terça-feira, 2 de março de 2010

1735) O fantasma de Enoch Soames (3.10.2008)



(Enoch Soames)

“Enoch Soames” é um conto de Max Beerbohm (1872-1956) sobre um poeta romântico inglês do fim do século. Um desses caras meio patéticos, sem muito talento, que acreditam serem gênios incompreendidos. No conto, que transcorre em junho de 1897, Beerbohm diz estar um dia conversando com Soames num café quando o Diabo aparece aos dois e propõe a Soames (em troca de sua alma, claro) a chance de saber algo a respeito de sua glória futura. Ele o transportará para o Salão de Leitura do Museu Britânico dali a exatamente cem anos, para consultar os catálogos e ver de que maneira sua obra poética será lida pela Humanidade no futuro. Soames aceita. Quando retorna, está arrasado. A única menção ao seu nome nas enciclopédias diz que ele é um personagem fictício criado por um tal de Max Beerbohm. Aí surge o Diabo e o carrega.

No conto, o autor dá o dia exato (3 de junho de 1997) e o horário (a partir das 14 horas) da visita de Soames ao Museu. O conto tornou-se famoso, e apareceu em antologias como a Antologia de Literatura Fantástica organizada por Jorge Luís Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo. E contos desse tipo, que projetam uma data específica no futuro, dão no leitor uma pequena cócega. O que será que vai acontecer, naquele dia, naquele lugar?

Li um artigo no The Atlantic (http://www.theatlantic.com/issues/97nov/teller.htm) assinado por Teller, da dupla de ilusionistas Penn & Teller. Diz ele que, fã do conto de Beerbohm, deu-se o trabalho de ir ao Salão de Leitura do Museu Britânico em 3 de junho de 1997, na data e na hora pré-fixados por Beerbohm, só para ver se Enoch Soames iria mesmo aparecer. No conto, Soames diz que as pessoas do futuro têm a cabeça raspada, e vestem uniformes idênticos, acinzentados. Os livros usam uma ortografia fonética, difícil de entender à primeira vista. Diz ele que sua roupa extravagante e seu chapelão de 1897 causaram grande curiosidade e inquietação nos presentes.

No artigo de Teller, ele diz ter encontrado leitores do conto de Beerbohm que vieram da Califórnia, de Cambridge e de outros lugares, simplesmente pela idéia maluca de presenciarem um fato “profetizado” por um escritor. Isto diz muito do modo como funciona nossa cultura. As pessoas sabem que se trata de um conto fantástico, mas agem como se aquilo pudesse acontecer, e sabem que não acontecerá. Até certo ponto – porque (a acreditar em Teller) um sujeito vestido exatamente como Enoch Soames surgiu na hora marcada, vestido a caráter, e reproduziu todos os gestos e comportamentos do personagem, tintim por tintim, de acordo com o conto. E sumiu.

Meditem, amigos, se Oscar Wilde não tinha razão ao dizer que a vida copia a Arte muito mais do que a Arte copia a vida. A aparição do “fantasma” de Soames é mais um exemplo de nossa obsessão em tornar real aquilo que era apenas texto. Como se a literatura fosse uma peça esperando para ser encenada por gente de carne e osso. E obrigando-nos a fazê-lo.

1734) Paul Newman (2.10.2008)



O primeiro filme que assisti com ele foi Marcados pela Sarjeta. Eu era tão pequeno, mas tão pequeno, que lia o título como “Marcados pela Sargenta”. Era a história de Rocky Graziano, um boxeador fracassado, ancestral de personagens como os de De Niro em O Touro Enfurecido e Stallone em Rocky. Newman morreu dias atrás, aos 83 anos, depois de uma carreira em ziguezagues, na qual trabalhou em grandes filmes e em numerosas besteiras, sem nunca perder a pose, o charme e a competência. Não era um grande ator, no sentido em que De Niro, Al Pacino e Dustin Hoffman são grandes atores: grandes impersonadores de psiquês que não são as suas. Newman era um só, fosse no papel de gangster, de cowboy, de político, de astronauta, de marido, de bebum. Mas esse um-só dele tinha (graças ao Actor’s Studio, e a uma inteligência muito acima da média) uma tal riqueza de nuances que 200 filmes (ou sei lá quantos fez) não esgotaram.

Newman era um ai-jesus do público feminino; moreno e de olhos verdes, gozava de uma unanimidade comparável à de Chico Buarque. Dava a quase todos os seus personagens uma aura de masculinidade descuidada, de quem é homem sem fazer força, e se comporta com as mulheres sempre no ponto médio ideal entre o rude e o delicado. Foi um galã másculo sem a truculência de seus contemporâneos Burt Reynolds, Burt Lancaster, Kirk Douglas. Foi galã e foi estrela com certo desdém por tudo isto. Era independente demais para o gosto de Hollywood, que ainda assim conseguiu espremê-lo até a última gota.

Para meu gosto, seus grandes papéis são as divertidas parcerias com Robert Redford (Butch Cassidy, Golpe de Mestre), sua densa e distanciada interpretação em Ausência de Malícia, seu detetive Lew Harper baseado nos livros de Ross MacDonald (The Moving Target, The Drowning Pool), o atormentado Billy the Kid de Um de nós morrerá. Fez, sem esquentar a cabeça, personagens meio improváveis como um ganhador do Prêmio Nobel de Literatura (The Prize), um cientista nuclear (Cortina Rasgada), um caçador de focas futurista (Quinteto). O último papel em que o vi foi há vinte anos, como o General de Fat Man and Little Boy.

Newman é um dos muitos atores/produtores/diretores que justificam a existência da máquina cinematográfica de Hollywood. Longe do que o cinema tem de melhor, é o que o cinema hollywoodiano conseguiu produzir de melhor. Era (pelo que se lê) um sujeito decente, ético, humanitário. Para o público, foi um ator correto, e um eventual diretor sem brilho mas com alma. Alguém a ser lembrado numa época em que os EUA são vistos pelo mundo (com razão) como uma Ditadura Financeira sustentada pelo maior exército da História, e o povo americano é visto (injustamente) como uma massa informe de caipiras, bairristas na política, provincianos na cultura e fundamentalistas na religião. O mundo de Newman é um reflexo do lado não-estragado da América.

1733) Machado: “Sales” (1.10.2008)



(Machado, por Borges)
 

Já falei aqui sobre os Sonhadores Pródigos na obra de Machado, personagens recorrentes que têm algo de gênio criativo e de maluco desorientado. Seus protótipos mais visíveis são o Quincas Borba (de Brás Cubas e do livro a que dá nome), e o Dr. Simão Bacamarte, de O Alienista

Mentes inquisitivas, afeitas ao bordado mental de teorias abstrusas, que parecem menos abstrusas quando é o próprio autor quem as expõe, com gestos, eloqüência, verve, e a convicção íntima que anima os gênios e os doidos. 

Outro desse grupo é o protagonista de “Sales”, conto pouco conhecido, publicado na Gazeta de Notícias em 1887. Sales não é propriamente um farol da ciência ou da filosofia, mas é também um sonhador, um compulsivo. Como diz Machado: “Cortava largo, sem poupar pano ou tesoura”. Animado por uma inesgotável energia interna, ele impressiona quem lhe está à volta. 

É o caso de Melchior, senhor de engenho em Pernambuco, que se deixa arrebatar por uma idéia de Sales para a produção de açúcar e lhe cede em casamento a filha Olegária, ou “Legazinha”. Sales mergulha nos papéis, nos cálculos, mas o casamento o distrai, principalmente depois que traz a mulher para morar no Rio. Legazinha se preocupa ao ver que o marido deixa logo para trás a idéia do açúcar e já vem com outra, uma taxação fixa a cada habitante da capital para provê-lo de pescado durante a Semana Santa: “O juro do capital, o preço das ações da companhia, porque era uma companhia anônima, número das ações, entradas, dividendo provável, fundo de reserva, tudo estava calculado, somado”. 

Vê-se aqui que o talento de Sales difere dos demais em que se foca na administração e nas finanças, em vez de nas letras e artes. Sales é um empreendedor; um Lesseps ou Mauá em botão. O que lhe falta? Dinheiro não é, porque o dote de Legazinha o abastece com fartura. 

Falta-lhe talvez sorte, ou fazer-se entender por uma humanidade bronca e vagarosa. A companhia de pescado não dá certo, e Sales anuncia uma ida à Europa, para pesquisar a implantação de uma fábrica de rendas: “o Brasil dando malinas e bruxelas”. 

Antes mesmo de embarcar, Sales já visita um Ministro do Império para mostrar-lhe outra idéia que acabara de ter: arrasar os prédios públicos do Campo da Aclamação e substituí-los por edifícios de mármore. O Ministro vacila ante o faraônico da proposta, balbucia que o governo não tem recursos... 

Nada desanima Sales. É um plano atrás do outro, uma idéia gigantesca sendo eclipsada por outra ainda maior. O Brasil é pequeno para seu delírio criativo, e se o Brasil o é, o que dizer do dote de Legazinha? Em seis anos se evapora, e a apaixonada esposa, chorando às escondidas, vê-se preparando balas e compotas para vender e sustentar a casa. 

Sales cai doente; em seu derradeiro delírio antes de expirar, tem uma visão de “milhares de criaturas humanas, com os braços erguidos ao ar, esperando o pão da verdade e da justiça... que ele ia... distribuir...”





1732) Quem é bom de memória (30.9.2008)




(Rádio Borborema)

Circula por emails uma “corrente” de campinenses saudosos, tipo Marcos Soares, relembrando lugares, pessoas e momentos de Campina antiga. 

Melhor do que repassar a corrente é dividir aqui com meus leitores as lembranças da pipoqueira da Maciel Pinheiro no fim da tarde, do sorvete da Capri (a pequena, na descida da Cardoso Vieira rumo à Rodoviária, e depois a grande, perto da atual Biblioteca); os montes de lenha na frente das padarias ao amanhecer; o caldo-de-cana de Hipólito, perto do antigo Palacinho da Criança onde a gente ia ver bichos empalhados; a Feira de Fruta, parada obrigatória dos bacuraus madrugada adentro; as buates, que eram chamadas de “INPS” no tempo da luz negra, porque todo mundo ia de branco: Whiskyzito, Xique-Xique, Enche-Pança, Preto-e-Branco, Cartola.

Como esquecer figuras como Mazzaropi do picolé, Ciço porteiro do Alfredo Dantas, Luizinho do táxi, Seu Zé do Capitólio, Espanha da Flórida, Fuba da Casa Esporte, a quem comprávamos bola de couro para jogar no campo das Barreiras no Alto Branco. 

Colegas que trabalharam comigo num século que já foi: Bira e Alexandre do áudio-visual da FURNe, Ana Marinho e João Carias da Reitoria, os fotógrafos do "Diário da Borborema" (Valdi Lira, Marcelo de Absalão, Nicolau), Seu Marco e Seu Pedrinho do Museu de Arte, Seu Lisboa motorista, Albanisa a Secretária Nota 10, o Capitão Asa, Biu Porteiro.

Personagens cosmopolitas como só Campina tem, como Janos Tatrai, o único técnico húngaro do Treze e do Campinense; o espanhol Prof. Peletero, autor de um “Projeto de uma unidade catalítica para o cracking do petróleo” e safoxonista amador; o Cônsul do Líbano, José Noujaim, representante da cultura islâmica na Serra; o Alemão do Chope. 

Professores de gerações inteiras como D. Zefinha, D. Wanda, D. Otília, Anésio Leão, Prof. Almeida e sua filha D. Nora, Gabriel Agra, Padre Maia, Zé do Bode, Celso Pereira, Rubens Lima, Prof. Adelmo.

Sem falar nas barracas da Festa da Mocidade, e as mensagens sonoras do Parque Lima, as paradas do Dia 7 que eram encerradas por um monte de caras andando a cavalo, as vitrines da Maciel Pinheiro cheias de algodão e cetim vermelho na época do Natal. 

Os pirulitos cônicos enrolados em papel de embrulho e enfiados nos buracos da tábua; o algodão-de-açúcar (que o resto do Brasil chama algodão-doce), o raspa-raspa de gelo cercado por garrafas coloridas, a maquininha de descascar laranja na manivela, o cachorro-quente “comeu-morreu” nos jogos noturnos do PV. 

Cardápio raro dos bêbos: o “tradicional” do Cearense (servido por Seu Ermírio, “Buda”), o “rato” da Riviera, a costela do Castelo, a cabeça-de-galo do Corredor da Morte. 

Os cartazes anunciando filmes ou futebol, pintados à mão e amarrados nos postes; a camionete de Zé Américo II (“bola vai, bola vem; bola vem, bola vai”), a arte de “botar voz” no Calçadão. 

A banca de Henrique; o fiteiro de Toín Trujão; o sebo de Câmara; a troca de gibis de capa rasgada nas matinais de um domingo que até hoje não passou.








1731) Machado: o Sonhador Pródigo (28.9.2008)




É um personagem que aparece de forma recorrente nos contos de Machado. Tem tintas de cientista louco, como o Dr. Bacamarte de “O Alienista”. 

São, todos eles, intelectuais de província com sua típica mistura de ingenuidade, megalomania e semi-informação. Enredam-se em teorias abstrusas, fazem descobertas espantosas a que ninguém dá atenção, reinventam a roda e a pólvora. Monomaníacos, excêntricos, simpáticos, todos com um grau a mais de intensidade mental e um grau a menos de pés-no-chão.

Como o Dr. Jeremias Halma de “O Lapso” (em Histórias sem data, 1884): “Viajara muito, sabia toda a química do tempo e mais alguma; falava correntemente cinco ou seis línguas vivas, e duas mortas. Era tão universal e inventivo, que dotou a poesia malaia com um novo metro, e engendrou uma teoria da formação dos diamantes”. 

O Dr. Jeremias em nada fica a dever ao Cônego Fulgêncio, de “Ex Cathedra” (no mesmo livro): “Um dia, acordando com a idéia de melhorar a condição dos turcos, redigiu uma constituição, que mandou de presente ao ministro inglês, em Petrópolis. De outra ocasião, meteu-se a estudar nos livros a anatomia dos olhos, para verificar se realmente eles podiam ver, e concluiu que sim”.

Em “Um esqueleto”, alguém nos refere o Dr. Belém: “Compusera um romance, e um livro de teologia, e descobrira um planeta. (...) Veio à corte para imprimir os dois livros, mas não achou editor e preferiu rasgar os manuscritos. Quanto ao planeta comunicou a notícia à Academia de Ciências de Paris; lançou a carta no correio e esperou a resposta; a resposta não veio porque a carta foi parar a Goiás”. 

Ria, leitor, porque são desgraças fictícias; mas cesse de rir quando lembrar os destinos reais de Hercules Florence, que inventou a fotografia no Brasil, e do Padre Landell de Moura, que inventou a telefonia sem fio. Nem mesmo no Brasil há quem os conheça.

O protagonista de “A Idéia do Ezequiel Maia” (na Gazeta de Notícias, 1883) era capaz de abstrair-se do próprio corpo e fazer viagens mentais: “No quarto mês empreendeu um estudo que lhe comeu cinqüenta e seis dias: achar a filiação das idéias, e remontar à primeira idéia do homem. Escreveu sobre este assunto uma extensa memória, em que provou a todas as luzes que a primeira idéia do homem foi o círculo”. 

Igualmente infatigável é o Xavier de “O Anel de Polícrates” (em Papéis Avulsos, 1882): “Era um endiabrado, um derramado, planeava todas as cousas possíveis, e até contrárias, um livro, um discurso, um medicamento, um jornal, um poema, um romance, uma história, um libelo político, uma viagem à Europa, outra ao sertão de Minas, outra à lua, em certo balão que inventara, uma candidatura política, e arqueologia, e filosofia, e teatro, etc., etc. Era um saco de espantos”. 

São os criadores sem foco, os talentosos sem método, os inspirados sem persistência. Os milhares de gênios em botão que se ressecam e estiolam na periferia do capitalismo.






segunda-feira, 1 de março de 2010

1730) O fantasma de Joan Burroughs (27.9.2008)



(Joan Vollmer Burroughs)

Não acredito em fantasmas. Acredito que os mortos têm uma sobrevida em nossa mente, uma existência residual que independe deles, da pessoa que foram. Continuam em nossa memória como imagens autônomas, indiferentes à dissolução da pessoa que lhes deu origem. Vem daí a tradição da literatura fantástica em mostrar imagens que se libertam do espelho e ganham vida própria, a sombra que se desprende do corpo, a figura que sai da pintura.

Como dizia Drummond, em “Convívio”, “eles não vivem senão em nós, e por isso vivem tão pouco; tão intervalado; tão débil”. Esse poema sempre me lembra um poema (“Dream Record: June 8, 1955”) que Allen Ginsberg escreveu sobre Joan Burroughs, a esposa do seu amigo, o escritor William Burroughs. Joan morreu de maneira patética quando o casal morava no México. William tinha mania de revólveres, estava bêbado, e quis brincar de Guilherme Tell. Pôs um copo sobre a cabeça de Joan e tentou acertar um tiro nele. Acertou a testa da esposa, que morreu na hora. Burroughs comentou, na velhice, que isto foi um dos impulsos para que ele se tornasse escritor. Escreveu (talvez) para que um dia fosse julgado por outras ações além dessa.

Diz Ginsberg que adormeceu bêbado e sonhou com Joan Burroughs, sentada num banco do jardim, e seu rosto tinha readquirido a beleza que tinha, “uma beleza estranha devido ao sal e à tequila, antes do tiro na testa”. Os dois começavam a conversar. Joan pedia notícias dos amigos – e Ginsberg respondia, como acontece em todo reencontro de quem não se vê há muito tempo.

 “O que Burroughs anda fazendo agora? / Bill continua na Terra, agora anda pelo Norte da África. / Ah, e Kerouac ainda mantém / o mesmo gênio “beat” de antes, / com cadernos cheios de budismo. / Tomara que ele se acerte, riu ela. / E Huncke, ainda está na cadeia? Não, / a última vez que o vi estava em Times Square. / E como está Kenney? Casado, bêbado / e bronzeado, no Leste. E você? Novas paixões / no Oeste...”

Diz Ginsberg que nesse momento percebeu que era um sonho, e perguntou-lhe:

“Joan, que tipo de conhecimento têm / os mortos? Você ainda ama / os mortais que conheceu? / Lembra o quê, de nós? / E ela se desvaneceu à minha frente – e no instante seguinte / tudo que vi foi sua lápide manchada pela chuva / com um epitáfio ilegível / sob um galho retorcido / de uma árvore, entre o mato selvagem / de um cemitério esquecido no México”.

Nunca vi um fantasma, e acredito que nunca verei. Mas já me ocorreu sonhar com alguém morto e só lembrar dessa morte lá pelo meio do sonho. Meu cuidado, então, era para continuar agindo normalmente, para que a pessoa não percebesse que já tinha morrido. Ao conversar com os mortos, tocar no assunto da morte é como tocar numa bolha de sabão. Eles desaparecem, porque uma pergunta é algo muito sólido e muito brutal para o que são, e os arremessa de volta para o lugar, dentro de nós, de onde vieram.





1729) Simetrias secretas (26.9.2008)




(Clennon e Dysart)

Há coisas que só um cinéfilo muito do desocupado percebe. Podem não ter e provavelmente não têm importância alguma: mas são simetrias secretas. 

É como encontrar duas árvores exatamente iguais. Qual a probabilidade disto acontecer? O mundo é cheio de rimas, escritas não sei por quem.

Ontem assisti na TV Muito Além do Jardim (Being There, 1979), de Hal Ashby. Nele, Peter Sellers faz o papel de um jardineiro retardado. Por uma série de acasos, ele é recolhido como hóspede na casa de um bilionário, em Washington, e acaba se transformando em conselheiro do Presidente dos EUA e sendo cotado para sucedê-lo.

É uma sátira excelente, e foi o último filme de Sellers, que concorreu ao Oscar, e morreu um ano depois.

Dois coadjuvantes tinham rostos que me pareceram familiares, e fui ver quem eram. Eram David Clennon, que faz um advogado, e Richard Dysart, que faz o médico particular do bilionário (Melvyn Douglas).

Fui no Internet Movie Data Base, e descobri uma coisa curiosa. Depois desse filme os dois trabalharam também em O Enigma do Outro Mundo (The Thing, 1982) de John Carpenter, como dois dos cientistas que, numa base na Antártica, combatem um alienígena.

O mais estranho é que esses dois atores fizeram papéis parecidos em dois filmes parecidos.

Em Muito Além do Jardim eles são os únicos personagens que não acreditam que Chauncey (Peter Sellers) seja de fato o gentleman intelectual e “zen” que todos (inclusive o Presidente dos EUA) imaginam. Eles sabem que Chauncey é vazio, é uma mente “em branco”, que está ali representando um papel sem nem saber que o faz, de tão vácuo que é. Ele impersonou involuntariamente um tipo humano, e todo mundo comeu corda. Todo mundo olha para Chauncey, e vê nele uma pessoa que ele não é.

Em O Enigma do Outro Mundo, os cientistas na base da Antártica descobrem uma nave enterrada, e um alienígena perigosíssimo que é um “shape-changer”, uma criatura que “muda de forma”, capaz de absorver partes de qualquer outra criatura, sintetizar seu DNA, e, de forma quase instantânea, se metamorfosear, adquirindo a aparência daquela criatura.

O monstro vai devorando os cientistas um por um (inclusive os interpretados por Clennon e Dysart), e o suspense da história é não sabermos, quando Fulano aparece, se Fulano é ele mesmo ou já é o monstro.

Há um conto de FC de Bob Shaw (“Reprise”, 1970) em que uma nave extraterrestre se acidenta perto de uma vila inglesa. O único sobrevivente, um “shape-changer”, se refugia num cinema e, para passar despercebido, adota a aparência de algum dos atores coadjuvantes do filme que está passando naquela noite. É descoberto por um cinéfilo que acha estranho ver na platéia, toda noite, um coadjuvante do filme que acabou de passar, alguns deles mortos há muitos anos...

Acho que existem criaturas, entre nós, que não são o que parecem, que adquiriram um poder desmedido em nosso mundo, e usam estes filmes para revelarem aos poucos sua presença e nos anunciarem seu Reino.





1728) Os colecionadores de sonhos (25.9.2008)




Quando eu era pequeno havia na minha casa um costume de eventualmente contarmos uns aos outros o que havíamos sonhado à noite. Minha tia Adiza, que morou muitos anos na casa dos meus pais, costumava perguntar o que a gente tinha sonhado, e às vezes contava seus próprios sonhos. 

Uma coisa que desde cedo me chamou a atenção era o tempo verbal em que os sonhos eram contados (pelo menos na minha família), que era sempre o imperfeito do indicativo. A gente não dizia: “Eu entrei numa casa, encontrei Fulano, ele me entregou um pacote”. Era assim: “Eu entrava numa casa, encontrava Fulano, ele me entregava um pacote...” 

Acho que essa mudança de tempo ficava subentendida porque no início se colocava o ato de sonhar no pretérito perfeito: “Eu sonhei que entrava numa casa...”, e daí todo o resto mudava.

Muitos autores que admiro (Graham Greene, Georges Perec, Jack Kerouac, William Burroughs, etc.) publicaram coletâneas de seus próprios sonhos. Outros incluíram relatos desse tipo em volumes autobiográficos ou ensaios (Freud, Jung, Luís Buñuel, Jorge Luís Borges, R. L. Stevenson, etc.). 

Em muitos casos os sonhos serviram como ponto de partida para contos, livros, filmes. Os três maiores clássicos do terror foram baseados em pesadelos dos seus autores: o Frankenstein de Mary Shelley, O Médico e o Monstro de Stevenson e o Drácula de Bram Stoker.

No prefácio de A World of my Own (1992), sua coletânea de sonhos, Graham Greene comenta que alguns dos seus contos (“Dream of a Strange Land”, “The Root of all Evil”) saíram direto do sonho para a página, com pequenas alterações. Conta também que sonhou com o naufrágio de um navio na noite em que o Titanic afundou. 

Esta observação nos leva ao assunto dos sonhos proféticos, que são objeto de um dos livros mais fascinantes que já li, Man and Time de J. B. Priestley (1964). Priestley acreditava nas teorias expostas por J. W. Dunne em seu clássico visionário An Experiment with Time (1927). A teoria é basicamente de que existem “camadas de tempo” superpostas umas às outras. Quando dormimos, nossa mente se liberta da camada em que está nosso corpo e se transfere para uma camada imediatamente superior, de onde é capaz de vislumbrar fatos futuros.

Eu acho que a teoria tem um grão de possibilidade, mas o sonho de Greene não tem nada a ver com ela. O Titanic era, como se sabe, o maior navio construído no mundo naquela época. Sua construção, seu lançamento e sua primeira partida para o mar foram alvo de grande cobertura da imprensa. 

Ele afundou em abril de 1912; Greene tinha, então, oito anos incompletos. Para mim é perfeitamente explicável que um garoto imaginativo ouça falar na partida iminente de um navio proclamado “não-afundável” e, à noite, sonhe que o navio afundou. Imagino que quando a Apollo 11 partiu para a Lua em 1969 muita gente deve ter sonhado com variados desastres. Como a nave foi e voltou, os sonhos passaram em branco.






1727) Machado: Uma Excursão Milagrosa (24.9.2008)



(Machado, por Marcos Guilherme)

Já comentei a relação difícil de Machado de Assis com a literatura de fantasia. Não é que não gostasse dela. Machado cita autores como Julio Verne ou Edgar Allan Poe (chegou a fazer uma tradução sofrível de “The Raven”). Seu papel, contudo, foi o de combater o exagero superficial do romantismo e do melodrama, com suas paisagens orientais e exóticas, seus cemitérios, suas assombrações, suas viagens alucinatórias e fantásticas. Queria produzir um realismo voltado para a vida da burguesiazinha financeira da corte, descobrindo por trás da sua empáfia e superficialidade profundezas insuspeitadas do espírito humano.

Vai daí que grande parte das incursões de Machado pelo fantástico eram meros entretenimentos para descontrair. Era um escriba de revistas e jornais, tendo que inventar alguma coisa a toda hora, e nem sempre com a concentração e o foco mental ideais. Em “A Chinela Turca” ele parodia e satiriza o “ultra-romantismo” dos melodramas teatrais da época. Em “Uma Excursão Milagrosa” (Jornal das Famílias, 1866) ele se serve do personagem Tito, um poeta desempregado, esnobado pelos colegas, e que, para seu próprio desgosto, vende poemas para que um ricaço os publique dizendo que é o autor. Depois de uma extensa introdução (que dá a impressão de que o autor improvisava, estendendo-se o mais que podia por não saber ainda que história iria contar), o narrador dá a voz a Tito, que passa a contar com suas próprias palavras o que lhe aconteceu.

Durante uma madrugada, entra-lhe de casa adentro “uma sílfide, uma criatura celestial, vaporosa, fantástica, trajando vestes alvas, nem bem de pano, nem bem névoas”, que o arrebata consigo rumo ao céu. É mais uma das viagens delirantes de Machado (Brás Cubas, “A Segunda Vida”, etc.), em que mesmo nas asas da Fantasia o personagem não evita dizer: “Eu, que me havia distraído algum tempo da ocupação das musas no estudo das leis físicas, contava que naquele subir contínuo breve chegaríamos a sentir os efeitos da rarefação da atmosfera”. Tal não ocorre, e os dois, após cruzar os planetas, chegam ao País das Quimeras, ou Reino das Bagatelas.

Ali tudo é cercado de rituais e rapapés, como no Oriente. O país é habitado por Utopias e Quimeras, que são “moçoilas frescas, lépidas, bonitas e louras”. Tito percorre aquele país, conhece a Moda, cercada “de suas trezentas belas, caprichosas filhas”; testemunha a fabricação da “massa quimérica”, uma massa “branca, leve e balofa”, destinada a preencher as mentes de estadistas, poetas e namorados. Acaba caindo de volta à Terra, e pertinho de casa. O narrador comenta que Tito passou a ser ainda mais marginalizado do que o era, pois agora não resiste à tentação de denunciar quimeras e fantasias onde as avista. Fica evidente, no conto, a leveza, o humor e a ironia casual de Machado para com as convenções da fantasia romântica. Num contozinho tapa-buraco, ele acaba deixando escapar uma profissão de fé.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

1726) “Jack” (23.9.2008)



(China Miéville)

O conto “Jack” de China Miéville, incluído na antologia The New Weird, explora formas híbridas, heterogêneas. Em primeiro lugar há o hibridismo temporal. O universo da cidade de New Crobuzon, criado por Miéville, tem algo do gênero “steampunk”, uma fusão fascinante de elementos futuristas e elementos retrô, coisas de cem anos atrás e coisas de daqui a cem anos. Isso produz uma sensação constante de estranheza e de familiaridade. Ao visualizar esse ambiente, nossa imaginação salta em direções opostas, produz um número muito maior de sínteses (passado/ presente, presente/futuro, passado/futuro) e fica pronta para aceitar situações cada vez mais “estranhas, insólitas, bizarras”.

Existe na sociedade de New Crobuzon um hibridismo permanente entre hardware tecnológico e magia utilitária. Quando as autoridades desencadeiam uma caçada ao inimigo público no. 1, Jack Half-a-Prayer (“Jack Meia-Reza”), o autor diz que elas “utilizaram toda a taumaturgia de que dispunham, os médiuns, os leitores de mentes, e as máquinas de empatia trabalhando a toda potência”. Esta sociedade futura conseguiu fazer o elo entre energias psíquicas e mecanismos físicos, com estes podendo ser adaptados para produzir, armazenar e canalizar aquela, como o fazem com a energia eletromagnética.

O hibridismo visual mais evidente no texto são os enxertos mecânicos a que são submetidos os criminosos condenados em New Crobuzon, que não teriam vez numa narrativa de “realismo futurista” estilo Asimov ou Arthur C. Clarke, na qual seriam considerados despropositados, ou impossíveis de levar a cabo. O tom naturalista da narração de Miéville evita trazer para primeiro plano qualquer sentido alegórico que essas imagens podem ter. Elas são aceitas como parte da realidade descrita. E o Jack deste conto evoca o Spring-Heeled Jack do folclore londrino do século 19.

Em New Crobuzon, as vítimas de tais enxertos são chamadas “os Refeitos” (“the Remade”): “Jack veria essa mulher, cujas mãos foram foram amputadas e substituídas por pequenas asas de pássaros; (...) e o mesmo com aquele garoto a quem extraíram os olhos, substituindo-os por um arranjo de vidros escuros, tubos de órgão e luzes, fazendo-o tropeçar, por estar vendo as coisas de uma maneira diferente da que via desde o nascimento(...). É difícil entender as lógicas do Refazer, pois às vezes os juízes passam sentenças que não fazem sentido. Um homem mata outro com uma faca: seu braço assassino é amputado e substituído por uma faca motorizada com toda a tubulação a vapor necessária para que funcione. (...) Mas não posso explicar a mulher em quem foi implantado um colar de penas de pavão, ou o menino com pernas-de-aranha feitas de ferro enxertadas nas costas, ou as pessoas com olhos em número excessivo, ou com máquinas que as fazem queimar por dentro, ou com pernas de bonecos de madeira, ou com braços substituídos por braços de macacos, que balançam ao andar, com a graça de um gorila maluco”.