sábado, 23 de agosto de 2008

0522) A arte de caçar talentos (20.11.2004)




A Google Inc., empresa criadora do instrumento de buscas pela Internet (ver “O Hiper-Google”, 21 de outubro) está recrutando funcionários de uma forma criativa e eficaz. A companhia possui a mais poderosa rede privada de servidores no mundo, e de dois anos para cá passou de 700 para 2.700 funcionários.

A Google precisa de técnicos jovens, espertos, cheios de energia e de competividade. O que faz? Bota um anúncio?

Sim, mas não um anúncio qualquer. A empresa publicou em meia dúzia de revistas científicas (Mensa, Physics Today, o Linux Journal, etc.) um teste de 21 perguntas, espécie de vestibular para candidatos a um emprego.

Algumas perguntas são de natureza matemática (“De quantas maneiras diferentes é possível colorir um icosaedro, cada face de uma cor, com três cores à escolha?”) até questões sem resposta específica, onde vai valer a criatividade do candidato: “Escreva um hai-kai descrevendo possíveis métodos para predizer as oscilações de tráfego na rede”, ou “Qual é a mais bela equação matemática derivada, e por quê?”

Algum tempo atrás, pessoas que passavam de carro pelo Silicon Valley, o reduto da indústria informática, viam out-doors mostrando apenas uma linha de texto: “(o primeiro número primo de 10 dígitos encontrado em dígitos consecutivos de “e”).com”.

Ou seja: o sujeito teria que encontrar esse número primo para ter o endereço correto de um saite. Ao chegar lá, ele se deparava com outras perguntas do mesmo nível e, se as respondesse, recebia um pedido de currículo.

Isto me lembra O homem demolido, de Alfred Bester (1953), onde ele descreve um futuro próximo onde uma pequena percentagem da humanidade é de pessoas telepatas. Estes “ledores de pensamentos” acabam constituindo uma elite intelectual extremamente fechada, que se comunica à revelia de nós, pobres mortais.

Acontece que a maioria dos telepatas não sabe que o é, pois é um talento que precisa ser descoberto e desenvolvido. E Bester descreve uma cena no saguão do edifício de recrutamento de telepatas. Filas enormes de pessoas esperançosas solicitando um exame, um diagnóstico, para saber se pertencem ou não a esse grupo privilegiado.

A certa altura, o protagonista (que é telepata) começa a captar uma mensagem que repete sem parar, baixinho: “Dirija-se para a porta verde, ao fundo do saguão...” Um rapaz negro que está na fila titubeia, e com passos hesitantes se dirige para essa porta, gira a maçaneta, entra. Do outro lado, é abraçado festivamente pelos outros telepatas, que estavam enviando a mensagem.

Moral da história: quando precisamos de pessoas com determinado talento, basta soltar “no ar”, à vista de todo mundo, uma mensagem que só pode ser entendida usando-se esse talento. Para os demais, é um recado sem sentido, mas para Os Que Sabem, é a senha de acesso para um mundo onde aquilo que eles sabem e aquilo que eles são será valorizado na justa medida.








0521) O tamanho do Tempo (19.11.2004)




Para organizar o mundo, inventamos uma ficção poderosíssima (mas ficção, mesmo assim): a de que o Tempo é algo linear, constante, matematicamente divisível. 

Relógios e calendários servem para domesticar nossa mente nesse sentido, fazendo-nos crer que é próprio da natureza do Tempo ser medido, e de que ele é de fato composto por tijolos grandes, que se dividem em tijolos menores, que por sua vez se subdividem em tijolinhos minúsculos, e assim por diante. 

É um artifício intelectual; útil, mas limitado. Os conceitos de ano, mês, dia, segundo, etc. não são conceitos arbitrários, porque se referem a aspectos físicos que de fato existem; mas não são suficientes para descrever nossa relação com o Tempo.

Existe o Tempo do corpo e o Tempo da mente. 

Relógios e calendários são nossa maneira de fazer a mente pensar de acordo com o Tempo do corpo, o Tempo do universo físico, onde a Terra, o Sol, as Estrelas e a Lua, que se movem em ciclos regulares, nos dão um ponto de partida, pontos de referência comuns a todas as pessoas. 

Isto, contudo, é o Tempo externo, o Tempo do mundo, que pode ser medido com uma régua. 

O Tempo da mente, o Tempo da nossa memória emocional e intuitiva, teria que ser medido com um pedaço de elástico, porque ele se estica ou se encolhe de acordo com a maior ou menor energia psíquica que aplicamos nele. Daí os “relógios moles” de Salvador Dali, uma das grandes sacadas da Arte para exprimir essa flexibilidade de nossa percepção.

Jorge Luís Borges admirava-se de ser capaz de recordar com nitidez um fato ocorrido há cinqüenta anos e não poder adivinhar o que sucederia no dia seguinte, “que estava muito mais próximo”. 

Este pequeno paradoxo nos mostra a inutilidade de tentarmos sempre espacializar o Tempo, vê-lo como uma régua, uma escala linear onde nossa consciência se move sempre na mesma velocidade, na mesma direção, e na mesma ordem: 1, 2, 3, 4, 5... 

Nosso Tempo mental é o contrário. Se estamos conversando com um amigo de infância, podemos passar cinco minutos conversando em tempo real, depois nos calamos por dez segundos enquanto avaliamos “de fora” um período de anos de nossa vida, e em seguida passamos cinco minutos rememorando momentos que, somados, ocupariam meses de tempo cronológico.

O Tempo mental se parece com esses websites onde imagens aumentam de tamanho ou se transformam em outras no momento em que passamos o mouse sobre elas. Quando alguma coisa nos evoca um fato emocionalmente relevante, ele cresce, invade nossa mente por inteiro, distorce o tempo real que nosso corpo está experimentando. 

A evocação de um minuto traumático ou de intenso prazer pode se reiterar durante um dia inteiro, como um disco enganchado. 

Em vez de vermos o Tempo como uma linha reta, com o Presente situado entre o Passado e o Futuro, poderíamos visualizá-lo como um cacho de bolhas de espuma em ordem não-cronológica, cada uma delas se expandindo ao ser tocada pela nossa consciência.






0520) O protagonista invisível (18.11.2004)




(René Magritte)


Algum tempo atrás comentei aqui (“O inimigo oculto”, 18 de julho) o recurso narrativo de se manter fora do texto o seu personagem principal, que existe de forma indireta, visto pelos demais personagens. Dei como modelo algumas canções de Chico Buarque, mas a dramaturgia em geral é farta em exemplos. 

Minha irmã Clotilde Tavares acaba de estrear uma peça, que escreveu e dirigiu: Alguém lá fora, a história de três mulheres que moram num lugar afastado. Uma noite, um homem chega lá e é hospedado pelas três, fica dormindo num quarto fora da casa; e a presença desse estranho começa a alterar o comportamento delas. O detalhe é que o personagem masculino nunca é visto, não há um ator para interpretá-lo. Ele existe apenas através das reações das mulheres, que vão “lá fora”, conversam com ele, voltam, etc.

O que me lembra um pouco Rebecca, o romance de Daphne du Maurier filmado por Hitchcock. Quando o filme começa, Rebecca já morreu, e o que acompanhamos é o casamento de seu viúvo, Max de Winter, com uma jovem que aos poucos começa a perceber a presença opressiva dessa ex-esposa que exercia um domínio inexplicável sobre todo mundo. 

Morta e invisível, Rebecca é o “motor” de tudo que acontece no filme, e um dos grandes personagens de todos os tempos, mesmo sem aparecer sequer numa cena de “flash-back”. Uma colcha-de-retalhos de depoimentos e memórias de pessoas que a odiaram ou que eram apaixonadas por ela.

Há casos de personagens menos centrais mas igualmente interessantes, como o espião Kaplan em Intriga Internacional de Hitchcock, que no final ficamos sabendo tratar-se de um personagem fictício, cujas bagagens são enviadas de avião e remetidas para hotéis sem que ninguém jamais o veja. Ele serve somente para despistar os espiões inimigos. 

E há os personagens parcialmente visíveis (há um ator que os interpreta), mas ainda assim misteriosos, como o motorista do caminhão que em Encurralado, filme de estréia de Spielberg, persegue um pobre coitado ao longo de uma rodovia.

Em todos estes casos, o personagem “em si” não aparece, e tudo que sabemos dele é a reação que as pessoas têm à simples menção de seu nome, ou as histórias que contam ao seu respeito. 

Criar um personagem assim é um bom desafio pra um autor, porque ele pode explorar ao máximo as nossas diferentes maneiras de reagir a uma mesma coisa. 

Em seu conto “A aproximação a Almotásim”, Jorge Luís Borges conta a história de um estudante que ouve falar num tal de Almotásim, indivíduo de muitas virtudes, e dedica sua vida a tentar encontrá-lo, sem o conseguir. É a história, diz Borges, da “busca insaciável de uma alma através dos tênues reflexos que esta deixou em outras”. 

Rastrear esses reflexos, dar-lhes substância narrativa, jogar com as contradições e os paradoxos que irão se formando entre eles, é um teste para o bom narrador, e um prazer para o leitor que gosta de saborear sutilezas.







0519) A Perna Cabeluda (17.11.2004)




(ilustração: H. D. Mabuse)

Entre as lendas urbanas mais curiosas do Nordeste está sem dúvida a da Perna Cabeluda, uma entidade sobrenatural que teria assombrado as ruas do Recife durante a década de 1970.

Aparecendo onde menos se esperava (e por falar nisso, onde é que alguém esperaria que aparecesse?), esta criatura era o oposto-simétrico do Saci Pererê. Ou seja, era uma perna-sem-pessoa, em vez de uma pessoa-sem-perna.

Surgia pulando (eu já ia dizer “pulando num pé só”), atacava os transeuntes, dava chute em todo mundo, e depois fugia pulando.

Foi cantada em verso e em prosa. Apareceu como protagonista em folhetos de cordel como A Perna Cabeluda de Tiúma e São Lourenço de José Soares, inclusive um em que ela enfrentava outra criatura mítica: A Véia debaixo da cama e a Perna Cabeluda de José Costa Leite.

Apareceu também em um vídeo de Marcelo Gomes, A Perna Cabeluda (1995). Figurou em shows de Chico Science & Nação Zumbi: Chico dançava com uma perna de pano estufada, e depois a jogava no meio da platéia.

Eu próprio a utilizei como tema num curta para TV de 40 minutos para o programa Viva Pernambuco, em 1996, dirigido por Romero de Andrade Lima e Cláudio Assis.

A Perna Cabeluda é um bom exemplo de como surgem essas criaturas folclóricas. Uma vez eu estava em Recife conversando com o escritor Raimundo Carrero, que me deu uma versão para o surgimento dessa lenda. Ele e Jota Ferreira tinham um programa de rádio (pelo que me lembro ele era redator e Jota Ferreira o apresentador, mas posso estar enganado). E uma noite, entre uma música e outra deram uma notinha humorística, mais ou menos assim:

“Pois é, meu amigo, a vida no Recife não anda nada fácil!... Chega agora à nossa redação a notícia de que Fulano de Tal, guarda-noturno, chegou em casa depois de uma jornada de trabalho e deitou-se para dormir ao lado de sua esposa. Ouviu um barulho, e ao olhar para baixo viu uma perna cabeluda embaixo da cama!”

A intenção era sugerir, com a imagem da perna cabeluda, a presença do “urso”, do amante da esposa. A nota provocou muitos risos, e no dia seguinte, ele voltaram à carga.

“E atenção, minha gente... Sicrano de Tal, morador da Imbiribeira, chegou em casa de viagem, e para sua surpresa viu a perna cabeluda fugindo pela porta da cozinha!” 

E aí não parou mais. Usada inicialmente como uma sinédoque visual (a parte pelo todo), a perna acabou ganhando vida própria.

Isto não quer dizer que qualquer coisa inventada vire automaticamente uma lenda. Neste caso específico virou porque a imagem resultante ficou ao mesmo tempo absurda e engraçada, ou pelo menos assim pareceu à galera onde a história começou a circular (ouvintes de rádio dos subúrbios recifenses).

Imagens e figuras semelhantes são lançadas diariamente no caldeirão cultural. É um processo aleatório. Umas pegam, outras não. “Cultura popular” talvez se defina por este aspecto aleatório, onde não se pesquisa, não se planeja, e as criações dão certo meio que por acaso.






0518) As Pedras do nosso Reino (16.11.2004)




(Foto: Dantas Suassuna)

Somos dois Estados vizinhos e rivais, embora de uma rivalidade meio promíscua, meio misturada com xamego, como a de dois irmãos com pequena diferença de idade. Os pernambucanos consideram seu Estado mais importante do que a Paraíba, certamente por ser maior, mas a verdade é que a maior presença de Pernambuco não se deve ao seu tamanho, e sim à presença do Recife, uma metrópole que sozinha tem população equivalente a metade do nosso Estado, e que é uma das três capitais “de fato” do Nordeste (juntamente com Salvador e Fortaleza).

Tirando isto, sempre achei que os dois formam um Estado só, porque é enorme a homogeneidade geográfica, corográfica, econômica e cultural entre os dois. Desdobre o mapa, leitor. Existe aos meus olhos uma continuidade nítida entre as duas zonas-da-mata; entre as duas metades da região dos Cariris, ali pela parte central dos dois Estados; e entre os sertões profundos, principalmente no trecho em que a Paraíba se interrompe na direção Oeste, dando lugar à parte Sul do Ceará, a qual, vista do ângulo da Geografia e da História, poderia perfeitamente pertencer tanto à Paraíba quanto a Pernambuco.

Anos e anos de convivência com cordelistas e repentistas reforçaram no meu espírito esta impressão de unidade cultural entre os dois Estados. No dia em que uma revolução qualquer obrigar o Brasil a redesenhar suas fronteiras internas, enviarei moção ao Congresso Nacional propondo a anexação, ao território paraibano, daquele triângulo territorial que tem início em Serra Talhada, subindo na direção de Triunfo, alongando-se via Tabira até São José do Egito e voltando a descer rumo Sul até Sertânia, onde (tirem os chapéus, caros leitores) está sepultado meu avô materno, o velho Pedro Quirino. Tudo isto é território de Cantador, e, para ser sincero, é território independente; tem pouco ou quase nada a ver com Recife e João Pessoa.



Tudo isto me vem à mente ao contemplar a capa do Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna (4a. edição, 1976), onde Eugênio Hirsch, um dos nossos maiores capistas de livros, estilizou a imagem das duas Torres de Pedra que concentram o sonho de grandeza de Dom Pedro Dinis Quaderna. As Pedras se situam em São José do Belmonte, na fronteira entre Pernambuco e Paraíba; uma delas é ligeiramente maior do que a outra, assim como o território de Pernambuco é ligeiramente maior que o nosso. As duas Pedras podem servir como metáfora visual dos dois Estados, unidos como duas bananas-filipinas, ou, como intuiu a genialidade de Eugênio Hirsch, como dois dedos, indicador e médio, erguidos num sinal de bênção. O Romance da Pedra do Reino, que neste final de ano será relançado em nova edição pela José Olympio, mostra este território simbólico profundo, retalhado ao meio pelas convenções políticas e cartográficas, mas que não perdeu até hoje a unidade de espírito e a consciência de si próprio.





sexta-feira, 15 de agosto de 2008

0517) Claríssimo espectro (14.11.2004)




Era ininteligível à maneira das plantas, dessas trepadeiras que se expandem buscando a luz, que parecem imóveis, mas basta a gente ir lá dentro tomar um copo dágua que na volta ela já avançou mais um ladrilho. 

Perguntava um pouco o tempo inteiro. A caligrafia era tumultuada, evitava as linhas do caderno como se evita um tiroteio, as palavras dispersadas em várias direções por um terremoto silencioso.

Ainda hoje seu rosto é um mistério de olhos amendoados e malares salientes, cercado por penteados e roupas dos anos 50. Erguia o cigarro como se não lhe pertencesse. Escrevia em transe, aos arrancos, aos ziguezagues. 

Deus a definiu um dia como um círculo cuja circunferência estava em toda parte e o centro em nenhuma. Debatia-se na gosma espessa do tempo, retida no insuportável presente, vendo o calendário fluir à sua volta, escorrer sem remissão. Sua vida foi um afogamento. Suas mãos eram arcos e eram cordas.

Passou entre nós como um fantasma para o qual fôssemos nós os transparentes, nós e as forças que nos movem: paixão, coração, prazeres. Através da matéria, enxergava o balé das forças, a hierarquia inconstante das vontades, a fatalidade serena que impele a gota de chuva rumo ao chão e o chão rumo à gota de chuva. 

O destino descascou sua vida, enxaguou-a de tempestades, esboroando tudo menos a pedra lavrada das palavras.

Em volta dela, aonde fosse, movia-se aquele umbral. Falava de coisas ausentes como se estivessem sentadas ali naquela mesma sala. Óculos, xícara, leque, biscoito, batom: tudo isto era feito da mesma substância cristalina das mãos que os tocavam. Seu comércio com o mundo era solerte, na cumplicidade que as meras coisas mantêm entre si quando não estão sendo observadas.

Criava a loucura como quem cria um cachorro num apartamento. Aceitava o fato de que crescemos como uma árvore ao contrário, onde cada galho ramifica-se em outros galhos mais grossos, e estes em outros mais grossos ainda. Aceitava o gigantesco desperdício que é viver. 

Quando tinha insônia, aconchegava-se ao travesseiro e ao consolo de não estar numa madrugada fria, levando chuva num ponto-de-ônibus deserto. Tinha um corpo sem terra, uma mente sem teto. Escutava os pensamentos de todo mundo o tempo inteiro e não conseguia se concentrar nos seus. Pensava que ser todo mundo era uma obrigação, e que não estava sabendo se desincumbir direito.

Para ela, o ser e o não-ser eram as duas asas do ser. Via numa parede o que se vê nos espelhos, e via no espelho o que se vê nas janelas. Viveu separando com um bisturi as fibras do melodrama. 

Sobreviveu à própria infância. Passou a vida com um anzol cravado na língua da alma. Todas as noites um anjo a visitava, mas nunca lhe disse nada. O mundo passou por ela como o sol por uma peneira. Um sorriso oblíquo morava em sua boca, como se ela não soubesse que era apenas uma mulher feita de cacos de vidro.








0516) O ensaio incompreensível (13.11.2004)





Falei há alguns dias sobre o poema incompreensível, mas por uma questão de eqüidade devo falar também da crítica incompreensível. O estudo acadêmico da literatura tem ficado, a cada década que passa, mais invadido por uma mentalidade que pretende analisar textos literários com instrumentos teóricos abstrusos, manipulados através de um jargão dos mais obscuros.

A impressão que tenho (e não só eu) é que as faculdades, depois que foram tomadas pelo vírus pernicioso da Lingüística e do Estruturalismo, só sabem ensinar uma meia-dúzia de recursos de análise lingüística, e mais nada. Os alunos passam quatro anos queimando as pestanas para aprender a usar esses recursos, e quando se formam saem a aplicá-los às cegas em qualquer texto que lhes apareça pela frente. É como um estudante de Medicina que aprendesse a usar o bisturi, o escalpelo, o fórceps, etc., e ao se deparar com um doente se sentisse na obrigação de usar nele todos esses instrumentos, por ter sido a única coisa que lhe ensinaram na faculdade.

Hoje, abri ao acaso um livro de análise sobre um romance brasileiro, e o crítico iniciava um parágrafo da seguinte forma:

“Observamos no início desta análise a fusão actancial resultante da irrupção do actante da enunciação na narração, que se confunde desta maneira com o actante do enunciado, indicando ser esta fusão inevitável, dado o projeto do actante da enunciação de discursivizar, reproduzindo-a, a travessia vivida. Como dar a esta, que se constitui numa desintegração da identidade subjetiva, uma forma, se reproduzi-la implica não só um retorno ao que aconteceu, mas um retorno ao que instaura uma identidade, ao que a gera e garante enquanto tal, isto é, um retorno à linguagem, necessariamente afetada em seu ser nesta experiência?”

Entendeu, caro leitor? Pois vá a janela e solte um foguetão. Você merece. Não estou dizendo que o texto não faz sentido, porque provavelmente faz. É a linguagem que me incomoda. Parece aquelas brincadeiras em que a gente pega frases como “Pode tirar o cavalinho da chuva” e a transforma em “Digne-se trasladar seu eqüino de pequeno porte da intempérie”. Fujam todos. Corram, pelo amor de Deus. São monstros terríveis que estão vindo por aí. É o Ranço do Beletrismo! O Fetichismo das Prosopopéias! A Reiterância dos Proparoxítonos! A Recidiva Polissilábica! A Tecnologização da Discursividade Conceitual mascarando o Não-Ser da Coisa-Em-Si!

Esse pedantismo patético que acomete uma parte (felizmente só uma parte) da crítica literária pode ser combatido com doses generosas de textos inteligentes analisando textos inteligentes. Toda vez que se deparar com uma monstruosidade como aquele parágrafo acima, leitor, basta ler sem perda de tempo algumas páginas de O Castelo de Axel de Edmund Wilson, ou de Gregos e Baianos de José Paulo Paes, ou de Por que ler os clássicos de Ítalo Calvino, ou de No Bosque do Espelho de Alberto Manguel. Nem tudo está perdido.

0515) “O casamento de Romeu e Julieta” (12.11.2004)



O novo filme de Bruno Barreto, que deve estrear neste fim de ano, é uma divertida comédia onde a situação clássica de Romeu e Julieta (amantes que pertencem a famílias rivais) é transposta para a São Paulo de hoje. Julieta (Luana Piovani) pertence a uma família de torcedores roxos do Palmeiras, e ela própria é jogadora. Acaba se apaixonando pelo corintiano Marcus Ricca, que, para poder ter acesso à amada, finge torcer pelo Palmeiras, o que desperta a ira de sua própria família, toda ela de corintianos roxos. O filme tem bons momentos de comédia e bons momentos de captação do espírito do futebol, principalmente nos primeiros dez minutos, em que os personagens principais são as torcidas do Palmeiras e do Corinthians.

É engraçado que o futebol, uma das atividades mais definidoras do conceito de brasilidade, não tenha nem um grande filme nem um grande livro aqui no Brasil. Existem, é verdade, grandes documentários e grandes ensaios literários. Mas não temos um grande filme de ficção sobre futebol, e não temos um grande romance. Nunca entendi por que. O filme de Bruno Barreto, aliás, não é sobre o jogo de futebol, e sim sobre a psicologia do torcedor, o fanatismo, a rivalidade de torcidas. É sobre o futebol em volta do campo, e não dentro do campo.

O problema parece ser dentro do campo. A coisa mais difícil do mundo é encenar um jogo de futebol que pareça de verdade. O futebol é rápido demais, atravancado demais, muito cheio de esbarrões, de quedas, de coisas mal-feitas. Quando um roteirista descreve uma jogada e os atores-jogadores a ensaiam longamente, sai tudo tão certinho que parece videogame. Não engana ninguém. O espectador sabe, de cara, que aquilo não é um jogo, é uma porção de caras fingindo que estão jogando.

Isto é visível até em algumas tentativas mais ambiciosas, como o filme de John Huston Escape to Victory (1981), que imagina um jogo entre prisioneiros aliados e oficiais nazistas, durante a II Guerra. O time dos aliados é um “misto quente” de atores (Michael Caine, Sylvester Stallone) e jogadores (Pelé, o inglês Bobby Moore, o argentino Ardiles). O clímax do filme é um gol de bicicleta, mas como sempre acontece, tudo é ensaiadinho demais; falta aquela sensação de imprevisibilidade e de improviso que é um dos charmes de um verdadeiro jogo de futebol.

Mostrar futebol no cinema é como mostrar repentistas fazendo versos na literatura. Se um escritor escreve um conto onde acontece uma Cantoria de Viola, como passar para o papel aquela sensação de obra-se-criando, de coisa feita-na-hora, que é o cerne de uma cantoria? Os versos acabam saindo bem-feitinhos demais, não parecem improvisados. O leitor sempre fica com a sensação de que foi tudo ensaiado, tudo combinado, tudo preparado pelo autor para resultar da forma que resultou. Falta aquela vertigem da coisa acontecendo na hora, pela primeira e única vez, que é a grande magia da Cantoria e do Futebol.

0514) O irmão fantasma (11.11.2004)


("Narciso", Salvador Dali)

Certos detalhes pouco comuns em biografias me deixam inquieto. Durante muitos anos eu soube que o pintor Salvador Dali teve um irmão, também chamado Salvador, que nasceu antes dele e morreu logo em seguida. Seus pais ficaram muito abatidos, e quando tiveram o filho seguinte repetiram o nome, chamaram-no de “Salvador”, e o garoto cresceu com esta história. O que sente um cara nessa situação? Posso apenas especular. Ele pode crescer com a impressão de que nasceu, morreu e nasceu de novo; de que é uma reencarnação do primeiro filho, de que é uma única pessoa, que sofreu um acidente de percurso mas acabou prevalecendo. Pode também achar que é um mero substituto para alguém que era a “primeira opção” de seus pais, e passar a infância achando-se uma pessoa sem valor, um mero reserva que só entrou em campo por contusão do titular. Não sei o que Salvador Dali pensava sobre isso, mas sempre achei que esse detalhe tinha uma importanciazinha no fato dele ser doido. (Porque “normal” é que ele não era mesmo)

Depois fiquei sabendo que uma coisa parecida aconteceu com Van Gogh. Seus pais tiveram um filho a que dariam o nome de “Vincent Willem Van Gogh”, usando os prenomes dos dois avós. Acontece que o garoto nasceu morto. Foi enterrado, os pais fizeram uma nova tentativa e (ao que parece) o segundo garoto nasceu exatamente um ano depois do primeiro, em 30 de março de 1853, e recebeu exatamente o mesmo nome. Diz-se que todos os dias ele passava em frente ao cemitério da família (seu pai era pastor) e via um túmulo com seu próprio nome escrito. Será que isto teve influência em sua loucura posterior, ou foi apenas algum problema genético? Há uma interessante discussão sobre o perfil clínico de Van Gogh no saite do American Journal of Psychiatry, em: http://ajp.psychiatryonline.org/cgi/content/full/159/4/519.

Conversa vai, conversa vem, e um belo dia eu folheava o livro de Pedro Karp Vásquez Na Trilha da Pantera Cor-de-Rosa (Rocco, 2002), no qual me deparo com um dado curioso sobre Peter Sellers. Este grande ator e fantástico imitador de vozes alheias nasceu em 8 de setembro de 1925, e foi batizado com o nome de Richard Henry Sellers. Acontece que seus pais, um casal de atores de vaudeville, tinham tido um filho anterior chamado Peter, que nasceu morto. Começaram a chamar o novo filho de “Peter”, e não é que o nome acabou pegando?

Existe uma raridade médica a respeito de irmãos gêmeos. Durante o seu tempo no útero, acontece às vezes que um deles não se desenvolve, estaciona numa forma microscópica de embrião, e fica alojado no corpo do outro, que nem sabe de sua existência. Não quero parecer mais maluco que meus três personagens de hoje, mas será que existe algo parecido com as almas? Será que acontece às vezes de uma delas ficar incrustada na alma de um irmão que vem depois, e estas duas almas em conflito transformarem o cara num louco e num gênio?

0513) Delírio no andar de cima (10.11.2004)


("O assassinato de Marat", J. J. Weertz)
Não sei se essas coisas são noticiadas na Paraíba. Tomara que não sejam, porque poupa aos paraibanos o desprazer de constatar mais uma vez a estupidez humana. Mas, pensando bem, tomara que sejam, para que possamos nos consolar pensando que a estupidez humana não é privilégio nosso, está eqüitativamente distribuída por todo o território nacional.

Fato 1: Os jornais noticiam que, semana passada, em Petrópolis (RJ) um garoto de 7 anos arengou com uma coleguinha na escola e os dois meteram a merendeira na cabeça um do outro. O pai da menina deu queixa à polícia, e um oficial de justiça foi à casa do menino, intimando-o a ir prestar depoimento na delegacia.

Fato 2: Semanas atrás, num restaurante chique da Zona Sul do Rio, uma madame reclamou do charuto do cara da mesa vizinha. O cara disse que as mesas deles estavam na área de fumantes. A mulher insistiu, houve um bate-boca que foi aumentando de tom. A mulher julgou-se ofendida, anunciou que era mãe de uma Delegada, e passou a mão no celular. Minutos depois, dois ou três viaturas chegaram ao restaurante, com policiais armados, encapuzados, aquela SWAT toda, parecia cena de “Casseta & Planeta”. Tentaram prender o sujeito, que passou a mão na carteira e mostrou que era oficial aposentado das Forças Armadas: “Preso é que eu não vou”. Uma operação-de-guerra por causa de um charuto.

São dois sintomas do que eu chamo de “O Delírio do Andar de Cima”. A Revolução Francesa inventou ou pôs na roda uma porção de ideais democráticos e republicanos, direitos civis, etc. e tal. E esse arsenal ideológico foi apropriado pela elite do nosso país (à qual pertenço, e provavelmente você também, caro leitor). Vai daí que toda vez que um mosquito pousa no calo de alguém do Andar de Cima, toda a máquina jurídico-policial do país é mobilizada, porque foi ofendido um Cidadão. Essas pessoas têm uma noção desproporcional da própria importância. E sabem que basta dar uma carteirada ou ligar para um amigo influente para que todo o aparato tribunalício do País seja chamado para espantar o mosquito.

Será que eu sou contra as liberdades democráticas e o exercício da cidadania? De jeito nenhum. Mas episódios como estes que descrevi mostram a situação de delírio social em que vive o Andar de Cima. Direitos civis são um bem escasso, disputado a tapa pelos cinco por cento que mandam no País e pelos 15 ou 20% que brigam para fazer parte dos cinco. Existem no papel, existem no blá-blá-blá da imprensa, mas não existem de fato para todo mundo. É como aquela história do repórter de TV que chegou lá no sertão do Seridó, ou noutro lugar que estava sofrendo uma seca braba. O cara entrou num casebre miserável, cheio de crianças doentes, e depois de alguma conversa perguntou a um menino o que ele gostaria de ser. E o menino disse: “Eu queria ser um mico-leão dourado, porque tem tanta gente querendo cuidar deles!”