quarta-feira, 15 de março de 2023

4922) O barco de Teseu (15.3.2023)



 
O dilema filosófico do “barco de Teseu” serve de ilustração, e de ponto de partida, para uma boa discussão sobre o lado material e o lado imaterial de um ser, uma pessoa, um objeto.
 
A lenda explica que o barco que serviu ao herói Teseu em sua expedição para matar o Minotauro, no Labirinto de Creta, foi preservado por muitos séculos, e de vez em quando era levado em peregrinação de uma cidade para outra. 

Acontece que o navio era de madeira; algumas partes se quebravam, outras sofriam com o cupim, e aos poucos cada parte do navio foi sendo substituída.  A questão é: depois que trocaram todas as tábuas do casco e do convés, todos os mastros, todos os bancos, todas as velas... aquele ainda era o barco de Teseu?




O escritor Douglas Adams, criador da série de romances O Mochileiro das Galáxias, passou por uma experiência curiosa no Japão, que ele mesmo descreve:
 
Lembro que certa vez, no Japão, fui visitar o Templo do Pavilhão Dourado, em Kyoto, e fiquei um tanto surpreso com o bom estado de conservação do tempo, já que ele foi construído no século 14. O guia me explicou que ele não estava tão bem conservado assim, e que na verdade tinha se incendiado duas vezes só neste século.
– Então, este não é o templo original? – perguntei.
– Claro que é – disse ele, surpreso com a minha pergunta.
– Mas ele foi todo queimado no incêndio?
– Sim.
– Duas vezes?
– Várias vezes.
– E reconstruido?
– Mas, claro. É um edifício importante, de grande valor histórico.
– Usando materais completamente novos.
– Claro que sim. O material antigo queimou no incêndio.
– Nesse caso, como pode ser o mesmo edifício?
– É sempre o mesmo edifício.
Tive que admitir, comigo mesmo, que era um ponto de vista perfeitamente racional, apenas partia de uma premissa diferente. A idéia do edifício, sua intenção, seu design, tudo isto é imutável e constitui a essência do edifício. O que sobrevive é a intenção dos que o construíram pela primeira vez. A madeira que foi usada para isto se deteriora, e precisa ser substituída. Dar importância excessiva ao material original, que é apenas uma lembrança sentimental do passado, desvia a nossa visão do edifício propriamente dito, que continua existindo.
(“Last Chance to See”, trad. BT)
 
Um navio e um templo são objetos físicos tão imponentes que tendemos a dar um valor excessivo ao que eles têm de propriamente material. 

Esse tema foi trazido novamente à discussão poucos anos atrás, quando a Catedral de Notre Dame sofreu um incêndio e ficou parcialmente destruída. Houve uma lamentação generalizada pela destruição de certos aspectos da catedral, mas na época transcrevi esta citação de Sara L. Uckelman, estudiosa da Idade Média (Durham Centre for Ancient and Medieval Philosophy), comentando no Facebook:
 
Eu sei como é a vida das catedrais. Elas não são monumentos estáticos ao passado. Elas são construídas, depois são incendiadas, são reconstruídas, são ampliadas, são vítimas de pilhagem, são erguidas novamente, desabam porque a construção não foi bem feita, e são erguidas mais uma vez, recebem novas ampliações, são remodeladas, são alvo de bombardeios, são construídas novamente. É a presença constante, e não a estrutura original, que tem verdadeira importância



Acho que detalhe crucial nesse contexto é o conceito de “presença constante”: a continuidade através do tempo tem tanta importância quanto a presença no espaço, e talvez mais. No caso de Notre Dame, alguns vitrais eram preciosos porque tinham duzentos anos; mas eles próprios já estavam ali substituindo vitrais ainda mais antigos, que foram destruídos dois séculos atrás por algum outro acidente.  E la nave va. 
 
É diferente o caso da destruição, por exemplo, da Biblioteca de Alexandria ou do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Porque em casos assim não se trata da destruição de um objeto que pode ser substituído, mas de milhares ou milhões de objetos únicos (livros, artefatos, manuscritos, etc.) – e quem vai produzir substitutos, ou seja, continuidade temporal, para tudo isto? 
 
No caso de um livro, é preciso distinguir a obra literária  e o objeto-livro.  O livro de Victor Hugo O Corcunda de Notre Dame, por exemplo, tem incontáveis edições e traduções mundo afora. Mesmo se pensarmos apenas na língua original, o francês, não importa quantos exemplares sejam destruídos, basta que se preserve pelo menos um para que a “presença constante” do livro tenha continuidade. 
 
É a premissa do clássico Fahrenheit 451 (livro de Ray Bradbury, filme de François Truffaut), em que os livros são preservados oralmente, na memória de pessoas capazes de recitá-los do começo ao fim.
 
Outra é a situação do manuscrito original de Victor Hugo, as folhas onde ele escreveu, com sua mão e sua caneta, a história original. Este não pode ser substituído – ganha um valor histórico de objeto único, valor que não se reduz se ele for xerografado, digitalizado e reproduzido. É a materialidade daquelas folhas, que foram tocadas e manuseadas pelo artista, que estamos reverenciando quando criamos bibliotecas destinadas à preservação de manuscrios. A obra literária está viva como nunca, reproduzindo-se lá fora – mas o objeto precioso, reverenciado pela nossa cultura enquanto existe, pertence a outra ordem de valores.



(manuscrito de Victor Hugo)
 




domingo, 12 de março de 2023

4921) Pensar numa língua estrangeira (12.3.2023)



Os professores dos cursos de idiomas costumam nos dizer que falar numa língua estrangeira não quer dizer que a gente já a “aprendeu”. Isso só acontece (dizem) quando a gente está pensando nessa língua, e sem ser provocado. 
 
Ou seja – quando a pessoa espontaneamente constrói uma frase em inglês ou espanhol, mesmo estando sozinha em casa. Porque se está no país estrangeiro, é claro que o “aplicativo idiomático mental” fica rodando 24 horas por dia.
 
Ou então quando sonha na outra língua, dizem outras pessoas. Este é mais um sinal de aplicativo rodando. Você sonha que está na Inglaterra falando o maior inglês, ou em Buenos Aires gastando o espanhol com um transeunte qualquer. 
 
Ou, e isso é mais sutil ainda, você sonha que está sozinho numa casa, aí começa a procurar o relógio perguntando a si mesmo “what time is it?”.
 
Isto tem interesse científico porque parece que o aprendizado de línguas estrangeiras se espalha por partes diferentes do cérebro.
 
A medicina tem casos clássicos. Um oficial inglês, na I Guerra Mundial, foi atingido por uma explosão e perdeu parte do cérebro. Recuperou a consciência, mas parecia ter perdido a capacidade de comunicar-se verbalmente. Um dia, médicos falaram em francês diante dele... e ele deu um pulo! E começou a se comunicar em francês, fluentemente. E explicou que o inglês (sua língua natal) era agora incompreensível, mas seu francês estava “normal, normal, normal”. 



Isso me lembra Joaquim Nabuco, um dos nossos grandes intelectuais do Império e da Primeira República. Ele reconhece, com candura e nonchalance, que sua educação cosmopolita o deixou muito mais à vontade no idioma de Renan do que no de Machado:
 
[E] dava-se um fato singular,resultado desses anos de leituras francesas: - eu lia muito pouco o português, ainda não começara a ler o inglês e desaprendera o alemão de Maria Stuart e de Wallenstein, com verdadeira mágoa do meu mestre Goldschmidt. O resultado foi que me senti solicitado, coagido pela espontaneidade própria do pensamento, a escrever em francês. (...) [C]om efeito, não revelo nenhum segredo, dizendo que insensivelmente a minha frase é uma tradução livre, e que nada seria mais fácil do que vertê-la outra vez para o francês do qual ela procede.
(Minha Formação, cap. VII)
 
Jorge Luís Borges é outro de formação multi-idiomática. Descendente de ingleses (avó paterna inglesa), acostumou-se a ler inglês desde cedo.
 
Em casa, tanto o inglês como o espanhol eram comumente usados. (...) Todos os livros precedentes [Mark Twain, H. G. Wells, R. L. Stevenson, Lewis Carroll, Charles Dickens, etc.] eu os li em inglês. Quando mais tarde li o Don Quixote no original, soou-me como uma tradução mal feita.
(“Perfis”, Ed. Globo, trad. Maria da Glória Bordini)
 
Parece esnobismo, e de certo modo talvez seja – exibicionismo de gente com acesso a bens culturais. Em todo caso... existem populações pobres e multi-idiomáticas em muitos lugares, lugares cheios de mistura transnacional, como cais do porto, zona de guerra, etc. Garotos que vivem como engraxates ou meninos-de-recados, e são capazes de conversar em 3 ou 4 línguas antes dos dez anos.
 
Todas essas circunstâncias nos ajudam a desenvolver reações verbais instintivas em diferentes idiomas. Uma pessoa martela o dedão e solta uma praga numa língua que não fala há anos; é instintivo, corresponde a um comando mental específico, que não passa pela alfândega da racionalidade e da intenção. 



O sonho é a mesma coisa. Borges diz, no mesmo livro, referindo-se aos tempos em que ele e sua irmã Norah, adolescentes, estudavam em francês, morando com os pais em Genebra:
 
Tornei-me um bom latinista, ao mesmo tempo que fazia em inglês a maior parte de minhas leituras particulares. Em casa falávamos o espanhol, mas logo o francês de minha irmã ficou tão bom que ela até sonhava nessa língua.
 
Algo parecido deve acontecer com crianças e jovens que falam línguas diferentes em casa e na escola. Fernando Pessoa estudou em Durban, e seus primeiros poemas publicados não foram em português, foram em inglês. É legítimo supor que muitos impulsos poéticos seus surgiam primeiramente em inglês e talvez fossem depois adaptados para a língua onde seria mais fácil divulgá-los.


 
Um caso notório de bilinguismo literário é o do polonês Joseph Conrad, que escreveu toda sua obra de ficção em inglês. Conrad era de uma família aristocrática da Polônia, estudou francês e outras línguas, mas consta que só se tornou fluente em inglês após os doze anos. Sempre falou o inglês com forte sotaque e um certo artificialismo, embora de maneira escrupulosamente correta.
 
Livros como Lord Jim, O Coração das Trevas e outros mostram um domínio admirável de uma língua que não era a sua; e na qual ele certamente aprendeu a sonhar.
 
Na nota introdutória a seu livro de memórias A Personal Record, ele comenta (trad. BT):
 
O fato é que a minha aptidão para escrever em inglês é tão natural quanto qualquer outra com que eu tenha nascido. Tenho a sensação estranha e esmagadora de que ela foi sempre uma parte integrante de minha pessoa. O inglês, para mim, nunca foi uma questão de escolha ou de adoção. A mera idéia de escolha nunca me passou pela cabeça. (...) Foi uma ação muito íntima e por isto mesmo muito misteriosa para explicar. Seria tão difícil quanto explicar um amor à primeira vista. (...) Se eu não tivesse escrito em inglês, não teria escrito absolutamente nada. 
 
Fico imaginando se na Polônia, um país tantas vezes invadido, retalhado, repartido, despojado de sua identidade histórica e geográfica – se num país assim os seus nacionalistas mais ferrenhos veem a opção anglófona de Conrad como um sinal de entreguismo, como uma rendição humilhante a um poder colonial mais forte (neste caso, no campo da língua e da cultura).  


quinta-feira, 9 de março de 2023

4920) A arte está no detalhe (9.3.2023)



(Daniel Day-Lewis, em Lincoln)

 
Dizem que quando Steven Spielberg filmou a sua cine-biografia de Abraham Lincoln, o tique-taque de relógio que ouvimos no filme é de um relógio que de fato pertenceu a Lincoln.
 
Dizem que quando Luchino Visconti, em Morte em Veneza (1971) mostra Dirk Bogarde lendo um jornal, trata-se de um exemplar autêntico de um jornal local, da época em que transcorre o filme (1911). 
 
Esses detalhes têm importância? Um espectador comum jamais vai perceber a diferença. Mesmo um crítico de cinema ou um historiador precisariam de alguma informação prévia para reparar em tais detalhes. 
 
Na verdade, esse exibicionismo de perfeição acontece para as pessoas que fazem o filme, não para as que o assistem. Não faz parte do filme (ou só o faz muito pouco): faz parte da vida deles, da semana de trabalho deles. 
 
Para conseguir o tal relógio e o tal jornal foi preciso que pessoas da equipe de produção entrassem em contato com a instituição (museu, biblioteca, etc.) que tinha a guarda dos objetos, enviasse um pedido formal, negociasse a abertura de um seguro contra perdas e danos, etc.
 
O objeto provavelmente foi conduzido, vigiado e levado de volta por pessoas com essa única tarefa para executar.
 
Inumeras vezes alguém perguntou no set: “Quem é esse pessoal de fora? O que estão fazendo aqui?”, e alguém respondeu: “É o pessoal que está cuidando do relógio raro”, ou algo assim.
 
Claro que nem sempre tudo corre bem. No filme de Quentin Tarantino Os Oito Odiados (2015), o ator Kurt Russell despedaçou um violão de 1870, uma raridade insubstituível, cedido pelo Martin Museum. Havia réplicas, feitas com essa finalidade, mas na hora da cena alguém não fez a troca, e o ator pensou que estava tudo pronto. O violão de 145 anos virou estilhaços.
 
“Coisas da vida; paciência,” diria Alec Baldwin com estoicismo.


 
(O Martin Museum)

A primeira crítica que se faz é, inevitavelmente: “Pra que usar um instrumento tão raro e correr esse risco? Por que não fizeram simplesmente uma imitação bem feita, ou mais de uma, e devolveram logo o original?”. 
 
E mais uma vez volta a possível explicação: porque quando o elenco e a equipe sabem que estão lidando com material raro e verdadeiro, aquilo impõe um pouco de respeito no espírito desses profissionais que precisam lidar diariamente, na sua profissão, com a encenação, a rua “cenográfica”, o figurino fake
 
Conta-se que um diretor de Hollywood, antes de filmar a cena da atriz principal descendo uma escadaria para um baile, exigiu um colar de diamantes verdadeiros, coisa para mais de 100 mil dólares. O assistente propôs uma imitação de 200 dólares. O diretor disse: “Uma mulher tem outra postura quado ela sabe que está trazendo cem mil dólares ao pescoço.”



( John Wayne, em Red River
 
Não é muito diferente da lenda que se conta sobre John Wayne. Quando ele filmou Rio Vermelho, uma das suas melhores atuações da vida inteira, o diretor Howard Hawks mandou confeccionar presentes para pessoas especiais da equipe: cinturões com fivela de prata e as iniciais do dono gravadas. Hawks e Wayne trocaram, depois, os respectivos cinturões, e Wayne usou o cinto com as iniciais de Hawks em vários clássicos que filmou nos anos seguintes, como Eldorado, Hatari, O Homem que Matou o Facínora e Rio Bravo. Como um talismã de qualidade. 
 
Não é ao público que esses detalhes se destinam, é à equipe. É para a fantasia íntima de quem está filmando, e não é só das estrelas. É também de gente que chega no set às 4 da manhã para começar a preparar o equipamento dos que chegarão às 6.
 
Trabalho profissional em equipe exige disposição, seriedade, profissionalismo, todo esse vocabulário motivatório que os coaches usam à mancheia. Mas exige também dois dedos de fantasia, três dedos de simbolismo e quatro de fetiche, para que todos acreditem que estão criando juntos uma coisa de verdade, uma coisa importante, e que essa coisa faz parte da vida deles, de segunda a sexta-feira. 
 
Se contarem a algum desses profissionais o detalhe do relógio, do jornal ou do colar, ele vai assentir, e dizer (lá com suas palavras) que sente orgulho de estar participando de uma coisa bem feita. Ele sabe que o público não vai saber disso, e de certa forma esse detalhe torna ainda mais valiosa a presença desse objeto. Ele sabe que a equipe teve em mãos algo precioso.
 
Porque esta é uma condição peculiar dos artistas, e quando digo artistas me refiro a todo mundo que trabalha na criação de uma obra de arte: eletricistas, marceneiros, maquiadoras, cantoras, roteiristas, assistentes, cenógrafas, diretores de fotografia...  “Um filme”, “uma peça de teatro”, “um balé”, tudo isto tem dentro de si duas coisas. Uma, é o produto que o público vê. Outra, é a aventura de fazê-lo, e isso o público não fica sabendo. 
 
A criação do mercado de filmes em DVD, com sua abundância de “extras” e “bônus”, gerou alguns sub-produtos interessantes.
 
O “Making Of” (com um F só, revisor) dá ao público uma vaga idéia do trabalho insano que é a realização de um filme, a ralação diária de centenas de pessoas para colocar na tela uma história que foi imaginada por meia dúzia. 
 
Outro bônus da era DVD são as “versões comentadas” do filme. Alguém, geralmente o diretor, vai assistindo o filme em tempo real e fazendo comentários sobre cada coisa que aparece. Explica detalhes técnicos, compara uma cena com outra, relata episódios pitorescos ou assustadores, chama a atenção para um objeto... Num mundo ideal, todo filme teria uma versão assim. Os bons filmes ganhariam em riqueza psicológica, em verossimilhança, teriam quem sabe algumas surpresas para o público. Até os maus filmes ficariam mais interessantes. 
 




segunda-feira, 6 de março de 2023

4919) O supermercado de Annie Ernaux (6.3.2023)

 


Annie Ernaux ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano passado graças a seus livros semi-autobiográficos, escritos com frieza e precisão. São uma forma pessoal da “auto ficção” tão praticada hoje em dia, livros em que o autor escreve sobre si mesmo, seja fantasiando as próprias lembranças, seja colocando-se como um dos personagens de uma história imaginada. 
 
Mas não se trata apenas da contação de fatos autobiográficos. Os livros dela prendem-se a episódios específicos mas ao mesmo tempo fazem uma análise distanciada do ambiente humano onde aquela história está se passando. É o caso de Regarde les lumières, mon amour, em que ela fala de seu cotidiano e descreve o ambiente e a “fauna humana” em um grande supermercado, o Auchan, da região onde ela mora. 
 
Os franceses desenvolveram uma forma muito peculiar de ficção descritiva. Depois do Nouveau Roman dos anos 1950, com Alain Robbe-Grillet e outros, surgiu um tipo de descrição hipertrofiada, que toma a frente da narrativa. É a literatura do olho, a literatura da câmera fotográfica ou cinematográfica, observando, acompanhando, registrando, descrevendo. Como um jornalista incumbido de explicar um ambiente aos seus leitores, o autor nos dá um relato visual que ao mesmo tempo é social e psicológico, porque ele não se priva de fazer relações de significado e de importância entre os elementos que descreve. Mas é sempre o descrever que se sobrepõe ao contar uma história


Um clássico desse tipo de literatura é o Espèces d’espaces (1974), em que Georges Perec faz a ambiciosa tentativa de – num certo sentido – descrever o Universo, como uma série de espaços concêntricos, mostrados de dentro para fora. Perec começa em “A página”:
 
Eu escrevo...
Eu escrevo: eu escrevo...
Eu escrevo: “eu escrevo...”
Eu escrevo que escrevo...
etc.
 
Eu escrevo: eu traço palavras sobre uma página.
(Espèces d’espace, Denoël, 1974, trad. BT)
 
Desta página onde o livro está começando a se criar, ele passa, nos capítulos seguintes, para “A cama”, “O quarto”, “O apartamento”, “O edifício”, e por aí vai, até chegar ao Universo propriamente dito. 
 
Perec é um ótimo contador de histórias, inclusive as mais improváveis e bizarras, mas esse livro seu é um tour de force de descrição pura. Já o livro de Annie Ernaux parece-se muito mais a um relato jornalístico, porque ela não registra apenas as gôndolas, os balcões e os produtos do Auchan: ela observa as pessoas, faz suposições sobre quem são e o que sentem, examina as relações sociais, etc. 
 
Pode-se dizer que seu livro é uma reportagem atemporal sobre um ambiente que ela precisa frequentar com assiduidade. O livro é estruturado como um diário, cada capítulo tendo como título uma data. 



Na “Introdução”, ela explica (trad. BT):
 
As mulheres e os homens da vida política, os jornalistas, os “experts”, todos aqueles que nunca puseram os pés num hipermercado não conhecem a realidade social da França de hoje.
(...) Quem não tem o costume de vir aqui facilmente se desorienta; não como ocorre num labirinto, ou como em Veneza, mas em virtude da estrutura geométrica do espaço, onde se justapõem, de cada lado das aléias situadas em ângulo reto, pequenas lojas fáceis de confundir. É a vertigem da simetria, reforçada pelo espaço fechado, mesmo estando este aberto à luz do dia por uma imensa vidraça que substitui o teto. 
 
A prosa de Ernaux é direta, polida. Uma prosa de cientista social registrando costumes exóticos nas ilhas dos Mares do Sul, ou da narração em off de documentários da BBC explicando os hábitos de acasalamento dos pavões. Uma prosa sem sobressaltos.
 
Caberia aqui, talvez, a observação mordaz, mas com conhecimento de causa, de Joaquim Nabuco:
 
Os franceses desconfiam do gênio. Só admiram sinceramente aquilo que for bem podado, bem nivelado, perfeitamente regular. Têm o culto das médias.
(Pensamentos Soltos, Livro 2, item 159) 
 
Mesmo nos detalhes que pressupõem envolvimento pessoal, ela mantém a objetividade:
 
Quinta-feira, 8 de novembro
Um pouco mais adiante, no espaço destinado à livraria, vê-se uma cliente apenas, uma mulher madura, passeando por entre os balcões. Cada vez que me aventuro ali, saio triste e desanimada. Não que meus livros estejam ausentes: há alguns deles lá, na estante dos Livres de Poche, mas, com poucas exceções, a escolha obedece a um só critério, o de best-seller. Um cartaz com mais de três metros anuncia Os Mais Vendidos, numerados de 1 a 10 em algarismos enormes, como os das corridas de cavalos em Longchamp. O que se pode chamar de literatura ocupa apenas uma pequena porção deste espaço reservado a livros sobre assuntos práticos, jogos, viagens, religião, etc.
 
Parece o Brasil!, exclamará algum dos nossos pessimistas de profissão. Mas é a França, a mesma de Breton e de Voltaire. O ambiente impessoal, contudo, reserva alguns pequenos consolos aos egos literários:
 
Quarta-feira, 3 abril.
No caixa, onde a fila é pequena, uma cliente puxando carrinho me deixa passar à sua frente. Como me recuso, vigorosamente – será que pareço tão cansada, tão envelhecida? – ela me sorri e diz saber que sou escritora. Trocamos comentários sobre a loja, sobre as crianças em volta, numerosas para uma quarta-feira. Ao colocar minhas compras no balcão, penso com certo desconforto que ela vai ver o que estou comprando. Cada produto daqueles assume de repente um peso inesperado, que revela meu estilo de vida. Uma garrafa de champanhe, duas de vinho, leite fresco, queijo emental, pão de forma sem casca, iogurte Sveltesse, almôndegas para os gatos, doce de gengibre inglês... É a minha vez de ser observada, de ser transformada em objeto. 
 

Esse olho científico, apolíneo, certamente vai além do literário. O valor-de-presença que se atribui a toda a parafernália comercial das gôndolas tem algo em comum com as pinturas pop de Andy Warhol reproduzindo latas de sopa e garrafas de Coca-Cola.
 
É o reconhecimento da importância central dessas coisas em nossa vida, porque no fundo trabalhamos tanto para poder comprá-las!... Daqui a cem anos, a duzentos, esta arte será vista certamente com outros olhos, não imagino quais.
 
Quinta-feira, 11 de julho.
No guichê de “saída sem compras”, o olhar do segurança para as minhas mãos, os meus bolsos. Como se sair dali sem nenhuma mercadoria fosse uma anomalia suspeita. Como se eu levasse comigo a culpa de nada ter comprado.
 
A consciência social nunca está ausente nos franceses, basta raspar a epiderme de seus pensamentos e um problema político salta, prontinho. Annir Ernaux registra, no começo do livro:
 
Quarta-feira, 28 de novembro.
Um incêndio destruiu uma indústria têxtil em Bangladesh, matando 112 pessoas, mulheres em sua maioria, que trabalhavam ali em troca de um salário de 29,50 euros mensais. O edifício, que não poderia ali ter mais de três andares, tinha nove. Os trabalhadores ficaram presos no interior, sem poder sair. Essa indústria, a Tazreen, fabricava camisas polo, T-shirts, etc. para empresas como o Auchan, Carrefour, Pimkie, Go Sport, Cora, C&A, H&M. Evidentemente, além das lágrimas de crocodilo, não se pode esperar muito de nós (que lucramos alegremente com essa mão-de-obra escrava) para mudar esse estado de coisas. A revolta só poderá vir dos próprios explorados, no outro lado do mundo. Mesmo os desempregados franceses, vítimas da globalização, ficam satisfeitos de poderem comprar uma T-shirt por nove euros. 
 
E lá adiante, ela volta ao assunto:
 
Quarta-feira, 24 de abril.
Um edifício de oito andares desmoronou perto de Dacca, em Bangladesh. Pelo menos duzentos mortos. Ateliês de confecção de roupas empregavam ali cerca de 3 mil operários, para suprir o mercado ocidental. 
 
Quarta-feira, 15 de maio.
O balanço total do desmoronamento do Rana Plaza, em Bangladesh, fechou em 1.127 mortos. Dos escombros, foram resgatadas etiquetas de marcas como Carrefour, Camaïeu e Auchan. 
 
Esta frequentadora rotineira do Auchan vê-se arremessada para o lado errado de uma história trágica, mas não deixa de fazer o registro. Ela não pode deixar de consumir aqueles produtos e, como a maioria de nós, não se sente diretamente responsável pelos métodos postos em prática pelos fabricantes ou comerciantes.






sexta-feira, 3 de março de 2023

4918) Uma leitura comentada do livro "Sagarana" (3.3.2023)




De 15 de março próximo, indo até 17 de maio, estarei ministrando um curso sobre a obra de Guimarães Rosa e o livro Sagarana (1946). Será um curso online via Zoom – acessível portanto, para leitores rosianos de todo o Brasil, e do mundo!... – todas as quartas-feiras, das 19 às 21 horas.
 
Há mais de 15 anos que ministro cursos e oficinas através do Instituto Estação das Letras (Rio), dirigido pela minha amiga, a poeta Suzana Vargas. Já ministrei cursos de poesia, de conto, de ficção científica, leituras orientadas... O mais recente foi em 2021, Lendo Borges e Cortázar.
 
O curso é pago (eu vivo disso), e mais detalhes podem ser obtidos pelo telefone do IEL – (21) 99127-4088, ou pelo email iel@estacaodasletras.com.br .
 
Dito isto, vamos ao assunto em si. Por que Sagarana?
 
Quando um autor se torna um clássico e tem uma obra relativamente grande, densa, importante, as pessoas que se aproximam da obra dele pela primeira vez procuram em geral a sua obra mais famosa, a que fez mais sucesso, ganhou mais prêmios, foi mais estudada, recebeu mais elogios...
 
Às vezes essa “obra máxima” é também a obra mais difícil do autor. Aquilo que alguns críticos chamam “o pináculo”, o ponto mais alto do que ele escreveu. E nem sempre a subida até lá é fácil.
 
Autores complexos requerem uma aproximação gradual. Isto não é uma regra universal (não existem regras universais), mas ajuda. 
 
Eu pergunto: por que chegar à obra de (digamos) James Joyce entrando de cara no Ulisses (1922), um livro muito difícil, quando a leitura dos contos de Dublinenses (1914) ensinaria muitíssimo sobre o autor, seus temas, sua linguagem, seus personagens, sua visão das coisas? Chegando ao Ulisses, depois, metade das questões já estariam resolvidas. 
 
Há leitores que tentam conhecer Julio Cortázar pegando o “tijolo” que é O Jogo da Amarelinha (1963), um livro fascinante mas um tanto desorientador para quem não conhece nada do autor. Uma aproximação gradual através dos contos dele seria uma boa transição: livros como Bestiário (1951), Todos os Fogos o Fogo (1966) ou Final de Jogo (1956) etc. cumpririam bem este papel.
 
É mais ou menos o que se coloca com Guimarães Rosa. Conheço pessoas que já tentaram ler o Grande Sertão: Veredas (1956) duas ou três vezes e não avançaram. Sei demais como é. Eu tentei umas cinco vezes, e só consegui devorar o livro depois de ter lido quasse todos os outros.
 
Um leitor jovem, de hoje, já cresce sabendo que Rosa é “um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos”, e blá-blá-blá. E que tem fama de “autor difícil”. Sua literatura é muito pessoal, e surpreende até quem já leu ensaios sobre ele, quem já viu suas histórias no cinema ou na TV, quem leu resenhas e artigos sobre seus livros. 


 

Sagarana (1946) é seu livro de estréia, publicado quando Rosa tinha 38 anos e era totalmente desconhecido. É um livro espontâneo, torrencial, com contos extensos, e ao mesmo tempo um livro destilado e refinado durante muitos anos. É o livro em que Guimarães Rosa tornou-se escritor. 
 
Fernando Pessoa disse, pela voz de Ricardo Reis: “Tornar-te-ás só quem tu sempre foste. O que te os deuses dão, dão no começo”.  Guimarães Rosa já nasceu ele mesmo com seu primeiro livro; está tudo ali. Paisagem, linguagem, personagens; a fauna, a flora e a metafísica; a violência, o amor e o bom-humor; o sertão, o caos e o cosmos.
 
Claro que houve evolução e aprofundamento, principalmente para conduzi-lo ao “Ano Miraculoso” de 1956, quando ele jogou no colo do povo brasileiro, com poucos meses de intervalo, as 822 páginas de Corpo de Baile  e as 571 do Grande Sertão. Mesmo assim, acho que Sagarana representou o processo íntimo em que o escritor criou sua “régua e compasso” para produzir tudo que veio depois. 
 
O nosso plano de leitura é acompanhar o livro do jeito que ele se organiza, com seus nove contos.
 
15 de março – Introdução a J. G. Rosa, a pessoa e o autor
22 de março – “O Burrinho Pedrês”
29 de março – “A Volta do Marido Pródigo”
5 de abril – “Sarapalha”
12 de abril – “O Duelo”
19 de abril – “Minha Gente”
26 de abril – “São Marcos”
3 de maio – “Corpo Fechado”
10 de maio – “Conversa de Bois”
17 de maio – “A Hora e Vez de Augusto Matraga”
 
Uma semana de intervalo é tempo bastante para ler ou reler cada história. Além disso, uma aula perdida por um imprevisto pode ser vista depois em gravação, e geralmente eu e os alunos criamos um grupo de mensagens para trocar impressões, responder perguntas, etc. 
 
Guimarães Rosa produziu um impacto muito grande com sua estréia literária. Era um completo desconhecido que foi capaz de amadurecer em silêncio, discretamente. E estreou já demonstrando ser um dos nossos melhores contistas.
 
Um crítico criterioso como Wilson Martins chegou a duvidar se ele seria capaz de produzir um romance à altura dos seus contos. Disse ele, em 1946, após a leitura de Sagarana:
 
Um escritor que em seu primeiro livro nos apresenta qualidades incomuns de ficcionista, que foi capaz de criar um estilo próprio de redação e de narrativa (o que é de importância substancial no conto), dotado de raro poder expressional e de uma capacidade de transmitir a emoção que atinge os pontos mais altos, que realiza uma verdadeira revolução  no conto brasileiro sem adotar nenhum dos truques literários que estão à base da maior parte de tais revoluções – poucos nomes conheço na literatura brasileira do passado e do presente que reúnam tal conjunto de qualidades literárias como as que distinguem o Sr. J. Guimarães Rosa. (...) 
 
Nada sei do Sr. Guimarães Rosa: nem a sua idade, nem as suas atividades possíveis fora da literatura, nem a sua formação cultural e educacional – não possuo nenhum daqueles elementos biográficos que tanto ajudam o crítico na interpretação de uma obra. (...) 

 

 Esse poder de ficcionista, de pôr de pé homens e animais, de nos mostrar a vida em toda a sua plenitude, o Sr. Guimarães Rosa demonstra possuir com abundância e facilidade.

 
É um livro que resultou de muita vivência, muita empatia e muito trabalho, como Rosa contou mais tarde:
 
O livro foi escrito – quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas – em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi “retrabalhado”, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez). 
 
Não nos custa nada dedicar a ele dez semanas.



 
 





segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

4917) O que existe por trás do Sol (27.2.2023)




(Sol Armorial) 
 
Quando mais jovem, em Campina Grande, trabalhei durante quase dois anos, como datilógrafo, na Reitoria da FURNe, a Fundação Universidade Regional do Nordeste (atual UEPB). Ficava em frente à Catedral, naquele prédio onde hoje funciona o Instituto Histórico.
 
Um dia eu estava indo à Faculdade de Filosofia (que ficava atrás da Catedral, a poucos metros dali) em companhia de Leopoldo, considerado o melhor datilógrafo da universidade. Era um cara mais velho do que eu, moreno, cabelo curto, não era de muita conversa mas tinha um senso de humor apurado.
 
Nesse dia a gente ia andando quando ele parou de repente.
 
– Espera um instante.
 
Voltou alguns passos e ficou examinando o chão de terra. Via-se ali um salto de sapato, salto preto, de sapato tipo Vulcabrás. O chão estava um pouco úmido e mole; Leopoldo escavou um pouco com a quina do pé, expôs o salto, deu um “bico” com um pouco de força e o salto de borracha saltou lá para a frente, deixando apenas o buraco na terra. 
 
– Tudo bem – disse Leopoldo, quando retomamos a caminhada. – É porque toda vez que eu passava aqui eu ficava pensando que tinha um cara enterrado de cabeça pra baixo, e só o salto do sapato aparecendo. 


(a antiga Reitoria da FURNe)
 
Essa imagem nunca saiu da minha cabeça (olha que já lá se vão 55 anos), porque nesse tempo eu vivia com o juízo cheio de surrealismo e de Luís Buñuel.  Fiquei fascinado com a possibilidade de você enxergar um pequeno objeto e ser capaz de visualizar, a partir dele, algo muito maior e totalmente absurdo. Como o galo de metal no campo nevado, onde o Barão de Münchausen amarra seu cavalo antes de dormir. Ao acordar, o Barão percebe que a neve derreteu e ele está numa pracinha, em frente à igreja, e o cavalo está esperneando lá no alto, preso ao galo do campanário. 
 
Corta para o Rio de Janeiro, éons depois.  Eu morava em Laranjeiras, e pegava com frequência o ônibus da linha 184 para ir ao Largo do Machado, onde tem metrô, comércio, lanchonetes, etc.  E um dia vejo pichado na parede de um prédio baixinho de apartamentos, já perto do Largo: 
 
O SOL É A BRASA DO BASEADO DE DEUS
 
Peço desculpas às pessoas religiosas que talvez se sintam ofendidas. Meu intuito aqui é apenas semiótico, porque essa frase, digna de um cartum de Moebius & Jodorowsky, tem uma construção muito semelhante à idéia de Leopoldo com o salto de sapato. É uma excelente fanopéia – na linguagem de Ezra Pound, a imagem visual vívida e instantânea, produzida por meras palavras.
 
Olhar para o sol, imaginá-lo como a brasa de um cigarro, visualizar um ser gigantesco por trás... A imagem era um tanto blasfema (Buñuel teria gostado). Mesmo assim, me lembrou outra imagem da infância, colhida talvez em Monteiro Lobato: a sugestão de que o céu da noite era uma vasta redoma de cristal escuro, e as estrelas eram buracos que os anjinhos faziam para espiar as travessuras das crianças da Terra. (Acho que isto está em Viagem ao Céu.)


O interessante dessa imagem não era nem mesmo a curiosidade dos anjinhos, mas o fato de que -- por trás dessa redoma escura e protetora existia o que? Existia uma luminosidade cegante, equivalente à do Sol, que se filtrava pelos buraquinhos. 
 
A materialidade da abóbada celeste é um tema antigo. Vivemos (dizia a imaginação medieval) no centro de uma esfera, que ora era transparente, ora opaca, ora azul, ora escura e pontilhada de brilharecos. 

Existe até a famosa gravura (que nem é medieval, é do século 19) em que um homem rompe o “vidro” dessa abóbada e enxerga por trás dela mecanismos gigantescos, engrenagens incompreensíveis.


(em L’Atmosphère: météorologie populaire, Camille Flammarion, 1888)

 
A curiosidade de saber o que existe por trás do céu vem dessa visão medieval que colocava a Terra como o centro do Universo, e este seria uma série de esferas sucessivamente maiores, como camadas-de-cebola superpostas. Um universo imóvel onde as esferas (onde estavam “pregados” o Sol a Lua, as estrelas) meramente giravam em torno do seu centro, a Terra, mas a estrutura básica era fixa.
 
Dá para imaginar o choque na cabeça dos cientistas quando tiveram que admitir por aproximações sucessivas (via Kepler, Galileu, Copérnico, Newton, Einstein) o atual formato do Universo.
 
Restou aos poetas imaginar outras alternativas, no plano simbólico. Guimarães Rosa, que era meio chegado a um cigarro convencional, projeta suas fantasias no inventivo Lalino Salãthiel de “A Volta do Marido Pródigo” (em Sagarana, 1946):
 
“Magina só: eu agora estava com vontade de cigarrar... Sem aluir daqui, sem nem abrir os olhos direito, eu esticava o braço, acendia o meu cigarro lá no sol... e depois ainda virava o sol de trás p’ra diante, p’ra fazer de-noite e a gente poder dormir...”
 
É o caso também de Ariano Suassuna e sua forma peculiar de tratar os temas religiosos e sertanejos.  Não por acaso, um dos seus personagens mais famosos, Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, foi expulso do seminário da capital da Parahyba por causa de sua teoria do “Catolicismo Sertanejo”, no qual “a Santíssima Trindade tem cinco membros: o Pai, o Filho, o Espírito Santo, o Diabo e Nossa Senhora”.



(Irandhir Santos, como Quaderna)
 
A mitologia solar tem uma importância muito grande nessa visão-do-mundo que Quaderna expõe de maneira tão vigorosa e poética no Romance da Pedra do Reino (1971). Pudera. Todo esse romance é uma tentativa pessoal, por parte de Ariano, de equacionar o feixe de contradições e de confirmações em torno da tentativa de situar Deus e o Diabo na terra do sol. 
 
Em seu livro póstumo Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, que é uma espécie de coral de muitas vozes e muitas “personas”, Ariano atribui a Dom Pantero um longo monólogo em tom apocalíptico (passagens inteiras do Apocalipse são citadas no livro) e a certa altura ele exclama: 
 
– O Sol é o girassol do sol de Deus!
 
A imagem do girassol é frequente na literatura mística, para indicar a alma sempre voltada na direção da Divindade. Para onde Deus vai, a alma do crente gira de mansinho, para nunca perder Deus de vista, para estar sempre inundada de sua luz.



Não sei se a frase de Dom Pantero é uma formulação de Ariano ou se ele está citando alguém (o livro é repleto de citações disfarçadas – é o “Estilo Régio” de Quaderna falando no centro), mas em todo caso é uma imagem de grande beleza. Uma fanopéia notável.
 
A idéia é que assim como o girassol volta-se para o sol o tempo inteiro, para embeber-se de sua luz, assim o Sol, por sua vez, volta-se o tempo inteiro para se embeber do “sol de Deus”, que neste caso deve ser algo de brilho incomensurável, inconcebível.
 
Reencontrei há pouco essa mitologia solar na leitura do volume 3 da série “The Sandman”, de Neil Gaiman, Dream Country (1991). 
 
Na quarta história deste volume, “Façade”, aparece a super-heroína Element Girl, a mulher indestrutível, capaz de manipular à vontade qualquer elemento da matéria. Ela é Rainie Blackwell, uma agente secreta que foi transformada em Element Girl após entrar em contato com uma divindade egípcia. Agora, está decadente, infeliz, incapaz de viver uma vida normal, e tendo que criar máscaras orgânicas para esconder seu rosto verdadeiro, cuja visão é insuportável às outras pessoas.
 
No fim, ela deseja morrer, e é visitada pela Morte, que faz parte do grupo dos Perpétuos. A Morte lhe aconselha que peça ao deus egípcio para reverter o que havia feito. “Mas onde vou encontrar esse deus?”, pergunta Rainie. A Morte diz: “Deixa de ser boba, esse deus é Ra, o sol. Vai na janela e fala com ele.”


(Neil Gaiman + Colleen Doran, Malcolm Jones III, Steve Ollif, Todd Klein)
 
Ela o faz e diz:
 
-- O sol... eu não tinha percebido antes... O Sol, também, é apenas uma máscara... E o rosto por trás dele é tão belo... é...
 
Element Girl usava dezenas de máscaras para poder ser vista pelos humanos (sua casa é repleta delas), e desse modo não lhe é difícil entender que o Sol é apenas uma máscara cegante destinada a afastar a curiosidade daqueles que desejam ver “a verdadeira face de um Deus”.
 






sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

4916) A peleja do meme contra o PhD (24.2.2023)




Quando o professor universitário e semiólogo Umberto Eco surpreendeu o mundo inteiro com o sucesso de um romance fascinante e difícil como O Nome da Rosa (1980), muita gente se surpreendeu com o fato de ele ter ambientado sua história num mosteiro católico no ano de 1327. Eco precisou explicar que conhecia a Idade Média muito melhor do que a época contemporânea. 
 
Depois, num ensaio recolhido nas Viagens na Irrealidade Cotidiana (Ed. Record, 1984, trad. Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade), ele discutiu algumas idéias muito em voga nos anos 1980, em torno do conceito de “uma nova Idade Média”. E diz, a certa altura: 
 
Nada é mais semelhante a um mosteiro (perdido no campo, cercado e rodeado por hordas bárbaras e estranhas, habitado por monges que não têm nada a ver com o mundo e desenvolvem suas pesquisas particulares) do que um campus universitário norte-americano. (p. 98) 
 
As modas recentes do terraplanismo e do negacionismo médico trouxeram para o debate caótico das redes sociais o distanciamento entre os cientistas e as “pessoas comuns” (eu, por exemplo). Não sabemos nada de Ciência, ou melhor, sabemos o que lemos na imprensa (TV, revistas, a Web), misturado a noções que vimos quando éramos estudantes, e que já esquecemos quase por completo.
 
Nunca foram tão necessários os divulgadores da Ciência, as pessoas capazes de sintetizar conhecimentos científicos (mesmo com o risco da superficialidade), escrevendo para leitores medianamente instruídos, leitores com doses equilibradas de confiança e de ceticismo. O leitor que não lê “para acreditar” nem “para discordar”, mas lê pela necessidade de pensar mais aprofundadamente naquele assunto. Lê para se informar melhor. 




 
Minha geração teve a sorte de ler autores para quem eu acendo uma vela mental todas as noites, em meus oratórios agnósticos: Fritz Kahn, Paul Karlson, Hendrik Van Loon, Henry Thomas, George Gamow... Ninguém lembra deles hoje: eu lembro, porque foi deles a primeira porta para assuntos que vi retomados, alguns anos depois, por Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Carl Sagan, Stephen Hawking. 


A distância abissal entre cientistas e o grande público recebeu agora uma ótima sátira televisiva na série do Netflix O Mundo por Philomena Cunk, criado por Charlie Brooker, em que a atriz Diane Morgan faz o papel de uma “influêncer” com verba e sem noção, que viaja pelo mundo capitaneando um programa instrutivo onde ela conta (em 5 episódios de meia hora) a história da humanidade, enquanto entrevista historiadores, físicos, medievalistas, etc.
 
Os professores e professoras, europeus e norte-americanos, são todos verdadeiros, e tudo que eles dizem é dito a sério – com certa dificuldade, porque “Philomena” faz as perguntas mais abobalhadas e irritantes. Tiremos o chapéu aos professores e professoras que precisam responder questionamentos como: “Todo mundo sabe que o homem não foi à Lua; para começar, a Lua não existe, concorda?”.


“Philomena Cunk” representa aquela fauna de que o YouTube está cheio: pessoas jovens, cheias de energia e de ofuscante auto-estima, capazes de se comunicar instantaneamente com milhões de outros jovens em torno do fato de que todos ouviram o galo cantar e não sabem onde.  Ou melhor, todos ouviram o galo cantar, mas alguns creem que é um galo alienígena, outros questionam a existência de galos e de aves em geral, outros dizem que aquilo não foi o canto do galo e sim uma simulação cibernética, outros perguntam por que quem canta é sempre o galo, e à galinha cabe apenas o papel subalterno de atravessar a estrada...  
 
Enfim, é um caldo cultural de meias-informações, piadas, superstições, empirismo oitocentista, crendices, intuições interessantes, pensamento mágico, fabulações pessoais... O mesmo caldo cultural em que viviam as populações da Idade Média.  
 
Umberto Eco descreve com riqueza de detalhes esse caldo cultural em O Nome da Rosa, e descreve seu equivalente moderno em O Pêndulo de Foucault (1988). Só que esse caldo está hoje potencializado pelo aumento da população, a crise da educação (cada país tem a sua, mas todos têm uma) e agora o crescimento desordenado (e ferozmente manipulado por quem pode) das comunicações eletrônicas. 
 
“Philomena Cunk” viaja pelo mundo inteiro (principalmente graças à magia do chroma-key) e é muito divertido ver o olhar de terror de senhoras ponderosamente acadêmicas, cobertas de PhDs, diante do nonsense-mental absoluto da moça que as entrevista. É o século 21 descobrindo, horrorizado, o espelho.



É sátira, uma sátira feita com bons redatores – há muita piada boba, afinal o programa vem da pátria de Douglas Adams e do Monty Python, mas há muita piada engraçada e que vai na medula, idem ibidem. A apresentadora parece mesmo ser mentalmente avariada, conceitualmente descompensada, e tudo o mais; é uma ótima atriz. No programa sobre a Idade Média, ela entra na sala vazia de um castelo de paredes de pedras e ali, sozinha com a câmera, faz uma encenação verbal (com uma engraçada pós-sonoplastia fornecendo o fictício som ambiente) de uma festa da realeza. Um pequeno tour-de-force de texto e interpretação. 
 
Somos tentados a ver em O Mundo por Philomena Cunk apenas a sátira dos “influênceres” que têm a arrogância dos comunicadores-natos somada a uma formação cultural capenga. Porém, a presença de tantos cientistas respeitáveis, homens e mulheres que dedicaram a vida inteira ao estudo aprofundado da História, da Sociologia, da Física, etc., toca insistentemente um outro sino. Quem está mais por fora do mundo real – ela, que não sabe de nada, ou eles, que sabem de tudo e se aterrorizam com o tamanho do abismo que nos separa? 
 
Philomena representa o poder tecnológico do Presente, o de atingir instantaneamente milhões de pessoas; os professores representam o poder acumulado do Passado, um fóssil indestrutível mas que respira por aparelhos. Há uma briga permanente entre os dois, uma briga boa, uma briga inevitável desde o tempo das cavernas, e que a cada século muda de armas.



Como dizia Umberto Eco:
 
O outra Idade Média produziu no fim um Renascimento que se divertia em fazer arqueologia, mas de fato a Idade Média não fez obra de conservação sistemática, mas sim de destruição casual e conservação desordenada; perdeu manuscritos essenciais e salvou outros completamente irrisórios, raspou poemas maravilhosos para escrever em cima adivinhas ou preces, falsificou os textos sagrados interpolando passagens e assim procedendo escrevia os “seus livros”. (p. 98)
 
Estamos, aos trancos e barrancos, escrevendo os nossos.