quinta-feira, 13 de junho de 2013

3211) Contracapa de Android (13.6.2013)




(by Catrin Arno)

&  estou inventando um espantalho eletrônico para afugentar spam  &  uma caveira com os olhos intactos nas órbitas  &  ele apostou comigo que seria capaz de musicar um livro de Clarice Lispector  &  um cardume de peixinhos virtuais flutuando à toa pela sala quando a TV entra em standby  &  às vezes a gente deseja até a III Guerra Mundial contanto que não tenha de entregar aquele texto na segunda-feira  &  no futuro o GPS dos taxistas será fornecido por uma franquia do Grand Theft Auto  &  eu escrevo mais concentrado do que ciclista descendo ladeira  &  toda tartaruga tem dentro do casco uma sala com poltrona, luminária, lareira e uma estante cheia de clássicos encadernados  &  um leque de papel de seda em chamas, e a madame se abanando nem aí  &  serpentes com serpentes menores dentro de si como bonecas russas  &  tinha uns olhos de quem sobreviveu a alguma coisa séria  &  na parede, o retrato emoldurado de um time com uma das silhuetas faltando  &  bendita a certeza de que um dia terei esquecido o que hoje me atormenta  &  a diferença entre a humanidade e os lemmings é que a humanidade explica por quê corre tanto  &  não sei o que é pior, se o primeiro dia num emprego ou se o último  &  dividir o tempo em dias, meses e anos é como dividir o mar com cordões esticados  &  um câncer não é muito diferente de uma pérola  &  escrever é desenterrar ruínas de si mesmo  &  saudade dos meus trinta anos, quando eu via alguém sofrer e não sofria  &  tô como cego em tiroteio, me desviando quando sinto o calor da bala  &  ainda deve existir algum país onde se publica anualmente um catálogo com o email e o celular de todos os seus habitantes  &  numa discussão de casal a letra perde logo o sentido e tudo que importa é domesticar a melodia do outro  &  nem todo poema contém poesia, assim como nem todo ruído é música  &  valei-me Nossa Senhora dos Desafogados  &  minha coluna dói tanto que não sei como não acorda todos os moradores do edifício  &  aquele momento de prazer indescritível quando alguém termina de fazer uma pergunta cuja resposta a gente sabe  &  um telefone toca no necrotério e ninguém levanta para atender  &  o pé de coelho não deu muita sorte ao coelho de onde saiu  &  um temporal daqueles que lavam a cidade e a deixam ainda mais suja  &  tem sujeito capaz de desenterrar uma pirâmide mas que não tem paciência para limpar a terra de um caco de cerâmica  &  um rei vestindo paletó e gravata equivale a um palhaço vestindo paletó e gravata  &  e lá vou eu mundo afora com meu apito de chamar peixes, minha pedra de guardar palavras, minha parede de acordar o sol  &  



quarta-feira, 12 de junho de 2013

3210) A Tragédia dos Tronos (12.6.2013)




A série Game of Thrones pôs no ar recentemente o episódio “The Rains of Castamere”, que produziu um choque considerável no público. Sem revelar muitos detalhes, posso dizer que o episódio mostrou a morte violenta, em circunstâncias especialmente cruéis, de personagens muito queridos pelo público. Perdi a conta dos twitters e dos posts que vi, de pessoas reclamando em altas vozes (e muita gente chorando, com sinceridade) a morte dos personagens.  E uma queixa se repetia, em cada voz, em cada nome: “Odeio você, George R. R. Martin... Nunca mais quero assistir essa série de novo...”

E no entanto tenho certeza de que quase todos voltarão a assistir essa série que já matou outros personagens queridos e que a esta altura já deixou claro, mesmo para o mais obtuso dos espectadores, que vai matar muitos mais. Porque uma coisa de que mesmo o espetáculo popularesco não pode abrir mão é a tragédia. Por que motivo as platéias de Shakespeare gostavam tanto daquelas histórias onde nada dava certo, onde pessoas boas morriam mortes cruéis, onde namorados simpáticos por quem todo mundo torcia acabavam se matando por causa de um mal entendido?  Por que aquelas platéias rudes e ignorantes de meio milênio atrás voltavam para casa satisfeitas, após uma catarse tão deprê?  Que tipo de diversão é esse?

Disse o autor de A Song of Ice and Fire (o ciclo dos romances em que se baseia Game of Thrones): “As pessoas lêem livros por motivos diferentes. Alguns lêem para o seu conforto. E alguns dos meus ex-leitores disseram que sua vida é dura, a mãe está doente, o cachorro morreu, e eles lêem ficção para fugir. Não querem ser atingidos na boca por algo horrível. Quando se lê um certo tipo de ficção, onde o cara vai sempre ficar com a garota e os mocinhos vencem no fim, isso reafirma a você que a vida é justa. (...) Mas isso não é o tipo de ficção que eu escrevo, na maioria dos casos. Certamente não é o que ‘Ice and Fire’ é, que tenta ser mais realista sobre o que é a vida. Ele tem alegria, mas também tem dor e medo. Acho que a melhor ficção captura a vida em todas as suas luzes e trevas”.

Uma das funções da tragédia é restituir à arte a possibilidade de parecer com a vida. Sem os finais trágicos de uns filmes, os finais felizes dos outros se diluiriam entre si, numa só névoa de perfume barato. A tragédia de Romeu e Julieta precisa estar sempre visível no horizonte, para que cada filmezinho de amor com Hugh Grant e Julia Roberts possa ter seu final feliz, aquele final que nos garante que, daquela vez, a vida real ficou do lado de fora e não pôde entrar. A vida real que é sinônimo da inevitabilidade da morte.


terça-feira, 11 de junho de 2013

3209) A piada do incêndio (11.6.2013)



Analisar piadas é uma espécie de tarefa impossível ou de missão inútil. É como dissecar uma mulher bonita ou empalhar raios de sol.

Millôr Fernandes já teve um espaço no Pasquim em que ele reproduzia um cartum qualquer e depois o analisava, sempre começando com: “Evidentemente...” Eram gozações, como se um marciano que nada soubesse da nossa cultura e do nosso modo de ver as coisas quisesse analisar o comportamento de personagens de um cartum.

Mas eu tenho um princípio ideológico que não respeita nem o humor. É esse: “Se achar bom, pare e questione: Por que foi que eu achei bom? Se achar ruim, idem. Se achar engraçado, idem: Por que foi que eu ri?”

Vejam esta piada. Uma menina chega correndo ao quartel dos bombeiros. “Moço, me ajuda, minha casa está pegando fogo!”. O bombeiro responde: “Fique calma! Como surgiu o fogo?”, e a menina: “Na Pré-História, eu não sei exatamente, mas me ajuda por favor!!!”.   Eu ri, mas depois de rir eu sempre faço a pergunta: por que foi que eu achei graça?

Reexaminar suas emoções e reações durante um fato, mesmo fato bobo como uma piada, é um talento que qualquer um pode desenvolver. Ninguém nasce sabendo. Quando li essa piada, ainda há pouco, eu senti um misto de deboche e de piedosa ternura em relação à menina. A casa dela está pegando fogo, mas ela parece viver tão preocupada com as notas da escola que reage à pergunta do bombeiro como se fosse uma pergunta de um professor.

Toda piada (como toda história de mistério, segundo Isaac Asimov) se baseia em um elemento que pode ser visto ou interpretado de maneiras diferentes por diferentes pessoas. Esta piada surgiu quando alguém pensou nos dois sentidos possíveis da frase “como surgiu o fogo?”. Essa frase é o núcleo da piada.

E percebemos que de certo modo nós estamos atribuindo mais gravidade ao incêndio da casa do que a própria menina. O que lembra a frase de Ernesto Sábato, que volta e meia eu cito: “Enquanto o mundo for mundo, sempre haverá um homem que se preocupa com o universo enquanto sua casa pega fogo, e uma mulher que se preocupa com sua casa enquanto o universo pega fogo”.
 
No breve instante da “punchline”, a menina atribuiu valores equivalentes a um e a outro.

O que é tocante e nos enternece é ver o funcionamentozinho da mente ingênua, porque no estado de alarme da garota ela responde como se fosse a coisa mais natural do mundo, ao dar um alarme de incêndio para o bombeiro, ele lhe fazer uma “pergunta de prova oral de História”.

No mundo dela, é melhor responder ao que os adultos perguntam, mesmo que as perguntas deles pareçam uma coisa totalmente inadequada à gravidade da situação.






domingo, 9 de junho de 2013

3208) Fantasia tecnológica (9.6.2013)




Há muitas maneiras de classificar os gêneros literários, e de acordo com o sistema de classificação, a mesma obra pode pertencer a gêneros diferentes. (É como na Física Quântica – mudou o parâmetro de observação, muda o resultado, ainda que o fenômeno seja o mesmo.) 

Vejam Star Wars. É ficção científica, se julgarmos pela presença de espaçonaves, robôs, voos interplanetários. Mas de ciência, mesmo, tem pouquíssima coisa ali. Asimov brincava (afetuosamente) com a série dizendo que ela era a respeito das batalhas de aviões da I Guerra Mundial.

Se começarmos a ler romances à procura de obras que empreguem o método científico (observação, dedução, indução, experimentação, uso do raciocínio lógico) talvez cheguemos à conclusão surpreendente de que o romance policial (o de mistério detetivesco) costuma ser muito mais científico do que a maioria da ficção científica.

Esta se baseia largamente em outras coisas: aventura, imaginação fantástica, plots reciclados da mitologia e das lendas clássicas. Ciência, mesmo? Só na obra de radicais como Greg Bear, Greg Egan ou Gregory Benford (não sei o que têm os Gregs para serem tão cartesianos).

Nos romances de detetives o que vemos é uma aplicação constante, minuciosa e inflexível da lógica científica. 

Indícios são recolhidos e examinados. Detalhes fora do comum são observados e registrados. Hipóteses são formuladas, e, quando é o caso, testadas. Cada hipótese deve ter uma resposta satisfatória para explicar cada indício recolhido (se a vítima foi estrangulada mas há uma mancha de sangue no teto, tem que haver uma explicação para ela).

Um detetive como Philip Marlowe ou o Comissário Maigret não é um físico nem um químico, mas costuma raciocinar com o mesmo rigor, e até mais, se considerarmos que ele lida com as imprevisíveis emoções e reações humanas, para as quais não existem as regras quase absolutas que vigoram nas Ciências Exatas (que aliás são cada vez menos exatas quanto mais as vemos de perto, como sabe quem as pratica). 

O detetive examina indícios em torno de um fato anormal e os compara com a normalidade, para tentar entender o que aconteceu. É tão científico quanto um médico avaliando um paciente novo ou um mecânico de oficina abrindo o capô de um carro que acabou de chegar via reboque. O pensamento que põem em prática é o pensamento científico, com todas as suas vantagens e suas limitações. 

Se procurarmos esse pensamento fora da FC hard, será difícil encontrá-lo, principalmente no cinema. O que existe ali é o bom e velho pensamento mágico revestido de aparato pseudo-tecnológico, pois a maioria daquelas máquinas não funcionaria no mundo real.


sábado, 8 de junho de 2013

3207) Traduzindo Bovary (8.6.2013)




Por que motivo uma obra literária tem que ser traduzida cinco, dez, vinte vezes? A explicação mais à mão é que as traduções anteriores não ficaram boas, e é preciso superá-las, fazer algo melhor. Esse “melhor”, contudo, nunca é unânime. Um livro tido como intraduzível como o Ulisses de Joyce já tem três traduções brasileiras, as de Antonio Houaiss, Bernardina Pinheiro e Caetano Galindo. Cada uma é uma maneira diferente de contar a mesma história.  As anteriores não são boas? Por que não? São apenas maneiras diferentes de dizer. Há leitores, inclusive, para quem o capítulo “X” ficou melhor na tradução de Fulano e o “Y” na de Sicrano. Questão de afinidade com certos estilos, certas propostas linguísticas.

Li uma matéria (http://nym.ag/d20hEK) sobre numa recente tradução em inglês de Madame Bovary, feita por Lydia Davis, que já traduzira Proust (Du coté chez Swann). Flaubert era um perfeccionista neurótico, obsessivo. É lícito imaginar que se ele folheasse qualquer tradução de um livro seu cairia ciscando. Para que traduzir um autor assim? Cada tradutor imagina que entendeu a intenção dele e é capaz de reproduzi-la em sua própria língua. E, afinal, a prosa é mais maleável do que o verso. Traduzir um romance é como fazer a versão de uma canção com licença para mudar a melodia.

Lydia Davis reclama da mania dos tradutores de colocarem coisas que não havia no original. Mostra uma página cheia de marcas a lápis e diz: “São coisas que o tradutor inglês adicionou: ‘dawdled’, ‘slowly’, ‘for their meeting’, ‘pirouetting’, ‘thronging’...” Palavras adicionadas para “esquentar” uma descrição ou para ajudar o leitor a entender melhor o trecho. Ela parece ser da Escola Caxias de Tradução: a editora Viking a fez redigir uma introdução onde explica uma porção de detalhes como letras maiúsculas inexplicáveis, ou tempos de verbo que não batem entre si. Estão no original, e ela insiste em reproduzi-los assim.

Isto é certo? É errado? Michael Dirda, citado na matéria, dizia que se a gente sacudir as páginas de Madame Bovary não cai nada. Que tradução humana pode dizer o mesmo? Temos o direito de tirar o que tinha, botar o que não tinha, com a mera intenção de dizer o que o autor disse? Podemos corrigir as incoerências ou discrepâncias do autor? É certo desmanchar um parágrafo inteiro e refazê-lo de outra forma, porque não está no espírito da língua portuguesa dizer as coisas daquele jeito? Ninguém sabe a resposta, porque resposta não existe, existe somente a necessidade de continuar tentando, e que cada tradução, longe de apenas “superar” as anteriores, aprenda algo com elas.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

3206) Era mentira (7.6.2013)




Era mentira quando eu disse que estava tudo bem, entre buzinas e pregões de rua, só falei isso porque não é na fila da bilheteria de um cinema, ainda mais um filme-família diet, que a gente começa a confessar a maior encrenca, a maior rebordosa, o maior mico-assassino em que se meteu nos últimos quatro anos ou cinco séculos. 

Era mentira também quando eu disse que estava tudo mal, que estava tudo um desastre, uma catástrofe, um fim de mundo, porque a verdade, a verdade espremida nos bicos-de-Bunsen da autoanálise, a verdade concentrada nas centrífugas dos batebocas, é que tudo na vida se conserta, tudo hoje em dia se varre para baixo dos tapetes de Penélope, tudo hoje em dia se releva com um drinque e um armistício, desde que a gente solte a pressão, mantenha a cabeça fria, resolva as duas ou três coisas mais urgentes e vá negociando as outras, afinal, quantas vezes na vida não fazemos isso?

Também era mentira quando prometi contar tudo, mentira, ninguém conta tudo, primeiro porque se considerarmos a sério ninguém sabe da missa um terço, segundo porque contar tudo exigiria do ouvinte tímpanos de asbestos e autocontrole de ninja masoquista, terceiro porque nunca jamais se deve puxar a alavanca que abre a comporta do silo de palavras derramando os bilhões de fonemas que soterrarão o indefeso.  

Se era mentira, e era, era o caso mais deslavado de mentira piedosa, minto para proteger e salvar, minto porque a corrente 220 da verdade reduziria qualquer um a perplexidade e pó fumegante. Quem foi que disse que mentira é pecado, que mentira é crime? Tragam-no à minha presença e eu o esfrangalharei em átomos com a descarga impiedosa de certas verdades que me virão à mente.

Era mentira e pronto, era mentira e daí? Tudo é mentira, miragem, ilusão de ótica, ilusão de ética, realidade virtual, computação gráfica, photoshop, cirurgia plástica. Tudo que você vê em volta é mentira, porque a verdade é quente demais para pegar, pesada demais para conduzir. A verdade é um trambolho, é um cisco no olho, é um elefante branco na sala de visitas, um jequitibá que cresceu na grande área de um campinho de futebol.  A verdade é intrusa, é confusa, é inconveniente, é desnecessária, é persona non grata, porque a verdade dói, adoece e mata. 

Era mentira, então esqueça e relaxe, siga em frente, faça de conta que já passou, aprenda a conviver com isso, me deixe aqui com a voz tranquila e meu rum montila. Foi mentira e dane-se, foi mentira e tanto faz, porque o mundo vai acabar de qualquer jeito. Afaste a mão, não venha não, solte a minha mentira, não mexa, não bula, não acorde, mentira adormecida arreganha os dentes mas não morde.









quinta-feira, 6 de junho de 2013

3205) Aqui no Brasil (6.6.2013)




Ver o Brasil pelos olhos dos estrangeiros é uma atividade educativa, divertida, surpreendente. Coisas que nem sequer enxergamos chamam a atenção deles como se fosse um palavrão num outdoor. Uma dica de Humberto Werneck me levou ao blog do francês Olivier Teboul, que faz (aqui: http://bit.ly/10SzdnQ) uma série de comentários bem humorados.

Diz ele a certa altura: “Aqui no Brasil , as pessoas acham que dirigir mal, ter trânsito, obras com atraso, corrupção, burocracia, falta de educação, são conceitos especificamente brasileiros. Mas nunca fui num país onde as pessoas dirigem bem, onde nunca tem trânsito, onde as obras terminam na data prevista, onde corrupção é só uma teoria, onde não tem papelada para tudo e onde tudo mundo é bem educado!” Olivier acha que, embora otimistas e alegres, nós brasileiros temos um complexo de inferioridade, especialmente em relação aos EUA. Achamos que só quem tem esses defeitos somos nós, e que o resto do mundo civilizado é livre deles.

Diz também: “Aqui no Brasil, não se assuste se estiver convidado para uma festa de aniversário de dois anos de uma criança. Vai ter mais adultos do que crianças, e mais cerveja do que suco de laranja. Também não se assuste se parece mais com a coroação de um imperador romano do que como o aniversário de dois anos. E ‘normal’.” Neste ponto eu sou meio estrangeiro. Nos últimos 20 anos, as festas infantis parecem, sim, a coroação de pequenos Calígulas onipotentes. Depois se queixam.

Pequenos detalhes significativos: “Aqui no Brasil, o polegar erguido é sinal pra tudo : ‘Tá bom?’, ‘obrigado’, ‘desculpa’.” Uma linguagem universal que nos ajuda muitíssimo a amenizar os “quatrocentos golpes” com que incomodamos os outros no dia-a-dia. Outro detalhe pitoresco: “Aqui no Brasil, os casais sentam um do lado do outro nos bares e restaurantes como se eles estivessem dentro de um carro.” Concordo com o francês. Se eu sento numa mesa com minha mulher, quero ficar de frente para ela, olhando para ela. A maioria das pessoas senta de lado, “como se estivesse num carro”...

E outra constatação saborosa: “Aqui no Brasil, quando você tem algo pra falar, é bom avisar que vai falar antes de falar. Assim, se ouve muito: ‘vou te falar uma coisa’, ‘deixa te falar uma coisa’, ‘é o seguinte’, e até o meu preferido: ‘olha só pra você ver’. Não percebemos nossos cacoetes de linguagem. Precisamos de um olho externo para registrar sua existência e sua aparente falta de sentido, um sentido que é lingüístico mas que não é verbal. São palavras cuja função não é dizer alguma coisa, mas fingir que alguma coisa está sendo dita enquanto pensamos em alguma coisa para dizer.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

3204) Medo (5.6.2013)





Há quem diga que eu sou medroso, mas não sou medroso, sou precavido. Se eu fosse medroso eu não teria coragem – para dar um exemplo – de abrir gavetas. Mas eu abro gavetas: apenas costumo abri-las muito devagar, para não correr o risco de puxá-las além da conta, fazer com que escapulam de dentro do móvel e derramem todo seu conteúdo (talheres, documentos, o que for) no chão. Todo mundo já deve ter passado por isso – puxar demais uma gaveta e fazê-la tombar no chão, derramando tudo. Eu, não. Nunca me aconteceu. Porque sou medroso? Não: porque sou precavido. Por isso quando preciso abrir uma gaveta, eu abro muito lentamente. Não é problema meu se isso exaspera as pessoas que estão esperando e olhando o relógio de minuto em minuto.

Medo de centopéias, por exemplo: tenho, mas quem não tem? Vou lhe dizer quem não tem: quem nunca viu uma centopéia de verdade subindo ao longo da pele do braço, deixando marquinhas nele com aquelas perninhas ósseas, enquanto o ferrão vai sendo preparado. Isso nunca me aconteceu, mas só por isso eu sou medroso? Conte-me outra. Medo de guerra, de guerrilha, de revolução, de ditadura, de pau-de-arara? Não preciso ter. Medo de vampiro? Eu rio de vampiro. Vampiro que tenha medo de mim. Medo de tempestade, de tornados, de que a minha casa afunde como se fosse um navio, nada disso eu tenho. Medroso, eu? Hah.

Medo de quebrar um incisivo da frente se um dia eu estiver bêbado e cismar de abrir uma garrafa de cerveja com o dente? Não tenho. Medo de descobrir que sou filho adotivo, e que meu verdadeiro pai é aquele mendigo cheio de feridas que me faz atravessar para a calçada oposta à dele? Não tenho. Medo de ET, medo de abominável homem das neves? Não tenho. Medo da polícia? Tenho, mas, volta a mesma questão, quem não tem medo da polícia? O crime organizado, talvez, mas eu não sou o crime organizado. Medo de barata, de tubarão, de vírus Ebola? Não tenho. Medo de ficar pobre? Não tenho. Tenho medo de ficar rico. Não saberia administrar esse problema.

Não tenho medo de régua, de alicate, de pé de alface, de ar condicionado, de preposição, de guaxinim, de açúcar, de chapéu panamá, de paliteiro, de caldo de cana, de videotape. A maioria das coisas não me causa medo. A maioria dos medos alheios me faz rir, ou na verdade me dá vontade de rir mas me faz balançar a cabeça, compreensivo, e murmurar uma solidariedade vã.  Guardo meu medo para uma meia dúzia de coisas que me espreitam à distância, que começam a se mover somente quando adormeço, que esperam uma oportunidade, quando estou bem descontraído e arrogante, para encostar seu alfinete em meu balão e sussurrar: “Não tenha medo, eu estou aqui”.



terça-feira, 4 de junho de 2013

3203) O sucesso errado (4.6.2013)




(Conan Doyle, por Charles Burns)




Muitas vezes um artista e o seu público têm opiniões diferentes sobre o trabalho dele. Ele quer ser reconhecido como o autor de “A”, mas o público só se interessa por outro trabalho dele, “B”, a ponto de irritá-lo. 

Às vezes um artista de muito sucesso popular tenta se blindar dizendo que na verdade gostaria de ”fazer algo mais sério”, por exemplo – ser artista de vanguarda. George Lucas diz que o sucesso de Star Wars o pegou de surpresa, e que na verdade gostaria de estar fazendo filmes cabeça para passar no circuito universitário. 

Caetano Veloso diz no livro Verdade Tropical que seu melhor disco, o que exprime o que ele gostaria de fazer, é Araçá Azul, seu disco mais experimental, e o mais rejeitado pela crítica e pelo público.

Lendo sobre Mark Twain, o criador de heróis popularíssimos como Tom Sawyer e Huckleberry Finn, além de inúmeros contos de humor lidos e relidos há mais de um século, vi que ele escreveu um livro chamado Personal Recollections of Joana of Arc (1897) que ele considerava sua obra prima. Não só ele: seu amigo William Dean Howells e seu biógrafo Albert Pigelow Paine diziam tratar-se de sua “suprema expressão literária”, o livro que iria imortalizá-lo. 

Ninguém conhece esse livro hoje; eu mesmo, que leio Twain há 50 anos, não sabia sobre ele. Sumiu. Ninguém se interessou, por melhor que seja.

É um caso parecido com o de Conan Doyle, que queria ser o continuador dos romances históricos de Walter Scott, e pode-se dizer que o conseguiu, com excelentes romances medievais (Sir Nigel, A Companhia Branca), sobre a época vitoriana (Rodney Stone), a corte de Luís XIV e a migração dos huguenotes para as pradarias da América (Os Refugiados), as fanfarronices e a coragem dos oficiais napoleônicos ("Brigadeiro Gerard”). Escreveu excelentes romances de FC (O Mundo Perdido, O Veneno Cósmico). 

Mas o público não queria saber disso. Só queria saber de Sherlock Holmes, o que irritava profundamente o escritor.

Estes exemplos parecem dizer que um artista nem sempre é o mais lúcido avaliador do próprio sucesso. Para Doyle, era mais importante se firmar como o continuador escocês de uma forma de literatura criada (em grande parte) por outro escocês (Walter Scott) do que ficar inventando mistérios banais para serem decifrados por Sherlock. 

Ele conseguiu seu objetivo de inscrever seu nome na literatura do século 19. O público foi quem acabou desviando sua obra e sua fama noutra direção, porque com o detetive de Baker Street ele ajudou a fundar, meio sem querer, e sem dar-lhe muita importância, o romance policial, o gênero mais popular do século 20.








domingo, 2 de junho de 2013

3202) A Vida e os Tempos de Karla Perestroika (2.6.2013)




Cap. 1 – De como a menina nasceu de oito meses, e os pais, pegados de surpresa, acabaram registrando-a com o primeiro nome que lhes veio à cabeça diante de uma TV ligada no Jornal Hoje.  

Cap. 2 – De como aos 12 anos a menina viu um balé na TV e decidiu que iria ser bailarina. 

Cap. 3 – De como logo na primeira aula de balé ela surrupiou o celular vistoso de uma amiguinha e, com medo de ser descoberta, pulou na carroceria de um caminhão que seguia para Recife e saltou em Caruaru.  

Cap. 4 – De como a menina foi recolhida pela esposa do dono da um posto de gasolina, comovida com o fato dos pais dela terem morrido num acidente de carro deixando-a sem documentos, com a roupa do corpo e um celular bloqueado.  

Cap. 5 – De como ela afirmou, entre outras coisas, chamar-se Maria de Lourdes da Silva, um nome poético com o qual sempre sonhara quando as coleguinhas da escola zonavam com seu nome verdadeiro.

Cap. 6 – De como Maria de Lourdes tornou-se garçonete, depois atendente de camioneiros no quarto dos fundos, depois esposa do dono do posto quando a primeira esposa morreu, depois dona do posto quando o marido morreu também. 

Cap. 7 – De como aos 26 anos ela resolveu que Maria de Lourdes era nome de empregada e resolveu se assumir como Karla Perestroika: “Quem não gostar, morda o cotovelo e roa!”. 

Cap. 8 – De como Karla Perestroika vendeu o posto por uma pequena fortuna, esquiou em Bariloche, acampou na Chapada dos Guimarães, cantou seresta em Olinda, nadou em Cancún, até que um oficial de justiça bateu na porta do motel e ela descobriu que tinha gasto o dobro do que lucrara. 

Cap. 9 – De como no caminho para a delegacia ela convenceu o oficial de justiça a voltar para o motel; e dos argumentos que empregou.

Cap. 10 – De como os dois se amigaram pra valer, fugiram para Londrina e montaram ali uma papelaria e um fliperama.  

Cap. 11 – De como constataram, no balanço do fim do ano, que o fliperama dava ainda menos grana do que a papelaria.  

Cap. 12 – De como Karla achou nas coisas de Jessé (o namorado) um livro de Sartre e descobriu o que era crise existencialista. 

Cap. 13 – De como ela raspou a cabeça (a de Jessé também), vendeu tudo que os dois tinham, doou o dinheiro ao Greenpeace, recolheu-se a um mosteiro carioca, praticou meditação transdimensional, alcançou o Nirvana, deixou-se embeber pela Serena Luz, fractalizou as vibrações do seu corpo etéreo e transcendeu o meramente físico, infelizmente sem a companhia de Jessé, que ficava a sacudi-la pelo ombro e a dizer que tinha um oficial de justiça tocando a campainha e cobrando os encargos trabalhistas atrasados da papelaria.