Fórmula-1. Ambas querem ser apenas um primeiro passo, sem o qual ninguém chega ao pico do Everest. Faculdades de literatura não formam literatos, assim como escolas de Belas Artes não formam artistas. 

Universidades formam técnicos. Artistas surgem aleatoriamente. A arte fica um nível acima da simples técnica. O artista assimilou a técnica mas tem um fator desequilibrante, tem uma visão pessoal que faculdade alguma fornece. Mas se surgirem faculdades ensinando gramática e expurgando clichês... ah, meu amigo, os leitores brasileiros agradecem, e muito.