sexta-feira, 7 de março de 2008

0068) O gueto (10.6.2003)



Dizem que a Internet promove a integração entre diferentes culturas, põe em contato idéias diferentes, reduz o provincianismo. Pode até ser. Mas a reboque disto vem outra tendência, que eu chamo “A Consagração dos Guetos”. Nunca foi tão fácil descobrir pessoas que se interessam, como nós, por algo bem específico, fazer contato, juntar-nos a elas, e passar 24 horas por dia, 7 dias por semana, dedicando-nos única e exclusivamente àquela mania, ou crença, ou moda, ou hobby, ou ideologia, ou seja lá o que fôr.

Suponhamos que você admira os Templários, os cavaleiros medievais de quem se diz que guardaram os maiores segredos da Cristandade, até serem exterminados pelos reis da Europa. Décadas atrás, você ia às bibliotecas, lia alguns livros, perguntava à bibliotecária se alguém mais pedia para ler aquelas coisas, tentava fazer contato... Se o jornal anunciava uma palestra sobre o assunto, você ia até o fim do mundo, debaixo de chuva, só pela esperança de encontrar algum outro maluco dis posto a conversar sobre Templários a noite inteira. Hoje em dia, você entra num mecanismo de busca, e dentro de segundos tem ao alcance de um clique dezenas de saites e centenas de endereços pessoais de especialistas no assunto (além de mais texto do que você conseguirá ler no tempo de vida que lhe resta).

Seu interesse é um grupo musical obscuro, como a Nitty Gritty Dirt Band? São os romances absurdistas de Campos de Carvalho? É um tipo de cinema que não existe mais, como os filmes de terror da Hammer? São as operetas musicais de Gilbert & Sullivan? É o estudo dos répteis e anfíbios? É o sadomasoquismo heterossexual? São as teorias de Gurdjieff e Ouspensky? É a história e as glórias do Treze Futebol Clube? Não importa o que seja, e onde você more: você tem ao alcance de um clique um batalhão de pessoas tão entusiasmadas quanto você, e que saudarão com vivas e foguetões o seu aparecimento: “Obááá! Descobrimos mais um!”

Os guetos nunca floresceram tanto quanto nesta época de globalização cultural. A Rede, que parecia destinada a aproximar os diferentes, está radicalizando a convivência entre os iguais. Eu não tenho nada contra os guetos, tanto que pertenço a uns vinte ou trinta, alguns deles até contraditórios; mas por isto mesmo, por conhecê-los de dentro, sei o perigo que representam. Os amantes da literatura em geral sempre acharam esquisitos os fãs de Ficção Científica: “Que coisa idiota, eles só lêem um tipo de livro.” Mal sabem eles que dentro desse gueto existe um gueto ainda menor, o dos "fãs de Star Trek que detestam a FC, só lêem FC se fôr relativa à série Star Trek". E mesmo dentro deste já começam a surgir guetos (estou falando em guetos com centenas de pessoas no mundo todo) ainda mais especializados, os que só gostam da Star Trek antiga e detestam a série The New Generation, ou vice-versa. Pergunte a muitos desses caras quem é Isaac Asimov ou outro nome óbvio da ficção científica, e ele dirá: “Isaque Quem?”


0067) A pedra na fala (8.6.2003)



Vi certa vez um documentário sobre João Cabral de Melo Neto onde imagens do sertão, da Zona da Mata e do Capibaribe eram comentadas pelo poeta. Era emocionante para mim ouvir pela primeira vez (Cabral não era muito entrevisteiro) a voz por trás de tantos versos que eu sabia de cor, e cuja sintaxe cortada por anacolutos me mostrara um outro nível de interferência possível na linguagem. 

Ao longo do depoimento, contudo, comecei a perceber um detalhe meio irritante. É que o poeta terminava suas frases com uma dessas perguntinhas mecânicas que a gente faz. 

Ele dizia: “comprende?”, assim mesmo, com um “e” só. Isso aqui é um engenho, comprende? muito parecido com os que eu vi na minha infância, só que hoje não existe mais, comprende?

Com dez minutos daquilo eu já me perguntava por que o montador do filme não tinha cortado aqueles expletivos, que para mim não passavam de um tique nervoso, e nada somavam ao discurso. Além do mais o troço parecia contagioso, comprende? Terminado o filme fui bater papo e tomar cerveja com os amigos, comprende? e levei algum tempo pra me livrar desse vírus inofensivo. 

O cacoete de Cabral era uma pedra no sapato, mas, se a gente se acostuma com a pedra na alma do sertanejo, ou com uma pedra no peito, como no samba de Chico Buarque, um tiquezinho como este é convivível.

Já outros cacoetes são tribais, como o “tá ligado?” que alguns amigos meus usam com a frequência com que eu uso um ponto-e-vírgula. Todo modismo tem uma função sintática específica, como o popularíssimo “tipo assim”, que em geral equivale a “por exemplo”. 

O “tá ligado?” é uma espécie de “câmbio” nas comunicações por rádio; significa apenas que você acabou sua mensagem, e agora é a vez do outro. Serve também para conferir se o outro está prestando atenção, como fazem os portugueses ao telefone: “Está lá? Está lá?...”

Tiques e cacoetes são contagiosos. Conheço filhos que têm tiques iguais ao dos pais. O do pai é um curto-circuitozinho nos nervos, é uma descarga física involuntária; o do filho é socialmente aprendido, culturalmente herdado; é um bug no software, não no hardware. 

Estou muito técnico? Espero que não. Pensem no executivo de uma empresa, que era gago, e foi demitido, não por ser gago, mas porque todos os puxa-sacos do departamento passaram a gaguejar também, e ninguém se entendia mais. 

Todo mundo tem direito a uma pedra na alma, a um bug na sintaxe, a um tique no discurso. Os meus são “veja bem” ou “não, quer dizer” ou “mas rapaz, eu vou te dizer uma coisa...” Preenchem um vazio, como aqueles versos de repentista que tapam buracos numa sextilha (“como sabe o companheiro”, “em todo ponto de vista”, “privilegiadamente”). 

Dura apenas um segundo, o tempo necessário para a gente desplugar uma idéia e plugar outra, que já está pensada e pronta para ser dita. O cacoete verbal, comprende? é somente o ponto do zigue-zague em que o pensamento muda de direção. Tás ligado?






066) O supersticioso (7.6.2003)

Lamento informar aos torcedores do Treze que a conquista invicta do Campeonato Paraibano de 1966 não se deve ao presidente Edvaldo do Ó, nem ao técnico Astrogildo Nery, nem a Cocó, que fêz o gol da vitória na decisão contra o Campinense, nem ao resto do plantel alvinegro (que tinha Antonino na zaga, e um meio-de-campo excelente, com Martinho e Soares). Deve-se ao singelo fato de eu ter visto todos os jogos com uma camisa cor-de-palha, com uma faixa alaranjada, que aliás pertencia ao meu pai, e que usei por acaso no primeiro jogo do campeonato, repeti no segundo, e daí em diante não parei mais.

Insensatez? É possível, mas por via das dúvidas a Taça foi para o PV, e não para o PL. O supersticioso é como um sujeito que manipula um computador sem ter estudado direito seu funcionamento, só que a máquina que ele manipula é a do Destino. A cada manobra que ele faz e dá certo, a autoconfiança dele aumenta. De repente, ele tenta algo... e acontece a catástrofe. É preciso começar tudo de novo.

Em nenhuma atividade humana a superstição é tão vital quanto no futebol. Conta-se que Carlito Rocha, antigo presidente do Botafogo, viu um diretor fazer xixi na perna do outro por acidente, antes de um jogo que o Bota ganhou. Resultado: todo jogo a cena tinha que ser repetida, para constrangimento dos participantes. E o pior é que o supersticioso, como o paranóico, é dono de uma lógica de ferro. Se a ação que dá sorte fôr repetida, mas mesmo assim o time perder, não adianta tentar convencê-lo. Ele vai dizer: “É porque a gente não fêz direito: erramos a posição, ou a hora era outra, ou a camisa foi lavada...” Perguntem a Antonio Lopes, técnico do Vasco, que beija uma medalhinha 250 vezes por jogo.

O supersticioso acredita estar em convênio com as forças sobrenaturais. Não me refiro ao estereótipo do supersticioso – o que tem medo de gato preto, não passa por baixo de escadas, enfim, o que aceita passivamente esses memes do folclore. O verdadeiro supersticioso cria suas próprias superstições, personalizadas, “customizadas” como diz a galera informática. Conheço gente que não sobe num palco sem antes beber um copo dágua de olhos fechados e acender uma vela. Conheci jogadores que em hipótese alguma usavam uma camisa com determinado número. Tem gente que, se levar uma pancada no lado direito, precisa dar uma pancada parecida no lado esquerdo, para “reequilibrar”. Há pessoas que não pisam nas riscas do calçamento, que não podem ver um chinelo emborcado sem desemborcá-lo, que fecham toda tesoura aberta que aparecer na sua frente. Cada uma dessas pessoas (sou uma delas) vive num universo mágico de obrigatoriedades e proibições, com as quais se protegem sei lá de quê, e seguem vida afora, equilibrando-se na corda-bamba dessa ficção benigna, que a cada dia e a cada instante lhes assegura que sim, que vá em frente, que tudo está dando certo, e vai continuar assim – desde que ele não cometa nenhum erro fatal.

0065) Ivanildo Vila Nova, poeta há 40 anos (6.6.2003)

Amanhã, dia 7, acontece no Marco Zero, em Recife, a noite final do “3º Desafio Nordestino de Cantadores”, um festival de violeiros em homenagem aos 40 anos de Cantoria de Ivanildo Vila Nova, um dos grandes repentistas do Nordeste. Ivanildo é de Caruaru, mas morou muito tempo em Campina Grande. Eu diria que ele se inclui naquele grupo de pessoas que, não tendo nascido em Campina, encaminharam-se para a Serra da Borborema como se escutassem um Chamado, e esse chamado fosse o de sua própria voz, chamando-os do Futuro. São muitos; mas posso lembrar Rosil Cavalcanti, Elba Ramalho, José Nêumanne, Jackson do Pandeiro... e Ivanildo Vila Nova.

Eles devem muito a Campina, mas Campina também deve muito a eles. Ivanildo foi um dos maiores responsáveis pela fundação da Associação de Repentistas e Poetas Nordestinos, que, com a ajuda do Museu de Arte da então FURNe, fêz do Congresso de Violeiros de Campina Grande um dos maiores eventos da poesia popular do Nordeste. E não só o Congresso. A integração dos violeiros à vida da cidade, principalmente junto ao público universitário, ajudou a desencadear mudanças na profissão de Cantador, com reflexos que perduram até hoje. Cantadores se apresentavam em calouradas, em cineclubes, em “vernissages” de artes plásticas, em colégios secundaristas. No banquete comemorativo dos 50 anos do Treze F.C., no Rique Palace Hotel, em setembro de 1975, coube a Ivanildo Vila Nova e José Gonçalves a honra de celebrar ao som da viola as jornadas épicas do Galo imbatível.

A professora Elba Braga Ramalho, em seu livro “Cantoria Nordestina: Música e Palavra”, assim se refere ao grupo de Cantadores que atuou em Campina Grande nesse período: “Aqueles jovens nos anos 70 mudaram a imagem da Cantoria.” No centro desses jovens estava Ivanildo Vila Nova, amparado no respeito de todos pelo seu talento poético e espírito combativo. Se alguém já levou ao pé da letra a expressão “viver de desafio”, foi ele. Questionador, articulador, sem papas na língua, Ivanildo já teve muitos desafetos. Mas todos o respeitavam; e, é engraçado, nunca vi nenhum deles chamá-lo de mau poeta.

Muita coisa que eu sei de Cantoria foi o mestre Ivanildo que ensinou. Naquele tempo, quando eu tinha 25 anos, ele 30, passamos muitas tardes ou noites num balcão de bar, eu tomando cerveja, ele tomando café, e conversando sobre qualquer assunto: nossas vidas, a vida alheia, Campina Grande, política, futebol, mas principalmente poesia. Há quem diga que Vila Nova é o maior Cantador do Brasil. Eu não sei fazer comparações desse tipo. Pra mim é como dizer que a água de um açude é mais água do que a água de um copo. A poesia para mim é como uma água: tem uma sede na gente que só poesia que mata. Todo cantador, pra mim, é uma fonte dessa água. Peço aos deuses que a fonte de Ivanildo continue a jorrar, e agradeço de coração por ter sido um dos que ali beberam.

0064) Nem tudo é canção (5.6.2003)



Anos atrás participei de uma dessas coletivas musicais que duram uma noite inteira. Cantores, poetas recitando, bandas, grupos folclóricos. Quem ia se apresentar antes de mim era uma velhinha parecida com Zabé da Loca, acompanhada por violas e percussões. 

Eu estava no camarim cheio, tentando afinar o violão, quando alguém avisou ao grupo, que já ia para o palco: “Três músicas, e sai, certo?” Eles concordaram. Quando afinei o violão, fui para a lateral do palco. Passaram-se dez, quinze minutos, e o grupo cantou o que me pareceram umas oito músicas emendadas. Alguém perguntou se eu estava impaciente, e dei a resposta que dou para 90% das perguntas que me fazem: “Por mim, tudo bem.” 

Quando o grupo fez uma pausa, quinze minutos depois, o locutor apossou-se do microfone, agradeceu a presença deles e me chamou. Ao cruzar por eles, vi que a velhinha vinha danada: “Disseram que era três, e a gente só tocou uma!” A uma dela durou mais de meia hora. 

O conceito fonográfico de “canção” é uma coisa meio estranha na Música Invisível Brasileira, a música anônima que se faz nos “recantos remotos do Brasil”, ou seja, nos 90% do Brasil em volta das grandes cidades. Nos folguedos populares, nos cocos, nas marujadas, nos brinquedos de bumba-meu-boi e cavalo-marinho, a gente percebe que ninguém está preocupado com uma canção com começo, meio e fim. Não tem aquela coisa de primeira parte, segunda parte, refrão, volta a primeira e encerra. 

Na música de pés descalços, existem temas instrumentais ou refrões vocais que são puxados por uma parte do grupo, e que servem de base para que qualquer pessoa do grupo encaixe fragmentos que tenham algum tipo de parentesco com a harmonia e o ritmo usados naquele momento. 

O excelente livro de Carlos Sandroni Feitiço Decente analisa as origens do samba carioca, comparando o samba semi-folclórico que se fazia na época de Donga, e o samba urbanizado dos bambas do Estácio. Quando o “Pelo Telefone” foi gravado, um samba não tinha formato definido: era um refrão ao qual se agregavam partes com pouca relação musical e poética entre si. Não eram canções no sentido que damos hoje a essa palavra. Eram agregados poético-musicais, produzidos por associação livre de idéias, com fragmentos recordados ou improvisados pelos participantes do folguedo. 

Hoje, no Ocidente, a palavra “canção” tem um perfil nítido: há uma melodia, uma letra e um arranjo, numa estrutura composta de partes bem delimitadas, e tudo isto dura de dois e meio a três e meio minutos. É um produto industrial, criado a partir das monstruosas, barrocas, frankensteinianas “músicas” folclóricas que duram horas e só acabam se o locutor interromper o grupo. 

Mas quando coloco um CD de música oriental ou africana, de Nusrat Fateh Ali Khan ou de Ali Farka Toure, chega tenho um susto de prazer ao ver a imensa liberdade com que as canções deles parecem produtos de associação livre de idéias sem formato obrigatório. Zabé da Loca perde.








0063) O paranóico (4.6.2003)



O mundo está tomado por um surto de paranóia cultural, e o sintoma mais visível disto são as Teorias da Conspiração que proliferam na imprensa, na literatura, na Internet. 

Você sabia, caro leitor, que nenhum avião explodiu no Pentágono no 11 de setembro? Você já viu os destroços desse avião? Não, porque não existem, foi tudo armação do governo Bush (veja o livro de Thierry Meyssan “The Big Lie”). 

Você sabia que a família Kennedy conhece um segredo que pode desestabilizar a política mundial, e toda vez que ameaça revelá-lo morre um deles? 

Você sabia que a Rússia não libera a Chechênia porque é lá a “Área 51” dos russos, o ponto-de-apoio para naves alienígenas? 

Você sabe quem criou a Aids, e a Sars? 

Você sabia que Paul MacCartney está morto, e que John Lennon está vivo?

Entre no Google ou Yahoo da internet; digite “conspiracy theory” e veja a verdade sobre o assassinato de Lincoln, sobre o incêndio do Reichstag, sobre a maldição das pirâmides, sobre os verdadeiros alvos dos saqueadores dos museus de Bagdá, sobre a verdadeira finalidade do trigo transgênico, sobre a verdadeira finalidade de invenções maquiavélicas como o email e o celular. É uma experiência equivalente ao rompimento dos Sete Selos do Apocalipse.

Brasileiro tem vocação para isso. Nosso personagem-símbolo durante anos foi Ubaldo, o Paranóico, criação do cartunista Henfil. No tempo da ditadura militar, nada podia ser afirmado abertamente, e em consequência tudo era sussurrado às escondidas. 

Tivemos um presidente (Costa e Silva) que sofreu um derrame, ficou inutilizado, e a imprensa não pôde publicar isso. Não admira que tenhamos ficado com um trauma, e que até hoje circulem versões conspiratórias sobre as mortes de Tancredo Neves, Ulisses Guimarães e Marcos Freire.

O paranóico é o cara que de repente exclama: “Eureka! Entendi tudo! Agora, tudo se encaixa! Como não pensei nisso antes?” A gente pergunta: “E o que é?” E vem uma história baseada em fatos reais, conectados entre si de tal modo que revelam a existência de uma conspiração de magos egípcios que pretendem há milênios dominar a humanidade, tendo para isto fomentado a invenção da imprensa, dos óculos bifocais e do intervalo comercial de 30 segundos. 

Não tente discutir com o paranóico: tudo se encaixa. Ele é incapaz de inventar um fato. O que ele faz é criar vínculos vertiginosos: “Todos os presidentes norte-americanos foram maçons, portanto a Guerra do Vietnam e a bomba atômica são consequências das descobertas de Cagliostro, sendo que os romances de Alexandre Dumas e a Lei Áurea são meras cortinas de fumaça, para nos despistar.”

Discutir com um paranóico é inútil: tudo que você argumentar servirá apenas para que ele exclame em triunfo: “Está vendo? Mais uma prova!” 

Vinte anos de ditadura na imprensa me ensinaram a não mangar dos paranóicos. Escuto, pergunto, dou corda. Tenho certeza de que alguém sabe toda a Verdade. Quem me garante que não é um deles?





0062) Entre na Matrix (3.6.2003)



Se você não viu “Matrix Reloaded”, não leia isto aqui, porque não vai entender nada. E se não viu o primeiro filme da série, não vá ver o segundo, porque vai entender menos ainda. “Matrix” é como os velhos seriados do domingo às 10 da manhã no Capitólio. A única diferença é que do 1º episódio para o 2º se passaram quatro anos, e do 2º para o 3º vão se passar cinco meses – que, para os fãs, vão ser cinco séculos. 

Dos velhos seriados, “Matrix” tem a narração vertiginosa, o enredo cheio de reviravoltas, a incessante ação física, as brigas e quebra-quebras sem fim. Mas, afora isto... o quê que o filme quer dizer?

Em “Matrix”, a Terra está devastada pelas guerras e pela poluição; as máquinas tomaram o poder, e escravizaram a humanidade. As pessoas vivem em casulos tecnológicos, com as mentes ligadas 24 horas por dia numa realidade virtual que lhes dá a sensação de viver num mundo de verdade, com casas, prédios, automóveis, empregos, famílias, lazer, cultura, sexo, drogas e rock-and-roll. 

A mente é mantida ocupada com isto, enquanto as energias do corpo são sugadas pelo mecanismo, e usadas como combustível para manter vivas as máquinas.

Ou seja: é, com outra ambientação visual, o mesmo que acontece conosco. Eu, você e todos os outros vivemos para manter em funcionamento uma enorme máquina. Só que não é uma máquina feita de metal e circuitos eletrônicos. É uma máquina social, feita de processos de estímulo & resposta, acerto & recompensa, erro & castigo. Se nos comportamos de acordo com as expectativas da máquina, somos premiados. Se frustramos ou contradizemos essas expectativas, somos punidos. 

A máquina é ruim ou boa? Esta pergunta é irrelevante, porque a máquina não tem personalidade, vontade, moral, ou emoções. Ela alimenta você com uma ilusão, e se alimenta de sua energia, mas não é nada pessoal.

Para fazer com que aceitemos isto, a máquina precisa nos tranquilizar, nos fazer crer que vivemos num mundo feliz, num mundo de verdade, com casas, prédios, automóveis, empregos, famílias, lazer, cultura, sexo, drogas e rock-and-roll. 

A publicidade nos acena com um gigantesco cardápio de iguarias que são ao mesmo tempo iscas e recompensas: apartamento de quatro suítes na Barra da Tijuca, carros importados, morenas da bundinha arrebitada, hotéis 5 estrelas, sala VIP, passagens de primeira classe, e assim por diante. Tem também os patamares mais modestos: a casa própria, o Gol na garagem com o tanque cheio, a praia e o chope no fim de semana. 

Nesta Matrix, cada um é livre para escolher o nível de expectativa que lhe convém, desde que continue destinando 8 horas por dia a manter a máquina em funcionamento. A máquina não é boa nem é má. Ela apenas aprendeu a auto-programar-se em função de melhor desempenho. Se uma coisa lhe faz bem, ela a assimila. Se não, ela a elimina. É como uma formiga, um louva-a-deus, ou um aranha caranguejeira. É o nosso mundo.







0061) O poeta e o imperador (1.6.2003)



Millor Fernandes resumiu tudo numa fórmula simples: “O pobre quer ser rico, o classe-média quer ser rico, o intelectual quer ser rico, e o rico quer ser intelectual.” Precisa dizer mais? 

É curioso o modo como quem tem o Saber sonha com o Poder, e vice-versa. É curioso como quanto mais nos aproximamos de um deles mais nos afastamos do outro. Parece um decreto da Providência divina, porque se algum dia alguém conseguisse ser dono destas duas forças, seria igual aos deuses.

Seria digno de uma grande cobertura jornalística o encontro entre o Rei que tinha arroubos de poeta e o Poeta que tinha pose de rei; mas o encontro de D. Pedro II e Victor Hugo em Paris, em 1877, ocorreu quase sem testemunhas, e sem nenhum alarde, durante a segunda viagem do Imperador à Europa. 

Fernando Gouveia registra em O Imperador Itinerante que, hospedado no Grand Hotel de Paris, onde recebia visitantes e diplomatas nos fins de tarde, Pedro II vinha já há algum tempo tentando uma audiência com o poeta, mas Hugo já por duas vezes se esquivara. Na primeira vez, com uma seca recusa; na segunda vez, valendo-se de sua condição de Senador para sugerir ao Imperador que fosse procurá-lo em seu gabinete do Senado, em Versalhes.

Na verdade, a saúde de Hugo, que tinha 75 anos, começava a declinar, e isso viria a afastá-lo da política no ano seguinte. 

Talvez aos seus olhos aquele sul-americano relativamente jovem (51 anos), imperador ou não, fosse apenas mais um admirador em busca de um autógrafo e de uma história para sair contando.

Foi portanto com uma certa condescendência que finalmente, em 22 de maio, o poeta concordou em receber o imperador em sua casa, no nº 21 da Rue de Clichy. Desse modo, repetia-se o episódio de cinco anos antes, quando da visita de Pedro II a Portugal: Camilo Castelo Branco se recusara a ir visitá-lo no hotel e o monarca, com a humildade característica dos verdadeiros leitores, foi à casa do romancista.

Hugo registrou a visita em seus “Carnets”, e o diálogo entre os dois parece finalmente ter transcorrido sem acidentes. Ao chegar, Pedro II disse logo: “Tranquilizai-me, sou um pouco tímido.” 

Hugo apresentou seu neto Georges ao Imperador, e chegou a tratá-lo de “Majestade”. A resposta de Pedro II (“talvez com malícia maior do que parece”, como observou Wilson Martins, no volume 4 de sua História da Inteligência Brasileira), foi: “Aqui só há uma majestade, é Victor Hugo”. Os dois voltaram a se encontrar dias depois, num jantar ao qual compareceu também a atriz Sarah Bernhardt.

Hugo viria a morrer exatamente 8 anos depois, em 22 de maio de 1885. 

Quanto a Pedro II, guardou como recordação do encontro a foto autografada que Hugo levou depois, pessoalmente, ao Grand Hotel, com a dedicatória: "Àquele que tem como ancestral Marco Aurélio", o que mostra que um único encontro bastou ao Poeta para perceber por qual tipo de glória suspirava o Imperador.




0060) Xadrez sem mestre (31.5.2003)




Certa vez eu estava com uns americanos, conversando sobre ficção científica, e por algum motivo começamos a falar sobre xadrez. Um deles perguntou: “And you, Braulio, do you play chess?...” Ao que eu respondi: “Badly and pigly.” Eles não sabem o que é “mal e porcamente” em português, mas riram assim mesmo. 

E na verdade jogo xadrez mal e porcamente, do mesmo jeito que falo inglês. Jogo de olho, e falo de ouvido. Algumas pessoas me mostraram o básico, e daí em fui em frente, na base da intuição, da memória, e do prazer de tentar uma coisa sem saber se vai dar certo. Não tenho a preocupação de acertar sempre. Quando erro, tento descobrir como teria sido o certo, anoto, e sigo em frente.

O xadrez é a mais velha metáfora da vida. Na infância, decorei um verso de Omar Khayam nos seus “Rubayat”: 

Inermes peças nós, no jogo que Ele joga 
no da Noite e do Dia enorme tabuleiro. 
Ora nos move ou prende, nos retém, nos solta, 
e depois, um a um, à caixa faz voltar. 

Jorge Luís Borges evocou noutro poema essa imagem do tabuleiro como o conjunto dos dias e das noites; e Bob Dylan ironizou numa canção o assassino de um líder negro do Mississippi dizendo: “He´s only a pawn in their game.”

Para mim, no entanto, o xadrez é metáfora para tudo. Para a literatura, o futebol, a política, a vida amorosa. 

Uma das primeiras coisas interessantes que aprendi no xadrez foi: “Nunca mova uma peça tendo apenas um objetivo em mente.” É perda de tempo, desperdício de munição. 

Um bom movimento serve para, por exemplo: 

a) ameaçar uma peça inimiga; 
b) abrir espaço para que uma peça sua possa se deslocar daqui a pouco; 
c) desviar a atenção do adversário para o flanco esquerdo, porque você está preparando mesmo é uma investida pela direita; 
d) impedir que o adversário mova uma peça que pretendia mover, pois se movê-la estará se auto-colocando em xeque; 
e) ameaçar uma casa que o adversário precisaria ocupar mais tarde, na linha de ação que vinha seguindo; e assim por diante.

Pense numa coisa parecida com poesia! Muitas vezes um trecho de um poema serve para: 

a) preparar uma rima obrigatória que virá a seguir; 
b) criar, no interior do verso, um contraste rítmico com algo que vem antes, ou depois; 
c) retomar uma imagem visual sugerida no começo do poema, e agora revista por outro ângulo; 
d) usar uma palavra com forte referência cultural específica (uma citação, uma gíria, um arcaísmo, um termo erudito, etc.); e assim por diante. 

Os manuais de roteiro cinematográfico ensinam que toda cena deve servir para uma destas três coisas, melhor ainda se forem as três: 

1) avançar a ação; 
2) aprofundar o personagem; 
3) ilustrar a idéia. 

O presente artigo, por exemplo, complementa uma idéia sugerida no de 8 de abril (sobre decisões estratégicas), reforça uma proposta feita em 26 de abril (atividades mentais simultâneas), e amplia a psicologia do jogador comentada em 13 de maio. A longo prazo, vocês vão ver como tudo se encaixa.





0059) Enredo e estilo (30.5.2003)

Na adolescência eu era leitor cativo da revista “Seleções”, e uma das coisas que mais gostava era a “Seção de Livros”, onde apareciam romances condensados. Um livro de 300 páginas enxugado para cinquenta? Maravilha. Por ironia da sorte, muitos anos depois, no Rio, virei tradutor da editora “Reader´s Digest” e vim a traduzir vários desses livros, que o pessoal da editora chama brincando de “leite condensado”. Livros resumidos são uma coisa bem moderna, né? Se juntar isso com leitura dinâmica, aí é que se dana mesmo, o cara lê “Guerra e Paz” no tempo que dura o filme.

Aí eu li certa vez um artigo de Ray Bradbury reclamando de uma adaptação desse tipo que um livro dele sofreu. Bradbury, um grande contador de histórias e dono de um belo estilo, queixava-se da carnificina a que seu texto tinha sido submetido. Todos os adjetivos, todas as metáforas, todas as detalhadas descrições visuais, tudo isso tinha sido cortado impiedosamente. Tinham deixado só a história.

Um caso parecido ocorreu quando eu, como bom autodidata, estava estudando inglês com um livro aberto e um dicionário do lado. Era um volume de contos de Edgar Allan Poe daquela editora Longman, onde clássicos da literatura são recontados com um vocabulário de 2 mil palavras apenas, próprio para estudantes. Eu li e reli um conto, creio que era “O Poço e o Pêndulo”, e não conseguia me convencer que o texto tinha sido reduzido, porque eu já tinha lido a história mais de dez vezes, e estava tudo ali, cada detalhe, cada passagem.

Fui consultar o texto original e tive um susto. O texto tinha sido de fato passado numa peneira, só saindo do outro lado as 2 mil palavras do dicionário estudantil da Longman. O estilo de Poe (barroco, florido, cheio de exotismos, de palavras raras, citações em várias línguas, períodos interpolados) tinha sido moído, fervido, filtrado, e servido numa xicrinha. Mas... milagre dos milagres! A história estava toda ali, cada detalhe, cada peripécia, cada passagem.

A moral da história? Não sei. Acho que isso sugere que a experiência literária é sempre uma experiência múltipla. Assim como o cinema nos entra pelos olhos e pelos ouvidos, a literatura excita ao mesmo tempo duas áreas diferentes do cérebro: uma área sensível ao enredo, e outra área sensível ao estilo. Uma delas tem prazer em acompanhar uma história, em se identificar com os personagens, em supor o que vai acontecer em seguida, em conectar o que está acontecendo com o que aconteceu páginas atrás. E outra área da mente tem o prazer de saborear a palavra surpreendente, o borboletear das sonoridades, os ziguezagues da prosa, a visualização nítida de detalhes concretos, a rapidez e a verossimilhança dos diálogos... Os grandes autores trabalham nestes dois canais ao mesmo tempo. Só depois que nos acostumamos com o estilo de Guimarães Rosa, por exemplo, é que percebemos o quanto as histórias que ele conta são inusitadas e cheias de mistérios.