quarta-feira, 8 de outubro de 2008

0582) O Flautista de Hamelin (29.1.2005)



É do inglês Robert Browning a mais famosa recriação da história do Flautista de Hamelin, um conto que cedo ou tarde aparece em nossa infância. O poema de Browning é brilhante; melhor ainda é o acontecimento misterioso que jaz por trás dele, talvez um episódio histórico, talvez uma “lenda urbana” da Idade Média. Teria acontecido no século 13 ou 14: o relato colhido pelos Irmãos Grimm fala em 26 de junho de 1284, mas o poema de Browning situa o fato em 22 de julho de 1376.

A cidade de Hamelin foi vítima de uma praga de ratos. As autoridades não sabiam mais o que fazer. Surgiu na cidade um sujeito que se apresentou como pegador-de-ratos (“Rattenfänger”), que era uma profissão informal muito comum na época. Tocando numa flauta, ele atraiu os ratos da cidade até o rio, onde todos se afogaram. Ao tentar receber o pagamento combinado, o prefeito recusou-se a pagar. Ele pegou a flauta, tocou outra música e atraiu todas as crianças da cidade, levando-as até uma montanha próxima, onde uma caverna misteriosa se abriu para que todas entrassem. E nunca mais ninguém teve notícias do Flautista ou das crianças. As crônicas históricas dizem que o episódio original envolveu apenas as crianças, e o extermínio dos ratos só foi anexado ao enredo alguns séculos depois. A lenda é uma dessas que crescem por justaposição de novos episódios a um episódio inicial. Hamelin vive ainda hoje dessa lenda; durante o verão, uma peça de teatro é montada ao ar livre para os turistas, todos os domingos. A cidade é cheia de estátuas, vitrais e monumentos recordando o Flautista.

Mas Hamelin não é a única. Brandenburgo conta a história de um tocador de realejo que levou as crianças da cidade para dentro de uma montanha; parece ser uma mera transposição de local, e não uma nova lenda. Outra lenda diz que na cidade de Erfurt, em 1257, cerca de mil crianças se agruparam no centro da cidade, cantando e dançando, e partiram assim de estrada afora, até chegarem em Arnstadt, onde foram recolhidas até que seus pais as trouxessem de volta. História parecida com a de Hamelin é contada em Korneuburg, na Áustria, onde as crianças foram levadas num navio e vendidas como escravos em Constantinopla. Algumas versões dizem que a montanha onde as crianças sumiram (o monte Poppenberg) tinha um túnel que ia dar na Transilvânia, e elas passaram o resto da vida lá.

Episódios reais (pragas de ratos, a “Cruzada das Crianças”) podem ter servido de origem para a lenda, mas sua longevidade se deve sem dúvida a sua lição moral nítida (castigo pelo não-pagamento de um acordo), ao cruel nivelamento entre ratos e crianças, ao poder mágico da música, à figura arlequinal e enigmática do Flautista (que geralmente é descrito como vestindo uma roupa de faixas vermelhas e amarelas). O final em suspenso, com uma pergunta que não é respondida ao longo dos séculos (para onde foram as crianças?) garante à lenda um mistério inesgotável.

0581) Os escritores reclusos (28.1.2005)


(Thomas Pynchon)

Quando Thomas Pynchon publicou em 1990 seu romance Vineland, os editores de suplementos literários espoucaram champanhes e correram à janela para soltar uma pistola-de-3-tiros. 

Há dezessete anos que o público e a crítica dos EUA esperavam o “próximo romance” do autor de Gravity´s Rainbow, um livro monumental e impressionante, que muitos disseram ser o maior romance americano do século 20 (e que foi traduzido no Brasil por Paulo Henriques Britto, com o título O Arco-Íris da Gravidade). 

O New York Times apressou-se a encomendar uma resenha do livro logo a quem? Ao indiano Salman Rushdie, autor do famoso e polêmico Os Versos Satânicos, que provocou enorme rebuliço no mundo muçulmano, fazendo com que os aiatolás do Irã lançassem contra Rushdie uma “fatwa”, ou sentença de morte. 

A sutileza e a ironia que cerca a publicação daquela resenha vem do fato de ser um escritor recluso comentando a obra de outro. 

A sentença de morte proferida pelos aiatolás, em fevereiro de 1989, fez com que Rushdie tivesse que desaparecer do mapa. Guardado por policiais britânicos (ele é cidadão britânico, nascido na Índia), Rushdie vivia trocando de apartamento toda semana, isolado da família e dos amigos, refém de assassinos desconhecidos movidos pelo fanatismo religioso ou pelo apetitoso prêmio de um milhão de dólares prometido pelo Irã a quem desse cabo dele. Durante dez ou doze anos viveu desse jeito. O tradutor do livro no Japão foi assassinado, e houve tentativas contra as vidas do editor norueguês e dos tradutores na Itália e na Turquia. 

Thomas Pynchon é outra história. Ele nasceu em 1937, estudou na Universidade de Cornell, trabalhou nos escritórios da Boeing Corporation, e depois que começou a publicar seus romances imensos e complexos, sumiu do mapa. Só se conhecem duas ou três fotografias dele, de quando era estudante. Ao que parece, mora em New York, mas a imprensa não consegue localizá-lo. Todos os contatos são feitos através de seus agentes. O cara é extremamente cioso de sua privacidade, não quer ver a mulher e os filhos envolvidos com assédio de fãs (fã de escritor faz tanta bobagem quanto fã de cantor de rock), e pronto. 

Os casos de Rushdie e Pynchon demonstram o desequilíbrio yin-yang de nossa civilização, das leis do oito-ou-oitenta a que temos de nos submeter. É o sujeito que-se-sair-de-casa-é-morto comentando a obra do sujeito que-se-sair-de-casa-é-endeusado. Ou então é o recluso-a-pulso comentando a obra do recluso-por-opção. 

Fala-se muito em escritores que se refugiam numa torre de marfim, mas existem casos em que a torre de marfim é o único lugar de onde se enxerga o mundo por inteiro, para quem realmente quer fazer isto. Ser recluso tem contra-indicações, mas tem vantagens: a possibilidade de fugir do papo furado, do “compromisso social”, dos coquetéis, das entrevistas sem propósito ou substância, dos milhares de compromissozinhos que impedem um escritor de escrever.





0580) “To do or not to do…” (27.1.2005)


(Innokenti Smoktunovsky, no papel de Hamlet)

Uma das minhas teorias prediletas é que a primeira coisa que qualquer gênio literário faria, se ressuscitasse hoje, seria revisar os próprios livros. Meteria a caneta encarnada numa porção de coisas que hoje em dia são consideradas geniais. Shakespeare é um que gemeria: “Não, não, não era bem assim que eu queria dizer!” Tomem por exemplo o seu trecho mais famoso, o monólogo do Hamlet. Não sei de nada mais inadequado do que iniciá-lo dizendo “To be or not to be, that is the question...” Porque, se continuarmos a leitura, veremos que não se trata de “ser ou não ser”, e sim de fazer ou não fazer.

O poeta nos descreve uma situação, e dois modos possíveis de reagir a ela. Ele nos pergunta o que é mais nobre, diante das injustiças do mundo, diante dos insultos, das calúnias, das flechadas e pedradas com que o mundo nos alveja durante a vida: resignar-se ou reagir? O que é mais nobre: fazer-se de mouco, dar de ombros, mandar o mundo lamber sabão, engrossar o couro, agüentar calado? Ou passar recibo, cismar dos pés, arregaçar as mangas, tomar satisfação, reagir à altura? É este o dilema filosófico proposto pelo poeta.

A questão filosófica de “ser ou não ser” nunca se colocou para mim. Meu negócio é ser, é existir, é estar vivo. Acho que a simples possibilidade de um dia eu não-ser é mais aterrorizante do que os monstros de H. P. Lovecraft. Há uma frase de William Faulkner: “Entre o Sofrimento e o Nada, eu prefiro o Sofrimento.” O problema é que no momento em que decidimos que nossa opção é “To Be”, aí sim, coloca-se o verdadeiro problema: fazer ou não fazer? Agir ou não agir? Encarar ou não encarar a barra-pesada do mundo?

Por bem ou por mal, eu acho que sou dos que não reagem. Acho mais nobre agüentar os sofrimentos do que “empunhar armas contra um mar de problemas, para enfrentá-los, e extingui-los.” Não gosto de enfrentamento. Eu sou o tipo do cara que tenta argumentar até com um tsunami: “Calma, não precisa alagar a praia desse jeito, vamos pensar numa alternativa...” Não digo isto para me gabar: é um mero diagnóstico. Admiro os guerreiros, de Spartacus a Lampião, os valentes que vão à luta e mudam o mundo, mas admiro muito mais os filósofos estóicos, aqueles que trincam o dente e pensam: “É nenhuma...” A maior parte das pessoas perde um tempo enorme tentando resolver problemas irrelevantes, pelo simples fato de que não conseguem suportá-los. São incapazes de dizer as frases mágicas “Deixa Pra Lá”, “Não Vale a Pena”, “O Que Vem de Baixo Não me Atinge” ou “Eu Só Piso em Merda Quando Não Vejo”. Desgastam-se e esgotam-se numa luta incessante contra as besteiras do mundo, como aqueles turistas americanos que nunca viram uma mosca e, aqui no Brasil, ficam querendo espantar da sala cada mosca que aparece.

Reagir? Brigar? Pegar em armas? Admiro quem faz, mas não sou eu. Meu reino não é desse mundo. E meu verbo preferido é dormir – talvez sonhar.

0579) Não é literato, mas é escritor (26.1.2005)




(A autora de Caminho das Borboletas: Meus 405 dias ao lado de Ayrton Senna, 1994)

Eu gostaria de dar um modesto palpite numa discussão interminável que rola por aí quando as pessoas folheiam um jornal e lêem as famosas “Listas dos Mais Vendidos”. Vão lendo os nomes que aparecem e dizem: “Isto é uma injustiça! Paulo Coelho não é escritor. Não escreve nada que preste... E olhe aqui: o livro de Dona Lily Marinho na lista! Ela não é escritora. Lair Ribeiro não é escritor, Içami Tiba também não é, Pasquale Cipro Neto também não... O que diabo esse pessoal, que não é escritor, está fazendo numa lista dos mais vendidos?!”

Se você pensa assim, caro leitor, permita-me discordar. Todos esses cidadãos, e muitos outros, são escritores, sim, pela simples razão de que escreveram e publicaram livros. Escritor é quem escreve, não é mesmo? Podemos, no máximo, maldar que pagaram a alguém para fazê-lo. Quando a esfuziante Adriane Galisteu publicou suas memórias do tempo de namoro com Ayrton Senna, eu me permiti um breve momento de dúvida sobre os pendores daquela senhorita para os processos sintáticos de articulação do discurso, e ousei supor que ela teria contratado um “ghost-writer”. Bastou-me, no entanto, folhear o livro para ter certeza de que foi ela mesma quem escreveu aquilo.

Sim, companheiros, trago para vocês esta má notícia: Adriane Galisteu é escritora, e nada podemos fazer quanto a isto. Escritor não é quem escreve bem: é quem escreve. (Eu, por exemplo, digo a todo mundo que sou cantor; alguém me nega este direito?) Quem escreve um livro de auto-ajuda, um livro de viagens, um livro de “pensamentos”, é escritor; quem escreve uma biografia é escritor. Estas pessoas lidam com a palavra escrita, com o discurso verbal, e têm o direito de se proclamarem escritores. Sem falar que há escritores técnicos, escritores especializados, que publicam livros sobre Gastroenterologia, sobre Jardinagem, sobre Direito Constitucional, sobre Informática. São escritores, sim senhor. Usam o discurso verbal para expor idéias ou agrupar informações sobre as suas respectivas áreas de trabalho.

O que esses indivíduos não são é literatos. Eles não praticam a arte da Literatura, a qual, por coincidência, também se manifesta através do discurso verbal. Toda Literatura se manifesta pelo discurso verbal, embora nem todo discurso verbal seja Literatura. A arte da Literatura, cujo praticante pode ser chamado de “Literato” (acho uma palavra horrível, mas na falta de outra, vá ficando esta) envolve a ficção (o romance, o conto, a novela, etc.), a poesia, a crônica (que tem uma interface com o Jornalismo), a Dramaturgia (que tem uma interface com o Teatro), etc. Quem pratica isto é, além de escritor, literato, e aí tenho outra má notícia, porque não é preciso ser um bom literato para ser literato. O pior literato que você imaginar é tão literato quanto Machado de Assis. Quem os define não é a qualidade do que produzem, é a natureza da atividade a que se dedicam.


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

0578) As duas vidas de Bob Dylan (25.1.2005)



Li num um livro sobre rock um trecho a respeito de Bob Dylan, que me parece refletir um engano, ou pelo menos uma visão distorcida, do que seja a criação artística. Diz Ian MacDonald: “Numa turnê incessante que durou de setembro de 1965 até junho de 1966, Dylan mergulhou nas drogas e num estado quase suicida, incapaz de assumir mais compromissos. Em 29 de julho ele teve um acidente de moto que se tornou uma desculpa para cancelar todos os contratos. Dali até o outono de 1967 ele viveu recluso em Woodstock, Estado de New York, fazendo gravações informais com o grupo The Band. Sua carreira nunca recobrou o mesmo ímpeto de antes, e a qualidade de seu trabalho entrou em declínio permanente.”

Quem diz isto é o insuspeito Ian MacDonald, que volta e meia estou citando nesta coluna. Os fatos estão corretos, mas discordo da interpretação. Dylan geralmente é descrito como um cantor folk de canções de esquerda que se deixou seduzir pelo rock, adotou a guitarra e ficou milionário. Na verdade, ele é um camaleão musical que sempre ouviu blues e rock, e entrou na música pela porta da canção folk porque era este o ambiente que predominava no Village de New York, quando ali desembarcou. E já chegou quebrando tradições. Os músicos folk novaiorquinos eram pesquisadores e colecionadores de canções tradicionais, que executavam com rigor arqueológico. Dylan foi o primeiro que ousou escrever canções folk. Isso não passava pela cabeça dos demais. O grande impacto de músicas como “Blowin´in the Wind” foi abrir os olhos de todos para o fato de que músicas tradicionais como “Lord Randall” ou “Barbara Allen” talvez tivessem sido escritas por garotos de 22 anos como aquele, só que no século19.

O período do rock e das drogas é descrito por Bob Spitz em seu livro Dylan, cuja utilidade maior é ser uma “biografia contra”, revelando inúmeros episódios de mau-caratismo de Dylan, principalmente no modo como tratava tanto as mulheres quanto os amigos que não igualaram seu sucesso – Phil Ochs, que o idolatrava, acabou se suicidando. Curiosamente, esta fase de crueldade e drogas foi também a que se considera a mais criativa de Dylan: o período de março de 1965 (o lançamento de Bringing it all Back Home) até o acidente, em julho de 1966. Os fãs de Dylan consideram seus discos e shows dessa época os melhores de toda sua carreira. E é verdade: nunca a voz de Dylan esteve tão límpida e expressiva quanto no CD duplo Live 1966 -- The Royal Albert Hall Concert.

O acidente serviu a Dylan para sumir por quatro anos, criar seus filhos, mergulhar no estudo da música tradicional americana, e fugir do delírio sexo-drogas-e-rock-and-roll que acabaria em breve matando Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e outros. O “declínio permanente” a que MacDonald se refere é uma ilusão. Houve dois Dylan. O primeiro deles morreu aos 25 anos, como o primeiro Rimbaud, o Rimbaud poeta, morreu aos 19.

0577) A nobreza obriga (23.1.2005)




(Rudyard Kipling)

Um poema de Bertolt Brecht (“A Lenda da Origem do Livro do Tao-Te-King, de Lao-Tsé”) conta como surgiu o Tao Te King, ou Livro do Caminho Perfeito, o mais enigmático e mais interessante livro da filosofia oriental.

Brecht relata que aos 70 anos Lao-Tsé pretendia se aposentar, aí empacotou suas coisas, montou num boi (costume chinês) guiado por um rapazinho, e partiu. Ao chegar na fronteira um guarda da alfândega perguntou quem era ele, para onde ia. O rapaz explicou. O guarda bateu um papo com o filósofo, achou interessantes as coisas que ele disse, aí propôs: “Eu deixo o senhor passar, se o senhor escrever essas coisas. Vai que depois o senhor morre, ou não volta mais...”

Durante sete dias Lao-Tsé ficou hospedado na cabana do guarda, escrevendo. Ao partir (para sempre), deixou para trás um manuscrito: o “Tao Te King”.

Num poema de Rudyard Kipling (“A Ponte de Akbar”) o Rei da Índia (ou coisa equivalente), Muhammed Akbar, encarrega seu Vice-Rei de construir a mais bela mesquita do mundo, e vai para a cidade de Jaunpore para supervisionar a construção.

Uma noite, ele vai passear disfarçado na beira do rio (como faziam os califas das Mil e Uma Noites, para saber o que o povo dizia de seu governo), quando vê uma mulher junto a um barco, praguejando contra o barqueiro ausente. É a Viúva do Poteiro, uma figura folclórica local. O Rei se oferece para levá-la ao outro lado do rio, remando.

O Rei começa a remar, e a mulher esculhamba com ele o tempo todo: “Já não basta meu atraso e o barqueiro não aparecer, quem aparece é um jumento como esse, que nem remar sabe!” O Rei na dele, calado.

A Viúva começa então a esculhambar com o Vice-Rei. “Aquele idiota vê a gente o dia inteiro aqui, sujeitos aos crocodilos e às tempestades, e inventa de construir uma mesquita, quando sabe que tudo que a gente precisa é uma ponte!”

O Rei a deixa sã e salva do outro lado, e ao tentar abraçá-la em despedida leva uma sapatada na cara, pelo desaforo. Volta ao Palácio, chama o Vice-Rei e diz: “Suspende a mesquita, e constrói uma ponte, pra ver se aquela bruxa sossega.” A Ponte está lá, até hoje.

O guarda-da-fronteira e a viúva são parceiros no livro e na ponte. Um sujeito sábio não tem medo de escutar os outros, e um sujeito poderoso não tem medo de admitir que cometeu um erro. Um filósofo não é apenas um cara que tem boas idéias, ele sabe reconhecer uma boa idéia alheia.

“Noblesse oblige”. A nobreza obriga a tratar nobremente os que não são nobres, por compreender que nem todos o são. Ouvir com atenção os conselhos dos iletrados, e tratar os mal-educados com cortesia. Nobre é um sujeito, rico ou pobre, que impõe a si mesmo um padrão elevado, e procura puxar para esse nível de comportamento ele mesmo e todas as outras pessoas com quem se relaciona.

Ser nobre não é ser superior, é reconhecer que existe um modo superior de ser, e que todos, sem exceção, devem se esforçar para ser assim.


O poema de Brecht, em tradução inglesa:
http://www.penninetaichi.co.uk/index_files/Page1090.htm

O poema original de Kipling:
https://www.poetryloverspage.com/poets/kipling/akbars_bridge.html





0576) Harry Potter vs Tolkien (22.1.2005)


(J. R. R. Tolkien)

O sucesso das séries “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis” tem levado muita gente a colocar os dois no mesmo saco. Afinal de contas, são muitos os pontos que as duas obras têm em comum. Ambas são de autores britânicos, abordam um universo fantástico, têm um poderoso apelo junto aos jovens, vendem milhões de livros no mundo inteiro, deram origem a filmes que também tiveram enorme sucesso. Isto faz com que muita gente raciocine como certa vez vi alguém dizendo: “Está faltando quem faça literatura de boa qualidade, e isso cria um vácuo por onde acabam entrando essas coisas tipo Harry Potter, Senhor dos Anéis...”

Peço licença para discordar. Peguemos os livros de J. K. Rowling. Ela não é uma grande estilista, sua imaginação é vulnerável a clichês (mas só percebe isto quem lê muita Fantasia inglesa), e parece ter uma tendência a escrever de forma cada vez mais prolixa. Tirando isto, seus livros são excelentes aventuras para garotos na faixa dos 8 aos 14 anos (estou falando garotos europeus, pois nem todo garoto brasileiro de 8 anos lê um livro sem figuras daquele tamanho). Têm histórias bem imaginadas (dentro das convenções do gênero), um protagonista interessante. E têm um forte senso de finalidade: o leitor sabe que cada um dos sete livros previstos irá narrar um dos sete anos necessários para a formatura de Harry como feiticeiro na escola de Hogwarts. A própria Rowling, na TV, mostrou certa vez um caderno onde ela diz ter a sinopse de todos os livros. O final já existe. Todos esperam chegar lá um dia.

Harry Potter é um entretenimento agradável, que não faz mal nenhum a um garoto, pelo contrário, dá-lhe a bendita e inesquecível experiência de “ler um livro grosso até o fim”. Li apenas os dois primeiros, e não tenho nada contra.

O Senhor dos Anéis é outra história. Tolkien é um erudito, um estilista, um poeta, e um indivíduo de pensamento profundo, com idéias vastas e complexas sobre o mundo, e que escolheu o gênero da Fantasia Heróica para exprimir estas idéias. Compará-lo com J. K. Rowling é como comparar Ingmar Bergman com George Lucas. Tolkien é um autor do mesmo time de (no Brasil) Guimarães Rosa, Ariano Suassuna e Euclides da Cunha. Pertence a uma linhagem literária de enorme valorização da tradição, do nacionalismo, e da firme convicção de que o Mundo é um campo de batalha onde se defrontam o Bem e o Mal. Seu estilo é um tanto pesadão mas clássico; os poemas que ilustram seus romances são obras impecáveis. O mundo fantástico que criou não tem paralelo. Pode-se discordar dele, mas não negar sua estatura.

Rowling e Tolkien não surgem num vácuo de ausência de boa literatura. Surgem num contexto em que a literatura fantástica vem sendo reavaliada e recriada por escritores e leitores, bem à frente, com a crítica tentando alcançá-los pouco a pouco. O mais notável deste processo é que ele seja simbolizado por autores tão distantes e tão diferentes quanto estes dois.

0575) Bezerra da Silva (21.1.2005)



Morreu o velho malandro Bezerra da Silva, e com ele um dos meus sonhos de compositor: ter uma música gravada por uma das figuras mais marrentas e mais divertidas da cena do samba carioca. Mandei um samba uma vez, ele não gravou, eu dei de ombros e pensei que na próxima tentativa teria mais sorte. A próxima tentativa agora vai ser “na Gulora”, como dizia minha mãe. Mas aí a concorrência vai ser fogo, vou disputar com João Nogueira, Beto Sem Braço, um monte de gente.

Sempre achei Bezerra da Silva o típico carioca de morro. Tinha aquela fala arrastada, uma entonação de voz que é uma mistura de cautela automática, empáfia-de-pequenino, ressentimento atávico, desdém pelo interlocutor, tudo revestido por aquela polidez formal que os faz tratar a gente na base do “aí, campeão, tudo bem?”, “olá, bacana, como é que tá a parada?”, esse tipo de coisa. Malandros mulatos que ao tratar com os brancos de classe média fazem questão de se comportar nos-conformes, mas sempre deixando claro que, mesmo no momento em que nos apertamos as mãos, existe um Oceano Atlântico de navios negreiros a nos separar.

Nunca o encontrei pessoalmente; soube que havia se tornado evangélico antes de morrer. Como diria um amigo meu, cínico até a medula, “Rapaz, esse negócio de ficar se aproximando do Céu é perigoso...” O mais engraçado é que só depois de muitos anos aqui no Rio foi que eu descobri que Bezerra era nordestino. Geraldo Azevedo me contou que quando ele e Alceu defenderam “Papagaio do Futuro” num Festival, Bezerra era o zabumbeiro do grupo. Mal acreditei, porque nada no sotaque e na atitude dele lembrava o Nordeste. A verdade é que Bezerra veio para o Rio com 15 anos, durante a II Guerra; era um menino, e desembarcou num Rio de Janeiro que ainda não tinha sido tomado de assalto por Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Foi o sucesso posterior de Jackson que o atraiu para a música, e aqui entra um detalhe que diferencia Bezerra de todos os outros, pois estudou violão clássico, e sabia ler partitura. Uma vez vi uma entrevista dele para a TV em seu apartamento, junto de um piano, e pensei: “Mas olha o inchirimento...” Não era inchirimento, era preparo, mesmo.

Bezerra foi o terceiro estágio da migração nordestina. O primeiro, com Gonzaga, era o retirante que só pensa na terra que deixou para trás. Quantas músicas há, de Gonzaga, celebrando o Rio? Pouquíssimas. O segundo estágio é Jackson, que já não é o nordestino do Sertão, mas o da Feira de São Cristóvão, com suingue urbano, vivência da indústria cultural (rádio, orquestra), perfeitamente integrado ao Rio. O terceiro é Bezerra, onde o miolo nordestino foi totalmente recoberto por uma capa espessa de carioquidade explícita e agressiva. Ao contrário dos outros dois, ele fala em bandidagem, em maconha, em assaltante, em revólver, em polícia. A gente só entende a relação Nordeste-Rio se entender a história dessas três gerações.

sábado, 4 de outubro de 2008

0574) Fausto, Gutenberg e Lutero (20.1.2005)


(Fausto, de Rembrandt)

O Saber e o Pecado sempre foram considerados duas entidades muito próximas, o que se deve em grande parte à lenda do Paraíso Terrestre: “Tinha também o Senhor Deus feito nascer da terra todas as castas de árvores agradáveis à vista, e cujo fruto era gostoso ao paladar: e a árvore da vida no meio do paraíso, com a árvore da ciência do bem e do mal” (Gênesis, cap. 2, vers. 9). Deus faz a Adão a advertência terrível: “Mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem, e do mal. Porque em qualquer tempo que comeres dele, certissimamente morrerás” (Gênesis, cap. 2, vers. 17).

Ora, Adão e Eva comem do fruto e não morrem, o que, na minha adolescência, era prova cabal de que Deus era mentiroso. Esta grave contradição filosófica era atenuada pelo fato de que, sendo expulsos do Paraíso, Adão e Eva tornam-se mortais, e talvez fosse disto que Deus os estava ameaçando, com as habituais linhas tortas de seu estilo.

A palavra “ciência” na fala divina deve ser interpretada em seu sentido popular de conhecimento, informação sobre um fato (“Eu não tive ciência de que o ofício já tinha sido enviado para o diretor”). Ter ciência do bem e do mal é estar ciente da existência destas duas forças, ter acesso a esta linha progressiva de degraus: a informação, que pode levar ao conhecimento, o qual pode levar à sabedoria.

Um texto de Adrian Johns que li na Internet (“Ten Things You Didn´t Know about Your Books”, em http://www.press.uchicago.edu/Misc/Chicago/401219.html) traz uma curiosa lenda sobre a invenção da imprensa. Sabe-se muito pouco, na verdade, sobre a vida do seu suposto inventor, Gutenberg. Segundo Johns, o Doutor Fausto, o lendário personagem que serviu de inspiração para a peça de Goethe, seria um dos responsáveis pela criação da imprensa. Consta que um dos financiadores de Gutenberg era um banqueiro chamado Fust, cujo nome em forma latinizada (como era de uso na época) tornava-se “Faustus”. Johns afirma que esta fascinante possibilidade (Fausto, inspirado pelo demônio, teria provido os fundos necessários para a disseminação dos conhecimentos do bem e do mal) foi objeto de incontáveis especulações durante o Iluminismo, em forma de pesquisas eruditas, polêmicas e até mesmo teatro de bonecos.

Do ponto de vista religioso, Fausto seria o intermediário entre o Diabo e o Mundo. Uma espécie de agente provocador, que, instruído por Mefistófeles, teria investido sua fortuna numa maneira rápida de tomar de assalto os corações e mentes da Humanidade, propagando conhecimentos profanos. Durante séculos era proibido aos cristãos ler a Bíblia, proibição rompida quando Lutero a traduziu para o alemão e a popularizou. Diz-se que a versão alemã da Bíblia foi um dos livros mais pirateados de seu tempo: a imprensa mal tinha sido criada e já existiam edições piratas. O que pode ter havido é uma conspiração laica, profana, entre Fausto, Gutenberg e Lutero, para tornar o conhecimento do Bem e do Mal acessível à humanidade inteira.

0573) Um caso para Salomão (19.1.2005)



Há um caso curioso entre os pequenos grandes dramas causados na Ásia pelo desastre do tsunami. (De passagem: Andei usando aqui “tsunami” no feminino, porque a imprensa em geral o tem feito. Mas fiquei sabendo que não há regra para isto, e que o feminino no caso é porque se toma a palavra como sinônimo de “onda”. Pela minha lógica, “tsunami” é sinônimo de maremoto, e acho que vou ficar usando no masculino) Num hospital do Sri Lanka, há um bebê não-identificado, com dois ou três meses, trazido logo após o maremoto. O bebê foi cuidado, e passa bem. Vi sua foto: um ferimento escuro bem no centro da testa, dois olhinhos negros e expectantes. Foi denominado de “Bebê 81”, número de ordem de sua entrada no hospital.

Acontece que existem, no dia em que escrevo estas linhas, nove mulheres que afirmam ser a mãe do bebê. Todas foram ao hospital, algumas acompanhadas do marido, e todas o reconheceram. O hospital não sabe o que fazer. Hospitais, muitas vezes, entregam um bebê assim à primeira pessoa que o reconhece e que apresenta alguma prova satisfatória. Mas esses casais perderam tudo: perderam casa, perderam documentos, perderam fotos, arquivos, objetos pessoais. Não há nada que possa identificar o bebê e comprovar seu vínculo com esta ou aquela mãe.

Eu penso logo é na saia-justa jurídica em que fica o Hospital, que por enquanto é o responsável pelo bebê. Cuidar dele, tudo bem; mas quando sarar, entregá-lo a quem? Ao Governo? A um orfanato? Mas por que a um orfanato, se a mãe dele está na sala de espera, debulhando-se em lágrimas, e explicando tudo às enfermeiras pela centésima vez? O problema é que de hora em hora é uma mãe diferente.

A Ciência de hoje, no entanto, já tem o teste de DNA, uma maneira indiscutível de saber quem são os pais biológicos do bebê. Mas aí vem outro problema: saber a verdade custa uma nota preta. Seria preciso colher material genético do bebê e dos nove casais que o reivindicam, enviar para Londres... A Ciência pode dar uma resposta definitiva, mas esta resposta custa centenas de dólares. O admirável mundo novo dos laboratórios genéticos pode decidir se o pagodeiro Fulano ou o centroavante Sicrano é ou não é o pai da criança daquela modelo-e-atriz; mas não resolve o drama do Bebê 81, cuja multidão de supostos pais não têm um tostão furado.

Fico matutando sobre uma última coisa nesta história: o poder cruel da esperança. Aqui não se trata, como na famosa história sobre o Rei Salomão, de duas mulheres disputando um filho. São nove, e oito delas estão iludidas (quem sabe todas nove estão). Nada, no entanto, as faz arredar pé do Hospital. Quando olham umas para as outras, todas se sentem no direito de imaginar: “Eu estou certa, elas estão erradas”. Mas se o Hospital colocar todas numa sala, eu vou sentir pairando no ambiente, de forma muito mais palpável, aqueles oito bebês que sumiram para sempre, mas estão mais presentes ali do que o Bebê 81.