segunda-feira, 25 de maio de 2020

4582) Janelas Indiscretas (25.5.2020)




(ilustração: Laurent Durieux / laurentdurieux.com)


Durante este período de quarentena coletiva muita gente descobriu que tem janelas, que tem vizinhos, que tem curiosidade malsã pela vida alheia.

Pior: que não lhe resta outro remédio senão ficar voyeurizando o dia a dia de quem surge naquelas janelas, naqueles jardins, naqueles terraços. Ficar brechando, como se diz em Campina Grande.

Alfred Hitchcock construiu o hino mais sofisticado ao voyeurismo com o filme Janela Indiscreta (“Rear Window”, 1954), em que James Stewart faz o fotógrafo novaiorquino L. B. Jeffries, que, por estar com a perna quebrada no gesso, fica imobilizado à janela, olhando o pátio dos fundos do seu prédio, que dá para os fundos dos prédios vizinhos.

É verão, o que leva todo mundo a erguer as persianas e escancarar as janelas – menos, é claro, o casalzinho de jovens recém-casados que passa o dia de persiana abaixada, e quando o rapaz se debruça ali para fumar um cigarrinho rápido é logo convocado de volta ao leito pela respectiva.

O pianista tentando compor uma música, sem conseguir... a dançarina gostosinha cercada de admiradores... o casal que deita na varanda para curtir um ventinho... a solteirona de coração solitário precisando de companhia...


Jeffries está prestando atenção nos vizinhos possivelmente pela primeira vez, porque é um daqueles fotógrafos internacionais que passam meses fora de casa, cobrindo insurreições populares no Zimbábue ou registrando safaris no Serengeti. Seis semanas com a perna no gesso o levam a descobrir, nos fundos do seu prédio, um mundo igualmente fascinante e perigoso.

Um casal que vive às turras... certa madrugada ouve-se um grito... pelo dia seguinte inteiro as persianas ficam abaixadas... a mulher não é mais vista... vê-se o marido embrulhando facão, serra... saindo de madrugada, embaixo de chuva torrencial, com uma mala metálica, voltando, saindo de novo... que coisas, ou que partes de coisas, ele está levando naquela mala?

O DVD que revi agora tem um Making Of mostrando como aquele gigantesco cenário foi todo construído de verdade, são varandas de verdade, salas de verdade. Para ter altura suficiente foi preciso rebaixar o chão – o nível do solo é o apartamento de Jeff, e o pátio embaixo foi construído no lugar onde havia um porão.




A história original de Cornell Woolrich é muito diferente do filme. Foi publicada em 1942 no livro After Dinner Story, onde o autor usou seu frequente pseudônimo de “William Irish”. Começa assim (trad. minha):

Eu não sabia o nome de nenhum deles. Nunca ouvi suas vozes. Nem sequer os conhecia de vista, propriamente, porque seus rostos eram pequenos demais para que eu reconhecesse suas feições àquela distância. Mas eu poderia ter construído uma tabela com o cronograma de suas idas e vindas, seus hábitos cotidianos, suas atividades. Eles eram os moradores das janelas dos fundos que me cercavam.

O conto, mesmo sendo de um dos meus autores preferidos, nem de longe é tão bom quanto o filme. Primeiro, ele se concentra no crime, e esses figurantes, no livro, somem depois da primeira página; foi o roteiro de John  Michael Hayes que deu personalidade, história própria e cognomes a cada um deles.

Em segundo lugar, o cara do conto não tem enfermeira nem namorada. Hitchcock trouxe o talento de Thelma Ritter (aquela típica coadjuvante hitchcockiana a quem cabe ser o olho mais lúcido de toda a trama, e ter as falas mais mordazes) e a presença mesmerizante de Grace Kelly, uma dessas mulheres que se disserem “venha cá” o cara vai.

No conto há um diarista, Sam, que prepara comida para Jeff e o substitui nas incursões externas que o filme transfere para Grace Kelly; e há o detetive, mais ou menos na mesma função em ambos.

E um detalhe: no conto, vemos Jeff o tempo inteiro sentado à janela, pedindo a Sam para ir ali, ir acolá, e não sabemos por que. Somente no último parágrafo, à guisa de “final surpresa”, ele revela que está com a perna no gesso. Essa surpresinha só serve para tornar a história implausível durante 99% de sua extensão -- o leitor se pergunta o tempo todo por que o cara não sai dali. Deve ter sido a primeira coisa que Hitchcock resolveu mudar, e revelar a perna-no-gesso desde o início.

Comentando para François Truffaut (em Le cinéma selon Hitchcock, 1966) a multitude de pequenos dramas revelado pelas janelas traseiras dos apartamentos, Hichcock diz:

Do outro lado daquele pátio há todo tipo de conduta humana, um pequeno catálogo de comportamentos. Era absolutamente necessário fazê-lo, senão o filme não teria interesse. O que se vê na parede do pátio é uma quantidade de pequenas histórias, é o espelho, como você disse, de um pequeno mundo.
(Cap. 11, trad. BT)

Essa “quantidade de pequenas histórias” me traz à mente uma outra obra que não tem nada a ver, e tem tudo, com o filme: o romance A Vida Modo de Usar (1987) de Georges Perec (trad. Ivo Barroso). Nele, Perec parte da visualização de um edifício de dez andares com dez apartamentos por andar, visto de frente e sem a parede que tapa a visão desse observador externo.


A visão sugerida por Perec se assemelha a um tabuleiro de xadrez posto em pé, com 10 x 10 casas. Cada casa é um apartamento, visto do outro lado da rua (e sem parede atrapalhando). E o trabalho que o autor se propõe (seguindo regras complicadas demais para comentar aqui) é contar a história do que acontece nesse cem apartamentos – pois ele não é um mero observador (como o de Janela Indiscreta): é o Autor Onisciente, ele conhece aquele povo todo, sabe a história de todas as suas familias, suas aventuras e desventuras, sabe o que pensam, o que guardam em cada gaveta.



Perec não parece ser grande fã de Hitchcock. No romance, há uma menção muito en passant ao diretor no capítulo LXXV, e é ao filme Os Pássaros. Não há menções a Hitchcock no Cahiers des Charges de la Vie Mode d’Emploi (Paris : Zulma, 1993); e na biografia de Perec por David Bellos aparece apenas uma menção rápida, meramente biográfica, do dia em que Perec foi com uma namorada assistir Intriga Internacional (na França, La Mourt aux trousses).

Na adolescência (segundo Bellos), quando morava com seus tios em Blévy, Perec era leitor assíduo da edição francesa do Alfred Hitchcock’s Mystery Magazine e do Ellery Queen’s Mystery Magazine, além das versões de revistas de ficção científica como Galaxy e The Magazine of Fantasy and Science Fiction.

O autor francês cita algumas imagens que o inspiraram no seu romance, mas não o vi falando de Hitchcock. Ele cita um desenho do mestre Saul Steinberg:


Cita também a tradição das “casas de bonecas” dos artesãos da Europa, obras variadíssimas que se encontram em muitos museus:



Em todo caso, para mim existe uma afinidade total de espírito entre Janela Indiscreta e A Vida Modo de Usar: um cenário visto de longe mas visto em sua totalidade, e o entrecruzamento dos dramas daquelas pessoas que vivem lado a lado, que se conhecem, que se ignoram, que se relacionam, que se esbarram ao acaso, e o fato de que provavelmente cada uma delas se julga no centro de uma tela de cinema que é só sua.









sábado, 23 de maio de 2020

4581) Uma vida a mais ou a menos (23.5.2020)




Eu tinha uma piada, nos anos 1980, cuja graça ninguém entendia. Pense numa coisa que nunca fez efeito em mesa de bar. Era na época em que o Brasil tinha uma dívida externa gigantesca e todo mundo dizia que o país estava quebrado, falido, o país ia acabar. (Sobrevivemos a isto.)

A dívida externa era (digamos) algo em torno de 100 bilhões de dólares. E havia uma equipe de economistas e ministros que todo ano ia a Washington para negociar essa dívida com os credores. Tentar um abatimento.

A minha piada era que um ministro brasileiro dizia para um credor norte-americano: “Ora, ora, um bilhão de dólares a mais, um bilhão a menos, que diferença faz?...”

A piada tinha uma mensagem. (Se as pessoas acreditam que um filme pode ter mensagem, por que uma piada não teria?)  A mensagem é que valor e quantidade são fatores inversos, vistos de um certo ângulo. Se você está negociando uma dívida de 100 reais e o credor diz “Tá bom, tá bom, deixo por 99”, existe um ganho; miudinho, claro, mas não deixa de ser um ganho.

O que é um real? O que é um bilhão de dólares? Pode ser muito ou pouco, dependendo da soma total de que faz parte.

Na época, eu bolei também uma gag de humor tenebroso, tipo filme dos Irmãos Marx. O país está em guerra. Todo dia chegam estatísticas da frente de batalha. Dois caras trabalham na rádio do Exército, transmitindo informações para a Pátria. Um deles está ao microfone, prestes a iniciar a transmissão. Chega outro com um papel:

– Sargento, aqui está a estatística de nossas baixas na batalha de ontem.

– Morreram quantos?

– (Olhando o papel) 3.424.

Quando ele entrega o papel, alguém abre a porta e avisa:

– Morreu mais um, agora.

Os dois em uníssono:

– Coitado! – E fazem o sinal da cruz.

A gente acusa emocionalmente uma morte individual, mas as mortes coletivas são sempre um mero número. Ninguém faz o sinal da cruz 3.425 vezes.

Comparo isto tudo a uma reportagem que li numa revista há muitos anos: uma família perdeu um filhinho, que se afogou numa piscina pública dos EUA. A certa altura do texto, o redator diz:

A piscina, é claro, tinha um salva-vidas, um homem de confiança, professor de natação, profissional atento. Mas nem sempre é fácil perceber que num segundo há 50 cabecinhas para fora da água, rindo, gritando, espadanando água, e no instante seguinte só tem 49.

Quem assistiu Minority Report de Steven Spielberg há de lembrar a cena em que o filhinho de Tom Cruise desaparece numa piscina assim. É muito difícil, numa multidão, cuidar de cada individualidade única e insubstituível.



Essas meditações estatísticas me vêm à mente depois que revi, ontem à noite, O Terceiro Homem (“The Third Man”, 1949), de Carol Reed. É um clássico de sua época, um desses filmes onde tudo se encaixa bem, a começar pelo roteiro de Graham Greene, e pela fotografia de Robert Krasker, que faz o filme ser incluído em listas de “policial noir” e de “cinema expressionista europeu”.


(Ilustração: John Harbourne)

O grande tchans de The Third Man é o personagem Harry Lime, interpretado por Orson Welles. É aquele personagem tradicional, o Canalha Irresistível, um bandido que seduz pessoas a contragosto delas. O filme é construído quase como uma homenagem a Welles e seu Cidadão Kane – começa anunciando a morte do personagem, e depois, com ele fora da história, começamos a saber dele através dos depoimentos de quem o conheceu.

O filme é a história de uma desilusão, a de um amigo (Joseph Cotten) e uma namorada (Alida Valli) que ficam sabendo ao longo das investigações (Lime está vivo, apenas fingiu a própria morte para escapar da polícia) que ele estava envolvido num esquema de adulteração de remédios. 

A história se passa em Viena, pós-II Guerra, há epidemias, principalmente de meningite entre crianças. E Lime inventou um esquema de misturar penicilina com água, e vender pelo dobro do preço.

O amigo fica chocado, não acredita que Harry seja capaz disso. O policial o leva a um hospital de crianças e sai caminhando com ele, de leito em leito, mostrando os resultados da penicilina-batizada. A câmera, com admirável autocontrole, mostra apenas os rostos deles dois.




Harry Lime fingira estar morto para escapar da polícia, mas Holly o descobre e os dois se encontram num parque de diversões, e têm um confronto no alto de uma roda gigante. Holly questiona. Lime dá de ombros e aponta para as pessoas lá embaixo.

– Olha, nunca me senti à vontade com essas coisas. Vítimas? Não seja melodramático. Olhe lá pra baixo. Me diga. Você ficaria mesmo com pena se um daqueles pontinhos ali parasse de se mexer de repente? Se eu lhe oferecesse 20 mil libras por cada pontinho que parasse de se mexer, hein, meu velho, você me diria mesmo que não queria? Ou você ficaria calculando quantos pontinhos daria para poupar?

É a Europa da Guerra Fria, e guerra é guerra, independe de temperatura. Os países estão tentando se reconstruir depois de seis anos de bombardeio, incêndios e massacres. Como se sabe, no capitalismo "crise" é sinônimo de oportunidade. Tudo se reduz a pontinhos, a números, a estatísticas, a dinheiro. O que é uma vida a mais ou a menos? Os judeus perderam seis milhões de pessoas nos campos de concentração. Os soviéticos perderam 27 milhões no total da guerra. Diante disso tudo (pensa Harry Lime) o que é a vida de algum garoto que teve meningite e tomou penicilina batizada?












quinta-feira, 21 de maio de 2020

4580) Primeiras Estórias: "A menina de lá" (21.5.2020)




A quarta estória deste livro de Guimarães Rosa (Primeiras Estórias, 1962), “A menina de lá”, é um continho curto e intrigante sobre uma menina milagreira.

Dizer milagreira é talvez dizer muito, porque dá a impressão daquelas histórias, tão comuns no Brasil, de meninas mortas que fazem milagres. Meninas que foram assassinadas “com requintes de crueldade” e por isso viram uma espécie de santinhas, para cuja capela funerária se dirigem peregrinações sem fim...

Não é o caso de Nhinhinha, esta protagonista. É uma menina como as outras, só que mais calada. Num dos seus prefácios a obras de Rosa, Paulo Rónai comentava o quanto em seus contos apareciam dois tipos de personagens pelos quais ele parecia ter um fascínio especial: os doidos e as crianças.

São pessoas a quem a gente não pode pedir prestação de contas, pode somente observar. A gente pode interrogar a sério um adulto lúcido, pode pedir explicações disso ou daquilo, pode argumentar, comparar conceitos... Com doido e com criança, isso rapidinho se esgota. São criaturas-em-si a cujo mistério interior a gente não tem acesso. Pode somente observar o que fazem, e tentar formar opinião.

“Sua casa ficava para trás da Serra do Mim”, principia o conto, e qualquer interpretador profissional (ou diletante, como é o meu caso) entende que tudo isso se passa à sombra do Ego, numa parte inconsciente e não visível, “além do horizonte do Ser”. Um lugar pré-entendimento, não por outro motivo chamado “o Temor-de-Deus”. É um condado mítico, pré-racional.

E nesse lugar aparece uma menina que faz as coisas acontecerem.

No começo, ela é apenas uma menina como as outras, brincando, sorrindo, dizendo as coisas inesperadas e imprevisiveis que as crianças dizem:

A gente não vê quando o vento se acaba...

Alturas de urubu não ir...

O passarinho desapareceu de cantar...

São da menina, estas frases? Sim, mas acima de tudo são do Autor, que é menino também, pensa desse jeito, imagina desse jeito, e se expressa desse jeito. E anota tudo em cadernetinhas a que recorre quando precisa de exemplos.

Nhinhinha é no entanto alguma coisa mais, escondida por trás da Serra “do Rosa”, da Serra do Moimeichego. Ela faz milagres.

A princípio, a família se admira apenas porque ela “adivinha” o futuro.

Diz: “Eu queria o sapo vir aqui”... e daí a pouco o sapo comparece, pulando. Diz: “Eu queria uma pamonhinha de goiabada...” e logo surge uma vizinha, sem saber de nada, trazendo o doce desejado.

Diz o narrador: “O que ela queria, que falava, subito acontecia”. Mas não era tão fácil assim. A Serra está passando por uma seca braba. O pai, todo mobilizado, sente-se na obrigação de tomar alguma providência e convoca a milagreira da casa. A menina refuga, não quer, não explica: “Deixa... deixa...”.

E um dia a menina explica outra coisa que queria: “um caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites verdes brilhantes...”  E o resto é estória.

É um desejo de nossa infância (dizia Freud): o da Onipotência do Pensamento, de fazermos as coisas acontecerem apenas pela vontade, sem mexer uma palha, sem assoprar um grão de areia. Quando julgamos que isso acontece (=pedimos uma coisa e a coisa sobrevém), nos assustamos. Temos a sensação do Uncanny, do Unheimlich.

Todo mundo conhece alguma história sobre, sei lá, um marido farrista que sai para a esbórnia e a esposa revoltada pragueja: “Era bom que batesse com esse carro...”, e quando o sinistro acontece ela desaba de culpa.

Um caso clássico (nas minhas referências literárias) da Onipotência do Pensamento é o conto tenebroso de Jerome Bixby, “It’s a Good Life” (1953; foi depois adaptado para a série Twilight Zone).



É a história de um menino, Little Anthony, que nasce em Peaksville, um vilarejozinho do interior dos EUA, e desde cedo desenvolve poderes muitos mais fortes do que os de Nhinhinha. Ele faz se abater sobre aquela gente simples, interiorana, por trás de alguma outra Serra, toda a força-em-bruto da pulsão desejante de um ser humano normal em seus primeiros meses de vida.

Tudo que ele deseja acontece – instintiva e irreversivelmente.

Aos três anos, Little Anthony é capaz de apagar a mente de uma pessoa e transformá-la num robô amnésico e sorridente. É capaz (para se divertir) de fazer um rato devorar a si próprio. É capaz de ler pensamentos e de, mesmo quando está de bom humor, provocar catástrofes terríveis porque tenta, às vezes, realizar o que aquela pessoa está pensando.


("Twilight Zone")

Por isso todas as pessoas, quando se aproximam dele, murmuram sem parar algum mantra sem sentido, para misturar os próprios pensamentos, e não darem idéias erradas a Little Anthony.

Claro que o Pequeno Tirano Cósmico não aceita interferência ou admoestações. Aliás, a primeira coisa que ele fez foi remover o vilarejo do mundo em que nós estamos. Peaksville tornou-se uma ilha no meio do Nada. E uma ilha onde tudo está acabando: mantimentos, bebidas, cigarros, roupas... Não há como trazer mais “do mundo de fora”, porque ninguém sabe mais onde está.

Mamãe olhou pela janela, para além da estrada escura, para além do trigal escuro dos Henderson, para o vasto, interminável Nada cor-de-cinza  em que o vilarejo de Peaksville flutuava como uma alma – o imenso Nada que ficava mais evidente à noite, depois que o dia brilhante de Anthony acabava.

Não adiantava de nada imaginar onde estariam... nem um pouco. Peaksville estava em algum lugar; e pronto. Algum lugar longe do mundo. Estava ali desde aquele dia, três anos atrás, em que Anthony emergira do ventre dela e o Doutor Bates, que Deus o tenha, gritou e largou o bebê e tentou matá-lo, e Anthony soltou um vagido e fez aquilo. Levou o vilarejo para algum lugar; ou destruiu o mundo e deixou apenas o vilarejo, ninguém sabia qual dos dois.

A literatura tem disso. Por mais que um tema seja claro, específico, por mais que uma história pareça já ter sido contada, por mais que tenha mesmo sido contada mil vezes, quando ela passa através de um autor ela sai do outro lado transformada em outra coisa.

O que em Guimarães Rosa é lirismo e carinho, ainda que com uma mão-de-tinta fúnebre nos últimos parágrafos, em Bixby é terror puro, “fantasmas do Id”.


("Twilight Zone")

A Onipotência do Pensamento é uma fantasia resultante de uma fase em que a criança não distingue entre o mundo material e a representação mental que faz dele; e pulando daí para o plano coletivo, entramos no reino dos animismos de toda forma. Em que é possível à mente dominar a matéria sem usar a matéria. Encantamentos, pragas, bruxarias, magia à distância, tudo isto são derivações desse desejo: o de olhar para uma coisa que nos incomoda, pensar: “Desapareça!” – e essa coisa desaparecer.

Bixby é só pesadelo. Rosa, que gostava de doidos e de crianças, era capaz de imaginar uma menininha milagreira do-bem:

Aquilo, quem entendia? Nem os outros prodígios, que vieram se seguindo. O que ela queria, que falava, súbito acontecia. Só que queria muito pouco, e sempre as coisas levianas e descuidosas, o que não põe nem quita.


O conto é uma fantasia benigna sobre o Poder. Na sua delicadeza, leveza, Nhinhinha parece estar flutuando, e mesmo quando colocamos os dois lado a lado ela não é sugada pelo “black hole” desejante que é Little Anthony.











quarta-feira, 13 de maio de 2020

4579) A palavra Kodak (13.5.2020)




Alguns anos atrás, ao traduzir para o selo Alfaguara o clássico de H. G. Wells A Máquina do Tempo, tive um susto a certa altura.

O livro é de 1895, e supõe-se em princípio que é mais ou menos nessa época que o Viajante no Tempo inicia o seu trajeto rumo ao futuro, onde chega primeiro ao ano 802.701 e depois faz uma breve incursão a um remotíssimo futuro, onde tem o vislumbre, durante alguns minutos, da agonia do nosso Sol e do nosso planeta.

Quando está ainda no primeiro trecho da viagem (cap. 6), ele se mistura aos simpáticos Elois, a raça de rapazes e moças meio inocentes que vivem na superfície, por entre as ruínas.  A certa altura, descobre um poço vertical e desce por ali, cheio de curiosidade. Vai parar no mundo subterrâneo dos Morlocks, as criaturas monstruosas que movimentam máquinas incompreensíveis e gigantescas. E o Viajante no Tempo comenta:

Desde então tenho pensado no quanto eu estava mal-equipado para uma experiência como aquela.  Quando parti na Máquina do Tempo, foi com a noção absurda de que os homens do futuro estariam sem dúvida muito à nossa frente em todos os aspectos práticos.  Eu viera sem armas, sem remédios, sem nada para fumar – houve momentos em que o tabaco me fez uma falta angustiante – e até mesmo sem fósforos em quantidade suficiente.  Se pelo menos eu tivesse me lembrado de trazer uma Kodak! Poderia ter registrado aquele vislumbre do Mundo Inferior em um segundo, para depois examiná-lo com calma.  Mas, do jeito que tudo ocorreu, vi-me ali provido apenas das armas e dos poderes com que a Natureza me dotara: mãos, pés, e dentes; e quatro palitos de fósforo, que eram tudo que me restava.


(The Time Machine, primeira edição, 1895)

Uma Kodak!  Dei um pulo diante de um anacronismo tão brutal. Certamente eu estava lendo uma versão espúria do romance (não era; era uma edição da Penguin britânica; mas eu já encontrei erros em edições assim). Felizmente havia uma nota explicativa garantindo que as primeiras câmeras portáteis Kodak tinham sido introduzidas no ano de 1890. A patente original norte-americana, de George Eastman, data de 1888.

Às vezes descobrimos uma menção a um detalhe que tem datação nítida – como nesse caso, uma invenção tecnológica – mas talvez seja uma das primeiras menções, quando aquilo ainda não se consagrara como um termo comum da linguagem cotidiana. Quais serão, na literatura brasileira antiga, as primeiras menções a “gilete”, “brahma”, e outras marcas que viraram substantivos comuns?

Quando na canção “Desafinado” (de Tom Jobim e Newton Mendonça) João Gilberto cantava “Fotografei você na minha Rolley-Flex...” não faltou certamente quem visse nisso um merchandising subliminar, com algum dinheiro escuso trocando de mãos por baixo do pano.

A Kodak, no tempo de H. G. Wells, já parecia ser algo suficientemente popularizado para que ele não se desse o trabalho de explicar que era uma máquina fotográfica. O nome e o contexto narrativo bastavam para não deixar dúvidas.

E depois, fazendo uma consulta casual noutro clássico, me vem este outro exemplo.


(Drácula, primeira edição, 1897)

É de 1897 a primeira publicação do Drácula de Bram Stoker, um clássico à altura do livro de Wells. Como se sabe, grande parte do livro consiste nas anotações do diário de Jonathan Harker, o bem intencionado agente imobiliário que sai de Londres para os confins da Transilvânia a fim de negociar a compra de imóveis londrinos por parte do conde.

Não indicarei página, porque as edições do livro são legião; é logo no começo do livro, na data de 7 de maio, quando o diário de Harker registra suas observações sobre a casa que encontrou, e que está tentando vender ao Conde Drácula:

Em Purfleet, numa estrada vicinal, acabei encontrando um local como o que procurava, e onde era visível uma placa muito estragada indicando que estava à venda. Era cercado por um muro alto, de estrutura muito antiga, construído com pesadas pedras, e há muitos anos não sofria reparos. Os portões fechados eram de carvalho e ferro, carcomidos pela ferrugem.

O local chama-se Carfax, sem dúvida uma corruptela da antiga expressão Quatre Faces, visto que a casa tem quatro fachadas, voltadas para os pontos cardeais. Inclui ao todo uns vinte acres de terreno, bem protegidos pelo muro de pedras que mencionei. Há muitas árvores, o que torna o local sinistro em alguns pontos, e há uma pequena lagoa escura, profunda, evidentemente alimentada por fontes subterrâneas, porque a água é limpa e flui numa correnteza de bom tamanho. A casa é muito grande e data de diferentes períodos do passado, eu diria que até os tempos medievais, porque uma parte dela é de pedras, com paredes imensamente grossas e janelas muito altas, com pesadas grades de ferro. Parece parte de um torreão, e fica próxima de uma antiga capela ou igreja. Não consegui entrar, porque não estava de posse da chave da porta que dá acesso a esta parte da casa; mas com a minha kodak tirei algumas vistas de várias direções. A casa foi acrescentada a essa estrutura em época posterior, mas de forma desorganizada, e posso apenas calcular por alto o terreno que abarca, e que parece bastante extenso. Há poucas outras casas nas redondezas, sendo uma delas um casarão de construção recente e que é usado como um asilo privado para lunáticos. Ela não é visível do terreno, porém.
(trad. BT)

O romance é contemporâneo do de Wells, mas aqui a Kodak também brota inesperadamente, só que em outro contexto: um contexto de passado, de decadência, de mistério gótico, que afinal é o clima do romance: o mistério gótico invadindo o coração do Império Britânico em seu apogeu. O termo “kodak” se destaca ainda mais, por efeito de contraste.

Na última década do século 19, a Kodak já fazia parte do vocabulário comum de escritores como H. G. Wells e Bram Stoker, a ponto deste último usar a palavra com inicial minúscula. Ou pelo menos está assim na cópia em PDF que baixei; na tradução que tenho (Tecnoprint, Edições de Ouro, 1960?, trad. David Jardim Júnior) o parágrafo está bastante enxugado, e a palavra “kodak” não aparece.


Procurando por aí ("Wikisource") achei novas menções da palavra em obras de língua inglesa, como The Cruise of the Snark (1911) de Jack London e Tante (1912) de Anne Douglas Sedgwick.

Essa familiaridade se estendia até o Brasil.

Em Minha Formação (1900), Joaquim Nabuco narra (no episódio “Massangana”, também já publicado de forma independente):

Muitas vezes tenho atravessado o oceano, mas, se quero lembrar-me dele, tenho sempre diante dos olhos, parada instantaneamente, a primeira vaga que se levantou diante de mim, verde e transparente como um banho de esmeralda, um dia que, atravessando por um extenso coqueiral atrás das palhoças dos jangadeiros, me achei à beira da praia e tive a revelação súbita, fulminante, da terra líquida e movente... Foi essa onda, fixada na placa mais sensível do meu Kodak infantil, que ficou sendo para mim o eterno cliché do mar.”


Este trecho é comentado por Flora Sussekind em Cinematógrafo das Letras (São Paulo: Companhia das Letras, 1987) onde ela esmiúça de variados ângulos as respostas literárias e paraliterárias dos escritores e intelectuais brasileiros diante nas novas tecnologias que brotavam e que se expandiam à sua volta: a fotografia, o cinema, o jornal ilustrado, o “reclame”, etc.

Nabuco (diz ela) recorre a imagens como “kodak” e “clichê” quando tenta descrever os processos de fixação mental da sua memória de criança. As novas tecnologias tornam-se novas metáforas do pensamento, porque de imediato reconhecemos nelas esses processos de percepção, enquadramento, registro, preservação, reprodução, acesso...

Não havia como não pensar numa Kodak ao se evocar o processo indelével das memórias afetivas. O caso é que, como sempre acontece na literatura, ninguém costumava se exprimir assim, mas quando um autor o faz pela primeira vez (ou pelo menos a primeira vez no interior de um público específico) o reconhecimento é instantâneo. A imagem já estava no subconsciente coletivo. O artista a evoca. O público reage: “sim, é exatamente assim.”

A técnica nos supre novas metáforas, novas maneiras de comparar processos que dominamos sem entender de todo, como é o caso da memória, da imaginação, do raciocínio, das emoções.

Infelizmente não guardei a fonte desta citação de John R. Searle, professor de filosofia, copiada de alguma revista, ou de algum saite da web (talvez o excelente “A Word A Day”, de Anu Garg):

Por não entendermos muito bem o modo como a mente humana funciona, somos tentados o tempo inteiro a compará-la com o tipo mais recente de tecnologia.  Na minha infância, sempre nos asseguravam que a mente era uma espécie de central telefônica – o que mais poderia ser, afinal?  Depois, descobri, divertido, que Sherrington, o grande neuro-cientista britânico, comparava a mente a um sistema telegráfico.  Freud a comparava com freqüência a sistemas hidráulicos e eletromagnéticos.  Leibnitz a comparava a um moinho, e agora, evidentemente, a metáfora é o computador digital.

Para Wells e para Bram Stoker a “Kodak” era um objeto utilitário, comum, já fazendo parte do seu cotidiano; no texto de Joaquim Nabuco, ela é metáfora da lembrança. Já está – eu diria – num grau ainda mais profundo de integração à vida do escritor.



P. S. - Em mais um exemplo anglófono, Rudyard Kipling usou o verbo "kodaking" em "The Village that voted the Earth was flat", na coletânea A Diversity of Creatures (1917). Segundo as notas a uma edição desse livro, o Oxford English Dictionary registra o uso deste verbo desde 1891.


















sábado, 9 de maio de 2020

4578) O bilaqueano Augusto dos Anjos (9.5.2020)




(Augusto e Olavo)

O aniversário de Augusto dos Anjos aconteceu algumas semanas atrás, e voltou à discussão o episódio, talvez verdadeiro, ocorrido com Olavo Bilac. Quando se noticiou a morte do poeta paraibano, em Leopoldina, a notícia repercutiu no Rio de Janeiro, onde Augusto tinha morado até pouco tempo atrás. No Rio ele lançara seu livro Eu, e tinha vários amigos e admiradores.

“Morreu o poeta Augusto dos Anjos”, disse alguém, talvez na porta de uma livraria na Rua do Ouvidor, ou na calçada da Confeitaria Colombo. “Quem é?”, perguntou Bilac. O interlocutor explicou e recitou um soneto de Augusto. Bilac, desdenhosamente, atirou longe a ponta do cigarro e comentou: “Não se perdeu grande coisa”.

A ponta de cigarro é por conta do meu cacoete ficcional, mas há vários relatos dessa atitude dismissiva do “Príncipe dos Poetas Brasileiros” em relação a um anônimo, cujos versos arrevesados Bilac certamente consideraria de mau-gosto. Os relatos divergem sobre o soneto que serviu de amostra. Uns falam no clássico “Versos Íntimos” (“Vês? Ninguém assistiu ao formidável enterro...”), outros falam de “Versos a um Coveiro” (“Numerar sepulturas e carneiros, reduzir carnes podres a algarismos...”)...

Não importa; seria mesmo difícil que Bilac, poeta de imenso talento mas cheio de arrebiques, “entendesse a proposta” de Augusto, que aliás, pouca gente da época entendeu.

A diferença entre os dois é principalmente que Bilac nunca leu Augusto, mas Augusto denota ter lido Bilac. E não havia como fugir a uma influência de um poeta que, nas suas décadas de maior brilho, tinha uma presença comparável à que Carlos Drummond veio a ter meio século depois.

Um dos repertórios poéticos de Bilac era a Fantasia Heróica, inspirada na Antiguidade Greco-Romana e na Idade Média. Castelos, imperadores, príncipes, espadas, estandartes, exércitos, elmos, escudos... tudo isso fazia parte do repertório de imagens do poeta de pince-nez e bigodes bem cultivados.

Muito bilaqueano este soneto “Vandalismo”, onde Augusto dá vazão a leituras que não diferiam muito das do príncipe:

Meu coração  tem catedrais imensas,
templos de priscas e longínquas datas,
onde um nume de amor, em serenatas,
canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
vertem lustrais  irradiações intensas
cintilações de lâmpadas suspensas
e as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
entrei um dia nessas catedrais
e nesses templos claros e risonhos…

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
no desespero dos iconoclastas
quebrei a  imagem dos  meus próprios sonhos!


É um dos sonetos do Engenho Pau d’Arco, de 1904, e Bilac está todo aí, não somente na imageria medieval e templária, mas no tema tipicamente bilaqueano (e ainda tipicamente Romântico) do guerreiro derrotado no limiar das grandes conquistas, como o Fernão Dias de “O Caçador de Esmeraldas” (“Na terra que venceu há de cair vencido”). Sem falar no ritmo enumerativo (“e as ametistas e os florões e as pratas”), presentes o tempo todo em Bilac:

E a água verde do mar, e a água fresca dos rios,
e as ilhas de esmeralda, e o céu resplandecente,
e a cordilheira, e o vale, e os matagais sombrios...
(“A um violinista”, em Alma Inquieta)

É bem de Bilac essa listagem de elementos que contempla a um só tempo o olho e o ouvido; e qualquer poeta brasileiro da época seguia na mesma pisada.

Bilaqueano, também, este soneto que talvez não seja tipicamente Augusto na temática, “Vencedor”, mas o é na história afetiva de quem sempre o leu e o decorou:

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
e à rutilância das espadas, toma
a adaga de aço, o gládio de aço, e doma
meu coração – estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
e o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
e outro mais, e, por fim, veio um atleta,

vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
que ninguém doma um coração de poeta!

A ambientação de Fantasia Heróica é toda de Bilac, que gostava de passear por Roma, Cartago, Alexandria, Atenas; não o são alguns pequenos tropeços que um parnasiano dificilmente deixaria passar, como a repetição do “por fim” nos tercetos – e tem esse “que” do verso final, que não sei por que me soa tão paraibano substituindo o “porque”, e que um parnasiano trocaria sem perda alguma por um simples “Pois ninguém doma...”.

Num outro artigo, de tempos atrás, comentei como os dois poetas, cada qual ao seu modo, glosava o tema da palavra que não consegue corresponder à grandeza da idéia, ou das emoções tão intensas que se quedam sem expressão:


Mas Bilac era capaz também (porque num certo ponto de vista o Parnasiano é um Romântico domesticado) de certas visões que não deixam de lembrar o romantismo “negro” ou “fúnebre” que também influenciou Augusto:

(...)
Uivam os ventos funerais medonhos...
Brilha o luar... As lápides se agitam...
E, sob a rama dos chorões tristonhos,
sonhos mortos de amor despertam e palpitam,
cadáveres de sonhos...
(“Campo Santo”, em Alma Inquieta, 1902)

Ou em “Pomba e chacal” (Sarças de Fogo, 1888):

Ó Natureza! Ó mãe piedosa e pura!
Ó cruel, implacável assassina!
Mão, que o veneno e o bálsamo propina
e aos sorrisos as lágrimas mistura!

Pois o berço, onde a boca pequenina
abre o infante a sorrir, é a miniatura
a vaga imagem de uma sepultura,
o gérmen vivo de uma atroz ruína? (...)

Não é somente o tema da morte a brotar de dentro da vida, que é augustiano; é até mesmo um detalhe de dicção, como esse “pois” que inicia o segundo quarteto, e que tanto lembra Augusto e seu estilo comparativo, demonstrativo de teses, espalhado por toda sua obra: “Pois é mister que para o amor sagrado...”.

Eram reinos poéticos cujas capitais ficavam distantes mas cujas fronteiras se interpenetravam.





quarta-feira, 6 de maio de 2020

4577) Ser professor (6.5.2020)




(BT aluno)

Teve um professor meu de Geografia que sempre trazia um mapa-múndi enorme, enrolado. Pendurava num prego grande que tinha por cima do quadro-negro (era aquele quadro de pedra verde, embutido na parede) e usava uma varinha para indicar as coisas que explicava.

Eu sentava na primeira fila, porque a distribuição dos alunos nas “carteiras” (era o nome das bancadas individuais onde a gente sentava e escrevia) era por ordem alfabética. E vi que ele sabia tudo, ou já tinha acostumado, porque ele dizia, por exemplo, “Liverpool é um grande centro portuário”, e tocava com a varinha num ponto, quase sem olhar. Depois eu levantava e ia ver de perto, e era exatamente ali.

Uma vez ele estava falando das alterações do Homem sobre o meio ambiente, falou dos canais, explicou a diferença entre o Canal da Mancha, que é uma passagem natural, e o Canal de Suez, que foi construído por Ferdinand de Lesseps. Falou do Canal do Panamá.  Aí disse:

– Para que serve o Canal do Panamá? – Olhou em redor, olhou para mim, e tocou na minha carteira com a varinha. – Você.

Eu fazia a linha tímido-metido, não dava uma palavra nunca, mas me sentia na obrigação de, em falando, botar pra quebrar.

– Serve para ligar o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico, que são os dois principais – respondi.

– Correto – disse ele. – Do ponto de vista geográfico. Mas por cima do ponto de vista geográfico, o ser humano impõe o ponto de vista geo-político, ou geo-econômico. As necessidades reais das populações humanas. – Ergueu a varinha, e demonstrou. – O Canal do Panamá acabou servindo como a via marítima mais curta entre a Costa Leste dos Estados Unidos – indicou com a varinha – e a Costa Oeste dos Estados Unidos. – Fez a varinha descrever um arco de círculo.

– É o imperialismo norte-americano – falou um esperto, da turma lá do fundo.

– Sim e não – disse ele, imperturbável. – Se fosse a União Soviética, fazia a mesma coisa. É a necessidade de manter uma máquina imensa funcionando, porque eles têm 250 milhões de bocas querendo comer três vezes por dia. Por que foi que Vasco da Gama descobriu o caminho para as Índias, arrodeando a África? – A varinha foi até a Península Ibérica, e desceu o trajeto beirando a África inteira e subindo até a Índia. – Porque antes existia um caminho mais curto por Terra, que era esse aqui. – Aí mostrou mais ou menos o tal caminho que passava por Istambul ou Constantinopla, que a maioria dos meus colegas pensava que eram duas cidades diferentes. – Mas a guerra fechou esse caminho terrestre.  Eles tiveram que descobrir outro, que acabou sendo mais comprido, mas quebrou o galho. O Panamá foi o contrário. Ele pegaram a peixeira e abriram uma passagem.

– Por que logo com o pobre do Panamá? – perguntou alguém.

– O Panamá era o trecho mais estreito do continente – disse ele. – Eles podiam tentar abrir através do Amazonas, mas só iam terminar no ano 3.000.

Tive outra professora de Geografia, essa eu lembro o nome, era Dona Elaine, que eu já conhecia porque trabalhava com meu pai, foi uma época em que ele era funcionário da Federação das Indústrias. Ela não usava mapa, não usava varinhas, nada de efeitos especiais. Era uma coroa de cabelo colorido, toda enfeitada, cheia dos anéis, dos colares. Sentava, olhava a turma, cruzava os dedos das mãos e começava a contar uma história. Usava muitos conceitos de economia que na época (eu teria uns 15 ou 16 anos) eu achava chatos. (Aliás, acho até hoje.)

Foi ela que deu uma prova, certa vez, que nunca esqueci. Chegou no dia marcado para a prova, organizou a turma, “você vai sentar aqui, vocês três aí vão ficar espalhados, essa menina fica aqui na fileira da frente, você vai pra ali...”  E todo mundo caladinho, obedecendo. Livros guardados. Caneta e papel na carteira, prontos.

Ela sentou-se, cruzou os dedos, olhou para a turma por cima dos óculos, e disse:

– Quesito Único: “Fale sobre agricultura”. Podem começar. Têm quarenta e cinco minutos.

Eu me virei como pude; preferia que ela tivesse dito “fale sobre as possibilidades de colonização da Lua”, mas enfim.


(BT professor)

Dez anos depois, o professor era eu. Barbudo, cabeludo, de óculos, dava aula de Inglês e de Educação Artística, no Colégio Alfredo Dantas (onde também estudei, dos 9 aos 12 anos). Era um tempo cheio de matérias abstrusas. Tinha Estudos de Problemas Brasileiros, tinha OSPB (Organização Social e Política do Brasil)...

Enfim – eu dava aula de Educação Artística, o que era ótimo, porque o pessoal do Colégio dava carta branca e eu falava de cinema, de poesia... Os alunos (turma mista) tinham 17, 18 anos, por aí.

Me lembro de ter passado uma aula inteira dissecando aquele poema dos galos, de João Cabral, que eu dizia: “Hoje vamos ver um poema de João Cabral de Melo Neto dedicado à torcida do Treze”, e eles vibravam.

Uma vez eu terminei de dar a matéria daquele dia. Parei ali, de pé. Olhei em torno.

– Quantos minutos faltam? – perguntei.

– Cinco – disse alguém.

– Faltou assunto, professor?... – perguntou uma bonitinha, jogando uma ironia.

– Como assim, faltou assunto?! – disse eu. – Vou dar cinco minutos de aula extra, e o assunto são vocês que escolhem. Bora, escolham aí. Astronomia, Poesia Concreta, História do Império Bizantino, Cirurgia Cardíaca, Mineralogia...

Eles riam com as minhas tiradas. Aí alguém gritou: “Mineralogia!”.

– Mineralogia – anunciei.

Fiz um fictício, fechei os olhos, pus as pontas dos dedos na testa, concentrei, e eles fizeram um silêncio que nem eu esperava.

Abri os olhos, estendi um braço, teatral.

– Os minerais!... – falei, em tom meditativo. – O que sabemos nós dos minerais?!  Nada. Eles nada nos dizem, eles não se manifestam, eles nos ignoram... Não são como os animais, que interagem conosco, tem necessidades iguais às nossas. Não são como os vegetais, que como nós têm o ciclo da vida. Os minerais vivem noutra escala do tempo. O que para nós são 100 mil anos, para eles é um segundo. O que são eles, então?! Talvez sejam deuses adormecidos, esperando o momento em que evoluirão para estátuas, caminharão por fim nesse planeta que será só seu...

Eu tinha lembrado um livrinho de bolso, “O Falso Planeta”, de Peter Randa.  Saí por ali enrolando, citei Augusto dos Anjos, que mesmo fora do tema sempre impressiona, e fiz um fecho qualquer, bem dramático. Eles vibraram, alguns bateram uma palmazinha.

Aí o eterno e infalível Engraçadinho da Turma dos Fundos perguntou com voz desdenhosa:

– Cai na prova?...

Eu parei, estendi o braço na direção dele como se fosse um rifle, dedo esticado, e disse:

– A prova é a vida, rapaz!  A prova é a vida!

E nesse instante o Roteirista do Mundo me deu uma colher de chá, e a sineta ressoou.