domingo, 18 de janeiro de 2009

0761) A fábrica de chocolate (26.8.2005)




Não gostei tanto quanto esperava de A Fantástica Fábrica de Chocolate, em cartaz na Paraíba. Acho que me acostumei a esperar sempre de Tim Burton aquela mistura típica de terror “light”, inventividade visual, comédia, e ritmo alucinado. Está quase tudo presente neste filme, mas o que faz falta é o ritmo alucinado. É o filme mais lento do diretor, muito distante da narrativa febril de Beetlejuice, das surpresas incessantes de A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça. E é uma lentidão que não parece opção narrativa, e sim um desacordo de tom entre roteiro, direção e atores. Nas cenas em que a câmara e a montagem tomam as rédeas, o filme cresce. Quando as pessoas começam a interagir umas com as outras, o filme pára de acontecer.

Johnny Depp, um ator que admiro, parece estranhamente deslocado. Não gostei do modo como ele interpreta o personagem de Willy Wonka, o cientista amalucado que fabrica os melhores chocolates do mundo. Não posso comparar este filme com o anterior de 1971 (como Gene Wilder no papel principal), que não vi, nem com o livro de Roald Dahl, que nunca li. Mas fico com a impressão de mais um daqueles filmes em que toda a energia é despendida desenhando e construindo cenários, e fazendo coreografias digitais com imagens multiplicadas de um mesmo ator, e ninguém acha que valha a pena cuidar da parte “realista”.

Pelo menos quatro críticos acharam a caracterização de Johnny Depp uma citação direta a Michael Jackson (Ed Park no Village Voice, Roger Ebert no Chicago Sun Times, David Edelstein em Slate, e Peter Travers na Rolling Stone). O rosto emaciado e de cor artificial, o cabelo que parece uma peruca, os enormes óculos escuros, a voz aguda e infantilóide, tudo isto num sujeito que vive dentro de um paraíso açucarado de balas e doces, uma gigantesca isca para criancinhas... Se isto é coincidência, aquelas caracterizações de políticos que eu vejo no “Cassete & Planeta” também são.

O mais interessante é o aspecto ficcientífico dos cenários: as engrenagens que fabricam e empacotam os chocolates na abertura do filme, o teleportador que coloca uma barra de chocolate no lugar do monolito de 2001, o elevador de vidro que voa em todas as direções. Burton tem uma imaginação visual infatigável, e neste aspecto a Fábrica nada deve a Edward Mãos de Tesoura, Batman e outros filmes seus. O filme também tem marcas daquela leve crueldade física das histórias de Roald Dahl, que faz tanto sucesso entre as crianças. Elas adoram ver personagens antipáticos sendo sugados por máquinas, arremessados num triturador de lixo, encolhidos, esticados. Deve ser um processo terapêutico de exorcização do medo à dor física, e Tim Burton, ele próprio uma criança grande que mantém à tona esse sadismo (como o eram Lewis Carroll, Henfil, Jonathan Swift) mergulha de cabeça nesses ritos de brutalidade virtual. Burton e Dahl prometiam ser uma dupla ideal; se o presente filme fica devendo, quem sabe no próximo.

sábado, 17 de janeiro de 2009

0760) O teste de Turing do sexo (25.8.2005)



(Alan Turing)

Alan Turing foi um matemático britânico que teve um papel crucial na II Guerra, decifrando códigos alemães. Em qualquer guerra, uma das principais atividades é a de interceptar mensagens inimigas, decodificá-las e usar as informações assim obtidas (posição de tropas, local e data de prováveis ataques, etc.). O grupo de que Turing fazia parte, instalado num local chamado Bletchley Park, fez milagres. Uma parte dessa história está contada num ótimo filme (e livro) inglês chamado “Enigma”. 

Entre muitas contribuições fundamentais à teoria da informática, Turing foi o autor de um experimento teórico para decidir se computadores podem ou não pensar igual a um ser humano (v. “O teste de Turing da arte”, 4.6.2004). Ele propôs que um computador e um homem fossem colocados em salas separadas, e pessoas “de fora” fariam perguntas a ambos, por escrito (num teclado), sendo que o homem se faria passar por um computador. Se as pessoas de fora não soubessem distinguir, lendo as respostas, quem era quem, isto seria uma prova de que um computador pode pensar igual a um ser humano. (O teste é muito mais complexo do que este resumo; quem quiser saber mais, vá aqui: http://cogsci.ucsd.edu/~asaygin/tt/ttest.html). 

Turing teve a idéia baseado num jogo de salão inglês, “The Imitation Game”, em que um homem e uma mulher iam para um quarto, e as pessoas faziam perguntas por escrito para saber se quem estava respondendo era o homem ou a mulher – sendo que ambos deveriam fingir ser a mulher. 

Recentemente, alunos de uma universidade em Massachusetts puseram em prática uma variante do Teste de Turing. Freqüentadores de um saite foram convidados a fazer perguntas a um homem e uma mulher, ambos fingindo ser a mulher. E depois, noutra rodada, quem respondia eram uma mulher e o computador chamado ALICE, uma máquina projetada para conversar e responder perguntas. 

Cada perguntador tinha cinco minutos e podia perguntar o que quisesse: Você usa batom? Você usa saia? De que tamanho é seu cabelo? E assim por diante. Depois de três horas, entre 42 pessoas 23 jamais suspeitaram que ALICE não fosse uma mulher e sim uma máquina. (Eles não sabiam que havia um computador na jogada.) 

Ao que parece, a única pergunta que deixou os homens e ALICE numa “saia justa” (valha o termo!) foi: “Qual o número de meia-calça que você usa?” Todos responderam S (small), M (medium) ou L (large) – nenhum deles sabia que no caso os tamanhos são A, B, C e Q. As respostas erradas a esta pergunta botaram tudo abaixo. 

O teste, inspirado no fingimento de papéis sexuais, tem una ironia amarga pelo fato de Alan Turing ter sido homossexual, o que na Inglaterra da época era considerado uma aberração. Foi parar na cadeia em 1952, depois foi obrigado a fazer um tratamento hormonal “para virar homem”, e suicidou-se em 1954. Foi um dos homens mais inteligentes do século, morreu aos 42 anos e até hoje não há um teste que meça a estupidez de quem o matou.







0759) O Paradoxo de Zenão (24.8.2005)



Jorge Luís Borges diz que seu pai usou um tabuleiro de xadrez para ensinar-lhe “este pedacinho de escuridão grega”. Eu o conheci por volta dos doze anos, no excelente livro Nós e a Natureza – O Romance da Física de Paul Karlson, cuja reedição recomendo à Editora Globo. Zenão de Eléia (às vezes chamado “Zenon”, de onde veio o nome daquele grande armador do Guarani de Campinas e do Corinthians), que viveu no quinto século antes de Cristo, era um especialista em “botar terra” nas idéias aparentemente óbvias dos outros. Quem quiser conhecer melhor suas idéias pode olhar em: http://www.iep.utm.edu/z/zenoelea.htm.

Na verdade, Zenão propôs uma série de paradoxos, o mais famoso dos quais é conhecido como “Aquiles e a tartaruga”. Suponhamos que Aquiles decide apostar carreira com uma tartaruga numa pista de um quilômetro, e dá a ela uma pequena vantagem de cem metros. Aquiles está no ponto zero, a tartaruga no ponto 100. Ao sinal, os dois partem. Quando Aquiles cruza os primeiros cem metros, a tartaruga andou (digamos) dez. Aquiles transpõe estes dez, mas não a alcança porque no mesmo intervalo ela andou mais um metro. Quando ele transpõe este metro, ela andou dez centímetros. Ele transpõe os dez centímetros, mas aí ela andou mais um centímetro. Ele transpõe este centímetro, mas aí ela andou dez milímetros. Ele cruza esta distância, mas a tartaruga andou um milímetro a mais. Quando ele atravessa esse milímetro, a tartaruga andou um décimo de milímetro. E assim por diante. Aquiles jamais alcançará a tartaruga.

Este parábola finge provar que, se considerarmos que o Espaço e o Tempo são infinitamente divisíveis em unidades cada vez menores, precisaremos de um Tempo infinito para transpor qualquer distância de Espaço. É claro que a função de uma historieta assim é apenas ilustrar uma questão puramente matemática, porque salta aos olhos de qualquer pessoa que se você botar uma tartaruga para disputar uma corrida com um sujeito, mesmo com cem metros de vantagem, ele a ultrapassará sem problema algum. Não precisa nem ser Aquiles; pode ser até Jô Soares.

Releia o segundo parágrafo, camarada. “Aquiles” e “Tartaruga” são engodos, para dar a impressão de que basta um deles ser mais rápido do que o outro. E bastaria, se a velocidade de ambos fosse constante. O que importa a Zenão é que depois de cada etapa transposta, a velocidade dos dois na etapa seguinte diminui proporcionalmente, e a distância entre os dois continua proporcionalmente a mesma. Daí a pouco estaremos dizendo que enquanto “Aquiles” transpõe um milésimo de milímetro a “tartaruga” já avançou um décimo-de-milésimo de milímetro, e assim por diante. A esta altura, ambos estão em ultra-super-câmara-lenta. O Paradoxo de Zenão não tem relação com o movimento real dos corpos. O que ele demonstra é nossa possibilidade de inventar um número infinito de obstáculos (ou de etapas a serem percorridas) para que uma tarefa mental seja cumprida.

0758) Eu era feliz e não sabia (23.8.2005)




Quando eu era pequeno, Ataulfo Alves era um dos compositores mais conhecidos no país, algo como Martinho da Vila hoje em dia. Suas músicas tocavam o tempo todo, todo mundo queria gravá-las. 

Uma das mais conhecidas é a canção nostálgica em que ele relembra sua cidade natal, Miraí (MG), com versos simples e emotivos: “Eu daria tudo que tivesse pra voltar ao tempo de criança... Eu não sei por quê que a gente cresce, se não sai da mente essa lembrança”. 

Ele recorda o ambiente da cidadezinha, as pessoas que sumiram no tempo: “Que saudade da professorinha que me ensinou o b-a-ba... Onde andará Mariazinha? Meu primeiro amor, onde andará?” E termina: “Eu igual a toda meninada, tanta travessura que eu fazia! Jogo de botão sobre a calçada... Eu era feliz e não sabia!”

Este verso final incorporou-se à nossa linguagem cotidiana, virou uma parte do falar brasileiro, e não sei de honra maior para um verso escrito por um indivíduo. Dizemos isto a propósito de tudo, a propósito de qualquer situação passada que na hora não parecia grande coisa mas que, quando a vemos em retrospecto, a gente sente uma falta danada. 

Certa vez, quando participei da criação de motes para o Congresso de Violeiros de Campina Grande, propus o mote: “A gente só é feliz / quando não sabe que é”. Era no tempo em que o Congresso lotava o Ginásio da AABB com milhares de estudantes. Éramos felizes, e não sabíamos.

Ataulfo parece sugerir que existe um certo conflito entre a felicidade e a consciência desta felicidade. Quando estamos totalmente absorvidos por êxtases ou epifanias, não sobra muito tempo para botarmos as mãos nos bolsos e pensarmos, “puxa vida, que momento legal este!” 

Parece sugerir também que esse tipo de felicidade só existe na infância, naquele momento em que já somos grandes o bastante para fruir com intensidade as coisas boas da vida (Mariazinha, o jogo de botão, etc.), mas não sabemos ainda das desilusões e dos sofrimentos que nos aguardam mais adiante.

Basta pegarmos a máquina-do-tempo, no entanto, para percebermos que não é bem assim. Lá está Ataulfinho, de calção, sentado na calçada, jogando botão em cima de uma tábua e vendo Mariazinha pular corda ali perto: a saia subindo e descendo... 

Esta é a imagem que lhe ficará na memória meio século depois, mas ao retornar àquele instante específico ele sente virem à tona uma horda de coisas ruins que já esquecera. A prova de Geografia amanhã, para a qual não estudou nada. A ameaça feita por Zezim da esquina de dar-lhe uns cascudos por causa de uma guerra aérea de corujas. O pai, que vive adoentado, gemendo, recusando-se a tomar remédio e dizendo que “não é nada”. Os dez tostões a mais que pegou do troco da bodega e que a mãe anda procurando em altas vozes por dentro de casa. 

Felicidade? Claro. A felicidade é a memória passada a limpo, expurgada dos “quatrocentos golpes” que nos ferem e nos magoam a cada dia. Só se é feliz hoje muito tempo depois.





quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

0757) Eu blogo, tu blogas (21.8.2005)



O caro leitor ou a cara leitora tem um blog na Internet, ou já teve? Então está devendo um dólar a Jorn Barger, e se cada um desses numerosos devedores comparecesse na caixinha quebraria o maior galho para esse sujeito que é mais um dos heróis anônimos do ciberespaço. Já falei aqui nos blogs (“Blog”, 17.2.2005) e já homenageei Scott Fahlman, o cara que inventou o emoticon, aquela carinha engraçada tipo :-) feita com sinais de pontuação (“Os emoticons”, 15.8.2003). Pois agora quero tirar um chapéu metafórico para o sujeito que inventou a palavra “weblog” para esta mistura de diário íntimo e manifesto público, de caderneta de anotações e de discurso-numa-caixa-de-sabão no meio da praça, este sucedâneo da poesia mimeógrafo, do jornal mural e da carta pros amigos.

Barger tinha uma página na World Wide Web, “a rede do tamanho do mundo”, intitulada “Robot Wisdom”, onde ele colocava todas as coisas interessantes que achava na Internet, onde garimpava o dia inteiro. Isto era no final de 1997, e o título da página era “Robot Wisdom WebLog”. Vejam a colocação da maiúscula: ela indica que se trata de uma palavra composta de “web + log”, sendo que “log” significa diário, livro de anotações periódicas. Coube a Peter Merholz, em 1999, quebrar a palavra de maneira diferente: “we + blog”, criando um verbo novo: “nós blogamos”. Blogar virou sinônimo de manter uma página da Web onde o titular “posta” (verbo típico do jargão dos blogueiros) textos periodicamente, às vezes todos os dias e até várias vezes por dia, o que dá aos blogs adolescentes essa equivalência aos diários ou agendas onde registram suas emoções e os fatos do seu cotidiano. Um blog, tipicamente, permite a colagem de fotos e ilustrações, permite que se coloquem links para outras páginas da Web, e permite também que os leitores postem os seus comentários a qualquer material incluído no blog, os quais podem ser lidos por todo mundo. Um blog é um empreendimento pessoal, mas interativo.

Jorn Barger ainda mantém o seu “Robot Wisdom”, que pode ser acessado em: http://www.robotwisdom.com/ . Ele não é de postar comentários longos, e seu blog hoje é uma infindável coleção de links com descrições breves. Barger é um típico nerd da geração Internet (hmmm, acho que acabei de inventar uma palavra nova, “internerd”). Leitor de filosofia, de misticismo oriental, de James Joyce e de informática, sempre teve um problema danado com essa coisa irritante que é ganhar dinheiro (“mon semblable, mon frère!”). Bateu cabeça pra lá e pra cá, e meses atrás um jornalista o encontrou na rua com um cartaz: “Inventei a palavra blog e nunca ganhei um centavo”. Morava na casa de amigos, e sobrevivia com um dólar diário. Vamos, pessoal. Nós todos que usamos estes troços não ficamos comprando produtos da Microsoft? Vamos mandar um dólar para Jorn Barger. Alguma coisa me diz que estamos financiando a América errada.

0756) “The Waste Land” (20.8.2005)



Ele já foi chamado “o maior poema do século 20”, e embora eu seja inimigo declarado de conceitos como “o maior, o melhor, o mais importante” não se pode negar que é um texto utilíssimo para entender o sentimento apocalíptico e sombrio da civilização ocidental na década de 1920. “The Waste Land”, de T. S. Eliot (título que Paulo Leminski, brilhantemente, sugeriu traduzir por “Devastolândia”) é um poema que fala de ruína, vazio espiritual. Algumas de suas expressões viraram citações recorrentes: “Abril é o mais cruel dos meses”, “Beladonna, Lady of the Rocks”, “ó doce Tâmisa, flui devagar, até que eu encerre minha canção...” É um belo poema, embora crivado demais de citações poliglotas para meu gosto. Fico pensando como seria a tal versão original que, reza a lenda, Eliot mostrou a Ezra Pound, e na qual Pound meteu a caneta, reduzindo o poema à metade e dando-lhe sua forma atual.

Mas quem sou eu para gostar ou não gostar? Textos assim dão à literatura algo do mundo alucinatório das artes plásticas, onde quadros famosos (pense Da Vinci, Van Gogh, Picasso) são objeto de análises químicas, raios-X, tomografias computadorizadas. Recentemente, um professor de literatura chamado Lawrence Rainey decidiu reconstituir o processo de escritura de “The Waste Land”. Em 1971, foi localizado um maço de páginas do manuscrito original, e Rainey decidiu compará-las com outros documentos escritos por Eliot no mesmo período. Ele recorreu ao FBI, que lhe repassou técnicas de identificação de máquinas de escrever. Usou micrômetros para medir e comparar a espessura de cada folha do manuscrito, agrupando-as. Visitou 22 bibliotecas e coleções de documentos sobre Eliot durante dois anos. Examinou um total de 1.200 páginas originais, incluindo 638 páginas de cartas escritas por Eliot entre 1912 e 1922.

A conclusão final de Rainey é de que Eliot escreveu “The Waste Land” entre janeiro de 1921 e janeiro de 1922, e não escreveu seguindo um plano, mas improvisando fragmentos que depois foram cuidadosamente encaixados uns aos outros. (E cá pra nós, é justamente a impressão que o poema dá) Com isto, ele contesta a interpretação dos críticos da época de Eliot, de que o poema era fruto de um meticuloso planejamento.

O livro de Rainey, Revisiting The Waste Land saiu pela Yale University Press, e mostra o quanto o valor de uma obra literária se mede pela reação que desperta nos que a lêem. Borges dizia que um clássico é um texto que se lê “com prévio fervor e misteriosa lealdade”. Não vejo melhor exemplo disto do que empreitadas como a do Prof. Rainey, que tem algo do detalhismo de um Sherlock Holmes misturado à obstinação de um Champollion e ao irracional amor (perdoem o pleonasmo) desses fãs dos Beatles como Mark Lewisohn, capazes de ouvir e anotar milhares de quilômetros de fita magnética para reconstituir todos os “takes” não usados em cada canção de cada disco.

0755) A palavra “instigante” (19.8.2005)



Existem palavras que entram na moda e tornam-se insuportáveis. Nos anos 1970, eram termos como “inserido no contexto”, que O Pasquim ridicularizou até não poder mais. Nos anos 1980, era o tal de “a nível de”, que, a nível de clichê, grudou mais do que um chiclete. E acho que começou nos anos 1990 a propagação virótica da palavra “instigante”, cujo surto até hoje não arrefeceu, pois focos de contaminação podem ser encontrados Brasil afora, incubados na população e transportados pela imprensa.

Manuseando o livro Caprichos & Relaxos de Paulo Leminski, leio na contracapa um texto de Caetano Veloso onde ele elogia o poeta curitibano e diz: “Deve ser instigante para os poetas do Brasil o aparecimento desses novos poetas todos. Leminski é um dos mais incríveis que apareceram”. E fiquei imaginando se seria este singelo texto (de 1983) o tal “Paciente Zero”, o caso isolado de onde toda a infecção se propagou. É provável que não seja, mas a idéia me ocorreu por se tratar de um texto de Caetano, que, como todo mundo sabe, é um notório criador de modas no Brasil. Toda vez que ele percute algo o País fica repercutindo por anos a fio.

Por que esta palavra grudou tanto? Sem dúvida porque é uma palavra útil. Quando dizemos que algo é instigante, queremos dizer que aquilo não nos deixa indiferentes. Instigar é provocar, inquietar, desassosegar, cutucar... Autores ou obras que fazem isto com a gente têm importância porque chamam a nossa atenção, nossa curiosidade, e nos obrigam a considerá-las de uma maneira mais séria, avaliar, analisar, tomar posição. Aquilo que nos instiga tem o poder de sacudir o nosso marasmo mental, a nossa preguiça, e de nos despertar um certo entusiasmo, até mesmo esse entusiasmo é motivado pela irritação, pela vontade de discordar daquilo que foi dito.

Sinônimos não faltam: “desafiador”, “provocativo”, “sugestivo”, “que dá o que pensar”, “bom de discutir”, “rico em idéias”, “perturbador”, “estimulante”... Sinto-me tentado a sugerir, para substituir “instigante”, a palavra “provocante”, mas é uma palavra vinculada a certo tipo de roupas femininas: “Essa secretária usa umas roupas muito provocantes, a gente não consegue se concentrar no trabalho”. De um livro ou de um autor talvez se possa dizer que são “provocativos”, embora este outro termo tenha um componente de desafio, de quem quer brigar com o outro. Talvez se pudesse dizer, então, que o livro de Leminski ou o CD de Caetano são “estimulantes”, porque nos estimulam à discussão, ao debate, à produção de idéias. Mas o adjetivo “estimulante”, por sua vez, está contaminado pelo substantivo correspondente, que dá a idéia de drogas ou de xaropes para abrir o apetite. Como se vê, muitas vezes uma palavra entra na moda por falta de um sinônimo que preencha todas as suas nuances, um sinônimo que na mesma fração de segundo estimule a mesma rede de sinapses vocabulares.

0754) Harry Potter is all right (18.8.2005)



I don’t know about you, dear reader – but I enjoyed the first two Harry Potter books, and didn’t read the others for the only reason that I have lots of more important books to read; and moreover, at this point of the championship, Ms. Rowling can do very well without my scarce and hard-earned reais.

Eu ia continuar em inglês mesmo, mas lembrei que devo satisfações a outra parte do meu público leitor, então bora simbora na língua de Camões. O fenômeno Harry Potter continua de vento em popa, e o recente lançamento de Harry Potter and the Half-Blood Prince trouxe mais alguns fatos interessantes para o folclore já farto que cerca a Pottermania. O que me traz aqui no momento é algo que li na Folha de São Paulo. As vendas antecipadas bateram recordes em vários países, e um balanço feito entre nossas livrarias mostrava que nos primeiros dias após o lançamento já haviam sido vendidas cinco mil cópias de HPATHBP somente aqui no Brasil. Tu já pensou uma coisa dessa? Cinco mil exemplares do livro em inglês foram comprados em nossas livrarias. E eu não tou falando naqueles livrinhos infantis com trinta páginas, cheio de figuras e uma letrona desse tamanho. São 652 páginas, meu camaradinha, e o preço é 17 dólares. Faça suas contas do peso total do investimento.

Cinco mil pessoas dispostas a ler Harry Potter em inglês me parecem um bom sinal. Claro que muitos escritores brasileiros que não vendem nada vão dizer que é essa concorrência desleal que está reduzindo as vendas dos livros de autores brasileiros. Besteira. Ora, os meus próprios livros não vendem quase nada, mas quem disse que a culpa é de Harry Potter? Todo escritor tem que procurar sua audiência, as pessoas que podem se interessar por aquilo que ele tem a dizer. A maioria não consegue encontrar; paciência. A sra. Rowling encontrou o público dela, e pouco importa se são filhos de americanos que moram no Brasil, se são garotinhos ricos que têm aulas particulares de inglês, ou se são garotos que ficam economizando a mesada durante os anos que J. K. Rowling leva pra escrever um catatau daquele tamanho. Por que não? Eu faria o mesmo.

Sou escritor, e tudo que crie mais leitores no mundo é bem vindo. Acima disto sou leitor, e digo que qualquer maneira de amar a literatura vale a pena, num contexto em que tudo contribui para nos afastar dela. Não sou apocalíptico, não sou inimigo dos computadores nem dos “games”; em vez de jogar pedra na planta do vizinho, eu agôo a minha pra ver se ela cresce bem verde. (Esqueça o verbo, amigo – é licença poética.) O feiticeiro Potter e o mago Paulo Coelho, tão vilipendiados, têm mostrado a milhões de pessoas que livro é espelho, janela, tábuas-da-lei, retrato-do-mundo, tapete mágico. Você tem o direito de não gostar desses livros, mas eles acabam sendo um excelente adubo para as mentes jovens que daqui a dez anos estarão adentrando o universo de Guimarães Rosa ou Garcia Márquez.

0753) Combinação contra o feda (17.8.2005)



Faz uns quarenta anos que não jogo bola-de-gude, mas tem algumas expressões que marcam a gente. “Estica”, por exemplo, é quando a gente alveja de perto e com força a bola do adversário, mandando-a à distância. E o que é um “feda”? Bem, um “feda” é um cara que ainda não conseguiu ser um “mata”. No sistema de jogo que aprendi, há um triângulo de buracos a serem acertados sucessivamente. Depois que o cara colocar sua bola em todos três, ele se torna um “mata”, ou seja, cada bola adversária que ele acertar é eliminada do jogo (quando o jogo é “na vera”, a bola é ganha de fato pelo mata, que a embolsa forever). Enquanto o cara não acertar aqueles três buracos, ele não é um mata, é um feda, ou “fedorento”. Muitas vezes o cara fica errando os buracos durante rodadas sucessivas, e morrendo de medo de ser acertado pelos matas, os quais, sádica e maquiavelicamente, se voltam contra ele, procurando fuzilá-lo de todas as maneiras.

Esta, amigos, é a “combinação contra o feda”, lição de vida que o jogo de bola-de-gude incorporou à gíria campinense, e talvez mundial. No mundo adulto, a combinação contra o feda ocorre toda vez que num círculo de sujeitos calejados e veteranos surge um novato cheio de empáfia, ou de sonhos ambiciosos, ou de boas intenções. É o “feda”. Contra ele mobilizam-se de imediato as velhas raposas, que sabem o quanto lhes custou chegar até ali, e que podem até nada ter em princípio contra o recém-chegado, mas querem testá-lo para saber se ele tem a casca grossa ou se vai falar fino no primeiro aperto que levar.

Ocorre em qualquer time de futebol quando o time vai mal e a diretoria contrata a peso de ouro um novato com a missão de ser o salvador da pátria (casos recentes: Dimba no Flamengo, o técnico Passarela no Corinthians). Os “matas” locais se juntam para sabotar e boicotar o “feda” recém-chegado. A nossa querida Seleção Brasileira está cheia de exemplos de jogadores que nunca tiveram a menor chance, porque jogavam contra os onze adversários e os dez “companheiros”.

Este é um dos numerosos ângulos deste filme que podemos chamar de “A tragédia do PT” ou “A Classe Operária é Expulsa do Paraíso”. O Brasil é governado há mais de cem anos (estou cravando o compasso no início da República, só para simplificar) por uma elite de “matas” que nunca deixou ninguém de fora do clube participar da festa. Houve o caso de Vargas, que ficou 15 anos como ditador; mas até ele dançou quando optou por um mandato legal, alvejado por um escândalo não muito diferente do de hoje. E houve o caso de Collor, outro “feda” bem sucedido mas sem base partidária: Direita e Esquerda uniram-se para defenestrá-lo dentro dos mínimos requisitos permitidos pela Lei. Lula e o PT são os novos “fedas” que sobem para o patíbulo por terem julgado ser o Palácio do Planalto o terceiro buraco que os tornava “matas”. Não, não era. O buraco do Poder, como sempre, é mais embaixo.

0752) As putas de Garcia Márquez (16.8.2005)




Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Márquez, é um desses livros crepusculares em que um sujeito começa a fazer o balanço da própria vida. 

Isto se refere tanto ao autor quanto ao protagonista, um homem que na véspera do seu 90o. aniversário sente-se só e pede para passar a noite na companhia de uma menina virgem. Sendo ele um freqüentador antigo e generoso do cabaré de Rosa Cabarcas, uma cafetina um pouco mais jovem do que ele, não é difícil ter o seu pedido aceito, embora a cafetina, como todo comerciante que se preze, alegue que o pedido dele é muito difícil e vai custar uma nota preta.

O enredo básico não difere muito de outras histórias já contadas pelo autor. O que ressalta neste livrinho de 130 páginas é, mais uma vez, a riqueza e a precisão dos detalhes de local e de época, que dão à obra de GGM aquele sabor peculiar entre o realismo e o barroco, pela impressionante proliferação de pequenos detalhes. E estes detalhes, em contrapartida, servem para montar o painel de uma cidade imaginária mas intensamente verossímil. 

O narrador é um dom-casmurro introvertido, que mora na mansão decadente que foi de seus pais (e da qual vai se desfazendo aos poucos, toda vez que tem uma despesa extra), e trabalha como decifrador de telegramas no jornal local, o qual lhe dá como prêmio de consolação o direito de publicar uma crônica por semana. 

Para alguns, pode parecer a decadência; para indivíduos ensimesmados, é o Paraíso Terrestre. A questão da solidão não se coloca, porque ali pertinho está Rosa Cabarcas e seu batalhão de beldades aquiescentes e compreensivas.

É uma história de amor, porque na idade do narrador do livro o ato sexual é como um prêmio de loteria: deve-se tentá-lo, mas é aconselhável não ir logo contando com ele. 

A garota que a mulher lhe oferece (e que ele chama de “Delgadina”, recordando-se de uma canção popular) prega botões numa fábrica de roupas durante o dia, e ao chegar no cabaré desaba num sono profundo do qual ele não ousa despertá-la. 

Começa aí uma curiosa relação amorosa entre o nonagenário e a adolescente, em que ele conversa com ela, enxuga seu suor (são aquelas noites quentes dos trópicos, fervilhantes de mosquitos), canta cançonetas de sua própria juventude, lê O pequeno príncipe – uma espécie de hipnopedia amorosa unindo este ancião cansado da falta de amor e esta garota cansada de trabalhar o dia inteiro. 

Os críticos sempre procuram elementos de Realismo Mágico nos livros de GGM (sentem uma obscura sensação de culpa se não o fizerem), e este romance que mistura A Bela (Adormecida) e a Fera passa tirando um fino no limiar do fantástico.

Márquez é um estilista brilhante que tem uma poderosa imaginação para contar histórias. Memórias... é uma noveleta que tem algo de ajuste de contas memorialista, e algo dos amores brutos de seus melhores romances, em que homens gigantescos se defrontam com meninas muito frágeis, com resultados imprevisíveis.