segunda-feira, 15 de abril de 2013

3161) Executivos zumbis (16.4.2013)





Um título assim é muito sugestivo para uma comédia de terror, mas a história por trás dele, além de real, é muito pouco cômica. “Zombie Executives” é o termo que está sendo adotado nos EUA para designar CEOs, diretores, etc. de empresas que, mesmo quando a empresa vai mal, não podem ser demitidos.

Numa empresa que tem acionistas, estes votam periodicamente para os cargos de direção e, se o desempenho dos atuais diretores é considerado insatisfatório, eles são substituídos. Afinal, é o dinheiro dos acionistas que eles estão administrando. Ou seja: as empresas funcionam mais ou menos como as repúblicas democráticas dizem funcionar. Votamos em prefeitos, governadores, presidentes, etc., e quando achamos que uma determinada equipe não está cuidando bem das coisas, votamos em seus adversários.

Mas no mundo corporativo norte-americano o bicho está pegando. Numa matéria no “NY Times” (http://nyti.ms/1102n32) James B. Stewart diz conhecer pelo menos 41 casos em que os diretores perderam direito ao cargo por ter recebido menos de 50% dos votos de confiança dos acionistas, mas que mesmo, assim continuam a exercê-los, baseados em firulas legais. Uma delas é o uso do chamado “sistema de pluralidade”, em que os diretores concorrem sem oposição e basta terem um voto para serem eleitos. Em outros casos, como na Iris International (empresa da área médica, na Califórnia) os acionistas rejeitaram todos os 9 diretores numa votação em maio de 2011. Os diretores renunciaram coletivamente aos seus cargos e ao mesmo tempo rejeitaram essa renúncia; e continuaram à frente da empresa.

Stewart dá nomes a muitas delas: Loral Space & Communications, Mentor Graphics, Boston Beer Company, Vornado Realty Trust, Chesapeake Energy, Oklahoma State University, Union Pacific… Em alguns casos os CEOs tiveram 70% de rejeição, mas os acionistas – teoricamente os donos da empresa – não conseguem mandá-los embora.

Filmes comentados aqui (Trabalho Interno, Margin Call), etc., mostram a ilimitada arrogância, ambição e desonestidade com que muitos indivíduos em cargos desse tipo afundaram a economia dos EUA, e por tabela a do mundo, no abismo em que estamos atualmente. (Acha que a crise passou, caro leitor? Pergunte aos seus netos daqui a uns tempos.) Quando alguém chega ao Poder, a primeira coisa que faz é mexer em estatutos, regimentos, etc. preparando uma brecha para se perpetuar legalmente no cargo. Os norte-americanos estão cada vez mais reféns de uma geração de Zumbis de Terno Armani, que sabem que serão a última geração de bilionários do planeta, e que por isso mesmo pretende fazer a banda tocar até este Titanic desaparecer no plâncton.



domingo, 14 de abril de 2013

3160) A ética de Bombaim (14.4.2013)




Estou lendo aos poucos, sem pressa de terminar, o enorme Bombaim: Cidade Máxima de Suketu Mehta (Companhia das Letras, 2011, 583 pags.). Você acha que o Brasil tem problemas, caro leitor? Não direi que não tem, mas peço que imagine os problemas da Índia, que em alguns aspectos parece muito com nosso país, só que tem 1,2 bilhão de pessoas amontoadas num território com menos da metade do nosso. 

Suketu Mehta foi criado em Bombaim, morou em Nova York, e voltou para sua cidade natal, agora chamada de Mumbai, para escrever sobre a Bombaim que tinha conhecido. O livro é uma reportagem panorâmica sobre favelas, terroristas, políticos, travestis; sobre o trânsito, a moradia, o crime, a arte, o transporte. Bombaim, com 20 milhões de habitantes, tem uma das maiores densidades populacionais do mundo.

Mehta voltou a sua cidade e se assustou com o que lhe acontecera em apenas 21 anos. As filas são gigantescas e estão por toda parte. Ninguém respeita o espaço alheio, o direito alheio. Para conseguir o serviço mais banal ou o direito mais elementar é preciso ser amigo de alguém, ou subornar um funcionário. Diz ele: 

“Um homem que ganhou dinheiro de modo desonesto é mais respeitado do que um que ganhou dinheiro trabalhando, porque a ética de Bombaim é a da ascensão rápida e a fraude é um atalho. Uma fraude demonstra bom senso comercial e agilidade mental. Qualquer um é capaz de trabalhar duro e ganhar dinheiro. O que há de admirável nisso? Mas uma fraude bem executada, isso, sim, é uma beleza”.

Nos EUA, Mehta absorveu o estilo norte-americano, que oscila entre o sossegadamente-pacato e o politicamente-correto. Ao voltar para sua cidade, sentiu-se (e foi tratado) como um estrangeiro. 

“Brigamos para conseguir descontos que não têm valor algum para nós: dez rupias são apenas 40 cents. Se perdermos 40 cents em Nova York, jamais perceberemos; aqui é uma questão de princípio. Isso porque, quando somos roubados em dez rupias, os outros tiram suas conclusões: não somos daqui, não somos indianos, por isso merecemos ser roubados, pagar mais do que eles. Portanto, levantamos a voz e exigimos que nos cobrem o preço correto, o que está no taxímetro, pois não agir assim equivale a aceitar a condição de estrangeiros. Somos indianos e vamos pagar preços indianos!”.

Toda sociedade dividida é assim; o que dizer da Índia, suas castas, suas centenas de etnias e/ou religiões? O pesadelo de abundância e de miséria existente na Índia parece um Brasil elevado ao quadrado. A Bombaim/Mumbai deste livro dá arrepios, ao pensarmos que estamos lendo a história de nossas metrópoles dentro de mais uma década.






sábado, 13 de abril de 2013

3159) "Privilégio" (13.4.2013)





Na filmografia sobre rock, este filme de Peter Watkins (Privilege, 1967) é um título obscuro, um desses filmes que eu às vezes imagino ser a única pessoa que assistiu. Consegui agora uma cópia; e lamento que ele não seja mais conhecido, porque é um momento importante numa linhagem de filmes que exploram o potencial fascista, controlador, orwelliano do rock-and-roll. Em meu livro O Rasgão no Real (Ed. Marca de Fantasia, João Pessoa, 2005) coloquei-o numa lista que incluía Tommy de Ken Russell (1975), Pink Floyd – The Wall de Alan Parker (1982) e This is Spinal Tap de Rob Reiner (1984). Filmes que fazem com o rock o que os livros de Richard Dawkins fazem com a religião. Precisa ter muita fé pra continuar gostando.

Watkins ficou famoso com seu filme The War Game (1965), chamado de “docudrama” pelo seu estilo semijornalístico de contar uma história. “Privilégio” também utiliza esse artifício, mostrando-se como uma reportagem de TV sobre o roqueiro Steven Shorter, entrevistando seus empresários, assessores, etc., e cobrindo jornalisticamente tanto os seus shows quanto as reuniões do seu “staff”, coquetéis, entrevistas coletivas, etc.

Shorter, interpretado pelo cantor Paul Jones, tem, curiosamente, aquele misto de fragilidade, obstinação e angústia que transparecia muitas vezes em Ayrton Senna, com quem se parece fisicamente. Existe algo de caricatural na expressão continuamente sofrida do ator, mas a verdade é que ela corresponde de perto a sua “persona” no palco (que envolve encenações masoquistas, com ele sendo preso, algemado, espancado pela polícia, etc.).

Há uma cena hilária em que ele aparece num comercial de TV (na verdade uma propaganda do Ministério da Agricultura) incentivando a população a comer maçãs. É um troço extremamente kitsch, mas não muito diferente de várias coisas que os Beatles estavam sendo obrigados a gravar na mesma época. O melhor do filme são as sequências em que Shorter se torna garoto propaganda da Igreja, numa campanha conjunta com o Governo, para induzir os jovens ao conformismo político, com cenas que (li em alguma parte) são minuciosamente copiadas de O Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl. Alguns críticos viram nele uma premonição da Inglaterra de Margaret Thatcher.

Há poucos filmes críticos sobre o show business roqueiro. Este é um dos melhores, mesmo com um ritmo narrativo meio lento e interpretações nem sempre firmes dos atores. Ele mostra, no auge do rock britânico, as manipulações de bastidores, o comportamento cego-em-tiroteio do popstar, e a terrível elite de múmias-de-rapina que veste batina ou terno e fatura em cima da histeria das mocinhas adolescentes.



sexta-feira, 12 de abril de 2013

3158) A Voz e a Eletricidade (12.4.2013)




A literatura e a poesia sempre dependeram da voz, com exceção dos breves 500 anos após a invenção da imprensa. 

Antes da imprensa, quando os livros eram escritos à mão, palavra falada e palavra escrita pelo menos lutavam pau-a-pau pelo poder. 

Na Antiguidade e na Idade Média livros eram coisas muito caras. Somente quem tinha uma certa grana podia comprar a cópia de um livro para tê-lo em casa, ou podia pagar um escriba para copiá-lo. Poemas e textos circulavam, sob forma escrita, mas sua circulação oral era certamente grande.

A invenção da imprensa abarrotou o mundo de livros de papel, mesmo que em seus primeiros anos os livros impressos também fossem um luxo de quem podia pagar. Mas não importa; a palavra escrita tornou-se sinônimo de cultura. E ainda hoje vivemos isto. 

Se alguém tem uma sala cheia de livros, achamos que é um intelectual, mesmo que ao falar ele revele ser uma besta quadrada. E se alguém nos diz que não sabe ler nem escrever, pensamos de imediato que é um sujeito burro, quando às vezes é mais inteligente e bem informado do que nós (e sabe mais poemas de cor).

Quem resgatou a Poesia da Voz foi a eletricidade, a partir do século 20, com três invenções decisivas: o rádio, o disco e a televisão. 

Com a ajuda desses meios a palavra falada ultrapassou a palavra escrita em importância, inclusive pelo fato de que isso coincidiu com a explosão das populações. Em muitos países, como no Brasil, milhões de pessoas passaram a ter acesso a esses três canais de comunicação sem nunca terem lido um livro. 

Do ponto de vista poético, o século 20 foi o Século da Canção. Nunca essa forma de arte foi tão cultivada, tão disseminada e teve um papel tão grande (maior que o romance, o conto, o poema escrito, etc.) na formação das pessoas, no seu lazer, na sua convivência, no seu entendimento do mundo.

O que ocorre agora com a Cultura Digital Eletrônica é uma mistura desses acontecimentos cruciais, a popularização da palavra escrita pela imprensa e a massificação da palavra falada pelos meios elétricos. 

Na Cultura Digital, a palavra escrita se multiplica de forma incontrolável, e o mais interessante é que agora uma só tecnologia está beneficiando ambas, a escrita e a falada. 

A Voz não lucrou nada com a imprensa, a Palavra Escrita lucrou pouco com rádio, etc.; mas as tecnologias digitais, com essa espantosa flexibilidade que têm, são capazes de beneficiar igualmente a Palavra Falada e a Palavra Escrita. (Para não falar na Imagem!) 

Não é o Fim do Mundo nem é a aurora de uma Idade de Ouro, mas é um momento raro de redefinição dos alicerces da comunicação. Temos sorte de viver um momento tão cheio de novidades.









quinta-feira, 11 de abril de 2013

3157) L. Ron Hubbard (11.4.2013)







Lafayette Ronald Hubbard nasceu em 1911 e durante anos foi um dos colaboradores mais entusiastas e mais prolíficos de revistas de pulp fiction como “Unknown”, “Astounding Science Fiction”, etc. Atribui-se a ele uma das frases mais famosas da FC: “Estou cansado de escrever FC pra ganhar uma merreca. Vou fundar uma religião e ficar milionário”. Foi o que aconteceu a partir de 1950, quando ele criou a famigerada Dianética, uma mistura de psicanálise e auto-ajuda. Suas promessas de saúde mental e quem sabe até superpoderes psicológicos arrebataram um grande número de pessoas, inclusive escritores como A. E. Van Vogt, John W. Campbell, etc. Hubbard ficou mesmo milionário, mas brigas internas entre os administradores do grupo o fizeram trocar em 1952 o termo Dianética por Cientologia, uma igreja paracientífica ainda hoje em plena atividade.

A melhor coisa que já li de Hubbard é a noveleta “Fear” (1940), uma arrepiante história de horror sobre um professor universitário que constata, de repente, um buraco na própria memória: quatro horas seguidas onde ele não lembra onde estava nem o que fez. Suas alucinações “dickianas”, sua progressiva destruição psicológica, e a presença constante (diálogos que o leitor lê mas o personagem não percebe) de entidades misteriosas – tudo isto faz do livro uma curta e compacta obra-prima do gênero.

Nos anos 1980 Hubbard lançou uma “decalogia” intitulada “Missão: Terra”, dez volumes dos quais traduzi os dois primeiros (“O Plano dos Invasores”, “Gênesis Negra”). É uma mixórdia indescritível de pulp fiction dos anos 1930, prosa auto-indulgente repleta de encheção de lingüiça, e um humorismo adolescente que faz o “Mochileiro das Galáxias” soar como FC existencialista francesa. Os méritos que tem são do gênero, não do autor: aquele divertido vale-tudo imaginativo que arrasta o leitor consigo pela mera sucessão vertiginosa de peripécias, situações absurdas, reviravoltas incessantes. Os ziguezagues constantes do enredo (infelizmente travado o tempo todo por diálogos longuíssimos e descartáveis) nem nos dão tempo de questionar a burrice obrigatória dos vilões e a cascata de coincidências que não cessa de favorecer o mocinho.

A melhor herança deixada por ele foram o misto de concurso e oficina “Writers of the Future”, que selecionou e revelou dezenas de bons jovens escritores (entre eles David Zindell, Karen Joy Fowler, Robert Reed), e editou várias antologias de boa qualidade. Sua memória é preservada pela Igreja da Cientologia, uma corporação articulada e poderosa que adquiriu vida própria na zona indistinta entre religião, política e auto-ajuda.



quarta-feira, 10 de abril de 2013

3156) O último quadro (10.4.2013)






No dia em que a Revolução Descalça tomou a capital do país, Henryk  Rhysdael amaldiçoou-se pelo otimismo que o impedira de fugir. A família estava em segurança em Londres, com a promessa de que voltaria para casa quando o governo controlasse os rebeldes. Agora, por entre os vidros à prova de balas do terraço do seu bunker de banqueiro, ele via o tsunami de torsos negros superlotando as ruas, os móveis sendo arremessados das janelas, os incêndios se alastrando. Um ratatá ensurdecedor vindo do alto disse-lhe que os selvagens, além de armamento, contavam com helicópteros estrangeiros. Colado à porta blindada,  acompanhou o tiroteio no corredor. Vestiu a roupa suja de operário que guardava para uma emergência, lançou o último olhar para o duplex de 900 m2 onde fôra feliz, e desceu pelo alçapão para o apartamento de baixo, que sabia desocupado, dali para a escada de serviço, e dali, em meio à turba que saqueava tudo, para as ruas, a fronteira e o exílio.

Voltou ao país dez anos depois, numa missão humanitária para investigar denúncias de torturas por parte do governo revolucionário. Pela janela da limusine viu que os prédios ainda guardavam marcas de fogo e buracos de balas. Durante os debates, ficou amigo de um capitão do exército cujo pai lhe devia favores. Na véspera da partida, fez o pedido: queria visitar seu antigo endereço. Soube que o edifício era agora um alojamento para migrantes fugindo das epidemias do campo.

O prédio estava cercado de barracas de fruta e de peixe. No hall, eles abriram caminho por entre filas de pessoas com mochilas às costas e sacos na cabeça. Subiram pela escada; o elevador estava quebrado há dois anos. Crianças fugiram ao vê-los, escondendo-se nos apartamentos e espiando pela fresta da porta. Alguns andares tinham pintura recente, outros estavam cobertos de grafittis e de frases numa língua que ele não reconheceu.

Chegaram à cobertura. O salão estava cheio de redes armadas de parede a parede. As vidraças tinham sido arrancadas. A pérgola era agora um cercado onde cacarejavam galinhas. Cumprimentando, pedindo licença, ele percorreu os aposentos. Um quarto estava cheio de arroz até quase o teto; a porta mal abria. A suite principal era um berçário onde mulheres de seios pendidos o olharam com indiferença e cansaço. Nada restava da mobília, dos tapetes, dos quadros, mas em outra suite ele viu o milagre impossível: intacta, cobrindo toda a parede, sua reprodução (encomendada) da “Entrada de Cristo em Bruxelas”, de James Ensor. Percebendo sua emoção, um homem de uma perna só ergueu-se, apoiado em muletas, e veio ao seu encontro. “Esse aí ninguém queima”, explicou. “É bonito”.



terça-feira, 9 de abril de 2013

3155) Pelo Estado laico (9.4.2013)





Quem lê meus artigos ou me conhece pessoalmente, sabe duas coisas a meu respeito: 1) Eu sou agnóstico, não acredito na existência de um Deus nem de uma alma humana imortal; 2) Eu não me importo que outras pessoas acreditem nisso, desde que essa crença as torne pessoas melhores e não prejudique os demais. Acho a religião uma coisa importante, mas para mim (para MIM, pessoal e intransferivelmente) a Ciência fornece explicações mais sensatas sobre o Universo, o mundo e o ser humano. “Ah, mas há milhões de coisas no mundo que a Ciência não explica!”. É verdade, mas, e daí? O mundo é novo, minha gente! A Ciência mal começou!

O Brasil é uma República onde todo mundo (pelo menos no papel) tem os mesmos direitos, e que não dá preferência a uma religião sobre as demais. Dar precedência jurídica a qualquer grupo religioso – essa coisa tão subjetiva, tão alicerçada na fé, tão de-foro-íntimo, tão pessoal-e-intransferível – equivaleria a dar poder legislativo a um teoria estética sobre as demais. Permitir, por exemplo, que um gênero literário (ou um ritmo musical, ou um movimento teatral, etc.) tivesse o poder de bloquear todos os apoios governamentais aos outros. Ia ser muito engraçado ver ensaios intitulados – “O Declínio do Romance Realista Urbano no Brasil: Uma Ditadura da Ficção Científica?”.

Religião é uma coisa parecida com a Arte. Não se baseia em verdades universais, mas em crenças pessoais, acreditadas e disseminadas de início por pequenos grupos, que vão se ampliando à medida que ganham adeptos, mas que, em última análise, não têm o direito de impor sua visão sobre os demais. Não há provas consensuais de que qualquer um desses deuses (Deus, Iavé, Allah, Shiva, etc.) exista, assim como não há provas consensuais de que Picasso seja um bom pintor, Glauber Rocha um bom cineasta, H. G. Wells um bom escritor ou Pinto do Monteiro um bom repentista.

Não há como avaliar isso de modo imparcial, objetivo, distanciado. Arte e religião são certezas íntimas cultivadas por pessoas, e merecem o maior respeito. Pelo respeito que merecem, precisam ser deixadas de fora da atividade legislativa e jurídica: porque todas precisam ser levadas igualmente a sério, o que significa que nenhuma delas tem o direito de se sobrepor juridicamente às demais. O Estado brasileiro tem que ser laico em matéria de religião, como garantia de que todas as religiões terão livre curso para suas atividades; e que todas as formas de arte serão igualmente livres para criar.

Principalmente nesta época (“Oh, tempos! Oh, costumes!”) em que é muito mais fácil ficar rico inventando uma igreja do que criando obras de arte. Vamos lutar pelo Estado laico, sempre.


domingo, 7 de abril de 2013

3154) Uma crônica (7.4.2013)



Uma crônica começa a se desenrolar meio preguiçosamente. Precisa apenas de um fio de assunto, que pode ser encontrado num olhar pela janela, numa consulta à estante, na lembrança de um episódio da véspera ou mesmo no mergulho vagaroso em busca da raiz de um sentimento, como quando reagimos diante de um fato e mais tarde estranhamos nossa própria reação. 

Começa então aquele tatear de possibilidades, um jogo de redigir frases simples mas que nos deem a sensação de que uma pedra foi removida. Começa assim a crônica, frases intangíveis removendo pedras pesadas; ou então, quem sabe, como uma pérola ao contrário, um grão de areia que se abre e revela estar cheio de madrepérola por dentro.

Claro que tudo depende da paleta verbal do autor, e até de sua disposição naquele dia – a direção para onde ele foi virado pelos ventos da vida à sua volta. 

A crônica deve ter esse nome porque depende do Tempo, é um jogo de búzios verbais lançados pelo Tempo. Só poderia ser escrita assim hoje, porque amanhã os ingredientes já teriam sido outros, mesmo que o projeto original fosse o mesmo. A crônica não se sente obrigada a contar uma história. A história será bem recebida, se brotar alguma história no decorrer do processo; é uma convidada bem vinda, mas, se não aparecer, a festa acontece do mesmo modo.

O cronista é como um catador de lixo da História, ele procura o que não foi aproveitado, o que passou despercebido, o que ninguém se atreveu a comentar, o que não mereceu atenção, o que foi enxergado apenas por um lado, o que passou em branco, o que entrou pra lista negra, o que nos relatos oficiais ficou meio com uma cor-de-burro-quando-foge. 

Por outro lado, comparado aos autores de imensos murais realistas, o cronista é um cartunista, que em dois-três rabiscos resume uma vida anônima, um sentimento eterno, uma Revolução.

A crônica é plástica, é elástica, é flexível, é multiuso, é multimídia. Como aqueles monstros plasmáticos dos filmes de pesadelo radioativo, ela tudo absorve, tudo dissolve e assimila a si mesma. Pode falar de flores e de beija-flores, de armamentos e de Armageddons, de fantasmas e de malassombros, de política e de polícia, de donos do mundo e de donas de casa. 

Não pode ser definida pela sua temática, nem pela sua extensão, nem pela sua estrutura interna, nem pela emoção que provoca ou pela estante onde é colocada. Talvez seja a primeira das formas literárias, antes do Big Bang que a explodiu em gêneros; talvez seja a última, para onde fluíram todas as anteriores, a que aprendeu com todas e de todas pega algo emprestado. É a aluna prodígio da primeira fila, sempre atenta e sempre ligada, de óculos e sem calcinha.






sábado, 6 de abril de 2013

3153) O cientista Frank (6.4.2013)





Frank se considerou o sujeito mais azarado do mundo quando sua esposa o largou. Felizmente (pensou ele) tenho meu laboratório de Topologia Quântico-Temporal.  As descobertas que fiz nos últimos seis meses, e que estão sendo codificadas por meus assistentes, estão com resultados muito melhores do que os que eu previa, e o relatório está gerando uns três artigos que irão desencadear um novo “Ano Miraculoso” na ciência.

Serões e mais serões se sucediam, e ocorreu que num daqueles intervalos de descontração, que às vezes duravam duas ou três horas, Frank viu-se preenchendo cadastro num saite de relacionamentos. E considerou-se o sujeito mais sortudo do mundo quando, poucos dias depois de se pavonear nos chats, fóruns e assemelhados, descobriu que tinha uma alma gêmea. Uma modelo, muito conhecida e fotografada, mas sofrendo de solidão crônica, tédio e repulsa pelo meio dos paparazzi e do show-business. Queria jogar tudo pra cima, casar, ter uma casa bem tradicional e alegre, ter filhos... “Eu nasci de quina pra lua”, disse, numa frase-feita equivalente, o pobre Frank. “Com 68 anos, gordo, baixinho, vivendo de salário de universidade pública... e uma mulher dessa quer casar comigo”. A essa altura, Frank já conferira que a modelo existia mesmo, e uma rápida intimação ao Google lhe produziu fotos bastante animadoras.

Depois alguns meses de correspondência cada vez mais íntima, ele passou a insistir para que ela o visitasse em Oklahoma, e ela dizendo sempre que estava na ponta aérea entre Paris, Londres, Milão, Zurique e Istambul. Ele terminou de redigir o terceiro “paper” enquanto revisava o segundo e abria a revista que acabava de publicar o primeiro. Logo voltou a se achar o sujeito mais azarado do mundo, porque a prometida turnê dela pela Costa Oeste tinha sido cancelada. Teria sido o encontro dos dois face a face, certamente um jantar juntos, quem sabe mais o quê! Ela disse que ia fotografar uma campanha na Bolívia. Se ele quisesse...

O aeroporto da Bolívia parecia um posto de gasolina, mas quem disse isso foi o executivo da poltrona ao lado; para ele, que nunca saíra de seu Estado, aquilo era um mundo de pulp fiction ou de seriado de TV. O hotel era desconfortável, e na portaria ele recebeu um envelope. O bilhete explicava que a sessão fotográfica tinha sido cancelada. Que ela estava indo para Amsterdam. Mas que por acaso deixara para trás uma de suas malas. Será que ele podia ser um doce, e trazer a mala dela para Amsterdam, onde ele o esperava cheia do amor pra dar? Eu sou o sujeito mais sortudo do mundo, disse ele. Por uma mulher como essa eu faço qualquer coisa.



sexta-feira, 5 de abril de 2013

3152) Reality shows (5.4.2013)





Num artigo de 2001 sobre os “reality shows”, que ele comparava aos espetáculos sangrentos do Coliseu romano, Salman Rushdie perguntava quanto tempo iria demorar até acontecer a primeira morte ao vivo, e quanto tempo iria decorrer entre esta e a segunda. Essa pergunta começou a ser respondida, de certo modo, nos últimos dias, quando morreu um participante do programa Koh Lanta (a versão francesa do Survivor), e uma semana depois suicidou-se um médico da equipe do programa, acusado de negligência. As duas mortes não ocorreram ao vivo, diante das câmaras, mas acho que não devemos ser tão puristas. Aliás, acabará acontecendo.

Gerald Babin, de 25 anos, sentiu-se mal em 22 de março, no primeiro dia de gravação, durante um dos puxadíssimos exercícios que os participantes tinham de fazer. Foi retirado de barco da ilha onde as provas acontecem (a imprensa considerou que se o levassem de helicóptero talvez ele tivesse sido salvo), e morreu em seguida, de ataque cardíaco. A imprensa francesa, ao que parece, fez inúmeras críticas ao programa e responsabilizou o médico Thierry Costa, de 38 anos. Entre outras coisas, foi dito que a gravação continuou durante nove minutos sem ser interrompida, mesmo com o participante sentindo-se mal, e que ele ainda teria tido que dar uma entrevista antes de ser socorrido.

Uma semana após a morte de Babin, Costa suicidou-se num hotel do Camboja, pedindo que seu corpo fosse cremado e as cinzas espalhadas lá mesmo, e nunca fossem levadas de volta para a França. Numa nota manuscrita, o médico afirmou que a imprensa enxovalhou seu nome, e que nunca mais teria coragem de voltar para a França e encarar as pessoas.

Existem situações humanas tão viciadas e tortas desde a origem que todo mundo lá dentro é vítima e é culpado. Os programas tipo Big Brother que se misturam com esportes radicais ou técnicas de sobrevivência alimentam um voyeurismo doentio na platéia – aquela expectativa de que a qualquer momento vai acontecer alguma coisa séria. Não diferem muito de uma tourada, onde a expectativa do sangue e da morte (da morte humana) está implícita na fórmula. Uma morte humana ganha outro significado se existe uma câmara apontada para ela, acompanhando-a, registrando-a, preservando-a para sempre. Pouco importa se tudo foi arranjado de tal jeito que a morte, por caminhos aleatórios, acabe acontecendo; não se sabe bem quem vai morrer, como, nem quando, mas no momento em que essa morte é transmitida estamos tocando com o dedo numa medula proibida da existência. É como se víssemos o instante da fecundação de alguém; a forma mais requintada de invasão de privacidade.