sábado, 2 de julho de 2011

2598) A hora do pesadelo (2.7.2011)




O pesadelo é uma experiência pré-verbal de tal intensidade que traduzi-la verbalmente se transforma num desafio para um escritor. 

Digo pré-verbal porque a experiência do pesadelo (pelo menos minha experiência pessoal, parcialmente confirmada por depoimentos de outras pessoas) é algo que ocorre em 360 graus na nossa mente, envolvendo-a por completo. 

Sonhar parece um pouco com estar mergulhado numa atividade intensa e rápida, como um acidente, uma briga, um assalto. Agimos e reagimos por reflexo, em fração de segundo, sem verbalização prévia ou simultânea. Quando depois precisamos verbalizar a experiência, há tanta coisa para ser lembrada que é difícil saber por onde começar.

Um ensaio de Robert Louis Stevenson, “Um capítulo sobre o sonho”, fala sobre a dissociação psíquica que a criação onírica envolve. 

Ele conta ter sonhado uma história, com personagens, enredo, envolta num mistério que se dissipa quando uma personagem faz uma confissão ao protagonista. E Stevenson “ouviu” aquilo com absoluta estupefação, pois era a última coisa que poderia imaginar ouvir daquela pessoa. Sua surpresa foi tão grande que ele acordou, sobressaltado. 

E no entanto (observa Stevenson) a história tinha sido criada por ele mesmo. Como pôde manter o segredo? Como pôde provocar tamanha surpresa, se a mente que inventara a história e a mente que a contemplava em sonho eram uma só?

Tenho o hábito de anotar alguns sonhos, sejam pesadelos ou não. Claro que não anoto todos, mas costumo registrar, quando posso, aqueles que me deixam uma impressão mais vívida. 

Minha sensação é de que, quando sonho, sonho com minha mente inteira, diferentemente do que acontece quando estou escrevendo em estado lúcido, quando quem comanda a escrita é uma fatiazinha do cérebro hipoteticamente situada na parte frontal. Chamo a isto “escrever com a consciência verbal”, pois estou tirando a história de minha própria consciência, palavra por palavra. 

Já quando estou anotando um sonho, não. É como se o cérebro inteiro tivesse participado da criação daqueles episódios e é impossível escrever tudo, porque a massa de sensações, impressões visuais, nuances emotivas, etc., é tão grande que eu precisaria de dezenas de páginas para registrar tudo, se fosse possível transformar aquilo tudo em palavras.

E esse é outro aspecto curioso do sonho. O relato do sonho não o reproduz. O sonho não é feito de palavras. É feito de uma massa esférica e pesada de sensações, e a relação que o relato verbal do sonho tem com aquilo é tão distante e tênue quanto a relação entre a palavra “elefante” e um elefante de verdade. 

Daí, talvez, que o sonho se preste tanto à criação literária, porque é e será sempre irredutível às palavras, deixando-as com uma aura mágica (pois ao ler aquilo eu evoco o que sonhei) mas ao mesmo tempo com uma dimensão utilitária, banal: posso fazer o que quiser com aquelas palavras, porque aquelas palavras não são o que eu sonhei.






sexta-feira, 1 de julho de 2011

2597) Etimologias populares (1.7.2011)



(Ilustração: Saul Steinberg)

Na formação de palavras, interpretações errôneas sobre seu significado original acabam influenciando suas transformações futuras. Em inglês existe a frase-feita “to eat humble pie” (“comer torta humilde”) no sentido de ser submetido a uma humilhação. A expressão original não tinha nada a ver com “humble” (=humilde): era “to eat a numble pie” (“comer uma torta de vísceras, ou de miúdos”), que passou a ser grafada erroneamente como “to eat an umble pie” e depois, foi preciso justificar essa palavra inexistente “umble” e o jeito foi dizer que na verdade se tratava de “humble”, humilde.

Uma confusão parecida deu origem à palavra “blog”. Saites onde era possível fazer anotações instantâneas para serem lidas por todo mundo foram chamados de “web log”, sendo que “web” é rede e “log” é diário, livro de anotações. O hábito comum na língua inglesa de emendar duas palavras que sempre aparecem juntas fez o termo virar “weblog”. Logo apareceu alguém que re-dividiu a palavra em “we blog”, que parecia a conjugação de um verbo inexistente: “nós blogamos”. O resto é história.

Uma maneira frequente de criar palavras assim é quando uma palavra estrangeira entra em nosso vocabulário e, sem entendermos o que ela originalmente significa, procuramos racionalizar o seu significado através de uma modificação. Em inglês a barata (inseto) é “cockroach”. “Cock” (que em princípio é “galo”) é usada para designar animais machos de várias espécies”; “roach” se usa para diferentes tipos de inseto. Mas a palavra na realidade vem do espanhol “cucaracha”, e a língua inglesa (tão antropofágica quanto a nossa) impôs ao termo estrangeiro uma forma baseada em duas formas nativas.

Uma vez ouvi alguém dizer que no aeroporto iria fazer “o chequinho”. Perguntei o que era, e a pessoa me disse: “A gente vai no balcão, dá o número do localizador do voo, despacha as malas, aí a moça entrega aquele chequinho com os dados do voo”. Na verdade o termo é “check in”, ao pé da letra “verificação de entrada”, assim como “check out” (mais usado em hotéis) é “verificação de saída”. Mas como a pessoa não conhecia o termo em inglês tentou dar-lhe a forma de algo que lhe era familiar, e a solução foi chamar de “chequinho” o cartão de embarque.

Nosso corpo físico assimila corpos estranhos procurando uma maneira de torná-los inofensivos (protegendo-os com um cisto, p. ex.). Na formação da língua (que é incessante, permanente) as palavras estranhas, quando têm utilidade real e são usadas com frequência, têm que passar o tempo inteiro pelo crivo de pessoas que não as conhecem mas precisam explicá-las de alguma maneira. Quando a explicação é engenhosa e plausível, ainda que falsa, pode acabar pegando. O mais interessante no processo é essa nossa capacidade infinitamente flexível de reinterpretar, e nossa teimosia em dar explicações aparentemente lógicas para processos que de lógicos não têm nada.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

2596) A paranóia de Truman (30.6.2011)



Nos meus momentos de euforia, tenho certeza de que o mundo é falso e só eu sou verdadeiro. Nos meus momentos de depressão, tenho certeza do contrário. Médicos canadenses já perceberam a ocorrência de uma nova doença mental nos últimos anos, que eles chamam de “Síndrome de Truman”, porque parece ter sido deflagrada pelo filme O Show de Truman de Peter Weir. Os indivíduos afetados por essa condição (todos eles homens) afirmam aos seus médicos terem certeza de que estão sendo vítimas de uma enorme conspiração. Sua vida pessoal é transmitida ao vivo para milhões de pessoas, ininterruptamente, e sua família (esposa, filhos, etc.), seus amigos mais próximos, seus colegas de trabalho, são todos atores contratados para representar aqueles papéis. Ou seja, exatamente o que ocorre com o ingênuo Truman Burbank do filme, interpretado por Jim Carrey. (Ver: http://goo.gl/00vvW).

Descontando o fato de que eu penso exatamente isto da minha própria vida, a emergência dessa nova forma de paranóia indica um curioso fenômeno de retroalimentação, de feedback. Certos aspectos paranóicos da realidade geram uma obra de arte que em troca reforça esses aspectos, até que a realidade produz a seguir outra obra ainda mais explícita, aumentando ainda mais a tendência, e assim por diante. Truman Show é um reflexo da obra de Philip K. Dick, cujos romances mostram o tempo inteiro personagens em dúvida quanto à própria identidade (“sou isso mesmo que penso que sou, ou sou outra pessoa que pensa que sou eu?”). Lembrem-se do personagem de Schwarzenegger em O Vingador do Futuro: um operário que para se distrair recebe implantes de memória dizendo que é um espião e nesse momento se lembra que é mesmo um espião, que havia recebido implantes de memória para pensar que era um operário. Será isso mesmo? Qual das duas certezas está certa?

Truman Show chegou a ser processado pelos agentes de Dick, que alegavam plágio a outra obra do escritor, Time Out of Joint, em que um sujeito mentalmente instável (mas importante para o Governo, que está em guerra) é mantido numa cidade artificial cheia de atores que o ajudam a viver uma ilusão pacífica. O filme tornou-se emblemático dessa nova condição moderna, que envolve os seguintes aspectos: 1) perda de privacidade (o mundo está se tornando um Big Brother, estamos sendo o tempo inteiro espionados por alguém); 2) expansão da Sociedade Espetáculo (o exibicionismo público é uma prova crucial de status; queremos ser vistos 24 horas por dia para termos certeza de nossa própria existência); 3) artificialismo e referencialidade no comportamento humano (as pessoas adotam, cada vez mais, modos de ser, falar, vestir, etc. copiados de filmes, comerciais, etc.; tornam-se cada vez mais artificiais e imitativas); 4) divórcio profundo entre o que realmente queremos ser (o Eu profundo) e o que a sociedade nos obriga a ser (o personagem que representamos diante do mundo inteiro).

quarta-feira, 29 de junho de 2011

2595) Diretores e idéias (29.6.2011)




Dias atrás me referi a Hitchcock como um diretor sem idéias. Perguntaram-me por que motivo não gosto dele. A verdade é que talvez eu goste de Hitchcock ainda mais do que alguns dos fãs que o defendem. Mas existem os artistas que são somente artistas, embora sejam Titãs da Literatura ou Gênios da Humanidade; e existem os artistas que têm idéias próprias sobre o mundo. Em qualquer categoria de atividade há as pessoas que têm idéias próprias e as que não as têm: matemáticos, pintores, taxistas, roqueiros, políticos, bancários, antropólogos, o escambau.

Peço perdão se estou sendo injusto, mas não me consta que João Gilberto, Buster Keaton, Chuck Berry, Castro Alves, Nureyev, Roberto Carlos, Basquiat, Paul McCartney ou Jackson do Pandeiro tivessem idéias próprias sobre o mundo. São estúpidos, sem personalidade? Longe disso. São artistas geniais (sou fã de todos eles), mas sua visão das coisas não vai além da visão coletiva das sociedade em que estavam mergulhados. Viviam suas contradições, suas dúvidas, suas descobertas; envolviam-se nas lutas do seu tempo; usavam seu talento com força máxima para exprimir suas opiniões, suas emoções, suas observações, mas isto não era o bastante para erguê-los acima do oceano mental em que flutuavam. 

Para isto, o artista, genial ou não, precisa de idéias próprias, precisa de um mínimo daquilo que os alemães chamam de “Weltanschauung”, visão-do-mundo, palavra da moda nos anos 1960 em que fiz minha cabeça. Precisa ter idéias pessoais, fruto de um ponto de vista que é só seu e de mais ninguém, produto da salada pessoal, cultural, afetiva e intelectual que cada um de nós tem e é única, irrepetível, inimitável.

Quem, então, tem essas famosas idéias próprias? Em mais uma lista feita ao acaso, posso citar Ingmar Bergman, João Cabral, Rimbaud, Buñuel, Bob Dylan, Guimarães Rosa, Borges, Ariano Suassuna, Brecht, Maiakóvski, e por aí vai. 

Em cada um deles, vemos, ao lado de uma obra notável, uma interpretação pessoal do mundo que vai além da obra em si, torna-se um pensamento. Lembrem daquelas coleçõezinhas que têm títulos como O Pensamento Vivo de Fulano. Eu consigo imaginar um livro intitulado O Pensamento Vivo de Jean-Luc Godard, mas não consigo imaginar O Pensamento Vivo de John Ford. Ambos são grandes diretores, mas Godard tinha um conjunto de idéias extra-cinema e John Ford (estarei sendo injusto?) parece que não.

Diretores como Spielberg, Hitchcock, Sérgio Leone, Don Siegel, Howard Hawks (e outros) são cineastas, ponto final. Indivíduos com uma compreensão instintiva da alma humana, dos dramas humanos, e com a capacidade de exprimir isto através da narrativa, dos atores, da câmara. Mas não me dão a impressão de serem pensadores, de serem pessoas que se destacariam caso não fossem cineastas. 

Uns não são inferiores aos outros, porque ninguém é obrigado a ter uma visão do mundo própria (eu mesmo não sei se tenho). Mas essa distinção existe, é real, e é importante.





terça-feira, 28 de junho de 2011

2594) Fowles e a descrição (28.6.2011)




(John Fowles)

O escritor John Fowles (autor de O Colecionador, A Mulher do Tenente Francês, etc.) queixa-se, num trecho do seu diário publicado pela revista Granta (# 86), da cansativa tarefa de revisar um romance de mais de mil páginas (Daniel Martin, publicado em 1977). 

Diz ele:  

“Uma tarefa aparentemente interminável, com um manuscrito deste tamanho. Cuidando das repetições: desta vez os criminosos são as palavras “little”, “faintly” e “silent”. É difícil escrever sobre os ingleses sem usá-las. Posso perceber por que motivo recorro tanto a esses adjetivos e advérbios com idéia de diminuição: há uma escassez de verbos e de adjetivos para descrever o micro-comportamento, e isso aumenta o peso dos poucos que existem. 

"Eu uso em demasia termos como “grimace” e “pull a face”; na verdade, há dezenas de variantes destas expressões, mas apenas duas ou três palavras ou frases para indicá-las. O pior é tudo quanto tem a ver com ironia ou secura – metade de qualquer conversação entre ingleses educados as empregam através de expressões faciais ou de atitudes, ou seja, de forma não-verbal, o que significa que não se pode (ou pelo menos não se pode sempre) transmitir a ironia através do diálogo”.

Isto revela um problema de escritor que se torna, por tabela, um problema de tradutor. As caretas servem como comentário ao que estamos dizendo, ou como reação ao que ouvimos do interlocutor. 

Muitas dessas expressões são codificadas, têm um significado obrigatório (p. ex., franzir a testa para indicar estranheza, entortar o canto da boca para indicar desagrado), mas isto se dá dentro de cada cultura. Em outro país pode não significar nada, ou significar algo diferente. 

Não entendo italiano, e fico imaginando se na língua italiana existem palavras específicas para indicar cada um daqueles milhares de gestos tipicamente italianos, que sublinham a conversa. Quando um italiano quer dar ênfase ao que diz, une as pontas de todos os dedos e balança a mão diante do rosto; há um nome para isto? Como se descreve isto num romance? E assim por diante.

O inglês é, como sugere Fowles, o contrário do italiano. Ele comenta não-comentando, ou seja, exagerando uma expressão pretensamente impassível, enquanto diz as maiores enormidades. 

Vem daí o famoso humor por “understatement”, que consiste em minimizar (gestual e verbalmente) coisas seríssimas ou problemáticas. Deduz-se o sentido pelo contexto, não pela frase. 

Um autor inglês escrevendo para leitores ingleses pode contar com uma certa dose de entendimento implícito, mas um tradutor nem sempre percebe quando o que se diz é justamente o contrário do que se fala. 

Como um tradutor estrangeiro, que pode interpretar errado um brasileiro dizer “Muito bonito, hem?!” em tom de censura, e pensar que se trata de um elogio. 

Grande parte dos erros de tradução não se dá propriamente em torno do vocabulário, mas em torno desses sentidos implícitos que por uma razão ou outra o tradutor não capta.





domingo, 26 de junho de 2011

2593) Contracapa de iPhone (26.6.2011)



(www.imagesavant.com)


& resposta que não produz novas perguntas não vale a pena 

& poesia é como suco de laranja, é tudo uma mesma coisa mas cada copo tem um sabor personalizado 

& quem inventou uma molécula pela primeira vez sentiu-se um Deus desse tamanhinho 

& tempestades, raios, tsunamis, terremotos, vulcões, são os naipes da orquestra de um Deus entediado e wagneriano 

& conseguiremos um dia fabricar máquinas defeituosas que consertarão a si mesmas? 

& se eu deixar de fazer verso, cabou-se o mundo pra mim 

& ficar rico é uma ilusão, porque não há um momento em que se diga “pronto, acabou!” 

&um relógio movido a chuva, outro movido a sombra, outro movido a silêncio 

& um software chamado Windows Ovni Maker 

& mulher chama aquilo de ninho-de-amor, homem chama aquilo de matadouro 

& uma chuva de derreter locomotivas 

& um dragão com três asas, marginalizado como monstro 

& um dia ainda vamos tentar curar resfriado com anagrama e dor de dente com bússola 

& coração que merece uma condecoração por serviços prestados & minha maior qualidade é ausência de ambição, meu maior defeito também 

& pode-se medir a idade mental de uma pessoa perguntando se ela escova os dentes por obrigação, por consciência ou por hábito 

& carisma é uma espécie de alma que uns têm e outros não 

& uma hidra com muitas cabeças cujo veneno está na cauda 

& a História é uma lista do que sobrou boiando depois dos grandes naufrágios 

& crocodilo japonês dizendo “aligatô” 

& a peleja da cobra criada com o cachorro doido 

& o amor é a arte de adivinhar o momento do relâmpago para fotografar sem flash 

& verdadeira originalidade em literatura seria inventar (e consagrar no uso) uma letra a mais para o alfabeto 

& certas mulheres se apaixonam por um troglodita, dedicam sua vida a transformá-lo num civilizado, e depois o traem com outro troglodita 

& todo mundo me pergunta, e eu não tenho a quem perguntar 

& quem sabe um dia a gente possa combinar coincidências, agendar imprevistos e sintonizar emoções 

& perdeu-se um capítulo no meio do romance dele e até hoje ninguém reparou 

& sou um mastim furioso tentando me devorar 

& a vassoura da bruxa, o guarda-chuva de Mary Poppins, o raio de luz de Einstein 

& durante o tratamento de canal ele repassou na memória o Canto IX dos Lusíadas 

& dar independência a alguém é reafirmar sua dependência eterna 

& se o sol não nascesse amanhã, continuaríamos todos dormindo, e as flores sem murchar? 

& literatura é como o dinheiro, que em cada país muda de nome, de rosto e de valor, mas não de essência 

& todo beijo é uma aventura, uma revelação, uma negociação e uma nota promissória 

& um software chamado Maestro Eletrônico que afina e equaliza todos os canais de uma mesa de som 

& um chiclete cuja parte doce estivesse guardada no final 

& grupos musicais com formação alfabética: cavaquinho, cello, clarineta e cravo; ou piano, pandeiro, pífano e palmas 






sábado, 25 de junho de 2011

2592) O Lux Jornal e o Google (25.6.2011)



Entre as profissões em extinção no mundo inteiro certamente está a de “recortador, por encomenda, de todas as notícias de jornal referentes a uma pessoa ou entidade”. Antigamente existia uma empresa chamada Lux Jornal, que fazia exatamente isto. Quando a gente tomava parte em algum evento importante (por exemplo, estreava um show ou lançava um livro) era costume ligar para o Lux Jornal, dar o nosso nome e contratar os serviços. Durante os dias seguintes, qualquer referência que fosse publicada em qualquer jornal do país seria localizada, recortada, colada numa folha de papel (com a anotação do nome do jornal, a página e a data) e colocada num envelope. Ao fim de um período previamente acertado (uma semana, duas, um mês, etc.), esse material nos era remetido. E a gente pagava o preço combinado.

Eu já recorri ao Lux Jornal algumas vezes. Não me lembro quanto custava. Não era um preço inacessível, mas também não era uma coisa que a gente se dispusesse a contratar sem um objetivo específico (só pra ver se estavam falando na gente, p. ex.). Custava alguma grana, sim. Afinal, a empresa vivia disso, e tinha que pagar as toneladas de jornal que consumia.

O Lux Jornal foi suplantado pelo Google. E o mais interessante é que mesmo as pessoas que usavam o Lux Jornal acham que o Google é algo que surgiu do nada, que antes do Google existir não havia nada exercendo essas tarefas de busca. Reconheço que as buscas do Google são mais específicas do que a do Lux Jornal. Neste, não faria sentido mandar recortar toda matéria de jornal onde aparecesse a palavra “deputado” ou a palavra “gol”. São buscas mais variadas, também. E sempre que vejo gente celebrando o Google tudo acaba se resumindo a uma celebração da sua velocidade. Pelo que vejo, velocidade de resposta é um critério valorizadíssimo em nosso mundo. Vi há algum tempo uma imagem curiosa, o “Google Classic”, uma página do Google reproduzida como se fosse uma folha de papel impressa em estilo retrô, tendo abaixo: “Aguarde 30 dias pelos resultados”. Era exatamente o conceito do Lux Jornal. A imagem era engraçada porque obrigava pessoas do mundo de hoje a imaginar um Google que mandasse os resultados pelo correio, num envelope.

Arthur C. Clarke disse que qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia. A magia, segundo essa visão, é a produção de efeitos extraordinários sem que a gente perceba as mediações (todas as pequenas e sucessivas tarefas de ordem técnica) que produziram aquele resultado. Para mim, acender uma lâmpada elétrica não é magia, porque eu posso reconstituir mentalmente como aquilo é feito: o interruptor, o contato, a corrente elétrica, o fio, o filamento da lâmpada... Um primitivo não sabe. Ele vê a lâmpada se acender e diz “Caramuru!”. O Google é o conceito do Lux Jornal sofisticando-se até chegar a um ponto em que produzirá os resultados e nenhum de nós será capaz de entender como aquilo aconteceu.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

2591) O Santos é o novo campeão (24.6.2011)



E o Santos acabou campeão da Libertadores da América. Foi sempre melhor do que o Peñarol do Uruguai, nas duas partidas decisivas. Foi melhor nestes dois jogos do que em todo o transcorrer da competição. Pelas transmissões que acompanhei, o Santos se impôs pela categoria em muitos momentos, e quando a categoria faltou se impôs pela raça e pela capacidade de resistência. Em vários jogos decisivos conseguiu segurar um placar favorável mesmo embaixo de um impressionante bombardeio do time adversário. É o melhor time do Brasil no momento, embora seja um time que, curiosamente, nem sempre joga dentro do que lhe é possível apresentar. Pelos jogadores e pelo técnico que tem, deveria estar jogando melhor e ganhando com mais facilidade. Se nem sempre acontece, paciência. Este ano já foi campeão paulista e campeão do continente. Tô reclamando do quê?

Vamos agora abrir uma cerva em honra de Muricy Ramalho. Ô cara pra dar sorte a um time! Três vezes seguidas campeão brasileiro pelo São Paulo, depois campeão brasileiro pelo Fluminense (uma verdadeira façanha), e agora campeão das Américas com o Santos... Houve uma imagem bonita no jogo de 4ª.feira, quando durante a comemoração Pelé ergueu a mão de Muricy e o arrastou para o centro do gramado, numa atitude de “esse é o cara”. E é.

Existe uma distinção interessante, que os leigos geralmente não percebem, entre um time de futebol e um clube de futebol. O time são aqueles onze caras em campo, vestindo aquela camisa. O clube é o resíduo acumulado das histórias, das lendas e da arte de todos os times que vestiram aquela camisa. O time é o presente, o clube é a tradição acumulada. Uma memória que produz uma ética própria. Daí que muitas vezes o time em campo, seja ele qual for, se amolda ao espírito do clube. Clubes famosos pela raça instilam essa raça em jogadores apáticos ou tímidos; clubes conhecidos como academias do futebol ensinam zagueiros truculentos a desarmar sem falta e atacantes rompedores a driblar com classe.

O Santos produziu o maior jogador de todos os tempos e alguns dos melhores times da nossa história. É bonito ver, numa conquista como esta, dois garotos como Paulo Henrique Ganso e Neymar ao lado do setentão Pelé, que vibrou como um menino. Quando eu falo em tradição cultural muitas vezes sou chamado de saudosista, passadista, nostálgico. “Ah, você é como Suassuna ou Tinhorão, acha que só as coisas antigas prestavam, e que as de hoje não valem nada”. Ledo engano, meus camaradinhas. Ser tradicional é ter consciência dos altos níveis que o Brasil já atingiu, e exigir dos brasileiros de hoje que atinjam, no mínimo, as mesmas alturas. Neste país que quanto mais se comunica mais emburrece, e quanto mais emerge da pobreza mais se torna escravo do consumo, é preciso lembrar sempre o que já fizemos de melhor. Ser tradicionalista é saber que o fato de termos tido Pelé nos ajuda (e nos obriga) a ter um Neymar. Parabéns, santistas.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

2590) Drummond: Sweet Home (23.6.2011)



(Drummond, por Thiago Neumman) 

Carlos Drummond era um personagem contraditório e surpreendente, meio caretão por um lado, meio devasso por outro. Visto do Norte-por-Noroeste era um burocrata sério, visto do Sul-Sudoeste era um garoto travesso e chapliniano. Tinha duas colheres de cristão, e uma e meia de comunista. 

Foi moderno quando ser moderno era ser exposto à galhofa, e retornou ao soneto quando ser moderno era uma garantia de paparicação. Era um funcionário público acomodado? Era um desconstrutor de idéias herdadas sem muita reflexão? Gostava do quê? De transgressões molecas ou de aconchego familiar? 

É nessa refração de possibilidades que fica mais interessante olhar “Sweet Home”, poemazinho do livro Alguma Poesia de 1930. É um texto que lê diferente para olhos diferentes, descrevendo a tranquilidade e o conforto doméstico que os poetas de vários idiomas atribuem aos burgueses: 

 “Quebra luz, aconchego. 
Teu braço morno me envolvendo. 
A fumaça do meu cachimbo subindo. 

Como estou bem nesta poltrona de humorista inglês”. 

Esta última frase é deliciosa, sugerida pelo cachimbo (que Drummond não fumava – estarei errado?). E que lembra o soneto de Mário Quintana, “Que bom ficar”, em A rua dos cataventos (1940), que se encerra com este terceto saboroso: “Sair assim (tudo esquecer talvez!) / e ir andando, pela névoa lenta, / com a displicência de um fantasma inglês...” 

Esse inglesismo, esse burguesismo tão começo-de-século, é satirizado por Drummond no contexto de um mundo que vai ficando moderno e, quem sabe, ameaçando algum sossego antigo: 

“O jornal conta história, mentiras… 
Ora, afinal, a vida é um bruto romance 
e nós vivemos folhetins sem o saber”. 

O burguês quer aventuras, mas as prefere no folhetim semanal que lhe vem por baixo da porta, pelas mãos do jornaleiro. O burguês quer aventura sem perigo, emoção sob controle, novidades que já conheça. O que ele gosta, gosta mesmo, vem em seguida: 

“Mas surge o imenso chá com torradas, 
chá de minha burguesia contente. 
Ó gozo de minha poltrona! 
Ó doçura de folhetim! 
Ó bocejo de felicidade!”. 

 Todo este poema é como uma daquelas imagens em que podemos ver duas coisas diferentes por uma simples mudança na maneira de olhar. O mesmo desenho mostra uma mulher ao espelho ou uma caveira. Outro mostra uma jovem ou uma velha; etc. O poema de Drummond mostra para mim o tédio insuportável, o ramerrão de uma vidinha sem graça, e ao mesmo tempo a felicidade e o aconchego de uma vida sem sobressaltos, sem desconfortos, sem questionamentos, a vida que o mundo burguês promete (e em muitos casos garante) a quem jogar o seu jogo. 

Não sei se estou sendo muito ousado em supor que Drummond, tanto quanto eu, via essa vidinha com menosprezo e com nostalgia. Tudo em seu intelecto a repudiava por medíocre, mas algo em sua estrutura mental se conformava a ela como os humoristas ingleses se conformavam ao imperialismo, ao colonialismo e ao fardo do homem branco.





quarta-feira, 22 de junho de 2011

2589) Hitchcock (22.6.2011)



Está havendo no Rio de Janeiro uma vasta retrospectiva da obra de Alfred Hitchcock, exibindo os clássicos que todo mundo conhece, muitos filmes mudos que fez na Inglaterra no começo da carreira, e também um grande número de episódios das séries de TV que coordenou e eventualmente dirigiu. Creio que os episódios que vi quando garoto tinham o título genérico de Suspense, que era também o nome da edição brasileira do Alfred Hitchcock’s Mystery Magazine, publicado aqui pela Rio Gráfica Editora.

Minha relação com Hitchcock, até os trinta anos, era menos de espectador ou crítico do que de fã ou torcedor. Lia tudo que se referisse a ele, gostava de qualquer filme dele (inclusive os piores, como Topázio). O tempo amainou esse entusiasmo; o tempo e o entusiasmo alheio, porque já observei que a melhor maneira de me fazer desconfiar de um artista é vê-lo sendo elogiado por gente que ouviu o galo cantar e não sabe onde. Infelizmente é o que acontece com o diretor de Psicose, cuja irresistível propensão para o marketing, a propaganda pessoal, e para o efeito fácil, o truque óbvio, acabou fazendo dele o diretor cujos filmes qualquer desorientado assiste e sai convencido de que viu uma obra de arte.

Sem querer depreciar os fãs de Hitchcock, penso hoje que o cinema dele é mais superfície do que substância, mais genialidade intuitiva para a narração visual do que idéias a respeito do mundo. Nesse aspecto assemelha-se (embora com temperamentos e efeitos diferentes) a Steven Spielberg, outro animal visualizador e narrativo, mas que não tem dez mil-réis de idéias sobre o mundo. Tanto um como o outro são os reis das quatro linhas do enquadramento, assim como Romário é o rei da grande área. Ali dentro, sabem de tudo. Parecem ter sempre a noção exata de como posicionar a câmara, como mover os atores, como cortar de uma cena para outra, como explorar todas as possibilidades e sugestões visuais de um dado ambiente ou cenário natural. Tudo isto para dizer o que? Não sabem. Estão somente contando uma história.

Os temas hitchcockianos já foram peneirados pela crítica até não poder mais: o Duplo, o Homem Errado, o Fetiche, o MacGuffin, a Loura Gélida... Diferentemente de Luís Buñuel, com o qual tem muitos pontos em comum, Hitchcock não parecia prestar muita atenção no mundo. Suas entrevistas (o livro de François Truffaut é um exemplo disso) são sobre questões técnicas e narrativas. Não parece preocupar-se com o significado do que está dizendo, e sim com a maneira mais original e eficiente de dizê-lo. É mais um artesão do que um artista.

Seu imenso sucesso, tal como o de Spielberg, parece se dever ao fato de que a mente de ambos flutua num limbo muito próximo daquele onde fervilham as mentes dos seus espectadores. Não há profundeza a que eles desçam e onde seu público não seja capaz de acompanhá-los. São grandes cineastas porque mostram de maneira espontânea o quanto um cinema feito só de imagens pode prescindir de idéias.