sexta-feira, 3 de janeiro de 2025
5139) Notícias do fim do mundo (3.1.2025)
segunda-feira, 30 de dezembro de 2024
5138) "Conclave", o filme (30.12.2024)
Por duas vezes ele se levantou da cama e foi até a porta, e por duas vezes voltou e se deitou novamente. Ele sabia, é claro, que não haveria nenhum clarão ou revelação súbita, nenhuma infusão repentina de certeza. Não esperava nada desse tipo. Deus não agia dessa forma. Deus já lhe mandara todos os sinais necessários. Cabia a ele agora agir de acordo. E talvez ele tivesse sempre suspeitado de que teria que fazer aquilo afinal, e era esta a razão de não ter devolvido a chave-mestra, que tinha ficado guardada na gaveta de sua mesa de cabeceira.
(trad. BT)
Lawrence/Lomeli é aquele costumeiro cristão sincero, retalhado por dúvidas, a toda hora achando-se insuficiente, inadequado, indigno das altas tarefas que lhe cabem, consciente de suas fraquezas humanas. Mas é um homem eticamente obstinado, que cultiva uma lealdade ferrenha para com o falecido Papa. E sua angústia muda de foco a cada capítulo, à medida que revelações comprometedoras vão surgindo sobre os principais candidatos ao Trono de São Pedro.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2024
5137) "The Last Dangerous Visions" (27.12.2024)
A comunidade de ficção científica dos EUA está
comemorando de maneira especial o lançamento da antologia The Last Dangerous
Visions, organizada por Harlan Ellison. O livro é bom? É ruim? Não sei – ainda
não li, e no momento o que menos importa é a qualidade literária. O livro é um
acontecimento.
Eu nunca imaginei que viveria o suficiente para ver esse
livro nas vitrines (ainda que virtualmente), porque o livro é uma lenda, é um
desses famosos “projetos irrealizáveis”. Passou décadas na gaveta. E depois que
o próprio organizador, Ellison, morreu em 2018, aí sim. Pensei comigo mesmo: “babau,
Tia Chica”.
Uma coisa interessante no mundo das letras e das artes é
a existência de obras que se tornam lendárias antes mesmo de existirem
oficialmente. Obras que são anunciadas durante anos e anos mas demoram a vir à
luz.
É o fenômeno que o inesquecível Orlando Tejo batizou como
“o Vai-e-Vem do Sai-Não-Sai”, quando narrou a via-crucis de redação e
publicação do seu clássico Zé Limeira, o Poeta do Absurdo.
Às vezes um filme é anunciado com algum estardalhaço,
chega a ficar pronto, mas... ninguém o lança. Ele vai para o depósito da
produtora. Por que? Às vezes porque todos os envolvidos concordam: ficou tão
ruim que não lançá-lo dá menos prejuízo do que lançá-lo e desvalorizar o
currículo de dezenas de pessoas.
Ou porque o assunto é espinhoso, delicado, quem sabe? É o
caso, talvez, do famoso filme de Jerry Lewis The Day The Clown Cried (1972),
que ele nem chegou a completar. Este filme é a história de um palhaço de circo
preso num campo de concentração nazista, onde recebe a missão de ajudar a levar
as crianças para as câmaras de gás. Os poucos que viram esse filme dizem que
prefeririam não ter visto.
Filmes incompletos são muitos: o fato de ficarem
incompletos ajuda a perpetuar seu mito, e não é impossível que décadas depois
alguém arregace as mangas e resolva terminá-los.
Pode ser o próprio diretor, como fez Terry Gilliam com The
Man Who Killed Don Quixote, iniciado em 2000, exilado para o freezer, e
concluído apenas em 2018. Pode ser algum amigo, como Peter Bogdanovich fez com The
Other Side of the Wind, deixado no limbo por Orson Welles.
Um filme geralmente envolve gente demais, dinheiro
demais, interesses demais. Problema atrás de problema. Já um disco parece ser
algo mais simples, pelo menos um disco de rock, com uma banda que já toca em
conjunto há anos.
Quando o Guns’n’Roses anunciou um álbum chamado Chinese
Democracy, a conturbada década de 1990 estava apenas começando. Alguns
integrantes da banda caíram fora, as brigas internas se acirraram, mais de 50
canções foram compostas e provisoriamente descartadas, e o disco chegou a ser
considerado o disco mais caro da história do rock, até ser lançado, aos trancos
e barrancos, em 2008.
Presta? Não
presta? É questão de critério pessoal; o
que ninguém discute é que é uma obra que nasce dentro de uma lenda.
Uma via-crucis parecida foi cumprida pelo filme Chatô de
Guilherme Fontes, cuja produção começou em 1995, foi intensamente discutido e
questionado durante os anos seguintes, e só foi lançado em 2015.
Prometo não fazer aqui nenhum comentário a respeito do
prometidíssimo The Winds of Winter, de George R. R. Martin, o livro final da
série “A Song of Ice and Fire”, que para muitos seria a chave-de-ouro da série
“Game of Thrones”, e para outros a derradeira pá de cal.
Voltemos a The Last Dangerous Visions.
Em 1967, Harlan Ellison lançou a antologia Dangerous
Visions, que foi um modesto terremoto na ficção científica norte-americana.
Ellison, um indivíduo brigão, hiper-ativo, articulado, dotado de um estilo
elétrico e provocador, queria uma antologia para “desafinar o coro dos
contentes”, como dizia Torquato Neto. Na introdução do livro ele dizia: “O que
você tem nas mãos é mais do que um livro. Se tivermos sorte, será uma
revolução”.
Seu objetivo era claro: ele encomendou aos autores o
conto mais desafiador, mais provocativo, mais arriscado e mais perigoso que
eles tivessem na gaveta ou fossem capazes de escrever. No tema, no estilo, na
linguagem, nas idéias – não importa. Ellison dizia: “Mande para mim aquele
conto que NINGUÉM teria coragem de publicar. Eu tenho.”
Dangerous Visions saiu com 33 contos inéditos, foi um
sucesso de vendas, teve várias reedições, alguns dos contos ganharam
prêmios. Um volume com 295 mil palavras
que teve o impacto previsto pelo organizador. Dizia ele, à página xxii da
edição de bolso da Signet, na introdução “Thirty-two Soothsayers”:
Os escritores, um após o outro, estão pré-censurando sua obra antes mesmo de escrevê-la, porque sabem que o editor Fulano não gosta de discussões políticas nas suas páginas, ou que o editor Sicrano tem receio de explorar o sexo do futuro, ou que Beltrano não costuma pagar a não ser em forma de feijão e arroz. Então... por que se dar o trabalho de queimar todas aquelas células cinzentas num conceito audacioso, quando tudo que o síndico da revista deseja publicar é mais uma história de cientista louco? (...) E ninguém dizia a esses escritores: “Tire o pé do freio! Não tem mais contraindicações! Diga o que quiser dizer!” Até que surgiu o presente livro. (trad. BT)
Os bons resultados animaram Ellison a produzir em 1972
uma segunda antologia, Again, Dangerous Visions, desta vez com 46 histórias
(algumas delas na verdade são grupos de duas ou três histórias curtas), incluindo
apenas autores que não apareceram na primeira antologia; e mais uma vez ganhou elogios
e prêmios.
Na introdução a esse segundo volume, “As Assault of New
Dreamers” (Pan, 1976), ele dizia:
Quatro anos e meio depois, depois de vender cinquenta mil livros em capa-dura e sabe Deus quantos livros em edições de bolso, Dangerous Visions tornou-se um divisor-de-águas (e pelo menos desta vez minhas fantasias ególatras se realizaram) e forçou a criação de um segundo volume, maior que o primeiro. (...) Ele foi reimpresso pelo Science Fiction Book Club e vendeu mais de 45 mil cópias. (pág. ix-x) (trad. BT)
Então... Ellison anuncia para 1973 um terceiro volume
para encerrar a série: The Last Dangerous Visions.
Que chegou às livrarias somente agora – em setembro de
2024.
O que aconteceu nesse intervalo é uma dessas histórias de
mercado editorial que nem sempre interessam ao grande público, mas servem para
nós, escritores, editores, críticos, como um termômetro para avaliar uma porção
de coisas: os riscos que autores e editores estão dispostos a correr; a
evolução (ou involução) dos conceitos do que é admissível ou não numa obra
literária; as fronteiras do “politicamente correto”; as brechas para propor
recursos de vanguarda literária numa forma basicamente comercial e popular; as
vantagens e as desvantagens da “atitude” em relação à qualidade literária, e
assim por diante.
O verbete da Wikipedia sobre The Last Dangerous Visions registra
que por volta de 1979 a antologia já tinha crescido para um total de 113
contos, a serem publicados em três volumes. Incerteza comercial, problemas
burocráticos e desentendimentos de Ellison com autores e editores foram
atrasando o projeto. Muita gente disse: “Me dá meu conto de volta, já que não
vai mesmo publicar”. O inglês Christopher Priest aborreceu-se tanto que
escreveu um livro sobre a polêmica (The Book on the Edge of Forever, 1993).
Michael Moorcock preferia reagir com bom humor:
Eu e Harlan somos bons amigos. De cinco em cinco anos eu pego de volta meu conto que está na antologia, publico em outro lugar, e depois mando um conto novo para ele.
Autores foram morrendo, contos foram retirados... e o
volume que saiu agora se anuncia com um total de 31 contos por 23 autores. A
organização coube ao heróico J. Michael Straczynski (um dos criadores das séries
Babylon 5 e Sense8), amigo de Ellison e seu executor testamentário.
Um dos aspectos dicutidos desta nova edição é a franqueza
do prefácio (que não li) em que é discutida de forma aberta a questão da
“desordem bipolar” de Ellison, fonte de muitas de suas brigas dentro do mercado
editorial e do mundo literário.
Aqui, uma entrevista (sem legendas) com Ellison nos anos
1970, na época em que ele já havia publicado os dois primeiros volumes da
série. Ellison em plena forma.
https://www.youtube.com/watch?v=DDxnsNw4FZI
E outra, de 1998, ou seja, no que podemos chamar de sua fase
“madura”:
https://www.youtube.com/watch?v=f-KueIGzn1g
terça-feira, 24 de dezembro de 2024
5136) Natal 2024 (24.12.2024)
... e como um zero o ano se arredonda
retornando ao início, ao grão futuro;
eu aperto meu cinto e me asseguro
que agora vai, agora é pra valer...
Cansei de só estar e nunca ser,
cansei de andar assim de casa às costas,
estas estantes cheias de respostas
todas corretas, mas que não são minhas...
E o verão, tempestade de andorinhas
de puro fogo, entrou pela janela.
A vida é bala, Bíblia, boi... e a vida é bela
para quem bebe à fonte de água pura
onde a boca devora o que procura
e o instante fugaz se torna eterno.
“Quanto mais decadente mais moderno”,
o espelho é quem mo diz; e eu me barbeio,
me perfumo, me aprumo, me penteio,
como se fosse o derradeiro dândi
que um dia abandonou Campina Grande
rumo à conquista de outras freguesias.
Era isto, afinal, o que querias?
Pós-prazer, que restou de tal desejo?
Do que eu sonhava, herdei isto que vejo;
do que eu quis, só me coube isto que tenho.
Todo Natal me visto, e aqui venho,
aqui vinho, castanhas, gorgonzolas,
entre arpejos de harpas e violas
votos sinceros de fraternidade...
e o tapete voador desta cidade
decola. Mais um ano. Mais um “round”.
Eu lembro a noite, a lua, o underground,
as calçadas em festa, o riso, as rosas,
as feiticeiras, as misteriosas,
rodas de samba de cerveja erguida,
a catimba de prolongar a vida
mais além do que a vida tem direito;
o beck, o rock, o beijo, o xote... o jeito
de dar ao corpo o pouco que ele pede,
o que transborda, e o que não se mede,
o que o tempo nos traz e leva embora.
Venham, dedos rosados dessa aurora,
tocar em mim e despertar meu sol!
Bacurau, cotovia, rouxinol,
cante aqui quem cantar, eu canto junto!
Pode tudo faltar, menos assunto;
o mundo é isto, e é maior que o Mangue.
Que força é essa que me empurra o sangue
em seu cego circuito pelas veias?
Eu vou é para a Lapa! E calço as meias,
os sapatos... Tô pronto! E chamo o Uber.
Faço de conta que sou um YouTuber,
influêncer, tiktoker digital,
mais seguidores do que um general
(e menos divisões que o Vaticano).
Tanto faz! É Natal, é fim de ano,
bola ao centro... e recomeça o jogo.
Veja o exemplo maior: o Botafogo
improvável herói da própria lenda!!!
É Natal. Tudo em volta está à venda.
Menos a noite, a rua, a lua cheia.
Pois seja posta a mesa, e farta a ceia
de quem calcula à pena o pouco e o tanto.
Ergo o brinde, tranquilo no meu canto,
no meu verso, no avesso da alegria...
E na paz provisória deste dia
as cantigas vão se diapasando,
harmonizam-se o quem, o onde, o quando;
tudo parece enfim fazer sentido...
Mais um ano que veio e foi vivido
e em círculo se fecha a linha, a onda...
domingo, 22 de dezembro de 2024
5135) O orgulho do artesão (22.12.2024)
“Vamos supor (...) que um fabricante de flautas faça uma flauta que nunca seja tocada por ninguém. Não seria uma vergonha e uma pena? Então, de repente, alguém pega e toca a flauta, e o fabricante ouve, e diz: “é a minha flauta”. (pág. 173)
O criador reconhece a sua criação (ou a sua criatura), porque ali existe algo de si próprio. A criação é ao mesmo tempo coletiva (é a ponta de uma longa linha de outras criações, que vem há gerações, há séculos) e individual, porque foi uma pessoa que, naquele exemplo específico, produziu algo de novo e pessoal numa linhagem de obras.
Em virtude de todos esses trágicos acontecimentos, o Mestre Pietrochiodo estava produzindo forcas cada vez mais engenhosas.Elas agora eram verdadeiras obras-primas de carpintaria e mecânica, assim como os cavaletes, os molinetes e outros instrumentos de tortura com os quais o Visconde Medrado extraía confissões dos prisioneiros. Eu ia com frequência à oficina de Pietrochiodo, porque era um bom espetáculo vê-lo a trabalhar com tanto afinco e entusiasmo. Mas pesava sempre uma tristeza no coração do velho carpinteiro. Os cadafalsos que ele produzia eram destinados a homens inocentes. “Como faço para conseguir encomendas de trabalhos assim, delicados, mas com outra função?! Que outros mecanismos poderiam me dar o mesmo prazer de construir?” Mas vendo que tais perguntas ficavam sem resposta, ele as afastava da mente e dedicava-se a construir seus instrumentos da maneira mais perfeita e engenhosa que podia.-- Basta esquecer a finalidade a que se destinam – dizia-me, -- e olhar para eles como peças de mecanismo. Não são uma beleza?Eu olhava para aquela arquitetura de traves, aquelas cordas entrecruzadas, cabrestantes conectados a roldanas, e tentava não ver corpos torturados presos àquilo, mas quando mais eu tentava mais me via pensando neles, e dizia a Pietrochiodo:-- Como posso esquecer?-- Pois é, meu rapaz – dizia ele. – Imagine eu.
(Italo Calvino: “The Cloven Viscount”, in Our Ancestors, Picador, trad. Archibald Colquhoun; pág. 22; edição original, 1951). (trad. BT)
De todas as obras do homem eu prefiroas que têm marcas de uso.As panelas de cobre com arranhões e bordas amassadas,as facas e os garfos cujos cabos de madeiraforam desgastados por tantas mãos: formas assimme parecem as mais nobres. Como as lajes em volta das casas antigaspisadas por tantos pés, afundadas no solo,e com tufos de grama brotando entre elas: sim,essas são obras felizes. (...)
O amor ao próprio trabalho (infelizmente, o privilégio de uns poucos!) representa a melhor e mais concreta aproximação da felicidade na Terra. (...) Para exaltar o labor, nas cerimônias oficiais, emprega-se uma retórica insidiosa, baseada na noção de que uma louvação ou uma medalha custam menos do que um aumento de salário, e rendem mais frutos. Existe também uma retórica do extremo oposto, contudo, não propriamente cínica, mas profundamente estúpida, que tende a aviltar o trabalho, enxergando-o como algo inferior (...) como se alguém que sabe trabalhar fosse, por definição, um servo, e como se, ao contrário, alguém que não sabe executar um trabalho, ou sabe muito pouco, ou não quer aprender, fosse por essa razão um homem livre. (p. 79-80, trad. BT)
(The Wrench, Ed. Michael Joseph, London, 1987, trad. William Weaver)
quinta-feira, 19 de dezembro de 2024
5134) Dicionário Aldebarã XXVII (18.12.2024)
O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres. Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura. Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.
domingo, 15 de dezembro de 2024
5133) A estética do Rolando Lero (15.12.2024)
Dumas escrevia assim por razões de dinheiro, recebia tanto por linha e precisava esticar. Sem contar que, enquanto escrevia a duas mãos o Monte Cristo, estava ao mesmo tempo redigindo La Dame de Montsoreau, Le Chevalier de Maison Rouge, Les Quarante-Cinq. (...)
Eis que assim se explicam aqueles que, em outra ocasião, chamei de “diálogos de empreitada”, onde os interlocutores, fazendo um parágrafo a cada fala, dizem-se durante uma ou duas páginas falas de puro relacionamento, como dois desocupados num elevador. (...)
Dumas faz isso em todos os seus livros. Eco transcreve um longo exemplo tirado de Os Três Mosqueteiros:
-- Não – disse d’Artagnan - , não, confesso-o, não foi o acaso que me pôs no vosso caminho; vi uma mulher bater à porta de um amigo meu...--- De um amigo seu? – interrompeu Mme. Bonacieux.-- Certamente, Aramis é um dos meus melhores amigos.-- Aramis? Que é isso?-- Ora! Quereis dizer-me que não conheceis Aramis?-- É a primeira vez que ouço pronunciar esse nome.-- Mas então é a primeira vez que vindes a esta casa?-- Certamente.-- E não sabíeis que era habitada por um jovem?-- Não.-- Por um mosqueteiro?-- Realmente não.-- Então não era ele que vínheis visitar?-- Nem por sonho. Como viu, a pessoa com quem falei é uma mulher.-- É verdade, mas essa mulher é uma amiga de Aramis.-- Nada sei sobre ela.-- Mora com ele.-- Isso não me diz respeito.-- Mas quem é?-- Oh! Este não é um segredo meu. (...)
Tradutor 1 – Como você traduz “again”?...Tradutor 2 – Depende. Se me pagam por número de palavras, “outra vez”. Se pagam por número de caracteres, “novamente”.
Com o sucesso, Dumas assina com Le Siècle um contrato de colaboração exclusiva: 100 mil linhas por ano, a um franco e meio a linha. Para multiplicar o rendimento, Dumas encontra o diálogo monossilábico e introduz uma série de figurantes pouco loquazes. Donde, a partir de certo momento, precaução dos diretores de jornal: a linha tem de ser completa, e Dumas acaba matando vários personagens tornados inúteis. (pág. 61)
Que deveria fazer o tradutor para responder a um desafio de tal espécie? Se traduz ao pé da letra, sua dignidade se rebela, a mão hesita em repetir sem motivo a mesma palavra, a mesma expressão pré-fabricada, poucas linhas depois; o tédio exigiria que pulasse, enxugasse, encurtasse. (p. 144)
Surge a questão ética da fidelidade ao autor, mas neste ponto o escritor italiano invoca, com pragmatismo, a necessidade de saber quem é o autor, o que buscava com sua escrita, em que condições trabalhava, que tipo de concessões fazia, que tipo de novas concessões (desta vez ao tradutor) estaria disposto a fazer.
Por acaso Dumas não era um autor que trabalhava em colaboração? E por que não, então, em colaboração com um seu tradutor cem anos depois? Dumas por acaso não era artesão pronto a modificar seu produto de acordo com as exigências do mercado? E se o mercado agora lhe pedisse uma história mais enxuta, não seria ele o primeiro a autorizar cortes, encurtamentos, elipses? (pág. 144)
