quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

4893) Leituras 2022 - 2 (15.12.2022)




POLICIAL
“O Homem do Terno Marrom” (1924; L&PM Pocket, trad. Petrúcia Finkler) e “The Mousetrap” (1952), de Agatha Christie

Reler um livro depois de mais de cinquenta anos equivale a ler pela primeira vez. O Homem do Terno Marrom pertence a uma linha menos famosa na obra de Agatha Christie: aventuras movimentadas e com algum mistério criminal, cujos protagonistas são jovens. Os mais conhecidos são o casal Tommy & Tuppence Beresford (que aliás envelhece ao longo das décadas), mas neste romance há a aventura única de Anne Bedingfield, uma moça sozinha e expedita. Um crime que ela casualmente testemunha no metrô de Londres a envolve numa conspiração internacional cheia de peripécias, onde há um clima de aventura juvenil e até de comédia, mas os personagens morrem de verdade. Não darei spoiler de um detalhe importante, apenas direi que ele de certo modo prenuncia o clássico The Murder of Roger Ackroyd (1926). Agatha está visivelmente tentando transportar para a página escrita um pouco das emoções e da excitação de seriados de cinema como Os Perigos de Paulina (1914, com Pearl White). No texto (caps. 1 e 19) ela cita Os Perigos de Pamela – não sei se é outro seriado, ou apenas uma referência camuflada. 
 
Li o texto da peça The Mousetrap depois de ver o filme See How They Run (2022), de Tom George, uma comédia policial que transcorre no palco e nos bastidores da montagem desse texto. É a peça em cartaz há mais tempo no mundo inteiro; transcorre numa pousada num lugar remoto, isolada pela nevasca, com hóspedes que não se conhecem uns aos outros (ou talvez sim), e que têm, todos eles, episódios suspeitos no passado. De certo modo, é um ensaio para Ten Little Niggers ou And Then There Were None, um dos melhores romances da Dama do Crime. E para milhares de outras narrativas em que é essencial, acima de tudo, um ambiente fechado e isolado do mundo (numa montanha, numa ilha, num local com comunicações cortadas) onde crimes são praticados e resolvidos sem interferência do mundo externo. Para quem se interessar, aqui há uma filmagem completa da peça (câmera parada, no meio da platéia, plano único, mesmo ângulo; sem legendas):
https://www.youtube.com/watch?v=F_3ZSoRV7aE&t=552s&ab_channel=CraigJohnson
 


 
FANTÁSTICO
“The lost and the lurking” (1981), de Manly Wade Wellman

Um dos meus personagens preferidos no chamado “folk horror” é o cantador de viola Silver John, ou John The Balladeer, que viaja pelas montanhas dos EUA enfrentando seres sobrenaturais, feiticeiros, assombrações. Neste romance ele vai parar num vilarejo onde as pessoas parecem sujeitas a um encantamento coletivo, centrado num culto satânico cuja sede é a mansão de uma mulher que o próprio John confessa ser a mais bonita que ele já viu.
 
Wellman nasceu em Angola e passou boa parte da infância na África, o que o levou a criar um estilo de fantasia bem pessoal. Em geral seus contos são superiores aos romances, que dão a impressão de estar sendo “esticados”; mas o personagem é sempre fascinante, uma espécie de Woody Guthrie com traquejo pra enfrentar o sobrenatural. Silver John é um cara simples, do povo, mas daquele povo “com uma certa leitura” que me lembra muito o ambiente do cordel e da cantoria de viola no Nordeste. Assim como os sertanejos nordestinos leem o “Lunário Perpétuo” e eventualmente o “Verdadeiro Livro de São Cipriano”, os montanheses dos EUA têm algum conhecimento das obras de Cornélio Agripa ou Alberto Magno. Mergulhado na cultura folk local, Silver John é bom entendedor de amuletos, sinais cabalísticos, lugares com boa ou má energia, e toda a “sabedoria oculta” que a literatura fantástica usa como se fosse uma Ciência paralela (e que funcionasse). 
 




AUTORA CONTEMPORÂNEA
“O Lugar” (Ed. Fósforo, 1983, trad. Marília Garcia), e “La Honte (1997), de Annie Ernaux

Para que serve o Prêmio Nobel? Uma resposta possível: para leitores desinformados descobrirem uma autora com quem rapidamente se identificam. Annie Ernaux só não era totalmente anônima no Brasil porque a jovem Editora Fósforo (S. Paulo) já estava traduzindo e publicando seus livros fininhos, densos, aqueles livros onde em cada parágrafo cai uma ficha. São textos autobiográficos, mas em vez de circularem apenas em torno do umbigo afetivo de quem escreve, alargam-se na observação dos contextos, dos confrontos sociais, dos comportamentos padronizados que dão às sociedades conservadoras uma permanente ilusão de estabilidade até o próximo terremoto. 

“O Lugar” começa com a narração da morte do pai e da memória que ela guarda do pai, um camponês que se tornou operário de fábrica e depois pequeno comerciante. É a penosa e nem sempre bem sucedida ascensão social dos que sabem que por definição jamais deixarão de ser pobres, e que mesmo que um dia se tornem milionários carregarão a pobreza gravada na pele em caracteres indeléveis. 

“La Honte” (a Vergonha), um livro confessadamente mais doloroso de escrever, tenta reconstituir o dia em que o pai de Annie brigou com a esposa e tentou matá-la. “Meu pai tentou matar minha mãe” é um começo difícil para qualquer livro; embora depois o episódio tenha sido superficialmente superado, ele se espalha em constatações de inadequação social, ressentimentos, incompatibilidade de sonhos, tudo isto pesando na cabeça de uma garota de doze anos que “é a única da família a ter a chance de estudar numa boa escola” – onde, aliás, praticamente todos a tratam com desdém, por ser quem é e por vir de onde vem. Mais comentários aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/11/4884-vergonha-de-annie-ernaux-18112022.html
 


 
AUTORA NACIONAL
“Vestígios – Mortes nem um Pouco Naturais” (Bandeirola, 2018), de Sandra Abrano

O que chamamos de “romance policial” nem sempre (e às vezes quase nunca) se prende ao funcionamento da polícia e das atividades correlatas à investigação policial. A literatura em inglês tem o termo police procedural para designar os romances que mostram de forma verossímil os “procedimentos policiais” de investigação. Aqui, alguns poucos autores transitaram nesse terreno: José Louzeiro, Rubem Fonseca e outros.  Sandra Abrano avança com segurança, em Vestígios, por um terreno pouco explorado (talvez por estar cheio de minas subterrâneas): os procedimentos da polícia brasileira, principalmente das chamadas polícias secretas, no tempo da ditadura militar.

É um tipo de romance policial-político, onde o crime é visto como uma instituição coletiva. Não é o crime clássico, onde um indivíduo sozinho arquiteta e executa o delito. É o crime transformado em profissão legalizada e lucrativa, uma prática sabida e tolerada pelas autoridades, um “mal menor” com o qual muitas sociedades se conformam porque temem reprimi-lo e desencadear, assim, represálias imprevisíveis. O poder corrompe, e o poder não-fiscalizado corrompe absolutamente, ainda mais quando se tem a certeza da impunidade, e da cobertura de gente graúda. 

Sandra Abrano (“disclaimer”: a autora editou e edita livros meus pelo selo Bandeirola) aborda, numa narrativa de tragédias familiares e luta diária pela sobrevivência, o tema clássico da polícia criminosa, mostrando o que acontece com esses indivíduos quando algum surto democrático (como o que o Brasil experimentou a partir do final do século 20) desmantela seus grupos, organizações, folhas de pagamento, burocracias. Para onde vai esse pessoal? Raymond Chandler retratou a corrupção policial na Califórnia e recebia cartas dizendo: “eu conheço todos esses homens que o senhor descreve”. De certa forma, todos nós os conhecemos.





CLÁSSICOS
“Os Refugiados” (1893), de Conan Doyle (Melhoramentos, trad. Agenor Soares de Moura)

Um dos melhores romances históricos de Doyle, e um dos seus típicos livros com duas partes muito diferentes entre si. Na primeira, o oficial De Catinat, na corte de Luís XIV, sofre perseguições por ser huguenote (protestante) e se envolve nas intrigas da corte. Quando o rei promulga o Édito de Fontainebleau, que joga os huguenotes na ilegalidade, ele foge com a família num navio que vai para a América. Chegando lá, as perseguições continuam, e eles acabam tendo que atravessar uma parte selvagem do continente, perseguidos pelos índios. Doyle era um pesquisador dedicado, e algumas das suas fontes surgem como coadjuvantes na história, que é de ação constante, com ótimos personagens, diálogos vívidos. Há cenas notáveis, como a do despertar matinal do rei (que chega a ser cômica, pela pompa envolvida) e no final o cerco dos índios à casa onde De Catinat está refugiado. 
 
Li esse livro quando era garoto e reli agora com o mesmo prazer. É enorme o contraste de ambientes entre a primeira parte (a corte do Rei Sol) e a última (a selva da imprecisa fronteira, na época, entre o que hoje são o Canadá e os EUA). Há uma parte intermediária, a viagem de navio, que serve de ponte entre as duas e é também cheia de lances mirabolantes, conspirações, tentativas de morte, fugas, perseguições.  Doyle tinha faro para história de aventuras, e no cânone de Sherlock Holmes há blocos narrativos impecáveis, como a violência na colônia mórmon em Um Estudo em Vermelho, os conflitos no sindicato dos mineiros em O Vale do Terror, ou a perseguição final de barcos no Tâmisa em O Signo dos Quatro. Para falar em linguagem de hoje, The Refugees daria uma série de TV com duas ótimas temporadas de cinco ou seis episódios.
 
 (continua)
 
Primeira parte:





segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

4892) Leituras 2022 - 1 (12.12.2022)



Não costumo fazer listas de “dez melhores”, mas sempre gosto de dar um balanço, no fim do ano, de alguns livros que li e que por variadas razões não comentei aqui no blog. Quisera eu ser daqueles sujeitos organizados que “ficham” cada livro que leem, redigindo pelo menos meia página de observações. Não é o meu caso. Estas anotações, porém, podem servir como dicas de leitura, ou para que o leitor compare com suas próprias impressões.

FICÇÃO CIENTÍFICA

“Picnic on Paradise” (1968), de Joanna Russ

É um dos livros pioneiros das super-heroínas da FC. Alyx é uma agente transtemporal que logo na primeira página dá uma chave-de-perna num policial com o dobro de sua altura e do seu peso, estatelando-o no chão. Ela está ali para servir de guia a um grupo heterogêneo de turistas num planeta gelado e inóspito. Os turistas são todos riquinhos e reclamam de tudo. O passeio se envolve com uma guerra e vira um pesadelo. Morre gente (de verdade). Começa como uma HQ descolada e aventurosa, vai ganhando contornos dark à medida que os conflitos pegam fogo. A prosa de Russ é rápida, incisiva. Em 1968 ela já estava desconstruindo clichês que muita gente considerou novidade no ano passado.

 


AUTOR NACIONAL

“Gótico Nordestino” (2022), de Cristhiano Aguiar

Um dos livros mais premiados do ano, e com justiça, pois são contos imaginativos, escritos numa prosa segura. Numa resenha que fiz para a revista 451, comentei o fato de que a nordestinidade das histórias se dá de modo mais sutil do que o aparecimento dos famigerados “elementos típicos”. Cristhiano retoma alguns temas do horror clássico, mas evita fazer aquela série infindável de referências que muitos autores colocam como piscadelas-de-olho para os leitores-fãs, mostrando que leram os mesmos livros e conhecem as mesmas histórias.

Leia mais aqui: https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/literatura-brasileira/o-terror-vem-da-alma

 


HISTÓRIA

“Memória da Cidade do Rio de Janeiro” (1955), de Vivaldo Coaracy

Acho fascinantes as descrições e as anedotas sobre a vida no Rio no tempo da Colônia, do Império... Vivaldo Coaracy (que também se assinava “V. Cy.”) tem uma prosa saborosamente antiquada, dá a impressão daqueles intelectuais de casaca e pince-nez, muito cultos, muito refinados. A gente se perde às vezes na geografia das ruas e dos logradouros porque o “presente” do livro é 1955, e de lá para cá o Rio já trocou de pele várias vezes. É um livro que pretendo reler, porque não apenas nos revive o fascínio dos tempos passados como nos consola um pouco da tristeza de ver a cidade sendo destruída e recriada – ela sempre foi assim.

 


HISTÓRIAS DE FANTASMAS

“The Book of Dreams and Ghosts” (1897), de Andrew Lang

Este livro é um clássico da “historiografia fantasmagórica”; li numa reedição de 1974. Andrew Lang foi uma figura onipresente da Inglaterra vitoriana e sherlockiana. Era um daqueles intelectuais meticulosos e cultos, fascinado por pesquisas; escreveu e editou uma quantidade impressionante de livros. Foi membro da Folk-Lore Society, num tempo em que o conceito de “folclore” estava sendo criado (a palavra surgiu em 1846), e compilou uma importante coleção de contos de fadas, em nada menos que 25 volumes (1889-1913), a qual teve uma enorme influência na literatura inglesa. Como membro (e até presidente) da Society for Psychical Research, interessou-se profundamente pelas aparições de fantasmas – e compilou este livro, onde registra e comenta dezenas de casos de aparições, com um certo distanciamento e bom-humor, deixando sempre claro quando não acha nenhuma explicação “racional” para o ocorrido.

 


MEMÓRIAS

“Solo de Clarineta, 1 e 2” (1973, 1976), de Erico Verissimo

Érico, um escritor que sempre (re)lerei com prazer, escreve suas memórias à maneira convencional, atendo-se aos fatos, comentando-os, buscando a sinceridade e a veracidade. Estes livros são um complemento ideal para dois outros, que li na adolescência, sobre suas viagens aos EUA: Gato Preto em Campo de Neve (1941) e A Volta do Gato Preto (1946), e que recomendo sem reservas.

Eu não sabia nada de sua história familiar, e Solo de Clarineta dá uma série de retratos magníficos daqueles gaúchos épicos e sombrios, aquelas famílias introspectivas e ruidosas, aqueles homenzarrões encapotados que se metem em enrascadas homéricas. Talvez esta parte, que cobre mais da metade do primeiro volume, seja a mais reveladora e mais “literária”, porque puxa muito pela imaginação do menino, pelas conversas entreouvidas e semi-recordadas. É o princípio da recriação mítica dos antepassados que todos nós realizamos, querendo ou não.

Mais comentários aqui:

https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/10/4873-paisagem-perturbada-15102022.html



“Um Cavalheiro da Segunda Decadência” (1966-72), de Hermilo Borba Filho

Já o pernambucano Hermilo romanceia sua própria vida, exagerando, delirando; suas memórias têm longas passagens surrealistas e episódios claramente inventados. Um Cavalheiro... é uma tetralogia, escrita num jorro inesgotável de prosa brilhante, caótica, sarcástica, auto-depreciativa, idealista, erótica. Margem das Lembranças (1966) conta a infância em Palmares e a iniciação etílica e sexual do menino “Borba”. A Porteira do Mundo (1967) mostra o jovem Borba no Recife, estudos e trabalhos caóticos, leituras, primeiros escritos, primeiras aventuras teatrais, primeira prisão política na ditadura Vargas. O Cavalo da Noite (1968) mostra Borba em São Paulo, como roteirista de cinema, redator de revista chique, publicitário, envolvendo-se com a burguesia paulista. Deus no Pasto (1972) o mostra de volta ao Recife, trabalhando para o governo de Miguel Arraes e indo parar de novo na cadeia, no golpe de 1964. Hermilo escreve no estilo roman à clef, alterando o nome dos personagens e das entidades (Ariano Suassuna é “Adriano”; Arraes é “Árias”; a revista Visão vira Mirante; etc.). Isto lhe dá liberdade para dizer o que bem quer, e não é pouco.

 


FICÇÃO CIENTÍFICA

“Secret Passages” (1997), de Paul Preuss

Este romance pode ser lido independentemente da aventura anterior do cientista Paul Slater: há um pequeno drama familiar que vem da primeira história, mas ocorre ao fundo, e é convenientemente explicado. O importante aqui é que Slater e sua esposa jornalista vêm a conhecer um físico grego que atrai os dois a Creta para lhes dar acesso a uma descoberta misteriosa. A parte mais substancial do livro é a vida deste grego, Minakis, que se tornou cientista depois que na infância serviu de guia, nas montanhas, aos arqueólogos que pesquisavam as ruínas minóicas de Creta.

O livro parte de uma trama arqueológica real (o arqueólogo John Pendlebury é um coadjuvante essencial na história) e atinge, em seu último terço, um breakthrough de Física que projeta a narrativa em plena ficção científica, além de fornecer uma resolução satisfatória à história de vida dos personagens. É uma experiência fascinante, porque cita-se muito a máxima de H. G. Wells de que basta uma grande idéia de FC para sustentar uma narrativa; a questão é que no livro de Paul Preuss essa idéia FC só se concretiza nas últimas 50 páginas. O leitor-fã, impaciente para reencontrar os tropos do gênero, talvez não espere tanto, mas o romance vale muito a pena.



AUTOR NACIONAL

“A procura de Chã dos Esquecidos” (Schoba, SP, 2013), de Carmelo Ribeiro

Um romance histórico, ou pseudo-histórico, ambientado na Paraíba de fins do século 18, quando a fome e o misticismo falavam no centro. A primeira parte reproduz as cartas trocadas entre o governador da capitania da Paraíba e o capitão-general de Pernambuco, seu superior. Já existe aí uma ironia sutil sobre a relação instável entre os dois atuais Estados, uma interdependência costurada com rivalidade.  O autor reconstitui nesse epistolário, com fluência e bom humor, o linguajar burocratês da época, tingido de ironia do século 21.  No final, a narrativa se projeta num fluxo de irrealidade cada vez maior, como nos filmes de Glauber Rocha onde o messianismo alucina as multidões, que se roem de fome e bradam aleluias, que seguem o primeiro maltrapilho capaz de orar em voz alta e de distribuir farinha de graça.

 

(continua)

 

 

 

 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

4891) O Gabinete de Curiosidades de Del Toro (9.12.2022)




Uma das boas séries recentes do Netflix é esta série-antologia produzida e co-escrita por Guillermo Del Toro, com oito episódios contando histórias de terror. Algumas histórias são inéditas, outras são contos clássicos de mestres do gênero.
 
Del Toro parece ter usado como premissa o retorno ao terror da pulp fiction de 80 anos atrás, pelo menos na maioria dos episódios. É o terror da revista Weird Tales, que praticamente cimentou algumas estruturas do gênero. Duas adaptações de H. P. Lovrecraft são de contos originalmente publicados na revista, em 1927 (“O Modelo de Pickman”) e 1933 (“Os Sonhos na Casa da Bruxa”). Outro conto arrepiante, de Henry Kuttner, saiu na WT em 1936 (“Os Ratos do Cemitério”). São histórias “de época” inclusive na ambientação.


As outras histórias são de autores contemporâneos, ambientadas em épocas mais recentes, mas sempre exibindo um visual (cenografia, figurino, objetos de cena, carros) que remete a décadas passadas. O episódio 8, “O Murmúrio” mostra um casal de ornitólogos registrando os hábitos de aves numa ilha distante, com gravadores e câmeras de filmar de modelos “vintage” que não passarão despercebidos a quem já os manuseou. 
 
A premissa da série é mais interessante do que seu resultado final, que a despeito das muitas coisas bem feitas não traz nada de novo além do habitual “um pouco mais daquilo mesmo”, que é o cardápio da maioria das séries de TV. 
 
Para ser sincero, a coisa que mais admirei na série inteira foi o”gabinete” exibido pelo diretor-produtor na apresentação de cada episódio: um daqueles prodígios de marcenaria e mecânica, típico do século 18, um móvel enorme cheio de gavetas visíveis, gavetas secretas, painéis deslizantes, fundos falsos, dobradiças embutidas, placas rotativas... 



Fiz um paralelo visual desse móvel com a ambientação do primeiro episódio, “Lote 36”. Trata-se de um daqueles enormes complexos de boxes de depósito, onde a pessoa aluga um box e guarda ali o que bem entender. Um homem compra num leilão, “no escuro”, o conteúdo de um box cujo dono faleceu, e encontra ali alguns livros de magia negra. A câmera explora os intermináveis corredores daquela estrutura que parece um mercado municipal, com boxes, boxes e mais boxes trancados – o que nos dá a impressão de que por trás de cada uma daquelas portas metálicas escondem-se segredos tão tenebrosos quanto os que foram descobertos pelo personagem de Tim Blake Nelson. 
 
A literatura popular se assemelha a isso, um corredor com mil portas todas iguais, mas cada uma delas com a promessa de algo diferente. Promessa que nem sempre se cumpre.
 
Uma coisa que me desagrada nessas séries é a fascinação de todos pelo “gore”, pela exibição fascinada e compulsória de ferimentos, mutilações, torturas físicas, violência sádica. Não é novidade alguma no gênero – mas os efeitos visuais contemporâneos são capazes de dar um realismo nauseante a isto, como se vê no episódio “A Autópsia”, baseado numa noveleta de Michael Shea (Prêmio Hugo, 1981). Há um verdadeiro deleite na apresentação da mutilação física; uma pornografia da violência – o que leva muitos críticos acadêmicos a ver na literatura de horror uma obsessão com o ódio ao corpo humano, o nojo ao corpo, o medo do corpo humano. 


O episódio 4, “The Outside”, tem uma premissa mais interessante: a transformação gradual de uma mulher feíssima numa perua empoderada, uma espécie de Cinderela ao contrário, porque a personagem paga um preço alto (a monstruosidade, a loucura, o crime) para se transformar numa beldade à altura de suas colegas de trabalho. O episódio tem ecos de The Stepford Wives, ao lidar com a desumanização brutal que acompanha esse processo de “ficar a esposa ideal” (mesmo, no presente caso, a contragosto do marido bobão mas sincero).
 
O episódio 7, “The Viewing”, é também ambientado num cenário contemporâneo, e mostra um sujeito riquíssimo que traz para sua mansão surrealista um grupo de artistas para conhecer uma raridade de sua coleção – um meteorito misterioso. Todo o episódio é caricatural, exagerado; os efeitos especiais são às vezes meio toscos. O total oscila entre um filme que se leva a sério e uma sátira ao horror, mas de tal modo que acaba parecendo uma sátira involuntária. 
 
Del Toro é um artista meticuloso, com uma imaginação visual notável, e um faro excelente para narrativas insólitas. Eu compararia o resultado final desta série com outro filme recente dele, Nightmare Alley (2021), com Bradley Cooper e Cate Blanchett. É um filme tecnicamente impecável, brilhante, perfeccionista em todos os detalhes; mas acaba sendo em muitos aspectos inferior ao filme em que se baseia, dirigido por Edmund Goulding em 1947, com Tyrone Power. (Há versão integral no YouTube.) 


 
Por que é inferior? Talvez por isso mesmo, por ser bem feito demais, quando está penetrando num terreno onde o excesso de brilhantismo estético dilui o drama e impõe um distanciamento. Tudo é muito nítido, num território onde convém deixar uma margem ao que é indistinto, nebuloso, pouco claro. Tudo é muito limpo, numa narrativa onde seria preciso deixar presente “a vida como ela é”, com suas sujeiras e imperfeições. Os atores são tão bons que o tempo todo vemos que são eles que estão ali, e não os personagens que interpretam. (A personagem de Cate Blanchett, aliás uma das atrizes de que mais gosto, é muito mais forte no filme original.) 
 
Vou pegar carona num conceito de Marshall MacLuhan que sempre me pareceu uma avaliação correta dos meios de comunicação visual. MacLuhan dizia que quando vemos um filme excepcionalmente nítido e claro, tudo nos é dado “de bandeja” e não fazemos outra coisa senão receber passivamente a informação perfeita que nos é oferecida. Mas quando vamos assistir, por exemplo, uma transmissão na velha TV em preto-e-branco, com sua imagem pulverizada em pontos claros e escuros, temos dificuldade em interpretar a sucessão de imagens e isso ativa muito mais fortemente nosso cérebro, nossa capacidade intelectual de perceber, decodificar e assimilar. 
 
Um meio “quente”, ou de alta definição (o cinema digital) nos dá tudo pronto e mastigado. Um meio “frio”, ou de baixa definição (a televisão P&B) nos dá uma informação limitada que exige nossa participação mental ativa, constante. 
 
Uma coisa é melhor que a outra? Não necessariamente. A gente usa o que precisa naquela hora. Mas esse filme de Del Toro deixa o espectador num território sem ambiguidade, sem mistério. Limitamo-nos a ver e registrar aquilo que é mostrado com riqueza de detalhes e em alta definição.
 
Não há dúvida de que em vários momentos esse perfeccionismo traz um upgrade para a história. Na série do Gabinete, a informação visual envolvendo contos que li há tempos, como os de Lovecraft e Kuttner, enriqueceu minha visão deles (nossas visualizações pessoais de contos raramente se parecem com as adaptações que vemos depois no cinema). Talvez este seja, no entanto um lucro magro para uma despesa tão elevada, e para uma arregimentação tão grande de talentos.
 
O cinema de hoje, com esta espantosa evolução da imagem e do som digitalizados, infinitamente passíveis de aperfeiçoamento, corre o risco de se transformar em algo como aqueles discos onde a qualidade técnica da gravação é espantosa, mas a banda de rock ou o pianista clássico tocam como robôs, sem um pingo de tensão emotiva que nos faça ansiar pela próxima frase musical.
 
O Gabinete de Curiosidades é – vou mandar aqui uma comparação que certamente dezenas de colegas já fizeram na imprensa mundo afora – como o móvel que Del Toro nos mostra na abertura de cada episódio: uma pequena maravilha de mecânica e de design, mas com pouca coisa dentro de suas gavetas.














terça-feira, 6 de dezembro de 2022

4890) Futebolês paraibano (6.12.2022)



Como sempre, aviso que chamo isto de glossário paraibano porque foi na Paraíba que estas expressões surgiram para mim. Podem perfeitamente ser termos correntes em outros Estados brasileiros. E é bom lembrar que, como tudo na cultura oral, cada expressão assim tem formas diferentes em cada caso, ou contextos diferentes. Não existe “a forma certa”. Tudo são variantes igualmente válidas
 
Estamos em Copa do Mundo; ver os jogos me entusiasma pela partida em si, e me faz surgir na memória esse glossário instintivo, que às vezes me dá a impressão de estar tão antigo e olvidado quanto os hieróglifos egípcios. Essa linguagem morreu? “Morreu pra você, filho ingrato.”
 
 
BANHO DE CUIA 
É o famoso “lençol” ou “chapéu” tão conhecido no mundo inteiro, quando o jogador lança a bola por cima da cabeça do adversário e a recolhe do lado oposto. Lance de habilidade, e considerado humilhante por quem é vítima dele. Muita gente já foi pro banho-de-chuveiro antes do tempo por ter levado um banho-de-cuia. 
 
CONTRÓLE
Atenção para a vogal “ó”, aberta. Trata-se do que aqui no Rio chamam de “linha de passe”, uma brincadeira informal (=sem ser durante um jogo) em que alguns jogadores ficam trocando passes entre si, sem deixar que a bola caia no chão. Às vezes faz-se diante de uma barra com goleiro, e depois de “x” passes bem sucedidos os jogadores têm o direito de tentar o gol.
 
DOIDINHO
É o famoso “bobo”: uma brincadeira em que todos trocam passes sem deixar que o doidinho se aposse da bola. Quando ele consegue, passa a ser o doidinho quem perdeu a bola para ele.
 
FOI UM? NÃO!
No fim de uma pelada, todo mundo veste as roupas, recolhe a bola. Geralmente volta-se em grupo para as respectivas casas, mães e banhos, todo mundo ainda falando, discutindo, comentando a partida. E quando há uma goleada, digamos por 4x0, um dos vencedores puxa o coro: “Foi um?...” Todos gritam: “Nããão!...” Ele: “Foi dois?” “Nããão!...”  “Foi três?” “Nããão!” A última pergunta já é feita num tom mais alto, prenunciando a resposta: “Foi quatro?...”  E o berreiro dos vencedores: “Fooooooiii!...” 
 
CENTRAR
Cruzar a bola para dentro da área; “dar chuveirinho”. Usa-se também o substantivo correspondente: “É uma injustiça Fulano conseguir fazer um centro daqueles e não aparecer um filho de Deus que saiba como se cabeceia uma bola!”. 
 
FULANO, PEDE PRA CAGAR E SAI!
Grito inevitável que vem das arquibancadas quando um jogador está tendo uma péssima atuação. De tão frequente, acabou gerando um complemento igualmente inevitável: “Só se pedir pra ir se limpar, porque cagar ele já está cagando!”.
 
BOTA PRA MACAXEIRA!
Uma ordem peremptória: “Chuta essa bola pra bem longe!...” Geralmente se usa nas horas de sufoco, quando é preciso garantir um placar. No Brasil inteiro circula uma versão mais refinada: “Bola pro mato, que o jogo é de campeonato!...”
 
ISCA
Passe sacrificado, um “presente de grego”. Uma bola passada com defeito, que coloca o recebedor do passe numa situação difícil. Usa-se muito para qualificar bolas recuadas para o goleiro: “Eu não gosto de jogar no gol com Fulano no time. Toda vez que ele está no aperto ele manda cada isca pra gente que já vale por meio gol!...”   “A culpa não foi dele!  Deram a maior isca, ele não tinha como fazer o gol.” 
 
TIVUCO, TUBA
Chute muito forte. O vocabulário brasileiro é muito rico em expressões para isto: foguete, paulada, bomba, petardo, canudo, tirambaço, sapatada... “Tivuco” e “tuba”, mais do que paraibanos, eram termos correntes entre os peladeiros do Alto Branco, e preciso deixá-los aqui registrados para a posteridade. “Lembra daquele zagueirão, um negão alto, que tinha uma tuba da gota serena?!”  “Dei um tivuco que o goleiro nem se mexeu, a bola entrou lá no canto.” 
 
BUFO-BUFO
Onomatopeia. Jogo à base de chutões para a frente e muita correria.  Lembro de meu pai comentando, quando o Treze contratou para técnico o uruguaio Raul Betancourt, que era do Sport do Recife: "Eu não sei qual foi o milagre desse técnico pra fazer o Treze baixar essa bola, o Treze sempre foi um time de bufo-bufo”.
 
DOIS-BOLOS
É a tradicional “bola ao chão”: reiniciar um jogo interrompido jogando-se a bola para o alto entre dois jogadores, um de cada time.  Muitas vezes se dizia, a título de complemento: “Dois bolos, um em cima, outro em baixo”, para deixar claro que a bola só estaria em jogo depois de tocar o chão.  O “bolo”, no caso, seria um hipotético toque da bola no ar, e depois outro no chão.
 
JOGAR PRA MOÇA VER
Jogar um futebol elegante, refinado, de jogadas difíceis executadas com simplicidade. É uma expressão elogiosa, e de uma época em que a presença de mulheres no estádio era mínima. Aplica-se tanto a um jogador quanto a um time inteiro. “A seleção de Telê Santana jogava pra moça ver!”
 
QUEIMAR
Largar a bola (diz-se com relação ao goleiro). “Era um chute despretensioso, de longe, mas aí o goleirão queimou, e num instante apareceu quem empurrasse pra dentro”. Subentende-se que a bola estava “queimando” e o goleiro não conseguiu segurar.
 
É CANJA DE GALINHA!
Grito de vitória tradicional, berrado em coro pela equipe vencedora de uma pelada, e frequentemente usado nas arquibancadas pelos torcedores num jogo de verdade: “É canja, é canja, é canja!  / É canja de galinha! / Arranja outro time / pra jogar com a nossa linha!...”
 






sábado, 3 de dezembro de 2022

4889) "Balada do amor através das idades" (3.12.2022)




Este poema simples, movimentado, cordelesco, é um dos mais conhecidos de Alguma Poesia (1930), livro com que Carlos Drummond de Andrade estreou na poesia aos 28 anos.  
 
O Modernismo impôs em nossa literatura a importância e a complexidade do verso branco (sem rima obrigatória) e livre (sem métrica obrigatória, sem formas fixas de estrofe). Ao mesmo tempo, ele não eliminou a importância ou a beleza do verso rimado e metrificado.
 
Muitos modernistas de primeira hora (e até de hoje em dia) correm para o verso livre por ver nele uma zona de conforto, onde podem escrever qualquer coisa sem se importar com nenhuma regra. Estão enganados. O verso livre tem regras, exige (como muitos poetas Modernistas atestam) uma sensibilidade até mais complexa, um domínio verbal maior.
 
Enquanto isto, poetas como Drummond, Manuel Bandeira, Mário de Andrade e outros se mostraram sempre à vontade tanto num tipo de verso quanto no outro. Drummond rima e metrifica impecavelmente, quando se propõe a isto. Quando não, maneja o verso sem rima e sem métrica com sutilezas de sonoridade que nos ensinam muito mais do que aprenderíamos com a rima e a métrica convencionais.
 
Note-se que embora a cadência básica seja do verso de 7 sílabas, Drummond geralmente o utiliza com o mesmo senso de não-obrigação de João Cabral, cujas estrofes frequentemente flutuam do começo ao fim do poema entre 6, 7, 8 e até 9 sílabas. Uma liberdade que escandaliza os nossos cordelistas, para quem a obediência rigorosa à métrica é uma espécie de décimo-primeiro Mandamento.
 
Esta balada de Drummond se destaca em sua obra pelo uso do termo “balada”, palavra que tipicamente indica os poemas narrativos em língua inglesa, e que em português substituímos por “romance” (não o romance da prosa de ficção; o romance popular em verso, herdado do Romanceiro Ibérico).
 
O poema conta cinco histórias diferentes – ou conta a mesma história cinco vezes, a depender do olho de quem lê. Um rapaz e uma moça se amam; o mundo conspira contra eles. Existe algum tema mais antigo do que este? Qualquer manual de roteiro de cinema resume o roteiro ideal na fórmula “Boy meets girl, boy loses girl, boy gets girl” (“Rapaz encontra moça, rapaz perde moça, rapaz consegue moça”).
 
São cinco momentos da história, que o poeta nos ajuda a visualizar com uma surpreendente versatilidade. A Grécia antiga, do tempo da Ilíada. O império romano e seus espetáculos brutais, do tempo de Quo Vadis. Os piratas do Mediterrâneo. Os nobres da monarquia francesa pré-revolução. O mundo moderno do cinema e dos esportes.



A permanência dessa história de amor irrealizada, em mundos diferentes, lembra filmes como A Morte Cansada (“Der Müde Tod”, 1921; na França, “Les Trois Lumières”) de Fritz Lang, um filme que Drummond pode muito bem ter visto e tomado como inspiração. Nele, três histórias de amor são mostradas: no Oriente árabe, na Veneza renascentista e no império chinês.
 
Essas ambientações exóticas não precisam de muita fidelidade histórica, de muito rigor documental. Estão aí apenas como alegorias, quase como alegorias carnavalescas, para indicar que os dramas do amor se assemelham, mesmo tem países e séculos diferentes. É um tipo de “passado ornamental”, baseado em figurinos e cenários, algo que o cinema mudou herdou da ópera do século 19.
 
A influência cinematográfica fica bem explicitada na estrofe final, quando o narrador se compara a um “herói da Paramount”, contemporâneo dos finais felizes. Um dos aspectos psicológicos do nosso Modernismo literário foi o esvaziamento do melodrama sentimental. Os afetos tornaram-se mais leves, mais descontraídos. A Bossa Nova faria o mesmo com as letras da canção popular, quarenta anos depois.
 
No seu primeiro livro Drummond já revela uma leveza narrativa surpreendente, comprimindo em cada uma dessas estrofezinhas um enredo bem capaz de alimentar todo um filme do cinema mudo – era uma época de muitos filmes com 20 ou 30 minutos. Juntando todo o poema, poderia resultar num filme em episódios com uma hora e meia.
 
Curiosamente, vi o poema certa vez numa Antologia da Poesia Espírita, que encontrei num sebo. E se percebe que o texto pode claramente ser interpretado como uma narrativa de um casal em reencarnações sucessivas; quase que um precursor da tendência recente de fazer regressão psicológica e “recordar vidas passadas”.
 

 
***************** 
 
Balada do amor através das idades
 
Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigamos, morremos.
 
Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.
 
Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.
 
Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freita...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.
 
Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de muitas peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.
 
 
 
 







quarta-feira, 30 de novembro de 2022

4888) O realismo é perigoso? (30.11.2022)



A frase mais famosa de Guimarães Rosa talvez seja a de que “Viver é perigoso”, glosada e reglosada ao longo de todo o Grande Sertão: Veredas. Nas prateleiras da minha memória, está lado a lado com o “Caia na estrada, e perigas ver”, dos Novos Baianos. Dois faróis de sabedoria, que ajudam a gente a triangular trajetos.
 
Isto me vem à mente lendo algumas páginas sobre o destino trágico de Frederick Schiller Faust (1892-1944).  Ninguém o conhece por esse nome, que era seu nome verdadeiro e tem um curioso timbre germânico. Ele é conhecido como Max Brand.
 
É um dos maiores autores de histórias de faroeste, e produziu uma quantidade espantosa de romances e contos ao longo de uma vida que nem chegou a ser muito longa – ele morreu a poucos dias de completar 52 anos.  No Brasil, foi publicado dos anos 1950 em diante pela saudosa Editora Vecchi, que traduziu vários livros da sua série “Silvertip”.



Frederick Faust é considerado ainda hoje um poeta de talento, no estilo clássico, erudito. Financiava sua poesia com os abundantes livros de “Max Brand” (e outros pseudônimos), produzindo histórias de cowboys, índios, pistoleiros, rancheiros...
 
Escreveu algumas raras histórias de ficção científica, como The Smoking Land (1937), sobre uma civilização futurista oculta no Ártico. Escreveu também aventuras capa-e-espada ambientadas na Europa Renascentista, ao estilo de Dumas ou de Rafael Sabatini, como as aventuras de “Tizzo, the Firebrand”, sob o nome de “George Challis”.


 
Ganhou tanto dinheiro que resolveu ir morar na Itália. Comprou uma villa nas proximidades de Florença, onde batucava interminavelmente na máquina de escrever, enviando contos para todo tipo de revista, desde pulp magazines como Argosy até o caro The Saturday Evening Post.
 
Lee Server, um ótimo historiador da pulp fiction dos EUA, conta um aspecto interessante do estilo e da imaginação de Max Brand:
 
O seu Oeste era uma ambientação acima de tudo poética, com poucos pontos de referência reais, no espaço ou no tempo. Ele usou o tema das violentas fronteiras da América como um cenário quase abstrato para a recriação de épicos da Antiguidade ou mitos clássicos. O herói de The Untamed, o misterioso jovem chamado “Whistlin’” Dan Barry, é uma referência explícita ao “grande deus Pã”. Trailin’ reconta a história de Édipo, Pillar Mountain o mito de Teseu e Hired Guns é uma versão faroeste da Ilíada. Numa atitude bem característica, Brand realizou certa vez uma viagem ao Oeste por conta de seus editores, para se aclimatar e absorver a atmosfera local; passou o tempo quase todo num quarto de hotel, escrevendo mais algum dos seus faroestes inautênticos e extraordinariamente populares.
(Encyclopedia of Pulp Fiction Writers, Chackmark Books, 2002, trad. BT)
 
É uma revelação interessante, inclusive por esta aparente contradição na última frase. Pelo que diz o autor, Faust dava pouca atenção àqueles detalhes factuais de que a literatura norte-americana se orgulha tanto. Autor de best-seller adora dizer que no quilômetro tal de uma rodovia no Arizona há uma pedra e nela está rabiscado um nome – o leitor viaja até lá e constata que é verdade, publica foto e tudo. Faust não ligava para os detalhes factuais, típicos, documentais. Ia mais fundo, nos arquétipos emocionais da história de aventura épica; e, ao que parece, o público ia junto com ele, porque os livros são reeditados, e adaptados, até hoje. Ele criou, por exemplo, o personagem do “Dr. Kildare”, que apareceu em vários seriados famosos da televisão.



O que é incrível é que ele conseguisse fazer isso com a mesma constância e em tal quantidade. John Clute, na Encyclopedia of Science Fiction, diz que suas obras completas chegam à soma de 30 milhões de palavras. Um grande amigo de Faust, Frank Gruber, afirma em The Pulp Jungle (Sherbourne Press, 1967) que esse número chegou a 45 milhões.
 
Para efeito de comparação: Moby Dick tem 209 mil palavras, Guerra e Paz tem 561 mil, E o Vento Levou tem 418 mil.  
 
Frank Gruber, que dedica a ele um capítulo inteiro de The Pulp Jungle, conta com admiração que Faust era um homem enorme, com pernas compridas, mãos grandes. Costumava escrever sentado diante de uma mesinha com uma máquina de escrever portátil onde batucava sem parar.
 
Escrevia catorze páginas pela manhã, e dava o dia por terminado. Ia beber (“era o maior bebedor que conheci”, diz Gruber). Quando alguém o questionava, ele dizia que todo mundo é capaz de escrever catorze páginas num dia, mas que ele era o único capaz de fazer isso 365 dias por ano.
 
Eu conversava muitas vezes [diz Gruber] sobre os hábitos alcoólicos dele. Ele dizia apenas que conseguia escrever apenas depois de tomar algumas doses e “se evadir do mundo real”. Precisava do estímulo da bebida para se transportar àquele mundo de fantasia sobre o qual escrevia tão bem.
 
E Ron Goulart confirma, em Cheap Thrills (Hermes Press, 2007):
 
Para poder fazer a transição entre a escrita de poemas e a da prosa, Faust se convenceu de que precisava beber. Bebia xerez ou uísque pela manhã, cerveja ou vinho à tarde, coquetéis antes do jantar, vinho durante o jantar e uma dosezinha antes de dormir. Suas cartas para os amigos oscilavam entre declarações de que “a bebida atualmente está sob controle” a confissões de que “reconheço que só consigo escrever quando bebo.”
 
Quando começou a guerra, o ambiente na Itália ficou irrespirável. “Heinie” Faust (como os amigos o chamavam) encaixotou suas coisas e voltou para os EUA. Foi trabalhar em Hollywood. Estava ganhando 3 mil dólares fixos, por semana, para trabalhar em roteiros.
 
Seu amigo Steve Fisher, outro roteirista, autor de I Wake Up Screaming, conta que certa noite estavam conversando em Hollywood com um oficial do Exército que atuava como consultor técnico dos filmes. E Faust, ouvindo relatos da campanha da Itália, um país que ele conhecia tão bem, disse:
 
– Pois sabe o que eu gostaria, coronel? Gostaria de ir para a frente de batalha. Gostaria de viajar junto com uma companhia de soldados da infantaria. Comer junto com eles, dormir junto com eles, conversar à noite, ouvir suas histórias. Lutar ao lado deles, participar de ações no campo de batalha – e na volta escrever um livro contando a história daquela companhia. (trad. BT)
 
O coronel mexeu os pauzinhos a que tinha acesso. Agora é Ron Goulart quem conta:
 
Quando a guerra começou ele deu um jeito de ser indicado como correspondente de guerra para Harper’s Magazine. Escreveu da Itália para a esposa: “Não perco a esperança de sair disto tudo como um homem melhor. Sempre desejei ser capaz de virar a página, subir a um patamar mais elevado. “  Foi morto em maio de 1944, durante uma carga a uma posição da artilharia alemã, nas colinas italianas. Participou do avanço no meio dos jovens soldados. Tinha cinquenta e dois anos, e era o correspondente mais idoso na frente de batalha. (trad. BT)
 
É possível sugerir a hipótese de que o realismo literário, que “Max Brand” sempre evitou, tenha por fim causado indiretamente a morte de Heinie Faust.


 
 
 







domingo, 27 de novembro de 2022

4887) 33 livros (27.11.2022)





1
Aquele livro de uma editora descolada e moderna, que a gente pega no balcão da livraria e leva alguns minutos tentando entender as letras do título. 
 
2
Aquele livro grosso, caro, de texto cerrado em fonte pequena, que a gente compra sem folhear e guarda na estante sem abrir.
 
3
Aquele romance estrangeiro de capa instigante, contracapa cheia de fragmentos elogiosos, que a gente compra, começa a ler, e por volta da página 50 percebe que se trata do volume 3 de uma série cujos dois primeiros ninguém se lembrou de publicar aqui.
 
4
Aquele livro de contos de um dos seu autores preferidos, projeto gráfico sedutor, preço caríssimo, mas você acaba comprando porque dos quinze contos incluídos tem dois que você não tem ainda. 
 
5
Aquele livro chato pra caramba que você devolveu à prateleira várias vezes, e quando abre agora encontra dentro dele a conta de luz que acabou não pagando e que resultou naquela tremenda confusão do ano passado, a festa-de-aniversário com energia cortada.
 
6
Aquele livro de Fantasia Heróica, com 500 páginas, que você estava lendo no maior entusiasmo, mas precisou fazer uma viagem, a viagem se prolongou, na volta teve problemas de saúde, a vida veio em ondas como o mar, e agora você percebe que tinha parado na página 322... e agora não lembra nem como é o nome do rei.
 
7
Aquele livro que você tem, mas nenhuma bio-bibliografia do autor registra; e agora?
 
8
Aquele romance de um autor de quem você já leu (e gostou de) todo o resto, menos este, cuja leitura até hoje não engatou.




9
Aquele livro lido, querido e amado na infância, que você reencontrou na idade adulta, e guardou sem ler, para não estragar tudo. 
 
10
Aquele livro estrangeiro que veio com muitas páginas faltando, você mandou um email com foto para o autor, explicando, e recebeu um exemplar perfeito, com dedicatória.
 
11
Aquele livro cuja sinopse é até promissora, mas você não se anima a ler porque o autor é um chato.
 
12
Aquele livro cuja prosa é tão energética que você lê meia página e corre para o teclado, com a cabeça a mil.
 
13
Aquela coletânea enorme, bem produzida, futura referência para muitos anos, e para a qual você foi convidado a contribuir... mas não levou fé.
 
14
Aquele livro que você comprou por engano, leu por uma questão de amor-próprio, e gostou por mera teimosia.   
 
15
Aquele livro que qualquer frase, de qualquer página aberta ao acaso, serve de oráculo.
 
16
Aquele livro que, pela data anotada com sua letra na página de rosto, é o que está com você há mais tempo, na vida inteira.



17
Aquele livro todo sublinhado e anotado com sua letra, e que você não lembra de ter lido.
 
18
Aquele livro que alguém lhe emprestou há 25 anos, e que você ainda guarda, com a firme intenção de devolver.
 
19
Aquele livro precioso e insubstituível, mas já esbagaçado de tanto manuseio, e que você não manda pro encadernador com medo que ele suma.
 
20
Aquele livro que você já leu e releu sem compreender muito bem, mas sente ali verdade, sente ali grandeza, sai dali fortificado.
 
21
Aquele livro onde o autor não é ninguém, o texto não é nada, mas o que a dedicatória diz é tudo.
 
22
Aquele livro que você comprou num sebo por curiosidade, leu, guardou, se desfez dele numa mudança, precisa dele agora para um trabalho, e não anotou nem o título nem o autor.
 
23
Aquele livro que foi seguro a quatro mãos, lido a quatro olhos, recitado baixinho a duas bocas.
 
24
Aquele romance que é até legal, mas você acha os nomes dos personagens totalmente equivocados.



25
Aquele livro que, mal começa a ler, você tem a sensação de que já tinha lido antes, e que o autor dele também.
 
26
Aquele livro que por alguma razão misteriosa você leu e releu e não teve coragem de sublinhar.
 
27
Aquele livro que, a cada vez que você pega para ler, a lombada se quebra mais um pouco, e mais páginas se soltam.
 
28
Aquele romance cujo enredo, antes de chegar na metade, já deu três vezes a impressão de que estava acabando.
 
29
Aquela 1ª. edição raríssima que você achou por 10 reais na lona da calçada.
 
30
Aquele volume bobinho que você comprou somente pelo hábito de trazer um livro de cada cidade que visitava.
 
31
Aquele livro obscuro que um amigo lhe presenteou há dez anos, e toda vez que você o encontra ele pergunta: “E aí, leu?... Não é genial?...”
 
32
Aquele livro que só presta a capa.
 
33
Aquele livro de lombada à base de cola, que precisa ser sujeitado com as duas mãos para ser lido, porque se você o larga ele dá um pulo, feito menino birrento, e volta a se fechar.