Annie Ernaux ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano
passado graças a seus livros semi-autobiográficos, escritos com frieza e
precisão. São uma forma pessoal da “auto ficção” tão praticada hoje em dia,
livros em que o autor escreve sobre si mesmo, seja fantasiando as próprias
lembranças, seja colocando-se como um dos personagens de uma história
imaginada.
Mas não se trata apenas da contação de fatos autobiográficos.
Os livros dela prendem-se a episódios específicos mas ao mesmo tempo fazem uma
análise distanciada do ambiente humano onde aquela história está se passando. É
o caso de Regarde les lumières, mon amour,
em que ela fala de seu cotidiano e descreve o ambiente e a “fauna humana” em um
grande supermercado, o Auchan, da região onde ela mora.
Os franceses desenvolveram uma forma muito peculiar de
ficção descritiva. Depois do Nouveau
Roman dos anos 1950, com Alain Robbe-Grillet e outros, surgiu um tipo de
descrição hipertrofiada, que toma a frente da narrativa. É a literatura do
olho, a literatura da câmera fotográfica ou cinematográfica, observando,
acompanhando, registrando, descrevendo. Como um jornalista incumbido de explicar
um ambiente aos seus leitores, o autor nos dá um relato visual que ao mesmo
tempo é social e psicológico, porque ele não se priva de fazer relações de
significado e de importância entre os elementos que descreve. Mas é sempre o descrever que se sobrepõe ao contar uma história.
Um clássico desse tipo de literatura é o Espèces d’espaces (1974), em que Georges
Perec faz a ambiciosa tentativa de – num certo sentido – descrever o Universo,
como uma série de espaços concêntricos, mostrados de dentro para fora. Perec
começa em “A página”:
Eu escrevo...
Eu escrevo: eu escrevo...
Eu escrevo: “eu escrevo...”
Eu escrevo que escrevo...
etc.
Eu escrevo: eu traço palavras sobre uma página.
(Espèces
d’espace, Denoël, 1974, trad. BT)
Desta página onde o livro está começando a se criar, ele
passa, nos capítulos seguintes, para “A cama”, “O quarto”, “O apartamento”, “O
edifício”, e por aí vai, até chegar ao Universo propriamente dito.
Perec é um ótimo contador de histórias, inclusive as mais
improváveis e bizarras, mas esse livro seu é um tour de force de descrição pura. Já o livro de Annie Ernaux
parece-se muito mais a um relato jornalístico, porque ela não registra apenas
as gôndolas, os balcões e os produtos do Auchan: ela observa as pessoas, faz
suposições sobre quem são e o que sentem, examina as relações sociais, etc.
Pode-se dizer que seu livro é uma reportagem atemporal
sobre um ambiente que ela precisa frequentar com assiduidade. O livro é
estruturado como um diário, cada capítulo tendo como título uma data.
Na “Introdução”, ela explica (trad. BT):
As mulheres e os homens da vida política, os jornalistas, os “experts”,
todos aqueles que nunca puseram os pés num hipermercado não conhecem a realidade
social da França de hoje.
(...) Quem não tem o costume de vir aqui facilmente se desorienta; não
como ocorre num labirinto, ou como em Veneza, mas em virtude da estrutura
geométrica do espaço, onde se justapõem, de cada lado das aléias situadas em
ângulo reto, pequenas lojas fáceis de confundir. É a vertigem da simetria,
reforçada pelo espaço fechado, mesmo estando este aberto à luz do dia por uma
imensa vidraça que substitui o teto.
A prosa de Ernaux é direta, polida. Uma prosa de cientista
social registrando costumes exóticos nas ilhas dos Mares do Sul, ou da narração
em off de documentários da BBC
explicando os hábitos de acasalamento dos pavões. Uma prosa sem sobressaltos.
Caberia aqui, talvez, a observação mordaz, mas com conhecimento
de causa, de Joaquim Nabuco:
Os franceses desconfiam do gênio. Só admiram sinceramente aquilo que
for bem podado, bem nivelado, perfeitamente regular. Têm o culto das médias.
(Pensamentos Soltos, Livro 2, item 159)
Mesmo nos detalhes que pressupõem envolvimento pessoal,
ela mantém a objetividade:
Quinta-feira, 8 de novembro
Um pouco mais adiante, no espaço destinado à livraria, vê-se uma
cliente apenas, uma mulher madura, passeando por entre os balcões. Cada vez que
me aventuro ali, saio triste e desanimada. Não que meus livros estejam
ausentes: há alguns deles lá, na estante dos Livres de Poche, mas, com poucas exceções, a escolha obedece
a um só critério, o de best-seller.
Um cartaz com mais de três metros anuncia
Os Mais Vendidos, numerados de 1 a 10 em algarismos enormes, como os das
corridas de cavalos em Longchamp. O que se pode chamar de literatura ocupa
apenas uma pequena porção deste espaço reservado a livros sobre assuntos
práticos, jogos, viagens, religião, etc.
Parece o Brasil!, exclamará algum dos nossos pessimistas
de profissão. Mas é a França, a mesma de Breton e de Voltaire. O ambiente
impessoal, contudo, reserva alguns pequenos consolos aos egos literários:
Quarta-feira, 3 abril.
No caixa, onde a fila é pequena, uma cliente puxando carrinho me deixa
passar à sua frente. Como me recuso, vigorosamente – será que pareço tão
cansada, tão envelhecida? – ela me sorri e diz saber que sou escritora.
Trocamos comentários sobre a loja, sobre as crianças em volta, numerosas para
uma quarta-feira. Ao colocar minhas compras no balcão, penso com certo
desconforto que ela vai ver o que estou comprando. Cada produto daqueles assume
de repente um peso inesperado, que revela meu estilo de vida. Uma garrafa de
champanhe, duas de vinho, leite fresco, queijo emental, pão de forma sem casca,
iogurte Sveltesse, almôndegas para os gatos, doce de gengibre inglês... É a
minha vez de ser observada, de ser transformada em objeto.
Esse olho científico, apolíneo, certamente vai além do
literário. O valor-de-presença que se atribui a toda a parafernália comercial
das gôndolas tem algo em comum com as pinturas pop de Andy Warhol reproduzindo latas de sopa e garrafas de
Coca-Cola.
É o reconhecimento da importância central dessas coisas
em nossa vida, porque no fundo trabalhamos tanto para poder comprá-las!... Daqui
a cem anos, a duzentos, esta arte será vista certamente com outros olhos, não
imagino quais.
Quinta-feira, 11 de julho.
No guichê de “saída sem compras”, o olhar do segurança para as minhas
mãos, os meus bolsos. Como se sair dali sem nenhuma mercadoria fosse uma
anomalia suspeita. Como se eu levasse comigo a culpa de nada ter comprado.
A consciência social nunca está ausente nos franceses, basta
raspar a epiderme de seus pensamentos e um problema político salta, prontinho.
Annir Ernaux registra, no começo do livro:
Quarta-feira, 28 de novembro.
Um incêndio destruiu uma indústria têxtil em Bangladesh, matando 112
pessoas, mulheres em sua maioria, que trabalhavam ali em troca de um salário de
29,50 euros mensais. O edifício, que não poderia ali ter mais de três andares,
tinha nove. Os trabalhadores ficaram presos no interior, sem poder sair. Essa
indústria, a Tazreen, fabricava camisas polo, T-shirts, etc. para empresas como
o Auchan, Carrefour, Pimkie, Go Sport, Cora, C&A, H&M. Evidentemente,
além das lágrimas de crocodilo, não se pode esperar muito de nós (que lucramos
alegremente com essa mão-de-obra escrava) para mudar esse estado de coisas. A
revolta só poderá vir dos próprios explorados, no outro lado do mundo. Mesmo os
desempregados franceses, vítimas da globalização, ficam satisfeitos de poderem
comprar uma T-shirt por nove euros.
E lá adiante, ela volta ao assunto:
Quarta-feira, 24 de abril.
Um edifício de oito andares desmoronou perto de Dacca, em Bangladesh.
Pelo menos duzentos mortos. Ateliês de confecção de roupas empregavam ali cerca
de 3 mil operários, para suprir o mercado ocidental.
Quarta-feira, 15 de maio.
O balanço total do desmoronamento do Rana Plaza, em Bangladesh, fechou
em 1.127 mortos. Dos escombros, foram resgatadas etiquetas de marcas como
Carrefour, Camaïeu e Auchan.
Esta frequentadora rotineira do Auchan vê-se arremessada
para o lado errado de uma história trágica, mas não deixa de fazer o registro. Ela
não pode deixar de consumir aqueles produtos e, como a maioria de nós, não se
sente diretamente responsável pelos métodos postos em prática pelos fabricantes
ou comerciantes.