terça-feira, 15 de novembro de 2022
4883) Os esquemas da Fifa (15.11.2022)
sábado, 12 de novembro de 2022
4882) Miniconto também é conto (12.11.2022)
Volta e meia estou retornando, aqui, ao tema do
“Microconto” ou “Miniconto” – o conto curtíssimo. Esse conceito se desdobra em
inúmeras fórmulas relativas a sua extensão, mas no frigir dos ovos todos têm
esse aspecto essencial em comum: são curtíssimos.
(O conceito de “curtíssimo”, é claro, é tão subjetivo
quanto o de “bom”. Cada pessoa traça sua linha-limite onde lhe convém.)
Existem contos de menos de 100 palavras; contos de 100
caracteres; contos de 6 palavras; contos de 6 linhas... Qualquer fórmula nova é
geralmente bem vinda. Note-se que muitos desses textos são produzidos num
regime de desafio – revistas, jornais, websaites etc. lançam a provocação, e os
leitores chovem com suas respostas. É um teste, de fato. Um teste de contenção,
de síntese, de foco.
Não há, portanto, muita necessidade de “definir o que é mini/microconto”,
até porque ninguém tem uma definição científica do que é conto. Digamos, então,
que um conto é uma história curta, e que um mini/microconto é uma história
curtíssima. O resto é como nas Casas José Araújo: “quem manda é o freguês”.
1) Abriu a janela e constatou, em pânico, que o Brasil existia mesmo.2) Pousaram no asteróide, e extraíram minérios valiosos até morrerem de fome.3) Reencontrar você só serve para confirmar minhas suspeitas.
a) Tempo. Inesperadamente, inventei uma máquina do
(Alan Moore)
b) Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, se suicida.
(Anton Tchecov)
c) A mulher que amei se transformou em fantasma. Eu sou o lugar das aparições.
(Juan José Arreola)
d) Pegou o chapéu, embrulhou o sol, então nunca mais amanheceu.
(Menalton Braff)
Existe narração aí. Um gesto corriqueiro que redunda num fato fantástico, descomunal, contado com a singeleza de um Ray Bradbury ou Mario Quintava. (Ou então, dado o caráter fortemente visual deste exemplo, como um quadro de Marc Chagall ou um cartum de Juarez Machado.)
e) Eu ainda faço café para dois.
(Zak Nelson)
Marcadores:
Alan Moore,
Anton Tchecov,
Carlos Willian Leite,
Clarice Lispector,
Juan José Arreola,
literatura,
Menalton Braff,
minimalismo,
narrativa,
Zak Nelson
quarta-feira, 9 de novembro de 2022
4881) Gal Costa, 1945-2022 (9.11.2022)
Na falta de um marco melhor, tenho que carimbar aqui o
clássico álbum Tropicália, ou Panis et
Circensis, o disco-manifesto do movimento tropicalista, uma porrada
conceitual a começar pela capa (o grupo inteiro, fantasiado) e a contracapa (um
pseudo-roteiro de cinema com cenas meio surrealistas). Gal era a moça de
vestido estampado, cabelo ainda um tanto curto, sentada bem comportadinha.
Menos comportadinhas eram as músicas que ela cantava no
disco.
“Baby” era aquele hino godardiano do encantamento pela
sociedade de consumo, não pelo consumo, mas pela novidade, pelo abrir de portas
para o lado mercador do Moderno. A fatalidade inelutável de ser jovem e de herdar
todo um mundo.
“Mamãe Coragem” era a resposta brasileira ao “She’s
Leaving Home” dos Beatles, o hino dos drop-outs, dos que fogem de casa, dos que
decolam de mochila às costas rumo ao lado esmagador da modernidade. A cidade
grande.
A canção está ali? Sim, de certa forma. Ali estão as
instruções para que a canção seja recriada mediante vozes e instrumentos. O que
está no papel são as coordenadas genéticas, por assim dizer; o DNA daquela
canção. Mas ela só existe quando está sendo cantada.
domingo, 6 de novembro de 2022
4880) O homem que assustava mulheres (6.11.2022)
Agatha Christie foi meu primeiro amor, na adolescência,
mas acho que acabei casando com Ruth Rendell, uma paixão mais madura. Explico:
são duas grandes damas da literatura policial, e nada seria mais injusto do que
tentar estabelecer uma hierarquia de qualidade ou de valor entre elas. São
intocáveis, cada uma em seu plano de realidade.
Sobre Dame Agatha
não preciso falar muito, mas Ms. Rendell é menos conhecida, embora uma boa
quantidade de livros seus já tenha sido traduzida no Brasil, principalmente os
seus romances detetivescos tendo como protagonista o Inspetor Wexford. É como
contista, no entanto, que eu a prefiro, e a toda hora estou lendo e relendo
suas histórias densas, precisas, onde ela comprime um crime mórbido, ou uma
complexa investigação criminal, em uma dúzia de páginas numa prosa límpida,
controlada, rica de nuances.
São contos de crime, contos de investigação detetivesca,
contos de clima aterrorizante mas não-sobrenatural, contos de ódio reprimido,
contos de vingança, contos de ambição mortal.
Cada história tira da cartola uma situação inusitada. Uma
dona de casa descobre que seu jovem vizinho gosta de se vestir de mulher quando
está sozinho em casa (“The New Girl Friend”). Um homem aceita um convite para
jantar na casa (distante) de um ex-empregado a quem despediu, e o que deveria
ser um jantar de reconciliação começa a ganhar contornos ameaçadores (“A Bad
Heart”). Uma mulher deixa o carrinho com o bebê no jardim enquanto vai buscar
algo dentro de casa, e na volta o bebê desapareceu. Ou melhor: foi trocado por
um bebê desconhecido. Por quê?! (“Ginger
and the Kingsmarkham Chalk Circle”).
Casais em crise (namorados impulsivos, ou cônjuges
ressentidos) aparecem volta e meia em suas histórias, configurando aquela
tragédia grega e inevitável dos tempos modernos – onde o leitor adivinha o
desfecho, só não sabe quem será o executante e quem a vítima.
Um dos aspectos que me agradam nos contos de Ruth Rendell
é que ela tem uma percepção quase telepática de como funciona a mente
masculina, ou pelo menos um certo elenco de mentes masculinas. (O que me lembra
uma frase que vi numa peça há muitos anos, uma mulher dizendo: “Os homens são
insuportavelmente previsíveis”).
Um conto que estive relendo e me deu o que pensar foi “Uma
Atividade Paralela” (“An Outside Interest”, em The Fever Tree and Other Stories, 1982; no Brasil, Uma Agulha para o Diabo). O narrador, na primeira
pessoa, começa assim (trad. BT):
Amedrontar pessoas era um hábito que eu tinha. Talvez eu devesse dizer que era uma obsessão, e que não eram propriamente quaisquer pessoas, mas mulheres. (...) Juízes, policiais, carcereiros, fiscais da alfândega, cobradores de impostos... Eles se divertem muito, não é verdade? Você não os vê abrindo mão de seus métodos ou adotando outros. Não, o hábito de causar medo lhes sobe à cabeça, eles ficam inebriados, vivem só para isso.
Eu pensava às vezes como devia ser a sensação de uma mulher andando sozinha através daquele bosque e, sim, eu me rejubilava da minha masculinidade, e de ser livre do medo.
Uma noite, o camarada está dando sua caminhada e se aproxima
casualmente de uma mulher que caminha adiante dele. Ela apressa o passo, de
saltos altos, desajeitada. Ele, sem pensar direito, faz o mesmo, e algo
acontece nele.
Eu podia sentir o cheiro do seu terror. Ela usava bastante perfume e o suor o tornava mais forte, de modo que primeiro me chegou uma lufada, e depois toda uma onda de um odor animal misturado com perfume de flores. Aspirei com força, enchi os pulmões.
Ele não ataca a mulher; deixa que ela se afaste, mas está silenciosamente eufórico.
Não consigo descrever a sensação de poder que me invadiu, e a sensação de, bem, masculinidade triunfante e do que chamam machismo. Eu me sentia grandioso. (...) Já que pretendo ser totalmente sincero neste relato, devo acrescentar outra consequência daquilo que ocorreu no bosque, mesmo sendo contra minha índole mencionar coisas dessa natureza. Fiz amor com Carol nessa noite e foi muito melhor do que estava sendo ultimamente; para ser sincero, foi algo sensacional, para ambos.
Sou um homem bem casado, pai de um garoto, um metro e oitenta de altura, não tenho má aparência, e, posso garantir, sou um indivíduo física e mentalmente normal. (...) A aventura não é um elemento conspícuo na minha existência. A coisa mais emocionante que já me aconteceu foi quando pensamos que um dos nossos voos havia sido sequestrado, na Grécia; mas depois descobrimos que foi um alarme falso.
Deixei que ela fugisse. Não lhe causei nenhum mal. Pense no alívio que ela deve ter sentido quando percebeu que tinha escapado de mim e estava em segurança! Pense em como ela voltou para casa e contou tudo a sua mãe, ou sua irmã, ou seu marido! Pode-se dizer até que eu lhe fiz algum bem. Talvez tenha lhe mostrado que não era uma boa cruzar sozinha o bosque, e assim a protegi de um verdadeiro pervertido, algum molestador de mulheres. É um ponto de vista válido, não é? Posso mesmo me considerar um benfeitor público.
Carol quis saber como eu tinha dado um jeito de ficar com a roupa toda suja de grama, e acho que ela pensa até hoje que eu estava rolando nos gramados do parque com alguma outra mulher. Como se eu fosse capaz!
quinta-feira, 3 de novembro de 2022
4879) As vocações frustradas (3.11.2022)
Uma coisa muito enganosa que a gente vê nos livros de auto-ajuda literária (os famosos manuais de “Como Escrever Bem”, “Como Ser Um Escritor De Sucesso”, “Dicas Para um Aspirante a Escritor”, etc.) é o famoso conselho de “Nunca Desistir!”.
segunda-feira, 31 de outubro de 2022
4878) Drummond e o epigrama para Emílio Moura (31.10.2022)
1930. Publica Alguma Poesia (500 exemplares), sob o selo imaginário das Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro. A edição é facilitada pela Imprensa Oficial do Estado, mediante desconto na folha de vencimentos do funcionário. Amigos oferecem-lhe um jantar comemorativo, em que é saudado por Milton Campos.
O “Epigrama para
Emílio Moura” é um poeminha crepuscular, mais um entre vários deste livro
de estréia, naquele clima de tristeza precoce que era tão tipico do jovem
Drummond,
Tristeza de ver a tarde caircomo cai uma folha.(No Brasil não há outonomas as folhas caem.)
Há dois efeitos bem visíveis nesta primeira estrofe. O jogo de palavras com a expressão “cair” (a tarde cai, a folha cai); e o abrasileiramento das idéias, um dos pilares do Modernismo. “No Brasil não há outono” é uma idéia curiosa para um mineiro, porque no Sudeste as estações do ano não chegam a ser tão visivelmente demarcadas como na Europa, mas pelo menos são registradas pela imprensa, pela população.
Tristeza de comprar um beijocomo quem compra jornal.Os que amam sem amornão terão o reino dos céus.
Um conceito bem de época esse de comprar um beijo, expressão que já vi usada muitas vezes, em contos e romances de cem anos atrás, como eufemismo para o sexo pago, o sexo prostitucional. Seria essa a intenção de Drummond? De qualquer modo, é a reiteração de outro lugar-comum modernista: a comparação entre a pureza dos sentimentos românticos de tempos atrás, e a sordidez do mundo moderno, que resolve todos os problemas puxando a carteira e perguntando quanto custa. (Essa comparação continua a ser feita em 2022, só que em outros termos.)
Tristeza de guardar um segredoque todos sabeme não contar a ninguém(que esta vida não presta).
A idéia do segredo íntimo que o poeta recolhe para dentro
de si e não conta a ninguém é uma imagem recorrente na obra do poeta. E esse
desabafo plebeu de que “a vida não presta” é um pensamento diante do qual os
Simbolistas e os Parnasianos recuariam, horrorizados tanto pela vulgaridade da
idéia quanto pelo plebeísmo da forma. Para eles, a poesia era para os temas
nobres e as frases profundas. Dizer “a vida não presta” equivalia a cutucar o
nariz ou cuspir no chão.
Esse plebeísmo proposital era uma das armas do Modernismo,
arma que provocou enorme rejeição em alguns círculos (“uma poesia mal-educada,
cheia de vulgaridades, onde já se viu?!”). Pouco importa que na vida real todos
proferissem as mesmas grosserias; só era proibido dizê-las em verso, ou pelo
menos nos versos que iam para os livros. Na mesa de bar, como hoje em dia, valia
tudo. (O livro A Conquista, de Coelho
Neto, retrata bem essa época do pré-modernismo.)
Drummond fez um uso consciente desse tom de voz
desabusado e sem pompa, indo até o famoso verso (no mesmo livro): “Aqui ao
menos a gente sabe que tudo é uma canalha só” (em “Explicação”).
Outro detalhe é a presença do que Drummond chamou um dia
de “cantar de amigos”, os versos em homenagem (ou dedicados) a amigos do peito.
Em Alguma Poesia há poemas dedicados
a Abgar Renault, Manuel Bandeira, Wellington Brandão, Mário Casassanta, Ribeiro
Couto, Gustavo Capanema, Afonso Arinos sobrinho, Cyro dos Anjos, Pedro Nava, Martins
de Almeida.
O único cujo nome aparece no título do poema é Emílio
Moura (1902-1971), um desses muitos amigos de juventude com quem Drummond
compartilhou as primeiras criações poéticas, e cuja presença insistiu em
registrar no primeiro livro publicado.
Aqui no saite poesia.net,
uma pequena coletânea dos poemas desse amigo introspectivo da fase mineira de
Drummond.
http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet285.htm
quinta-feira, 27 de outubro de 2022
4877) Quando o disc-jockey é Bob Dylan (27.10.2022)
Entre os anos de 2006 e 2009, Bob Dylan manteve no ar um programa de rádio semanal, o Theme Time Radio Hour, onde ele fez um impressionante passeio pela música norte-americana. Dylan contou com a parceria do produtor Eddie Gorodetsky; os dois juntaram suas respeitáveis discotecas e, com uma boa equipe de pesquisadores, criaram mais de 100 programas com uma hora (ou mais) de duração.
Dylan serviu como disc-jockey, apresentando as canções, compartilhando lembranças pessoais, lendo trechos de obras literárias, lendo cartas dos ouvintes, fazendo gracejos. Dylan é um DJ competente, com sua voz calejada e expressiva, frases incisivas, comentários generosos.
“Bob Esponja” (Sponge Bob) é como alguns críticos dos EUA o chamam até hoje, pelo seu conhecimento enciclopédico de música popular dos EUA. Os relatos sobre a juventude de Dylan, na época de sua chegada a New York com 19 anos, dão conta de que ele se hospedava na casa dos amigos e passava o pente fino em suas discotecas. Ouvia e “tirava” tudo; não escapava nada.
Não eram apenas as discotecas pessoais. Antes mesmo, na infância e adolescência, Dylan era um ávido ouvinte de programas de rádio em geral. Ele conta em seu livro Chronicles, Vol. 1 (2004, trad. BT):
Os programas de rádio tinham tido um papel importante na minha mentalidade, lá no Meio Oeste, num tempo em que eu parecia estar vivendo uma juventude eterna. Inner Sanctum, The Lone Ranger, This is Your FBI, Fiber McGee and Molly, The Fat Man, The Shadow, Suspense. (…) Cresci ouvindo essas coisas, tremia de excitação ouvindo os programas. Eles me davam pistas de como o mundo lá fora funcionava, e estimulavam meus devaneios, faziam minha imaginação trabalhar em horas-extras. Programas de rádio eram uma arte estranha. (Cap. 2)
E no meio desses programas de aventuras, vinha naturalmente a música riquíssima do rádio norte-americano na década de 1950. Para quem foi criado em Hibbing (Minnesota), o rádio era a única maneira de entrar em contato não apenas com a música tradicional (country music, hillbilly, blues, etc.), mas com os novos ritmos que estavam surgindo, como o rhythm-and-blues e o rock-and-roll.
Robert Shelton descreve, na biografia No Direction Home (1986):
Bob fazia suas viagens ao Mississippi tarde da noite, quando a atmosfera estava mais limpa. Muitas vezes punha o rádio embaixo do cobertor, para não acordar ninguém com o som que estava escutando direto de Shreveport ou Little Rock. Gatemouth Page, um eclético disc-jockey sulista, alternava country music com rhythm-and-blues. Na época em que Bill Haley estava fundindo os dois estilos, Dylan escutava ambos. (Cap. 1, trad. BT)
Tudo isso resultou na segurança e descontração com que Dylan concebeu e executou seu próprio programa, já com mais de 60 anos de idade. O Theme Time Radio Hour tinha uma hora ou mais de duração, não era ao vivo (era pré-gravado, nas brechas da agenda do cantor), e se organizava em temas.
Os dez primeiros programas da série, de 2006, têm como tema: “Weather”, “Mothers”, “Drinking”, “Baseball”, “Coffee”, “Jail”, “Fathers”, “Weddings”, “Divorce”, “Summer”.
Esse recorte temático dá aos programas uma grande vivacidade, porque a cada número pulamos do blues para o fox-trot, das big-bands para a balada, do country-and-western para o rock. Num mesmo programa, como “Coffee”, ouvimos Frank Sinatra cantar seu elogio ao café brasileiro (“The Coffee Song”), a voz rascante do bluesman Lightnin’ Hopkins, o cantor pop Bobby Darin (o de “Splish Splash”) e a banda inglesa Blur.
Um ouvinte manda uma carta bem humorada dizendo que curte o programa, mas quer saber por que tocam tantas músicas velhas, em vez das novas. Dylan responde: “É apenas porque existem muito mais músicas velhas do que novas”.
O link inicial do programa, com acesso ao áudio de todos eles, está aqui:
https://www.themetimeradio.com/
Bob Esponja Dylan começou fazendo canções “de protesto”, enveredou pelo rock psicodélico, mergulhou nas folksongs da América profunda após o álbum John Wesley Harding; fez música de cunho cristão, e nos anos 1990 lançou duas compilações voz-e-violão que dão uma pista desse seu enorme conhecimento da música invisível (Good As I Been To You, 1992, e World Gone Wrong, 1993).
Seu programa de rádio serve, por um lado, como um vislumbre de sua variada formação musical, mas também o mostra como produto de uma época de extrema liberdade na música norte-americana.
Michael Gray (Song & Dance Man III, 2000) faz uma comparação entre a música popular dos EUA e da Inglaterra nesse período. Na Inglaterra a rádio era estatal (a BBC, uma rádio burocrática onde se procurava apenas repetir os sucessos recentes) e havia apenas quatro grandes gravadoras (Decca, EMI, Pye e Philips).
Nos EUA, em 1961, havia cerca de 6 mil selos fonográficos independentes, e as emissoras de rádio eram fortemente regionalizadas, com os DJs tocando a música que gostavam e a música preferida dos ouvintes de sua área. Mais ou menos como ocorria no Brasil na mesma época. Gray diz: “Levou apenas duas décadas para que o rádio dos EUA se tornasse completamente ossificado, tornando-se um meio dominado pela tirania das fórmulas, movido pela ganância pura e simples.” (Cap. 3, trad. BT).
Sobre o Dylan cantor/compositor, a discussão superficial da maioria da imprensa gira apenas em torno de “cantor de protesto que aderiu à guitarra elétrica”. Isso ignora o conhecimento musical vasto que Dylan nunca escondeu, mas, como um jogador experiente, foi pousando suas cartas na mesa ao longo de uma carreira que já vai com mais de seis décadas.
Nas memórias, ele compara
seu início da carreira, no mundo folk
do Greenwich Village, com o de seu amigo e companheiro de geração, Bobby Vee,
que rapidamente decolou como sucesso pop. Diz Dylan (trad. BT):
Eu não tinha nada contra as canções pop, mas a definição de pop estava mudando. Elas não pareciam mais ser tão boas quanto tinham sido antes. Eu gostava muito de músicas como “Without a Song”, “Old Man River”, “Stardust” e centenas de outras. Minha favorita entre todas as mais recentes era “Moon River”. Eu era capaz de cantá-la até dormindo. O meu amigo Huckleberry também estava por ali, à minha espera, esperando quem sabe numa curva da Rua 14. (...) Eu botava para ouvir uma canção fenomenal como “Ebb Tide” com Frank Sinatra, e ela nunca deixava de me maravilhar. A letra era tão misteriosa e estupenda. Quando Frank cantava aquilo, eu podia enxergar tudo em sua voz – morte, Deus e o universo, tudo. Mas eu tinha outras coisas para fazer, não podia ficar somente escutando aquilo.
Por trás e por baixo da obra de Dylan enxerga-se tudo isto, principalmente nos seus discos mais recentes, inclusive o excelente Rough And Rowdy Ways, só de canções inéditas, lançado aos 79 anos.
Assinar:
Postagens (Atom)













