terça-feira, 19 de maio de 2009

1036) As figuraças da Copa (12.7.2006)


(Schopenhauer x Kahn)

Toda Copa do Mundo revela para um bilhão de espectadores uma galeria de jogadores que são famosos em seus países (senão não estariam na Seleção nacional), mas são ilustres desconhecidos para o resto do mundo. Uns são craques, outros pernas-de-pau, mas cada um, a seu modo, exprime uma diferente faceta do futebol, que as tem mais (refiro-me às facetas) que um olho de mosca.

Vejam o grampiolão Crouch, da Inglaterra. Não é bom jogador. Só seria titular no Treze se tivesse um bom pistolão. É desengonçado, tropeça nas próprias pernas, faz faltas o tempo todo. Tem um rosto esquelético de cadáver, olhos esbugalhados, faces encovadas, e seria um coadjuvante certo num desses filmes de zumbis de George Romero. O que faz numa Seleção Inglesa? É fácil: ele corresponde a uma fantasia futebolística britânica, a de que a maneira mais bela de fazer um gol é cruzar bolas na área para que alguém cabeceie. O mais engraçado é que “to crouch” significa “agachar-se, curvar-se”, e é justamente o que ele faz para cabecear. David Beckham, o melhor cruzador de bolas do mundo, cruza 50 bolas por partida, e numa delas o Crouch acaba botando pra dentro. (Cinco minutos depois que escrevi estas linhas, Beckham cruzou e Crouch fez o 1o. gol da Inglaterra em Trinidad-Tobago. Pense num profeta!)

A medalha de jogador mais esquisito da Copa talvez caiba ao coreano que fez um dos gols em Togo, acho que se chama Lee Chun Soo. Ele tem um bigodinho Gengis Khan, preto, e um cabelo descolorido meio Rod Stewart. Parece assassino profissional de filme japonês produzido por Tarantino. Aliás, em matéria de cabelo, certos jogos da Copa dão mais assunto do que em matéria de futebol. Parece que muitos caras faltam ao treinamento para ir ao salão, imaginando a hora em que serão vistos por 500 milhões de pessoas. O italiano Camoranesi tem um rabo-de-cavalo que lhe dá uma aparência de comanche de faroeste; o argentino Coloccini tem uns cachinhos de anjo barroco, mas é um autêntico carniceiro (que o digam as canelas dos adversários).

Falando de figuraças, avistei de novo a cara de Oliver Kahn, o goleiro alemão campeão da antipatia. Na transmissão de Alemanha 2x0 Suécia, a câmara o mostrou no banco de reservas, o grupo todo vibrando com os gols e ele “de bode amarrado” porque ficou na reserva. Dias atrás, folheando um livro de filosofia, descobri por que ele é assim. Kahn é a cara, escrita e escarrada (só que com cabelo menos revolto), do filósofo Schopenhauer, autor de O Mundo como Vontade e Representação. Schopenhauer, em seus momentos mais pessimistas, via a existência humana como um processo sem sentido, marcado pela irrelevância e pelo sofrimento. Se a Teoria das Vidas Passadas é verdadeira, o sombrio filósofo reencarnou para comprovar essa tese em 2002, diante do pés de Ronaldo. A seleção alemã passou o rodo em todo mundo até agora, mas esperemos que pelo menos esta parte final da História se repita.

1035) As bobeiras da Copa (11.7.2006)



O jogador do Japão recebeu a bola e atrasou, rasteirinha, para o goleiro, que estendeu o pé para recebê-la, mas a bola quicou num montinho, pulou por cima do pé dele e saiu, mansa, pela linha de fundo, a um metro da trave. Se fosse pra dentro era gol. Foi uma das mais divertidas bobeiras da Copa, sempre farta em belos lances e pixotadas incríveis. Na TV a cabo tinha até um programa dedicado a elas, “World Cup Blunders”, ótima coleção de videocassetadas; coisas inadmissíveis até numa pelada de subúrbio, quanto mais no palco mais nobre do mundo.

E o gol-contra do cara da Itália, para os EUA? Bola cruzada da direita, subiu todo mundo para cortar de cabeça; alguém resvalou de leve e desviou a bola. O zagueiro se preparou para rebater à distância, mas o desvio de centímetros o fez pegar “na orelha da bola”, e, em vez de estourá-la rumo ao meio de campo, jogou-a com efeito para dentro do próprio gol. Um lance que certamente vai emergir em pesadelos até o fim da vida do bravo Cristian Zaccardo.

Uma marca que dificilmente será batida é a do jogador Milan Dudic, da Sérvia-Montenegro. No jogo contra a Costa do Marfim, este cidadão pegou na bola com a mão duas vezes, dentro da área: dois pênaltis que acabaram dando a vitória aos africanos por 3x2. Gostaria de saber como ele se explicou depois, no vestiário. Os juízes também fazem das suas: o juiz inglês de Austrália x Croácia, deu três cartões amarelos para um croata, episódio talvez único na história das Copas, e parece que foi posto “na geladeira” pela comissão de arbitragem.

A pior bobeira que se pode cometer numa Copa é perder um gol feito, e é inevitável. O gol que o atacante do Japão perdeu contra a Croácia, de frente pro gol, e conseguindo chutar a dois metros da trave, foi antológico. A França está se especializando nesta nobre arte; os gols feitos, escancarados, que perdeu em suas duas primeiras partidas não foram tão gritantes quanto os que perdeu na Copa de 2002, mas devem ter provocado calafrios de reconhecimento da Bretanha aos Pireneus. Vão chutar ruim desse jeito lá na Linha Maginot.

O Brasil fez das suas, também. Claro que vamos esquecê-las bem depressa, mas os estrangeiros vão passar as próximas décadas mangando da “cheirada” de Ronaldo e da pisada-na-bola de Ronaldinho Gaúcho diante da Austrália. Não estamos livres de videocassetadas, uma vez que temos Dida no gol e Lúcio na zaga, embora os dois tenham se saído bem até agora (escrevo antes de Brasil x Gana).

Um dos gols perdidos mais lamentados da Copa deve ter sido o do atacante do Equador, aos dez minutos de jogo contra a Inglaterra. O zagueiro Terry cabeceou para trás, o sujeito entrou sozinho, dominou, e bateu. Não percebeu a chegada em desespero do inglês que vinha na cobertura, e a bola, “caprichosamente”, como gostam de dizer os locutores, resvalou na sua perna, subiu, bateu na trave e foi pro espaço. Se fosse eu, tinha dado um drible pra dentro, e... Ah, deixa pra lá.

1034) God Save the Queen (9.7.2006)



Eu era pequeno e minha Tia Adiza, que morou na casa dos meus pais durante toda minha infância, vivia cantando um “hino de crente” que dizia: “Divino Salvador / contempla com favor / nosso país... / Dai-nos eterna paz / governo bom, capaz, / vida que satisfaz...” Não lembro a última linha, porque com o passar dos anos foi obliterada pelo verso final em inglês: “Goood saaave the Queeeen...” Não era um hino de crente, era o Hino da Inglaterra, cantado com fervor nas igrejas anglicanas de Campina Grande.

Vê-lo cantado em coro pela torcida inglesa numa Copa do Mundo é a coisa mais emocionante que a seleção da Inglaterra consegue proporcionar (porque, como diria o Professor Raimundo, “o futebol, ó...”). Nacionalismo, religião e futebol se mesclam com a naturalidade das grandes paixões irracionais e das grandes ideologias manipulatórias. Multidões adoram exprimir certezas coletivas. Elas atenuam a insegurança que esses caras experimentam quando cada um volta sozinho para casa e se lembra de quem é.

Hinos nacionais geralmente são bélicos e ufanistas, falam em sangue, em canhões, em morrer pela pátria. A Marselhesa, então, é muito punk, meu camarada! Nunca a ouço sem me arrepiar dos pés à cabeça. Devo ter algum cromossomo francês, porque nesse instante vem tudo à minha memória: as lutas de espadas dos Pardaillans, as aventuras de Rocambole e de Arsène Lupin, os filmes de Godard-Resnais-Truffaut, os livros de Sartre e Camus, aquela cena de “Casablanca” em que um botequim inteiro canta o hino, desafiadoramente, na cara dos nazistas... Como não ser francês, ouvindo uma canção como aquela? Como não procurar com a mão o sabre mais próximo?

O hino norte-americano nunca me seduziu muito, devido ao meu preconceito esquerdista. Só vim a me emocionar com ele depois que Jimi Hendrix, em Woodstock, o transformou numa melodia torturada por gemidos, distorções e bombardeios. Pela primeira vez vi naquele hino a expressão do Eu profundo do povo americano: um Eu em preto-e-branco, dividido, fendido, contraditório, repleto de ética puritana e de permissividade decadente, o retrato de um país Jekyll-e-Hyde que escancara para o mundo o que o futuro nos reserva de melhor e de pior.

O Hino Brasileiro tem uma boa letra, que só se prejudica pelo excesso de pompa retórica, mas pelo menos não é um convite heavy-metal ao morticínio. Será impossível uma letra de Hino que seja um bom poema? Nesta Copa fiquei conhecendo o belo Hino da República Tcheca, que diz: “Onde é o meu lar? Onde as águas fluem pelos campos, os pinheiros se agitam nas ravinas, os jardins exibem o florir da primavera. É um Paraíso na terra, o país dos tchecos, o meu lar. Se você vir uma terra que parece o paraíso, e encontrar almas ternas em corpos ágeis e de mente clara, um país vigoroso e próspero, com uma força que capaz de enfrentar qualquer desafio... você terá encontrado a raça gloriosa dos tchecos, e é entre os tchecos que está o meu lar”.

1033) Mais gols da Copa (8.7.2006)



Os deuses do futebol devolvem com uma mão o que tiraram com a outra. Em 2002, Ronaldinho Gaúcho fez na Inglaterra aquele gol de falta lá do meio do campo, desmoralizando o goleiro Seaman. Agora, no jogo de 2x2 com a Suécia, coube ao inglês Joe Cole marcar um gol parecido e muito mais sensacional, uma das obras-primas da Copa até agora. Recebeu pelo lado esquerdo da intermediária, matou a bola e mandou um tirambaço de efeito, pegando adiantado o goleiro sueco, e colocando a bola de rosca lá no ângulo. Um gol para se ver o replay de joelhos.

Gol repetido por Maxi Rodríguez, da Argentina, com o gol que desclassificou o México. Desta vez a bola veio de Sorín, lá da ponta esquerda, e Rodríguez estava no bico direito de área. Recebeu a bola no peito e, sem deixar cair, mandou de pé esquerdo no ângulo direito. O gol salvou a Argentina, que não estava conseguindo furar a defesa do México, e dependia de um chute longo para acertar o gol. (Depois que escrevi estas linhas, vi na Globo um replay dos gols de Cole e Rodríguez, em imagens lado a lado, mostrando a semelhança entre os dois).

Do Brasil, vou escolher o último de Ronaldo contra o Japão, por causa da participação de Juan. O melhor zagueiro da fase classificatória da Copa (estatísticas da Fifa) ganhou uma bola na defesa, tinha espaço pela frente, e partiu. Quando o zagueiro vem desmarcado lá de trás, os defensores ficam com medo de “ataiar o home” e deixar alguém desmarcado. Juan foi, foi, tocou para Ronaldo, recebeu de volta, tocou de novo, aí Ronaldo girou num semicírculo fazendo a bola sobrar para o pé direito, e desferiu uma bomba que compensou com juros aquela vergonhosa “cheirada” que deu contra a Austrália.

Tiro o chapéu para David Beckham, um craque muito antipatizado neste país pelo fato de ser garoto-propaganda-de-si-mesmo. Mas se pegarmos uma peixeira daquelas bem boas e descascarmos todo o marketing, toda a parafernália “fashion” e “metrossexual”, toda a badalação pop, é um ótimo jogador, e bate na bola como ninguém. Seu gol de falta contra o Equador, nas oitavas de final, foi irretocável. Uma bola de curva, rente à trave, sem muita força mas inalcançável. E o melhor: um gol que ele já fez incontáveis vezes, tanto pela Inglaterra quanto pelo Real Madrid, ou seja: não é sorte, é competência. Até agora, a falta mais bem batida da Copa.

E há os gols que não são propriamente bonitos, mas mostram a inteligência por trás do jogo. Os três gols do Brasil em Gana foram três bolas enfiadas no meio da defesa adversária, que tentava fazer linha de impedimento. No primeiro e no último, Ronaldo e Zé Roberto entraram à vontade, na cara do goleiro. No segundo, a bola enfiada foi para a ponta-direita, onde Kaká e Cafu entraram livres para proporcionar a Adriano o gol (um gol meio de canela, parecida com um que Tostão fez na Copa de 70, no Peru, acho). Gols de beleza tática, feitos de paciência na espera, rapidez no lançamento e frieza na conclusão.

1032) FUCK (7.7.2006)



O palavrão tem o poder que lhe conferimos com nossa reação diante dele. Quanto mais uma platéia se escandaliza, mais está se deixando manipular por quem visava justamente o escândalo. Se você quer derrubar um humorista, que se esforça para ser engraçado, não ria. Se quer neutralizar um sujeito que quer escandalizar, não se escandalize.

Lembro-me, na adolescência, de uma peça teatral de Jean-Paul Sartre, A prostituta respeitosa. Descobri depois que o título em francês era La p... respectueuse. Logo na pátria do “filme francês” (que naquele tempo era gíria para “sacanagem”)! Fiz agora uma busca nos sebos online, e constato que a edição de 1947 da Gallimard traz o título completo: La putain respectueuse, ao passo que a edição de 1962 da mesma editora traz o palavrão abreviado. Por quê? Públicos diferentes, códigos diferentes? Mistério.

Nos anos 1970, “O Pasquim” usava muitos palavrões, e isto chegou ao máximo na famosa entrevista que fizeram com Leila Diniz, que falava mais palavrão do que um cantor de hip-hop. A censura os obrigou a substituir o palavrão por um asterisco entre parênteses: (*). Qual o propósito disto? Não sei, porque no jornal saía assim: “Ah, Fulano, vai tomar no (*)”. Pra mim, é a mesmíssima coisa. Os pasquineiros deitaram e rolaram em cima dessa bobagem. Daí a pouco estavam dizendo: “Ah, Jaguar, vai pra asterisca que asterisquiu!”

O diretor Steve Anderson está preparando o lançamento de um documentário intitulado Fuck, e o tema do filme é justamente a palavra-título. (Para quem não sabe, é a palavra que indica o ato sexual, seja como verbo, seja como substantivo) A imprensa americana costuma chamá-la “a palavra com F” (“the F-word”), e o filme já coloca uma interessante questão metalinguística, porque o debate a respeito da palavra estará não apenas dentro do filme, com em volta dele. Como o título vai aparecer no jornal? Na TV? Na fachada do cinema?

Creio que o Brasil, mesmo como todo falso moralismo, tem vistas largas nesse aspecto. Algumas palavras são palavrões num Estado, mas não são em outros. Quando um paulistano diz: “Tá fazendo um puta calor, ô meu”, ninguém acha que ele falou palavrão. Na Bahia, um pai diz ao filho pequeno: “Se quer ver TV, primeiro tem que estudar, fazer o dever de casa, a porra toda” – e ninguém acha que isto é pornografia. É um termo tão inócuo quanto o “trem” dos mineiros ou o “troço” nordestino. Por outro lado, já vi uma novela da Globo dizer “xibiu” em pleno horário nobre. Será que ninguém avisou o que quer dizer?

“Fuck” e “fucking” estão se tornando cacoetes verbais insuportáveis dos norte-americanos. É de longe a palavra mais pronunciada em qualquer diálogo entre marginais, bandidos, indivíduos rebeldes em geral. É uma palavra que revela a esquizofrenia moral do nosso mundo: o mais proibido é o que mais se procura, o que provoca mais emoção, o que desabafa mais, o que produz catarse mais intensa.

1031) Favoritismo (6.7.2006)


(Brasil 0x1 França)

Parecia um samba de uma nota só. Desde que saiu a lista de convocação da Seleção, um enxame de jornalistas passou a crivar Parreira com todas as variantes possíveis da mesma pergunta. O Brasil é favorito? Por que o Brasil é favorito? Você acha que o favoritismo do Brasil pode prejudicar o desempenho? Como lidar com o favoritismo? E assim por diante. Parreira negaceou, negou, irritou-se, mas acabou entregando os pontos e dizendo, numa entrevista histórica: “Precisamos assumir que somos mesmo favoritos”. Era tudo que a imprensa queria.

Temos uma carência profunda, freudiana, de que nosso time entre numa competição como “franco favorito” (eita adjetivozinho irônico). Eu sou o contrário. Gosto de entrar como franco atirador (lá vem o adjetivo de novo, parece um trauma), como zebra, azarão, que entra em campo sem ser percebido e vem comendo o campeonato pelas beiras como fez em 94. Pegar o adversário de surpresa, enquanto ele se distrai com a própria arrogância, a própria vaidade, o próprio favoritismo.

É fácil explicar a ânsia infantil de nossa imprensa e de nossa torcida pelo favoritismo. É o medo da disputa. É o medo de encarar a batalha, de bater de frente com o inimigo. Ficamos angustiados com a possibilidade de não conquistar o título, e resolvemos comemorar o título por antecipação, porque mesmo que venhamos a perder (como aconteceu agora), a maior parte da festa já aconteceu. Essa mentalidade contamina os jogadores, ainda mais cercados daquele oba-oba idiota: treinos sob aplausos, mocréias que invadem o gramado para se agarrar com os jogadores. Nosso time não se esforçou porque já estava cansado de comemorar o título por antecipação. É como dizia o Coronel Galdino (com vocabulário mais regional e mais descontraído, claro): “Se o orgasmo viesse no começo, ninguém se daria ao trabalho de consumar o intercurso”.

À Seleção de 2006 aplica-se a crítica feita por Zico após a derrota de uma de nossas seleções olímpicas: “O problema é que eles foram buscar uma medalha, e as outras seleções foram disputar uma medalha”. Leio no jornal que em Chapecó (SC) um grupo de desorientados queimou uma estátua de Ronaldinho Gaúcho, que outro grupo de desorientados tinha erguido alguns anos atrás. Estes saltos maníaco-depressivos, em que passamos da euforia para a caça-às-bruxas, são um registro eloqüente da nossa infantilidade emocional. Somos como o menino mimado que, quando um brinquedo emperra, ele, em vez de tentar consertá-lo, joga-o pela janela do apartamento. Nossa Seleção tem excelentes jogadores, e repito o que já escrevi aqui: se jogassem como num clube, treinando juntos, decentemente, o ano inteiro, formariam um time quase imbatível. Nossa faxina emocional teve início na noite de sábado passado. Os Reis do Futebol estão nus. Recomecemos de baixo, galera! Eu prefiro assim. Vai doer, mas é o caminho mais promissor para o nosso desempenho na Copa de 2010. Brasil-ziu-ziu!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

1030) Davi e Golias (5.7.2006)



O duelo entre Davi e Golias geralmente é visto como a vitória do pequeno contra o grande, do fraco contra o poderoso. Virou uma metáfora freqüente no futebol, no boxe, etc., e se mistura ao conceito da vitória do pobre contra o rico, do oprimido contra o opressor, etc.

O episódio (no 1o. Livro de Samuel) pode ser visto de outra forma. Davi matou Golias com uma pedra arremessada por uma funda, sem ter que se arriscar entrando no raio de ação das armas do adversário. Sua vitória é simplesmente a vitória do duelista que possui armamento superior, tecnologia superior. É a vitória do mais moderno, que usa a tecnologia de forma eficaz, e com isto reverte uma situação de aparente desvantagem material.

Uma objeção pode ser levantada: a de que a tecnologia do guerreiro filisteu era superior à do pastorzinho israelita. Afinal, a Bíblia descreve com detalhes o capacete, a couraça, as botas e o escudo usados por Golias (todos de cobre), e sua lança de ferro. Era decerto a melhor tecnologia disponível na época, senão Golias não sairia a provocar o exército de Israel, dizendo que se algum israelita o derrotasse os filisteus concordariam em deixar-se escravizar. Por outro lado, a funda de Davi era uma arma tradicional, que naquele tempo já estaria sendo usada há milhares de anos sem modificações. Um pedaço de couro amarrado a duas tiras, e cinco pedrinhas redondas: uma arma de baixa tecnologia, portanto.

Isto recoloca a questão nos seguintes termos: tecnologia superior não é necessariamente a mais recente, a mais cara, a de maior potencial quantitativo. É a tecnologia mais eficaz para uma situação específica. Qualquer pessoa sabe que a tecnologia superior para matar uma barata não é um revólver, é um chinelo. Nos últimos cem anos, vimos inúmeros exemplos de guerrilhas que derrotam exércitos com tecnologia mais poderosa, mas inadequada para o terreno, o clima, a distribuição de forças, etc. Na Bíblia, Davi chega a experimentar, antes do combate, armamento similar ao do gigante, mas desiste: “E Saul vestiu a Davi das suas armas e pôs sobre a sua cabeça um elmo de cobre, e o guarneceu de couraça. Cingido pois Davi com a espada de Saul sobre seus vestidos, começou a ver se poderia andar assim armado: porque não estava acostumado. E disse Davi a Saul: Eu não posso andar assim, porque não tenho uso disso” (I Samuel, 17, 38-39).

A vitória de Davi é a vitória do duelista que consegue evitar o choque em condições que favorecem o adversário e sua tecnologia, e dá um jeito de travar o combate de tal maneira que sua própria tecnologia, aparentemente inferior, revela-se como a única eficaz. Não é uma simples vitória do “pequeno” contra o “grande”, a qual acaba sempre sendo vista em termos meios românticos como uma prova de que os fracos podem derrotar os fortes. É a vitória da tecnologia mais eficaz e do planejamento, e isto tanto pode ser posto em prática pelos pequenos quanto pelos grandes.

1029) Eu defendo Parreira (4.7.2006)


(ilustração: Nei Lima)

Já sei que muita gente vai botar minha cabeça a prêmio por causa disto, mas eu defendo Carlos Alberto Parreira, que sempre achei (e continuo achando) um dos melhores técnicos do Brasil, mesmo discordando, como discordo, de algumas escalações e opções táticas suas nesta Copa. Talvez não seja o técnico ideal para a Seleção, concordo. Parreira é um homem culto, inteligente, ético, emocionalmente equilibrado, e bastam estas características para desqualificá-lo para uma função onde o sujeito precisa de malandragem, habilidade conspiratória nos bastidores, discurso duplo, ética dupla, mentalidade imediatista, talento para impor a própria vontade dando murro na mesa, em vez de argumentando. Concordo: não é a cara de Parreira.

Felipão teria substituído Cafu, Ronaldo, Roberto Carlos, seus heróis do Penta? Duvido muito. Felipão é o tipo emocional, vê o time como uma “família”, e não iria desprestigiar os primogênitos que lhe deram fama. Parreira convocou a geração da Copa das Confederações (Cicinho, Robinho, Gilberto) mas não teve força política para impô-los. Talvez tenha sido vítima de excesso de cautela (um defeito seu), e pensou: “Pois é, quem me garante que os garotos não vão amarelar?” Optou pelos veteranos, e os veteranos esverdearam.

É fácil escalar onze jogadores. O que não é fácil é escalar onze empresas. Um jogador de Seleção (ainda mais a Brasileira!) é uma empresa bem grandinha. É a ponta de um iceberg formado por equipes de trabalho, assessores, empresários, publicitários, gerentes de Banco, empresas associadas em mil projetos beneficentes, de propaganda, educativos, sociais. Por trás de qualquer um dos nossos 23 craques existe, no Brasil e na Europa, um exército de centenas de sujeitos poderosos e influentes para quem o sucesso pessoal do seu sócio, cliente ou patrocinado é mais importante do que o do time em que ele joga. Se pensarmos que grande parte desses interesses tem sede na Europa, dá para entender melhor essa febre de recordes pessoais enquanto a Seleção Brasileira se arrasta em campo.

Toda a beleza do futebol está dentro das quatro linhas. O que existe em volta delas, principalmente numa Copa, é uma história de arrepiar os cabelos de brasileirinhos zé-ninguém como eu e você, caro leitor. É parecido com a história financeira da construção de Brasília. Com as quedas-de-braço diplomáticas que culminaram no Tratado de Versalhes. Com a partilha do Oriente Médio após a II Guerra Mundial. Briga de cachorro grande. A Copa de hoje é o banquete do Capitalismo Tele-Esportivo: patrocínios, direitos de transmissão, contratos de propaganda, expansão de mercados.. É o regabofe dos executivos, enquanto os ronaldos e ronaldinhos de periferia jogam a grande cartada dos seus parcos 15 anos de vida útil. Parreira? Coitado, o único erro dele foi ter aceitado, sabendo que o Brasil não era mais o franco-atirador de 1994, e sim um Titanic cheio de ouro, cercado por uma frota de navios-piratas.

1028) A palavra paradigma (2.7.2006)



Certas palavras têm uma história fácil de traçar. A palavra “maracutaia” era uma expressão antiga e obscura, usada na região de Garanhuns; mas pulou triunfante para as vitrines do Aurélio depois que Luiz Inácio Lula da Silva, candidato a presidente em 1989, usou-a numa entrevista. Como já havia um enorme desgaste (pelo uso freqüente) de termos como negociata, falcatrua, trambique, etc., o vernáculo acolheu de braços abertos a recém-chegada. E quem não se lembra do ex-sindicalista e ex-Ministro do Trabalho Rogério Magri, um Severino Cavalcanti com físico de Schwarzenegger? Um belo dia ele declarou que uma determinada Lei era “imexível”, o que lhe valeu injustas gozações por parte de algumas pessoas, como se a língua brasileira não fosse produto coletivo de gente com o mesmo nível cultural do hercúleo Ministro.

Passei batido e não registrei a data em que a palavra “paradigma” entrou no futebol brasileiro, mas não duvido que tenha sido na década de 1980, e lanço aqui meu palpite triplo sobre o seu inaugurador: Sebastião Lazaroni, Paulo Autuori ou Vanderlei Luxemburgo. Volta e meia lá vem um deles (ou seus seguidores estilísticos, como Oswaldo de Oliveira ou Levir Culpi): “Nosso time precisa mudar de paradigma, porque não está valorizando a posse de bola...” Modelos e atrizes também declaram, peremptórias: “Achei que era a hora de adotar outro paradigma, e pintei o cabelo”.

De minha parte, fui apresentado a este vocábulo no livro de Thomas S. Kuhn A estrutura das revoluções científicas (Ed. Perspectiva, SP, 1982), livro tão genérico que pode ser entendido até por um sujeito sem formação científica como eu. Para Kuhn, paradigma é um conjunto de noções consensualmente aceitas por uma comunidade científica. É a “verdade dos fatos” que vigora naquele momento específico, mas que pode ser substituída, se aparecer uma explicação melhor. Um paradigma geralmente é aceito porque ao surgir responde um número satisfatório de questões que estavam pendentes, e com isto atrai um número expressivo de seguidores. Por outro lado, esta nova situação gera novos problemas, que irão manter os cientistas ocupados pelos anos seguintes, e poderão ser (em tese) solucionados futuramente pelo surgimento de um novo paradigma, mais completo e mais satisfatório. Exemplos clássicos disto são, na astronomia, o paradigma Geocêntrico (o Sol gira em torno da Terra) que vigorou durante séculos, mas quanto mais as observações astronômicas evoluíam mais os cálculos “não batiam”, se ele fosse tomado como ponto de partida. Surgiu então, com Copérnico, o paradigma Heliocêntrico (a Terra gira em torno do Sol), e de um momento para outro todos os cálculos e todas as observações diretas se encaixaram às mil maravilhas.

Um paradigma é o chão onde os cientistas pisam; é a crença fundamental que faz sua atividade ter sentido. Para destruí-lo, é preciso substituí-lo por outro, para que a Ciência não venha a boiar no vácuo do Absurdo.

1027) Alô torcida brasileira (1.7.2006)



Meus informantes na Copa têm me repassado informações contraditórias. Todo jornalista tem suas “fontes”, pessoas que lhe dizem o que está acontecendo, e em cuja opinião, honestidade e discernimento o jornalista confia. Mas, o que acontece quando fontes igualmente confiáveis dão retratos antagônicos de uma situação?

Uma das minhas fontes é o jornalista Bronislaw Korchinski (nome fictício, porque não posso revelar sua verdadeira identidade). Me diz ele: “BT, você devia ter vindo para a Copa. A Alemanha é uma festa. Lembra daqueles velhos tempos dos Encontros da SBPC? Lembra do Festival de Inverno de Ouro Preto, ou do Festival de Verão de Areia? Lembra de Woodstock? Pois é algo parecido, só que em torno do futebol, e com três jogos por dia! Os jogos são de mais-ou-menos para medianos, mas isto é o que menos importa. A grande festa está nas arquibancadas. Gente fantasiada de viking, de Mickey, de totem tribal, de odalisca, de Carlitos, de fantasma... Confraternização étnica, torcidas adversárias vibrando juntas, sem briga, sem agressões. Terminado o jogo, vencedores e vencidos vão beber juntos e cantar músicas dos Beatles em inglês estropiado. Ah, se o futebol no Brasil fosse assim! Sem pancadarias, sem torcidas organizadas, sem bombas, sem assaltos, sem gangs de batedores de carteira e de puxadores de carro... A Copa está me fazendo amar de novo o futebol!”

Grande Bronislaw. Quando li seu email, comecei a procurar o telefone de alguma empresa aérea para ver se ainda tinha passagem para Dortmund ou Hamburgo. Mas na mesma hora apareceu outro email, de outra fonte, a quem chamaremos de Lazslo Dubcek. Diz ele:

“BT, estou enojado. Uma Copa falsificada, e o mais falsificado é a torcida. A coisa mais rara aqui é você encontrar quem saiba o que é um escanteio. Não é uma Copa para torcedores, é uma Copa para turistas endinheirados, mocréias e rapazes alegres que pintam a cara, botam uma peruca em cores berrantes e vão rebolar na arquibancada, e o jogo que se dane. Arrisco-me a dizer que 70% dos que estão aqui nunca tinham sentado antes numa arquibancada de futebol. A melhor prova disso é uma das frases que mais ouvi até agora: 'Eu não sabia que futebol era tão bom! Quando voltar ao Brasil irei ao estádio todo domingo!' Coitados, não sabem o que os espera.

“Mas o pior,” prossegue Lazslo, “é você constatar que quase todos estão aqui através de um trem-da-alegria qualquer. São convidados de Bancos, de empresas multinacionais, de governos locais, de assembléias, de montadoras de carros... Vieram para a Alemanha através de algum tipo de jabá. Uns ganharam boca-livre 24 horas por dia; outros ganharam passagem e hospedagem, ou passagem só de ida (e pela Varig!), mas eu sinceramente não sei dizer quem exprime mais o Brasil de hoje, se são as gangs do Pacaembu ou os vôos-da-alegria da Alemanha.” Como eu também não sei, repasso o problema para os caros leitores.