sábado, 26 de janeiro de 2013

3093) O anjo e o átomo (26.1.2013)



(Salvador Dali, O anjo caído)



Eu nunca vi um anjo e nunca vi um átomo, mas, por alguma razão profunda, duvido “de graça” da existência do anjo e acredito “de graça” na existência do átomo.

A primeira proposição precisa ser qualificada para não gerar mal entendidos. Jamais duvido da existência do anjo como um produto da nossa cultura, um personagem, uma criatura composta de lendas e imagens. Um anjo existe tanto quanto um elfo, um vampiro, um saci. São personagens da cultura, têm sua função, ajudam a focalizar emoções, servem de símbolo, servem de comparação, ajudam a contar parábolas e histórias... 

Enfim, são personagens que se tornaram indispensáveis na nossa cultura, pelo menos a ocidental e cristã, pois não sei se os chineses, os ianomâmis ou os aborígines da Austrália têm criaturas equivalentes.

Já o átomo, comparado com o anjo, é uma coisa muito sem graça. Quando eu era menino ele era representado como um aglomerado de bolinhas de cores diferentes (o núcleo) rodeado, em órbitas, por outras bolinhas menores (os elétrons). Nunca deixou de me inquietar a noção de que “a menor partícula da matéria” podia ser dividida em partículas ainda menores. Essa contradição filosófica nunca me escapou. 

Em todo caso, um átomo não é feito de miçangas, e sim de vibrações localizadas de energia que se atraem e repelem, e que ao longo de bilhões de anos foram se combinando em padrões estáveis (os elementos químicos).

Por que motivo acredito no que acabei de escrever aí em cima? Eu nunca vi um átomo. Vi fotos com microscópio eletrônico, mostrando espaços negros pontilhados por manchinhas luminosas. Uma coisa inconvincente; eu próprio, se me dessem um bom software de animação, seria capaz de produzir átomos muito mais verossímeis. 

Os átomos são feitos de 99,9% de vazio e 0,1% de energia. E no entanto eu acredito que eles existem, sim, e que são mais ou menos como a Ciência os descreve. (É a própria Ciência que me adverte a colocar esse “mais ou menos”.)

Nós somos convencidos por provas, mas, mais do que por provas, somos convencidos pela Narrativa que se cria em torno de qualquer coisa. 

Se a gente não gosta da Narrativa, nem as provas mais arrasadoras são capazes de nos fazer mudar de opinião. 

Se a Narrativa é convincente, as provas são mera ilustração. 

A Narrativa religiosa do anjo não me convence (o Anjo como entidade espiritual); a Narrativa científica do átomo, sim. Desde a infância a gente vai examinando as Narrativas que recebe (da família, da escola, dos amigos, dos livros), vai se afastando de umas e se filiando a outras. E passa a viver no mundo dessa Narrativa. Eu vivo num mundo onde, se Anjos existem, são feitos de átomos.






sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

3092) "Miguel e os demônios" (25.1.2013)







Lourenço Mutarelli é mais um autor migrando das histórias em quadrinhos para a literatura. Traz consigo um enxugamento de estilo e alguns recursos típicos de quem escreve para a imagem. Miguel e os Demônios (2009) é um romance curto na linha áspera e sombria de Rubem Fonseca, João Antonio, Dalton Trevisan. Cito cada um destes nomes por motivos diferentes. De Fonseca ele tem o acompanhamento do cotidiano de um polícia civil, a percepção instintiva de detalhe bizarros do dia-a-dia. De João Antonio, uma certa ambientação sórdida nos desvãos do centro de São Paulo, por entre pivetes e travestis. De Trevisan, a secura e a precisão das frases e dos parágrafos, sempre muito curtos, desbastados ao máximo.

Mutarelli parece estar escrevendo para si mesmo, com a descontração de quem escreve para quadrinhos e nem tenta disfarçar essa origem. Aqui e acolá ele dá indicações como: “Durante a corrida o celular de Miguel não para de tocar. No visor lemos Rebeca”. Essas dicas de visualização são típicas de roteiro (HQ ou cinema), e num texto mais floreadamente literário pareceriam deslocadas. Mas em Mutarelli elas se encaixam bem com a economia das frases curtas, que às vezes trazem uma ação longa e complexa comprimida em menos de uma linha. Tudo é rápido, direto, e a habilidade de Mutarelli está em misturar o tempo inteiro, nessas rajadas de parágrafos magrinhos e frases curtas, indicações objetivas (o que poderia ser visto por um observador presente à cena) e subjetivas (o que o personagem está sentindo ou pensando, uma área a que só o autor tem acesso).

Miguel é um policial separado da esposa, e tem uma namorada manicure com duas filhas problemáticas e um ex-marido perturbado. Participa de chacinas de menores sentindo-se pouco à vontade. O pai é aposentado e doente, Miguel está voltando a fumar... É uma situação meio Stephen King, e King teria sem dúvida produzido com esses elementos um romance de 600 páginas. Miguel sente-se o tempo todo como uma caldeira a ponto de explodir, e sabe que a explosão não vai poupar nenhum deles.  É um romance de sexo, prostituição, traição e culpa, acompanhando o cotidiano insuportável de meia dúzia de pessoas e as explosões cegas de uma violência alimentada por superstições. Quando os personagens cometem atos que eles mesmos desprezam, o satanismo surge como uma explicação para tudo.  Uma espécie de Teoria da Conspiração individualizada. O personagem tem a compulsão de “pecar”, quer pecar, mas não pode admiti-lo, então precisa criar uma teoria a respeito de demônios que habitam dentro dele e que o obrigam a fazer aquilo de que ele gosta tanto.



quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

3091) A tragédia americana (24.1.2013)





Os EUA parecem estar escorregando para um dos períodos mais sombrios da sua História.  Até eu, que não tenho nada a ver com isso, perco o sono às vezes por causa deles. Agora, o país atingiu mais uma vez seu limite máximo de endividamento. Esse teto agora é de 16 trilhões de dólares; vão faltar zeros no mundo no dia em que essa dívida for cobrada. Barack Obama vive fazendo um vale-tudo junto ao Congresso, pedindo permissão para se endividar ainda mais. (É o mesmíssimo caso que já encarei tantas vezes: nossa turma bebia a noite inteira, e quando chegava a conta o dinheiro não dava pra pagar. O que a gente fazia? Pedia mais cerveja enquanto procurava uma solução.)

Militarmente o país está mais encrencado do que nunca, e o fato de ter saído do Iraque é um pálido consolo diante do gigantesco fracasso militar e político desse pesadelo auto-induzido. Nas tropas norteamericanas acontece um suicídio por dia; mais soldados morreram pela própria mão do que mortos pelo inimigo. Quem é o Inimigo, então? A tragédia recorrente da América é invadir um país primitivo alegando democratizá-lo a poder de fogo, sofrer uma derrota ridícula e sair do país deixando a situação pior do que estava quando entrou.

Além disso, periga se tornar um dos lugares mais paranóicos e reacionários do mundo.  O fundamentalismo religioso deles é diferente dos nossos evangélicos do Brasil, que só querem mesmo pegar o dinheiro dos bestas. Os de lá acreditam mesmo no que dizem. Pobre América de Walt Whitman, o poeta da fraternidade, da igualdade entre irmãos, da aventura de construir um grande sonho coletivo de uma civilização simples, voltada para o trabalho manual e o cultivo do espírito. É essa América (o sonho talvez impossível dessa América, dessa nova chance de utopia para um mundo cansado de impérios armados) que seduziu jovens do mundo inteiro, quando surgiu no século 20 como uma alternativa real para a Europa com seus colonialismos e totalitarismos, seu sistema rígido de classes e clãs, sua decadência.

Os EUA são a viga-mestra do mundo como o conhecemos, e está num declínio talvez irrecuperável (dizem os próprios norte-americanos). Lá dentro ainda resistem bolsões da Ilha da Fantasia, uma espécie de condomínio de luxo cercado por arame farpado, pitbulls e seguranças com metralhadoras. Um bunker suburbano a céu aberto, um céu que antes do 11 de setembro nunca trouxe más notícias. Vamos rezar pela América. No dia em que a viga-mestra partir e ela afundar, vai criar um redemoinho tão grande que nos puxará a todos consigo para dentro do ralo. Talvez só não desça a China, que é tão grande que vai ficar entalada nas bordas.



quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

3090) A poesia e a ciência (23.1.2013)





(Martins Jr.)


Ainda com relação à palestra recente de Ariano Suassuna sobre Augusto dos Anjos, na Paraíba: Ariano fez uma menção à “Escola do Recife”, que teve um papel importante na formação do poeta do Eu. A Escola do Recife foi um movimento nacionalista e cientificista do final do século 19, concentrado na Faculdade de Direito do Recife, que reuniu intelectuais como Tobias Barreto, Joaquim Nabuco, Sílvio Romero e muitos outros. Entre os ativistas do movimento junto à Faculdade estava Martins Júnior (José Isidoro Martins Jr.), intelectual e poeta, grande leitor de ciência e de filosofia, que publicou em 1883 um ensaio intitulado A Poesia Científica. (Ver trechos aqui, em sua página na Academia Brasileira de Letras: http://bit.ly/UoGGcz).

Há influência de Martins Jr. (1860-1904) sobre a obra de Augusto. Os dois têm muito a ver em estilo, em assunto, em visão do mundo. Na sua palestra, Ariano fez uma distinção entre o talento e o gênio. Disse ele que as teorias poéticas de Martins Júnior eram brilhantes, mas que sua poesia era fraca, porque ele tinha apenas talento.  Já Augusto, segundo Ariano, tinha gênio; foi ele quem produziu a “poesia científica” que Martins Júnior teorizou e não foi capaz de criar.

R. Magalhães Jr., em sua Poesia e Vida de Augusto dos Anjos, comenta no capítulo 11 que a morte inesperada de Martins Jr., aos 44 anos, ocorreu em agosto de 1904, causando grande comoção no Recife e na Faculdade de Direito, onde Augusto já estudava. Ele registra a influência, em Martins Jr., “do evolucionismo spenceriano, do transformismo darwínico, do monismo haeckelista e do realismo científico materialista”. Ou seja, praticamente a base filosófica de onde decolava a poesia de Augusto. 

Magalhães transcreve uma estrofe de um poema de Martins Jr., onde se pode ver a tentativa de algo que Augusto, mesmo bem mais jovem, realizaria de maneira mais madura, logo a seguir: “Como coisas senis, fossilizadas, negras, / amontoam-se além as bolorentas regras / da Bíblia, do Alcorão, do Avesta e Rig-Veda. / Trôpegos, sem valor, curvos, de queda em queda, / fogem, na treva espessa, Adon, Moloque, Siva, / Ormud, Vichnu, Ahriman, Baalath...”  Augusto também evocaria muitos desses nomes místicos.

Martins Jr. defendia uma poesia que incluísse “desde a lei astronômica da atração até o evolucionismo biológico e social”. Dizendo-se discípulo de Baudelaire e de Guerra Junqueiro, criticava a poesia de sua época, a que chamava “poesia chorona”. E afirmava: “Denomino a poesia, a fórmula poética do futuro, como eu a compreendo e como eu a quero, deste modo – cientificismo filosófico, ou poesia científico-filosófica”.



terça-feira, 22 de janeiro de 2013

3089) O jeito brasileiro (22.1.2013)




(foto: Graça Graúna)


Já vi muitos depoimentos de estrangeiros sobre nosso povo, em entrevistas, pesquisas, enquetes, o escambau. As críticas que nos fazem são sempre muito parecidas, todas sobre coisas que a gente já sabe, e que em certa medida são verdadeiras: o brasileiro é acomodado, não se mobiliza socialmente para protestar, é excessivamente informal e despreza os instrumentos de controle (leis, Constituição, regulamentos, etc.). Examinar esses defeitos pode até ser interessante, mas hoje quero examinar algumas qualidades que nos atribuem.

Dizem, por exemplo, que o brasileiro é acolhedor, hospitaleiro. Será que esses povos europeus não o são? Talvez o sejam, mas de uma maneira diferente. O europeu em geral (olha que bruta generalização!) recebe super bem um desconhecido, desde que ele traga algum tipo de apresentação ou recomendação. Desde que ele tenha uma noção razoável de quem é aquela pessoa. Em todas as minhas experiências foi assim. O brasileiro, por outro lado, tende a acolher bem as pessoas com quem simpatiza, independentemente de saber quem são. Os índios são assim, não é mesmo?  Nove vezes em dez, recebem de braços abertos até aqueles sujeitos barbudos, feridentos, armados de escopetas.

Outra coisa: o brasileiro tem fé, acredita que as coisas, por piores que estejam, vão melhorar. Amigos europeus já me disseram do seu espanto diante disso. Por quê?, pergunto. Quando vocês têm um problema acham que o mundo vai acabar? Eles dizem: "Não, quando nós temos um problema temos medo de que aquela situação não dê certo e tudo comece a piorar a partir dali". Já os brasileiros dizem “deixa como está pra ver como é que fica” – e vão pensar noutra coisa.

Para muitos, isto é surpreendente, considerando-se que grande parte das pessoas que se comportam assim vivem em condições econômicas e físicas que deixariam um europeu no pior dos desesperos.  Alguém diria que o brasileiro suporta isto com otimismo por ser estóico, mas o termo “estóico” me traz à mente a imagem de um sujeito durão, de dentes trincados, suportando uma dor física aguda, ou um prolongado sofrimento mental. O brasileiro é o contrário. Ele dá a impressão de dizer: “Eu estou vendo os problemas, mas eles não fazem parte de mim. Eles são reais mas eles não são eu, e não vejo motivo para martirizar minha mente e meu corpo porque há um milhão de problemas a serem resolvidos. Se eu estiver bem, íntegro e forte em minha mente e meu corpo, encaro qualquer problema. Não vou me acabrunhar, nem me abater, nem passar o dia com todos os músculos contraídos só porque existe um problema na minha vida. Vou ficar bem.” Ficar bem já é meio caminho andado para resolver o problema.




domingo, 20 de janeiro de 2013

3088) Qualidade artística (20.1.2013)






("Resta uma questãozinha fútil", Edward Gorey)


O que mede a qualidade de um livro? Como autor, tenho o hábito maquinal de ver as coisas do ponto de vista do autor. Para a maioria de nós, a perspectiva de ter um livro lido e gostado por multidões de pessoas é uma sugestão sem nenhum defeito. Eu sou um destes, de modo que preciso de vez em quando lembrar que antes de ser autor, e depois de deixar de sê-lo, eu fui, e espero ainda ser, um leitor. Ser autor tem suas vantagens óbvias, mas ser leitor tem inclusive certas liberdades que o autor nem sempre pode ter. Um grande autor, em muitos casos, é um prisioneiro do universo que criou: Tolkien, Lovecraft, todos os outros. Já um leitor pode viver em tantos universos quantos encontre.

Como podemos quantificar o quanto o público gosta, por exemplo, de “O Morro dos Ventos Uivantes”? É um melodrama vitoriano com meia dúzia de relâmpagos góticos, e não mais que isto, mas as pessoas teimosamente mantêm esse livro em catálogo. Recentemente, Jane Austen, autora que nunca foi muito editada no Brasil, teve uma verdadeira explosão, devida em grande parte ao cinema. Pois Emily Bronte era tão famosa quanto Jane Austen hoje.

Quantificar através das edições, da venda da exemplares? É o mais cru e menos artístico dos critérios. Através de prêmios, de honrarias? Através da presença da obra (livro, filme, ópera, quadro, etc.) nas listas dos melhores, consistentemente, ao longo das décadas? Quantificar importância em função da fortuna crítica, das quantidade de obras escritas a respeito? Um olhar imparcial perceberia a persistência daquela canção ou daquele conto, dentro da memória coletiva de milhões de pessoas, ao longo de centenas de anos. Que melhor cacife literário do que ter escrito os “Sete anos de pastor Jacó servia”, a Divina Comédia, “A Pata do Macaco”?

O foco não é numérico, é descritivo. Avaliar qualidade é tentar descrever o impacto daquela obra dentro da cultura. Se foi respeitada, se foi imitada, se foi parodiada, se foi polemizada... “Se foi premiada” ou se “ficou entre as dez melhores” é interessante, mas o foco não é nisso. O foco é no impacto total na sociedade, não apenas sobre a crítica. Muitas vezes o crítico é apanhado de surpresa por uma onda artística, e isso é normal, se a onda tem mérito sabe ser convincente, sabe suportar a rejeição inicial e ir se impondo aos poucos.

O mercado de arte e o conceito de qualidade artística se parecem com um mercado de ações. Vale zero hoje, pode valer milhões amanhã, se as apostas certas forem feitas no momento certo; e vice-versa. A arte é aquele objeto, e é a fantasia fabulatória que ele extrai de nós que o explicamos. Sem nós ele não existiria.



sábado, 19 de janeiro de 2013

3087) Histórias felizes (19.1.2013)





Por que motivo a vida tranquila de pessoas felizes nunca rende uma boa história? Os manuais de roteiro norte-americanos dizem que toda história se baseia em conflito. Ótimo pretexto para que  os roteiristas façam a festa, com brigas de socos, carros explodindo, massacres com serra elétrica e sexo não-consentido. 

Em seu texto mais recente na coluna “Strokes” (http://bit.ly/ZydOmY), John Clute comenta: 

“Nós simplesmente não queremos ouvir, e poucos entre nós leem, embora alguns de nós gostem de recitar, histórias sobre pessoas boas e agradáveis que vivem vidas pacíficas, que resolvem pacificamente seus conflitos, que dão aos filhos liberdade para crescer e para participar sorridentes de estruturas poliamorosas; repelimos histórias desse tipo, embora talvez gostássemos de vivê-las, porque histórias ambientadas em mundos harmoniosos não passam de narrativas congratulatórias, elas exigem a conivência do leitor, que é obrigado a dizer que foi um luau magnífico, ficamos felizes por ter comparecido; o que significa que não se trata de histórias mas de mantras; um mundo verdadeiramente harmonioso seria um mundo desistorizado”.

Mesmo os romances utópicos trazem conflitos embutidos, em geral o conflito entre o Mundo Perfeito e a mentalidade do Visitante a quem esse mundo é mostrado. 

Na literatura utópica, o mundo feliz é um mundo onde nada acontece, a não ser diferentes formas de reiteração dessa felicidade. O conflito em geral não se dá dentro da narrativa, mas na leitura. (Caberia um estudo de como o cinema espírita, por exemplo, imagina o que é a vida no Paraíso.)

Acho que nem sempre foi assim. Talvez em culturas antigas os escritores competissem entre si para ver quem escrevia histórias mais placidamente felizes; e os leitores consumissem isto com deleite. Mas o romance moderno, de 200 anos pra cá, já foi descrito como “a saga do herói problemático”. O romance é um problema que virou história. 

Arregimentando todos os recursos verbais que tinham à mão – a narrativa, o diálogo, a digressão, a descrição, a citação/transcrição de outros gêneros, etc. – o romance tornou-se o gênero que melhor corresponde aos conflitos da sociedade burguesa. Onde a liberdade, a riqueza, a justiça e a felicidade nunca foram tão reais, mas somente pra quem pode. 

As histórias felizes não nos satisfazem porque sabemos serem intrinsecamente falsas; e a literatura popularesca descobriu a fórmula mágica – o romance problemático com um final falsamente feliz.  Com este placebo açucarado vem anestesiando a dor coletiva de bilhões de pessoas mergulhadas em conflito e frustração desde a certidão de nascimento ao atestado de óbito.








sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

3086) "O Reino de Kiato" (18.1.2013)





(capa da 1a. edição)



Entre os romances utópicos que a literatura brasileira produziu no começo do século 20, O Reino de Kiato (No país da verdade) de Rodolfo Teófilo (1853-18921932), publicado em 1922, não traz nenhuma novidade ao gênero (repete a fórmula com zelo de principiante e deslumbramento de recém-chegado), mas pode suscitar boas discussões sobre que tipo de utopia os nossos escritores enxergavam para o país. 

Teófilo foi um sanitarista que realizou em Fortaleza campanhas de vacinação contra a varíola, durante uma das mais mortais epidemias dessa doença, a partir de 1900. 

Seus romances regionalistas (que não li) parecem ter adotado a veia naturalista de descrição minuciosa de fatos desagradáveis (a doença, etc.). Em Kiato, ele vai na direção contrária. 

Seu protagonista é o cientista norte-americano John King Paterson, que mais uma vez confirma a falta de jeito dos escritores brasileiros para criar nomes em inglês, os quais nunca soam plausíveis. 

Ao viajar para a Europa a fim de divulgar um remédio que inventara para curar as neuroses, Paterson vai aportar acidentalmente numa ilha, o Reino de Kiato, onde encontra um país que resolveu todos os seus problemas, principalmente os três que Teófilo considera “fatores da degeneração do gênero humano”: o álcool, a sífilis e o tabaco.

O Brasil daquela virada de século devia mesmo ser um país insalubre, porque esses romances utópicos insistem sem parar na importância da limpeza, da higiene, da ausência de vícios. Insistem também na eugenia, no que eles chamam “o aprimoramento físico e mental da raça”. 

Os habitantes de Kiato têm mais de dois metros de altura, trabalham com alegria nas tarefas da roça, e vivem num mundo absolutamente organizado, onde as mulheres se dedicam somente às tarefas do lar, os impostos são pagos com alegria nas repartições do governo, a população obedece feliz ao toque de recolher às dez horas da noite.

É típico de certas utopias começarem, lá pelo meio do livro, a parecer distopias. 

A ânsia civilizatória de Rodolfo Teófilo o faz imaginar uma nação feliz que mais parece um pesadelo, um país onde não existe polícia porque todos os cidadãos obedecem alegremente a tudo que o Rei Pantaleão III determina. 

Por ingenuidade sociológica, os autores que imaginam sociedades perfeitas sempre criam projetos totalitários, eugênicos, higienistas e repressores. Durante o tempo que vive em Kiato, Paterson não conversa com nenhum habitante local, apenas com seu hoteleiro, William Robert, inglês como ele. É como se aqueles cidadãos felizes fossem robôs inacessíveis, ou a Utopia não passasse de um museu holográfico com o qual não fosse possível interagir.








quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

3085) O scroll e o códice (17.1.2013)




“Mestre Além tinha setenta anos mas sabia ler desde os nove, quando começou a ajudar o padrasto a conferir as entradas e saídas em sua modesta tenda, da qual dependia o pão e o futuro de cada pessoa naquela casa. 

"Das faturas e recibos passou às Escrituras Sagradas e destas à literatura. Descobriu que ler era uma maneira rápida de acumular conhecimentos e depois, numa discussão, soterrar com eles a maioria dos adversários. Não era preciso que os conhecimentos tivessem alguma importância. O diálogo humano não era vencido pelo significado das palavras, mas pelo poder encantatório de uma voz, suas cadências e ressonâncias, seus longos floreios de frases dando uma volta sobre si mesmas e laçando um nó perfeito.

“Um livro era um rio, era um fluxo, era uma fita de papel gravado que daria a volta à noite em oitenta dias. Um scroll: dois rolos giratórios, um largando, o outro colhendo, e no relâmpago de cada instante essa fita ia sendo mostrada aos olhos e depois levada para sempre. Um texto era uma linha, um cordão, um cordel, um fio de letras sem fim.  Do alfa ao ômega sem uma sutura sequer.

“E então sucedeu o inesperado. 

"Começaram-se a fazer uns livros em formas de caixa, retangulares, e lá dentro uma aberração, um livro assassinamente fatiado. Como uma pilha de retalhos que um felino raivoso rasgou. 

"Ele segurava aquelas contrafações, erguia a tampa de madeira-com-couro-ou-com-veludo e era instruído a tomar nas pontas dos dedos um canto geométrico qualquer e erguê-lo, com um movimento sempre numa mesma direção. No início esse cacos, todos parecidos, revelavam-se como que empilhados com um mínimo de senso, pois, se o que se lia em algum deles se interrompia, por uma abençoada fortuna recomeçava milagrosamente no fragmento imediatamente abaixo, e em alguns casos no verso do próprio quadrado já lido. 

"Isso lhe causou no início um pouco de medo. O livro não era mais algo contínuo que fluía como uma onda, parecia-se mais a uma justaposição de partículas, ou de padrões estáveis de energia.

“Alguns desses livros saltavam raivosos e fechavam-se sozinhos quando eram largados; outros deixavam-se abrir mansamente, e relaxavam abertos sobre a mesa, sem exigir nenhum esforço adicional.  

"Era estranho ver uma história escrita e perceber que essa história escrita não dependia de estar fluindo, se desenrolando, para acontecer. Acontecia; mesmo retalhada em quadros, em datilogramas, e mesmo que o mundo ondulado e íntegro por onde ela antes escorria já não existisse mais, aqueles recortes quadrados diziam a mesma coisa, e faziam dançar e ondular a fita luminosa de memórias que brotava num murmúrio em Mestre Além.”





quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

3084) Os monstros de Augusto (16.1.2013)






Numa palestra recente na Paraíba, num prolongamento das comemorações do centenário do Eu de Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna comentou a obra e o estilo do poeta. Lembrou que o professor de escola pública eleito como “O Paraibano do Século” morreu com apenas 30 anos, e que foi esnobado em vida por muita gente importante, inclusive Olavo Bilac, que ao ouvir falar de sua morte e ler um dos seus sonetos teria proferido a frase fatal: “Não se perdeu grande coisa”. Observou Ariano que desde então a fama de Bilac só fez cair e a de Augusto só fez crescer. Parece até que o urubu que pousara na sorte do defunto se transferiu o poeta do “Caçador de Esmeraldas”.

Ariano fez uma comparação muito perceptiva entre Augusto dos Anjos e Garcia Lorca, talvez um dos últimos poetas com quem alguém compararia Augusto. Lorca era de um vitalismo, uma exuberância, uma alegria de viver, uma sensualidade e uma extroversão que nada têm a ver com o poema do tamarindo.  Mas Ariano observou que ambos são poetas muito mais da imagem do que do conceito. Embora a poesia de Augusto abra muito espaço para o conceito (as reflexões científicas, metafísicas, etc.), ele é tão visual quanto Lorca. Igualmente hábil na conjuração de imagens inesperadas, vívidas, desconcertantes e inesquecíveis. Ariano se referiu ao famoso verso: “Somente a ingratidão, esta pantera, foi tua companheira inseparável...” e disse brincando que plagiou essa pantera de Augusto a vida inteira.

Ele citou também a quadra famosa de “Queixas Noturnas”: “Quem foi que viu a minha Dor chorando? / Saio. Minh’alma sai agoniada. / Andam monstros sombrios pela estrada / e pela estrada, entre estes monstros, ando!”. Ariano usou este verso num dos sonetos (“A Estrada”) do seu ciclo de “iluminogravuras”. Estes versos me lembram um poema dramático de Guerra Junqueiro em que um peregrino caminha pelo mundo rodeado de monstros. Cada vez que ele reza, os monstros tornam-se mais diáfanos, menos materiais, e cada vez que sua fé fraqueja os monstros se revigoram. (Não encontrei este texto na Internet – vou ter que procurar numa biblioteca de verdade.)

O verso de Augusto me sugere tanto o poema de Junqueiro quanto alguma HQ desenhada por H. R. Giger, ou um quadro de Dali. Este é o poder do poema “imagético”: evocar uma imagem sem descrevê-la. Assinalar a presença do monstro, para que o leitor caminhe entre os monstros que ele terá que evocar do seu repertório de referências. Os monstros sombrios existem na memória e na imaginação de cada um, e mesmo que os monstros que eu vejo sejam desconhecidos de Augusto, foram evocados por ele, graças à faísca de sua frase.