terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

2792) Cinema de autor (14.2.2012)



(Terry Gilliam)
 

Num texto publicado por Filmmaker, the Magazine of Independent Film, um dos meus diretores preferidos, Terry Gilliam, dá seus conselhos (um tanto heterodoxos, felizmente) sobre a arte de fazer cinema. Comentarei alguns, principalmente aqueles de que discordo. (Conselho óbvio entra por um ouvido e sai pelo outro, não é mesmo? “Tenha boas idéias... Transmita segurança diante da equipe... Não estoure o orçamento...”). 

Gilliam é um dos autores que me levam ao cinema só para curtir a desbragada e irreprimível criatividade visual dos filmes que faz. Tudo nele é exagerado, barroco, delirante, cheio de coisas que dá vontade de ficar o tempo inteiro voltando a imagem e esquecendo a história só para curtir aquele quarteirão de casas impossíveis, ou aquele figurino cheio de deliciosos anacronismos, ou aquele monstro feito de papelão e pixels. Quantos diretores há, no cinema comercial de hoje, com a mesma verve visual e a mesma sem-cerimônia? Tim Burton, Jean-Pierre Jeunet e mais alguns poucos. 


Diz Gilliam: 

“Cinema de autor já era, o que vale agora é cinema de filtro. Ser um autor de filmes é o que a gente sonhava nos anos 50 e 60, quando a idéia do cineasta autor chegou neste planeta. E as pessoas continuaram usando esse termo, e o usam com meus filmes porque acham que eles são muito pessoais, então me dão todo o crédito e dizem que sou um autor. E eu digo que não; a realidade é que eu sou um filtro. Sei o que estou tentando fazer, mas tenho à minha volta uma porção de pessoas que são meus amigos e não acatam ordens e não me dão ouvidos, mas têm idéias próprias. E quando eles vêm com uma boa idéia, se é uma que se encaixa no que estou tentando fazer, eu a uso. Assim, o produto final é uma colaboração de uma porção de pessoas, e eu sou o filtro que decide o que entra e o que não entra no filme”. 

Isso que Gilliam descreve, contrapondo ao cinema de autor, é justamente – no meu modo de ver – o cinema de autor. Um autor não é um ditador que dá ordens misteriosas, bate o chicote, e manda refazer a cena cem vezes. (Há autores assim – Kubrick, p.ex. – mas essa é uma distorção do conceito.) 

Tanto em movimentos fortemente autorais como a Nouvelle Vague e o Cinema Novo quanto nos momentos mais harmoniosos dos grandes estúdios de Hollywood (quando diretores, produtores e roteiristas concordavam em fazer o mesmo filme) o diretor não é um distribuidor de idéias de cima para baixo, mas um arregimentador de idéias em torno, um catalisador da criatividade alheia. (Mas Terry Gilliam conhece o mundo do cinema melhor do que eu, e pode até ser que o Autor Que Dá Chilique seja estatisticamente mais frequente.)







domingo, 12 de fevereiro de 2012

2791) O santo e o culto (12.2.2012)



É uma história tão espalhada por aí que pode ser considerada um mito menor. Uma narrativa cuja estrutura básica surge em diferentes culturas, em qualquer época: a vida de um sujeito cujas façanhas o tornam famoso e respeitado, e que um belo dia morre (geralmente na guerra) ou desaparece. Em torno de sua memória cria-se um culto que acaba tomando proporções inesperadas. Outro belo dia, o Herói, que na verdade não tinha morrido, reaparece. E vê com espanto (ele volta incógnito, sem que ninguém o reconheça) que está sendo cultuado de uma maneira totalmente equivocada. O futuro celebrizou uma pessoa completamente diferente de quem ele julga ser.

A novela Roque Santeiro (Dias Gomes e Aguinaldo Silva) utilizou esta situação básica, fazendo com que Roque (José Wilker), que é na verdade um espertalhão, se divirta com o culto que se criou em torno dele, endeusado como se fosse um santo. Esta parece ser uma narrativa muito presente na memória nordestina. Em Livro dos Homens, de Ronaldo Correia de Brito, acontece algo parecido: encontra-se no rio o cadáver de um homem, bem vestido, morto a facadas. Pessoas piedosas o sepultam, começam a rezar junto à cova do morto desconhecido. Isso se torna um hábito local, e daí a alguns anos aquela sepultura recebe enormes romarias de peregrinos. Um dia, alguém chega ali e descobre que a pessoa que está sendo adorada é um homem que cometeu um crime e que foi morto por vingança.

A ficção científica deu sua contribuição a este mito com Um Cântico para Leibowitz (1960) de Walter M. Miller Jr., e com Limbo (1952) de Bernard Wolfe. Neste, um cientista, Martine, é dado como morto durante uma guerra mundial. Seus manuscritos científicos, encontrados por amigos, tornam-se a base para a reconstrução do mundo futuro, onde a ânsia pacifista leva os homens a amputar os braços e pernas e substituí-los por próteses. Acontece que Martine está vivo; ele passara 20 anos perdido entre os selvagens de uma ilha remota, e quando consegue voltar para a civilização fica aterrorizado com o mundo que encontra. Fica mais surpreso, e furioso, quando descobre que esse mundo tem seus escritos (mal interpretados) como um verdadeiro Evangelho. O resto do livro é sua tentativa para destruir esse mundo do qual é o involuntário profeta.

Limbo é o único livro de FC de Bernard Wolfe, escritor que teve uma vida aventureira, tendo sido inclusive guarda-costas de Leon Trotsky no México, e é uma interessante retomada desse antigo tema. Todo culto a um morto é um mal-entendido, e em muitos casos é também uma traição a esse morto, que, se retornasse, não se reconheceria na imagem que fazem dele.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

2790) O charme das ruínas (11.2.2012)




Multiplicam-se na Internet os saites de fotos de lugares abandonados. São hospitais, hotéis, aeroportos, fábricas, colégios... Edifícios enormes e vazios, esquecidos, invadidos pelo mato, perdendo teto e paredes com a ação do vento e da chuva. 

Muitos ainda guardam resíduos da presença humana: roupas nas gavetas, quadros e fotos nas paredes, objetos pessoais ou equipamento técnico deixados em cima da mesa. 

É como se de um instante para outro todas as centenas de pessoas que moravam ou trabalhavam ali tivessem se evaporado, e o edifício, subitamente oco, iniciasse seu processo irreversível de deterioração.

Num texto antigo neste coluna (http://bit.ly/wyYHSF) escrevi sobre os fotógrafos que visitam esses lugares e captam o seu charme decadente. Um lugar em ruínas é um espaço humano esvaziado de seu conteúdo humano (do ponto de vista físico – as pessoas), e que por isso mesmo torna precioso qualquer conteúdo humano (=cultural) remanescente. 

Uma boneca de criança no chão de um hotel cheio de gente é apenas um boneco perdido que precisa ser devolvido à dona; a mesma boneca no corredor de um hotel desabitado e invadido pelo mato ganha um ar de tragédia irremediável.

Caetano Veloso observou, numa canção, que “no Brasil tudo ainda é construção e já é ruína”. Vemos num Ciep inacabado, tomado pelas ervas daninhas, um pedaço do futuro (o Ciep que iria ser concluído e estaria cheio de crianças) e do passado (em algum momento do passado o Ciep “morreu” e quedou-se entregue a si mesmo). 

Usa-se bastante hoje (inclusive na ficção científica) o termo “heterotopia”, ao que parece proposto por Michel Foucault, para designar espaços/lugares contraditórios, onde vigoram leis diferentes das que vigoram no espaço urbano comum. Um hospital é uma heterotopia; um hospital abandonado e em ruínas o é duplamente. A presença humana é ressaltada pela ausência de humanos, deixando apenas pistas espalhadas.

Como o Hotel Overlook de O Iluminado (Stephen King, Stanley Kubrick) cada uma dessas fábricas, desses aeroportos, quartéis, essas construções parecem saturadas de presenças invisíveis. E pela ameaça da intrusão do fantástico no cotidiano. Assemelham-se aos navios como o “Mary Celeste”, que são encontrados à deriva, com tudo intacto, mas sem o menor sinal dos passageiros e tripulantes. 

Cada um desses prédios nos dá o vislumbre do que será um dia nosso planeta, quando a primeira nave alienígena pousar aqui. Observarão nossas enormes construções vazias e perguntarão: “O que aconteceu com eles? Por que se extinguiram tão depressa, justo quando tinham nas mãos uma tecnologia capaz de resolver todos os seus problemas?”.








sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

2789) Endeusando livros (10.2.2012)




A imprensa está alvoroçada com a aproximação da noite do Oscar, quando os coleguinhas acompanham a premiação da Academia e se envolvem em deblaterações sobre quem merecia mais a estatueta X – se era o milionário Y ou a prima-dona Z. Impressionante como o mundo leva a sério esses prêmios. Repetidas vezes, em palestras e debates, vem gente me perguntar: “Você disse que o filme Tal é bom. Se é, por que não ganhou o Oscar?”. E olhe, não é preconceito meu contra a indústria cultural norte-americana, ou melhor, é preconceito sim, porque se o meu conceito de cinema bater de frente com o conceito deles a nuvem de fumaça vai ser enxergada lá em Hiroshima; mas tenho o mesmo preconceito com o Prêmio Nobel de Literatura (não dou palpite nos demais, não entendo), que é concedido por um grupinho de velhotes fora da realidade, e de vez em quando cai na cabeça de um bom escritor pelo simples fato de que (felizmente) o mundo é cheio de bons escritores, e muitos deles contam com boa assessoria de marketing. A relação do Oscar com o cinema e do Prêmio Nobel com a literatura é a mesma que os colunistas sociais mantêm com a população de uma cidade.

Muito bem. Encerrada a diatribe, vamos ao assunto. Concorre este ano ao Oscar este curta-metragem charmoso e delicado, The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore (http://tireotubo.blogspot.com/2012/02/curta-metragem-indicado-ao-oscar-que-e.html). É um filme de animação de técnica mista, com menos de 15 minutos, sobre um rapaz que, arrebatado de sua casa por um furacão, vai parar num lugar remoto onde os livros são criaturas vivas, que não falam mas se comunicam com ele de modos variados. Inspirado (ao que se diz) pelo tufão que destruiu a cidade de Nova Orleans, o curta é uma parceria entre o ilustrador William Joyce e o animador Brandon Oldenburg, ambos da Louisiana.

É um filme feito por quem ama os livros, para quem ama os livros. Quem não gosta de livros vai vê-lo com o mesmo misto de tolerância e desinteresse com que nós observamos as pessoas que colecionam flâmulas de time de futebol ou moedas antigas. À medida que o tsunami digital (ou, em vista da origem do curta, o Katrina digital) se ergue e invade ruas, cidades, corações e mentes, o livro vai sendo cada vez mais cultuado como objeto mítico, como símbolo, como uma mistura de criatura viva e de semideus que tem todas as respostas. Talvez o mundo digital, ironicamente, transforme o livro, daqui a um século, no objeto de um culto religioso. Estarão cobertos de inscrições sagradas como os hieróglifos egípcios, que ninguém consegue ler mas admite que contém verdades transcendentais.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

2788) A criação inconsciente (9.2.2012)



(Jon Kuta, "Schizophrenia")

Em sua palestra na revista eletrônica Edge (http://bit.ly/vmEGf8), o biólogo Mark Pagel comentou: “Eu gostaria de sugerir que os nossos processos criativos estão bem próximos de ser uma coisa aleatória. Nossos cérebros podem estar funcionando num nível subconsciente, criando idéias o tempo todo, o tempo inteiro, sem parar, e outra parte da nossa mente subconsciente está testando essas idéias. E aquelas que acabam se infiltrando em nossa consciência podem ser as que aparentam estar bem formadas, mas isto é porque elas podem ter passado através de um filtro, juntamente com uma porção de outras idéias randômicas, antes de chegar ao nosso consciente”.

Já deve haver por aí um mapeamento desse processo. Acompanhamento elétrico da atividade cerebral, mas nada que nos faça dizer com segurança coisas como: “Neste momento, ele estava à procura de um advérbio para completar uma frase”, ou “Ele está visualizando a rua em que mora e tentando imaginar se o trânsito vai estar bom, quando voltar para casa à noite”. Ainda não chegamos a esse ponto, mas não chega a ser impossível.

A atividade criadora, no entanto, parece ser permanente nos andares do cérebro feitos da Matéria Escura do universo. Einstein, Poincaré, Galileu, Kékulé, Descartes e outros já tiveram revelações inesperadas, caiu-lhes do céu a resposta que buscavam longamente a um problema científico ou matemático. O sujeito maltrata o juízo durante semanas ou meses em busca de uma resposta, e nada dela aparecer. Aparece quando ele está subindo num trem ou dormindo. Por que? O trabalho inconsciente, a preparação febril de dezenas de respostas que são avaliadas por um processo intermediário, exigente, paciente, que só deixa passar até a consciência aquelas idéias que lhe parecem ter algum potencial.

Chamar esse processo de “inspiração artística” idealiza sua natureza e dá a entender que ao artista basta esperar pelo inconsciente. Ora, o processo é aleatório, mas passa por muitos filtros. O inconsciente é preguiçoso e desorganizado. Botá-lo pra trabalhar pra gente demanda um bocado de esforço, porque ele só quer trabalhar para si mesmo. Essas iluminações repentinas só acontecem a quem está virando noite, fazendo serão, quebrando a cabeça em busca de uma resposta. A resposta, que parece cair do céu, sobe à superfície no meio desse caldo borbulhante de combinações, associações de idéias, hipóteses meio absurdas, tudo isso comparado, descartado, resgatado, escolhido, trazido à consciência. “Inspiração” é o resultado de muito trabalho duro. Não é por ser inconsciente que é menos trabalhoso. O inconsciente funciona melhor sob pressão.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

2787) Traduções de Poe (8.2.2012)



Quando organizei minha antologia de 2010, Contos Obscuros de Edgar Allan Poe, minha idéia era publicar em português alguns contos que, apesar de muito bons, eram menos conhecidos do que outros. No prefácio, indiquei quais eram os contos que me pareciam os mais traduzidos no Brasil, e que, dada a proposta da antologia, seriam os primeiros a ficar de fora. Já me perguntaram “em que dados eu baseei minha pesquisa”. Em nenhum. Eu olho o índice de toda coletânea de Poe que encontro, vejo quais os contos incluídos, e guardo vagamente na memória. Não anoto, não faço tabulação quantitativa. Ou seja, não é uma pesquisa científica.

Quem fez essa pesquisa científica (se não totalmente, pelo menos mais do que a minha) foi a tradutora Denise Bottmann, cujo blog sobre Poe (eapoebrasil.blogspot.com) infelizmente só vim a conhecer depois do livro lançado. Pior para mim, melhor para o leitor, que tem nesse blog informações mais confiáveis do que as minhas – e mais aguerridas, porque a dona do blog desce com-água-e-lenha em cima de traduções falsificadas, plágios, edições espúrias e o escambau.

Minha lista dos contos mais traduzidos foi (por ordem cronológica): “Ligéia” (1838), “William Wilson” (1839), “A Queda da Casa de Usher” (1839), “Os Assassinatos da Rua Morgue” (1841), “A Máscara da Morte Rubra” (1842), “O Poço e o Pêndulo” (1842), “O Retrato Oval” (1842), “O Escaravelho de Ouro” (1843), “O Coração Revelador” (1843), “O Gato Preto” (1843), “A Carta Roubada” (1844), “O Barril de Amontillado” (1846).

A lista de Denise Bottmann, por ordem do maior número de traduções: 1) “O Gato Preto, com 34 traduções; 2) “A Carta Roubada”, com 32; 3) “Os Assassinatos da Rua Morgue”, com 29; 4) O Escaravelho de Ouro”, com 24; 5) “O Poço e o Pêndulo”, com 21; 6) “O Barril de Amontillado” e “O Coração Revelador”, com 19; 7) “A Máscara da Morte Rubra”, com 18; 8) “Berenice”, “A Queda da casa de Usher” e “O Retrato Oval”, com 15; 9) “O Demònio da Perversidade” e “William Wilson”, com 13; 10) “Hop Frog”, “O Homem da Multidão”, “Manuscrito Encontrado Numa Garrafa” e “O Mistério de Marie Rogêt”, com 12 traduções cada.

São 17 contos, que incluem quase todos os que avaliei no golpe de vista, e alguns que me surpreenderam. Eu jamais imaginaria que contos como “Hop Frog” ou “Manuscrito encontrado num garrafa” fossem tão traduzidos. Este último, aliás, é o único dos meus “contos obscuros” que aparece na lista dos “mais traduzidos” de Denise Bottmann. E me surpreende que um conto como “Ligéia” não esteja entre os mais traduzidos. Sua tradução mais recente é minha (2011), na antologia Contos Fantásticos de Amor e Sexo (Ímã Editorial, Rio).

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

2786) O arquivo do DB (7.2.2012)



O fechamento do “Diário da Borborema” (onde tive meu primeiro emprego, de 1965 a 1967) e de “O Norte”, já era temido por algumas pessoas. O DB estava cumprindo uma trajetória semelhante à de outros jornais que acabaram: perdendo assinantes e anunciantes, diminuindo de tamanho, perdendo importância... Enfim, não adianta agora lamentar um processo que durou anos. Há duas questões, pós-fechamento, que são essenciais. A primeira é o que vai acontecer com os colegas que trabalhavam nos jornais – se vão ter seus direitos trabalhistas respeitados e atendidos. Espero (claro) que sim. A outra é o que vai ser feito do patrimônio imaterial do jornal.

O patrimônio material, claro, são os móveis, equipamentos, instalações, máquinas, etc. O patrimônio imaterial do jornal, no entanto, é a história que ele construiu através de 54 anos. Fala-se que a direção dos Diários Associados teria anunciado a transferência, para Brasília, da coleção encadernada do jornal; e que iria incinerar um arquivo com milhares de fotografias. Acho isso tão absurdo que não acredito, mas, por via das dúvidas, há um movimento para que este material, ao invés de ser levado embora (ou destruído), fique em Campina Grande. Os estudantes, professores, historiadores, pesquisadores, sociólogos e jornalistas do futuro veriam nisto um gesto à altura de Assis Chateaubriand.

Os Diários Associados devem isto à cidade e à comunidade que durante mais de meio século lhes forneceu mão de obra, profissionais qualificados, e um mercado que proporcionou à empresa lucros que vão muito além da simples venda em bancas. Campina lhes forneceu a razão de ser de uma empresa jornalística, que é acoplar-se a uma cidade, viver sua vida, sentir o seu pulso, dar voz às suas idéias e suas vontades. Cidade e empresa são parceiros na produção de um jornal. Sem o jornal, a cidade não teria um espelho onde perceber seus problemas e focalizar suas energias. Sem a cidade, o jornal sairia em branco.

Parcerias assim acabam às vezes de forma melancólica, como parece ser o caso. Mas os 54 anos de notícias, de debates ideológicos e culturais, de documentação histórica, pertencem hoje muito mais à cidade do que à empresa, que já extraiu dessa fonte todos os lucros que pôde e agora, minguando os lucros, decide fechar a fonte. Os arquivos do “DB” pertencem à cidade porque há na cidade quem valorize mais o “Diário da Borborema” do que a própria empresa que o criou e agora o desfez. A atitude mais ética, mais sensata e (a longo prazo) mais compensadora para a empresa seria a de deixar à cidade o que pertence a ela: sua própria História.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

2785) Os mandamentos de Henry Miller (5.2.2012)


(Henry Miller) 

Poucos indivíduos terão sido tão mentalmente saudáveis quanto Henry Miller. Dos livros dele, com sua mistura de boemia, sexo, crítica social e disponibilidade para curtir a vida, emana a alegria de viver, presente inclusive nos capítulos em que ele descreve a pindaíba financeira em que viveu, ou suas brigas conjugais, ou sua guerra sem fim contra o “pesadelo com ar condicionado”, a vida classe-média nos EUA, a cultura do enlatado e do artificial. 

J. G. Ballard escreveu que ele foi “o primeiro escritor proletário a criar uma literatura pornográfica baseada na linguagem e no comportamento sexual das classes trabalhadoras”. 

Talvez a nenhum de nós ocorresse considerar Miller um escritor proletário, por ele não ser de esquerda. Mas sua ética e sua literatura são a do norte-americano trabalhador, pragmático, sem nonsense, que aprecia os prazeres físicos da vida mas tem leitura e educação suficiente para ver transcendência nas pequenas coisas. 

Ballard o chamou de “Proust das classes trabalhadoras”, aludindo ao seu memorialismo compulsivo. Miller foi talvez o primeiro escritor, lido entre os 20 e os 30 anos, que me fez perceber o ato da escrita como um ato que envolve a totalidade da pessoa, do momento, da vida, de tudo que o cara experimentou, tudo que sabe e não sabe, tudo que teme e deseja, convergindo para aquele instante mágico (este instante mágico, exatamente agora) em que ele dedilha num teclado. 

Descobri lendo Miller que escrever não era apenas contar uma história legal ou produzir uma frase bem feita. Escrever era algo tão físico-mental e tão atávico quanto fazer sexo. 

Miller preparou nos anos 1930, quando escrevia “Trópico de Câncer”, uma lista de onze mandamentos do escritor. 

 “1) Trabalhe numa coisa de cada vez, até terminar. 

2) Não comece nenhum livro novo, e pare de juntar material para Primavera Negra [o outro livro que ele escrevia na época]. 

3) Não fique nervoso. Escreva com calma, alegremente, incansavelmente, com o que tiver à mão.  

4) Escreva de acordo com o que programou, e não de acordo com seu estado de espírito. Pare na hora marcada. 

5) Mesmo quando você não consegue criar, pode escrever. 

6) Cimentar um pouco por dia, ao invés de adicionar fertilizantes. 

7) Seja um ser humano: encontre as pessoas, saia de casa, beba se estiver a fim. 

8) Não seja um burro de carga. Só escreva com prazer. 

9) Descarte o programa quando lhe convier, mas volte a ele no dia seguinte. Concentre. Focalize. Corte. 

10) Esqueça os livros que gostaria de escrever, e pense somente no que está escrevendo. 

11) Escreva sempre, antes de tudo. Pintura, música, amigos, cinema, tudo isto vem depois”.









sábado, 4 de fevereiro de 2012

2784) É de graça? (4.2.2012)




("Zero Cruzeiro", de Cildo Meireles, 1977)

Como meus leitores devem saber, eu tenho um blog, o Mundo Fantasmo, onde republico estes artigos. Cada vez que posto um artigo no blog, eu escolho uma imagem para servir de ilustração. Pego na Internet (ou escaneio dos meus livros e revistas) uma foto, uma pintura, um desenho, uma cena de filme, um cartum... 

Ponho lá no blog, e, quando tenho a informação (nem sempre a gente tem) ponho o autor do desenho, e, quando encontro, um link para o trabalho dele. Porque se o leitor ficar interessado no que viu, deixa pra lá meu artigo, clica no link e vai ver mais desenhos do cara. Que, assim, conquista por meu intermédio mais um admirador.

Eu deveria pagar-lhe por isso? Acho que não. Até hoje ninguém me cobrou, nem pediu que eu retirasse a pintura ou a foto. Se pedir, eu tiro. Se cobrar, não pago, por mais que admire o cara. 

Não pago porque não sou rico e não ganho nada com o blog, é uma atividade “divulgatória”, para que as pessoas leiam meus textos com mais comodidade. Eu espero que o sujeito concorde em expor seu desenho de graça porque eu próprio estou expondo meus textos de graça. Aquilo está ali não por comércio, mas pelo interesse de dar um breve prazer intelectual e estético ao leitor.

E acontece o mesmo comigo, porque já perdi a conta dos blogs, páginas, portais, revistas online e coisas parecidas que reproduzem meus artigos. De vez em quando me chega um pedido: “Queremos republicar o artigo tal, gostamos muito”. Peço que indiquem a data (dado importante), e deem o devido crédito ao blog Mundo Fantasmo (onde vieram a conhecer os meus textos) e ao Jornal da Paraíba, que me paga para escrevê-los, e sem o qual nada disso aconteceria. 

Os artigos são republicados aí, Brasil afora, e o sismógrafo da economia não acusa o pouso de uma borboleta.

O princípio básico da cessão de textos ou obras em geral deveria ser: “Se a utilização é gratuita, cedo de graça. Se alguém vai ganhar algum dinheiro com ela, quero ganhar minha parte”. 

Eu, como criador de produtos culturais, quero da Lei ter o direito de decidir o quê que eu cedo de graça e o quê que eu cobro. 

Quero da Lei o direito de proibir o uso de um artigo meu, um poema, uma música minha, se eu achar que essa utilização não me interessa. 

Quero da Lei ter o direito de dizer: “Cobro tanto”, desde que não prejudique a terceiros. 

Não quero ser obrigado a ceder algo de graça, quando não me interessa. Nem ser obrigado a cobrar de alguém que não tem como me pagar – artistas empresariados muitas vezes querem ceder algo e seus empresários os impedem, às vezes o pedido nem chega ao artista. 

É essa impossibilidade de dar a palavra final que devemos combater.






sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

2783) Nara Leão (3.2.2012)




Neste mês de janeiro completaram-se 70 anos do nascimento de Nara Leão, e, como sempre acontece com quem morre jovem, ficamos tentados a imaginar como seria ela com essa idade. O rosto, o cabelo, a voz, o repertório...

O sorriso talvez continuasse igual. Aquele sorriso tímido que ela mostrava, meio encabulada, desviando o olhar para pensar melhor; mas deixava o sorriso segurando o interlocutor até que o olhar viesse de volta.

Nara foi essa fórmula terrível que a imprensa criou, “porta-voz de uma geração”. As pessoas assim chamadas geralmente se sentem desconfortáveis com um título tão pomposo, porque na verdade não estão preocupadas em falar por geração nenhuma. Falam por si, por um grupo de amigos, por algumas outras pessoas que acham importantes.

Sabem que nenhuma geração é homogênea ou unânime, até porque uma coisa que os “porta-vozes de geração” têm em comum é serem ferozmente combatidos e incompreendidos, também, por gente de sua idade.

O saite criado em sua homenagem (www.naraleao.com.br) traz um material variado, com links para todos os seus discos. Não dá para baixar as músicas, mas dá para escutá-las em “streaming” enquanto o saite fica aberto na tela. E aqui estou eu passeando pelos anos em que Nara era aquela musa carioca, inatingível – e ao mesmo tempo tão próxima.

Se os anos 1960 tiveram uma única coisa boa talvez tenha sido a redenção das mulheres não-deusas, não-pinups, não-gostosonas. Meninas miúdas, de cabelinho chanel, dentes um pouco salientes, vestindo blusas de gola rolê (que a gente chamava “gola olímpica”), começando a ousar minissaias ou calças Lee. Meninas sem nada de Ursula Andress ou Rachel Welch, mas meninas reais, que tocavam violão e tomavam refrigerante, cantavam canções em que apareciam os assuntos das primeiras páginas dos jornais...

Eram as meninas da nouvelle vague (Chantal Goya, Anna Karina), as meninas do “free cinema” inglês (Rita Tushingham, Julie Christie), as meninas da Bossa Nova. Nenhuma era uma vamp, nenhuma era símbolo sexual; por isso mesmo, aos nossos olhos adolescentes elas não tinham relação com nossas tórridas fantasias. Pertenciam à nossa vida, eram reais e possíveis, e eram um ensinamento.

Pois é... Não falei da Nara que cantava os barracos, as favelas, os camponeses, as donas de casa, os capoeiristas. Que passou pela Bossa Nova, pela MPB rural-esquerdista, pelo tropicalismo, recantou a Jovem Guarda e os “standards” norte-americanos (está tudo lá para se ouvir, faixa por faixa). E um dia parou de cantar, saiu de cena sem chamar a atenção e deixou o sorriso tímido tomando conta da gente, com uma quase promessa de que ela voltaria logo.