terça-feira, 15 de novembro de 2022

4883) Os esquemas da Fifa (15.11.2022)


 
A Copa do Mundo se aproxima. Mesmo estando meio distanciado do futebol, eu decidi me presentear com um spoiler do que vem por aí – e fui assistir no Netflix a série-documentário Esquemas da Fifa, dirigida por Daniel Gordon.
 
Em quatro episódios, a série descreve o escândalo que estourou em 2015, quando altos dirigentes da Fifa foram presos, numa operação simultânea em vários países – por corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa... O cardápio habitual de quem mexe com muita grana.
 
Dizem que toda honestidade tem seu preço; algumas são meramente mais caras do que outras. O mundo do futebol não é necessariamente composto por gente mais honesta ou desonesta do que o mundo da indústria automobilística, o mundo dos cosméticos, o mundo do rock ou o mundo das telecomunicações. Qualquer lugar onde role muito dinheiro torna-se um terreno fértil para a desonestidade. O restante vai ser determinado pelo formato interno dessa indústria, ou comércio, ou mercado, etc. Pelas relações de produção, pelos freios e contrapesos junto aos governos, imprensa, público, etc.
 
O formato interno da Fifa, a confederação internacional de futebol, revelou-se extremamente propício para a roubalheira. O documentário mostra os primórdios da entidade e o espírito meio ingênuo, quase amadorístico, que ela manteve até a gestão de Sir Stanley Rous. O qual foi substituído pelo brasileiro João Havelange, uma raposa no pleno sentido da palavra.


(João Havelange e seu sucessor Joseph Blatter)
 
Havelange assumiu em 1974 e passou a transformar o futebol internacional, injetando nele dois modelos de conduta: o big business e a política. Não poderia dar certo, e não deu. A Fifa se transformou em um enorme instrumento de enriquecimento ilícito e corrupção moral.
 
Praticamente todos os entrevistados falam idealisticamente sobre o impulso de desenvolver o esporte em todos os países – principalmente nos mais pobres, onde a juventude vive aos deusdará. O esporte pode ensinar lições de vida (concordo). Pode ensinar o valor do talento individual e o valor do espírito coletivo (concordo). Pode aproximar culturas diferentes, até mesmo num contexto de competição e rivalidade, mas diluindo estes dois aspectos em benefício de um ideal maior, o esporte (concordo). Mas... No papel tudo é bonito, e no microfone tudo soa bem.
 
Contratos bilionários, pesadas comissões e subornos cada vez mais explícitos são revelados ao longo dos quatro episódios. Curiosamente, a série aborda com destaque a decisão da Fifa de votar simultaneamente os locais das Copas do Mundo de 2018 (deu Rússia) e 2022 (deu Qatar). Há todo um detalhamento do envolvimento político dos xeiques do Qatar, que os documentaristas praticamente espremem no canto da parede, exigindo explicações.


Nem uma palavra é dita sobre a Copa da Rússia. Talvez porque já tenha acontecido, e (como se diz por aí) não adianta dar chute em cachorro morto. Talvez.
 
Lembro muito bem de quando Ronaldo Fenômeno teve um piripaque no dia da decisão da Copa de 1998, na França. As mais mirabolantes teorias da conspiração foram propostas. Desde as explicações de mero suborno (cheguei a ver listas apócrifas, com o preço de cada jogador: Fulano, X mil dólares; Sicrano, Y...) até explicações que envolviam extraterrestres reptilianos e controle mental via satélite (o que explicava as cabeças raspadas de vários jogadores).
 
Li há muitíssimos anos num livro policial qualquer, provavelmente de Agatha Christie ou alguma aventura do Padre Brown, de Chesterton, o detetive explicando: “Muitos suspeitos de um crime mentem, mesmo sendo inocentes. O assassino não é o único a mentir. Alguns inocentes mentem por medo, outros por conveniência, outros por hábito.” E a conclusão: “Quando vemos todo mundo mentindo, a verdade fica irreconhecível.”
 
A corrupção política, tal como os crimes investigados por Hercule Poirot, não é um samba de uma nota só. Não acontece sempre pelos mesmos motivos, nem seguindo os mesmos processos. Cada caso é um caso. Em outro livro policial, vi um mafioso, um tipo Don Corleone, explicando ao seu braço-direito: “É preciso saber o ponto fraco de um homem, para poder suborná-lo. Homens honestos, que rejeitariam horrorizados um milhão de dólares, podem entregar tudo em troca de um fim de semana com uma chacrete que admiram à distância”.



Um dos temas repetidos mais insistentemente em Os Esquemas da Fifa é o da sensação de poder e a certeza da impunidade. A Fifa levantou quantidades astronômicas de dinheiro ao longo de décadas. De uma hora para outra, os dirigentes do futebol de 120 países se viam projetados num universo de carros de luxo, hotéis 6 estrelas, restaurantes finíssimos, presentes caros, mulheres lindas e aquiescentes, salas Vip, tapete vermelho, jantares com primeiros ministros e presidentes. Muitas vezes nem era preciso o suborno. Bastava o cargo – e a liturgia do cargo.
 
Só que o uso do cachimbo deixa a boca torta, e lá pelo terceiro episódio da série chegamos à parte decadente e farsesca: os famosos envelopes de papel pardo com milhares de dólares dentro, entregues numa suite de hotel, enquanto os outros esperam sua vez na ante-sala. É como dar um salto brusco de São Conrado para Rio das Pedras.
 
O produtor da série, Miles Coleman, declara: “O grande problema é que numa entidade como a Fida não existe voto direto, voto popular. São os delegados das federações que votam. Então... basta você convencer 120 pessoas, e você pode se perpetuar no poder, por um longo tempo.”
 
Eu sou impregnado de futebol desde a infância, é algo que está nos genes de meu pai ou no feijão da minha mãe. Lá em casa todo mundo tem time. Já fui jornalista esportivo, já fiz parte de torcida organizada, já fui funcionário do meu clube do coração. Conheço conversa de vestiário, de sala de reunião, de bastidores. Sempre soube que o futebol é todo contaminado de safadeza. E daí? Nesta vida, neste mundo, o que não é?
 
Meus amigos leigos me veem reclamando das diretorias corruptas, dos juízes desonestos, dos jogadores mercenários, do VAR, da bandeirinha de córner, do gandula. Perguntam: Por que continua torcendo, se sabe que tudo aquilo é um teatro, e que muitas vezes o resultado do jogo (e do campeonato) foi acertado de antemão?
 
Não sei. O futebol é uma coisa tão fascinante que a gente consegue, quando o juiz faz “pí!...” esquecer de tudo e acreditar que o jogo é somente o jogo. Como quando vai num show musical num estádio repleto, e faz de conta que não está vendo aqueles logotipos coloridos piscando, mostrando quem paga pelo espetáculo e quem manda em você. Ou quando assiste a novela de TV fingindo que aquilo é de verdade, e faz de conta que não dá atenção aos comerciais.
 
A mente humana não foi programada para aceitar doses muito grandes de realidade. Temos necessidade de acreditar que “apesar de tudo existe uma fonte de água pura”. Sabemos que não existe. Mas sabemos também que só deixará mesmo de existir quando a gente não acreditar mais nela.


(by Chappatte)
 





sábado, 12 de novembro de 2022

4882) Miniconto também é conto (12.11.2022)




Volta e meia estou retornando, aqui, ao tema do “Microconto” ou “Miniconto” – o conto curtíssimo. Esse conceito se desdobra em inúmeras fórmulas relativas a sua extensão, mas no frigir dos ovos todos têm esse aspecto essencial em comum: são curtíssimos.
 
(O conceito de “curtíssimo”, é claro, é tão subjetivo quanto o de “bom”. Cada pessoa traça sua linha-limite onde lhe convém.)
 
Existem contos de menos de 100 palavras; contos de 100 caracteres; contos de 6 palavras; contos de 6 linhas... Qualquer fórmula nova é geralmente bem vinda. Note-se que muitos desses textos são produzidos num regime de desafio – revistas, jornais, websaites etc. lançam a provocação, e os leitores chovem com suas respostas. É um teste, de fato. Um teste de contenção, de síntese, de foco.
 
Não há, portanto, muita necessidade de “definir o que é mini/microconto”, até porque ninguém tem uma definição científica do que é conto. Digamos, então, que um conto é uma história curta, e que um mini/microconto é uma história curtíssima. O resto é como nas Casas José Araújo: “quem manda é o freguês”.


Quem lida com esse tipo de texto derrapa facilmente na comodidade de achar que basta escrever uma frase para que ela seja automaticamente um miniconto. Quer ver? Vou inventar agora, de improviso, três minicontos desse tipo.
 
1)      Abriu a janela e constatou, em pânico, que o Brasil existia mesmo.
2)      Pousaram no asteróide, e extraíram minérios valiosos até morrerem de fome.
3)      Reencontrar você só serve para confirmar minhas suspeitas.
 
Tentarei teorizar estes exemplos banais, mas característicos.
 
No primeiro, temos apenas a descrição de uma ação física e uma reação psicológica, um fato com duração de alguns segundos (a “abrição” da janela). Não há enredo, história, narrativa – há um flash único. Isto ficou mais parecido  com um cartum de Jaguar do que com um filme. Eu posso até chamar isso de miniconto, mas sem muito entusiasmo; para mim, chamá-lo de “cartum verbal” ou de mera piada me parece mais adequado.
 
Por que? Porque, mais do que no conto comum, no miniconto o desafio é contar uma história. Frase, qualquer um escreve. Contar uma história numa frase é outro patamar. É este o grande desafio, a rede na quadra de tênis. Sem ela não tem graça.
 
E vamos ao exemplo 2. Aqui, sim. Por bobo que seja, há um fio de história, há um mínimo de narrativa, uma sequência temporal de três fatos em que cada um é resultado dos anteriores, o que é um requisito básico de uma narrativa literária. O texto ilustra concretamente (e isto foi involuntário de minha parte, foi instintivo) a famosa estrutura “começo – meio – fim”.
 
Em poucas frases ficou clara a ambientação, o gênero literário (ficção científica), tudo sem muito esforço. Há uma leve tintura de final-surpresa, de desfecho imprevisto, o que não é fácil de obter em tão curto espaço – é a famosa arte de “dar um drible em cima de um lenço”. Com alguma boa vontade, posso considerar isso um miniconto.
 
O terceiro exemplo não é um conto nem aqui nem na China. (Claro que qualquer pessoa pode chamá-lo de conto; também pode chamar de avestruz, de sanfona, do escambau. “Chamar” é grátis.) É uma frase apenas, uma reflexão silenciosa, um fragmento de idéia. Relendo agora, me ocorre que seria um pouquinho mais narrativo se fosse em forma de fala, de diálogo:
 
-- Olha, reencontrar você só serve para confirmar minhas suspeitas...
 
Isto nos permitiria fantasiar visualmente o reencontro e a conversa entre dois ex-cônjuges, dois ex-sócios, etc. 
 
Já ministrei oficinas sobre “O Conto Narrativo” como uma forma de enfatizar a existência, na ficção, de uma gradação que tem num extremo a Narração Pura (se é que isto existe) e no extremo oposto a Reflexão Pura (idem). Toda (!) narrativa mistura as duas coisas: a Narração, ou os fatos físicos que acontecem, e a Reflexão, os comentários íntimos dos personagens (ou do autor).


(Clarice, por Bertoni)
 

 
Clarice Lispector é extraordinária contista pela sua habilidade em inventar e misturar todas as nuances possíveis desses dois elementos, em praticamente tudo que escreve. Falei “habilidade” mas o reverso obrigatório dessa moeda é “espontaneidade”, que ela usa em igual medida. Acho que ela não escreve desse jeito porque estudou as variadas correntes teóricas; escreve (acredito eu) porque é desse jeito que ela pensa.
 
Não é uma autora intelectual, dada a planejar estruturas complexas. Acho que era uma intuitiva que lia muito. O que produz lhe sai num jorro de imprevistos, de repentes, de infrações às regras e geralmente levamos algum tempo para admitir que uma parte da cabeça dela mantinha tudo marromeno no lugar certo, de forma satisfatória, e enriquecedora, para o leitor.
 
Tudo isso constitui, principalmente quando reduzido às dimensões exíguas do mini e do micro, uma arte de malabarismo, difícil de praticar em duas ou três páginas, e ainda mais em duas ou três linhas – ou em qualquer outra minifórmula.


Um levantamento interessante e útil foi feito por Carlos Willian Leite na Revista Bula:
 
https://www.revistabula.com/1787-de-anton-tchekhov-a-franz-kafka-30-microcontos-de-ate-100-caracteres/
 
Ele montou uma pequena antologia comentada de microcontos, e aconselho uma olhada. De minha parte, comentarei alguns que me parecem esclarecedores.
 
a)      Tempo. Inesperadamente, inventei uma máquina do
(Alan Moore)
 
Este é um clássico. O autor sugere um engraçado loop acidental com grande economia de meios. Há inúmeras tirinhas de HQ e cartuns usando truques parecidos.
 
 
b)      Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, se suicida.
(Anton Tchecov)
 
Eu já conhecia este, mas não como microconto, e sim como a semente de um desafio lançado pelo autor russo: desenvolver essa idéia de forma plausível. Pode não parecer, mas grandes contos da história da literatura surgiram de provocações desse tipo entre amigos escritores: “Duvido você ser capaz de escrever um conto onde acontece, etc etc etc”.



 
c)       A mulher que amei se transformou em fantasma. Eu sou o lugar das aparições.
(Juan José Arreola)
 
O mexicano Arreola é um dos meus contistas-obscuros favoritos; aconselho sua coletânea clássica Confabulário Total, publicada no Brasil tempos atrás (há edições pela Edinova e pela Arte & Letra).  Seu conto é curioso porque se encrava, sem muito esforço, naquilo que é chamado “o fantástico todoroviano”, a partir das teorizações de Tzvetan Todorov: uma história que pode ser classificada tanto como um evento sobrenatural quanto como um evento meramente psicológico.
 
 
d)      Pegou o chapéu, embrulhou o sol, então nunca mais amanheceu.
(Menalton Braff)
 
Existe narração aí. Um gesto corriqueiro que redunda num fato fantástico, descomunal, contado com a singeleza de um Ray Bradbury ou Mario Quintava. (Ou então, dado o caráter fortemente visual deste exemplo, como um quadro de Marc Chagall ou um cartum de Juarez Machado.)
 
 
 
e)      Eu ainda faço café para dois.
(Zak Nelson)
 
Para ninguém pensar que eu sou radical, eis um exemplo onde o vetor narrativo é mínimo, tudo se reduz a um comentário singelo, mas o modo contido e reflexivo com que ele é feito nos induz a supor um passado, supor um acontecimento qualquer (uma morte? uma separação?) e isto estica, de certa forma, o elástico narrativo.
 
“Narração” é isso: um elástico que se estica, cuja tensão aumenta à medida que o texto avança, e num texto literário a certa altura estamos lidando com vários “elásticos” simultâneos, e é da tensão e relaxamento de cada um deles que advém o prazer da leitura.
 
 
 
 
 





quarta-feira, 9 de novembro de 2022

4881) Gal Costa, 1945-2022 (9.11.2022)




Pelejei para lembrar, hoje, quando foi que ouvi Gal pela primeira vez. Minha geração tem uma relação diferente com a obra dela e dos cantores de sua geração. Somos os ouvintes de primeira hora, os que presenciaram o surgimento, os que correram felizes à loja de discos quando alguém telefonou avisando: “Saiu o disco de Fulano de Tal!...” O primeiro de tantos.  Vamos correr, vamos comprar, vamos ouvir.
 
Isso me aconteceu com Chico Buarque, com Caetano, os Mutantes... Mas, Gal? Não me lembro. Hoje, nas redes sociais, vi muita gente saudosa dizendo que a ouviu pela primeira vez cantando “Gabriela”, ou “Vaca Profana”, ou outros de seus sucessos – que para mim são recentes. E outras pessoas dizem: “É como se a voz dela estivesse ali desde sempre.”



Na falta de um marco melhor, tenho que carimbar aqui o clássico álbum Tropicália, ou Panis et Circensis, o disco-manifesto do movimento tropicalista, uma porrada conceitual a começar pela capa (o grupo inteiro, fantasiado) e a contracapa (um pseudo-roteiro de cinema com cenas meio surrealistas). Gal era a moça de vestido estampado, cabelo ainda um tanto curto, sentada bem comportadinha.
 
Menos comportadinhas eram as músicas que ela cantava no disco.

“Baby” era aquele hino godardiano do encantamento pela sociedade de consumo, não pelo consumo, mas pela novidade, pelo abrir de portas para o lado mercador do Moderno. A fatalidade inelutável de ser jovem e de herdar todo um mundo.
 
“Mamãe Coragem” era a resposta brasileira ao “She’s Leaving Home” dos Beatles, o hino dos drop-outs, dos que fogem de casa, dos que decolam de mochila às costas rumo ao lado esmagador da modernidade. A cidade grande.


Ao lançar o primeiro disco, Gal já era uma pessoa de-casa. Uma daquelas garotas onde rebeldia e timidez se alimentam e se atenuam uma à outra. Doidona e discreta. Cortando caminho pelo meio da floresta da MPB, rebentando as cercas que separavam Jorge Ben, Jackson do Pandeiro, Roberto & Erasmo... Já cantava em inglês (suprema heresia para a época – era sinal de “entreguismo”).
 
Gal é uma dessas cantoras que se definem por voz e repertório, acima de tudo. Não que não tivesse grandes gestos de exuberância cênica ou de “atitude” fora do palco, mas foram voz e repertório que no oscilar dos momentos a mantiveram sempre naquilo que o pessoal chama de “a Série A” da música brasileira. Sem a obsessão dos recordes de vendagem e dos prêmios.
 
O talento da cantora (do cantor) é sua capacidade de dar uma dimensão física, sonora, a uma canção, que tecnicamente é apenas um conjunto de instruções escritas em algumas folhas de partitura e em uma página de versos datilografados.



A canção está ali? Sim, de certa forma. Ali estão as instruções para que a canção seja recriada mediante vozes e instrumentos. O que está no papel são as coordenadas genéticas, por assim dizer; o DNA daquela canção. Mas ela só existe quando está sendo cantada.
 
“Minha voz... minha vida...” Quantas são as canções de Gal, escritas por diferentes compositores, que reiteram essa importância da voz, do ato de cantar, do bom que é cantar, da importância de cantar e se fazer ouvir... E nisto tanto faz estar cantando para uma cidade inteira ou para uma só pessoa.
 
Cantar é existir com força. E com beleza – não a beleza formal e padronizada das formas estabelecidas, mas a beleza que assusta, que faz cambalear, a beleza que desconcerta de tão diferente, que desorienta e reorienta nossa maneira de sentir.




Tem uma verdade mitopoética nisso. Voz é sopro, hálito que dá vida ao barro humano. Sempre achei bonita essa imagem religiosa de um Deus que faz um boneco de barro mas precisa soprar nele para dar-lhe vida. Esse sopro (para mim) nunca é um bafo silencioso, e sim a emanação de hálito que acompanha a fala. Deus disse algo; talvez tenha cantarolado alguma coisa.
 
Quando Michelangelo terminou sua estátua de Moisés, achou-a tão perfeita que bateu-lhe com o martelo, ordenando que falasse. É a mesma ação: a voz do criador é que dá vida à criatura, e pede, em resposta, que ela fale, para comprovar que está viva.
 
Deve ser essa, então, a força estranha que leva a cantora a cantar. E nós que escrevemos canções somos meros mercúrios, meros transportadores de sons escritos, meros facilitadores e abridores-de-caminho para que o vento da voz possa passar e o barro da vida possa ouvir.
 
Eita, Gal... A voz ficou, e nós todos passaremos por ela, sabe-se lá até onde. Sendo assim, vamos viver. Vamos chorar, vamos lembrar, vamos cantar, vamos sorrir.
 

 


domingo, 6 de novembro de 2022

4880) O homem que assustava mulheres (6.11.2022)




Agatha Christie foi meu primeiro amor, na adolescência, mas acho que acabei casando com Ruth Rendell, uma paixão mais madura. Explico: são duas grandes damas da literatura policial, e nada seria mais injusto do que tentar estabelecer uma hierarquia de qualidade ou de valor entre elas. São intocáveis, cada uma em seu plano de realidade.
 
Sobre Dame Agatha não preciso falar muito, mas Ms. Rendell é menos conhecida, embora uma boa quantidade de livros seus já tenha sido traduzida no Brasil, principalmente os seus romances detetivescos tendo como protagonista o Inspetor Wexford. É como contista, no entanto, que eu a prefiro, e a toda hora estou lendo e relendo suas histórias densas, precisas, onde ela comprime um crime mórbido, ou uma complexa investigação criminal, em uma dúzia de páginas numa prosa límpida, controlada, rica de nuances.
 
São contos de crime, contos de investigação detetivesca, contos de clima aterrorizante mas não-sobrenatural, contos de ódio reprimido, contos de vingança, contos de ambição mortal.
 
Cada história tira da cartola uma situação inusitada. Uma dona de casa descobre que seu jovem vizinho gosta de se vestir de mulher quando está sozinho em casa (“The New Girl Friend”). Um homem aceita um convite para jantar na casa (distante) de um ex-empregado a quem despediu, e o que deveria ser um jantar de reconciliação começa a ganhar contornos ameaçadores (“A Bad Heart”). Uma mulher deixa o carrinho com o bebê no jardim enquanto vai buscar algo dentro de casa, e na volta o bebê desapareceu. Ou melhor: foi trocado por um bebê desconhecido. Por quê?!  (“Ginger and the Kingsmarkham Chalk Circle”).
 
Casais em crise (namorados impulsivos, ou cônjuges ressentidos) aparecem volta e meia em suas histórias, configurando aquela tragédia grega e inevitável dos tempos modernos – onde o leitor adivinha o desfecho, só não sabe quem será o executante e quem a vítima.
 
Um dos aspectos que me agradam nos contos de Ruth Rendell é que ela tem uma percepção quase telepática de como funciona a mente masculina, ou pelo menos um certo elenco de mentes masculinas. (O que me lembra uma frase que vi numa peça há muitos anos, uma mulher dizendo: “Os homens são insuportavelmente previsíveis”).






Um conto que estive relendo e me deu o que pensar foi “Uma Atividade Paralela” (“An Outside Interest”, em The Fever Tree and Other Stories, 1982; no Brasil, Uma Agulha para o Diabo). O narrador, na primeira pessoa, começa assim (trad. BT):
 
Amedrontar pessoas era um hábito que eu tinha. Talvez eu devesse dizer que era uma obsessão, e que não eram propriamente quaisquer pessoas, mas mulheres. (...) Juízes, policiais, carcereiros, fiscais da alfândega, cobradores de impostos... Eles se divertem muito, não é verdade? Você não os vê abrindo mão de seus métodos ou adotando outros. Não, o hábito de causar medo lhes sobe à cabeça, eles ficam inebriados, vivem só para isso.
 
O narrador explica que mora com a família num daqueles subúrbios londrinos cheios de parques e pequenos bosques, meio desertos, principalmente à noite. Quando a esposa precisa voltar sozinha de metrô, ele tem que pegar o carro e buscá-la na estação. Mas ele não tem medo. Quando lhe dá vontade, faz suas caminhadas “sem nem bater a passarinha”, naquelas alamedas mal iluminadas.
 
Eu pensava às vezes como devia ser a sensação de uma mulher andando sozinha através daquele bosque e, sim, eu me rejubilava da minha masculinidade, e de ser livre do medo.


Uma noite, o camarada está dando sua caminhada e se aproxima casualmente de uma mulher que caminha adiante dele. Ela apressa o passo, de saltos altos, desajeitada. Ele, sem pensar direito, faz o mesmo, e algo acontece nele.
 
Eu podia sentir o cheiro do seu terror. Ela usava bastante perfume e o suor o tornava mais forte, de modo que primeiro me chegou uma lufada, e depois toda uma onda de um odor animal misturado com perfume de flores. Aspirei com força, enchi os pulmões.
 
Ele não ataca a mulher; deixa que ela se afaste, mas está silenciosamente eufórico.
 
Não consigo descrever a sensação de poder que me invadiu, e a sensação de, bem, masculinidade triunfante e do que chamam machismo. Eu me sentia grandioso. (...) Já que pretendo ser totalmente sincero neste relato, devo acrescentar outra consequência daquilo que ocorreu no bosque, mesmo sendo contra minha índole mencionar coisas dessa natureza. Fiz amor com Carol nessa noite e foi muito melhor do que estava sendo ultimamente; para ser sincero, foi algo sensacional, para ambos.


Quem é esse sujeito? Um bandido, um psicopata estuprador, um delinquente? Não, apenas um pacato funcionário de companhia aérea, que dá expediente no aeroporto.
 
Sou um homem bem casado, pai de um garoto, um metro e oitenta de altura, não tenho má aparência, e, posso garantir, sou um indivíduo física e mentalmente normal. (...)  A aventura não é um elemento conspícuo na minha existência. A coisa mais emocionante que já me aconteceu foi quando pensamos que um dos nossos voos havia sido sequestrado, na Grécia; mas depois descobrimos que foi um alarme falso.
 
Um conto mainstream provavelmente se limitaria ao episódio descrito acima e aproveitaria para fazer algumas considerações sobre a psicologia do homem moderno. O que distingue a literatura policial (ou “criminal”, no presente caso) é que ela não se contenta em descrever uma experiência “anormal”. Ela prolonga e repete essa situação. Ela a explora até um ponto de ruptura.
 
O narrador acaba descobrindo outro parque/bosque distante do local onde mora (ele não é bobo), e as experiências de assustar mulheres começam a se repetir, com variadas consequências, diferentes reações... Até um final trágico, que não preciso revelar aqui.
 
Ruth Rendell não se contenta em imaginar o começo de uma situação; ela a espreme até o fim. Sem brutalidade, sem sangue, sem vísceras à mostra, mas descrevendo o mergulho gradual de um “cidadão de bem” no bosque escuro de seu próprio espírito.
 
Sempre com boas intenções, sempre com as melhores justificativas, como nestes comentários após mais uma aventura:
 
Deixei que ela fugisse. Não lhe causei nenhum mal. Pense no alívio que ela deve ter sentido quando percebeu que tinha escapado de mim e estava em segurança! Pense em como ela voltou para casa e contou tudo a sua mãe, ou sua irmã, ou seu marido! Pode-se dizer até que eu lhe fiz algum bem. Talvez tenha lhe mostrado que não era uma boa cruzar sozinha o bosque, e assim a protegi de um verdadeiro pervertido, algum molestador de mulheres. É um ponto de vista válido, não é? Posso mesmo me considerar um benfeitor público.
 
Não apenas um cidadão de bem, mas um marido exemplar. Há um curto episódio em que ele se aproxima de uma mulher até o ponto de descobrir que ela é faixa-preta em alguma coisa. Ele lhe dá um balão e foge, deixando-o levantar-se zonzo, o agasalho de jogging todo manchado de terra e grama. Ele comenta:
 
Carol quis saber como eu tinha dado um jeito de ficar com a roupa toda suja de grama, e acho que ela pensa até hoje que eu estava rolando nos gramados do parque com alguma outra mulher. Como se eu fosse capaz!
 
Ele se dá o trabalho de explicar que muitas dessas aventuras tinham menos o intuito de apavorar alguém do que o de restaurar seu amor próprio, sua auto-estima masculina abalada por alguma das mil pequenas humilhações do cotidiano. Como quando uma cliente da companhia aérea cuspiu nele, ou quando o chefe o repreendeu, ou quando Carol lhe perguntou “por que motivo ele não conseguia ganhar tão bem quando Mike, o marido de Sheila”.
 
A idéia do crime, nos contos de Ruth Rendell, nunca é o passo inicial do processo. Um personagem não diz, de cara: “Vou matar Fulano”. Ele simplesmente narra ao leitor sua convivência com Fulano, as queixas recíprocas, as altercações, as injustiças sofridas, os ressentimento (mais que legítimo!), o rancor furioso (mais que justificado!), a explosão final, que muitas vezes se conclui com o lamento: “Queriam que eu fizesse o quê, depois de tudo que aconteceu?!”.
 
 


 









quinta-feira, 3 de novembro de 2022

4879) As vocações frustradas (3.11.2022)



(Amedeo Modigliani, "Auto Retrato")


Uma coisa muito enganosa que a gente vê nos livros de auto-ajuda literária (os famosos manuais de “Como Escrever Bem”, “Como Ser Um Escritor De Sucesso”, “Dicas Para um Aspirante a Escritor”, etc.) é o famoso conselho de “Nunca Desistir!”. 
 
Eu já fiz várias oficinas literárias, como aluno e como instrutor, e vejo esse conselho ser repisado de forma quase hipnótica. É bonito, mas é enganoso.
 
Tem horas em que a pessoa deve desistir, sim. É quando ela própria percebe que o que está fazendo não é bem o que ela achava que era capaz de fazer, o que valia a pena se esfalfar de trabalho para conseguir fazer.
 
Nem todo mundo tem qualidades para ser escritor. Isto não é uma lei elitista, é uma questão de bom senso. Nem todo mundo tem qualidades para ser médico, ou piloto de avião, ou comerciante, ou cantor, ou administrador de fazenda... A gente pode achar aquilo bonito, e ter vontade de ser assim. Mas a vontade não basta.

Teoricamente, idealmente, todo mundo deveria ser capaz de tudo, ao nascer. Deveria ter um potencial aberto a todas as possibilidades. Mas a cada ano de vida essas possibilidades vão se afunilando, porque umas habilidades se desenvolvem mais, e outras menos.
 
Escrever não é fácil. Também não é uma coisa astronomicamente difícil, e uma de suas belezas é sua acessibilidade. Alfabetização, estudo, muita leitura, muita discussão, muita prática... e a pessoa vai desenvolvendo sua escrita. Até que ponto? Ninguém sabe.
 
Sempre digo, a quem me pede orientação: escreva coisas pessoais, e mostre. Escreva cartas, blogs, diários. Não pense em se profissionalizar tão cedo. A profissionalização é possível – mas não para todos. Cabem 7 bilhões de escritores no mundo? Cabem 7 bilhões de pintores, de maestros, de filósofos?
 
Ser escritor é como ser músico (instrumentista). Todo mundo pode ser músico? Em princípio (no instante do nascimento), sim, todos somos iguais. No entanto, uns irão desenvolver mais capacidade do que outros.
 
O engano mais grave não é o de inculcar na cabeça de uma pessoa que ela pode se tornar escritora, pianista, poeta, ator, atriz, artista... Cada uma que vá à luta e descubra do que é capaz. Engano é tentar convencê-la de que basta se esforçar para conseguir fazer profissionalmente qualquer uma dessas coisas.
 
Os manuais de auto-ajuda estão cheios daqueles exemplos clássicos da obra literária genial que foi recusada por 20 editores e tornou milionário o vigésimo-primeiro. Na cabeça de um jovem ansioso, isso deixa de ser um fator de desalento para se transformar magicamente numa garantia de que quanto mais recusado for um manuscrito mais genial ele deve ser.  Não é.
 
Nem sempre temos talento para o que sonhamos. Uma garota pode sonhar em ser atriz, quando o seu talento é para escrever – mas ela não quer escrever, porque no meio social onde convive isso não tem valor, e ser atriz de cinema tem. Um rapaz pode sonhar em se tornar escritor, porque isso pode lhe dar dinheiro e respeito intelectual, mas não escreve tão bem assim, ou não sabe o que escrever; talvez pudesse se tornar um ótimo editor, ou tradutor, alguém ligado à criação literária.
 
Às vezes o próprio indivíduo tem uma noção meio vaga de suas qualidades e fica anos insistindo em explorar uma qualidade que não possui, em vez de investir em talentos paralelos que são igualmente importantes.
 
Saber desistir e optar por outra carreira é tão importante quanto saber persistir diante das dificuldades.


O argentino Manuel Puig queria ser diretor de cinema, mas logo percebeu que, sendo tímido e introspectivo, jamais poderia comandar de megafone em punho uma equipe de cem pessoas. Dedicou-se a escrever:
O Beijo da Mulher Aranha, A Traição de Rita Rayworth, Boquinhas Pintadas... Valeu a pena? Para mim, valeu. 
 
Dizem que Amedeo Modigliani queria ser escultor, sonhava com isso, mas nada dava certo, e ele resignou-se, meio frustrado, a ser um dos maiores pintores de sua geração. Menos mal. Modigliani era o protótipo do artista faminto, meio drogado, dependendo de vender uma tela para comer por uma semana. Podemos ter perdido o maior escultor do mundo? Talvez. Mas ganhamos Modigliani.
 
Quando o artista tem dinheiro, contudo, ele pode alimentar indefinidamente sua fantasia. Era o caso de Robert Coates (1772-1848), que recebeu o apelido de “O Pior Ator do Mundo”. Filho de um comerciante rico das Índias Ocidentais, ele patrocinava a montagem das suas peças preferidas (inclusive Shakespeare), onde ele mandava em tudo: cenários, figurinos, elenco, além de mexer no texto para favorecer a si próprio. Era uma figura folclórica da cena teatral londrina, enchendo os teatros de gente disposta a se divertir. Era péssimo. Era rico. Nunca desistiu.
 
Em geral, a gente só toma conhecimento das carreiras artísticas quando elas dão certo. As que naufragam no anonimato não chegam aos nossos ouvidos, por motivos óbvios.
 
Se olharmos com cuidado as carreiras vitoriosas, no entanto, vamos encontrar muitos casos de pessoas que tinham um sonho diferente a respeito de si mesmas, mas era um sonho de quem não tinha talento real, vocação, ou, como diz o pessoal por aí, “o cacoete da coisa”.
 
Rapazes que queriam ser jogadores de futebol, jogavam mal, tornaram-se técnicos vitoriosos. Narradores que tentaram em vão ser romancistas, e viraram autores de telenovela na hora certa. Compositores sem brilho que acabaram se tornando excelentes arranjadores. Isto é fracasso? Não acho.
 
A maldição do NUNCA DESISTA já destruiu muitos talentos que podiam perfeitamente ser direcionados rumo a outros trabalhos, se o indivíduo fosse capaz de avaliar com mais clareza e menos emoção suas próprias habilidades. Se não estivesse mergulhado, como todos sempre estamos, no “espírito do tempo” para quem o Desejo é soberano, a Vontade resolve tudo. Não é assim que o mundo funciona.


(Robert Coates)




segunda-feira, 31 de outubro de 2022

4878) Drummond e o epigrama para Emílio Moura (31.10.2022)

 
 


Estou retomando os comentários do primeiro livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade, Alguma Poesia, que comecei a comentar em 2010 (quando o livro estava completando 80 anos). Volto à carga hoje, aniversário do autor de A Rosa do Povo.
 
Drummond começou a poesia de forma discreta. Para consolo dos jovens poetas sem direito às manchetes ou às capas de revista, transcrevo abaixo o que diz a “Cronologia” da Obra Completa do poeta mineiro, organizada por Afrânio Coutinho para a Aguilar (2ª. ed., 1967):
 
1930. Publica Alguma Poesia (500 exemplares), sob o selo imaginário das Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro. A edição é facilitada pela Imprensa Oficial do Estado, mediante desconto na folha de vencimentos do funcionário. Amigos oferecem-lhe um jantar comemorativo, em que é saudado por Milton Campos.
 
(Meu primeiro livro de poesia, de 1980, teve tiragem de 300 exemplares. O segundo, de 1982, vendeu 3 mil ao longo de alguns anos.)
 
Drummond começou assim, timidamente poeta, amparado e incentivado pelos amigos. A poesia brasileira sempre foi um lago em câmera lenta. Joga-se uma pedra no meio do caminho, ou melhor, no meio do lago, e ali começa a surgir um círculo vagaroso encompassando umas 100 pessoas, daí a pouco chegam a mil, quem sabe daí a mais uns anos esses leitores viram dez mil, e novas pedras vão caindo, e novos círculos concêntricos vão brotando.
 
Se tudo der certo.




(Emílio Moura)


O “Epigrama para Emílio Moura” é um poeminha crepuscular, mais um entre vários deste livro de estréia, naquele clima de tristeza precoce que era tão tipico do jovem Drummond,
 
Tristeza de ver a tarde cair
como cai uma folha.
(No Brasil não há outono
mas as folhas caem.)
 
Há dois efeitos bem visíveis nesta primeira estrofe. O jogo de palavras com a expressão “cair” (a tarde cai, a folha cai); e o abrasileiramento das idéias, um dos pilares do Modernismo. “No Brasil não há outono” é uma idéia curiosa para um mineiro, porque no Sudeste as estações do ano não chegam a ser tão visivelmente demarcadas como na Europa, mas pelo menos são registradas pela imprensa, pela população.
 
No Nordeste, não. Até os vinte anos mais ou menos, eu só reconhecia a existência do verão e do inverno. Sempre achei que “primavera” e “outono” eram fenômenos atmosféricos de outros países. Fenômenos como a aurora boreal e o simum, que entre nós tinham existência meramente literária.
 
Tristeza de comprar um beijo
como quem compra jornal.
Os que amam sem amor
não terão o reino dos céus.
 
Um conceito bem de época esse de comprar um beijo, expressão que já vi usada muitas vezes, em contos e romances de cem anos atrás, como eufemismo para o sexo pago, o sexo prostitucional. Seria essa a intenção de Drummond?  De qualquer modo, é a reiteração de outro lugar-comum modernista: a comparação entre a pureza dos sentimentos românticos de tempos atrás, e a sordidez do mundo moderno, que resolve todos os problemas puxando a carteira e perguntando quanto custa. (Essa comparação continua a ser feita em 2022, só que em outros termos.)
 
E o castigo para os que amam sem amor não é (como seria num romance realista, de um Aluísio de Azevedo, de um Nelson Rodrigues) a blenorragia ou um abalo nas finanças, mas uma punição católica. (E com Carlos Drummond cabe sempre – sempre – ficar matutando até que ponto quem está falando é a sua nostalgia de rapaz-católico ou a sua ironia modernista-agnóstica.)
 
Tristeza de guardar um segredo
que todos sabem
e não contar a ninguém
(que esta vida não presta).



A idéia do segredo íntimo que o poeta recolhe para dentro de si e não conta a ninguém é uma imagem recorrente na obra do poeta. E esse desabafo plebeu de que “a vida não presta” é um pensamento diante do qual os Simbolistas e os Parnasianos recuariam, horrorizados tanto pela vulgaridade da idéia quanto pelo plebeísmo da forma. Para eles, a poesia era para os temas nobres e as frases profundas. Dizer “a vida não presta” equivalia a cutucar o nariz ou cuspir no chão.
 
Esse plebeísmo proposital era uma das armas do Modernismo, arma que provocou enorme rejeição em alguns círculos (“uma poesia mal-educada, cheia de vulgaridades, onde já se viu?!”). Pouco importa que na vida real todos proferissem as mesmas grosserias; só era proibido dizê-las em verso, ou pelo menos nos versos que iam para os livros. Na mesa de bar, como hoje em dia, valia tudo. (O livro A Conquista, de Coelho Neto, retrata bem essa época do pré-modernismo.)
 
Drummond fez um uso consciente desse tom de voz desabusado e sem pompa, indo até o famoso verso (no mesmo livro): “Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só” (em “Explicação”).
 
Outro detalhe é a presença do que Drummond chamou um dia de “cantar de amigos”, os versos em homenagem (ou dedicados) a amigos do peito. Em Alguma Poesia há poemas dedicados a Abgar Renault, Manuel Bandeira, Wellington Brandão, Mário Casassanta, Ribeiro Couto, Gustavo Capanema, Afonso Arinos sobrinho, Cyro dos Anjos, Pedro Nava, Martins de Almeida.
 
O único cujo nome aparece no título do poema é Emílio Moura (1902-1971), um desses muitos amigos de juventude com quem Drummond compartilhou as primeiras criações poéticas, e cuja presença insistiu em registrar no primeiro livro publicado.
 
Aqui no saite poesia.net, uma pequena coletânea dos poemas desse amigo introspectivo da fase mineira de Drummond.
 
http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet285.htm

 








quinta-feira, 27 de outubro de 2022

4877) Quando o disc-jockey é Bob Dylan (27.10.2022)

 

 
Entre os anos de 2006 e 2009, Bob Dylan manteve no ar um programa de rádio semanal, o Theme Time Radio Hour, onde ele fez um impressionante passeio pela música norte-americana. Dylan contou com a parceria do produtor Eddie Gorodetsky; os dois juntaram suas respeitáveis discotecas e, com uma boa equipe de pesquisadores, criaram mais de 100 programas com uma hora (ou mais) de duração.
 
Dylan serviu como disc-jockey, apresentando as canções, compartilhando lembranças pessoais, lendo trechos de obras literárias, lendo cartas dos ouvintes, fazendo gracejos. Dylan é um DJ competente, com sua voz calejada e expressiva, frases incisivas, comentários generosos.
 
“Bob Esponja” (Sponge Bob) é como alguns críticos dos EUA o chamam até hoje, pelo seu conhecimento enciclopédico de música popular dos EUA. Os relatos sobre a juventude de Dylan, na época de sua chegada a New York com 19 anos, dão conta de que ele se hospedava na casa dos amigos e passava o pente fino em suas discotecas. Ouvia e “tirava” tudo; não escapava nada.
 
Não eram apenas as discotecas pessoais. Antes mesmo, na infância e adolescência, Dylan era um ávido ouvinte de programas de rádio em geral. Ele conta em seu livro Chronicles, Vol. 1 (2004, trad. BT):
 
Os programas de rádio tinham tido um papel importante na minha mentalidade, lá no Meio Oeste, num tempo em que eu parecia estar vivendo uma juventude eterna. Inner Sanctum, The Lone Ranger, This is Your FBI, Fiber McGee and Molly, The Fat Man, The Shadow, Suspense. (…) Cresci ouvindo essas coisas, tremia de excitação ouvindo os programas. Eles me davam pistas de como o mundo lá fora funcionava, e estimulavam meus devaneios, faziam minha imaginação trabalhar em horas-extras. Programas de rádio eram uma arte estranha. (Cap. 2)



E no meio desses programas de aventuras, vinha naturalmente a música riquíssima do rádio norte-americano na década de 1950. Para quem foi criado em Hibbing (Minnesota), o rádio era a única maneira de entrar em contato não apenas com a música tradicional (country music, hillbilly, blues, etc.), mas com os novos ritmos que estavam surgindo, como o rhythm-and-blues e o rock-and-roll.
 
Robert Shelton descreve, na biografia No Direction Home (1986):
 
Bob fazia suas viagens ao Mississippi tarde da noite, quando a atmosfera estava mais limpa. Muitas vezes punha o rádio embaixo do cobertor, para não acordar ninguém com o som que estava escutando direto de Shreveport ou Little Rock. Gatemouth Page, um eclético disc-jockey sulista, alternava country music com rhythm-and-blues. Na época em que Bill Haley estava fundindo os dois estilos, Dylan escutava ambos. (Cap. 1, trad. BT)
 
Tudo isso resultou na segurança e descontração com que Dylan concebeu e executou seu próprio programa, já com mais de 60 anos de idade. O Theme Time Radio Hour tinha uma hora ou mais de duração, não era ao vivo (era pré-gravado, nas brechas da agenda do cantor), e se organizava em temas.



Os dez primeiros programas da série, de 2006, têm como tema: “Weather”, “Mothers”, “Drinking”, “Baseball”, “Coffee”, “Jail”, “Fathers”, “Weddings”, “Divorce”, “Summer”.
 
Esse recorte temático dá aos programas uma grande vivacidade, porque a cada número pulamos do blues para o fox-trot, das big-bands para a balada, do country-and-western para o rock. Num mesmo programa, como “Coffee”, ouvimos Frank Sinatra cantar seu elogio ao café brasileiro (“The Coffee Song”), a voz rascante do bluesman Lightnin’  Hopkins, o cantor pop Bobby Darin (o de “Splish Splash”) e a banda inglesa Blur.
 
Um ouvinte manda uma carta bem humorada dizendo que curte o programa, mas quer saber por que tocam tantas músicas velhas, em vez das novas. Dylan responde: “É apenas porque existem muito mais músicas velhas do que novas”.
 
O link inicial do programa, com acesso ao áudio de todos eles, está aqui:
 
https://www.themetimeradio.com/
 
Bob Esponja Dylan começou fazendo canções “de protesto”, enveredou pelo rock psicodélico, mergulhou nas folksongs da América profunda após o álbum John Wesley Harding; fez música de cunho cristão, e nos anos 1990 lançou duas compilações voz-e-violão que dão uma pista desse seu enorme conhecimento da música invisível (Good As I Been To You, 1992, e World Gone Wrong, 1993).
 
Seu programa de rádio serve, por um lado, como um vislumbre de sua variada formação musical, mas também o mostra como produto de uma época de extrema liberdade na música norte-americana.
 
Michael Gray (Song & Dance Man III, 2000) faz uma comparação entre a música popular dos EUA e da Inglaterra nesse período. Na Inglaterra a rádio era estatal (a BBC, uma rádio burocrática onde se procurava apenas repetir os sucessos recentes) e havia apenas quatro grandes gravadoras (Decca, EMI, Pye e Philips).


Nos EUA, em 1961, havia cerca de 6 mil selos fonográficos independentes, e as emissoras de rádio eram fortemente regionalizadas, com os DJs tocando a música que gostavam e a música preferida dos ouvintes de sua área. Mais ou menos como ocorria no Brasil na mesma época. Gray diz: “Levou apenas duas décadas para que o rádio dos EUA se tornasse completamente ossificado, tornando-se um meio dominado pela tirania das fórmulas, movido pela ganância pura e simples.” (Cap. 3, trad. BT).
 
Sobre o Dylan cantor/compositor, a discussão superficial da maioria da imprensa gira apenas em torno de “cantor de protesto que aderiu à guitarra elétrica”. Isso ignora o conhecimento musical vasto que Dylan nunca escondeu, mas, como um jogador experiente, foi pousando suas cartas na mesa ao longo de uma carreira que já vai com mais de seis décadas.

 
Nas memórias, ele compara seu início da carreira, no mundo folk do Greenwich Village, com o de seu amigo e companheiro de geração, Bobby Vee, que rapidamente decolou como sucesso pop. Diz Dylan (trad. BT):
 
Eu não tinha nada contra as canções pop, mas a definição de pop estava mudando. Elas não pareciam mais ser tão boas quanto tinham sido antes. Eu gostava muito de músicas como “Without a Song”, “Old Man River”, “Stardust” e centenas de outras. Minha favorita entre todas as mais recentes era “Moon River”. Eu era capaz de cantá-la até dormindo. O meu amigo Huckleberry também estava por ali, à minha espera, esperando quem sabe numa curva da Rua 14. (...) Eu botava para ouvir uma canção fenomenal como “Ebb Tide” com Frank Sinatra, e ela nunca deixava de me maravilhar. A letra era tão misteriosa e estupenda. Quando Frank cantava aquilo, eu podia enxergar tudo em sua voz – morte, Deus e o universo, tudo. Mas eu tinha outras coisas para fazer, não podia ficar somente escutando aquilo.
 
Por trás e por baixo da obra de Dylan enxerga-se tudo isto, principalmente nos seus discos mais recentes, inclusive o excelente Rough And Rowdy Ways, só de canções inéditas, lançado aos 79 anos.