domingo, 26 de janeiro de 2025

5146) A foto impossível (26.1.2025)




Lá por volta dos anos 1980, o fotógrafo francês Greg Girard estava andando e fazendo fotos dentro de Kowloon City, em Hong-Kong. Fotógrafo é como caçador: tem que estar o tempo inteiro com o olho atento e o dedo no gatilho.  Às vezes, por um segundo de distração se perde a caça. 
 
A caça, no caso do fotógrafo, é aquela foto de algo que cruza a nossa vista, e quando o artista pega a câmera e leva ao olho... babau tia Chica. Passou.  Aquela foto, nunca mais. 


Foi o que aconteceu com Girard. Ele conta que viu uma comissária-de-bordo da Cathay Pacific descer de um táxi e entrar no labirinto urbano de Kowloon City, puxando atrás de si a mala-com-rodinhas. Sua elegância e postura faziam um contraste brusco com o ambiente decadente em volta, mas ele a perdeu no labirinto de ruelas antes de poder fazer uma foto. 


            (Kowloon City) 
 
Para quem não sabe, Kowloon City, “a Cidade Murada”, ou “a Cidade Emparedada”, era um dos ambientes urbanos mais surrealistas do Oriente. Num espaço equivalente a um quarteirão de uma grande cidade, viviam mais de 30 mil pessoas enfurnadas em edifícios precários, decadentes e gigantescos, num viveiro humano que é difícil de acreditar sem ver. 
 
Em algum momento, Kowloon foi considerada o local de maior densidade de ocupação em todo o planeta. Cheio de problemas criminais, sanitários, ambientais, urbanísticos, o complexo de edifícios foi demolido em 1994. 
 
Quanto a Greg Girard, ele ficou com aquela imagem na cabeça durante anos. Todo fotógrafo (cineasta, pintor, etc.) tem essas coisas. É uma idéia que fica pendurada na memória, como uma ficha esperando a hora de cair. 
 
E de repente apareceu a tecnologia da Inteligência Artificial, onde é possível descrever com razoável precisão a imagem que temos em mente, e... voilà!... A foto é feita.

Trabalhando em parceria com a artista de Hong Kong, Bianca Tse, Girard forneceu a ela as informações e depois de muitas tentativas algumas fotoficções foram compostas. Não para se fazer passar por fotos autênticas, mas para recuperar uma idéia que tinha charme em si: o contraste entre a elegância da personagem e a sordidez do local. 



 
Bianca Tse usa a I. A. principalmente para encurtar caminhos e reduzir despesas logísticas, diz ela: 
 
Não preciso contratar atores, não preciso montar toda a cena, e, sim, isto poupa uma enormidade de tempo, e principalmente de dinheiro, porque não haveria ninguém disposto a investir em mim para criar esse tipo de obra. 
 
Aqui:
https://edition.cnn.com/2025/01/01/style/bianca-tse-hong-kong-images-ai-hnk-intl/index.html
 
Qualquer pessoa pode se sentir incomodada com isto – no presente caso, os atores que hipoteticamente poderiam ter sido contratados e pagos por Bianca, para realizar suas fotos. A questão é que quando os recursos são poucos qualquer pulo-do-gato é bem vindo, qualquer solução barateadora, simplificadora. 
 
O cinema brasileiro faz isto há séculos. A lei que vigora no mundo da Arte Precária é esta: “Se for esperar para fazer somente quando tiver condições, você não vai fazer nunca; faça agora, do jeito que der, e lá na frente a gente resolve os pepinos.” 
 
Acho que a Inteligência Artificial vai desempregar muita gente, talvez até eu mesmo. Entretanto, quando um tsunami se aproxima não cabe ficar discutindo se o tsunami está certo ou errado. Já aconteceu, e a questão é como sobreviver a ele.  
 
Os bateristas sobreviveram à invenção da bateria eletrônica. O teatro sobreviveu à invenção do cinema, e este à invenção da TV.  
 
Bianca Tse usa a I. A. para criar imagens meio surrealistas, impossíveis de produzir com atores e cenários de verdade.  



 ("Superpopulação", Bianca Tse) 

 

“Superpopulação” (acima) é um trabalho dela usando a ferramenta do Midjourney, e abre esta linha de argumentação: a I. A. pode nos ajudar a produzir fotos impossíveis, fotos além das possibilidades físicas de um fotógrafo tradicional. Deixa-se o território da foto propriamente dita e entra-se no território dos efeitos especiais e da computação gráfica. 
 
Nos recentes incêndios acontecidos em Los Angeles, compartilhei nas redes sociais uma imagem da colina onde o letreiro HOLLYWOOD aparece com uma cortina de fogo por trás. 




Várias pessoas vieram me advertir que a foto era feita com I. A., e que daquele ângulo seria impossível avistar o fogo. Aceitei a correção, mas com uma ressalva: para mim, o poder da imagem não estava no seu possível conteúdo jornalístico (“captei visualmente um fato que está acontecendo”), mas na sua simplicidade simbólica: Hollywood está em chamas. 
 
Esse conteúdo simbólico seria o mesmo se a imagem fosse um cartum desenhado a nanquim, um quadro a óleo, etc.  O mesmo impacto: “Hollywood está em chamas”. 
 
Não há dúvida de que a I. A. potencializa um perigo grave, que já vinha desde o CorelDraw, desde o AdobePhotoshop: a possibilidade de alterar imagens reais ou criar “do zero” imagens novas, com total aparência de realidade, mesmo sendo falsas. 
 
Existe uma linha evolutiva muito clara entre estas tecnologias. A grande inovação da I. A. é o fato de que o usuário nem sequer preciso dominar uma técnica de interferência na imagem. Bastam comandos verbais. A pessoa pode inventar uma foto ou uma pintura ou um filme sem pegar no mouse, apenas descrevendo o resultado que quer. 



(ilustração: Bianca Tse) 
 

As fotos de Bianca Tse oscilam nesse limite entre o possível e o impossível – exatamente como o próprio “bairro” de Kowloon em sua cidade natal, aquele “favelão”, aquela aberração urbanística que, como já se disse muitas vezes, era preciso ver para acreditar que existia mesmo.
 
Depois que transcorre um século, a distância entre o real e o irreal se torna uma questão de fé.

(Para quem tiver curiosidade, no link abaixo há uma extensa matéria sobre Kowloon City, com numerosas fotos.)

https://cityofdarkness.co.uk/category/the_city/

 






 
 



quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

5145) "Little, Big" e a Fantasia Urbana (22.1.2025)




Nas discussões literárias, quando se invoca o nome “Fantasia”, todo mundo pensa imediatamente em histórias envolvendo guerreiros medievais com espada e armadura, cercados de magos, dragões, castelos. Ou seja, para a maioria dos leitores, “fantasia” é a Fantasia Heróica, também chamada de “High Fantasy”, aquilo que vemos em obras como O Senhor dos Anéis, Game of Thrones ou Conan o Bárbaro. 
 
Nada contra esta fantasia, que eu, pelo menos, aprecio muito. Só que aprecio mais ainda, por outros motivos, o que a gente chama de “Fantasia Urbana” ou “Fantasia Contemporânea”: as histórias fantásticas (que podem inclusive envolver magos, elfos, encantamentos, etc.) transcorridas na época atual, por entre automóveis, televisões, celulares, etc. 
 
A Fantasia Urbana pode até ser ambientada num momento de cem ou duzentos anos atrás. Alguns dos meus livros preferidos neste gênero fazem isso. 




The Prestige (1995), romance de Christopher Priest (filmado por Christopher Nolan como O Grande Truque) transcorre na Inglaterra vitoriana, e mostra dois mágicos-de-palco rivais, criando truques cada vez mais extraordinários, recorrendo inclusive à ciência da época (Nikolas Tesla aparece na história). 
 
The Anúbis Gates (1983), de Tim Powers, acontece a partir de 1810 em Londres, quando um viajante-no-tempo fica acidentalmente preso nessa época e tem que se virar como pode, baseado nos seus conhecimentos literários. (No Brasil, Os Portais de Anúbis, Ed. 34, trad. Heliana Sabino.) 



 

São histórias fantásticas, com tinturas de ficção científica, mas que são basicamente fantasia, porque a maioria dos efeitos fantásticos a que recorrem não têm nada a ver com ciência. 
 
E são histórias tipicamente urbanas, que extraem dramaticidade das condições de vida numa metrópole – Londres, em ambos os casos. 
 


Um relançamento recente nos EUA tem motivado novas discussões sobre o tema: o do romance Little, Big (1981) de John Crowley, um clássico moderno, que na época em que saiu ganhou o World Fantasy Award, e recebeu elogios entusiasmados do crítico Harold Bloom, que o incluiu no seu livro O Cânone Ocidental. 
 
Diz Bloom, comentando a obra de Crowley:
 
“Little, Big” me parece tão miraculoso quanto Shakespeare ou Lewis Carroll: é como se o livro sempre tivesse estado aqui, tal como se Falstaff ou Humpty Dumpty estivessem aqui desde o princípio das coisas, e Shakespeare e Carroll os tivessem simplesmente encontrado. Sempre tive a impressão de que “Little, Big” já estava aqui e John Crowley apenas o encontrou e o trouxe para casa, a dele e a nossa.
(prefácio a Snake’s Hands: The Fiction of John Crowley, trad. BT) 
 
O romance tem o subtítulo “O Parlamento das Fadas” e trata-se na verdade de uma história sobre fadas, mas contada de um ponto de vista quase contemporâneo, pois a história se passa no século 20, entre a cidade de Nova York e uma região não muito perto nem muito distante, chamada Edgewood, uma espécie de zona de fronteira entre o nosso mundo e o mundo que em inglês é chamado de “Faerie”, o país das fadas. 
 
Uma das teses centrais do livro é clássica: o desenvolvimento industrial, técnico e científico, com suas intensas fontes de energia (vapor, eletricidade, eletrônica, etc.) e o crescimento urbano, empurrou para longe o mundo das fadas e das criaturas fantásticas, que se refugiaram de volta à Natureza. 




 
Little, Big é a história de uma família, a família Drinkwater, ao longo de praticamente um século de gerações sucessivas Isto fez alguns comentaristas, como Ted Gioia, compararem o livro com Cem Anos de Solidão de Garcia Márquez: aquela complicada árvore genealógica cheia de pessoas excêntricas, nomes repetidos, desaparecimentos misteriosos, paixões clandestinas, e um microcosmo de gente interiorana com um pé no mundo real e o outro no umbral de outra realidade. 
 
Um personagem que atravessa a história de ponta a ponta é Evan “Smoky” Barnable, um rapaz tímido, livresco, distraído. Ele casa com Daily Alice, uma das moças da família Drinkwater, descendente de um arquiteto misterioso que construiu a casa também chamada “Edgewood”. John Drinkwater construiu essa mansão enorme em forma de estrela de cinco pontas, cada uma dessas pontas num estilo-de-época diferente, talvez para servir de mostruário aos futuros clientes. 
 
Acontece que o formato da casa possibilita a passagem para planos diferentes da realidade, de modo que chegando ao fim de um corredor e virando a esquina a pessoa não está somente noutro “estilo de época”, está em outro mundo.  Morando com a recém-esposa nessa casa desconcertante, Smoky passa a conviver com a mitologia particular da família Drinkwater – a de que estamos no limiar entre nosso mundo e o mundo das Fadas, e que existe uma História que está sendo contada e todos eles precisam encaixar-se nela para que a História (“the Tale”) aconteça. 
 
Como a melancólica observação de uma personagem menor, mera figurante da História, após seu encontro com uma das protagonistas: 
 
Marge ficou parada na porta observando-a, repleta da estranha sensação de que  tinha sido apenas para essa visita tão rápida que ela tinha vivido toda sua longa vida. Que esse chalé à beira da estrada e essa lanterna em sua mão e toda a série de acontecimentos que a fizeram existir tinha como único objetivo fazer com que aquela visita acontecesse.  (p. 532, trad. BT) 
 
E em outro momento vemos a reflexão de outro personagem, Auberon, que em Nova York ganha a vida escrevendo novelas de televisão: 
 
E no entanto ele precisava apenas sentar diante da maltratada máquina  de escrever (e como ela sofria!...) para que os capítulos começassem a se desdobrar tão habilmente e tão impossivelmente quanto uma fila interminável de lenços-de-seda coloridos que um mágico extrai da própria mão vazia. Como fazer uma história terminar com a promessa de que não terminará nunca? (p. 572) 
 

 
O livro tem uma porção de sub-plots, impossível resumir todos aqui. Há um pacote de cartas de algo como Tarô passando de geração em geração, uma mulher que pratica a magia e a Arte da Memória (projetando suas lembranças nos sucessivos aposentos de um palácio), um bloco de apartamentos em Manhattan que mantém as quatro fachadas mas no interior abriga uma fazenda de animais leiteiros, um rapaz que consegue das Fadas o poder de apaixonar qualquer mulher por que se interesse... 
 
Há um aspecto sinistro também, no surgimento de um líder populista e violento que acaba se elegendo presidente dos Estados Unidos, e é chamado O Tirano: 
 
Porque o Tirano, Russell Eigenblick, não seria esquecido. Um longo período de tempo se estendia diante do seu povo, um tempo amargo em que aqueles que se opuseram a ele iriam, na aus ausência, se voltar uns contra os outros, e a frágil República seria partida e recomposta de vários modos diferentes. Naquele longa disputa, uma nova geração viria a esquecer os sofrimentos e as dificuldades que seus pais haviam sofrido no tempo da Besta, iria olhar oara o passado com nostalgia crescente, com a dor profunda de uma perda, para aqueles anos já além do horizonte da memória viva, para aqueles anos em que, parecia-lhes, o sol sempre estava brilhando. (pág. 694) 
 
Little, Big é uma história de fadas mas é ao mesmo tempo uma história da substituição de gerações em que os mais novos herdam dos mais velhos os sonhos, as dúvidas, os mistérios, as lacunas. A prosa de John Crowley é tradicional, clássica, muito elegante, a mesma que eu já tinha experimentado em livros como The Translator (2002), Antiquities: Seven Stories (1993), Novelty (1989), Great Work of Time (1989)              ...
 
Aqui, escrevi sobre o ótimo The Translator:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/01/1590-o-transleitor-1742008.html
 
Esses livros de Fantasia Urbana são para mim uma demonstração de que é possível pegar mesmo o mais clichê dos temas e dar-lhe uma perspectiva nova. Basta apenas fazê-lo chocar-se com temas afastados dele, e ver que tipo de fagulha esse choque produz. 
 
 





sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

5144) David Lynch, 1946-2025 (17.1.2025)




David Lynch foi um dos grandes diretores indutivos da história do cinema. 
 
Existem cineastas dedutivos – que concebem uma teoria, um tema, uma situação ampla e abstrata, e depois vão procurar situações humanas capazes de ilustrar essas idéias. “Vou contar uma história sobre a vida difícil dos migrantes norte-americanos na época da Grande Depressão”. 
 
E existem cineastas indutivos, que partem de uma imagem vívida, concreta, isolada (imagem geralmente surgida “por acaso”, “caída do céu”, aparecida num sonho, etc.) e começam a explorar situações para justificá-la: O que é aquilo? Como aconteceu? Quem são essas pessoas? Como aquilo foi parar ali? 
 
A melhor ilustração para esse processo de Lynch (que ele já comentou em livros, entrevistas, etc.) poderia ser o início de Veludo Azul (1986), em que um rapaz está curtindo uma agradável tarde de sol no jardim da casa de seus pais e de repente acha na grama uma orelha humana decepada, coberta de formigas. O que é aquilo? Como foi parar ali? Etc., etc. 
 
E a história do filme vai se desdobrando, não para ilustrar uma idéia que o diretor tinha desde o início, mas porque para justificar a presença daquela imagem inicial o diretor vai ter que inventar pessoas, situações, e aos poucos vai acabar inventando outras pessoas, envolvendo uma cidade etc. 
 
Esse processo “indutivo” se parece com certas técnicas de psicologia e psicanálise baseadas em associação livre de idéias, sem propósito, sem lógica, sem obrigação alguma – somente o fluxo de coisas que brotam da nossa cabeça quando produzimos pensamentos, mas sem “briefing”, sem objetivo prático, sem teoria, apenas o fluxo do inconsciente, estimulado por uma mera pressão do tipo: O que você está vendo? Isso parece com quê? Por que está aí? O que tem em redor disso? Etc. 


 
E este processo é mais ou menos o que os Surrealistas pregavam, conforma a definição clássica de André Breton (Manifesto do Surrealismo, 1924): 
 
“Surrealismo é um automatismo psíquico em estado puro, mediante o qual se propõe exprimir, verbalmente, por escrito ou por qualquer outro meio, o funcionamento do pensamento. Ditado do pensamento, suspenso qualquer controle exercido pela razão, alheio a qualquer preocupação estética ou moral.” (trad. Sérgio Pachá)
 
Já li ou assisti inúmeras entrevistas de Lynch, mas não me lembro de nenhuma em que ele se classificasse como “surrealista” – o que aliás seria um erro, pois cada vez que um artista admite ser incluído num “ismo” qualquer está construindo uma gaiola em volta de si mesmo e jogando a chave no rio. 
 
Vale lembrar também que André Breton, o surrealista-raiz, tinha um profundo desprezo pela “literatura”, pela “contação de histórias” e buscava o jorro contínuo de imagens bizarras não conectadas por qualquer arremedo de “roteiro comercial”. 



(Luís Buñuel, Un Chien Andalou)
 

Breton, como todo profeta de uma ideologia, era um purista, um radical. Celebrou os primeiros filmes de Luís Buñuel (Um Cão Andaluz, L’Âge d’Or); não sei o que terá dito de filmes comerciais, com começo-meio-e-fim como Viridiana ou A Bela da Tarde
 
Os filmes de Lynch, como os do Buñuel maduro, são filmes comerciais (todos foram exibidos comercialmente, com graus variados de sucesso financeiro) aproveitando o método surrealista (que é quase um método psicanalítico). Mas sua geração de imagens bizarras se dá num contexto de “cinemão”, familiar ao repertório do público. 
 
Uma orelha decepada? Deve ter havido um crime, vamos chamar a polícia, etc.  Mas quanto mais se investiga, mais coisas bizarras aparecem. E a cada bizarrice nova é preciso ampliar o contexto para que elas façam sentido, e é um processo sem fim. Uma boa parte do cinema de Lynch se desenvolve dessa maneira. 
 
O que há dentro da caixinha de música do musculoso chinês que frequenta o bordel em A Bela da Tarde? O que há dentro da misteriosa caixa azul que vai parar nas mãos das moças de Mullholland Drive? Enquanto o diretor não mostrar, pode haver qualquer coisa. 



(Luís Buñuel, A Bela da Tarde

 
Um dos grandes problemas da crítica cinematográfica é quando um crítico de cabeça dedutiva vai analisar um filme de um cineasta de cabeça indutiva (ou vice-versa) e tenta, à força, fazer essa cavilha quadrada se encaixar num buraco redondo (ou vice-versa). São modos de pensar diferentes e é em casos assim que frequentemente encontramos o protesto de “critique o filme que o diretor fez, não o que você teria feito no lugar dele”. 
 
São como idiomas diferentes: pensar dedutivamente (do geral para o particular, do abstrato para o concreto) e pensar indutivamente (do particular para o geral, do concreto para o abstrato). Qualquer pessoa pode cultivar os dois, mas é muito frequente que um conjunto de fatores desde a infância (vida familiar, educação, leituras, influências) faça com que uma pessoa às vezes, tenha muita dificuldade para “mudar de idioma” em sua cabeça. 
 
Os cinemas de Lynch e de Buñuel são um esforço permanente para conciliar, no contexto basicamente comercial do cinema de longa-metragem, não somente esses dois processos, mas a conviência entre imagens bizarras e contexto banal.  
 
Eu diria que um dos predecessores mais ilustres desse processo são as colagens de Max Ernst em obras como Une Semaine de Bonté (1934) e outras. Ernst pegava as imagens mais “comerciais” e caretas de sua época (as gravuras ilustrando romances de amor, de ascensão social, de tragédias familiares, de entretenimento classe-média), recortava, colava, e usava esse contexto extremamente familiar ao leitor comum da época para produzir situações cômicas, absurdas, “surrealistas”. 






(Max Ernst, Une Semaine de Bonté, 1934)



Este tipo de narrativa consegue muitas vezes um equilíbrio fascinante entre “contexto normal x imagens bizarras”. 
 
Buñuel consegue isto narrando histórias inspiradas em romances-folhetim (Joseph Kessel, Pérez Galdós, Octave Mirbeau, Pierre Louys) e distorcendo essas histórias para transformá-las em alucinações sob controle. 
 
David Lynch recorre ao universo riquíssimo da vida suburbana norte-americana, aos bairros residenciais das cidades interioranas, àquela aparente normalidade residencial, profissional e familiar, e começa a destampar bueiros, arrombar portas, acender luzes, e descobrir tudo que existe de violento e primal para sustentar aquela normalidade aparente. 
 
É um equilíbrio perigoso, porque muitos espectadores ficam profundamente irritados quando entendem 90% de um filme mas não conseguem em hipótese alguma justificar aqueles outros 10% incompreensíveis. Eu sei o que é esta sensação. 
 
O universo de Lynch é um universo “caiado por fora e podre por dentro”, e ele geralmente percorre esse universo levado pela mão de um personagem que sem querer mergulhou numa história aterrorizante ou, no caso do agente do FBI de Twin Peaks, de um personagem que por força do seu ofício já sabe o que pode haver no mundo e precisa transitar o tempo inteiro entre o cenário das aparências e os bastidores da realidade. 
 
Pode até  não parecer muito, mas o mundo de David Lynch é o mesmo de Philip K Dick, aquele Projac de simulacros onde mora gente que pensa que é gente de verdade. Aquelas casas com grama verde, cerquinhas brancas, garagem coberta, barbecue ao ar livre, rock na vitrola ou no smartphone. É uma realidade de acrílico e compensado, na qual as pessoas vivem, comem, dormem, até que o primeiro ruído se infiltra... e buga o programa inteiro. 
 
É o detalhe terrível que Glauber Rocha chamava de “o câncer no lábio da Miss”. 



(Tom Waits, Frank's Wild Years)
 

Entre os muitos comentários sobre Lynch que pipocaram nas redes estes dias, vi um do leitor Charles Bergman no grupo de Facebook Tom Waits sugerindo que não pode haver cineasta melhor do que Lynch para traduzir visualmente as canções de Waits (ele cita “Black Wings”, “Underground”, “What’s He Building”). 

Ei-las aqui:

É o mesmo universo suburbano, boêmio, de “morbeza lírica” (Macalé + Waly Salomão), de “amour fou” misturado com “true crime”; sexo, drogas e rock anos 1950. Um contexto de intensas referências nostálgicas e de perplexidade de quem, a certa altura do século, perdeu o rumo e entrou numa estrada perdida. 
 
Make America Gasp Again! 






quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

5143) Jessier Joyce (15.1.2025)



 
As idéias também rimam, de vez em quando. Às vezes a gente está lendo um romance policial italiano, aí pega por acaso um livro de um poeta argentino do século 19, e quando menos espera vê duas frases, ou dois parágrafos, ou duas cenas que têm tudo a ver entre si, como se aqueles dois autores estivessem conversando por cima das nossas cabeças e do nosso espaçotempo. 
 
Estou lendo o livro de Frank Budgen (James Joyce and the Making of Ulysses, 1934) onde o autor, que conviveu com Joyce em Zurich, recorda suas conversas, e comenta os episódios do romance joyceano com o olhar de quem acompanhou a criação daquela obra, por assim dizer, no próprio set de filmagem. 
 
E me caiu nas mãos o livro novo de meu primo-transverso Jessier Quirino, Eu Parece que Tô Vendo (Recife, Ed. Bagaço, 2024), com o habitual tabuleiro sortido de poemas, quadrinhas, aforismos, comparações, canções, verdades enfeitadas e mentiras involuntárias. 
 
Se eu fosse um profissional rigoroso faria aqui um parêntese para explicar aos meus leitores de Joyce quem é Jessier, e aos meus leitores de Jessier quem é Joyce; mas este blog é apenas o que Antonio Houaiss chamaria “uma obra de desfastio”, então irei direto ao assunto. 
 
Uma coisa em comum entre esses dois cabocos é a volúpia quase-etílica da palavra, o prazer de curtir as palavras, de abri-las como um guri abre um Kinder-Ovo, de colecioná-las como um torcedor coleciona gols na memória. Tanto o irlandês quanto o paraibano são escritores encharcados do linguajar dos livros e das feiras-livres, das academias e das calçadas, dos botequins e das bibliotecas, das lojas de conveniência e das casas de tolerância. 
 
Quando Jessier diz “eu parece que tô vendo” ele alude certamente à “inelutável modalidade do visível” de Stephen Dedalus no Ulysses: o que se pode ver com os olhos e com a mente, ou, como diz o catacego Joyce, “feche os olhos e veja”. 
 
Jessier define o poeta como “um prestador de atenção”, e vou aproveitar um dos seus textos onde ele se põe a explicar como é possível reconhecer um sertanejo pelo seu palavreado, palavrório, palanfrório. Como fazê-lo? Vejamos na página 71: 
 
Pegar bigu na palestra 
nos franzimentos de testa 
e, cada palavra escutar. 
 
É lascança; é caixa-prego 
breado; chorumingado; 
labrojeiro; é pirangueiro 
nem deu fé; amundiçado 
bafafá; foi no migué; 
munganguento; incriquiado; 
infeliz-das-costa-oca;
chinelão espragatado,
imbeiçado; puxincói;
é toitiço; é trimilique
zoró; brebote; miado;
bateu fofo; é breu-com-cola!
Tibungão; atabacado
encangado; cocorote
xexêro; malacabado. (...)
 
Por enquanto basta. Já me serve para deixar de presente uma paginazinha da minha Work In Progress pessoal: o meu Dicionário Nordestinense (também referido como Assim Falou Trupizupe), uma compilação desopilante que pode servir como modesto adendo ao gargantuesco Dicionário do Nordeste (Recife, CEPE, 2013, 2ª. ed.) de Fred Navarro. 
 
Dito isto, vamos ao ave-palavra em pauta.
 
Lascança
É o ato isolado de se lascar, ou a condição permanente de quem vive se lascando. “Veja o exemplo do Botafogo do Rio: não vivia naquela lascança?... Então? Se ele se salvou, qualquer um pode!...” 
 
Caixa-prego
Exemplo clássico de lugar distantíssimo, também conhecido como “Caixa-bozó”. Vale lembrar: é o nome de um lugar real na ilha de Itaparica (BA), com a grafia de “Cacha Pregos”. 
 
Breado
Tecnicamente, significa “sujo de breu”, mas na prática é sujo de qualquer coisa. “Me traz uma muda de roupa, essa aqui tá toda breada de lama.” 
 
Chorumingado
A ação de “choramingar”. “Você pare com esse chorumingado aí, não tá doente coisa nenhuma, vai pra aula nem que seja debaixo de cacete.” 
 
Labrojeiro
Mal-amanhado, mal-feito, mal-arrumado; uma coisa de mau gosto, de má qualidade. “Meu marido inventou de me dar um presente, mas me deu um relógio tão labrojeiro que quando eu vou pra rua eu tiro do braço”. 
 
Pirangueiro
Uma combinação de malandro, desocupado, filador-de-cigarro, pedidor-de-dinheiro-emprestado. “Não quero você andando com esse sujeito, é um pirangueiro de porta de bodega, não tem o menor futuro.” 
 
Nem deu fé
Dar fé é perceber, notar, reparar em alguma coisa. “Levaram meu celular e eu só dei fé quando cheguei em casa”. 
 
Amundiçado
“Mundiça” (ao pé da letra, “imundície”) designa tudo que não presta, principalmente algum conjunto de gente vulgar, de maus costumes. “Não se misture com aquela mundiça daquele bar.” “Você de uns tempos pra cá está todo amundiçado, são esses seus amigos da sinuca.” 
 
Bafafá
Briga, confusão, altercação violenta. Para alguns teóricos mais sofisticados, o mesmo que “rififi”. Ou “sururu”. 
 
Foi no migué
Curiosamente, esta gíria me parece mais carioca do que nordestina, e se for mesmo é mais um desses contrabandos verbais incentivados em mão dupla pela televisão. O “migué”, como o entendo, é truque, é finta, é negaceio, seja físico ou mental. “Cheguei atrasado no trabalho, mas quando me viram dei um migué e falei que tinha saído de novo, pra comprar cigarro”. 
 
Munganguento
Adjetivo, derivado do substantivo “munganga” (=trejeito, careta, gatimônia). “Eu sou fã de Tom Waits, mas depois de velho ele está cada vez mais munganguento”. 
 
Incriquiado
É uma versão-tremida de “encarquilhado”, cheio de pregas, de rugas. “Fiquei meia hora na pia lavando prato, vê só as pontas dos meus dedos, tá tudo incriquiado”. 
 
Infeliz-das-costa-oca
Um insulto pesado cuja origem se perde na noite dos tempos e na madrugada das discussões de mesa-de-bar. Não sei o significado, no contexto, dessas “costas ocas”. Talvez tenha relação com o termo “santinho do pau oco” (=hipócrita), em alusão àquelas imagens de santo, feitas de madeira, que eram ocas e serviam para esconder dinheiro. 
 
Chinelão espragatado
É o chinelo que, de tanto uso, espragatou-se todinho. Amassou-se, deformou-se. Termo parecido é “achinchelado”, mas usa-se com sapato: é quando a gente enfia apenas a parte dianteira do pé dentro do sapato, e fica pisando na borda traseira com o calcanhar: isso é “achinchelar” o sapato (“achinelar”). Atrai puxões de orelha maternos. 
 
Imbeiçado
Ou “embeiçado”: é estar em vias de apaixonamento por outra pessoa, arrastando-a-asa, arriado-dos-quatro-pneus. Em inglês, “infatuated”. 
 
Puxincói
“Puxa-encolhe”: qualquer processo repetitivo, que não avança, que não resulta, que é preciso ficar insistindo nele, mesmo sem muita esperança de resultado. Nas últimas décadas, tem dado lugar ao equivalente “muído”. 
 
Toitiço
A parte frontal do tórax; o peito, o peitoral. “Ele nem bem terminou de falar e eu dei-lhe uma cabeçada no toitiço que ele caiu de bunda na poça do meio-fio.” 
 
Trimilique
Estremecimento generalizado, talvez com causa física, mas geralmente por medo, paúra, choque de covardia, afrouxamento-das-pernas. Existe a variante “estrimilique”. 
 
Zoró
Tonto, desnorteado, desorientado, sem conseguir fixar a vista numa coisa nem a cabeça numa idéia. “Rapaz, quando ela vem falar comigo eu fico zoró, só acerto a dizer besteira, e quando-é-depois a vontade de morrer é grande”. 
 
Brebote
A pronúncia é “brê-BÔ-te”. Conversa fiada, miolo-de-pote, cordão-de-besteira, de nonada, de tutaméia... “Vamos comprar uma cerveja e ficar conversando brebôte na calçada!. 
 
Miado
Adjetivo: mixuruca, fraquim-fraquim, sem graça, sem valor, sem interesse. “Achei muito miada a festa de casamento deles – pra o tanto que ele diz ter gasto...” 
 
Bateu fofo
“Bater fofo” significa ficar muito aquém da expectativa criada. A analogia é com um tambor;  alguém se prepara pra percutir, com muita mizancene, e quando desfere a pancada vê-se que o couro do tambor está mole, frouxo, meh. Lenine usou isso em “Que Baque é Esse”: “E o maracatu passou já com o bombo batendo fofo...” 
 
Breu-com-cola
Breu é mais uma palavra multiuso. Na minha infância, usava-se para negar algo com veemência: “ – Domingo o Campinense vai ganhar do Treze!... – Vai ganhar, breu!  Treze cinco a zero!...”   Essas negações iam se enfeitando e ficando mais barrocas, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos já se dizia: “É breu com cola, macaco na escola, tomando Coca-Cola!...” – pra dizer: “de jeito nenhum”, “nem que a vaca tussa”. 
 
Tibungão
O verbo é “tibungar”, onomatopéia derivada de “tchibum”. Ou seja: mergulhar na água com barulho, com espalhafato. “Bora tibungar no açude!” “Tibungão” pode ser um mergulho mais ruidoso. 
 
Atabacado
“Tabaco” é outra palavra multiuso. Um sujeito abobalhado, bundão, é “um tabaco-leso”. Quando uma pessoa cai de maneira desengonçada, barulhenta, ela “se estabacou”. “Atabacado” (ou “entabacado”) deve ser quando o sujeito está furioso, botando fumaça pelas ventas. 
 
Encangado
Preso a uma canga, aquela peça de madeira que mantém juntos os bois de carro. Por extensão, tudo que está sempre junto. “Ele e aquele amigo dele vivem encangados, pra onde vai um o outro vai atrás” Aparece também na expressão “Ah, Fulano, vai encangar grilo!...” – expressão de impaciência equivalente a “vai pentear macaco, vai catar minhoca no asfalto!...” 
 
Cocorote
Pancada na cabeça de alguém com os nós dos dedos. Primo-carnal do “cascudo”, com a diferença de que o “cascudo” é uma pancada seca e rápida no quengo da vítima, e no “cocorote” a gente fecha a mão, pressiona os nós dos dedos no quengo e depois os desliza com toda força, “riscando” o crânio do infelicitado. 
 
Xexêro
Ou “xexeiro”: o indivíduo que “passa xêxo”, ou seja, deixa de pagar uma despesa, uma dívida, etc., e escafede-se da maneira mais discreta (ou mais cara-lisa) possível. 
 
Malacabado
Pode trocar na balança por “labrojeiro”, e só um especialista toca o alarme. 
 
***
 
E para encerrar, preciso dar um alerta: a lista acima não é de invenções jessierianas. Tudo isto é linguagem coletiva, da rua-de-cima e da rua-de-baixo, das-antigas: é um vovocabulário, que gerações atrás já era dito e entendido sem catabís. 
 
Ao mesmo tempo, Jessier é também um palavrista consumado, e no mesmo livro eu cato ao Acaso invenções miúdas, desprovidas da prosopopéia impoluta de quem quer invadir dicionários – é apenas a palavra-nova brotando como um drible-de-corpo necessário para resolver um momento específico. 
 
E assim brotam “esperando de tocaia que ela me lararasse”, “versejador tutanudo”, “ele tava pensaroso”, “jumentice desgovernou sua vida”, “cuscuz cortado aos pedaços e cuscuz esfarofado”, “sofreu uma incinerança no peito”... 
 
Uma palavra nova é um prego-e-tábua onde pregar uma idéia para que ela não fuja, e às vezes a dita-cuja cai no gôto, cai no gôsto, ganha nome, rosto e verbete. 



 
 




domingo, 12 de janeiro de 2025

5142) Oito fatos reais (12.1.2025)




1
Jim Walpole, 77 anos, caminhava por uma rua de Toronto quando tropeçou e caiu de encontro a um andaime, sofrendo um corte profundo no pescoço. Pessoas correram para ajudá-lo, e um homem careca, que passava pelo local, ajoelhou-se junto dele e exerceu pressão sobre o ferimento, contendo a hemorragia. O homem disse: “Meu nome é John. Fique tranquilo, o senhor vai ficar bem.” O homem chamado John parecia seguro do que fazia, controlando por completo a situação, dando instruções às pessoas em volta, até que chegaram os paramédicos e socorreram o idoso, que escapou com vida. O homem careca era o ator John Malkovich, que estava de passagem pela cidade com uma peça de teatro. 
 
2
No seu tempo de estudante em Madrid, Luis Buñuel tentou certa vez, por passatempo, com seus amigos, hipnotizar uma mulher num bordel que frequentava. Conseguiu, mas no mesmo instante vieram avisá-lo de que outra mulher, Rafaela, tinha adormecido bruscamente na cozinha. Dom Luis foi despertá-la, mas daí em diante criou-se um vínculo psíquico entre os dois. Bastava que ele passasse pela rua, caminhando na calçada diante do bordel, para que Rafaela, sem ter noção da proximidade dele, entrasse em transe. E mais de uma vez ele apostou com os colegas que podia chamá-la telepaticamente: sentavam na mesa de um café, Buñuel pensava nela com intensidade, e minutos depois Rafaela aparecia, desorientada, sem saber onde estava. 
 
3
O cineasta Orson Welles nasceu na cidade de Kenosha (Wisconsin), mas foi concebido no Rio de Janeiro, onde seus pais estavam em viagem de férias – o que talvez explique o interesse especial que sempre teve pelo Brasil. Era um garoto precoce, e quando tinha um ano e meio de idade um médico da família entrou no seu quarto e o viu de pé, dentro do berço, dizendo com toda seriedade: “O desejo de tomar medicamentos é uma das principais características que distingue o ser humano dos animais.” 
 
4
O escritor Julio Cortázar estava passando por Connaught Place, em Nova Délhi, quando foi cercado por pequenos engraxates, um dos quais rapidamente passou a tirar seus sapatos de camurça. Intimidado e um tanto compadecido, ele se resignou com a perspectiva de ver seus caros sapatos marrons serem mortalmente besuntados por uma graxa qualquer, e aceitou ser descalçado e enfiar os pés com meias em dois suportes de papelão. Qual não foi sua surpresa ao ver o pequeno lustrabotas abrir sua caixa de material e tirar dali uma inesperada, múltipla, policrômica, interminável e maravilhosa série de frasquinhos cheios de pós coloridos, de onde começou a misturar pós de cor marrom, sépia, amarelo, branco, negro... Enquanto com um palito os misturava dentro de um pedaço de gaze, seus olhos iam e vinham do sapato ao pó, do pó aos frasquinhos, até que tudo se encerrou com o gesto de turista torpe: pagar, única comunicação possível entre estes dois mundos. 
 
5
Em 1941, durante a guerra contra o Eixo, os estrategistas da propaganda britânica passaram a usar o chamado “V da Vitória”, o popular gesto com dois dedos erguidos, induzindo nas multidões um senso de confiança e otimismo. O primeiro-ministro Winston Churchill ajudou a popularizar o gesto, inclusive conjugando-o com o seu hábito de segurar o charuto entre os dedos. A BBC de Londres percebeu também que no código Morse a letra “V” é representada por três pontos e um traço ( “ . . . – “), e que esses sinais reproduzem, por coincidência, as notas iniciais da Quinta Sinfonia de Beethoven. (A coincidência envolve também o fato de que “Quinta” é representada com um “V” em algarismos romanos.) E as transmissões da BBC relativas ao noticiário da guerra passaram a ser introduzidas por estas notas musicais, o equivalente sonoro ao gesto visível. 
 
6
Henri Langlois, o famoso curador da Cinemathèque Française, teve em 1972 a idéia de fazer uma exposição de material relativo ao cinema, o Museu do Cinema. A exposição foi um sucesso, mas ele não se deu o trabalho de expor o material dentro de mostruários envidraçados e trancados. Isso fez com que poucos dias depois da abertura sumissem da exposição o casaco de couro de James Dean e o vestido que Marilyn Monroe usou em O Pecado Mora Ao Lado. Questionado a respeito pelo seu amigo Jean Rouch, ele respondeu: “Pouco importa se roubaram o vestido, eu tenho outros cinco e, se acabarem, peço a Pierre Cardin para fabricar outro igual. O museu é um museu do imaginário.” 
 
7
O escritor Conan Doyle, depois de ficar célebre com o espantoso sucesso editorial das aventuras de Sherlock Holmes, deparou-se com todo tipo de situação criada pelos seus fãs. Certa vez, estava tomando parte num campeonato amador de bilhar, esporte que curtia bastante, e ao entrar no salão das competições um funcionário lhe entregou um pequeno pacote deixado por um fã. Ao abri-lo, Doyle encontrou um pedaço de giz verde, do tipo que se usa para passar na ponta do taco. Pôs o giz no bolso e passou a usá-lo daí em diante; virou uma espécie de giz de estimação, possivelmente porque lhe dava sorte. Até um dia em que, meses depois, esfregando o giz na ponta do taco, o pedacinho se quebrou e revelou que era oco, e trazia lá dentro um papelzinho dobrado. Doyle abriu o papel e leu: “De Arsène Lupin para Sherlock Holmes”. 
 
8
Maria Luiza era uma jovem tímida e muito religiosa, que chegou a fazer estudos preparatórios para se tornar freira, mas acabou desistindo. Durante esse período de crise vocacional, hospedou-se na casa de um irmão seu, em outra cidade.  Certa tarde ficou sozinha cuidando do bebê do casal. Tinha que dar-lhe uma mamadeira na hora exata, mas os relógios da casa estavam desencontrados. O que fazer? Resolveu telefonar para algum lugar, mesmo desconhecido, e perguntar as horas. Viu no catálogo um nome que julgou ser de alguma instituição religiosa, ligou, um rapaz atendeu. Ela perguntou as horas, ele respondeu mas estranhou – “a senhorita não tem relógio?!...” Era uma pensão para jovens estudantes; os dois entabularam uma conversa, simpatizaram um com o outro, conheceram-se, casaram-se, ficaram juntos até o fim da vida. A moça era “Iza”, irmã de João Guimarães Rosa, que divertia-se contando este episódio a sua filha Vilma. 
 
 





quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

5141) As fantasmagorias artificiais (9.1.2025)




(imagem: Petr Válek)


Eu defendo há anos esta teoria: o videogame será, para o século 21, o que o cinema foi para o século 20. Começou como simples curiosidade técnica, uma diversão de quermesse e de galeria de camelôs, começou a atrair muita gente, a dar dinheiro, e começaram a chegar as pessoas de cabeça realmente criativa (e precisadas de dinheiro, como é o karma dos criativos), e “do nada” surgiu uma nova Usina de Sonhos. 
 
Agora, estamos em 2025, e basta comparar. No ano de 1925, no cinema, já tínhamos Griffith, Eisenstein, Fritz Lang, Chaplin... mas tudo isto é pouco.  O Cinema estava apenas começando.  

No mundo dos games, há gostos para tudo, mas pode-se considerar como franquias/séries fundadoras títulos como Super Mario Bros, Prince of Persia, Monkey Island, Grim Fandango, The Sims, The Legend of Zelda, Skyrim, Final Fantasy, Metal Gear, Grand Theft Auto, Fallout, Myst, Red Dead Redemption, Assassin’s Creed, Shadow of the Colossus... Estou falando apenas dos que já joguei algumas horas, uma vez ou outra. Tem muito mais coisas. 




 
Estou começando a considerar uma variável nova nessa equação: é a famigerada Inteligência Artificial. 
 
Se algo já estiver presente, como idéia, na cultura de um povo; se for tecnicamente possível, e não for economicamente inviável, provavelmente acontecerá. E a Inteligência Artificial, com todos os seus prós e contras, suas promessas e ameaças, com todo o seu brotar-desarrumando, já fincou sua bandeira em terra habitada.  
 
A invenção de tecnologias de produzir imagens animadas fez as redes sociais virarem uma proliferação de grotesquerias, no bom e no mau sentido. Quem tem tempo, grana, imaginação e curiosidade está tendo a chance de participar de um momento fundador na história das Imagens Luminosas em Movimento (nem vou falar de texto ou de imagem fixa, porque aí o céu é o limite). 
 
Os algoritmos das redes sociais têm feito pousar nas minhas timelines os trabalhos de gente que não conheço, com experiências curiosas. Esses artistas usam o fenomenal banco de imagens da I.A. (feito às custas de muita pirataria e pilhagem de trabalhos individuais, é bom lembrar), e começam a alterar essas imagens, interferir nelas, recombiná-las com imagens de outras estirpes, e criar com isso pequenas miniaturas animadas. 
 
Aqui estão alguns exemplos vistos ultimamente. Alguém pode dizer: “Que coisa horrorosa! Então todas as animações por I. A. da Internet são coisas de filme de terror?...”  
 
Minha resposta: Não, não é, e deve haver a esta altura um bilhão de animações com anjinhos barrocos, colibris gorjeantes, greguinhos de toga tocando harpa, e sei lá mais o quê. O algoritmo folheia isso e diz aos sub-algoritmos: “Não mandem isso para BT, ele não curte, ele gosta é de fantasmas, monstros alienígenas, esqueletos, ciência gótica, aventura steampunk...” – e não estará muito longe da verdade. 
 
Aqui vão algumas séries de imagens que recolhi e compartilhei no Facebook ultimamente. São trechinhos curtos, visivelmente imagens recicladas mediante um “prompt”, com resultado equivalente aos famosos “GIFs animados”, a novidade de quinze anos atrás, por aí. 
 
Fico comovido com as imagens da série The Rage of Angels, de Alexandra Gorsf (podem ser acessadas aqui:) 
https://www.facebook.com/watch/?v=3086375484843007
 
Elas fazem uma síntese curiosa entre o Fofo e o Horripilante, misturando criancinhas angelicais e insetos monstruosos. 





 
Um trabalho muito detalhado e inquietante é o de Fredrik Jonsson, com a série “Mechanimal” (com criaturas híbridas e animal e robôs), outra série mostrando grupos de cientistas investigando, com toda calma e atenção, criaturas monstruosas; e a série “Cloud Station” onde ele cria estações de trem meio futuristas, meio steampunk, onde evoluem personagens enigmáticos. 














 
Outro maluco genial é o músico Petr Válek. Ele gosta de fazer uns clips encarnando um personagem amalucado, com músicas barulhentas, uma espécie de noizak (noise + muzak). É uma mistura de Daminhão Experiença, Edgar Varèse e Walter Franco. Estes clips tornam-se bastante divertidos se a gente aceitar que o objetivo ali não é propriamente criar belas melodias ou harmonias inovadoras. 
 
O portal de Válek no YouTube tem uma série desses clips musicais, principalmente os clips com imagens aterrorizantes. Ver esses clips tem feito um grande bem à minha saúde, indiretamente, porque agora tenho certeza de que JAMAIS tomarei ácido lisérgico ou coisa parecida, só pelo medo de acessar essas memórias e ser mentalmente transportado para os ambientes macabros e as criaturas sinistras de Valék, imagens produzidas com grande economia de efeitos. Quem quiser que se arrisque.  
 
Aqui, o portal do YouTube, the VAPE:
https://www.youtube.com/@thevape5030
 
E alguns exemplos das imagens de Válek:




"Insignificant Episode 698":




"Lighting the fourth Advent candle":





Não sei avaliar como anda no mundo inteiro a criação desses clips, e não tenho como saber até que ponto eles são feitos com o uso de Inteligência Artificial. São, em última análise, uma série enorme de colagens de imagens bizarras. Imagens com certos movimentos limitados, denunciando o uso de Inteligência Artificial. Gestos mecânicos, meio erráticos, que não esperaríamos de uma pessoa real. 
 
São cenas curtas com duração de cinco a dez segundos, logo substituídas por outras, sucessivamente. Não há narrativa, não há história. Tudo acontece num limbo sem contexto, imagens se movendo e nada mais. Apenas o ambiente fantástico, os personagens grotescos, os gestos limitados e repetitivos. 
 
Esses clips acabam me trazendo à memória as primeiras experiências de Georges Méliès (1861-1938), um dos pioneiros do cinema. Muita gente deve se lembrar dele como o personagem interpretado por Ben Kingsley no filme A Invenção de Hugo Cabret (2011), de Martin Scorsese. 


 
Méliès foi o primeiro cineasta a pesquisar, descobrir e aplicar sistematicamente todo o arsenal de efeitos especiais resultantes da natureza mecânica do equipamento cinematográfico: a filmagem interrompida, a câmera lenta, a câmera acelerada, a superposição de imagens, etc. 
 
Méliès acabou evoluindo para o filme narrativo, mas seus primeiros filmes de curtíssima metragem eram somente isto: episódios isolados, de poucos segundos, com o único propósito de explorar um novo truque, um novo efeito. Essa novidade técnica seduzia as platéias, tal como hoje nos deslumbra o fato de vermos em movimento essas imagens de I.A., híbridas, superpostas, improváveis, impossíveis. 





 
Minha expectativa é que aos poucos essas três vertentes fundamentais irão convergindo para formar "o Algo", a arte típica do século 21: 
 
a)      A Inteligência Artificial trará seu acervo pilhado e pirateado de toda a cultura mundial, e a brutal aceleração de seus algoritmos turbinados, capazes de copiar, cortar e colar as imagens mais diversas num piscar de olhos, de acordo com qualquer prompt do usuário; 

b)      O Videogame trará a interatividade, a participação ativa e a interferência constante do usuário/espectador na narrativa, a possibilidade de viajar por dentro de universos minuciosamente planejados para reagir à sua presença, produzindo uma infinita ramificação de situações e experiências; 

c)       O Cinema trará a dramaturgia, o senso narrativo, a capacidade de criar personagens e situações humanas com densidade suficiente para atrair, segurar e satisfazer por duas ou três horas ininterruptas a atenção de um público (individual ou coletivo). 
 
As possibilidades, como sempre, são infinitas.