sábado, 6 de março de 2010
1754) O umbral da cultura (24.10.2008)
(W. B. Yeats)
Acho que foi o poeta Yeats a dizer que, na Irlanda, no momento em que se cruzava o umbral da casa de um camponês deixava-se de estar na Europa. Ou seja: quando se estava no ambiente coletivo da rua e das praças estava-se na civilização contemporânea, européia. No interior da casa de cada um, contudo, predominava uma tradição milenar, antiqüíssima, dependente dos eixos verticais de ancestralidade e descendência, e não dos eixos horizontais de convivência social.
É algo parecido com um tipo de comentário que já vi várias vezes sobre brasileiros que moram no exterior: “Quando a gente entra no apartamento deles, é mesmo que estar no Brasil!”
Dentro de suas casas, as pessoas são o que não lhes custa esforço. Seu estilo de vida ali serve como um cordão umbilical, ligado a um Passado que as alimenta, a um mundo no qual elas se livram da tensão contínua que nos exige a vivência numa terra estrangeira.
Lá fora, tudo bem, somos todos civilizados, cosmopolitas, culturalmente flexíveis. Falamos a língua deles, usamos sua cultura, compartilhamos seus hábitos. Mas da porta pra dentro... me desculpem. Da porta pra dentro eu prefiro viver no conforto do meu Passado, nas minhas águas primordiais, na placenta cultural de onde, a bem da verdade, jamais saí.
O que me lembra uma frase de Sartre, ao comparar a cultura oral com a cultura escrita: “Falamos em nossa própria língua, mas escrevemos sempre numa língua estrangeira”. Não importa se a língua a que ele se refere é o mesmo francês, porque na verdade são dois “franceses” diferentes. O francês oral, cheio de sílabas ocultas, de elisões, de contrações; e o francês escrito, repleto de letras mudas, sinais diacríticos, sufixos que não se pronunciam e outros adornos rococós.
Raymond Queneau, quando propôs um tanto quixotescamente uma reforma que criasse o “néo-français”, queria fundir esses dois idiomas.
Sartre queria dizer que a língua oral é aprendida afetivamente, no contato epidérmico do lar e da família; e a língua escrita, em geral, é aprendida na convivência formal da escola, na socialização forçada com “os Outros”.
Ampliando-se esse ponto de vista para a cultura em geral, os camponeses de Yeats experimentam a mesma sensação. Ao sair à rua, estão na Grã-Bretanha, na Europa, no mundo exterior, no mundo alheio. Dentro de sua casa, estão num universo remotamente céltico, gaélico, sei lá o quê.
Quando os jagunços de Guimarães Rosa invadem um arruamento perdido nos confins do Sertão mineiro, encontram os “catrumanos”, indivíduos broncos e quase trogloditas, que lhes perguntam de onde vêm. E o eufórico Zé Bebelo responde, em cima da bucha: “Do Brasil!”
O Brasil, ou seja, a civilização, o mundo dos Outros, ainda não tinha chegado àquelas brenhas inóspitas, àquele continente virgem. Rosa vê nesse Brasil uma evolução; talvez Yeats visse naquela Europa uma ameaça. Mas o fato é que o umbral existe, e o Modernismo, implacável, encurrala a Tradição, de fora para dentro.
1753) High-tech paleolítico (23.10.2008)
(Vectra 286)
Um dos dias mais felizes da minha vida foi quando instalei no meu computador um Windows novo, já não lembro se foi o 95 ou o 98, e descobri que a partir daquela data poderia dar aos meus arquivos o nome que quisesse, sem ligar para o tamanho.
Até então, se vocês se lembram, nome de arquivo só podia ter oito caracteres, o que enchia as minhas pastas com coisas intituladas MAQRASC1, REV-INF, etc. Que beleza era poder abrir um arquivo e dar-lhe o título “Resenha de Blade Runner para O Globo”.
Se bem me lembro, esse sistema vigorava porque os oito caracteres do título correspondem a um byte de memória, e memória era uma coisa preciosa.
O disco rígido do meu primeiro computador, comprado em 1992, tinha 40 Mb. Durou tanto tempo que quando fui substituí-lo vieram dois técnicos na minha casa, para dar uma geral no computador. Quando um deles viu o HD, chamou o outro, que era uma espécie de assistente, mais jovem, e disse: “Lembra daquele HD que eu te falei outro dia, que não existe mais? Olha um aqui”. Hoje, eu tenho no meu HD arquivos com mais de 40 Mb.
Eu sou do tempo – pasmem! – em que quando a gente mandava um artigo ou um conto para uma revista na Europa eles pediam que mandasse uma cópia impressa e uma cópia digital, num disquete, e prometiam devolver o disquete, que era meio caro. Nunca falhou. Um mês depois, chegava o disquete de volta, pelo Correio, e não me perguntem quanto custava isso.
Durante meus três primeiros anos de uso de computador eu não tinha dinheiro para botar um Windows, que era caríssimo, e difícil de conseguir pirateado. Eu usava interface DOS, o que me foi muito útil, porque me acostumei a fazer todos os comandos através do teclado.
Quando comecei a usar o mouse, descobri que ele servia para uma porção de coisas, mas ainda hoje prefiro o teclado. É mais rápido. Control-T, Control-C, Control-O, Control-V, Control-B, dou um nome e salvo. Pronto: criei uma cópia do que estava fazendo.
Tem maneiras mais fáceis de fazer isso (“Salvar como”, e colocar um 01 ou 02 no final), mas eu já amanheci o dia, no tempo em que usava WordStar ou WordPerfect, tentando transferir blocos de texto de um arquivo para outro.
Tem gente que só sabe trabalhar com mouse. Eu acho mais fácil digitar um comando do que ficar acompanhando com meus olhos míopes aquele dedinho liliputiano, que para fazer efeito tem de ser clicado exatamente dentro de um quadradinho microscópico.
Neal Stephenson tem um livro intitulado In the beginning was the command line em que ele defende o Linux e a independência do usuário. Para ele, as tais das interfaces gráficas vendem ao usuário uma aparente facilidade, mas na verdade o deixam impotente.
O cara faz as coisas sem saber o que está fazendo, e quando acontece um problema ele está mais perdido do que ludita em oficina. O preço das interfaces bonitinhas é tirar do usuário qualquer possibilidade de interferência no sistema, até mesmo para salvar a própria vida.
1752) Machado: “Habilidoso” (22.10.2008)
A crítica já identificou na obra de Machado de Assis o tema do Artista Frustrado, o sujeito cheio do desejo de criar mas a quem a criação é vedada por um motivo ou por outro. Muitos são poetas e escritores; alguns são músicos; este contozinho obscuro (Gazeta de Notícias, 1885) nos mostra um pintor. Machado nunca nos fala de gênios incompreendidos, nunca de um Van Gogh deitando pérolas aos porcos. Os tipos que descreve são frustrados por suas próprias limitações, seja de ambição, seja de talento mesmo. Tudo neles é pequeno, menos o sonho de ser grande.
O autor nos leva pela mão desde a abertura do conto: “Paremos neste beco. Há aqui uma loja de trastes velhos, e duas dúzias de casas pequenas...” A loja é de João Maria, que tem trinta e seis anos e parece ter mais, tamanha a pobreza em que vive com a mulher e um filho doente. Quando era pequeno, começou a desenhar e esculpir por impulso próprio. Chamaram-lhe “habilidoso” e ele assanhou-se. Decidiu tornar-se pintor: “Um dia aconteceu-lhe ir à exposição anual da Academia das Belas-Artes, e voltou de lá cheio de planos e ambições. Engenhou logo uma cena de assassinato, um conde que matava a outro conde; rigorosamente, parecia oferecer-lhe um punhal”.
Crente no próprio talento, como tantos, João Maria “aborrecia a técnica, era avesso ao aprendizado”. A primeira obra que lhe parece bem acabada é levada a uma casa de espelhos e gravuras na Rua do Ouvidor. Depois de muita insistência o dono aceita expor o quadro. Todo dia, João Maria toma café às pressas e corre para lá. As pessoas têm visto o quadro? Têm gostado? Têm falado alguma coisa? Os caixeiros não agüentam mais tanta pergunta. João Maria não esmorece, pinta outras telas, distribui-as pelas vitrines, mas não lhe chega nenhum feed-back, nenhum comentário: “Os jornais não diziam palavra. João Maria não podia entender semelhante silêncio, a não ser intriga de um antigo namorado da moça com quem estava para casar”.
Parece familiar. Quantas vezes a gente publica um conto, um poema, uma coluna de jornal, e vai dormir palpitando, à espera dos cumprimentos! No dia seguinte, toca o telefone e damos um pulo, para receber os parabéns: é o telemarketing oferecendo um cartão de crédito. Assim era a vida de João Maria, vítima dessa droga benéfica e terrível, o elogio ouvido na infância, que nos desperta a fome por doses cada vez maiores.
Na última cena do conto, João Maria, resignado ao anonimato, mas ainda em busca da perfeição, retoca um retrato de Nossa Senhora diante de quatro moleques que se acocoram à sua porta, no beco onde reside. “Não lhe lembra a panela ao fogo, nem o filho que lá vai doente com a mãe. Todo ele está ali. Não tendo mais que avivar nem que retificar, aviva e retifica outra vez, amontoa as tintas, decompõe e recompõe, encurva mais este ombro, estica os raios àquela estrela. (...) Que este é o último e derradeiro horizonte de suas ambições: um beco e quatro meninos”.
1751) A maldição do poder (21.10.2008)

Um amigo meu, aqui no Rio, votou em Fernando Gabeira no primeiro turno das eleições municipais. Apurados os votos, ficou definido que disputarão o segundo turno Gabeira e Eduardo Paes do PMDB. Encontrei meu amigo ontem, e perguntei se estava animado com as chances de Gabeira. “Vou votar em Paes”, disse ele. E diante da minha surpresa: “Gabeira é um homem de bem. Não quero vê-lo no Poder. Os homens de bem devem ficar sempre na Oposição, porque o Poder é um veneno para eles”.
Todos nós ficamos perplexos com as guinadas sofridas por alguns políticos depois de eleitos. Parece que o Poder tem um miasma, um agrotóxico invisível, um amianto solerte que se infiltra nos cérebros e nas consciências, trazendo danos irreversíveis. Sugeri essa teoria e meu amigo concordou: “Exatamente. Se eu fosse americano, votaria em McCain, porque esse já está perdido. Mas um rapaz decente como Obama não pode entrar na atmosfera insalubre da Casa Branca. De jeito nenhum! Nem Jimmy Carter escapou”.
Toda vez que um político de oposição chega ao poder ele descobre que na verdade o seu exército não derrotou o exército adversário. Ele ganhou a guerra, e foi nomeado general do exército adversário! Mal chega ao poder ele percebe que a tal da “máquina da corrupção” que ele jurou combater permanece encastelada nas mesmas posições onde se encontra há séculos, e que não é a chegada dele e do seu Partido que vai desenraizar esse feudo.
O que acontece, então? Ele e o seu Partido começam a se adaptar, minoria que são, às leis secretas e aos procedimentos internos dessa poderosa máquina. Não importa quem seja o titular do cargo: o Poder é da máquina, e quando o titular do cargo não se comporta de acordo com ela, a máquina dá um jeito de sabotar-lhe o mandato, comendo pelas beiras todas as suas boas iniciativas, espalhando cascas de banana administrativas e diplomáticas, fazendo-o incorrer em erros e omissões, iludindo-o aqui com promessas de apoio fácil, vergastando-o acolá com denúncias sempre que ele mete os pés pelas mãos. A Máquina são milhares de legisladores, lobistas, funcionários públicos, empreiteiros, publicitários, juízes, promotores... E para cada um desses indivíduos bote algumas dezenas de assessores, familiares, amigos, apaniguados, protegidos em geral. Eis a Máquina.
“Com correligionários assim ninguém precisa de Oposição,” deve ter meditado mais de um governante aqui e em Istambul, na Bósnia-Herzegovina e na Guatemala. Como diz meu irmão Pedro, “triste do Poder que não pode”, e essa é uma descrição patética do poder republicano num país onde a corrução se instalou como uma dinastia de cupins onipresentes. Iludimo-nos imaginando que basta “ser dono da caneta” para fazer o que bem quiser. A caneta assina, mas não se sabe ao certo quem redigiu. Gabeira e Obama que se cuidem. Às vezes a vitória nas urnas é apenas A Porta Para o Abismo.
1750) Machado: “Cantiga de Esponsais” (19.10.2008)
(Machado, por Thiago Castor)
Entre os artistas insatisfeitos na obra de Machado, o mais citado é o compositor Pestana do conto “Um Homem Célebre”. O mais obscuro (e talvez o mais melancólico) é o Mestre Romão deste conto.
Pestana queria ser compositor clássico, mas só sabia compor polcas de sucesso; Mestre Romão nem esse consolo tem. O que tem é uma ânsia desmedida de expressão, mas tudo que consegue fazer é reger as obras alheias, entendê-las, e encantar-se com sua beleza. A Providência o privou da sorte de ter obras próprias.
Diagnostica Machado: “Parece que há duas sortes de vocação, as que têm língua e as que a não têm. As primeiras realizam-se; as últimas representam uma luta constante e estéril entre o impulso interior e a ausência de um modo de comunicação com os homens”.
Todas as inspirações melódicas do Mestre Romão morriam metaforicamente no que Augusto denominou “o molambo da língua paralítica”, ou seja, a incapacidade de transformar em signos os sentimentos difusos que experimentamos na alma.
Por que motivo Machado preocupava-se tanto com os compositores? Como nunca li uma biografia dele, não sei se teve educação musical, ou se era ouvinte habitual dos clássicos. Fosse-o ou não, o fato é que numerosas vezes recorreu a músicos para falar de artistas que tentam se expressar e não conseguem.
No caso de Mestre Romão, o sentimento existe, a inspiração existe, a técnica existe... O que não existe é a liberdade íntima de criar, a ousadia despreocupada, o “E daí?” triunfal e libertador de quem consegue sobrepor à auto-crítica a auto-expressão.
Um músico erudito (excelente instrumentista) me disse uma vez invejar algumas melodias que eu tinha composto, porque ele próprio jamais quebrara essa barreira. Observei que ele, com a bagagem que tinha, poderia compor coisa muito melhor, e escutei: “Ah, quem me dera... É tudo muito difícil.”
Para alguns temperamentos, mais técnica significa mais dificuldades, e não mais soluções. “Quem lê muito escreve pouco”, já disse um mestre, e isto corrobora a idéia de que para criar é preciso aprender, e depois esquecer que se aprendeu.
Pobre do Mestre Romão! Quando casou, começou a compor um “canto esponsalício”, gênero que só pelo nome já intimida. Em vez de dedicar uma polca à esposa, que amava sinceramente, quis compor alguma coisa à altura do amor que sentia, o que é sempre uma ameaça à criatividade.
“Como um pássaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso músico, encerrada nele sem poder sair, sem achar uma porta; nada”.
A esposa morre e o canto não fica pronto. Morre Mestre Romão, ao fim da história – e as notas que lhe faltavam ele as ouve cantaroladas pela moça da casa vizinha, recém-casada e em pleno enlevo amoroso.
Era a Música Popular Brasileira que brotava dos quintais, por cima dos muros, subúrbios afora, e só Machado e meia-dúzia de escritores a ouviam.
sexta-feira, 5 de março de 2010
1749) A prosa coagulada (18.10.2008)

No Jornal Nacional, um repórter entrevistou um grupo de pessoas que ocupava irregularmente uma encosta de morro. Tinha havido um problema burocrático, e a Prefeitura os tinha autorizado a se instalar nessa área, condenada pela Defesa Civil por perigo de desabamento. Percebido o erro, a própria Prefeitura quis retirá-los, mas aí eles fincaram pé, naquela de “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. O repórter, sabendo do que ocorria, foi entrevistar o líder dos moradores, e perguntou; “Seu Fulano, quem foi que autorizou vocês a se instalarem aqui?” O cara olhou o logotipo da Globo no microfone, olhou para a câmara, pigarreou, passou a mão no cabelo e disse; “Bem, isso aí, principalmente, tem o mérito da questão de ser propriamente a Prefeitura, né?...” Ficou claro que a resposta que ele queria dar era: “Foi a Prefeitura”. Por que não disse logo?
Direi por quê. Porque ocasiões especiais requerem (ou parecem requerer) um vocabulário especial. Para o favelado em questão, a ocasião era especialíssima – quantos de vocês, caros leitores, já foram entrevistados pelo Jornal Nacional? Eu, do alto de todo o meu currículo, nunca fui. E se chegar a ser um dia (“Sr. Braulio, como é essa emoção de ser o primeiro brasileiro a receber o Prêmio Nobel de Literatura?”) vou ter que lembrar do presente artigo, para não pigarrear, passar a mão no cabelo e dizer algo como: “É uma situação dialeticamente contraditória, um verdadeiro oxímoro para quem sempre eludiu os spotlights da fama e cortejou o lusco-fusco do semi-anonimato...”
Ocasiões especiais, principalmente quando nos sentimos observados por gente superior a nós, nos pressionam a usar uma linguagem paletó-e-gravata. Mesmo quando não a temos em nosso armário. Vai daí que acabamos, na velocidade do improviso, usando roupagens verbais que não são nossas, palavras de corres berrantes e que não combinam, construções sintáticas cujo defunto-era-maior e que acabam transbordando de si mesmas.
Microfone é um bicho danado para produzir essas reações. Página impressa (para quem nunca publicou) é outra. O indivíduo já leu tanta xaropada em linguagem pomposa, empolada, cravejada de pretensão, que se sente no dever moral de reproduzi-la, porque acha que é esse o idioma que se usa na palavra impressa. O cacoete torna-se ainda mais catastrófico quando o indivíduo em questão convive com professores-doutores, acadêmicos, juristas, tecnocratas... Porque há pessoas que vivem da linguagem pomposa. Fazem dela as púrpuras e as sedas de sua superioridade intelectual, quando a possuem, ou a cortina de fumaça que os protege, quando não.
Vemos isto também em textos literários de adolescentes, os quais se dividem em dois grupos: os que querem destruir a linguagem, e os que querem reproduzi-la mimeticamente, repetindo cada chavão que leram e cada jargão com que entraram em contato. Terão que se deslastrar muito, jogar muita coisa fora, até encontrarem a própria voz.
1748) Brasil 0x0 Colômbia (17.10.2008)

Ganha fora, empata aqui; ganha fora, empata aqui. É o iôiô da Seleção Brasileira, um sobe-e-desce constante que, bem ou mal, vai nos mantendo aos trancos e barrancos rumo à classificação para uma Copa do Mundo onde queira Deus que enfrentemos times mais fáceis de derrotar do que Colômbia e Bolívia. É o nosso karma jogando em casa, e a culpa não é de Dunga. Parreira se queixava, Filipão se queixava, Luxemburgo, Leão, todos se queixavam da mesma coisa. Quando os times sul-americanos vêm jogar aqui, fecham-se atrás numa retranca fanática, impiedosa, dando a impressão de que da linha divisória para trás existem 25 ou 30 jogadores com aquela camisa de cor diferente.
É um verdadeiro arrastão, cada vez que o Kaká ou Robinho pega na bola. Nada daqueles vastos espaços abertos fornecidos domingo passado pela ingênua seleção da Venezuela, que deixou todo mundo fazer o gol com o pé que mais lhe convinha. Aqui no Maracanã, amigos, cada vez que a bola chegava perto de uma camisa amarela apareciam dois ou três trombadinhas de camisa azul que cercavam, esbarravam, empurrava, acotovelavam, travavam, até arrancar a jogada pela raiz. Foram noventa minutos disto.
E noventa minutos de incompetência, se bem que para ser diplomático é melhor chamar de “falta de inspiração”. Competência todo mundo sabe que Fulano e Sicrano têm, mas diante da torcida brasileira baixa uma responsabilidade maior que tolhe as pernas da rapaziada e bloqueia seu raciocínio. Neste jogo de anteontem não aconteceu uma só jogada de brilho, uma só jogada de verdadeiro talento. E não estou me referindo às “pedaladas” ou às graçolas que tanto encantam os torcedores ingênuos. Me refiro a jogada de talento em busca do gol, jogadas coletivas rápidas com toques conscientes de primeira, ou lances individuais em que o jogador parte para o objetivo com lucidez e velocidade, executando o que vai fazer sempre um segundo antes da chegada do zagueiro.
Parece até que quando joga diante da torcida brasileira o jogador brasileiro se sente obrigado a pensar mais na jogada. Me lembro de uma história antiga ocorrida nas cadeiras cativas do velho Estádio Presidente Vargas. A defesa adversária falhou no grande círculo e o atacante do Treze fugiu sozinho com a bola na direção da área, avançou, avançou, avançou, e chutou em cima do goleiro. Um torcedor da velha guarda sentado ao meu lado desabafou: “O problema é que deu tempo de pensar. Pensou, perdeu”.
A Seleção Brasileira anda um pouco assim. Recebe a bola e pára pra pensar. Vupt! Surgem do nada três arranca-tocos e mandam a bola pro Norte e o brasileiro pro Sul. E entra aí, também, a falta de tempo para preparar jogadas ensaiadas, movimentações combinadas, para que nossos jogadores já saibam o que vão fazer antes mesmo da bola chegar aos seus pés. Do jeito que as coisas andam, daqui a pouco eles estão recebendo um passe, matando a bola, e pegando o celular para ligar pra Dunga: “E agora, professor?...”
1747) O texto impenetrável (16.10.2008)

(Ulysses, de Joyce)
Andei relendo, para postar no meu Blog, o texto “O poema incompreensível” (29.10.2004). Como já falei aqui, todos estes meus artigos se interconectam de acordo com um sistema que só eu sei e que Deus vem pesquisando há vários anos. Aproveito esta chance para qualificar melhor alguns conceitos.
Há textos impenetráveis porque são complexos. Vejam o inevitável exemplo dos romances de James Joyce. Não digo que são bons, nem que são bonitos, que são importantes, são úteis, não digo nada, mesmo que sejam isto tudo. Digo que são complexos, e quem não gostar de coisa complexa vire noutra esquina. Diante do mundo de Joyce talvez não caiba a palavra “impenetrável”, porque o número de seguidores que nele penetra, de mãos dadas, acendendo velas, é superior ao de muitas religiões organizadas. Mas o leitor entenderá o que estou dizendo.
Há obras impenetráveis por inesperadas. Simplesmente fazem as coisas de um jeito diferente, onde nossa mente não acerta a pousar o pé. Anos depois, uma nova geração dirá: “Mas o que tem isso de incompreensível? O que tem de vanguardista? O que tem de bom?”. Talvez seja o caso de Acossado, de Godard. Quando ele cortou de Belmondo fumando no quarto para Belmondo andando na rua, metade da França deu um salto na poltrona. Hoje, pestanas nem batem.
Existe a obra impenetrável por diferente. Isto se dá comigo quando vou ler muitos autores clássicos, alguns romancistas orientais, poetas da Roma Antiga... A obra passou por uma série de filtros heterogêneos (biografia, sensibilidade pessoal, influências literárias, influências locais) e esses filtros são tão distantes da experiência de um leitor brasileiro em 2008 que o resultado final fala uma língua que nos é estranha. Nada existe aí de genialidade ou de barroquismo. É a distância cultural colocando tantos decodificadores entre a obra e o leitor que este não mais a alcança.
E existe o impenetrável por incompetência. É o autor que gostaria de ser claro e de ser compreendido, mas não consegue. Escreve daquele jeito porque é daquele jeito que pensa, que sente, que raciocina. Pensa complicado, pensa incoerente, pensa fora de foco. A obra é um disjunto de pedaços conflitantes, de estímulos que produzem a reação inversa à que pretendiam, de textos que parecem dizer e nada dizem, porque lhes falta intenção no começo e resultado no fim. Imagino às vezes que muitos livros ruins que chegam a ser publicados devem isto à circunstância de terem pousado na mesa do editor misturados a outros muito piores. Quem foi jurado de concurso já teve a experiência de esbarrar numa quantidade tão grande de coisas péssimas que a primeira mediocridade bem-vestida é recebida com alívio, e apertada de encontro ao peito. No meio de trinta muros impenetráveis, uma porta que se abre em dobradiças bem azeitadas é um refrigério, é um antídoto contra o desconsolo. E cruzamos com gratidão essa porta, mesmo que não nos leve a lugar nenhum.
1746) Machado: “Um Homem Célebre” (15.10.2008)
São muitos os artistas insatisfeitos com o próprio sucesso, e quase todos por um mesmo motivo: queriam fazer sucesso, sim, mas com outra coisa.
Woody Allen perde meses inteiros filmando dramas familiares pelos quais ninguém se interessa; todos só o querem fazendo comédias. Conan Doyle fez tanto sucesso com os contos de Sherlock Holmes que acabou matando-o, porque o detetive eclipsava seus romances históricos e de ficção científica (até melhores, aliás, que os livros de Holmes). O público e as libras esterlinas lhe impuseram a ressurreição.
Vejam o Pestana, deste conto de Machado. Era doido para compor música clássica, mas só lhe saíam polcas, as quais, pela crueldade inocente da vida real, faziam enorme sucesso. Pestana sentava-se à noite ao piano, olhando a parede repleta de retratos a óleo dos grandes mestres, e tentava emular-lhes a inspiração; debalde. Acontecia-lhe o que acontece a todos nós: ficar duas ou três horas seguidas remoendo-se de ansiedade, sujeito a um sem-número de falsos arranques que não dão em nada, para afinal largar tudo em desespero, apagar a luz e ir dormir.
Pestana sofre com o fracasso, e sofre ainda mais com o sucesso, porque suas polcas vendem-se que é uma beleza – sim, amigo, isto se passa no tempo em que compravam-se partituras de uma canção, para reproduzi-la ao piano, e o compositor recebia direitos autorais. Mais que vendidas, são assobiadas na rua, termômetro infalível do sucesso popular.
Pestana faz de tudo para compor como Beethoven, Mozart ou Haydn, mas só lhe saem polcas, cada qual mais popular. Uma vez compôs para a esposa um Noturno. Quando o mostrou, sem dizer nada, ela perguntou-lhe se não era Chopin. Era. Diz o autor: “Pestana achara-o em algum daqueles becos escuros da memória, velha cidade de traições”.
Pestana se parece com aquele escritor best-seller a quem não basta vender dez milhões de livros: quer entrar para uma Academia, quer ser objeto de teses de doutorado. Quer, em suma, o reconhecimento do Andar de Cima, esta mítica cobertura do nosso mundo cultural, onde a mobília é bem mais rastaqüera do que a do andar térreo, mas dizem que a vista é melhor.
Não importa o sucesso do nosso mercadinho de secos-e-molhados ao rés-do-chão, sempre queremos ter o direito de freqüentar o andar superior da torre de marfim. Cobiçamos isso como eles, o de lá de cima, cobiçam o tilintar da nossa caixa registradora.
O conto de Machado registra um momento crucial na nossa cultura: o surgimento da Música Popular Brasileira. No seu tempo eram as polcas, as valsas, maxixes, lundus e cateretês. Eram as músicas que o povo dançava nas festas e assobiava nas ruas.
Pestana é essa espécie eternamente em-vias-de-extinção: o músico erudito, ou eruditamente formado. Ele continua vivo e a ver com angústia o crescimento dessa hidra de mil cabeças, a Música Popular, um samba-de-uma-nota-só, que ele contempla com desdém e (quando tem sorte) cultiva com remorso.
1745) Brasil 4x0 Venezuela (14.10.2008)

E lá vai a Seleção de Dunga, na sua gangorra de bons e maus resultados, sintoma clássico de um time que ainda não se encontrou e cujo destino depende de fatores fora de seu controle. No jogo de domingo passado, o fator benfazejo foi o clima de bravata com que os venezuelanos cercaram o jogo. Inspirados certamente no espírito do seu presidente, o fanfarrão Hugo Chávez, torcedores, imprensa e jogadores andaram bradando que iriam repetir a vitória por 2x0 que haviam conseguido no último confronto. Durante a execução do Hino brasileiro, ouviram-se vaias. Começado o jogo, o time da Venezuela lançou-se para a frente, de forma quixotesca. Quase faz um gol com dois minutos, mas aos 18 já tinha tomado três, e o jogo acabou ali.
O nivelamento por baixo que tem ocorrido no futebol criou uma situação curiosa. Os jogos mais fáceis do Brasil são os que ele disputa fora de casa, e os mais complicados são os do Maracanã, Morumbi, etc. Entende-se por quê. Antigamente o Brasil era invicto nas eliminatórias das Copas. Desfilava pelos gramados do continente, aplicando goleadas e bocejando. Agora a situação mudou, e times como Bolívia, Equador, Paraguai, até mesmo a Venezuela vão dormir cheios de esperança na véspera dos jogos. “Quem sabe (pensam) se não ganhamos do Brasil amanhã?” Quando o jogo é na casa deles, a imprensa se encarrega de lhes aplicar uma ampola dupla de ambição e de otimismo, falando em Pátria, condenando “el imperialismo brasileño...” Vai daí que, jogando em casa, todos eles se atiram ao ataque acreditando que vão ganhar de nós, e se esquecem de marcar Kaká, Robinho e Adriano. Putufo! Bola na rede.
Quando o jogo é aqui, claro, a coisa muda de figura, e eles voltam à velha retranca que os tem acompanhado e protegido há décadas. E é a vez do Brasil entrar em campo cercado pelo ufanismo, porque agora é a nossa imprensa e a nossa torcida que se arregimentam esperando o “espetáculo”, a goleada, a pedalada, o drible de placa... De vez em quando acontece. Geralmente, não. Ficam os nossos jogadores tolhidos, encolhidos, livrando-se da bola com medo de errar; ou então sassaricando para as câmaras e os olheiros europeus. Vêm daí alguns resultados constrangedores obtidos em casa, como o recente empate de 0x0 com a Bolívia.
O Brasil não deixará de se classificar para a Copa, ainda que seja atrás de Paraguai, Argentina & Cia. É até bom que sofra. É até bom que leve uma surrinha de vez em quando, para perder o salto-alto que o derrotou na Alemanha em 2006. Pena que tudo isto não esteja acontecendo com um técnico que infundisse mais segurança do que o estreante Dunga. Eternamente zangado, ele demonstra como técnico as qualidades e os defeitos que tinha como jogador. Sua Seleção é defensiva porque os técnicos de hoje não querem ganhar jogos, querem manter empregos. Torçamos por ele e por ela, porque não nos resta opção, mas o caminho da vitória é de cascalho, e os pés irão descalços.
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