sábado, 15 de outubro de 2022

4873) A paisagem perturbada (15.10.2022)



 
Florença, que alguns chamam “a capital do Renascimento”, é uma cidade tão bonita que deu origem até a uma expressão, “a Síndrome de Stendhal”. Ela alude ao fato do escritor francês ter desmaiado diante da Basílica, fulminado por tanta beleza.
 
Disse o romancista:
 
Mergulhei numa espécie de êxtase, pela idéia de estar em Florença, próximo aos grandes homens cujos mausoléus eu acabara de ver. Absorto na contemplação daquela beleza sublime... Atingi um ponto em que experimentava sensações celestiais... Tudo falava de forma vívida ao meu espírito. Ah, se ao menos eu pudesse esquecer. Tive palpitações do coração, aquilo que em Berlim chamam de “nervosismo”. Minha vida foi sugada, e eu caminhava com medo de cair.
 
(Digressão: dizem que o Coronel Galdino, de Campina Grande, assim comentou este acontecimento: “Vige que home fraco, se ele ver o Açude Velho ele morre”.)
 
Uma overdose de beleza? Será possível isso? Beleza em excesso faz mal? O nordestino usa com frequência a expressão “medonho” para qualificar a intensidade de algo: “Eu fui lá em Florença, rapaz, é uma cidade bonita medonha”. Medonho é o que dá medo. É algo mais que belo: é o Sublime, um grau de beleza tão elevado que, segundo os filósofos, se avizinha do Terrível.



Estive lendo as saborosas memórias de Erico Verissimo, Solo de Clarineta (Ed. Globo, Porto Alegre), em dois volumes. No volume 2, ele narra uma viagem que fez à Europa com a esposa Mafalda e o filho adolescente, um tal de Luís Fernando. Ele próprio reconhece que foi um trajeto alucinante, percorrendo oito países e cerca de 70 localidades em três meses.
 
Ninguém aguenta. Verissimo, fascinado por arquitetura e por artes plásticas,  confessa, a certa altura:
 
[U]m ser humano pode passar uma semana inteira em jejum absoluto, mas se no domingo lhe derem um farto banquete, sua capacidade de comer terá um limite que o faminto não poderá transpor sem o risco de ter uma indigestão perigosíssima. O mesmo acontece com as viagens. (vol. 2, p. 134)
 
(Visitando a Catedral de Sevilha:) Saio psicologicamente da sala do tesouro como sairia estomacalmente dum banquete onde tivesse sido obrigado a comer um bolo inteiro com camadas de nata batida, chocolate, marmelada, doce de ovos, e todo encrustado de nozes, passas sortidas, amêndoas, confeitos... (p. 274)
 
Nesta altura da viagem, depois de ter passado pelo Museu do Prado, em Madri, e pelas galerias de Florença, devorando ávido e apressado toda uma formidável safra artística de séculos, começo a sentir tonturas e uma espécie de náusea. E todos esses quadros vistos – alguns mais nítidos que outros na memória – começam a girar ao redor de minha perplexidade como peças dum quebra-cabeças talvez impossível de armar. É provável que um observador colocado num ângulo fora do tempo pudesse ver as peças todas no seu devido lugar, formando um desenho e possivelmente uma mensagem. (p. 303)
 
É uma descrição aproximada dos sintomas que explodem na crise de Stendhal? Talvez. Overdose de beleza, desorientação perceptiva, estresse sensorial... tudo isto não coisas mais frequentes do que se imagina. Uma espécie de “festa de Babette” para os olhos (para adotar a comparação gastronômica de Verissimo). 
 
A síndrome foi estudada cientificamente pela Dra. Graziella Magherini, em La sindrome di Stendhal (1989). Curiosamente, o título foi dado a posteriori: ela estudou na verdade centenas de casos clínicos semelhantes ocorridos com turistas que visitavam a cidade, e só depois de algum tempo tomou conhecimento do episódio famoso do escritor.


É um impacto forte nos sentidos – aliás, o persistente Dario Argento, diretor de thrillers  policiais terroríficos, dirigiu em 1996 La Sindrome di Stendhal, ao que parece inspirado num episódio de desorientação mental que ele próprio experimentou na infância, quando visitava Atenas com os pais. Diz o cineasta numa entrevista, quando do lançamento do filme:
 
Meu entusiasmo se deu pelo fato de que a arte tem a função de elevar os espíritos, não de esmagá-los ou de invadi-los... Todos nós aprendemos que a arte enriquece nossas vidas. Stendhal descobriu que não é bem assim. Ela pode também nos enfraquecer. A possibilidade da arte poder causar a morte me interessou. (Internet Movie DataBase)
 
Tudo isto nos ajuda a perceber um conceito do fantástico aplicado à vida cotidiana, que agora não parece muito improvável. É a noção de que alguns ambientes podem agir concretamente sobre uma pessoa, podem provocar-lhe êxtase, ou repulsa, ou desorientação, até mesmo loucura. Nos contos de Lovecraft, encontramos com frequência descrições de “ambientes malignos” onde praticamente nada acontece, nem precisa acontecer, porque a simples visão daquele cenário de pesadelo desestrutura mentalmente o personagem.


(“Cárceres”, de Piranesi)


Jorge Luís Borges, um discreto leitor de Lovecraft, nos propõe algo parecido com a arquitetura misteriosa da Cidade dos Imortais (“O Imortal”, em O Aleph, 1949).
 
“Esta cidade (pensei) é tão horrível que sua mera existência e perduração, mesmo estando no centro de um deserto perdido, contamina o passado e o futuro, e de algum modo compromete os astros. Enquanto ela durar, ninguém no mundo poderá ser corajoso ou feliz.” Não quero descrevê-la; um caos de palavras heterogêneas, um corpo de tigre ou de touro em que pululassem, monstruosamente, conjugados e odiando-se, dentes, órgãos e cabeças, podem (talvez) ser imagens aproximativas.
 
No fundo é de um único fenômeno que estamos falando. Umberto Eco, autor de uma História da Beleza (2004), sentiu-se na obrigação de escrever uma História da Feiura (2007).
 
Em seu filme-homenagem ao escritor e viajante Bruce Chatwin, Nomad (2019), Werner Herzog resgata uma cena do seu filme de estréia, Sinais de Vida  (1968), em que um soldado alemão da II Guerra Mundial, já esgotado de cansaço, aturdido pela guerra, enlouquece de vez quando numa missão de reconhecimento se depara com um vale onde existem cerca de 10 mil pequenos moinhos de vento.
 
A imagem é real, e Herzog afirma que, ao comentar esse filme, Bruce Chatwin cunhou a expressão “paisagem perturbada” (“deranged landscape”) para registrar a impressão que ambientes assim podem produzir na mente humana.




 
 





quarta-feira, 12 de outubro de 2022

4872) A Super Inteligência artificial (12.10.2022)



A Inteligência Artificial está dando seus primeiros vagidos no mundo da Inteligência Biológica. Uma de suas manifestações em crescente popularidade são os programas online que produzem ilustrações obedecendo a comandos verbais dos usuários. Os propósitos mais secretos ou discretos não posso avaliar daqui, a não ser em termos de Teorias da Conspiração. Vou falar somente da parte lúdica e aberta ao público em geral.
 
Você vai lá no saite, e dá uma instrução verbal (em inglês) dizendo a imagem que você quer. O programa tem uma base de dados de milhões de imagens, que ela busca, reúne e recombina, criando imagens de acordo com o pedido.
 
Se você pede “Carlitos fumando, montado numa bicicleta, em cima dos anéis de Saturno”, ela junta essas informações e faz uma espécie de colagem. O programa simplesmente anota os ingredientes, e os combina da maneira solicitada.
 
O DALL-E é um desses programas. Ao que parece, o nome é uma mistura do desenho animado “WALL-E” com “Salvador Dalí”.
 
Pedi: “A pink camel smoking a pipe” (um camelo cor-de-rosa fumando cachimbo). Recebi o resultado abaixo. (O DALL-E, tipicamente fornece nove opções ligeiramente diferentes entre si.)

 
 
Depois forneci um verso de um poema surrealista meu: “The frozen priest is wandering through mercurial woods” (o padre gelado viaja na floresta mercurial). O resultado é este:

 
Os resultados do Dall-E ainda são tímidos comparados com o Midjourney, que está aberto a estímulos criativos do público desde julho deste ano. Mais sofisticado em termos de qualidade de imagem, o Midjourney oferece vários planos de acesso. O mais simples deles, gratuito, permite um número limitado de consultas por mês. Pagando um caraminguazinho, o leitor tem acesso a mais recursos e número maior de experimentações.
 
Fui lá, por que não? E por uma questão de método científico submeti minhas duas receitazinhas (always in English) ao outro programa. Eis o que o Midjourney me forneceu (tipicamente, ele fornece quatro variantes da imagem sugerida, em vez de nove):
 
Um camelo cor de rosa fumando cachimbo.



O padre gelado viaja na floresta mercurial:



Observem que todas estas minhas imagens, postadas acima, são um mero rascunho. Os programas oferecem a opção de retrabalhar, modificar, aperfeiçoar extensamente cada uma delas. Estou postando aqui apenas para dar uma idéia. Essas imagens podem ficar muito melhores – e se a gente vai lá, principalmente no saite do Midjourney, vê alguns trabalhos que são de cair o queixo.
 
Amigos meus estão dando um banho de criatividade, explorando os recursos do Midjourney, e a frase “desemprego em massa dos ilustradores profissionais” vem sendo murmurada por entre doses de absinto nos bares de todo o Hemisfério.
 
Quando pensamos em Inteligência Artificial, a imagem que nos vem à mente é uma imagem centralizada, personificada, antropomórfica, a imagem meio abstrata de uma Inteligência gigantesca que nos examina, nos conhece a fundo, nos manipula, rege o nosso destino. Essa Inteligência pode ser benigna, e nos ajudar a penetrar num paraíso utópico. E pode ser maligna, e nos mergulhar num inferno de auto-destruição.
 
Digo “paraíso” e “inferno” propositalmente, porque a maior parte das pessoas visualiza a super Inteligência Artificial em termos religiosos, em termos de um deus ou um demônio. Uma criatura com personalidade. Um ser auto-consciente, capaz de sentimentos semelhantes aos sentimentos humanos, e consciente de nossa presença.
 
Eu penso que o que estamos criando não se assemelha a um ser autoconsciente e inteligente. Assemelha-se mais a um conjunto de seres autônomos, mas ligados uns aos outros por laços semelhantes aos da simbiose – que é quando dois seres diferentíssimos se acoplam, cada um extraindo e retribuindo benefícios dessa ligação.
 
A Inteligência Artificial que estamos criando não se assemelha, arquitetonicamente, à Pirâmide de Quéops, uma forma una, centralizada, harmoniosa, completa. É um pouco como a Catedral de Sevilha, que foi construída e destruída ao longo de séculos, é cheia de puxadinhos e de anexos em estilos diferentes – mas funciona.
 
Ela não tem objetivos, a não ser os objetivos míopes e imediatos de cada setor. Enquanto estes setores não entrarem em choque, funcionarão, mesmo com bugs e surtos de precariedade.
 
Uma metáfora frequente para a Inteligência Artificial que foge ao controle é a criação de um programa complexo destinado (digamos) ao plantio de grama. O programa recebe a instrução para plantar grama, e de certo ponto em diante começa a ordenar a destruição de tudo que esteja atrapalhando o plantio de grama, inclusive cidades, fábricas, etc. 



O programa não é “mau”, ele não quer “dominar a Humanidade”, etc.  É simplesmente um processo que fugiu ao controle – como naquela sequência do filme Fantasia (1940) de Walt Disney, sobre música de Paul Dukas, em que Mickey enfeitiça vassouras para conduzirem baldes de água e daí a pouco elas se multiplicam, produzem um caos absoluto, e ele não mais as comanda. As vassouras não são malévolas; apenas começaram a se multiplicar por erro de programação.
 
 
 







domingo, 9 de outubro de 2022

4871) Jacques, o Fatalista: um romance moderno (9.10.2022)


 
Tenho observado ao longo dos últimos cinquenta anos uma guinada muito forte no mundo literário em benefício daquilo que chamamos, de modo desajeitado, de “romances de enredo”. Que são contrapostos, meio absurdamente, aos chamados “romances de estilo”, como se fossem duas coisas opostas e como se um escritor qualquer, ao optar por uma, perdesse necessariamente a outra. Meu Deus!
 
De qualquer maneira, multiplicam-se as Oficinas Literárias, os Manuais de Roteiro, os vídeos “Eu Vou Te Ensinar”, e todos repisam: é preciso contar uma história com começo, meio e fim. É preciso preparar narrativas como se fossem um mecanismo, com todas as peças bem encaixadas, nada gratuito, cada frase cumprindo uma função necessária, como um parafuso em um transatlântico.
 
Todos citam (eu cito muito) “a espingarda de Tchecov”: se você mostra uma espingarda no Ato 1, ela tem que ser disparada por alguém no Ato 3.  Tudo existe com uma finalidade.
 
Do famoso prefácio de Jorge Luís Borges para La Invención de Morel (1940, Adolfo Bioy Casares) até os manuais de roteiro de Syd Field e Robert McKee, adotados em qualquer oficina do ramo, todos batem furiosamente esse martelo: é preciso contar uma história com arco dramático, com preparação, desenvolvimento e clímax, ao longo da qual o(s) protagonista(s) tenha(m) um objetivo, enfrentem obstáculos, vençam adversários... “História é conflito”, dizem todos.
 
Estão errados? Não. Mas estão descrevendo a orelha do elefante, e ele é maior e mais variado do que isso.
 
Escrevi algum tempo atrás sobre um tipo de romance que é meio a antítese disto, certos romances do século 18 que não se assemelhavam a uma maratona e sim a um passeio. Maratona é um percurso focado, de trajetória única, com uma resposta na chegada. Esse é o romance-de-enredo contemporâneo, esse é o roteiro de cinema industrial.
 
O romance do século 18 era um passeio. Ele se assemelha àqueles feriados em que o sujeito não tem nada pra fazer e sai vagando pela cidade, tipo flâneur, entrando numa rua, saindo em outra, parando numa vitrina, pegando um bonde, sentando numa praça, conversando com um pipoqueiro ou um flanelinha, entrando numa galeria, saindo do lado oposto...
 
Um caminho sem objetivo final, uma travessia que se justifica a si mesma, onde não se busca “chegar a outro lugar”, um passeio cuja frase definidora é: “Eu já estou onde queria estar”.
 
Citei alguns exemplos no meu artigo:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2020/06/4587-uma-literatura-ao-res-do-chao.html
 
Terminei agora a leitura de Jacques Le Fataliste et son Maître (1771-1786) de Denis Diderot, o grande enciclopedista. É um desses “romances ao rés-do-chão”. Não se propõe a criar um grande edifício dramatúrgico, e sim uma série de paradas ao longo de um caminho que não tem fim. É uma road novel, tal como nos referimos a road movies, histórias onde as coisas se sucedem, sem necessariamente terem algo a ver com o que aconteceu no capítulo anterior e o que acontecerá no próximo.
 
Diderot escreve numa época do romance pré-psicologismo, sem aquelas extensas descrições do mundo social e das idéias íntimas do personagem. Isso viria depois, visando justamente aprofundar o modelo que Diderot usava.
 
Thomas Mann, em Morte em Veneza (1912) gasta um capítulo inteiro (o segundo) explicando quem é o personagem, o que pensa, o que sente, por que é assim, de onde veio, para onde pretende ir, o que acha do mundo, o que o mundo acha dele... Balzac é capaz de levar três páginas descrevendo a mobília de um salão.
 
Diderot escrevia numa época mais leve. O primeiro parágrafo de Jacques já dá o tom de desimportância quanto a esse retratismo.
 
Como foi que eles se encontraram? Por acaso, como todo mundo. Como se chamavam? Ora, o que lhe interessa isso? De onde eles vinham? Do lugar mais próximo. Iam para onde? Mas será que alguém sabe para onde vai? Diziam o quê? O amo não dizia nada: e Jacques dizia que seu capitão dizia que tudo que nos acontece de bom e de ruim está escrito nas alturas. (trad. BT)


Este parágrafo é uma espécie de “carta de intenções”. Diderot escreve numa época de fermentação do gênero. O “romance” ainda não tinha a independência formal que ganharia nos anos 1800. Isso lhe dá a liberdade de tratar de maneira desabusada as expectativas do leitor. O romance moderno estava se auto-inventando. Era como o futebol antes das regras: em cada bairro se jogava de um jeito diferente.
 
E uma das regras propostas por ele é esse diálogo com o Leitor que ele já anuncia nas primeiras linhas. Veja-se que nessa abertura do livro as perguntas sucessivas formam um diálogo. O Leitor pergunta (“Como se chamavam?”) e o Autor responde, irreverente (“Ora, o que lhe interessa isso?”).
 
Esse diálogo de perguntas-respondidas-com-perguntas vai se manter ao longo do livro. O Autor assume o papel de contador de histórias e se dá o luxo de interromper uma narrativa na parte mais interessante, dizendo que talvez o leitor não esteja muito interessado naquilo... pula para outra parte... depois volta... e em momento algum afrouxa as rédeas da narrativa.
 
O aspecto visual que mais chama a atenção nesse livro é que ele é escrito como uma peça de teatro, não como um romance, com os diálogos sendo rubricados com os nomes dos personagens:



Isso reforça o caráter híbrido do livro, uma mistura de gêneros. Deixa-o próximo da peça de teatro – mas ao mesmo tempo há longos textos narrativos ou explicativos, sem diálogo nenhum. E deixa-o perto de algo que no século de Diderot era tão comum quanto o teatro, o chamado “Diálogo Filosófico”, em que um autor imagina dois ou três personagens trocando idéias sobre um princípio filosófico qualquer. Um formato que vem desde a Grécia antiga, e resgatado no Renascimento, vindo desde Galileu Galilei até chegar aos modernos como Edgar Allan Poe.
 
Os dois personagens, Jacques (o criado) e seu Amo, estão viajando a cavalo por uma estrada, encontram pessoas, hospedam-se em estalagens, se relacionam com outros hóspedes e com empregados, e volta e meia o Amo pede a Jacques que conte a história de seus namoros. Eles viajam sem pressa. Jacques foi ferido na guerra e conta extensamente sua dolorida recuperação. O Amo tem um pretexto de visitar um parente distante, mas é só pretexto mesmo.
 
As histórias são interrompidas o tempo todo por algo que acontece em volta deles. Em alguns casos, são finalizadas mais adiante; em outros, não. Assim, dentro do livro há uma dúzia de histórias curtas que acabam tendo certo grau de independência. Uma delas, aliás, serviu de base para o filme de Robert Bresson As Damas do Bois de Boulogne (1945).


Isso dá a Jacques algo de Dom Quixote (um amo e seu criado percorrendo estradas, conhecendo gente, tendo aventuras, contando histórias) e algo de Grande Sertão: Veredas (porque esse Autor, que dialoga conosco o tempo todo, e prevê nossas perguntas, antecipa nossas críticas, desarma nossas impaciências, parece Riobaldo, que fala sozinho por si e pelo seu interlocutor mudo, que é a um só tempo o Dr. Rosa e nós mesmos).
 
É uma experiência curiosa de histórias-dentro-de-histórias – porque não é apenas Jacques que narra: o Amo conta seus folhetins, a Hoteleira conta os seus, outros personagens assumem também o papel de narradores. Oralidade constante que emana do próprio Autor. Diderot bem que poderia estar contando isso tudo de algum trono olímpico de “Narrador Onisciente Invisível”, mas não, ele puxa conversa, ela puxa o cordão (o cordel) onde estão amarradas as historietas, conversa com a gente o tempo todo.
 
JACQUES
Mas meu senhor, me jogar água! Jogar água benta em Jacques! Era muito melhor que mil legiões de demônios se metessem no meu corpo do que beber uma gota dessa coisa, benta ou não-benta. O senhor não percebeu ainda que eu sou hidrófobo?...
 
Ah! hidrófobo? Jacques disse hidrófobo? Não, leitor, não: confesso que a palavra não pertence a ele. Mas diante de uma crítica tão severa como esta, eu o desafio a ler uma cena de comédia, de tragédia, um único diálogo, por mais bem escrito que seja, sem surpreender ali a palavra do autor na boca do personagem. Jacques disse: “O senhor não percebeu ainda que basta a visão da água para me deixar furioso?” E então? dizendo de outra maneira, fui menos verdadeiro e fui mais breve. (p. 350-351)
 
Esse coloquialismo Autor/Leitor é geralmente colocado na prateleira pomposa de metalinguagem, mas para mim é um simples recuo na direção das origens orais da narrativa. Um recuo de um passo em termos cronológicos que proporciona um avanço de dez em termos estilísticos.
 
A certa altura, quando a Hoteleira, que começara a contar uma de suas historietas, pede licença por um instante, Diderot faz um “Escolha Sua Aventura” com o leitor:
 
E você, leitor, fale sem dissimulação, pois como vê estamos num ótimo clima de franqueza: prefere que deixemos de lado essa Hoteleira tão tagarela, tão elegante e prolixa, e voltemos aos namoros de Jacques? Por mim dá no mesmo. Quando a Hoteleira voltar, Jacques o tagarela não precisa de nada mais para retomar seu papel, batendo-lhe a porta na cara e dizendo pelo buraco da fechadura: “Boa noite, senhora, meu amo já pegou no sono, vou me deitar também.” (pág. 156)
 
Há vários momentos assim, em que o Autor se interrompe e consulta o leitor sobre suas preferências; e o mais engraçado é que eu, Leitor, não tenho voz nem voto. Claro que ele, Autor, conduz a narrativa como lhe dá na telha. Como nesta cena em que o Amo percebe ter esquecido sua bolsa e seu relógio na estalagem onde dormiram, e Jacques se oferece para ir buscá-los:
 
Enquanto isto, o Amo continuava avançando, mas eis agora amo e criado separados, e não sei a qual dos dois dar preferência. Se vocês quiserem seguir Jacques, cuidado: a busca da bolsa e do relógio pode se tornar tão longa e complicada que ele demorará muito a se reunir com seu Amo, o único confidente de seus namoros, e neste caso adeus namoros de Jacques. Se, permitindo que ele vá sozinho à procura da bolsa e do relógio, vocês escolherem a companhia do Amo, estarão sendo corteses, mas logo vão se aborrecer; porque não conhecem esse tipo de gente. Têm poucas idéias na cabeça, e quando acontece de dizerem algo sensato é porque se trata ou de reminiscências ou de inspiração. (pág. 47)
 
Essa voz narrativa é moderna, e é uma das sacudidelas de Modernismo que Machado de Assis (por exemplo) trouxe para a ficção brasileira, restaurando (em Brás Cubas, principalmente) essa oralidade que não é frouxa, é controlada; não é aleatória mas constrói uma impressão de liberdade; não é preguiçosa, e demanda atenção total a cada frase.
 
Essa voz acaba sendo a estrada horizontal por onde esses dois indivíduos cavalgam tagarelando, sem objetivo algum. Não é um romance que persegue um objetivo, é um romance da vida em movimento. Numa oficina literária de hoje em dia (e numa sala editorial) seria talvez retalhado, esquartejado, ridicularizado. E no entanto é muito mais movimentado e moderno do que muitas histórias atuais “com enredo” que só o são porque copiam os enredos das histórias que estão “vendendo bem”.
 
Travessia.
 
 




quinta-feira, 6 de outubro de 2022

4870) A arte da trilogia (6.10.2022)



O sucesso da trilogia fílmica O Senhor dos Anéis (2001-02-03 ) de Peter Jackson enfiou esse conceito trilógico no juízo das pessoas, como se fosse uma verruma. Ninguém fala mais: “Vou escrever um romance”. Romance é para os fracos. É só “vou escrever uma trilogia”.
 
Pra que tanta pressa? Custa nada escrever um livro, para confirmar que pode, e depois “alçar mais altos voos”, como diria o poeta? Uma coisa que sempre questionei foi o fato de que trilogia não é um conceito literário (como “romance” ou “conto”), mas editorial. É uma forma de publicar obras de ficção muito longas.
 
E as trilogias não surgiram com Tolkien – que se irritou muito com seus editores quando estes sugeriram publicar Lord of the Rings em três volumes. Ele queria um livro só, porque assim foi concebido. Os editores explicaram que o livro tinha cerca de 1.500 páginas, ficaria muito grande e muito caro. Por outro lado, a estrutura narrativa interna comportava uma divisão em três partes bastante nitidas. Tolkien concordou, com a condição de que os livros saíssem com uns seis meses de intervalo, o que aconteceu. Foi a decisão mais acertada.
 
Aliás, trilogia não é o único modelo, porque na literatura mainstream temos o “Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell (Justine, 1957; Balthazar, 1958; Mountolive, 1968; Clea, 1960), e na FC temos a insuperável decalogia Missão: Terra (1985-1987, dez livros, com cerca de 4 mil páginas ao todo).


Robert J. Sawyer, um autor canadense talentoso e premiado, é meio que um especialista nessas séries caudalosas. E tem uma interpretação interessante a respeito, numa entrevista à Locus (#600, janeiro 2011).
 
Diz ele que existe a trilogia próxima ao caso de Tolkien, a que nasce de uma única história que acaba se estendendo demais, o que dificulta a publicação num só volume. No caso dele, Sawyer fornece como exemplo sua trilogia “WWW”, em que uma garota cega recebe implantes que lhe permitem “ver” por dentro a World Wide Web. Os três volumes são Wake (2009), Watch (2010) e Wonder (2011).


Diz Sawyer (trad. BT):
 
Vistos em conjunto, penso neles como um só romance. Lembro de tudo que acontece ali, mas é preciso um esforço real, de minha parte, para saber em que ponto específico, de qual livro, algum fato ocorre. Se o público teve alguma queixa a respeito de Wake, a reclamação mais frequente foi de que há linhas narrativas que não foram devidamente encerradas. Todas se encerraram no final de Wonder – e de uma maneira espetacular, eu acho!
 
Existe um segundo tipo, para Sawyer. São três livros diferentes, mas que formam uma espécie de tríptico, de conjunto que se complementa de forma harmoniosa. Ele dá como xemplo sua trilogia conhecida como “The Neanderthal Parallax”, onde ele narra o contato de um grupo de cientistas com uma realidade paralela onde os homens de Neanderthal se desenvolveram e criaram uma civilização análoga à nossa. Os três volumes são Hominids (2002), Humans (2003) e Hybrids (2003).
 
São narrativas que envolvem uma complexa comparação entre sistemas sociais parecidos e diferentes – duas humanidades evoluindo ao longo de linhas que divergem em alguns pontos e convergem em outros, suscitando questões antropológicas, filosóficas, biológicas, religiosas, etc.




Diz ele:
 
Num caso assim, você escreve um livro em que um habitante desse mundo vem até o nosso; depois um livro onde um de nós vai visitar o mundo dele, e por fim um livro em que uma co-existência entre os dois mundos se desenvolve de forma estável. Isto produz uma trilogia natural.
 
Não li nenhum destes romances, e estou me baseando apenas nas declarações do autor. Creio que para descrever de forma mais precisa essa idéia dele – a de um triptico, três histórias diferentes formando um conjunto temático – seria preciso haver diferenças significativas de livro para livro, para que a obra não se tornasse um mero “livrão” dividido em três pedaços. Três elencos distintos de personagens principais, por exemplo, ajudariam a dar a cada livro esse tipo de autonomia narrativa, mas não sei se é o caso.  


 
O terceiro tipo, segundo Sawyer, é uma espécie de trilogia involuntária. Diz ele:
 
Neste caso, você escreve um livro que faz muito sucesso. Aí, recebe a encomenda de uma continuação, que também faz um sucesso muito grande. Aí você escreve um terceiro livro e avisa: “Pra mim, chega”.
 
Sawyer cita, a este propósito, sua trilogia chamada “The Quintaglio Ascension”, composta pelos livros Far-Seer (1992), Fossil Hunter (1993) e Foreigner (1994). A premissa, bastante ousada, é de que em tempos remotos uma civilização alienígena transportou dinossauros terrestres para um planeta remoto com condições físicas semelhante à Terra, e ali os dinossauros desenvolveram inteligência, cultura, tecnologia e ciência – a série, inclusive cria equivalentes sáurios a Galileu Galilei, Isaac Newton e Sigmund Freud.
 
No caso da trilogia involuntária, há que considerar que no primeiro volume o autor teve que proceder a uma “construção de um mundo” cheia de detalhes, exigindo pesquisas, etc., e de certa forma, mesmo sem querer, isso deixava meio caminho andado para um volume dois e um volume três. O alicerce já estava assentado. Isto não é a mesma coisa, contudo, do que sentar e preparar três resumos longos e detalhados para os volumes 1, 2 e 3 de uma série – o que seria o segundo exemplo.
 
Séries de romances oscilam entre esses três modelos sugeridos por Sawyer, que tem a seu favor a longa experiência prática.




Se pegarmos uma série famosa de FC, o “Book of the New Sun” de Gene Wolfe (quatro livros publicados entre 1980 e 1983), vemos aí o modelo tolkieniano perfeito, porque trata-se de uma única história, narrando o percurso de vida e amadurecimento de um personagem central, Severian, que evolui de aprendiz de torturador (no livro 1) até Autarca do Império (no volume 4). Não são livros que possam ser lidos fora de ordem, ou isoladamente. É uma história só, inteira, contínua.
 
Tentei pensar num exemplo de “tríptico”. Me ocorreu que o próprio Gene Wolfe tem uma obra modelar, se considerarmos “uma trilogia de noveletas”. The Fifth Head of Cerberus (1972) é um livro com três noveletas diferentíssimas, mas compartilhando o mesmo universo, e ao ler cada uma delas a gente tem revelações essenciais sobre o enredo e o significado das outras duas. Se alguém fizer isso com três romances...



É mais ou menos o que Jeff VanderMeer fez em sua trilogia “Comando Sul” (Southern Reach), que traduzi para a Ed. Intrínseca sob os títulos Aniquilação, Autoridade e Aceitação. Três histórias em torno de um mesmo fenômeno espantoso (uma visitação alienígena no litoral da Flórida), onde os personagens se repetem, mas há várias mudanças de ponto de vista, e cada livro esclarece coisas que estão ausentes dos demais.
 
Aliás, é interessante o viés editorial que faz os autores darem as mesmas letras iniciais para os diversos livros – uma estratégia de “recall”, fazendo o leitor associar com rapidez os volumes uns aos outros (e correr pra comprar o que falta).
 
William Gibson, o inventor do cyberpunk, já tem na estante umas três ou quatro trilogias com um perfil diferente. A primeira e mais famosa tem Neuromancer (1984), Count Zero (1986) e Mona Lisa Overdrive (1988), que pode, sim, ser considerada um tríptico, porque são três histórias cronologicamente sucessivas, onde alguns personagens se repetem, mas cada uma delas se conclui satisfatoriamente. Não é necessário ler o que vem depois – embora essa leitura, claro, acabe iluminando certos aspectos do que foi contado no livro anterior.



No Brasil, temos um exemplo de trilogia de FC talvez não planejada. Jorge Luiz Calife publicou em 1985 seu Padrões de Contato, depois que Arthur C. Clarkle lhe agradeceu publicamente por algumas idéias para escrever 2010, sequência de 2001, uma Odisséia no Espaço. Na época, Calife enfrentava três preconceitos, como ele mesmo relata com bom humor: era brasileiro, era desconhecido, e escrevia FC. Ou seja, não havia a menor garantia de que viesse a publicar um segundo livro, mas publicou (Horizonte de Eventos, 1986). As vendas devem ter sido o pinga-pinga habitual de todos nós da FC brasileira; mas anos depois ele fechou a trilogia com Linha Terminal (1991), pela Ed. GRD. A trilogia saiu completa num só volume, pela Devir (SP).
 
Em princípio, não há nenhum mérito ou demérito especial em conceber uma narrativa em três partes sucessivas (ou quantas forem) a serem publicadas independentemente. O problema surge apenas quando criação literária e projeto editorial entram em conflito, e isto pode ocorrer de mil maneiras.
 
No caso de uma “trilogia involuntária” pode ocorrer o caso de dois romances bem sucedidos, mas auto-suficientes, obrigarem um autor já sem novas idéias a esticar num terceiro livro uma narrativa que não tinha mais para onde ir.
 
Pode ocorrer também que uma trilogia planejada e anunciada publicamente no primeiro volume acabe se interrompendo porque o autor enveredou numa crise criativa, questionou a validade do projeto original e decidiu começar do zero um projeto novo. Foi o caso de Ariano Suassuna com o seu ciclo da “Pedra do Reino”.




segunda-feira, 3 de outubro de 2022

4869) A malbendita língua portuguesa (3.10.2022)


 
Na vitrine da livraria percebo a capa de um livro norte-americano de que sempre ouvi falar. 

É o famoso Elogiemos os Homens Ilustres (Cia. Das Letras), uma reportagem de James Agee feita nos anos 1930, em companhia do fotógrafo Walker Evans. A dupla registrou a vida dura dos norte-americanos pobres, na época da Grande Depressão.
 
O título, no entanto, é o que me fisga. O original é Let Us Now Praise Famous Men, o tradutor é o respeitável Caetano W. Galindo. Não discuto a opção do tradutor, que me parece corretíssima. Queria discutir um problema tradutório, desses que não têm nada a ver com a língua de origem, e sim com o funcionamento da língua alvo, o português-brasileiro.
 
Nossa língua é desajeitada em muitas coisas, entre elas conjugação de verbos. Tem certos tempos que o brasileiro médio não conjuga direito, e não me refiro aos seringueiros do Amazonas ou aos bóias-frias do Paraná, e sim ao brasileiro alfabetizado, que lê, que é capaz de comprar e ler um livro como o de James Agee.
 
O problema está no tempo imperativo do verbo, esse “elogiemos”. Eu sou mais ou menos um brasileiro culto e eu não falo assim. Verbo no imperativo, primeira pessoa do plural. Façamos uma experiência. Leiamos com cuidado, decoremos estas formas com precisão. Usemos isto durante algum tempo. Descontraiamo-nos; acostumemo-nos a esses escolopendros verbais.
 
Está errado usar assim? Não, eu acho que está certíssimo. O problema é que temos dois idiomas. Temos o idioma escrito, onde predomina a Norma Culta, que no meu entender deve ser respeitada, cultivada e mantida até o ano 3.000 pelo menos. E temos o idioma falado, onde cada um se vira como Garrincha se virava com as pernas que tinha.
 
O pequeno susto de estranheza que tive diante desse título (que, repito, está totalmente correto) deve ter me acontecido como reflexo de um susto, este sim, grande, abalador, que tive lá pelos meus 15 anos quando peguei na tradução de Manuel Bandeira para o Macbeth de Shakespeare.



A famosa cena inicial, das três bruxas no nevoeiro:
 
1ª. Bruxa
Irmãs, o Gato nos chama!
2ª. Bruxa
O sapo reclama!
3ª. Bruxa
Já vamos! Já vamos!
TODAS
O Bem, o Mal,
- É tudo igual.
Depressa, na névoa, no ar sujo sumamos!
 
Sumamos! Eu olhei para isso, e levei uns três segundos para entender, porque já aos 15 anos eu não falava assim. “Sumamos” era uma palavra estrangeira, uma palavra estranha. Lembrava o nome de alguma divindade sumeriana, talvez o Deus das Metempsicoses e das Abduções.
 
Por que isso tudo?  Porque nós temos duas maneiras de dizer isso, a maneira sintética (“sumamos!”) e a maneira analítica (“vamos sumir!”). O brasileiro médio (inclusive eu) prefere usar esta última, pondo na frente um verbo auxiliar, e depois o verbo principal no infinitivo. Tem muita gente que avisa em casa: “Olha, viajarei para São Paulo na semana que vem”, e está certo. Eu prefiro dizer: “Olha, vou viajar para São Paulo na semana que vem”, e também está certo.
 
Tudo na vida, como diz Maria do Rosário Caetano, depende de Nossa Senhora do Contexto. Acho natural que numa letra de bolero cantado por Nelson Gonçalves apareça: “Caminhemos... talvez nos vejamos depois...” Mas num reggae cantado por Gilberto Gil é igualmente adequado dizer: “Vamos fugir deste lugar, baby”.
 
Voltando ao livro de James Agee: o tradutor poderia tê-lo intitulado Vamos Elogiar os Homens Ilustres, ou mesmo Vamos Elogiar Agora os Homens Ilustres. Por que não o fez? Possivelmente porque achou, com razão, que o título ficaria mais longo que o necessário; e que o verbo na forma “elogiemos” ficaria mais de acordo com o tom grave e sentencioso da fonte de onde foi extraída a frase, que é um texto religioso judaico.
 
Por outro lado, veja-se que a língua inglesa usa com fluência e descontração essas formas com verbos auxiliares, tipo “Let us...”. “Let’s spend the night together!...” 

Agora imagina Mick Jagger dizendo para uma garota: “Passemos a noite juntos...”.
 
Qual é o problema, então? O problema é que certas formas de expressão, em português, podem ser gramaticalmente corretas mas contextualmente erradas, e neste caso é preciso ter um plano B. Você lê a frase em inglês, é uma frase tranquila, clara, sem nada de mais. Bota a frase em português, do jeito que a frase é... e o resultado é às vezes um mondrongo ilegível. Aquele caso tradicional do “ninguém fala assim”.
 
Me lembro dos meus tempos de banda de rock, quando a gente vivia tentando fazer versões dos clássicos do momento. A gente pegou “Try”, gravação de Janis Joplin, aquela que diz: “Try... just a little bit harder...”  E traduzimos: “Teeeente... um pouco mais arduamente...”



 
 
 
 
 





sexta-feira, 30 de setembro de 2022

4868) O Universo conspira a meu favor (30.9.2022)




É um truísmo muito antigo, e foi popularizado por Paulo Coelho em alguns dos seus livros místicos. O seu teor é mais ou menos este: “Quando você se envolve na busca de um objetivo, o Universo inteiro conspira a seu favor”.
 
É uma frase muito lembrada sempre que acontece uma coincidência favorável. Vou na barbearia, tem um cliente na minha frente, entro numa livraria para enrolar meia-hora e acho o livro raríssimo que procurava há anos, e está por dez reais. Alguém me encarrega de um trabalho e penso em recorrer a um cara cujo contato perdi há muito tempo; na volta para casa, encontro-o no metrô e o problema está resolvido.
 
Paulo Coelho popularizou essa expressão, mas nos últimos anos já a vejo sendo substituída por “o algoritmo de Deus”. “Rapaz, eu precisava saber urgentemente o autor de uma citação que vi na época da Faculdade, liguei para várias pessoas, aí resolvi relaxar, peguei um livro policial... e lá estava a informação, porque o algoritmo de Deus não perde tempo.”
 
Cabe aqui, portanto, a indagação séria: é possível que o Universo inteiro conspire a favor de uma pessoa, para que ela alcance os seus objetivos? Ou isso não passa apenas de mais uma cenoura de otimismo pendurada diante das ventas de burros-de-carga como eu, para que eu continue “buscando o meu objetivo”, “me esforçando para superar os obstáculos”, “acreditando no meu potencial”, “conquistando meu espaço no mercado de trabalho” e outras receitas da escravitude empreendedorista?
 
Acreditar nisso significaria acreditar que esse Universo Conspirador possui consciência, possui vontade, possui poder de ação localizado, e que ele se importa comigo. Com a minha insetóide presença nas suas entranhas.


Lembro disto porque numa festa de São Pedro em Campina, anos atrás, estávamos em turma tomando alguma coisa ao redor de uma fogueira. Um amigo meu (chamemo-lo Rogério) estava mergulhado na sua tese de doutorado, as dificuldades de pesquisa, as necessidades de consultas bibliográficas. A certa altura, falou que conhecera por acaso, numa parada para abastecer o carro, alguém que tinha um documento científico obscuro do qual ele precisava; e saiu-se, bem satisfeito, com essa bendita frase sobre o Universo.
 
Eu tinha tomado algumas doses de Matuta e resolvi cortar o trunfo dele. Acendi um cigarro e perguntei:
 
– Tu acredita mesmo que o Universo, um departamento tão ocupado, larga as suas tarefas mais urgentes só pra ajudar na tua pesquisa?
 
– Não é assim que funciona – replicou Rogério, que não é bobo. – O que estou dizendo é que nas ações humanas existe um sistema invisível de correspondências, uma espécie de convergência estatística. A nossa percepção individual aprende isso de forma empírica e não-verbalizada ao longo da vida.
 
– Converse mais que eu pago seu lanche – disse alguém.
 
– Vocês são uns fariseus do conhecimento – rebateu ele. – Só acreditam no que diz no Manual. Pois eu digo a vocês que o Universo percebe, sim, o que nós precisamos, e age de acordo.
 
– Ele manda botar um livro numa prateleira dum sebo só porque viu que você dobrou aquela esquina e vai passar na frente?
 
– Não é assim tão simples. Há linhas de convergência. Enquanto minha mente consciente se preocupa com a necessidade da informação, há camadas mais profundas avaliando: Onde pode haver esse dado? Que tipo de livro? Que tipo de local acessível? Como estimular a Mente Consciente dele, essa senhora tão pedante e egocêntrica, a procurar a informação no lugar mais provável?
 
– E se a informação estiver num açougue, numa sapataria ou numa lanchonete?
 
– Não está, é claro. O Universo não é caótico. Há linhas de convergência.
 
– Eu já passei semanas numa biblioteca atrás de um dado qualquer e não achei – disse alguém. – O Universo estava de mal comigo?
 
– Eu poderia dizer que é porque você não estava suficientemente focado no seu objetivo – disse Rogério, – mas prefiro ser diplomático e dizer: Nem tudo na vida dá certo sempre. Por que teria de ser assim? São processos instáveis, sujeitos à influência de muitas variáveis. Às vezes você até pegou o livro certo, onde estava o tal dado; mas se interessou pelo título de outro capítulo e foi noutra direção... coisas assim.



– Mas por que motivo o Universo simpatizaria com um ser humano? – questionei. – Muito paternalista esse seu Universo. Muito bonachão... um universo querendo ajudar os jovens... Isso é coisa de quem já estudou em Seminário.
 
Toquei no calcanhar-de-Aquiles dele, que abespinhou-se.
 
– Existe uma energia subjacente, que permeia tudo – afirmou. – Nós somos sensíveis a ela, e ela a nós.
 
– Por que essa energia não salvou Saulinho? – disse alguém. Saulinho era um amigo nosso que tinha sido atropelado na véspera e estava no hospital, enclausurado em gesso.
 
– Excelente exemplo – tornou Rogério. – As sociedades humanas se organizam de um modo muito semelhante à dinâmica dos fluxos da energia natural. O trânsito precisa fluir, certo? Fluxos convergentes precisam parar de vez em quando para dar vez ao outro, e depois retomar seu curso. Saulinho é um abestado, vinha pensando na namorada e entrou no fluxo errado.
 
– E aí o Universo conspirou contra ele.
 
– Não “conspirou”, criatura. Isso é terminologia de filme de James Bond. As energias do universo circulam de acordo com lei do menor esforço, lei da economia energética... Quando estiver num avião, olhe a trajetória de um rio. O que é aquilo? Água solta, sendo atraída para o “centro virtual da Terra”, e procurando caminho ao longo de um terreno acidentado. A energia invisível é a mesma coisa. A gente larga uma balsa no rio e o rio vai levando, sem precisar de vela, de remos, de nada. Isso seria um exemplo do “conspirar a favor”, mas na verdade o que ocorre? A gente entende como aquela água está se comportando, e usa a nosso favor. Apenas isso.
 
– São as leis na Natureza – disse alguém que finalmente achou um meio de entrar na conversa.
 
– Chamar isso de leis é o mesmo que chamar de conspiração. Não são “leis”. São constantes, padrões de regularidade da matéria. A matéria se comporta de modo coerente. Temperatura, pressão, movimento, aceleração, ciclos biológicos, tudo isso se comporta de maneira constante, e a gente estuda isso há 10 mil anos.
 
– Mais – disse eu.
 
Ele fez um gesto de olímpico desdém, e prosseguiu:
 
– São detalhes. O homem usou o ímã, o magnetismo metálico, durante milênios, sem saber por que acontecia aquilo, mas entendendo como, e pronto. O conhecimento vai galgando degraus, de um em um.



Eu voltei à carga:
 
– Certo. Mas esse fato que você contou. O carro da UFCG parou para abastecer no Riachão. Vocês aproveitaram para tomar um café. Ficaram conversando, aproximou-se um cara que reconheceu você de uma palestra anos atrás. Puxou um assunto, depois outro, você descobriu que ele tinha a cópia de uma pesquisa de um professor dele, de “xis” anos atrás...
 
– Sim. Desculpe ter falado em conspiração-a-favor. Na verdade, foi uma convergência. Se eu faço uma palestra sobre um tema científico para 200 pessoas do ramo, estou lançando 200 anzóis com isca, sabendo da possibilidade de que mais cedo ou mais tarde algum dos 200 pegue num documento precioso e pense: “Ih rapaz, professor Rogério da UFCG mexe com isso... será que ele se interessa?...”  Convergências.
 
– E quem fez o carro parar para abastecer justamente ali, naquela hora?
 
– O Acaso. Um lance de dados jamais abolirá o Acaso.
 
– Então basta só esperar pelo Acaso.
 
– O Acaso funciona muito pouco com quem está esperando. Estar parado é fechar janelas de possibilidade. Estar em atividade constante é abrir, multiplicar janelas. Se eu não tivesse encontrado o cara lá no Riachão, talvez batesse com ele uma semana depois, um mês...
 
– Ou talvez depois de ter publicado a tese com um buraco no meio.
 
– E daí? Toda tese tem mais buracos do que a defesa da Seleção Brasileira. E a gente precisa ajudar o Acaso. Precisa ser como aquele atacante que estava de costas para o gol, numa confusão dentro da área, a bola bateu na trave, bateu nas costas dele e entrou. Se ele não estivesse ali, o gol não acontecia.
 
– Coitado de Saulinho! – disse alguém. E bebemos à saúde dele.
 
 





terça-feira, 27 de setembro de 2022

4867) "As Trevas" - de Lord Byron a Castro Alves (27.9.2022)


 

(Lord Byron e Castro Alves)

Já comentei aqui a possibilidade de uma Antologia da Poesia Fantástica Brasileira, não por ser ela rica e abundante, mas por ser como aquelas jazidas de algum material radioativo que se decompõe com facilidade, e é mister recolhê-lo, analisá-lo, antes que se transforme em chumbo inerte.
 
Quando eu era pequeno ainda não tinha aparecido ninguém para me explicar que poesia e prosa eram países vizinhos mas levemente hostis. E que para passar de um para o outro era preciso passaporte, visto, autorização, certificado de vacina e uma declaração detalhada do que pretendia o viajante fazer além-fronteiras. Eu não sabia. Adolescente, tinha na minha estante o Poesia e Prosa de Edgar Allan Poe, os Pequenos Poemas em Prosa de Charles Baudelaire, assim como as Poesias Completas de Machado de Assis – então estava tudo em casa.
 
É curioso que algumas das minhas primeiras experiências de “poesia fantástica” (Augusto dos Anjos à parte) tenham se dado através de poemas estrangeiros traduzidos por alguns dos nossos grandes poetas. Preciso lembrar, também, que estou usando o termo “fantástico” no sentido mais amplo possível, e não no sentido de estudiosos como Todorov, Louis Vax, John Clute, e outros. O acadêmico procura passar na literatura o pente mais fino possível, para deixar de fora tudo que não tenha o puro DNA de um gênero; esta é a função do acadêmico. O poeta recolhe todo o cascalho que lhe cai nas mãos e extrai o resíduo mais tênue do que procura; esta é a função do poeta.
 
É bom lembrar a influência avassaladora do chamado Romantismo do século 19, que tomou conta do Brasil com variadas colorações. Nossos poetas liam Victor Hugo, Chateaubriand, Alfred de Musset, Baudelaire... Rótulos à parte (não vou começar a catação-de-lêndeas do “Mas isso é Romantismo... ou Simbolismo?”), cada um lia o que lhe caía nas mãos, assimilava o que entendia, reproduzia o de que era capaz. E la nave va.
 
Castro Alves (1847-1871) era um romântico “condoreiro”. Não é exagero dizer que sua maior influência foi Victor Hugo (hélas!), principalmente no arroubo imagético e na impulsividade política. No tempo dele, todo mundo que escrevia era capaz de ler algo em francês, de modo que ainda hoje acho excepcional que ele tenha traduzido um poema tão longo – do inglês. Mas Byron é Byron. O Lorde (1788-1824) foi o Bob Dylan do seu tempo.
 
“Darkness” é um poema apocalíptico, um poema de fim do mundo e de extinção da Humanidade. Li a tradução do baiano com 10 ou 11 anos. Meu pai tinha o volume das Poesias Completas – um volume não tão grande assim, afinal Castro Alves morreu com 24 anos. É a imagem de um mundo onde inexplicavelmente o sol não brilha mais, os incêndios devastam cidades e florestas, e a espécie humana regride à bestialidade.
 
Sei que não estou exagerando quando vejo ecos dessa visão apocalíptica em obras subsequentes, como os contos “Demônios” (1893) de Aluísio Azevedo e “A Escuridão” (1963) de André Carneiro, que incluí na minha antologia Páginas de Sombra (2003).  E um pouco também no meu poema-ilustrado Na Torre da Lua Cheia, em parceria com o desenhista Cavani Rosas (Recife: CEPE, 2022).
 
A tradução de Castro Alves é dedicada ao dr. Franco Meirelles, médico baiano, professor de inglês e também tradutor de Byron. O poeta manteve o formato essencial do original inglês, decassílabos sucessivos em versos brancos (=sem rima). Não há partição em estrofes regulares, é um “bife” inteiro do começo ao fim. Nas transcrições modernas, alguns editores quebram esse formato, muito pesado.
 
O verso usado por Byron é a cadência muito frequente em inglês chamada “pentâmetro iâmbico”: di-DUM, di-DUM, di-DUM, di-DUM, di-DUM. O decassílabo do baiano é mais solto ritmicamente, variando de cadência conforme as necessidades de acomodação do vocabulário. Aos ouvidos nordestinos, não passarão despercebidos, de vez em quando, os sons do martelo agalopado, como esse verso arrepiante que anuncia a visão: “Tive um sonho que em tudo não foi sonho!...”
 
 
**********************
 
AS TREVAS
(Traduzido de Lord Byron)
A meu amigo, o dr. Franco Meireles, inspirado
tradutor das Melodias Hebraicas

Tive um sonho que em tudo não foi sonho!...
O sol brilhante se apagara: e os astros,
do eterno espaço na penumbra escura,
sem raios, e sem trilhos, vagueavam.
A terra fria balouçava cega
e tétrica no espaço ermo de lua.
A manhã ia, vinha... e regressava...
Mas não trazia o dia! Os homens pasmos
esqueciam no horror dessas ruínas
suas paixões. E as almas conglobadas
gelavam-se num grito de egoísmo
que demandava "luz". Junto às fogueiras
abrigavam-se... e os tronos e os palácios,
os palácios dos reis, o albergue e a choça
ardiam por fanais. Tinham nas chamas
as cidades morrido. Em torno às brasas
dos seus lares os homens se grupavam,
pra à vez extrema se fitarem juntos.
Feliz de quem vivia junto às lavas
dos vulcões sob a tocha alcantilada!
Hórrida esp'rança acalentava o mundo!
As florestas ardiam!... de hora em hora
caindo se apagavam; crepitando,
lascado o trono desabava em cinzas.
e tudo... tudo as trevas envolviam.
As frontes ao clarão da luz doente
tinham do inferno o aspecto... Quando às vezes
as faíscas das chamas borrifavam-nas.
Uns, de bruços no chão, tapando os olhos
choravam. Sobre as mãos cruzadas — outros —
firmando a barba, desvairados riam.
Outros correndo à toa procuravam
o ardente pasto pra funéreas piras.
Inquietos, no esgar do desvario,
os olhos levantavam pra o céu torvo,
vasto sudário do universo — espectro —,
e após em terra se atirando em raivas,
rangendo os dentes, blasfemos, uivavam!
Lúgubre grito os pássaros selvagens
soltavam, revoando espavoridos
num vôo tonto co’as inúteis asas!
As feras ’stavam mansas e medrosas!
As víboras rojando s’enroscavam
pelos membros dos homens, sibilantes,
mas sem veneno... a fome lhes matavam!
E a guerra, que um momento s’extinguira,
de novo se fartava. Só com sangue
comprava-se o alimento, e após à parte
cada um se sentava taciturno,
pra fartar-se nas trevas infinitas!
Já não havia amor!... O mundo inteiro
era um só pensamento, e o pensamento
era a morte sem glória e sem detença!
O estertor da fome apascentava-se
nas entranhas... Ossada ou carne pútrida
ressupino, insepulto era o cadáver.
Mordiam-se entre si os moribundos:
mesmo os cães se atiravam sobre os donos,
todo exceto um só... que defendia
o cadáver do seu, contra os ataques
dos pássaros, das feras e dos homens,
até que a fome os extinguisse, ou fossem
os dentes frouxos saciar algures!
Ele mesmo alimento não buscava...
Mas, gemendo num uivo longo e triste
morreu lambendo a mão, que inanimada
já não podia lhe pagar o afeto.
Faminta a multidão morrera aos poucos.
Escaparam dous homens tão-somente
de uma grande cidade. E se odiavam.
... Foi junto dos tições quase apagados
de um altar, sobre o qual se amontoaram
sacros objetos pra um profano uso,
que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas
reunindo nas mãos frias dos espectros,
de seus sopros exaustos ao bafejo
uma chama irrisória produziram!...
Ao clarão que tremia sobre as cinzas
olharam-se e morreram dando um grito.
mesmo da própria hediondez morreram,
desconhecendo aquele em cuja fronte
traçara a fome o nome de Duende!
O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida,
populosa tornou-se numa massa
sem estações, sem árvores, sem erva,
sem verdura, sem homens e sem vida,
caos de morte, inanimada argila!
Calaram-se o oceano, o rio, os lagos!
Nada turbava a solidão profunda!
Os navios no mar apodreciam
sem marujos! Os mastros desabando
dormiam sobre o abismo, sem que ao menos
uma vaga na queda alevantassem.
Tinham morrido as vagas! e jaziam
as marés no seu túmulo... antes delas
a lua que as guiava era já morta!
No estagnado céu murchara o vento;
esvaíram-se as nuvens. E nas trevas
era só trevas o universo inteiro.
 
 
 
**************** 
 
Darkness
(George Gordon, Lord Byron)
 
I had a dream, which was not all a dream.
The bright sun was extinguish'd, and the stars
Did wander darkling in the eternal space,
Rayless, and pathless, and the icy earth
Swung blind and blackening in the moonless air;
Morn came and went—and came, and brought no day,
And men forgot their passions in the dread
Of this their desolation; and all hearts
Were chill'd into a selfish prayer for light:
And they did live by watchfires—and the thrones,
The palaces of crowned kings—the huts,
The habitations of all things which dwell,
Were burnt for beacons; cities were consum'd,
And men were gather'd round their blazing homes
To look once more into each other's face;
Happy were those who dwelt within the eye
Of the volcanos, and their mountain-torch:
A fearful hope was all the world contain'd;
Forests were set on fire—but hour by hour
They fell and faded—and the crackling trunks
Extinguish'd with a crash—and all was black.
The brows of men by the despairing light
Wore an unearthly aspect, as by fits
The flashes fell upon them; some lay down
And hid their eyes and wept; and some did rest
Their chins upon their clenched hands, and smil'd;
And others hurried to and fro, and fed
Their funeral piles with fuel, and look'd up
With mad disquietude on the dull sky,
The pall of a past world; and then again
With curses cast them down upon the dust,
And gnash'd their teeth and howl'd: the wild birds shriek'd
And, terrified, did flutter on the ground,
And flap their useless wings; the wildest brutes
Came tame and tremulous; and vipers crawl'd
And twin'd themselves among the multitude,
Hissing, but stingless—they were slain for food.
And War, which for a moment was no more,
Did glut himself again: a meal was bought
With blood, and each sate sullenly apart
Gorging himself in gloom: no love was left;
All earth was but one thought—and that was death
Immediate and inglorious; and the pang
Of famine fed upon all entrails—men
Died, and their bones were tombless as their flesh;
The meagre by the meagre were devour'd,
Even dogs assail'd their masters, all save one,
And he was faithful to a corse, and kept
The birds and beasts and famish'd men at bay,
Till hunger clung them, or the dropping dead
Lur'd their lank jaws; himself sought out no food,
But with a piteous and perpetual moan,
And a quick desolate cry, licking the hand
Which answer'd not with a caress—he died.
The crowd was famish'd by degrees; but two
Of an enormous city did survive,
And they were enemies: they met beside
The dying embers of an altar-place
Where had been heap'd a mass of holy things
For an unholy usage; they rak'd up,
And shivering scrap'd with their cold skeleton hands
The feeble ashes, and their feeble breath
Blew for a little life, and made a flame
Which was a mockery; then they lifted up
Their eyes as it grew lighter, and beheld
Each other's aspects—saw, and shriek'd, and died—
Even of their mutual hideousness they died,
Unknowing who he was upon whose brow
Famine had written Fiend. The world was void,
The populous and the powerful was a lump,
Seasonless, herbless, treeless, manless, lifeless—
A lump of death—a chaos of hard clay.
The rivers, lakes and ocean all stood still,
And nothing stirr'd within their silent depths;
Ships sailorless lay rotting on the sea,
And their masts fell down piecemeal: as they dropp'd
They slept on the abyss without a surge—
The waves were dead; the tides were in their grave,
The moon, their mistress, had expir'd before;
The winds were wither'd in the stagnant air,
And the clouds perish'd; Darkness had no need
Of aid from them—She was the Universe.
 
 
************************