domingo, 13 de julho de 2008

0445) Diego Maradona (22.8.2004)



Vi Maradona na TV. Ele sempre foi gordinho, mas agora está estufado. Lembro de um provérbio cruel que já ouvi muitas vezes: “Jogador de futebol e rapariga só tem 15 anos de vida útil.” A pessoa tem esse período para fazer o que tiver de fazer, ganhar o que puder ganhar. Depois, vai ser técnico ou cafetina. O caso de Maradona me lembra também o fato de que a vida é cheia de yins e yangs, como dizia o Budista Tibetano. Forças opostas, que vivem da tensão recíproca, que se atraem e se repelem, e que podem ser destruídas tanto pela ausência quanto pela presença excessiva da outra.

Muita gente pensa que sucesso e fracasso são o contrário um do outro. Na verdade, sucesso e fracasso são as extremidades opostas de uma outra coisa: o controle sobre o próprio destino. Quando o indivíduo consegue manter esse controle, ele evita ser destruído pelo sucesso e pelo fracasso; pelo excesso e pela falta. Existem milhões de exemplos de indivíduos destruídos pelo fracasso, ou seja, pela incapacidade de seguir uma carreira, de arranjar um emprego, de se sustentar, de se alimentar. E existem exemplos mais raros (porém muito mais visíveis) de indivíduos destruídos pelo sucesso, pelo fato de terem perdido o controle sobre suas vidas justamente quanto tudo parecia estar indo bem até demais.

(Talvez seja melhor dizer, então, que existe um “sucesso-fracasso”, que implica na perda do controle, e um sucesso propriamente dito, que é quando o indivíduo consegue manter-se em equilíbrio com tudo de bom que lhe acontece. Sucesso-fracasso: a implosão precoce dos Beatles, Hendrix, Joplin. Sucesso: a continuidade profissional dos Rolling Stones, Bob Dylan.)

Maradona fêz no futebol, com uma perna só, o que Pelé fêz com duas. Foi um desses canhotos de gênio que o futebol nos apresenta com tanta freqüência. Na Copa de 86, fêz gol de mão, fêz gol de placa, e com dois lançamentos geniais deu a Valdano e Burruchaga os gols que deram o título à Argentina. E conheceu o lado mais tenebroso do sucesso: o dinheiro excessivo, a notoriedade asfixiante, a adulação generalizada, a manipulação política, os amigos de ocasião, os bajuladores, os parasitas, os fornecedores de drogas pesadas e de mulheres posudas. Não seria exagero comparar sua ascensão e queda com a de Michael Jackson: outro garoto de talento cuja ambição pôs em marcha um mecanismo tão poderoso que acabou por ultrapassá-lo, arrastá-lo e reduzi-lo a pó.

Comparar Maradona com Pelé? Prefiro compará-lo com Garrincha. Dentro do gramado era um Deus; quando saía, mergulhava no caos. Ficava cercado de aproveitadores, de maus conselheiros, e até mesmo de gente bem intencionada que queria apenas pedir um favor ou desfrutar de sua proximidade. Dizer que foi destruído pela droga é uma verdade incompleta. O vício foi apenas o ingrediente mais cruel de uma receita que já teria sido cruel sem ele.

0444) Os robôs de Asimov (21.8.2004)



Já li uns quinze livros de Isaac Asimov, traduzi dois, e se contar a quantidade de artigos científicos dele que já li em revistas dá mais uma meia-dúzia de volumes. O filme Eu, Robô de Alex Prohyas, atualmente em cartaz, tem muitas qualidades e muitos defeitos, mas pouca coisa nele tem a ver com a obra literária que o inspirou. É um mau filme? Não propriamente, se considerarmos que tem coisa muito pior passando por aí. É, no entanto, um filme caro, e como todo filme norte-americano caro é um filme que não arrisca nada. Tem que ter o pacote habitual: efeitos especiais, perseguições de automóveis (se não tiver isso, não é filme-de-ação americano), brigas espantosamente ruidosas, e uma trilha sonora que nos agarra pelos cabelos e esfrega em nossa cara a emoção que devemos sentir.

Tem que ter um roteiro com um crime misterioso cuja solução nunca fica muito bem explicada porque a explicação se concentra em meio minuto de diálogo, nas cenas finais, entre uma briga e outra. Tem que ter um suspense com um personagem pendurado sobre um abismo, esperneando. Tem que ter outro suspense com um objeto que precisa ser levado de um lugar para outro e chegar lá no segundo exato, ou tudo vai dar errado (e sempre chega, no derradeiro instante).

O que me leva a imaginar que esses filmes são feitos para serem visto por um tipo muito especial de robôs: os espectadores de filmes norte-americanos de ação. Esses indivíduos foram educados vendo tais filmes, e voltam ao cinema, repetidas vezes, para verem filmes diferentes que fazem coisas semelhantes. A mesma perseguição, milhares de vezes repetidas. O mesmo suspense, milhares de vezes esticado até o máximo. A mesma briga, milhares de vezes coreografada e treinada por profissionais que não fazem outra coisa, e pressionam roteiristas a incluírem pelo menos uma cena de briga, para que eles possam ganhar decentemente o leite das crianças.

O problema com o cinema industrial não é propriamente o tipo de filme que produz – eu gosto desses filmes, juro, me divirto bastante. Acho-os equivalentes à “pulp fiction” dos anos 1930-40, com aquelas histórias de aventuras mirabolantes, de peripécias improváveis, de monstros e vilões inverossímeis. (Aqui no Rio já está passando o trailer de Alien versus Predador, que vem logo depois de Jason contra Freddy Kruger. Coalizões desse tipo são o último prego no caixão de um gênero.) O problema com essas coisas são as centenas de milhões de dólares em jogo a cada filme. Para não terem prejuízo eles precisam nos massacrar com uma publicidade maciça, uma distribuição predatória, contratos leoninos de exibição, jabás indescritíveis para a imprensa. O problema não é serem filmes bobos, porque a “pulp fiction” também era feita de histórias bobas. Serem bobos é o lado simpático deles. O problema é serem caros, ambiciosos, e acima de tudo são reiterativos: um gênero que a cada ano que passa vai se tornando a pornografia-de-si-mesmo.

0443) No Olimpo da arrogância (20.8.2004)



Escrevo estas linhas na terça-feira passada, dia 17, e os Jogos de Atenas já mostraram algumas cenas memoráveis. O Brasil já ganhou dois bronzes no judô, e no vôlei travou uma batalha memorável com a Itália (33 x 31 no “tie-break”). Vi a pernambucana Joana Maranhão arrasando na piscina, vi Guga sofrendo na quadra, vi nosso futebol feminino matando de inveja o masculino, vi o basquete de Porto Rico derrotar o Dream Team americano.

O que me traz ao assunto principal: a arrogância dos americanos. Já comentei nesta coluna que poucas pessoas são tão americanizadas quanto eu, mas é duro agüentar o marketing, a pose, a marra, o desprezo-pelo-mundo que passa nas atitudes de muitos atletas dos EUA. Vai daí que ninguém torceu tanto quanto eu para que o truculento Michael Phelps não conseguisse ganhar as 8 medalhas de ouro que prometeu. (Até agora ganhou 2 e perdeu 2) O basquete já tomou sua sapecadazinha, e o futebol tem-com-que-me-pague daqui pro fim. E hoje de tarde, paradoxalmente, vi a derrota da única equipe americana que não me incomodaria de ver ganhar: a da ginástica feminina. Todas aquelas meninas, não importa o país, me parecem igualmente frágeis e fortes, intensamente físicas e misteriosamente etéreas. Ganharam o ouro as romenas. Menos mal.

Quando falo na arrogância, não é preconceito nacionalista. Uma das grandes qualidades do povo americano é a sensatez, a simplicidade, os pés-no-chão. É o dinheiro que está acabando com isso. Mas há quem mantenha os olhos abertos. Dan Wetzel, comentarista de esportes do Yahoo, pergunta: “Afinal, quem inventou essa história de Phelps ganhar 8 medalhas de ouro? Foi ele mesmo, num rompante de audácia juvenil, que pensou: ´Por que não sugerir o impossível´? Foi sua equipe de marketing no Octagon Group, ansiosa para ganhar a guerra da mídia? Foi a USA Swimming, desesperada por atenção, e vendo nisto uma bela chance? Foi a Speedo, cuja equipe de relações públicas faturou um milhão de dólares em publicidade gratuita ao oferecer um milhão a Phelps, se ele conseguisse?”

Vinte anos atrás, em plena Guerra Fria, o espírito olímpico transformou-se numa guerra particular entre comunistas e capitalistas, com boicotes, perseguições e acusações de parte a parte. Tivemos olimpíadas sucessivas sem os melhores atletas do mundo, só porque se realizavam “em território inimigo”. Depois que a URSS caiu de podre, quem tomou conta foi o espírito do marketing comercial, de badalação, de mercado onipotente, de vitória a qualquer custo. Sem um adversário específico à altura, os americanos assumiram uma postura imperial, de insuportável arrogância. Wetzel lembra o slogan da Nike para os Jogos de Sidney: “Você não ganha a prata. Você perde o ouro”. É essa a mentalidade esportiva que se quer passar para a garotada em volta das quadras, dos campos, das piscinas. A prata e o bronze são um símbolo de derrota, num mundo dominado por marqueteiros que nunca praticaram esporte.

0442) O aleph da Rua Brasil (19.8.2004)




“O Aleph” é um dos contos mais famosos de Jorge Luís Borges, e título de um de seus livros mais vendidos. É um dos contos mais dissecados e discutidos pela crítica no final do século 20. 

Embora tenha sido publicado em 1949, só veio a se tornar famoso da década de 1970 em diante, quando a ironia do Destino concedeu a Borges, já velho e cego, a glória com que sonhara na juventude. 

O narrador de “O Aleph” descobre, após a morte da mulher que amava (sem ser correspondido), que no porão da casa em que ela vivia, num bairro de Buenos Aires, existia um ponto luminoso no espaço no qual era possível contemplar todos os pontos do Universo. É o aleph, o objeto numinoso indicado pela letra com que o matemático George Cantor designava os conjuntos transfinitos (aqueles cujas partes são iguais ao Todo).

Em suas entrevistas, Borges costumava lembrar o jornalista espanhol que insistiu em fazer uma matéria sobre “a casa em Buenos Aires onde havia um pequeno disco resplandecente onde estava todo o Universo”. Borges explicou que se tratava de um conto fantástico, e que se um tal objeto existisse toda a nossa ciência estaria de pernas para o ar. 

O jornalista insistia: “Mas o sr. citou até a rua onde ele está situado...” No conto de Borges, a casa da família de Beatriz Viterbo, sua amada inatingível, fica na Rua Garay, no bairro de Constitución.




Recentemente folheei o livro Borges à Contraluz, da escritora argentina Estela Canto (Ed. Iluminuras, 1991), a qual foi namorada de Borges durante um período crucial da vida do autor. É a ela que está dedicado o conto “O Aleph”, e alguns documentos que ela anexa ao seu texto lançam uma luz curiosa sobre a sua criação. 

Borges e Estela tinham o costume de fazer longas caminhadas a pé nas noites tranqüilas da Buenos Aires de 1940, e iam até o bairro Constitución e o Parque Lezama, que ao que parece (não conheço Buenos Aires) fica perto da Rua Brasil. 

Num bilhete de fevereiro de 1945, Borges escreveu para Estela: “Esta semana concluirei o rascunho da história que gostaria de te dedicar: a de um lugar (na rua Brasil) onde estão todos os lugares do mundo.” 

A própria Estela, em seu livro, comenta: “Os místicos contam experiências em que se transcende, por um momento, a carne. Em ´O Aleph´, nesse porão de uma casa da rua Brasil, o autor transcende a carne.” 

Borges teria mudado de idéia? A Rua Brasil teria mudado de nome e virado Rua Garay? É um detalhe curioso. Na entrevista em que cita o crédulo jornalista de Madri, Borges comenta: “Enfim, que dificuldade pode haver em se inventar uma rua e um número? Me lembro que escrevi Rua Garay como poderia ter escrito Rua Chile ou Rua México...” 

O bilhete de 1945, contudo, mostra que a primeira rua onde ele ambientou o conto era a Rua Brasil, que teria algum significado nostálgico na sua história pessoal com Estela Canto. 

Por um triz o Brasil não ficou famoso!




0441) O fantasma do Comunismo (18.8.2004)



Passei a vida cercado de comunistas à esquerda e de anti-comunistas à direita. E todos me diziam: “Eu não sei como é que um cara inteligente como você consegue andar na companhia daquele pessoal.” Aqui entre nós, eu considero essa façanha uma bela prova da minha inteligência, porque sempre consegui uma convivência equilibrada com todo mundo, sem ter que dar a qualquer um dos grupos a ilusão de que eu iria me tornar um sócio “de carteirinha”.

Existe uma diferença fundamental, no entanto. Quando a ditadura militar brasileira começou, eu tinha 13 anos. Quando acabou, eu tinha 34. Isto significa que passei os meus “anos formativos”, a transição da adolescência para a juventude, e desta para a maturidade, num regime anticomunista, cujas barbaridades faziam empalidecer as barbaridades semelhantes praticadas pelo Comunismo em outras regiões do mundo. Nunca simpatizei com Stálin, nem com Kruschev, nem com Brejnev, nem com Kossiguin, nem com Andropov, nem com nenhum desses outros golems fabricados pelo laboratório-de-frankenstein do Kremlin. Mas eu sabia que podia ser chamado de comunista pelo simples fato de andar na “companhia” de Maiakóvski, Eisenstein, Prokofiev, Górki... Era do lado deles que eu estava. (Só para esclarecer – nesse mesmo período eu estava ao lado de Jimi Hendrix, Bob Dylan e outros marginais do grupo adversário).

Condenar as idéias socialistas por causa dos “gulags” soviéticos, albaneses ou cubanos é o mesmo que condenar a religião católica por causa das torturas da Inquisição espanhola ou da pedofilia nas dioceses norte-americanas. Quanto mais idealista uma teoria, maior a desilusão dos que tentam praticá-la. Isto vale em especial para sistemas filosóficos que são concebidos por meia-dúzia de sujeitos cheios de boas intenções, e na hora H caem nas mãos de milhares de pessoas que só querem “se dar bem”.

No tempo em que eu era estudante, muita gente afirmava ser comunista por uma questão de dignidade pessoal, de vergonha na cara, porque não dizer isto significaria dizer: “Estou de acordo com tudo isto que está acontecendo: os seqüestros, a Censura, as prisões arbitrárias, as torturas, as mortes mal-explicadas, os desaparecimentos nunca esclarecidos, o fechamento de jornais e cineclubes, a proibição de livros e de discos.” Se todas estas coisas eram feitas em nome do anticomunismo, tinha que haver um mínimo de hombridade e de ética que nos empurrava para o Comunismo; assim como o oposto certamente ocorria em países onde em nome do Comunismo se praticavam as mesmas violências.

A Ética é o maior engodo da política. Todos temos a ilusão de que aderindo àquela atividade estaremos ajudando a transformar o mundo num lugar melhor e mais justo. Mas a História parece dar razão a uma frase que o finado Paulo Francis costumava citar: “O Comunismo apela para o que há de melhor na Humanidade, e por isto deu errado. O Capitalismo apela para o que ela tem de pior, e por isto deu certo.”

sábado, 5 de julho de 2008

0440) Fahrenheit 451 (17.8.2004)



(CD de Dona Militana)

Imagine, leitor, um mundo em que ler livros é um crime, possuir livros também. Nesse mundo, os bombeiros foram remanejados de profissão: dedicam-se agora a queimar os livros achados pela polícia na casa de “traficantes”. 

Com esta ameaça, os amantes dos livros não têm outra saída senão cair na clandestinidade. Refugiam-se nos bosque, guardam com cuidado todo os livros que conseguem obter. Como não têm condições de imprimir novos exemplares, e pensam em como guardar esses livros para o futuro, a única saída é decorá-los. Cada pessoa dedica sua vida à memorização de um livro, para guardá-lo na ponta da língua e transmiti-lo às gerações futuras.

Este é o argumento de um livro de ficção científica de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, de 1953, filmado em 1966 por François Truffaut. Ambas as obras servem para nos lembrar que, por mais que tenhamos amor pelo objeto chamado “livro”, o livro é um mero suporte para um “texto”, e que é o texto, ele sim, que constitui a obra literária. 

O final do filme mostra a neve a cair no bosque onde os homens-livros caminham devagar de um lado para o outro, recitando em voz baixa os textos de Dickens, Tolstoi ou Jane Austen; é uma bela metáfora da imortalidade da alma (o texto) mesmo após a destruição do corpo (o livro).

Uma história assim toca muito de perto a nós, nordestinos, que estamos testemunhando durante nosso período de vida a destruição de toda uma cultura (a nossa) pelo impacto de tecnologias modernas. 

O Nordeste tem um “corpus” de literatura oral que deixa de boca aberta os pesquisadores que vêm de fora; e esta cultura está desaparecendo, não exatamente porque o governo a persegue com bombeiros-incendiários, mas porque tudo parece conspirar para tornar obsoleto este tipo de transmissão de obras em prosa e verso.

Altimar Pimentel, pesquisador de UFPb, tem reunido em livro numerosas histórias contadas por gente do povo, entre os quais Luzia Teresa, uma paraibana que morreu em 1983, aos 74 anos. 

Dois volumes de histórias-de-Trancoso contadas por ela já foram lançadas sob a coordenação de Altimar, que durante anos de pesquisa recolheu mais de 200 narrativas guardadas na memória daquela velhinha de mãos magras e gestos expressivos. 

No Rio Grande do Norte, a Fundação Hélio Galvão lançou há pouco tempo um álbum de Dona Militana, uma mulher que mora na periferia de Natal, e que sabe de memória dezenas de “romances cantados”, histórias em verso com origem na literatura de cordel ou na poesia ibérica. O álbum tem três CDs onde estão registrados 54 desses romances, que ela canta com voz pausada e afinadíssima, acompanhada por instrumentistas como Gereba (violão) ou Antonio Nóbrega (rabeca); e traz um encarte com a letra e a partitura de cada uma das 54 faixas. 

Não é só a palavra falada que pode garantir a imortalidade dos livros, como em Bradbury/Truffaut. Também pode ocorrer o inverso, quando percebemos o tesouro imenso que estamos a ponto de perder.




0439) Eu, o Sertanejo (15.8.2004)





(detalhe de foto de Gustavo Moura)



Um problema aqui no “Sul” é explicar o Nordeste a quem dele só conhece a caricatura. Muita gente pensa que eu nasci numa paisagem de cactos, criei-me num casebre de barro rodeado de caveiras de boi, e vim morar no Rio afugentado pela seca. 

Não adianta repetir que fui um garoto urbano, criado numa cidade importante (a Campina em que cresci era o décimo-terceiro município brasileiro; hoje não deve ser o centésimo), e que minha infância girou em torno de cinema, rádio, gibi e futebol. 

Uma vez, dando uma entrevista a uma moça simpática que nascera em Ipanema e desconhecia até mesmo o Grajaú, tive que exagerar um pouco e explicar-lhe que viera a conhecer o sertão através dos filmes de Glauber Rocha. 

“Mas você não é do interior da Paraíba?”, insistia ela. “Sim, mas não sou sertanejo. Minha cidade é uma cidade fria, fica numa serra, no inverno é frio pra caramba, tem uma névoa que parece Londres...” E ela ria, incrédula.

Talvez por isto mesmo eu guarde lembranças tão intensas das minhas poucas experiências de passar férias em fazenda. 

Levar ao curral o caneco de alumínio com açúcar, para enchê-lo de leite espumante. 

Tirar o leite do peito da vaca (sim, já tirei). 

Montar a cavalo – eu teria uns cinco anos, e o cavalo me pareceu maior que o de Tróia. 

Alvejar passarinhos com balieira – nunca acertei. 

Tomar banho de rio e de açude, colher algodão, andar em carro de boi... 

Fiz tudo isto, nos arredores de Coxixola-PB (onde minha mãe nasceu) ou de Angelim-PE (onde meu avô materno tinha umas terras). São recordações vívidas, que não foram substituídas por experiências na idade adulta. Penso às vezes no quanto são importantes as experiências a que submetemos nossos filhos, na nossa responsabilidade ao escolher as coisas que recordarão na velhice.

E quando penso em velhice começo a imaginar que quando eu chegar lá, um dia, terei virado sertanejo. 

Quando eu estiver com 75 anos, estarei cercado de jovens para quem esse universo que vi de passagem será algo tão remoto quanto o Egito que ergueu as pirâmides. Jovens que nunca terão caçado passarinho ou tomado banho de rio. Que terão sido criados largando o videogame para brincar no playground. Que saberão o que é um robô mas nunca terão visto uma queima-de-judas. Que aprenderão o inglês com desassombro e presteza, mas ficarão de língua travada diante da fala de um agricultor ou de um vaqueiro.

Quando meu filho mais novo tinha quatro anos levei-o ao Zoológico, imaginando sua fascinação quando visse o tigre ou a girafa. Pois ele não queria sair de junto da cerca da vaca, apontando: “A vaca, pai! A vaca!” 

Sim; já percebi que aos 75 anos de idade serei sertanejo, contarei aos netos o que é tibungar em barreiro, subir em pé de goiaba, queimar-se em leite de aveloz, pisar sem querer em marimbondo, raspar o queimado no caldeirão da canjica, correr atrás de tanajura... 

Já me considerei um dos primeiros urbanóides cibernéticos; o Futuro me transformará num dos últimos sertanejos.








0438) O Manuscrito Voynich (14.8.2004)



(Manuscrito Voynich)

O mundo das bibliotecas fervilha de mistérios, de segredos, de manuscritos obscuros, de obras esquecidas, de revelações estonteantes guardadas para daqui a décadas ou séculos quando descobrirmos um velho alfarrábio esquecido e formos capazes de decifrar seu conteúdo. Não estou exagerando, leitor. A carta de Pero Vaz de Caminha, talvez nosso mais importante documento histórico, ficou ignorada durante séculos até ser achada em 1793 na Torre do Tombo. Julio Verne escreveu em 1863 um romance, “Paris no Século 20”, que só foi descoberto em 1989 pelo seu bisneto, num cofre esquecido. Há grandes descobertas esperando para acontecer.

Uma das que eu aguardo com mais ansiedade é a decifração do Manuscrito Voynich, que já foi chamado, com justiça, “o livro mais misterioso do mundo”. Tomei conhecimento dele através dos escritos de Colin Wilson, que lhe dedica um capítulo de sua Encyclopedia of Unsolved Mysteries (1988), mas quando fui atrás descobri que existe uma enorme comunidade internacional (incluindo historiadores, bibliófilos, criptógrafos e lingüistas) mobilizada em torno deste livro enigmático. Um bom saite para quem quiser ter uma idéia é o de René Zandbergen (http://www.voynich.nu/).

Vamos aos fatos. Trata-se de um livrinho de 15 por 22 centímetros, com pouco mais de 100 páginas, em pergaminho. Está escrito num alfabeto que não foi decifrado até hoje (é este o grande desafio), e fartamente ilustrado, como desenhos em quase todas as páginas. Os desenhos mostram plantas desconhecidas, órbitas astronômicas, figuras humanas, e desenhos que lembram cortes anatômicos. Parece ser uma espécie de manual ou almanaque com conhecimentos básicos de ciências naturais. Quem quiser poupar tempo e ver imagens digitalizadas das páginas do livro, pode ir para: http://beinecke.library.yale.edu/brbldl/, e digitar “Voynich”.

O manuscrito parece ter sido escrito entre 1450 e 1500; houve quem o atribuísse ao cientista Roger Bacon. Há documentos indicando que por volta de 1666 ele foi enviado ao jesuíta Athanasius Kirchner (o famoso inventor da “lanterna mágica”), com um pedido de decifração. Passou por várias mãos até que em 1912 foi adquirido pelo antiquário Wilfrid M. Voynich, que o levou para os EUA e iniciou uma campanha para estudá-lo, ficando o livro a partir daí conhecido como “Manuscrito Voynich”. Atualmente, ele está na Biblioteca Beinecke de Livros Raros, na Universidade de Yale (EUA).

Teorias recentes sugerem que o livro não passa de uma fraude bem elaborada, com um idioma tão inventado quanto as ilustrações. Dezenas de criptógrafos dedicaram-se durante décadas a elaborar teorias e propostas de decifração, até hoje sem resultado. Se você é bom em códigos, leitor, arrisque sua sorte. O sujeito que decifrar este livro vai entrar para a História, ao lado de Champollion, que decifrou os hieróglifos egípcios. Está aí uma coisa que eu não gostaria de morrer sem saber a resposta!

0437) O hipocondríaco (13.8.2004)




(cartum de Doug Savage)

Dizem que um louco é um sujeito que perdeu tudo, exceto a razão. Pelo mesmo raciocínio, um hipocondríaco é um sujeito cuja única parte saudável é o corpo. Não se iludam com aquela testa eternamente franzida, com aquele olhar de bicho acuado, aquelas costas curvas de quem carrega o mundo as ombros. Está sadio, tão sadio quanto eu e você, e é para assegurar-se disto que se envenena de remédios de manhã à noite.

Há muitos tipos. Uns são hipocondríacos por insegurança, baixa auto-estima: pensam que são mais frágeis do que as outras pessoas, que são cheios de defeitos fisiológicos ou genéticos, e que é preciso tomar medidas diárias para atenuar esse déficit. Outros são o contrário: acham-se superiores, acham que são exemplares únicos e preciosos da espécie humana, e que por isto mesmo necessitam de cuidados especiais e contínuos. Assim, cuidam do corpo como um colecionador de automóveis antigos trata do seu raríssimo exemplar de Oldsmobile 1954 (ou coisa parecida – não entendo nada de carro velho).

O hipocondríaco toma remédio por aquilo que George W. Bush e seus estrategistas chamam de “defesa preemptiva”: atacar antes, em vez de esperar o ataque do adversário. Sua mentalidade é a mesma da ditaduras militares. Temendo a própria incapacidade de enfrentar uma eleição, elas dissolvem os partidos políticos. Para se certificar de que o regime não tem opositores, faz os membros da Polícia Secreta fundarem partidos clandestinos, que atraem e doutrinam os jovens, e finalmente os prendem. (Não estou exagerando – leiam 1984). O corpo do hipocondríaco é uma ditadura farmacêutica, saturada de substâncias químicas cuja finalidade é exorcizar a ameaça de uma palavra ouvida na televisão.

William Burroughs dizia que um viciado em drogas não é mais um ser, é a metade de um ser, que só existe quando a droga está presente. O hipocondríaco geralmente minimiza a importância da droga em sua vida: não a idolatra (como muitos usuários da maconha ou da cocaína) nem recorre a ela com horror (como muita gente que fuma cigarro: “Ai, que saco, preciso parar de fumar essa porcaria!”). Sua idéia fixa não é o remédio, é a doença. Basta ler num jornal sobre um tipo raro de câncer ósseo descoberto na Malásia, que só atinge a terceira costela do lado direito, para ser justamente essa costela que começa a formigar, a latejar e a dar sinais de vida.

O hipocondríaco lê bula de remédio, manual de primeiros socorros, livro de Patologia, catálogo de laboratório farmacêutico. Tudo que lê ele interpreta como um sinal do Céu que lhe caiu sob os olhos no momento exato para salvar sua vida: estava sofrendo de um mal perigosíssimo, e jamais saberia, se não tivesse tido a sorte de ler este aviso. Sartre criou um personagem chamado O Autodidata, que lia todos os livros da biblioteca por ordem alfabética. O Hipocondríaco ideal é o que gostaria de tomar todos os remédios, para curar-se de todas as doenças.



0436) Uma utopia paulista de 1909 (12.8.2004)



(Erik Desmazieres: "Ville Imaginaire")


Ontem referi minha descoberta do livro São Paulo no Anno 2000 de Godofredo E. Barnsley (1909), romance utópico escrito pelo filho de um ex-soldado Confederado que veio morar no Brasil após a derrota do Sul na Guerra Civil americana. O livro é uma prefiguração do que nossa maior cidade poderia vir a ser no futuro, se corretamente administrada. A literatura utópica não foi muito praticado em nosso país, o que só faz aumentar a importância história de livros como este e como Sua Excia. a Presidente da República no ano 2.500 de Adalzira Bittencourt (1929), O reino de Kiato de Rodolpho Teophilo (1922) e outros. Estas obras são analisadas em detalhe no livro fundamental de Roberto de Sousa Causo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil – 1875 a 1950 (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003). O livro de Barnsley, contudo, é uma obra rara, difícil de obter até nas bibliotecas universitárias dos EUA; o exemplar que li é da Biblioteca Nacional, no Rio.

São Paulo no Anno 2000 é claramente o livro de um indivíduo culto e que tem idéias muito firmes sobre o que precisaria ser feito para que o mundo fosse um lugar decente de se viver. Indivíduos com este perfil são os grandes autores de romances utópicos como os que provavelmente serviram de inspiração e modelo a Barnsley: Looking Backward: 2000-1887 de Edward Bellamy (1888) e News from Nowhere (1890) de William Morris. Nestes dois livros, como no de Barnsley, os protagonistas adormecem no presente e acordam no futuro. Diz o narrador de São Paulo no Anno 2000, descrevendo como adormeceu numa praça no centro da cidade: “A candura, a benignidade, o socego daquelles sitios produziu em mim um suave torpor e, fechando-me os olhos ao mundo das realidades, apresentou-me um outro mundo inteiramente imaginario, povoado de visões maravilhosas. Pouco a pouco, insensivelmente, o scenario, as arvores, as cousas, foram-se transfigurando, como nas fitas cynematographycas.” O próprio narrador se compara a Rip van Winkle, o personagem de Washington Irving que também dorme durante um século.

Alguém perguntará: que importância pode ter um livro de quase cem anos atrás, e que não é, como eu próprio afirmei ontem, de grande valor literário? A resposta é simples. Arte literária não é tudo na vida dos livros. Livros valem também por serem documentos involuntários de uma época. Escritos para os homens do seu tempo, muitas vezes só são corretamente avaliados por leitores de muitos anos depois. Às vezes pretendem ser obras de arte e não o conseguem, mas ainda assim não deixam de ter valor histórico, sociológico, antropológico. Eles nos dizem como as pessoas dessa época pensavam, como avaliavam a sociedade em que viviam, quais os seus parâmetros, quais as suas aspirações. Intenções à parte, muitas vezes eles, atirando no que vêem, acertam, cem anos depois, no que não sabiam que tinham visto.