sábado, 13 de dezembro de 2008

0664) Engole-Trave e Seu Alegria (5.5.2005)




(The Vanishing Hitchhiker, de J. H. Brunvand)

Engole Trave era um velho que percorria as ruas de Campina, sempre vestindo um terno puído mas escrupulosamente limpo. Era feioso a ponto de parecer uma caricatura: magro, costas encurvadas, nariz e queixo proeminentes. A toda hora eu o via cruzando a Praça da Bandeira, virando a esquina na Maciel Pinheiro, parado na calçada da Marquês do Herval. Para mim era apenas um daqueles velhos anônimos e familiares que a gente vê o tempo inteiro na cidade; até que alguém me contou a verdadeira história dele. Anos atrás, Engole Trave tinha sofrido um acidente qualquer, quebrou uma costela ou braço, e durante a hospitalização teve que fazer uma série de exames. Surpresa geral: descobriram que o velho tinha esqueleto de marfim! Especialistas estrangeiros vieram, examinaram-no, e por fim ofereceram-lhe uma boa grana pelo esqueleto, o qual seria doado a um Instituto europeu após sua morte. E era disso que ele vivia: de um pagamento mensal, em adiantamento pelos próprios ossos.

Eu achava ótima essa história e tinha uma certa inveja do personagem (já pensou? ganhar dinheiro sem trabalhar!), e para ser sincero só comecei a desconfiar quando alguém de imaginação mais barroca me jurou de pés juntos que o fato de ter esqueleto de marfim o deixava imune a choques elétricos, e que ele fazia disto uma fonte de renda suplementar: pegar em fios de alta tensão ou em cabos ligados a geradores, enquanto os caras faziam apostas. Mas a esta altura eu já tinha lido Garcia Márquez e Ray Bradbury, e é engraçado, quanto mais fantasia a gente lê mais fica com olho crítico em cima da realidade.

Seu Alegria (que nunca vi pessoalmente, não me lembro de sua aparência) era outra figura folclórica adorada pelas crianças. Diz-se que ele fazia mágicas o tempo inteiro, e não estou me referindo a truques de mágica de salão, mas a mágicas de verdade, transmutações de matéria comandadas pelo simples esforço de vontade, o sonho dourado dos ocultistas e alquimistas de todos os tempos, e cuja concretização coube, vejam só, a um pacato e despretensioso velhinho de Campina Grande! Seu Alegria andava pela rua acompanhado por um coro de meninos “pedindo mágica”. Ele parava junto a uma daquelas arvorezinhas plantadas num canteiro quadrado na calçada, pegava no tronco e o agitava: choviam moedas e confeitos no chão, e a garotada fazia a festa.

Outra história que se conta de Seu Alegria é que certa vez ele estava jogando baralho no Rambol (uma antiga casa de jogo, na esquina da Maciel Pinheiro) e precisava de uma carta para bater – digamos que era o valete de copas. Jogou até o fim e não bateu. Ficou danado da vida; enquanto os outros recolhiam as fichas e o dinheiro, ele pegou o baralho, juntou-o todo na mão e começou a traçá-lo repetidas vezes. Levantou-se, jogou o baralho na mesa e foi embora. Os outros pegaram o baralho, abriram, olharam: tinha virado 52 valetes de copas.





0663) Romário, o Cobra (4.5.2005)



Para Johan Cruyff ele era o deus da grande área; para a imprensa carioca era o baixinho marrento. Vi-o surgir no Vasco, fazendo uma insuperável dupla-de-frente com Roberto Dinamite. Ao que parece, nunca foram amigos, mas dentro de campo enchiam a rede de bolas, e ainda hoje fico perplexo em ver Roberto ser omitido na lista dos grandes parceiros de Romário.

Dizem que sua melhor fase foi no PSV e no Barcelona, onde ficou famoso por prometer (e cumprir) “tripletas”, que é como os espanhóis chamam três gols num jogo só (os ingleses chamam de “hat trick”). Uma vez vi um especial de TV mostrando 20 ou 30 gols de Romário com a camisa desses dois clubes, e a minha noção do que pode acontecer num campo de futebol foi consideravelmente expandida. Romário aliava habilidade com a bola, malandragem e força física. Todo mundo elogia as arrancadas e o vigor de Ronaldo e de Adriano (do Inter de Milão). Comparados a Romário, são dois “chapeados”. Romário era baixinho, mas tinha arrancada, impulsão e vigor físico proporcionais ao desses dois.

E a rapidez de raciocínio. No famoso jogo de 2x0 no Uruguai pelas Eliminatórias, um comentarista da Globo fez uma descrição perfeita: “Quando a bola chega nele, ele já está com a jogada toda pronta na cabeça”. Como o bom enxadrista, o grande jogador está sempre uma jogada à frente do adversário. Isto num futebol onde a imensa maioria dos jogadores espera a bola chegar aos seus pés para começar a pensar o que fazer com ela. Quando a bola chega em Romário, é como clicar “Play”: a jogada se desenrola sem um erro, até a bola na rede.

Uma frase dita num entrevista recente o define muito bem. “Não gosto dessa história de concentração, treino, viagem, entrevista... Futebol pra mim é quando o juiz faz ‘pí’, e a bola rola.” Com a bola rolando, Romário era Picasso e Jimi Hendrix. Fora de campo, fez muita besteira, mas muitas de suas polêmicas surgiram por bater de frente com quem o esnobava, ou com aliados momentâneos que pretendiam botá-lo embaixo da asa: políticos, jornalistas, cartolas. Uma vez chegou para gravar um comercial onde haveria uma pelada. Havia 21 atores contratados para jogar com ele. Ele mandou dispensar: “Só faço se for com meus peixes”. Tinha trazido 21 malandros da Vila da Penha. Adivinha quem jogou com ele no comercial.

Numa decisão Fla x Grêmio pela Copa do Brasil, estava quase caído no chão e fez um gol de cabeça que foi para mim sua jogada emblemática. Era o bote de uma cobra. Romário tem o olho penetrante de um ofídio, o mesmo sangue frio, a mesma força e elasticidade concentradas. Tem uma poderosa economia de gestos e movimentos em que todos os músculos e nervos são mobilizados em um instante, e não se queima uma só caloria desnecessária. É como uma cascavel: uma flecha capaz de disparar a si própria quando surge o vislumbre da fração de segundo ideal. O futebol lhe deve muitos anos de arte, carisma e impiedosa sinceridade.

0662) O xadrez quádruplo (3.5.2005)



Minha adolescência ociosa e inquieta me conduziu a incontáveis tarefas de Sísifo, aqueles projetos grandiosos e intermináveis que só nos parecem factíveis porque somos jovens e o excesso de energia em nossas veias nos dá uma sensação inebriante de onipotência e eternidade. O xadrez quádruplo não foi a menos insensata das coisas que tentei inventar aos dezesseis anos.

A idéia inicial, como de hábito, não era minha. Colhi-a num romance policial de Anthony Boucher que tinha o improvável título de O caso do valete amarrotado. No meio da trama, que ocorre (para variar) na mansão de um milionário onde se dá um crime misterioso, menciona-se várias vezes que o tal Mr. Garnett costumava convidar amigos “para jogar partidas de xadrez quádruplo”. Naquele tempo não havia Google nem Internet, e eu não tinha como verificar se esse tal jogo existia ou não. Na dúvida, decidi fazer com que existisse. Ainda tenho uma dezena de folhas de papel rabiscadas a lápis onde tracei-lhe as primeiras regras.

O tabuleiro foi a primeira coisa. Está na cara que o tabuleiro comum de 64 casas não comportaria os quatro exércitos envolvidos (que, se não me engano, estabeleci que seriam Brancas, Pretas, Verdes e Vermelhas). Aumentar algumas casas do tabuleiro era indispensável, mas os primeiros esboços que fiz deixavam os peões “de quina” em relação uns aos outros, ameaçando-se mutuamente. Daquele jeito, em vez de começar com um tradicional P4R as partidas já começariam com vorazes trocas de PxP. Minha solução ainda hoje me parece a mais correta: um tabuleiro central de 100 casas (10x10), com mais 64 casas adicionais distribuídas pelos lados, em quatro grupos de 16 casas onde ficariam aquartelados os quatro exércitos, nas posições convencionais.

A primeira jogada seria das Brancas, depois jogaria a equipe à sua esquerda, digamos que fossem as Verdes; depois as Pretas, e por fim as Vermelhas. O jogador que sofresse um xeque teria que esperar sua vez para defender-se; e não seria impossível que uma jogada anterior à sua o livrasse do xeque, ou o agravasse em mate. Lembro-me que levei muito tempo pare decidir o que ocorreria com as peças dos dois primeiros exércitos a sofrerem mate, se ficariam simplesmente congeladas em suas posições até o final (o que parece mais lógico e mais fiel à história da partida), ou se com a derrota suas peças seriam retiradas do tabuleiro, o que sem dúvida equivaleria a quase que zerar o jogo.

Não o entediarei mais, caro leitor, com estas experiências de escultura em fumaça. Hoje parece uma perda de tempo; mas jamais o foi para aquela mente jovem que zumbia febrilmente 24 horas por dia, no deslumbramento de reinventar um mundo que mal começava a descobrir. Criar o xadrez quádruplo nunca me pareceu mais absurdo do que escrever poemas surrealistas, compor rocks, imitar os roteiros de Glauber Rocha, estudar filosofia com Padre Maia, latim com Sevy Nunes e sociologia com Beatilo. Era tudo uma coisa só.

0661) Ele morou fora (1.5.2005)




Tempos atrás eu trabalhei numa empresa, e num dos postos de decisão administrativa havia um rapaz de seus 30 anos, que não era má pessoa, mas era de uma auto-suficiência só comparável a sua enorme desinformação. 

Não, não estou me queixando de que ele nunca tivesse lido os poetas gregos e latinos (que eu também nunca li); mas em qualquer discussão ficava a toda hora com o olhar perdido no vácuo, e respondia com a mais descomprometida das generalizações. Se alguém lhe perguntasse, por exemplo, o que ele achava da Seleção Brasileira, ele diria: “É preciso jogar pelas pontas”. 

Um dia, na cantina, perguntei a um colega o que diabo aquele cara fazia num cargo de tanta responsabilidade. Por acaso era genro do patrão? O cara mastigou o sanduíche, tomou um gole de Coca, e explicou: “Ele morou fora”.

A resposta talvez não explique tudo, mas para mim explicou o principal. Constatei que o nosso chefinho tinha morado um ano em Nova York e seis meses em Londres. Como, não sei, porque o inglês dele era ainda mais estropiado do que o meu. Mas tinha morado fora, e este dado curricular sempre acaba tendo peso. 

Achamos que ter morado fora é como ter feito um curso, ou seja, bem ou mal o sujeito aprendeu alguma coisa que o torna superior aos que nunca esticaram o elástico-umbilical que nos mantém presos à Pátria. Morar fora, também, envolve um certo mistério, porque nunca conseguiremos saber com certeza se as proezas contadas na volta aconteceram ou não.

Mais importante do que “voltar contando vantagem”, no entanto, é um outro aspecto mais sutil: voltar sentindo vantagem. 

Já conheci muitos caras que foram passar um tempo fora e voltaram transformados para melhor. Sujeitos tímidos e tartamudos transformaram-se, depois de um ou dois anos fora, em professores eloqüentes e capazes. Moças introspectivas, daquelas de quem só se arranca uma decisão a poder de fórceps, voltaram desabrochadas em líderes feministas capazes de calar uma assembléia inteira. 

Que espinafre espiritual lhes trouxe tanto vigor? Imagino que tenha sido a experiência traumática mas educativa de enfrentar um país estranho, uma língua estranha, uma cultura estranha, um ambiente onde não tem mamãe nem papai nem os amigos-de-botequim para nos dar calor humano ou para compartilhar nossas dúvidas. Ali, é você-mesmo contra o Mundo. Você só tem dois caminhos: ou cresce, ou desaparece.

Isso se dá com jogadores que passam pela Europa e retornam, ou com cantores que fazem o circuito europeu e de repente precisam enfrentar as platéias nacionais. O sujeito já cantou numa praça holandesa, debaixo de neve, para 5 mil desconhecidos que não entendem bulufas do que ele está dizendo; depois disso, qual é o problema de cantar no Canecão ou no Anhembi? 

Para quem “morou fora” e retornou, o Brasil (qualquer subconjunto dele) vira uma coisa tão aconchegante quanto a sala-de-estar da casa onde o cara foi criado. O resto vai depender da competência de cada um.






0660) O Clã das Adagas Voadoras (30.4.2005)



Na década de 1970, foram os filmes de karatê e kung-fu vindos de Hong-Kong: de uma hora para outra, uma verdadeira febre tomou conta das salas de exibição, que nunca faturaram tanto. O público nunca tinha visto tanta porrada, e queiramos ou não o público gosta de ver porrada. Não é de admirar. Por baixo dos nossos 5 mil anos de civilização, temos 200 mil de porrada, que só foram interrompidos quando o macaco tocou no monolito.

A moda agora são os filmes chineses sobre espadachins, que têm sobre os antigos filmes de kung-fu duas vantagens: evitam a violência excessiva, e contam com “a mais avançada das mais avançadas das tecnologias”. Não acompanho muito essas modas, mas se não estou equivocado a história começou com o ótimo O tigre e o dragão de Ang Lee. Vendo a versão DVD desse filme, acompanhei os comentários do diretor e do roteirista, e uma coisa me chamou a atenção. Ao explicar as famosas cenas em que os espadachins voam sobre os telhados, ele diz: “A literatura da China é assim, os romances de aventuras são assim. Eles contam tudo numa linguagem cheia de exageros, e os leitores já esperam esse tipo de linguagem. Os personagens agarram uma flecha no ar com a mão, derrubam dez inimigos com um único golpe, correm por cima das copas das árvores, lutam dias e noites sem parar. O que nós fizemos foi simplesmente colocar isto na tela, utilizando os efeitos especiais do cinema de hoje”.

As incríveis façanhas dos arqueiros e espadachins do Clã das Adagas Voadoras, Herói e outros filmes recentes, são uma espécie de equivalente chinês dos nossos versos de cordel. Porque nós temos também as nossas historietas em versos onde um sujeito diz que foi ao porto de Alagoas, segurou um navio alemão, e “o oceano ficou da cor da lama, mas o navio só saiu quando eu soltei!”. Ou o cara que no meio duma batalha se encosta numa peça de artilharia: “o que é certo é que a peça detonou, mas a bala ficou na minha mão!” Ou o outro que dá uma “ombrada” num trem e o faz descarrilar por inteiro, mas fica com pena dos viajantes: “e novamente eu botei o trem no trilho, e o maquinista apitou e foi-se embora!” São versos imortais de João Martins de Athayde, que expressam muito bem esse deleite ingênuo e moleque das platéias não somente pela porrada – mas pelo impossível, pelo absurdo, pela façanha mirabolante contada na maior cara-de-pau.

A literatura popular do Ocidente está cheia disto. A mitologia grega, com seus “trabalhos de Hércules”, não é outra coisa. O folclore nórdico, hindu ou mexicano está cheio de heróis especialistas nestas proezas espantosas. O cinema, principalmente o cinema de hoje com suas técnicas 3-D e sua computação gráfica, está trazendo de volta o prazer infantil destas mitologias, destas histórias onde o impossível acontece, fazendo platéias de todos os continentes gritarem deliciadas em todos os idiomas: “Eita mentira da gota serena!”

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

0659) Vladimir 70 (29.4.2005)




O Centro Cultural Banco do Brasil, aqui no Rio, está realizando até domingo uma mostra da obra de Vladimir Carvalho, com os curtas que ajudaram a fundar o cinema paraibano (A Bolandeira, Romeiros da Guia), os longas que desencadearam polêmicas (O País de São Saruê, O Homem de Areia, Conterrâneos Velhos de Guerra), e muitos outros, feitos na ponte cultural entre Paraíba e Brasília. Confesso que tive um susto ao saber que Vladimir fez 70 anos em janeiro passado. Conversamos há poucas semanas aqui na Rua do Catete (a mais nordestina das ruas do Rio) e ele me pareceu com os quarenta-e-poucos de sempre: o passo rápido, o gesto inquieto, a cabeça elétrica.

Uma matéria que saiu no “Globo” destaca um lado importante do cinema de Vladimir: seus filmes parecem se fazer por si próprios, a partir do material que o cineasta vai acumulando ao longo dos anos. Li não sei onde que depois da Revolução Cubana um grupo de jovens pretendentes-a-cineasta perguntou a um diretor russo o que deveriam fazer. “Filmem tudo”, disse ele. É mais ou menos esta a filosofia de Vladimir. Desembarque de candangos, shows de rock, greves estudantis, exposições, solenidades, agitações de rua, artistas anônimos, visitantes famosos... tudo que é registrado por ele vai se organizando nas sombras e no silêncio, e quando menos se espera tem um filme pronto.

É exemplar a história de como surgiu A Pedra da Riqueza, talvez seu melhor curta. Vladimir estava na sala de montagem, na Universidade de Brasília, examinando um material para o longa O País de São Saruê. Quando repassava as imagens dos trabalhadores numa mina de xelita, o servente que arrumava a sala olhou por cima de seu ombro e disse: “Oxente, eu já trabalhei aí”. E virou o narrador do filme. O mesmo “serendipismo” parece ter desencadeado seu filme em preparo sobre José Lins do Rego: um vazamento na parede do apartamento o levou a conversar com o vizinho de baixo. Que era neto do escritor.

Eu tenho para mim que é este o melhor modo de se fazer as coisas, e é uma pena que cinema custe tão caro. Porque é mais ou menos assim que eu faço meus textos e minhas músicas, pegando no ar idéias ou palavras que entram pela janela ou são enfiadas pelo carteiro por baixo da porta, imagens que a TV me sugere numa passada rápida pelo quarto, ou que desembarcam de um email numa hora em que tudo parece estar empancado. Isto quer dizer que a criação é caótica, submissa aos ventos? Não. Significa que quando o artista criador tem uma bússola intuitiva que lhe dá a certeza subconsciente do que quer, ele reconhece de imediato, entre os fragmentos trazidos pelo Acaso, aqueles que o levam na direção certa. O material está dormindo nos armários ou nas gavetas, mas a atenção do artista não dorme, e um belo dia, ao passar pela Asa Norte ou pela Rua do Catete, ele vê um detalhe e pensa: “Oxente, era justamente o que eu precisava para terminar aquele negócio que eu estava fazendo em 1981...”



0658) O Papa dos Chimpanzés (28.4.2005)


(cartum de Knife)

Fui batizado como católico, estudei em alguns colégios católicos (Lurdinas, Alfredo Dantas), tenho muitos amigos que são padres ou frades, mas filosoficamente me considero um agnóstico. O que a Igreja Católica tem de mais interessante é o seu lado individual: seu humanismo, sua filosofia de paz, de compaixão, de solidariedade. Mas seu lado cósmico, sua descrição e interpretação do Universo, diverge da visão da Ciência, e em geral prefiro ficar com esta última. Em todo caso, há um aspecto da Igreja que acho fascinante, e que nunca esteve tão visível quanto nestas últimas semanas: a pompa mística, o ritual milionário, a grandiosa celebração coletiva. Espero não estar pecando ao afirmar que o Vaticano é uma Hollywood com dois mil anos de know-how.

Existe no ser humano uma compulsão instintiva para a transcendência, para imaginar (e querer alcançar) outras dimensões, outros patamares da existência cósmica. Há um conto de Robert Silverberg intitulado “O Papa dos Chimpanzés” que ilustra de forma irônica e compassiva esse impulso. Na história, cientistas isolaram um grupo de chimpanzés e se comunicam com eles através de sinais, numa convivência semelhante à de antropólogos com tribos indígenas. Um dos cientistas contrai leucemia, e, sabendo que vai morrer, propõe informar o fato aos chimpanzés para que estes reflitam sobre a morte dos humanos (que eles consideram uma espécie de deuses). E isto é feito: explicam a noção da morte, de Deus, do Céu.

Este fato desencadeia uma mudança filosófica nos chimpanzés. Semanas depois, seu líder, “Leo”, descobre no lixo uma camisa velha e um chapéu que pertenceram ao cientista morto, e começa a usá-los. E lidera um ritual em que o macaco mais velho, que estava doente, morre pacificamente à beira do rio. Os cientistas percebem que os macacos adquiriram a consciência de um “outro mundo”, e que estão ritualizando a passagem deles de um mundo para o outro. O problema é que macacos começam a aparecer mortos, com sinais de violência, e ao ser interrogado “Leo” responde: “Eles agora são seres humanos. Os humanos quando morrem viram deuses. Os chimpanzés quando morrem viram humanos”.

O problema dos cientistas, daí em diante, é convencer os chimpanzés de que eles não têm o direito de mandar seus semelhantes para o Céu. Este conto tem ressonâncias interessantes com o 2001 de Kubrick/Clarke, onde se faz um paralelo entre a evolução macaco/homem/super-homem, e a frase de Nietzsche, que em Assim falou Zaratustra dizia: “O que é um macaco, aos olhos de um homem? Uma criatura ridícula e objeto de desprezo. O que é um homem, aos olhos de um super-homem? Uma criatura ridícula e objeto de desprezo.” O conto de Silverberg imagina de maneira engenhosa a criação da primeira fagulha de transcendência espiritual (com tudo que vem a seguir) num cérebro inteligente.

0657) Os itálicos e os negritos (27.4.2005)


(Bordón e Grafite)

O episódio recente em que um jogador argentino foi preso no Morumbi por insultos racistas ao atacante Grafite, do São Paulo, é uma salada de contradições. Ali tem de tudo: boas intenções, más intenções, estupidez, bom senso, preconceitos e discursos demagógicos de parte a parte. Futebol é engraçado. Tanto pode fazer aflorar o que temos de melhor – naqueles momentos em que os atletas se superam e produzem verdadeiras obras de arte, além de gestos de grandeza moral – como o que temos de pior. Infelizmente, o presente episódio incorre muito mais no segundo caso.

Em primeiro lugar: o racismo é um crime abominável, que deve ser denunciado e punido, etc. e tal. Até aí, concordo com todos os discursos de altruísmo étnico que estão pipocando na imprensa brasileira. Concordo também que na Europa nada se faz para punir a onda de vaias e agressões racistas contra jogadores negros, inclusive brasileiros. Claro. O racismo contra migrantes, lá, sempre existiu; o problema é que agora cresceu tanto que está atingindo inclusive os migrantes que são famosos e milionários, em vez de somente os pés-rapados.

O que me parece óbvio, contudo, é que todo este circo foi armado porque foi em cima de um jogador argentino, e aí entrou em ação o nosso racismo tropical contra os nossos “hermanos” que alegam ter sangue italiano, inglês, alemão, sei lá mais o quê. É uma rivalidade puramente bairrista, ampliada pela paixão futebolística, que é uma das paixões mais emburrecedoras que existem. Será que no campeonato paulista ninguém chama os jogadores negros de “nego safado” ou de “macaco”? Será que foi preciso vir um argentino para que essas ofensas soassem pela primeira vez num gramado pátrio? Fala sério!

Quem já tenha visto um jogo de futebol de perto sabe que ali rola muito mais insulto do que carrinho por trás e agarra-agarra no escanteio. Até no futebol feminino, os microfones à beira do campo flagram o tempo todo nossas simpáticas atletas se chamando de “piranha” e “puta safada”. Não é um hábito recomendável, mas, fazer o quê? Jogadores se chamam de “viado”, “nego safado” e de todo o resto durante os 90 minutos. Foi preciso um delegado torcedor do São Paulo para achar que aquilo é racismo – numa cidade onde empregadas domésticas não sobem pelo elevador social, e onde cidadãos anônimos da cor de Grafite são fuzilados na rua se não obedecerem a uma ordem de parar.

Que tal reprimir o racismo, mas em toda parte? Que tal punir com cartão e suspensão os jogadores que ultrapassarem a aspereza normal de uma disputa esportiva? Que tal proibir o acesso ao estádio de torcidas que façam movimentos racistas coletivos? Agora – esse pretenso bom-mocismo de defesa dos negros serve para mascarar outro preconceito: o de brasileiros contra argentinos, e vice-versa. Não vou explicar (não consigo entender) por quê se detestam. Mas foi esta a única razão do circo ser armado. O resto é demagogia.

0656) Boas novas do Vaticano (26.4.2005)


















(thegrumpyowl.wordpress.com)

Acompanhei minuto a minuto o recente anúncio do Cardeal Ratzinger como Papa Bento XVI, ou seja, desde a fumaça branca, a abertura das cortinas, o “Habemus Papam”, o surgimento do Pontífice, a bênção, os aplausos da multidão. Foi um momento emocionante, descontando-se o fato de que o espírito galhofeiro que me habita não pôde deixar de perceber que o novo Papa é a cara de Jorge Dória, aquele ator da Globo.
E me trouxe à mente um conto de ficção científica de Robert Silverberg, ganhador do Prêmio Nebula de 1970: “Good news from the Vatican”. É um conto curto onde um grupo de amigos, de vários países, está num café na Praça de São Pedro, esperando a fumaça branca. Com uma diferença: a expectativa é que nesse conclave seja eleito o primeiro Papa robô da História, representando a população de milhões de robôs que já existem em atividade no planeta. Diz o narrador: “O computador do Vaticano insistiu na candidatura do robô, e não devemos nos espantar diante desta solidariedade mecânica”.
Ele se pergunta: “Por que estou torcendo que o robô seja eleito? Será que é porque a imagem de uma criatura de metal sentada no Trono de São Pedro estimula minha imaginação e meu senso do incongruente?” A eleição é polêmica; entre o grupo de amigos alguns rejeitam totalmente a candidatura do robô, e outros a defendem. Um dos que defendem o cardeal-robô é um jovem rabino norte-americano, que afirma: “O cardeal foi o principal orador do Congresso Mundial Judaico no outono passado, em Beirute, e seu tema foi ‘Ecumenismo Cibernético Para o Homem Contemporâneo’. Posso afirmar que Sua Eminência é alto, distinto, com uma bela voz e um sorriso gentil. Há uma inerente melancolia em seus modos que me lembra muito nosso amigo bispo, aqui presente. Seus movimentos são graciosos, e ele é bastante espirituoso”.
A Igreja está dividida; os tradicionalistas preferem que seja eleito um cardeal humano, mas há pressão do outro lado. No aeroporto de Iowa, nos EUA, há uma delegação de 250 jovens robôs católicos que estão apenas esperando a eleição do cardeal para embarcarem rumo a Roma, exigindo a primeira audiência pública com o novo Papa. Na Praça, diz o narrador, “a luz do sol brilha em centenas, se não milhares, de crânios metálicos”.
E finalmente sobe a fumaça branca, as cortinas se abrem, e os cardeais anunciam que, como previsto, o cardeal robô foi eleito, escolhendo o nome de Sixto VII. O robô ativa os jatos de levitação embaixo de seus braços, que o elevam lentamente no ar, com pequenos jatos de fumaça branca, e profere sua bênção para a multidão, enquanto sobe cada vez mais alto, elevando-se nos céus até desaparecer.
O conto tem este final “em aberto”, sujeito a várias interpretações, mas o mais interessante é sua tese, exposta ao narrador pelo Bispo FitzPatrick, de que “cada época tem o Papa que merece, e que num dia futuro é de se querer que o Papa seja uma baleia, um automóvel, um gato, uma montanha”.

0655) Lula e Frodo (24.4.2005)



Fico perplexo com muita coisa que vejo na Internet, mas o que mais me inquieta hoje são os ataques que circulam por aí, voltados contra o Presidente Lula. Crítica fazem parte da política, e o governo Lula tem uma série de equívocos que sem dúvida acabam com a paciência dos mais ansiosos. Mas, francamente, nunca vi tanta coisa de baixo nível contra o Presidente. Nem Fernando Collor, que me lembre, foi tão insultado. Quando Lula era apenas um sindicalista, depois um deputado, um candidato à presidência, era chamado de comunista, imbecil, paraíba, pau-de-arara, bronco, analfabeto, grosso, sem-dedo, pelego, e o mais que vocês imaginarem. Quem o chamava assim era a Direita e eram também aqueles setores neo-liberais, cosmopolitas, sofisticados, que raciocinam em dólar e que se pudessem fariam uma cirurgia no País para extirpar o Nordeste.

Pois bem, hoje em dia quem diz isso de Lula, e muito pior, são os seus ex-eleitores, decepcionados pelos rumos que o governo toma. Dizia o poeta que no Inferno não há fúria que se compare à de uma mulher desprezada. Pois digo eu que há, sim, é a fúria das “categorias” que apostam tudo na eleição de um governante, achando que daí em diante vão se dar bem, e de repente percebe que o sujeito depois de eleito “aliou-se ao outro lado”, e eles ficaram de fora da festa.

Eu tenho minhas críticas ao governo Lula, como por exemplo as minguadas verbas para a Cultura, e o fato de pagarmos fortunas em juros de uma dívida que já estávamos pagando antes mesmo de contraí-la. O Brasil vive hoje como aqueles trabalhadores braçais que vão derrubar mata lá no fim do mundo, e a cada mês se endividam cada vez mais “na caderneta da bodega”. Quanto mais ganham, mais estão devendo ao patrão. Pois é isso – em vez construir hospitais, escolas, consertar estradas (nem falo em abrir estradas novas), pagamos não sei quantos bilhões por causa do superávit primário. Transferimos todo nosso dinheiro para um dinossauro moribundo, um sistema financeiro internacional cuja quebra já está à vista. Eu daqui já sinto os tremores. Vai ser pior que a Queda da Bolsa de 1929 e o Tsunami da Malásia. E quando isso acontecer, de nada adianta “ter crédito internacional” com o dinossauro morto. Só vai suportar o choque inicial (que durará anos) quem estiver com sua infra-estrutura interna bem montada -- indústria, comércio, saúde, estradas, escolas e tudo o mais que estamos deixando de lado.

Coitado de Lula. Sonhou em fazer uma revolução pacífica, mas para fazê-la tinha que ir para Brasília. É como Frodo, no Senhor dos Anéis, que para destruir o Anel do Mal tem que ir justamente para dentro dos domínios do seu maior inimigo. Brasília é Mordor, e o Palácio do Planalto (ou o Congresso – há controvérsias) é a Montanha da Perdição. Lula ainda não destruiu o que foi lá para destruir. Pelo contrário: dá sinais de ter feito com Gollum um acordo em que cada um usa o anel um pouquinho, e depois devolve pro outro.