segunda-feira, 6 de outubro de 2008

0578) As duas vidas de Bob Dylan (25.1.2005)



Li num um livro sobre rock um trecho a respeito de Bob Dylan, que me parece refletir um engano, ou pelo menos uma visão distorcida, do que seja a criação artística. Diz Ian MacDonald: “Numa turnê incessante que durou de setembro de 1965 até junho de 1966, Dylan mergulhou nas drogas e num estado quase suicida, incapaz de assumir mais compromissos. Em 29 de julho ele teve um acidente de moto que se tornou uma desculpa para cancelar todos os contratos. Dali até o outono de 1967 ele viveu recluso em Woodstock, Estado de New York, fazendo gravações informais com o grupo The Band. Sua carreira nunca recobrou o mesmo ímpeto de antes, e a qualidade de seu trabalho entrou em declínio permanente.”

Quem diz isto é o insuspeito Ian MacDonald, que volta e meia estou citando nesta coluna. Os fatos estão corretos, mas discordo da interpretação. Dylan geralmente é descrito como um cantor folk de canções de esquerda que se deixou seduzir pelo rock, adotou a guitarra e ficou milionário. Na verdade, ele é um camaleão musical que sempre ouviu blues e rock, e entrou na música pela porta da canção folk porque era este o ambiente que predominava no Village de New York, quando ali desembarcou. E já chegou quebrando tradições. Os músicos folk novaiorquinos eram pesquisadores e colecionadores de canções tradicionais, que executavam com rigor arqueológico. Dylan foi o primeiro que ousou escrever canções folk. Isso não passava pela cabeça dos demais. O grande impacto de músicas como “Blowin´in the Wind” foi abrir os olhos de todos para o fato de que músicas tradicionais como “Lord Randall” ou “Barbara Allen” talvez tivessem sido escritas por garotos de 22 anos como aquele, só que no século19.

O período do rock e das drogas é descrito por Bob Spitz em seu livro Dylan, cuja utilidade maior é ser uma “biografia contra”, revelando inúmeros episódios de mau-caratismo de Dylan, principalmente no modo como tratava tanto as mulheres quanto os amigos que não igualaram seu sucesso – Phil Ochs, que o idolatrava, acabou se suicidando. Curiosamente, esta fase de crueldade e drogas foi também a que se considera a mais criativa de Dylan: o período de março de 1965 (o lançamento de Bringing it all Back Home) até o acidente, em julho de 1966. Os fãs de Dylan consideram seus discos e shows dessa época os melhores de toda sua carreira. E é verdade: nunca a voz de Dylan esteve tão límpida e expressiva quanto no CD duplo Live 1966 -- The Royal Albert Hall Concert.

O acidente serviu a Dylan para sumir por quatro anos, criar seus filhos, mergulhar no estudo da música tradicional americana, e fugir do delírio sexo-drogas-e-rock-and-roll que acabaria em breve matando Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e outros. O “declínio permanente” a que MacDonald se refere é uma ilusão. Houve dois Dylan. O primeiro deles morreu aos 25 anos, como o primeiro Rimbaud, o Rimbaud poeta, morreu aos 19.

0577) A nobreza obriga (23.1.2005)




(Rudyard Kipling)

Um poema de Bertolt Brecht (“A Lenda da Origem do Livro do Tao-Te-King, de Lao-Tsé”) conta como surgiu o Tao Te King, ou Livro do Caminho Perfeito, o mais enigmático e mais interessante livro da filosofia oriental.

Brecht relata que aos 70 anos Lao-Tsé pretendia se aposentar, aí empacotou suas coisas, montou num boi (costume chinês) guiado por um rapazinho, e partiu. Ao chegar na fronteira um guarda da alfândega perguntou quem era ele, para onde ia. O rapaz explicou. O guarda bateu um papo com o filósofo, achou interessantes as coisas que ele disse, aí propôs: “Eu deixo o senhor passar, se o senhor escrever essas coisas. Vai que depois o senhor morre, ou não volta mais...”

Durante sete dias Lao-Tsé ficou hospedado na cabana do guarda, escrevendo. Ao partir (para sempre), deixou para trás um manuscrito: o “Tao Te King”.

Num poema de Rudyard Kipling (“A Ponte de Akbar”) o Rei da Índia (ou coisa equivalente), Muhammed Akbar, encarrega seu Vice-Rei de construir a mais bela mesquita do mundo, e vai para a cidade de Jaunpore para supervisionar a construção.

Uma noite, ele vai passear disfarçado na beira do rio (como faziam os califas das Mil e Uma Noites, para saber o que o povo dizia de seu governo), quando vê uma mulher junto a um barco, praguejando contra o barqueiro ausente. É a Viúva do Poteiro, uma figura folclórica local. O Rei se oferece para levá-la ao outro lado do rio, remando.

O Rei começa a remar, e a mulher esculhamba com ele o tempo todo: “Já não basta meu atraso e o barqueiro não aparecer, quem aparece é um jumento como esse, que nem remar sabe!” O Rei na dele, calado.

A Viúva começa então a esculhambar com o Vice-Rei. “Aquele idiota vê a gente o dia inteiro aqui, sujeitos aos crocodilos e às tempestades, e inventa de construir uma mesquita, quando sabe que tudo que a gente precisa é uma ponte!”

O Rei a deixa sã e salva do outro lado, e ao tentar abraçá-la em despedida leva uma sapatada na cara, pelo desaforo. Volta ao Palácio, chama o Vice-Rei e diz: “Suspende a mesquita, e constrói uma ponte, pra ver se aquela bruxa sossega.” A Ponte está lá, até hoje.

O guarda-da-fronteira e a viúva são parceiros no livro e na ponte. Um sujeito sábio não tem medo de escutar os outros, e um sujeito poderoso não tem medo de admitir que cometeu um erro. Um filósofo não é apenas um cara que tem boas idéias, ele sabe reconhecer uma boa idéia alheia.

“Noblesse oblige”. A nobreza obriga a tratar nobremente os que não são nobres, por compreender que nem todos o são. Ouvir com atenção os conselhos dos iletrados, e tratar os mal-educados com cortesia. Nobre é um sujeito, rico ou pobre, que impõe a si mesmo um padrão elevado, e procura puxar para esse nível de comportamento ele mesmo e todas as outras pessoas com quem se relaciona.

Ser nobre não é ser superior, é reconhecer que existe um modo superior de ser, e que todos, sem exceção, devem se esforçar para ser assim.


O poema de Brecht, em tradução inglesa:
http://www.penninetaichi.co.uk/index_files/Page1090.htm

O poema original de Kipling:
https://www.poetryloverspage.com/poets/kipling/akbars_bridge.html





0576) Harry Potter vs Tolkien (22.1.2005)


(J. R. R. Tolkien)

O sucesso das séries “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis” tem levado muita gente a colocar os dois no mesmo saco. Afinal de contas, são muitos os pontos que as duas obras têm em comum. Ambas são de autores britânicos, abordam um universo fantástico, têm um poderoso apelo junto aos jovens, vendem milhões de livros no mundo inteiro, deram origem a filmes que também tiveram enorme sucesso. Isto faz com que muita gente raciocine como certa vez vi alguém dizendo: “Está faltando quem faça literatura de boa qualidade, e isso cria um vácuo por onde acabam entrando essas coisas tipo Harry Potter, Senhor dos Anéis...”

Peço licença para discordar. Peguemos os livros de J. K. Rowling. Ela não é uma grande estilista, sua imaginação é vulnerável a clichês (mas só percebe isto quem lê muita Fantasia inglesa), e parece ter uma tendência a escrever de forma cada vez mais prolixa. Tirando isto, seus livros são excelentes aventuras para garotos na faixa dos 8 aos 14 anos (estou falando garotos europeus, pois nem todo garoto brasileiro de 8 anos lê um livro sem figuras daquele tamanho). Têm histórias bem imaginadas (dentro das convenções do gênero), um protagonista interessante. E têm um forte senso de finalidade: o leitor sabe que cada um dos sete livros previstos irá narrar um dos sete anos necessários para a formatura de Harry como feiticeiro na escola de Hogwarts. A própria Rowling, na TV, mostrou certa vez um caderno onde ela diz ter a sinopse de todos os livros. O final já existe. Todos esperam chegar lá um dia.

Harry Potter é um entretenimento agradável, que não faz mal nenhum a um garoto, pelo contrário, dá-lhe a bendita e inesquecível experiência de “ler um livro grosso até o fim”. Li apenas os dois primeiros, e não tenho nada contra.

O Senhor dos Anéis é outra história. Tolkien é um erudito, um estilista, um poeta, e um indivíduo de pensamento profundo, com idéias vastas e complexas sobre o mundo, e que escolheu o gênero da Fantasia Heróica para exprimir estas idéias. Compará-lo com J. K. Rowling é como comparar Ingmar Bergman com George Lucas. Tolkien é um autor do mesmo time de (no Brasil) Guimarães Rosa, Ariano Suassuna e Euclides da Cunha. Pertence a uma linhagem literária de enorme valorização da tradição, do nacionalismo, e da firme convicção de que o Mundo é um campo de batalha onde se defrontam o Bem e o Mal. Seu estilo é um tanto pesadão mas clássico; os poemas que ilustram seus romances são obras impecáveis. O mundo fantástico que criou não tem paralelo. Pode-se discordar dele, mas não negar sua estatura.

Rowling e Tolkien não surgem num vácuo de ausência de boa literatura. Surgem num contexto em que a literatura fantástica vem sendo reavaliada e recriada por escritores e leitores, bem à frente, com a crítica tentando alcançá-los pouco a pouco. O mais notável deste processo é que ele seja simbolizado por autores tão distantes e tão diferentes quanto estes dois.

0575) Bezerra da Silva (21.1.2005)



Morreu o velho malandro Bezerra da Silva, e com ele um dos meus sonhos de compositor: ter uma música gravada por uma das figuras mais marrentas e mais divertidas da cena do samba carioca. Mandei um samba uma vez, ele não gravou, eu dei de ombros e pensei que na próxima tentativa teria mais sorte. A próxima tentativa agora vai ser “na Gulora”, como dizia minha mãe. Mas aí a concorrência vai ser fogo, vou disputar com João Nogueira, Beto Sem Braço, um monte de gente.

Sempre achei Bezerra da Silva o típico carioca de morro. Tinha aquela fala arrastada, uma entonação de voz que é uma mistura de cautela automática, empáfia-de-pequenino, ressentimento atávico, desdém pelo interlocutor, tudo revestido por aquela polidez formal que os faz tratar a gente na base do “aí, campeão, tudo bem?”, “olá, bacana, como é que tá a parada?”, esse tipo de coisa. Malandros mulatos que ao tratar com os brancos de classe média fazem questão de se comportar nos-conformes, mas sempre deixando claro que, mesmo no momento em que nos apertamos as mãos, existe um Oceano Atlântico de navios negreiros a nos separar.

Nunca o encontrei pessoalmente; soube que havia se tornado evangélico antes de morrer. Como diria um amigo meu, cínico até a medula, “Rapaz, esse negócio de ficar se aproximando do Céu é perigoso...” O mais engraçado é que só depois de muitos anos aqui no Rio foi que eu descobri que Bezerra era nordestino. Geraldo Azevedo me contou que quando ele e Alceu defenderam “Papagaio do Futuro” num Festival, Bezerra era o zabumbeiro do grupo. Mal acreditei, porque nada no sotaque e na atitude dele lembrava o Nordeste. A verdade é que Bezerra veio para o Rio com 15 anos, durante a II Guerra; era um menino, e desembarcou num Rio de Janeiro que ainda não tinha sido tomado de assalto por Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Foi o sucesso posterior de Jackson que o atraiu para a música, e aqui entra um detalhe que diferencia Bezerra de todos os outros, pois estudou violão clássico, e sabia ler partitura. Uma vez vi uma entrevista dele para a TV em seu apartamento, junto de um piano, e pensei: “Mas olha o inchirimento...” Não era inchirimento, era preparo, mesmo.

Bezerra foi o terceiro estágio da migração nordestina. O primeiro, com Gonzaga, era o retirante que só pensa na terra que deixou para trás. Quantas músicas há, de Gonzaga, celebrando o Rio? Pouquíssimas. O segundo estágio é Jackson, que já não é o nordestino do Sertão, mas o da Feira de São Cristóvão, com suingue urbano, vivência da indústria cultural (rádio, orquestra), perfeitamente integrado ao Rio. O terceiro é Bezerra, onde o miolo nordestino foi totalmente recoberto por uma capa espessa de carioquidade explícita e agressiva. Ao contrário dos outros dois, ele fala em bandidagem, em maconha, em assaltante, em revólver, em polícia. A gente só entende a relação Nordeste-Rio se entender a história dessas três gerações.

sábado, 4 de outubro de 2008

0574) Fausto, Gutenberg e Lutero (20.1.2005)


(Fausto, de Rembrandt)

O Saber e o Pecado sempre foram considerados duas entidades muito próximas, o que se deve em grande parte à lenda do Paraíso Terrestre: “Tinha também o Senhor Deus feito nascer da terra todas as castas de árvores agradáveis à vista, e cujo fruto era gostoso ao paladar: e a árvore da vida no meio do paraíso, com a árvore da ciência do bem e do mal” (Gênesis, cap. 2, vers. 9). Deus faz a Adão a advertência terrível: “Mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem, e do mal. Porque em qualquer tempo que comeres dele, certissimamente morrerás” (Gênesis, cap. 2, vers. 17).

Ora, Adão e Eva comem do fruto e não morrem, o que, na minha adolescência, era prova cabal de que Deus era mentiroso. Esta grave contradição filosófica era atenuada pelo fato de que, sendo expulsos do Paraíso, Adão e Eva tornam-se mortais, e talvez fosse disto que Deus os estava ameaçando, com as habituais linhas tortas de seu estilo.

A palavra “ciência” na fala divina deve ser interpretada em seu sentido popular de conhecimento, informação sobre um fato (“Eu não tive ciência de que o ofício já tinha sido enviado para o diretor”). Ter ciência do bem e do mal é estar ciente da existência destas duas forças, ter acesso a esta linha progressiva de degraus: a informação, que pode levar ao conhecimento, o qual pode levar à sabedoria.

Um texto de Adrian Johns que li na Internet (“Ten Things You Didn´t Know about Your Books”, em http://www.press.uchicago.edu/Misc/Chicago/401219.html) traz uma curiosa lenda sobre a invenção da imprensa. Sabe-se muito pouco, na verdade, sobre a vida do seu suposto inventor, Gutenberg. Segundo Johns, o Doutor Fausto, o lendário personagem que serviu de inspiração para a peça de Goethe, seria um dos responsáveis pela criação da imprensa. Consta que um dos financiadores de Gutenberg era um banqueiro chamado Fust, cujo nome em forma latinizada (como era de uso na época) tornava-se “Faustus”. Johns afirma que esta fascinante possibilidade (Fausto, inspirado pelo demônio, teria provido os fundos necessários para a disseminação dos conhecimentos do bem e do mal) foi objeto de incontáveis especulações durante o Iluminismo, em forma de pesquisas eruditas, polêmicas e até mesmo teatro de bonecos.

Do ponto de vista religioso, Fausto seria o intermediário entre o Diabo e o Mundo. Uma espécie de agente provocador, que, instruído por Mefistófeles, teria investido sua fortuna numa maneira rápida de tomar de assalto os corações e mentes da Humanidade, propagando conhecimentos profanos. Durante séculos era proibido aos cristãos ler a Bíblia, proibição rompida quando Lutero a traduziu para o alemão e a popularizou. Diz-se que a versão alemã da Bíblia foi um dos livros mais pirateados de seu tempo: a imprensa mal tinha sido criada e já existiam edições piratas. O que pode ter havido é uma conspiração laica, profana, entre Fausto, Gutenberg e Lutero, para tornar o conhecimento do Bem e do Mal acessível à humanidade inteira.

0573) Um caso para Salomão (19.1.2005)



Há um caso curioso entre os pequenos grandes dramas causados na Ásia pelo desastre do tsunami. (De passagem: Andei usando aqui “tsunami” no feminino, porque a imprensa em geral o tem feito. Mas fiquei sabendo que não há regra para isto, e que o feminino no caso é porque se toma a palavra como sinônimo de “onda”. Pela minha lógica, “tsunami” é sinônimo de maremoto, e acho que vou ficar usando no masculino) Num hospital do Sri Lanka, há um bebê não-identificado, com dois ou três meses, trazido logo após o maremoto. O bebê foi cuidado, e passa bem. Vi sua foto: um ferimento escuro bem no centro da testa, dois olhinhos negros e expectantes. Foi denominado de “Bebê 81”, número de ordem de sua entrada no hospital.

Acontece que existem, no dia em que escrevo estas linhas, nove mulheres que afirmam ser a mãe do bebê. Todas foram ao hospital, algumas acompanhadas do marido, e todas o reconheceram. O hospital não sabe o que fazer. Hospitais, muitas vezes, entregam um bebê assim à primeira pessoa que o reconhece e que apresenta alguma prova satisfatória. Mas esses casais perderam tudo: perderam casa, perderam documentos, perderam fotos, arquivos, objetos pessoais. Não há nada que possa identificar o bebê e comprovar seu vínculo com esta ou aquela mãe.

Eu penso logo é na saia-justa jurídica em que fica o Hospital, que por enquanto é o responsável pelo bebê. Cuidar dele, tudo bem; mas quando sarar, entregá-lo a quem? Ao Governo? A um orfanato? Mas por que a um orfanato, se a mãe dele está na sala de espera, debulhando-se em lágrimas, e explicando tudo às enfermeiras pela centésima vez? O problema é que de hora em hora é uma mãe diferente.

A Ciência de hoje, no entanto, já tem o teste de DNA, uma maneira indiscutível de saber quem são os pais biológicos do bebê. Mas aí vem outro problema: saber a verdade custa uma nota preta. Seria preciso colher material genético do bebê e dos nove casais que o reivindicam, enviar para Londres... A Ciência pode dar uma resposta definitiva, mas esta resposta custa centenas de dólares. O admirável mundo novo dos laboratórios genéticos pode decidir se o pagodeiro Fulano ou o centroavante Sicrano é ou não é o pai da criança daquela modelo-e-atriz; mas não resolve o drama do Bebê 81, cuja multidão de supostos pais não têm um tostão furado.

Fico matutando sobre uma última coisa nesta história: o poder cruel da esperança. Aqui não se trata, como na famosa história sobre o Rei Salomão, de duas mulheres disputando um filho. São nove, e oito delas estão iludidas (quem sabe todas nove estão). Nada, no entanto, as faz arredar pé do Hospital. Quando olham umas para as outras, todas se sentem no direito de imaginar: “Eu estou certa, elas estão erradas”. Mas se o Hospital colocar todas numa sala, eu vou sentir pairando no ambiente, de forma muito mais palpável, aqueles oito bebês que sumiram para sempre, mas estão mais presentes ali do que o Bebê 81.

0572) “Hoje é Dia de Maria” (18.1.2005)



A Globo exibe a minissérie Hoje é Dia de Maria (http://hojeediademaria.globo.com/), onde numerosos contos populares são alinhavados em seqüência, como se tivessem todos acontecido à mesma pessoa. Pequenos episódios, lendas, historietas dos tempos da infância, com pássaros encantados, madrastas cruéis, crianças perdidas no bosque, lugares enfeitiçados onde nunca anoitece, e assim por diante. O texto de Carlos Alberto Soffredini justapõe esses episódios com habilidade. A menina que foge de casa devido aos maus-tratos da madrasta torna-se o fio condutor da história, por entre novos ambientes e novos personagens.

O aspecto mais evidente e mais encantador do trabalho é a sua concepção de espaço. Uma cúpula utilizada no Rock in Rio serve de cenário único, uma redoma onde os diversos cenários são colocados lado a lado, em 360 graus, e cuja face interna possibilita qualquer tipo de “efeito de céu”, através de pintura e iluminação. Os episódios se sucedem dando ao espectador a sensação de um espaço que sempre muda mas que é sempre o mesmo, um espaço paradoxalmente finito e ilimitado, que corresponde intuitivamente ao universo mental das histórias infantis, onde tudo pode acontecer, mas sempre no interior de determinadas regras.

Por outro lado, a minissérie tem a liberdade de utilizar elementos não necessariamente tradicionais ou rurais, como é o caso dos executivos de paletó que andam numa moto com “side-car”. Os elementos mecânicos e visuais são todos brilhantes: os pássaros de metal, os cavalos sobre rodas, as fornalhas, os figurinos surrealistas... O que mais destoa é o sotaque. A Globo deveria desistir de imitar sotaques, porque nunca dá certo. Era muito melhor deixar que os atores falassem num tom neutro, colocando aqui e ali um termo típico para dar um tempero. Italiano, espanhol, nordestino, caipira... Não adianta: ou fica ininteligível, ou caricatural.

Luiz Fernando Carvalho é um dos diretores que mais aprofundaram o senso de realismo na dramaturgia da Globo, com Renascer, O Rei do Gado, Os Maias, refinando uma concepção estética que também está por trás de seu excelente filme Lavoura Arcaica. Hoje é Dia de Maria segue outra linha de sua obra: a linha fantasista dos especiais Auto de N. S. da Luz (1992) e A Farsa da Boa Preguiça (1997). Uma linha inspirada no teatro-de-circo, nos contos maravilhosos tradicionais, onde se misturam o real e o fantástico. Esta minissérie pertence a um espaço dramatúrgico que vem se expandindo de uns quinze anos para cá. É uma “estetização do rural-popular”, visível no trabalho teatral de Antonio Nóbrega, Gabriel Vilela, Moacyr Góes e outros. Uma recriação do “interiorzão brabo” que por um lado deve a Monteiro Lobato e Ariano Suassuna, e por outro indica influências do cinema de Fellini, Chaplin, além de lembrar filmes isolados como Aventuras do Capitão Tornado (Ettore Scola) ou Aventuras do Barão de Munchausen (Terry Gilliam).

0571) O mela-mela do Corso (16.1.2005)




(não, não faz tanto tempo assim)


Acho que para as gerações mais novas o título acima é em código, mas para o pessoal da minha idade deve fazer soar um sinozinho de reconhecimento. 

Quando leio algo sobre a história do Rio de Janeiro e me deparo com termos como “o zé-pereira”, “o entrudo”, e outros, fico pensando nessas épocas pré-históricas do Carnaval, e aí me toco de que vivi épocas igualmente paleolíticas.

Vou contar como era. A Crise do Petróleo aconteceu no começo da década de 1970, quando os países árabes pela primeira vez perceberam que eram donos da maior fonte de energia do planeta, e que podiam muito bem chantagear nações mais poderosas como, na época, os EUA e a União Soviética. Levaram preço do petróleo às nuvens, e o mundo se apavorou. 

Até então, gasolina era quase o preço de água da bica, e entre os efeitos colaterais mais interessantes dessa situação estava o Corso (que a Crise do Petróleo extinguiu).

No Carnaval, todo mundo arrumava um carro (de preferência um jipe velho), enchia de amigos, botava apitos estridentes no cano de escape, e ficava rodando num “loop”. 

A fila de carros descia pela Floriano Peixoto rumo à Maciel Pinheiro, virando à direita na esquina da Associação Comercial. Quando chegavam no fim da Maciel Pinheiro, naquele larguinho onde se tem à direita o Chope do Alemão, viravam à esquerda, subindo até a lateral do Edifício Rique, onde se virava novamente à esquerda, pegando a Marquês do Herval, passando em frente ao Alfredo Dantas, rodeando a Praça da Bandeira para pegar novamente a Floriano Peixoto, rumo à Catedral. 

Ao subir ali pela parte de trás da Prefeitura (o antigo “Grande Hotel”), no entanto, pegava-se à direita a Afonso Campos, até passar por trás da Catedral, subir à esquerda e pegar novamente a Floriano Peixoto, para voltar a descer rumo à Maciel Pinheiro.

Havia mudanças, claro, de ano para ano, mas o importante é que levava-se cerca de uma hora, uma hora e meia para dar uma volta completa. 

Os carros esbarravam-se o tempo todo, daí o costume de comprar pneus velhos e amarrá-los à frente e atrás. Buzinava-se, cantava-se a plenos pulmões, batia-se em tamborins. E o melhor de tudo era o “mela-mela”, porque o objetivo desse carrossel de bêbos era melar quem estava nas calçadas e nas janelas vendo o desfile, e ser melado por eles. 

No carnaval de 1972 pegamos um panelão daqueles de preparar buchada, descemos com o jipe pela Feira, derramando dentro do panelão tudo que encontrávamos. Litros de mel de abelha e mel de rapadura, maizena, água, tubos e mais tubos de pasta de dentes, brilhantina, sorvete, farinha de trigo, maionese, leite condensado... 

Depois de cheio, o panelão continha uma massa pastosa com a qual untávamos meia Campina Grande. Só saía com sabão-de-coco e caco-de-telha, e às vezes durava até a Semana Santa. O cabelo, bem, esse ia embora na Quarta-feira de Cinzas.

E cinzas foi o que ficou disto tudo, mas que adubo melhor do que cinzas, para fertilizar a imaginação?



0570) Quaderna e os Emparedados (15.1.2005)




(Lee Taylor, no papel de Quaderna, na peça de Antunes Filho)

Além dos seus sonhos monárquicos de tornar-se Imperador do Brasil, o narrador do Romance da Pedra do Reino, Dom Pedro Dinis Quaderna, alimenta outro um sonho quixotesco: o de tornar-se o Gênio da Raça Brasileira, escrevendo a obra definitiva de nossa literatura. 

Na verdade, as ambições imperiais de Quaderna vão se diluindo ao longo da vida, quando ele cai na real e percebe que dificilmente conseguirá liderar uma grande revolta armada para colocar-se no trono de um futuro Império Brasileiro. Parece muito mais sensato ambicionar as glórias literárias do que as glórias políticas, uma vez que ele tem uma certa vocação para as Letras, e queda nenhuma para as insurreições militares.

Um dos trechos mais engraçados do livro são os capítulos (ou “folhetos”, como os chama Ariano Suassuna) 27 a 31, onde Quaderna propõe a fundação da Academia de Letras dos Emparedados de Taperoá aos seus amigos e mestres: o negro e comunista Professor Clemente, e o branco e monarquista Samuel. Os dois contestam o nome, achando que seria mais adequado usar um termo como “Academia dos Progressistas”, ou dos “Esclarecidos”. Mas Quaderna justifica o nome:

“Eu sou emparedado porque, segundo vocês, vivo assim, murado entre o enigma e o logogrifo. Clemente, porque vive agrilhoado entre as paredes do grifo do mundo, entre os elos de ferro do preconceito e da injustiça social. Quando a Samuel, anjo decaído nas paredes de pedra da prisão terrena, é também emparedado, porque vive aqui, exilado neste bárbaro Deserto africano e asiático que é o Sertão. Finalmente, em conjunto, nós três somos emparedados porque, com as andanças e extravios políticos que o Brasil vai vivendo, nós todos temos cara de quem, com culpa ou sem culpa, vai ser encostado à parede e fuzilado!”

Quaderna poderia dizer, como Drummond: “Guardei-me para a epopéia / que jamais escreverei.” 

Interrogado pelo Juiz Corregedor que investiga os crimes acontecidos em Taperoá, Quaderna afirma ser “um Epopeieta, um poeta épico, um autor de epopéias”. O Juiz pergunta: “Quantas epopéias o senhor já escreveu?” E Quaderna lasca: “Por enquanto nenhuma ainda, Excelência, mas vou fazer uma de lascar o cano, qualquer dia desses!” Qualquer literato de província se reconhece neste cândido e impiedoso auto-retrato.

Comentando a dificuldade dos três “acadêmicos” em produzir a Obra Máxima da Literatura Brasileira, ele confessa: 

“Infelizmente, Sr. Corregedor, apesar de possessos da Literatura, nós três padecemos, todos, de uma terrível incapacidade de escrever! Somos geniais nas idéias e nas conversas, mas quando chega a hora de passar tudo para o papel a desgraça penetra e, em vez do santo, quem baixa é a fatalidade, de modo que não sai nada, por mais que a gente esprema o miolo do juízo!” 

É a mesma Paraíba que, não dando nunca o braço a torcer, transformou o roteiro de cinema num sub-conjunto da Literatura Oral (ver “O Cinema Espiritual”, 10.8.2003).






0569) Pulp fiction e melodrama (14.1.2005)




Uma coisa que pessoalmente me irrita na literatura popular é o que poderíamos chamar de exagero emocionalista. Em literatura assim, tem-se a impressão de que os personagens são uns transtornados. A todo instante os olhos de alguém “fuzilam de ódio”, Fulano está “espumando de fúria”... Parece que não basta ao autor dizer que o cara se aborreceu: é preciso dizer que “todo seu corpo foi tomado por um tremor incontrolável de raiva, enquanto que chispas de fogo pareciam saltar de seus olhos azuis.”

É uma herança dos melodramas românticos de fins do século 18, entrando pelo 19. Nos livros daquela época, era um exagero bem-vindo, uma libertação da imensa racionalidade e frieza da literatura européia que os precedera. Hoje, é mero truque narrativo para poupar tempo e esforço mental tanto a quem escreve quanto a quem lê. Os personagens “explodem”, “vociferam”, “são tomados de uma incontrolável agitação”, “enfurecem-se”, “soltam gargalhadas sardônicas”, “prorrompem em pranto convulsivo”. Como as situações, por si sós, são pobres em dramaticidade (porque inverossímeis, ou mal concebidas) é preciso carregar na linguagem para impressionar os leitores mais impressionáveis.

Crises de terror ou ataques de paixão fulminante acontecem como um raio que cai do céu. Acabei de ler um interessante livro de terror (A escolha dos três, de Stephen King) onde um sujeito conhece uma mulher negra, com as duas pernas amputadas, que anda em cadeira de rodas e ainda por cima é esquizofrênica (tem dupla personalidade), e se apaixona por ela antes mesmo da gente virar a página. Impressionante. Só acreditei porque o autor estava dizendo.

Quem usa cacoetes deste tipo precisa ser muito competente em outros aspectos da escrita. No caso de King, por exemplo, o que me atrai não são seus personagens, mas os intrincados mundos fantásticos que ele é capaz de conceber, como na série A Torre Negra, a que pertence o livro acima. (Ver “Tolkien no Far-West do Futuro”, 6 de junho) King é um escritor desigual: O Iluminado, por exemplo, é muito bem escrito, e tem um personagem principal complexo e fascinante. Quando isto não acontece, o que torna seus livros merecedores de atenção é sua habilidade de conceber situações e ambientes extraordinários, no melhor estilo da pulp fiction.

Faço este balanço porque vivo dividido entre dois mundos. Num, o que vale é a história, e o estilo literário não passa de “frescura de intelectual”. No outro, o estilo é tudo, e o resto são “concessões ao mau-gosto dos iletrados”. Tristes mundos estes nossos! Mal sabem uns e outros que alguns dos melhores estilistas da literatura americana de hoje surgiram no interior da ficção científica: John Crowley, Gene Wolfe, Ursula LeGuin, William Gibson... O grande escritor, hoje, é capaz de lançar mão do universo incrivelmente rico e complexo da literatura popular, e tratá-lo em linguagem de gente grande.