sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

5030) "O Barão nas Árvores" (9.2.2024)




Ítalo Calvino é um dos grandes fabuladores do nosso tempo, um desmentido vivo àquela falsa dicotomia que opõe os “contadores de histórias” aos “estilistas”, ou a “literatura de enredo” à “literatura de estilo”. Calvino é mestre nas duas. 
 
O Barão nas Árvores (1957) é o segundo livro de uma trilogia que inclui O Visconde Partido ao Meio (1952) e O Cavaleiro Não-Existente (1959). 
 
Este último já comentei aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/05/4938-o-cavaleiro-nao-existente-352023.html
 
O Barão é, nos primeiros parágrafos da história, apenas um garoto, filho da aristocracia rural da Ligúria (noroeste da Itália), que na hora da refeição recusa-se a comer um prato que lhe desagrada, bate-boca com os pais, foge pela janela, pendura-se nos galhos de árvore mais próxima e jura de pés juntos que nunca mais pisará no chão, em sinal de protesto. E o faz. 
 
Cosimo passa a viver de galho em galho, como Tarzan, saltando pelos cipós, dormindo em forquilhas confortáveis. Nos primeiros capítulos, enquanto a família se desespera e tenta negociar, Calvino explica como o rapaz, que é inteligente cheio de recursos, resolve durante os meses seguintes os seus novos problemas de sobrevivência – comida, dormida, higiene, roupas, etc. 




Daí em diante são muitas as aventuras. Um escritor contemporâneo (leitor dos manuais que nos pressionam a “fazer suspense”, “obrigar o leitor a virar páginas com rapidez”, etc.) passaria a inventar situações cada vez mais melodramáticas em que o rapaz estivesse a ponto de ser forçado a botar o pé no chão, mas escapasse por um fio. 
 
As situações até se apresentam – perseguições armadas, lutas contra piratas, amizade com salteadores, invasão do exército francês... Até mesmo um encontro pessoal com Napoleão Bonaparte, o imperador em seu cavalo e Cosimo no seu galho. Mas a essa altura o leitor nem se interessa se ele vai descer ou não. O autor impôs, com seu estilo de narrar, um novo conceito de normalidade. Não queremos saber se Cosimo “vai voltar” ou não. Ele criou uma nova regra para o mundo em que vive. 
 
A história é narrada na primeira pessoa pelo irmão mais novo de Cosimo, o que permite um certo distanciamento muito útil. Quando algum detalhe da história não se encaixa direito, ou quando falta uma explicação, o narrador simplesmente diz: “não sei como aconteceu, há várias versões” – e estamos conversados. 



(ilustração: Yan Nascimbene) 
 

É uma história ambientada na virada do século 18 para o 19 (acompanhando os mais de 60 anos da vida de Cosimo), e tem um formato aparentado aos “contos filosóficos” daquele tempo, semelhança ainda maior quando pensamos que o Barão Cosimo, acima de tudo um estudioso, se corresponde com Voltaire, Rousseau e outros intelectuais da época.
 
Ele se torna, inclusive, autor de um Projeto Constitucional para uma Cidade Republicana, com uma Declaração dos Direitos do Homem, Mulheres, Crianças, Animais Selvagens e Domésticos, incluindo Aves, Peixes e Insetos, e toda a Vegetação, sejam Árvores, Legumes ou Grama. 
 
Calvino, como já falei, é um grande contador de histórias, e indivíduos com esse talento geralmente sabem extrair uma história de cada personagem que lhes passa pelo teatro da mente. Os membros da família de Cosimo Rondò vão sendo apresentados ao longo da narrativa, e cada qual tem sua cena, seu episódio marcante, antes que o narrador retorne à vida do tarzã-da-Ligúria.


 
O argumento do livro lembra um pouco aqueles indivíduos imprevisíveis que um belo dia tomam uma decisão meio gratuita, meio absurda, mas mantêm-se fiéis a ela pelo resto da vida. É o velho pai de “A Terceira Margem do Rio” de Guimarães Rosa, que embarca numa canoa e passa seu resto de vida remando à toa, na água, sem falar com ninguém e sem voltar à terra firme. É o “Wakefield” de Nathanael Hawthorne, que um dia não volta para casa, apenas desaparece, e durante vinte anos fica espreitando de longe a esposa e vendo como ela reage ao seu desaparecimento. É o “Bartleby” de Herman Melville que, do dia para a noite, prefere não fazer nenhuma das tarefas que o patrão lhe atribui, no escritório. 
 
Essas venetas repentinas, que podem parecer sintoma de loucura, correspondem, no seu rigor e na sua gratuidade, a certas “contraintes” (“constrições, limitações auto-impostas”) que um escritor pode impor a si mesmo, e que são um elemento fundamental do pensamento do grupo de que Calvino fez parte, a OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle, “Oficina de Literatura Potencial”). 



(ilustração: Yan Nascimbene) 


Os membros da OuLiPo (Calvino, Georges Perec, Raymond Queneau, Jacques Roubaud, Harry Matthews e outros) consideravam que uma liberdade plena acarreta uma frouxidão plena, e que a criatividade do autor é estimulada e potencializada quando ele impõe para si mesmo uma regra arbitrária, inventada, sem nenhuma razão-de-ser aparente, mas apega-se a ela e procura criar a obra escrupulosamente dentro desses limites. 
 
É o que faz o Barão Cosimo. “Nunca mais pisarei no chão!” – e por mais de cinquenta anos ele vive de galho em galho, ali ele mora, namora, dorme, passeia, trabalha, ajuda a apagar incêndios, ajuda a organizar uma resistência armada durante a guerra. Ali ele estuda e escreve obras filosóficas; e essa limitação auto-imposta torna-se parte de sua personalidade, de sua biografia. A tal ponto que depois de certa altura seria impensável um Cosimo caminhando no chão, pelas alamedas do castelo da família. 
 
Seu universo se reorganiza de forma a ter como centro a folhagem das árvores, as quais felizmente são abundantes naquela região. Mas o narrador, a certa altura, conta como ele, chegando aos limites de suas propriedades, se depara com um espaço vazio, não-arborizado: 
 
Esse descampado, para Cosimo, era uma visão que o enchia de desconforto. Tendo vivido sempre em meio à vegetação espessa de Ombrosa, com a segurança de poder chegar a qualquer lugar seguindo seus próprios caminhos, bastava ao Barão ver diante de si um espaço vazio e intransponível para ser tomado por uma sensação de vertigem.
(The Baron in the Trees, Picador, trad. ing. Archibald Colquhoun, trad. port. BT)
 
Em Viagem ao Centro da Terra, Jules Verne fazia seus personagens, antes de descerem ao mundo subterrâneo, subirem à torre da igreja para tomar “lições de abismo”. A lição de abismo de Cosimo é horizontal. Não haver árvores, para ele, equivale a não haver chão. É um espaço inacessível que lhe causa terror; um não-espaço. 



(ilustração: Yan Nascimbene)
 

O irmão-narrador confessa:
 
Eu acompanho o noticiário, leio livros, mas eles me desnorteiam, o que ele tinha para dizer não se encontra ali, porque ele compreendeu alguma coisa a mais, alguma coisa que abrangia tudo, e ele não conseguia explicar isso com palavras: somente vivendo como vivia. Somente sendo tão autenticamente ele mesmo, como meu irmão o foi até sua morte, ele poderia deixar alguma coisa para todos os homens. 
 
Em seu clássico Cidades Invisíveis, Calvino enumera dezenas de cidades fantásticas e a certa altura sugere que a humanidade sonha com uma espécie de “cidade contínua” onde todas se misturam; algo disso já existe nas grandes metrópoles de hoje, onde espaços de serviços se repetem (aeroportos, supermercados, shopping centers, hotéis, etc.) de tal modo que podemos mudar de cidade sem mudar de ambiente. Cosimo criou para si uma cidade contínua feita de diferentes bosques, diferentes jardins, diferentes matas selvagens, mas seu universo era definido pela existência ou não de árvores. 
 
Para os que entendem inglês, aqui há uma simpática sessão de leitura e debate, em que o ator Richard Gere lê trechos de The Baron in the Trees, e depois debate a obra com Giovanna Calvino, filha do escritor. 
 
https://www.youtube.com/watch?v=BYx5VkYf7eY
 
 
 
 
 
 



terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

5029) As armadilhas da língua (6.2.2024)

 


Rola pela web um meme com trechos de um programa de Sílvio Santos onde as pessoas têm que sugerir letras para completar palavras num painel, e ganhar prêmios. O apresentador pede sugestões, e aí vem um picotado de respostas absurdas, que fazem a platéia gargalhar. 
 
-- L de elefante!...
-- C de Sebastião!...
-- R de ervilha!...
 
E o pessoal rola de rir. Eu também acho graça; no meu caso pelo inesperado da coisa, porque há uma fração de segundo entre o enunciado da letra, em voz alta, e o enunciado da palavra; e a palavra sempre é uma que eu menos esperava. 

Na televisão a gente sempre acha que tudo é combinado, tudo é pegadinha. Mas, supondo que não seja uma encenação combinada... As pessoas devem ser precariamente alfabetizadas. Podemos dar também o desconto do nervosismo. Estar sendo submetido publicamente a um teste, principalmente na TV, é duro. A pessoa sabe que a família inteira está assistindo, a vizinhança inteira, o Sistema Solar. 
 
Guardei por muitos anos uma prova de quando eu tinha 8 ou 9 de idade, prova em que me perguntaram em que dia a América foi descoberta, e em vez do dia 12 coloquei “24 de outubro” – que estava na minha cabeça, talvez, por ser o aniversário do meu pai. E a professora botou “Certo” na minha resposta! 
 
Acho que ela corrigia essas coisas mecanicamente, de noite, depois de tirar a mesa do jantar... Enfim. O analfabetismo não sacrifica apenas os analfabetos, mas desgasta os alfabetizadores. 
 
Mas nas três respostas que coloquei acima, eu percebo um paralelismo. Posso estar “viajando”, mas tenho a sensação de que essas pessoas, quando pensam nas palavras, não pensam em palavras escritas letra-a-letra, pensam em palavras faladas sílaba-a-sílaba.  
 
Esta diferença é uma das distinções essenciais entre a linguagem escrita e a linguagem falada. Talvez seja o hábito de escrever e recitar versos metrificados, mas quando estou falando eu sinto que estou pronunciando sílabas inteiras, nem me lembro que são (em geral) uma combinação de vogais e consoantes. Nem me lembro de como se escreve aquilo. Só lembro na hora de digitar no teclado ou de rabiscar com a caneta.  
 
O homem que diz: “L de elefante” está dizendo algo que corresponde à experiência dele com essa palavra, que pelo visto é apenas uma experiência de ouvir e de dizer. (Pouco importa se ele assina o nome ou não, se é capaz de ler uma placa ou não; o domínio da língua é sempre gradual e se expande aos poucos. E nunca termina.) 
 
Essa palavra é feita de três pequenas explosões sonoras: ele – fan – te. (Note-se que a primeira pequena explosão envolve duas sílabas, e/le, mas na cabeça desse cidadão elas parecem, plausivelmente, estar coladas e serem uma coisa só: ele
 
As letras servem para explicar, num código visual, como deve ser a explosãozinha de cada sílaba. A outra sílaba é FAN? Então temos o “F” para explicar que é preciso tocar o lábio inferior com os incisivos superiores, o “A” para indicar qual é o som básico que a garganta deve modular, e o “N” para indicar que esse som deve ser nasalizado. Três coisas para descrever uma. 

Por este mesmo raciocínio, entendo a pessoa que disse: “C de Sebastião”. E apois?!  Sebastião não começa com “sê”? E “ervilha” não começa com “err”? 




Durante muitos anos li aqui e acolá referências à personagem surrealista “Rrose Sélavy”, criada por Marcel Duchamp e glosada por Robert Desnos. Esse “R” duplo no começo do nome sempre me embatucou, mas debitei na mesma conta que já corria em nome de Sir Andrew Ffoulkes, um dos heróis do romance Pimpinela Escarlate. Excentricidades européias!
 
Só algum tempo depois li uma interpretação que me clareou tudo. O “R” duplo tinha a função de carregar ainda mais a pronúncia, porque o sentido do trocadilho é dizer: “Éros c’est la vie”. Eros é a vida. 
 
Os surrealistas tinham, entre outras qualidades, um senso de humor cortante, e um gozo inesgotável em saborear palavras. Desnos, em Corps et Biens (1930), enumera variações trocadilhescas em torno dessa personagem erótica e viva. E diz a certa altura: “Rrose Sélavy connaît bien le marchand du sel”. Rrose Sélavy conhece bem o vendedor de sal ? Pode ser, mas é desse modo que ele mascara o nome “Marcel Duchamp”. 
 
Uma brincadeira que pode parecer, aos de-fora da Tribo Trocadilhesca, uma perda de tempo, ou um esnobismo intelectualóide. Não é. É o prazer de brincar com as palavras, o mesmo que faz o cantor Xangai gracejar com o nome dos amigos, e em suas conversas referir-se de vez em quando a “Ivanova Vilanildo” ou “Virias Fatal”. 
 
Voltando à ponta da meada: as palavras faladas não são feitas de letras, elas são feitas de sons. Passamos dezenas de milhares de anos usando as palavras como simples sons feitos com a boca e escutados com a zurêia. A escrita só surgiu muito depois – e é limitada, incompleta, depende muito da interpretação do leitor (o que pode ser uma vantagem, às vezes).
 
E a escrita não é uma transcrição da linguagem falada. (Esta seria a “escrita fonética”). É outro conjunto de convenções, que corre em paralelo; procura servir de mapa para a fala, que é o território. Ouvindo meus rockzinhos na adolescência eu ficava besta em ver como os ingleses rimavam “girl” com “world” ou com “pearls”, e mais: como essas grafias nada tinham a ver com o som gutural que essas palavras têm na vida real – na fala.
 
Bob Dylan:
https://www.youtube.com/watch?v=jJ4QrBFVIBM
 
Uma coisa que acho legal no linguajar pop-escrito de hoje em dia, em inglês, é o modo como o pessoal usa números e letras maiúsculas para substituir sílabas.
 
“Nothing Compares 2 U” = Nothing compares to you
“4ever” = forever
“2NE1” = “to anyone”
“INXS” = “in excess”
 
…e por aí vai. O que pode ser visto como a linguagem falada invadindo domínios da linguagem escrita, forçando a existência de novas grafias. Tal como acontece em nossas comunicações online, onde usamos “kd vc”, “tb”, “rs rs rs”, “kkkkkkk”, “pqp”, etc.
 
Isso é escrever certo? É escrever errado? A Gramática condena ou autoriza esse tipo de escrita? Eu acho que não cabe à Gramática condenar nem autorizar: cabe a ela examinar, entender como funciona, descrever seu funcionamento e registrar: “É fato. Está acontecendo.”
 






sábado, 3 de fevereiro de 2024

5028) Christopher Priest, 1943-2024 (3.2.2024)



 
Faleceu neste 2 de fevereiro, aos 80 anos, um dos escritores mais inquietantes da ficção científica e do fantástico na Inglaterra. 
 
Christopher Priest é um autor capaz de desconcertar o público com a mesma eficiência de um David Lynch – são histórias contadas com um profundo senso de realismo, descrevendo ambientes reconhecíveis, pessoas “reais” vivendo situações e emoções “reais”, numa narrativa clássica, que nos conduz com a fluidez de uma novela-das-oito... 
 
E de repente acontece alguma coisa que faz em estilhaços toda aquela realidade aparente e, como nos melhores livros de Philip K. Dick, percebemos que existe uma realidade mais vasta, mais complexa, e geralmente mais ameaçadora por trás daquilo tudo. 


 
Seu livro mais conhecido é talvez The Prestige (1995), porque serviu de base ao ótimo filme de Christopher Nolan, O Grande Truque (2006). Até onde pude investigar, sua literatura continua inédita no Brasil.   
 
Ele não deve ser confundido com seu homônimo norte-americano, roteirista de numerosas séries de quadrinhos (Terminator, Liga da Justiça, etc.), principalmente para a DC Comics. Por outro lado, o Christopher Priest britânico escreveu roteiros para a série Dr. Who e novelizações de filmes, entre eles o eXistenZ (1999) de David Cronenberg. 
 
Um tema recorrente na obra dele é o das realidades mentais paralelas e a possibilidade de cruzar de uma para outras. Em várias histórias (não todas, claro) seus personagens vivem numa espécie de “realidade Escher”, onde tudo é perfeitamente lógico e normal dentro de certos limites, mas, dando-se um passo a mais, a gente está num universo contíguo, onde tudo (o país, a cidade, as pessoas em volta) não são exatamente os mesmos que eram um instante atrás. 


 
Isto é muito visível no romance The Glamour (1985). O título se refere à capacidade que algumas pessoas têm se se tornarem invisíveis, podendo entrar e sair fisicamente de um ambiente sem serem percebidas. Não é uma invisibilidade tecnicamente produzida por meio da física, da óptica, como na FC tradicional (H. G. Wells, etc.).  É uma invisibilidade induzida psicologicamente, como uma espécie de hipnotismo. 
 
Diz uma personagem:
 
Eu dividia um apartamento com duas outras garotas da faculdade. Embora eu me tornasse plenamente visível a elas quando necessário, durante a maior parte daqueles três anos elas simplesmente supunham que eu estava ali por perto, trancada em meu quarto, ausente. Foi a primeira mudança que precisei aceitar, porque através delas aprendi que uma pessoa invisível é simplesmente ignorada, presume-se que ela esteja ali, mas não de modo funcional. Elas me percebiam quando eu precisava, e no restante do tempo agiam como se eu não estivesse ali. (The Glamour, V, III, trad. BT) 
 
Alguém já sugeriu galhofeiramente a criação de um subgênero da ficção científica e do fantástico, as “Histórias do Que-que-tá-contecendo”. São um gênero fascinante porque são uma espécie de caminhada na corda-bamba: um pequeno deslize ou forçação de barra por parte do autor, e o leitor, desorientado, incomodado, acaba fechando o livro e pensando: “Eu não tou entendendo nada, vou é ler outra coisa.” 
 
Isso se dá com os leitores que exigem – e é um direito seu – um lógica constante, uma coerência sólida, na história que está sendo contada; o leitor (principalmente) que gosta de ver num livro uma reprodução do mundo real. E existe o leitor que tem curiosidade por essas quebras-de-realidade, pelo mistério nunca totalmente explicado, pela impossibilidade permanente de fechar-a-conta na explicação de uma narrativa. 
 
The Glamour aborda temas permanentes na obra de Priest: a sugestão mental, a amnésia, as versões conflitantes de um mesmo fato... A invisibilidade, que numa narrativa comum seria fonte inesgotável de aventuras, serve aqui a uma narrativa mais complexa, revelando um mundo organizado de uma maneira que nós, os “caretas”, não suspeitamos. 
 
Foi Nial quem me mostrou como entrar nos bancos, roubar os correios, mas nunca precisávamos do dinheiro. O furto num banco era sempre um desafio, algo feito por diversão, entrando na área dos funcionários à vista de todos, pegando um punhado de notas da gaveta do caixa, misturando-as nas mãos diante dos olhos deles. Às vezes levávamos algumas moedas, uma ou duas notas, só para provar que era possível. Nunca estávamos em silêncio durante esses roubos, conversávamos o tempo todo, às vezes rindo alto ou cantarolando pelo puro prazer de sabermos que ninguém nos via, ninguém nos escutava. (V, V)
 
Os personagens vão penetrando aos poucos nesse submundo dos invisíveis, onde existe todo um jargão técnico para explicar o fenômeno: 
 
O segundo fator de unificação era a nuvem. (...) Cada indivíduo invisível é cercado por uma aura, uma certa densidade de presença, que pode ser detectada por outras pessoas. (...) Os invisíveis pegaram esse vocabulário e o incorporaram ao seu jargão. Todos sabem a respeito da nuvem, e a chamam assim. As pessoas comuns são as carnosas, o mundo real eles chamam de duro. Chamam a si mesmos os glams. Isso faz parte de sua paranóia, defensiva mas gabola: achar que são glamurosos. (V, III)
 
Isso é ficção científica? Eu acho que sim, porque conheço poucos temas mais científicos do que o estudo da mente humana, da percepção humana, do modo como os seres humanos organizam suas percepções sensoriais e as codificam no cérebro de maneira a organizar seu comportamento individual e coletivo.




The Prestige (filmado como O Grande Truque, com Christian Bale e Hugh Jackman) é a história de dois mágicos-de-salão na Inglaterra vitoriana, super bem sucedidos e mortalmente rivais. Priest usa os truques de mágica como um modo de ver as fronteiras da ciência – em que momento um truque deixa de ser truque e se torna uma violação das leis da física. O mago Rupert Angier assim comenta em seu diário:
 
Um mágico, normalmente, revela um efeito que é “impossível”: um piano parece sumir no ar, uma bola de bilhar magicamente se reproduz, uma mulher passa através de um espelho. A platéia, é claro, sabe que o impossível não se tornou possível. (Parte IV, 4-2-1901, trad. BT)
 
O que acontece, então? É o mago Alfred Borden quem explica:
 
Eu aprendi a arte do desvio da atenção, na qual o mágico se vale da experiência cotidiana do espectador para iludir os seus sentidos – a gaiola de metal que parece rígida demais para ser dobrada, a bola que parece grande demais para ficar escondida na manga, a espada cuja lâmina de aço temperado jamais poderia, não é mesmo? jamais poderia se envergar. (I, 3)
 
O livro é uma batalha fascinante entre Angier e Borden, ídolos do público de Londres, batalha de trucagens e talentos que chega ao clímax com um número espetacular onde cada um deles descobre uma maneira de sumir numa extremidade do palco e reaparecer, instantaneamente, na extremidade oposta. O fato de que um deles acaba viajando aos EUA e recorrendo a Nikolas Tesla arrasta a narrativa numa direção inequivocamente de ficção científica.
 
Priest usa a magia, neste livro, quase como um substituto da literatura ou do cinema: um modo de tornar possível o impossível, de tornar presente algo que não existe, de fazer o público ver e ouvir uma coisa que não está lá. Sua visão da profissão de mágico não é muito distante de uma visão do autor de ficção científica: 
 
Um mágico que seja inventivo abraça com entusiasmo qualquer inovação. Qualquer engenhoca, qualquer brinquedo, qualquer invenção que aparece no mundo deve lhe produzir esta reação: “Como posso usar isso para inventar um truque novo?”. (...) E se uma nova mágica original chega a ser produzida, é somente uma questão de tempo até que esse efeito seja reproduzido por outros. (II, VII)
 
Mágica de salão, ciência, literatura, cinema, tudo são ângulos diferentes por onde enxergar uma dualidade fundamental: o Real, que nunca conheceremos, porque nossos sentidos e nosso intelecto e nossos instrumentos são limitados; e as Aparências do Real, que criamos mediante estes sentidos, intelecto e instrumentos.
 
É uma pena saber que Christopher Priest morre sem que nenhum de seus livros tenha sido publicado no Brasil. (Se conhecerem algum, agradeço a correção.) Sua literatura não é fácil – na verdade, quando terminamos de ler um livro dele temos a sensação de que somente agora estamos prontos para lê-lo de verdade. E é uma leitura que sempre vale a pena.
 
Aqui, o website do autor:
https://christopher-priest.co.uk/
 
E aqui, o verbete a seu respeito na “SF Encyclopedia”:
https://sf-encyclopedia.com/entry/priest_christopher




 
 
 




terça-feira, 30 de janeiro de 2024

5027) O Sol por Testemunha (30.1.2024)



 
Há filmes que eram muito famosos no tempo em que eu era cineclubista, em Campina Grande, mas tinha menos de 18 anos e não conseguia vê-los. Claro que de vez em quando dava um drible-de-corpo nos fiscais do Juizado de Menores, e foi assim que vi minha inesquecível Viridiana. Outras vezes, era vergonhosamente interpelado e mandado de volta para a Praça da Bandeira, onde ficava esperando a sessão terminar e os colegas mais velhos (ou mais sortudos) saírem pra contar o filme. 
 
Compus uma lista, com o título “Fichas Que Não Caíram”, e olhe, passou-se meio século e tem vários que ainda não assisti. 
 
Uma dessas fichas caiu agora, porque acabei vendo O Sol Por Testemunha (“Plein Soleil”, 1960), de René Clément. É de um romance de Patricia Highsmith, filmado mais de uma vez, a mais recente com Matt Damon e Jude Law nos papéis principais. São dois rapazes norte-americanos passeando pela Europa.  Jovens, bonitões, da mesma idade, do mesmo tipo físico, amigões de farras e de estrepolias – só que um é milionário, e o outro é pobre. 



(Maurice Ronet e Alain Delon)


A certa altura, o pobre mata o milionário, durante um passeio de barco, e passa a usar as roupas dele, ocupar os apartamentos dele, assinar os cheques dele, num jogo interessante de dupla identidade, porque a toda hora ele está cruzando com pessoas que conheciam os dois, e troca de identidade num piscar de olhos, conforme a necessidade do momento. 
 
Esse pobretão é Tom Ripley, que depois voltaria a ser protagonista de outras histórias de Patricia Highsmith. É um assassino frio e charmoso, um cara “com papo de derrubar avião”, pragmático, ligadíssimo, sedutor, e totalmente sem escrúpulos. 
 
Foi este papel que projetou Alain Delon como ator, porque ele parece ser exatamente isso que Tom Ripley é. Luchino Visconti, que nesse mesmo ano o colocou como personagem central em Rocco e Seus Irmãos (1960), dizia: “Esse rapaz é bonito demais para ser honesto”. E prova do talento de Delon é que seu personagem Rocco é ingênuo, bom filho, bom irmão, rapaz-de-bem, e chega a ser irritantemente altruísta. 
 
O maior spoiler com relação a O Sol Por Testemunha é a piada antiquíssima a respeito do título que o filme teria recebido em Portugal: O Cadáver Estava Embaixo do Barco. 



 
Em todo caso, um dos aspectos fascinantes do filme é o modo como ele faz o paralelismo entre dois caras que são praticamente a mesma pessoa, só que um tem muito dinheiro, e o outro não tem nenhum. O rapaz rico é Philippe Greenleaf (Maurice Ronet), e é um desses rapazes que nasceram nadando num mar de dinheiro, e cuja vida adulta é uma diversão permanente, porque o dinheiro abre todas as portas e fecha todas as bocas. 
 
Tom Ripley é aquele personagem tão conhecido aqui no Brasil: o rico que nasceu, por azar, no corpo de um pobre. É aquele cara que tem gosto e apetite para as boas coisas da vida (bons hotéis, boas mesas, bons vinhos, boas camas) mas não tem um centavo. Tanto não tem que o pai de Philippe lhe oferece 5 mil dólares para ir buscar o filho na Europa e trazê-lo de volta aos Estados Unidos, para assumir nos negócios da família. 


 
A dinâmica entre os dois personagens me lembrou muito outro filme que vi há pouco tempo: Aquele Que Sabe Viver (1962, de Dino Risi), com Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintignant, nos papéis do rico e do pobre, respectivamente. Neste caso, são dois rapazes que se conhecem por acaso e o rico (que vive numa atividade febril de festas, passeios, jantares, namoros, etc.) convida o pobre para curtir a vida durante um fim de semana. 
 
É um desses enganosos “filmes onde nada acontece” e onde coisas acontecem o tempo todo. Não há uma trama, não há isto que hoje chamam um “arco narrativo”. É uma espécie de road-movie, dois rapazes num carro esporte vagando pelas rodovias – indo visitar um amigo, uma turma, curtir uma festa, curtir uma praia. Um roteiro que hoje seria reprovado porque “falta conflito”, “falta jornada do herói”, “falta a pinça narrativa do segundo ato” ou coisa parecida. 
 
É interessante ver O Sol Por Testemunha e Aquele Que Sabe Viver lado a lado, pelas semelhanças e diferenças entre as duas duplas de amigos. Em Il Sorpasso, não existe o mesmo equilíbrio de personalidades em confronto. Bruno (Vittorio Gassman) não só é rico como é calejado, arguto, tem malícia. Roberto (Jean-Louis Trintignant) é tímido, livresco, ingênuo, e desde o primeiro momento deixa-se fascinar pelo outro, por sua esperteza, por sua alegria fácil, sua disposição para curtir a boa vida. 



(Jean-Louis Trintignant e Vittorio Gassman) 

 
O filme de Dino Risi tem o título italiano de Il Sorpasso, e o título é uma das melhores coisas do filme. “A Ultrapassagem”: algo que o personagem de Vittorio Gassman faz o tempo todo com seu carrinho sem capota, acelerando ao máximo, fazendo manobras arriscadas, colando no parachoque traseiro dos outros carros, infernizando seu juízo. “Quem está aqui sou EU!... Deixem-me passar!...” 



 
Hoje em dia, no submundo das celebridades eletrônicas, vemos uma versão radical disso. Pessoas que abrem caminho a poder de dinheiro e de desespero desejante. É o pessoal que “não pode perder” a festa que vai ter no dia 10 na Bahia, nem o jantar que vai ter no dia 12 em Paris, nem o aniversário de um amigão no dia 14 em Roma, e depois o show que vai fazer dia 17 no Rio, seguido pela gravação do clip dia 18 em Manaus. E depois tem o II Fyre Festival, numa ilha do Caribe... E por aí vai. 
 
Os que são artistas precisam enfiar suas datas de trabalho no meio dessa programação social intensa. Há outros que nem artistas são – apenas têm dinheiro, e sentem a angústia de saber que quando morrerem, mesmo aos 100 anos de idade, ainda deixarão algum dinheiro que não conseguiram gastar. 
 
Como o nosso “pleiba” mais emblemático, o autor-narrador das Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), que gasta dinheiro, gasta mocidade, namora, desnamora, borboleteia de projeto inacabado em projeto inacabado, e morre sozinho, certamente ainda com algum dinheiro que não gastou. Também Brás Cubas sentia em si o fogo ambicioso da juventude, como lembra de si mesmo no pós-morte: 
 
Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o corcel das antigas baladas. (Cap. XIV) 
 
Também Brás Cubas nasceu tendo à mão a varinha mágica do dinheiro de família, aparentemente inesgotável, como as bolsas de moedas das Mil e Uma Noites: 
 
Era meu o universo; mas, ai triste! Não o era de graça. Foi-me preciso coligir dinheiro, multiplicá-lo, inventá-lo. Primeiro explorei as larguezas de meu pai; ele dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem repreensão, sem demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz e que ele o fora também. Mas a tal extremo chegou o abuso, que ele restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Então recorri a minha mãe, e induzi-a a desviar alguma cousa, que me dava às escondidas. Era pouco; lancei mão de um recurso último: entrei a sacar sobre a herança de meu pai, a assinar obrigações, que devia resgatar um dia com usura. (Cap. XV) 
 
A ultrapassagem é a imagem típica desse tipo de rapaz que sempre consegue o que quer, e acha que basta querer uma coisa para ter direito a ela. Seu movimento instintivo é mesmo o de ultrapassar, de não deixar que os retardatários-sem-chance atrapalhem sua disparada rumo à vitória. Ele quer chegar primeiro, ou no mínimo chegar logo. É aquele sujeito que “não aceita um não como resposta”, que fura filas, que distribui “agrados” (gorjetas, propinas). Ele acha que o mundo lhe deve tudo que ele resolveu desejar. 




É curioso que este sentimento não seja exclusivo dos ricos. O Cobrador, de Rubem Fonseca, é o pé-rapado que, de arma em punho, resolve tomar na-marra tudo a que tem direito. Tudo que a “sociedade de consumo” lhe oferece via propaganda, e lhe nega via exclusão de classe. 
 
Esse impulso de velocidade, de impaciência social, faz desses jovens tanto as futuras lideranças, quando têm pedigree (têm “berço”), quanto os futuros exércitos de profissionais obcecados, quando (como Tom Ripley) são classe média e percebem diante de si um longo caminho a percorrer. 
 
Esse jogo febril de jovens se ultrapassando uns aos outros está presente também num dos meus contos preferidos de James Joyce, “After the Race” (Dublinenses, 1914), sobre uma turma de quatro ou cinco rapazes (uns de família muito rica, outros nem tanto) divertindo-se ao longo de um dia e uma noite, por ocasião de uma corrida de automóveis. Diz Joyce: “O movimento veloz pelo espaço produz uma sensação de euforia. O mesmo se dá com a celebridade; o mesmo se dá com a posse de muito dinheiro”. 
 
Nas últimas cenas de O Sol Por Testemunha, Tom Ripley está na praia, curtindo a fortuna recém-conquistada, e curtindo o suspense de se saber a um fio de linha do desmascaramento. A mulher do restaurante praieiro se aproxima, pergunta se quer uma comida, uma bebida... E ele, olhos semicerrados diante do sol: 
 
-- Me sirva o melhor. O melhor. 










sábado, 27 de janeiro de 2024

5026) O etarismo e as profissões (27.1.2024)



O técnico alemão Jürgen Klopp anunciou na sexta-feira, 26 de janeiro, que no fim desta temporada irá deixar o Liverpool, onde vem trabalhando há 9 anos. 

Este período foi inesquecível para quem acompanha o bom futebol, porque ele pegou o time dos “Reds” lá embaixo, deu-lhe uma injeção de ânimo e de tática, e ganhou sete títulos em nove anos, entre eles a Champions League, o campeonato inglês (que o time não ganhava há 30 anos)... e, por último mas não abaixo, derrotou o Flamengo na decisão do Mundial de Clubes da Fifa. 

Adorado pela torcida, apoiado pelos jogadores, respeitado pela diretoria, admirado pelos adversários, por que motivo Klopp, um rapaz de apenas 56 anos, iria desistir? 

Ele disse:

https://www.espn.com.br/futebol/liverpool/artigo/_/id/13149049/klopp-nao-descarta-aposentar-vez-revela-qual-pais-nunca-ira-trabalhar-deixar-liverpool-nem-estiver-morrendo-fome

"O coelho percebe que ele não é mais jovem quando nota que não consegue mais pular tão alto quanto pulava antes... (A decisão de sair) Não é algo proposital, simplesmente aconteceu. Esse clube e esse time precisam de um técnico top, do mesmo nível de todos eles. E, quando eu acho que não sou mais capaz disso, tenho que me posicionar. Por isso comuniquei a decisão ao clube e a todos aqui. Acho que é a coisa certa a fazer", iniciou. 

 

"Eu estou trabalhando no futebol há 24 anos, e, quando você tem uma carreira como a que eu tive, tem que investir tudo isso. Agora me dei conta que meus recursos não são infinitos. Por isso, prefiro gastar o resto do que eu tenho nesta temporada. Não sou mais jovem como antes... Não consigo mais pular como eu pulava...", metaforizou. 

 

A decisão de abandonar um trabalho “por não se sentir à altura das exigências” é uma coisa que acontece a qualquer profissional. Principalmente os que lidam com o corpo: atletas, dançarinos e dançarinas, artistas de circo, atores e atrizes... Pessoas cuja performance física tem que estar sempre “batendo no teto”. 

O corpo é, em última análise, um recurso não-renovável. Vai até um certo ponto, apenas. No futebol, estamos acostumados a ver atletas que largam as chuteiras com 30-e-poucos anos, mas também outros que vão até 40+ anos jogando com eficiência. Não há dois corpos iguais. 




“Mas, um técnico?...  Técnico não corre!”.

Entra aí um outro aspecto, que é o desgaste físico e mental do técnico. Ele não serve apenas para falar diante de um quadro-negro. 



(Pep Guardiola e Jürgen Klopp)


Chamam o estilo de Klopp “Heavy Metal”, porque defende um envolvimento físico e mental extremo, ao contrário do futebol cerebral de Pep Guardiola. Comentando o estilo deste quando estava à frente do Barcelona, Klopp declarou:

Não é meu tipo de jogo. Não gosto de ganhar com 80% de posse de bola. Não é o bastante para mim. Meu jogo é futebol de luta, e não futebol de serenidade. Na Alemanha chamamos esse estilo de “Inglês”: dia de chuva, campo enlameado, placar de 5x5, todo mundo sai com a cara coberta de lama, vai para casa e fica semanas sem conseguir jogar de novo. (Wikiquotes, trad. BT)

Eu comparo a função de um técnico de futebol em alto nível à função de um diretor de cinema em alto nível. É desgastante, ocupa 24 por dia a cabeça de um indivíduo, porque ele tem que resolver problemas abstratos de certa complexidade e ao mesmo tempo motivar equipes de dezenas de pessoas. 

O técnico tem que conversar, discutir, brigar, fiscalizar, confraternizar, negociar, argumentar... mas não apenas com os jogadores. Ele tem que fazer o mesmo com funcionários, preparadores físicos, médicos, administradores, diretores de futebol do clube. Assim como um diretor de cinema precisa conversar com motoristas, eletricistas, donos de laboratório, financiadores, gente da rua que vem peruar as filmagens... 



Por mais que haja uma equipe para ajudá-lo, o diretor de cinema precisa se envolver com tudo. A menos que trabalhe num daqueles esquemas onde o diretor é uma prima-dona que fica no ar condicionado esperando um assistente vir avisar: “Senhor, o set está pronto, pode vir.” 

Técnicos recentes que passaram pelo Flamengo (o clube que eu acompanho mais de perto) fracassaram, não porque lhes faltasse inteligência e conhecimento de futebol, mas porque não conseguiram criar um relacionamento produtivo com todos esses níveis de diferentes profissionais. Foi o caso de Paulo Sousa, Vitor Pereira e Jorge Sampaoli.

Disse Klopp, na entrevista em que anunciou sua decisão:

"Eu sou quem eu sou e estou aonde estou pela maneira que sempre fui. Se eu não consigo mais fazer as coisas como antes, preciso parar. Essa não era minha ideia quando renovei o contrato (até 2026). Eu estava 100% convencido de que conseguiria levar até 2026. Só que eu achei que meus níveis de energia eram infinitos. Eles sempre foram. Mas agora não são mais...", lamentou. 

 "Eu nunca consegui viver uma vida normal. Essa é a verdade. Antes, ter três ou quatro semanas de férias estava OK, mas não dá mais. Não vou comandar qualquer clube nem qualquer seleção no próximo ano. E nunca mais vou comandar outro time na Inglaterra, isso eu posso prometer. Mesmo que eu esteja morrendo de fome, isso não irá acontecer", garantiu. 

 Para mim uma das frases-chave é “se não consigo mais fazer as coisas como antes, preciso parar”. É nesse ponto que eu (que vinha concordando com tudo que ele dizia) preciso parar para pensar. 

Porque o Grande Artista (vamos considerar, por hipótese-de-trabalho, que a um técnico de futebol aplicam-se muitos critérios de criatividade e alta-performance que são aplicáveis aos artistas) muitas vezes deixa-se levar pelo conceito (que é típico do esporte) de ser sempre o primeiro, sempre o melhor. 



Um escritor, um músico ou um diretor de cinema não têm a obrigação de fazer, a cada trabalho, uma obra superior à que veio antes. O gráfico de uma carreira artística é sempre uma série de subidas e descidas, não é uma linha de crescimento ininterrupto. A “linha de crescimento ininterrupto” é um delírio do Capitalismo e das seitas que o reverenciam. 

Sabia muito bem disso Gabriel Garcia Márquez quando, depois de seu sucesso de vendagem mais estrondoso (Cem Anos de Solidão) publicou seu livro mais difícil, O Outono do Patriarca, como se dissesse: “Eu não quero competir com meu sucesso anterior. É proposital.” 

Por sorte o Prêmio Nobel de Literatura só pode ser atribuído uma vez a cada pessoa, porque se não fosse assim algumas figuras estariam até agora “mexendo os pauzinhos” para ganhar o seu segundo e “tornar-se o maior de todos”. 

Mas o futebol não é arte – é esporte. É competição, é concorrência, e nesse sentido está muito mais imbuído desse espírito, que é sempre o de fazer trinta e dois jumentos disputarem uma única cenoura.  

Pelos talentos que tem, e pela sua personalidade simpática, Klopp poderia ficar muitos anos no Liverpool. Podia até bater o recorde de Sir Alex Ferguson, aquele velhote corado, mascador de chicletes, que passou 27 anos como técnico do Manchester United, e só se aposentou com mais de 70.   



 

(Sir Alex Ferguson)


Quando um indivíduo no seu auge físico e mental – é assim que eu vejo a idade por volta dos 56 anos – diz que não consegue mais produzir no nível a que estava acostumado, e no nível que se espera dele, dá para considerar que seu trabalho é uma atividade predatória, que transforma uma pessoa talentosa num bagaço-de-cana, muito antes do que se podia imaginar. 

Dias atrás eu estava vendo Ginger e Fred, de Federico Fellini, onde uma dupla de dançarinos idosos (Giulieta Masina e Marcello Mastroianni) emerge da aposentadoria para se apresentar num programa de TV com perfil nostálgico. Não dançam mais como antes. Não têm mais a mesma energia. Não têm mais a mesma beleza, o mesmo charme. Não querem competir com ninguém, não querem ganhar troféus, querem apenas dançar de novo, livres do pesadelo do sucesso, só pelo prazer de estar dançando. 

Como diria Philip K. Dick:

Qualquer criatura incapaz de perceber a diferença entre um ser humano e uma máquina é uma máquina, mesmo que seja um ser humano.



(Klopp e sua esposa, a escritora Ulla Sandrock)

  








quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

5025) Minha Lapa boêmia (24.1.2024)

 

 
A música popular tem o poder de eternizar o que não existe mais, e de tornar famoso um completo desconhecido. 
 
Anos atrás escrevi um artigo aqui no blog comentando a passagem das décadas e dos séculos, fazendo com que sejam esquecidos nomes que hoje são óbvios, e fazendo com que as celebridades de agora venham a se tornar mistérios inexplicáveis para os leitores de daqui a um século. 
 
Naquele artigo eu comentava uma cena bonita que assisti ao vivo no carnaval do Recife, em 2009, no palco do Marco Zero. No show de Antonio Nóbrega, para dezenas de milhares de pessoas espremidas na praça, ele chamou ao palco Ariano Suassuna e Caetano Veloso, que estavam assistindo da lateral. E os três cantaram juntos o frevo Evocação no 1, de Nelson Ferreira: 
 
Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon,
cadê teus blocos famosos?
Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apois Fum,
dos carnavais saudosos...

 



(maestro N
elson Ferreira)
 
Foi uma cena bonita de um pernambucano, um paraibano e um baiano rendendo homenagem ao carnaval antigo de Pernambuco. E relembrando esses nomes outrora famosos, nomes de gente, nomes de blocos... Eu canto esse frevo desde pequeno e confesso, humildemente, que não sei NADA sobre Felinto, sobre Pedro Salgado, sobre Guilherme ou Fenelon. Sei apenas que citar esses nomes, no Recife velho de guerra, seria mais ou menos como aqui no Rio de Janeiro a gente enumerar Donga, João da Baiana, Marçal e Heitor dos Prazeres. 
 
A gente que mexe com letra de música, seja cantando, seja escrevendo, seja comentando, se vê de vez em quando na posição incômoda de ter que explicar o que não entende. 
 
Porque a música brasileira é cheia de retalhos de outro mundo, de uma realidade que era óbvia e presente para o compositor que escrevia. Hoje, meio século depois, ou até menos do que isto, esses retalhos se transformaram em hieróglifos – nítidos, inequívocos, mas inexplicáveis. 
 
Naquele texto sobre o Carnaval do Recife, comentei também que para um brasileiro de 2009 os nomes de Ariano e de Caetano eram familiares; o de Nóbrega talvez um pouco menos, mas ainda assim eram nomes do momento presente, da cultura presente. Daqui a cem anos, contudo, quem pode imaginar como estará o mundo? Talvez no carnaval de 2109 ainda haja quem seja capaz de explicar aos filhos quem foram esse tal de “Ariano”, esse tal de “Caetano”... 
 
Tudo isto me passou pela lembrança quando fui dias atrás à festa de aniversário da Livraria Folha Seca, de Rodrigo Ferrari, uma das minhas livrarias preferidas no Rio (Rua do Ouvidor, 37). Sábado à tarde, rua estreita engarrafada de gente, todos os bares abertos, roda de samba com piano (coisas do Rio)... 
 
A gente parou ali, naquele forno de 3 horas da tarde. Ficamos tomando uma long-neck gelada, e pisando em paralelepípedos (eu, que não saio mais de casa, estava com saudade de pisar em paralelepípedos). E deitando falação sobre qualquer assunto, porque em multidão aglomerada em torno de samba e livraria, assunto chove do céu feito confete. 



(Igreja de N. S. da Lapa dos Mercadores)
 

E começamos a prestar atenção nas igrejas das imediações. Eu estava num grupo flutuante de cariocas nativos e adotivos, entre eles Marcelo Moutinho, Paulo Roberto Pires e Sérgio Cohn. E foi surgindo um multiálogo mais ou menos assim: 
 
-- Bonita essa igreja, hein? Daqui de fora dá pra ver a nave.
 
-- Sim, é a igreja que levou um tiro de canhão.
 
-- Tiro de canhão?
 
-- Sim, durante a Revolta da Armada.
 
-- Sim, é isso mesmo. Tem até um samba falando nisso.
 
-- Mas é um samba sobre a Lapa. Nós estamos depois da Praça XV.
 
-- Vai ver que eles consideram a Praça XV um prolongamento da Lapa.
 
-- Mas foi isso mesmo. O navio disparou uma bala de canhão, lá da baía, e derrubou a torre da igreja.
 
-- Sem dúvida. O samba diz: Falta uma torre na igreja... Vou lhe contar meu irmão... Foi na briga de Floriano... Foi um tiro de canhão...
 
-- Pois é. A “briga de Floriano” foi a revolta da Armada, no governo de Floriano Peixoto.
 
-- Descrita por Lima Barreto no Policarpo Quaresma.
 
-- Exatamente. Por isso a igreja está faltando uma torre.
 
-- Mas a igreja que falta uma torre não é essa aqui. É a da Lapa, ali perto da Sala Cecília Meireles.
 
-- Mas essa aqui também é “da Lapa”. Olha esse estandarte pendurado: Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores.
 
-- Então é isso. O tiro foi aqui?
 
-- Claro que foi. Venha aqui num dia de semana e você vai ver a bala de canhão, eles guardaram e está exposta aí dentro.
 
-- Então o tiro foi aqui, e quem falta uma torre é a outra, lá na Lapa de verdade?
 
-- Sim, a de lá é Igreja de Nossa Senhora da Lapa do Desterro. Confundem porque é ela que fica no bairro da Lapa.
 
-- E ela só tem uma torre.
 
-- Sim. Sabe padre como é. No Brasil tem um milhão de igrejas com uma torre eternamente incompleta, e assim o padre pode passar vinte anos pedindo doações pra completar a torre.
 
-- É como o médico idoso que tirou férias e deixou a clínica com o filho, também médico. Quando voltou, o filho disse: “Papai, uma boa notícia, curei a artrite do Coronel Fulano”. O pai botou as mãos na cabeça: “Seu idiota, não era para curar, foi essa artrite que pagou seu curso!”.




(Igreja de N. S. da Lapa do Desterro – a igreja de uma torre só ]


E assim, passeando pela História do Brasil e com leves alfinetadas na igreja católica e na classe médica, só para não enferrujar o ferrão, fomos destrinchando esse mistério que me embalava a insônia desde os 10 anos. 
 
Porque quando eu tinha essa idade ouvia no rádio o tal samba, na voz de Nelson Gonçalves, e ficava fantasiando a Lapa carioca como uma mistura de monumento histórico e de bairro boêmio: 
 
Lapa... dos capoeiras...
Miguelzinho Camisa Preta, Meia Noite e Edgar...
Lapa... Minha Lapa boêmia...
A lua só vai pra casa depois do sol raiar.
 
Falta uma torre na igreja, vou lhe contar meu irmão;
foi na briga de Floriano, foi um tiro de canhão...
E nesse dia a Lapa vadia teve sua glória,
deixou o nome na história...
 
Aqui, a canção:


O samba é de Wilson Batista e Jorge de Castro, e tinha para mim essa conotação ao mesmo tempo de museu e de submundo. Eu perguntava a meu pai quem eram esses caras citados, e ele dizia: “Ora, são os capoeiristas lá do Rio... Miguelzinho Camisa Preta é famoso... Eles brigam, eles dão surra na polícia, não tem quem pegue!...” 



(M
iguelzinho Camisa Preta)
 

E um dia o rádio estava ligado e uma empregada lá de casa, Maria de Severina, estava cantando feliz da vida a plenos pulmões.
 
Lapa... dos capoeiras...
Miguelzinho Camisa Preta, Meia Noite
e uma meia de náilon!
 
Eu franzi a testa e fui em cima dela.
 
-- Maria, tu tás doida? Que história é essa de meia de náilon? É Edgar!...
 
-- Oxente, menino, tu não conhece a música não? A música é assim!
 
-- E o que diabo tem meia de náilon a ver com capoeira?
 
-- E camisa preta, tem a ver o que?  Ôxe!  Presta atenção na música! Esse menino parece que é doido.
 
Era um mondegreen dela, da imaginação dela, tão fértil quanto a minha, e a voz de Nelson Gonçalves permitia que eu entendesse ali o que convinha a mim, e ela o que convinha a ela. A meia de náilon eu não sei que fim levou, mas na minha próxima ida à Folha Seca vou lá na igreja, fazer uma visita a essa bala de canhão. 



(A bala de canhão)


Tour em 3-D da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores:
https://my.matterport.com/show/?m=YU7KhgRXxq3