quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

4783) A comédia Udiálem (12.1.2022)



Estilo é uma coisa que caracteriza um artista, mas que muitas vezes pode ser absorvida por outros. Pode ser estudado; dissecado; meditado – e depois imitado, com maior ou menor sucesso.
 
Alfred Hitchcock, por exemplo, criou um estilo próprio de contar histórias, misturando suspense, humor, romance, mistério... Locações exóticas, situações inverossímeis, precisão coreográfica na execução de cenas complexas, intuição infalível de onde colocar a câmera, uma dose certa de implausibilidade...
 
Fui um grande admirador de Hitchcock desde muito cedo (acho que vi O Terceiro Tiro quando tinha uns dez anos) e já no meu tempo de cineclubista comecei a perceber filmes que pareciam seguir a tabuada do mestre.
 
Filmes como Charada (1963) de Stanley Donen (com Cary Grant e Audrey Hepburn), A Mulher de Palha (1964) de Basil Dearden (com Sean Connery e Gina Lollobrigida), Criminosos Não Merecem Prêmio (1963) de Mark Robson (com Paul Newman e Elke Sommer)... E por aí vai. Virou um templeite. Um conjunto de recursos que qualquer um pode usar – desde que saiba.
 
Um caso parecido se dá com Woody Allen, diretor de obra tão numerosa e tão marcadamente estilística que posso sem medo propor o conceito de “Comédia Udiálem” para designar esse tipo de filme que ele pegou da tradição do cine norte-americano, e depois refinou com sua “mão boa de cozinheiro”. E com isso passou a influenciar outros.

É o caso de Um Amor a Cada Esquina (“She’s Funny That Way”, 2014) de Peter Bogdanovich, que assisti agora em meio às homenagens e lembranças provocadas pela morte do diretor. Revi também Essa Pequena é uma Parada (“What’s Up, Doc?”, 1972), e para mim são dois tipos diferentes de comédia.
 
A crítica chama tudo de “screwball comedy”, “comédia amalucada”, e de fato o rótulo cobre as duas. Há uma leveza, uma inverossimilhança dramática. Por um lado as emoções são reais, o que garante o suspense imediato (“Meu Deus! Ela vai descobrir tudo”) mas por outro a gente sabe que é tudo brincadeira, e que entre mortos e feridos vai sair todo mundo sem um arranhão. É o mundo fabuloso das comédias onde ninguém morre e só os chatos vão presos.
 
Há nas histórias uma tensão sexual permanente, cheia de subentendidos e provocações, entre pessoas mais escoladas e pessoas mais reprimidas ou ingênuas. Pessoas simpaticamente cínicas azarando pessoas simpaticamente românticas, ou vice-versa. Os mal-entendidos envolvem geralmente namoro, azaração, infidelidade, “imagem pública”...


Essa Pequena é Uma Parada tem dois aspectos que a distinguem. E que são bem dos anos 1960-70. O primeiro é o velho clichê dos Objetos Iguais que acabam sendo trocados, sendo um deles totalmente inocente e o outro algo que envolve crime, espionagem, feitiçaria, tudo que possa se tornar ameaçador. Em Essa Pequena..., são nada menos do que QUATRO maletas idênticas, de quatro pessoas que não se conhecem, no mesmo hotel, contendo respectivamente jóias valiosíssimas, documentos secretos do Governo, relíquias arqueológicas e lingerie feminina.
 
O segundo é A Perseguição Amalucada, um velho recurso da comédia screwball, que mobiliza um alto esquema de produção para acompanhar (no presente caso) uma caçada feroz de bicicletas, limusines, táxis e o escambau que ameaçam destruir com sua fúria a própria cidade de San Francisco. É comédia. Ninguém se machuca, mesmo que acabe no gesso. A comédia é um Olimpo de corpos sem morte e finais felizes.


Já a comédia Udiálem prescinde desses detalhes persecutórios, que Allen aliás chegou a usar em seu começo de carreira. Mas Bogdanovich fez em She’s Funny That Way um filme que se eu visse sem ter acesso à ficha técnica, diria “na-lata” que era do diretor de Vicky Cristina Barcelona, Celebridades, Annie Hall, Todos Dizem Eu Te Amo, Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos...
 
A lista é longa, variada, mas o estilo está todo aí. É um humor baseado na velha estrutura do vaudeville teatral. Primeiro, personagens nítidos e voluntariosos, aqueles que a gente entende em dois minutos, mas que mesmo assim nos prometem surpresas (“prometem, e deliveram!”, como dizia uma amiga minha).
 
Segundo, situações complicadas baseadas em mentiras, para que haja sempre duas versões conflitantes em jogo, para que haja sempre algo que alguém-não-pode-saber, etc. E em coincidências – porque se não houver uma cena em que maridos, esposas, amantes, detetives particulares e psicanalistas vão todos ao mesmo tempo jantar no mesmo canto, então pra quê fazer um filme?!
 
E o humor é basicamente de situações vexatórias e diálogos cortantes. No caso de Woody Allen o humor pastelão (de peripécias físicas) foi se diluindo com o passar das décadas, e parece que o de Bogdanovich também. É tão simples botar todo mundo num restaurante, num corredor de hotel, num teatro! Para que mobilizar 300 pessoas, fechar ruas, alugar helicópteros, pagar quentinhas para duzentos “innocent bystanders”?


She’s Funny That Way não tem o diálogo de Woody Allen, um diálogo que já foi consistentemente brilhante mas nos últimos anos tem sido apenas satisfatório. (Quero ver os diálogos dos críticos dele quando tiverem mais de 80 anos.) Tem, por outro lado, outras marcas do diretor. Um elenco com rostos familiares que por um lado atraem o público e por outro garantem o profissionalismo necessário para gravar um filme em 29 dias.
 
Tem a dinâmica folhetinesca necessária para pular narrativamente da confusão de A para a imprudência de B, e dali para a indecisão de C, que faz o gancho para a esperteza de D, que quando vai “dar merda” é interrompida pela interferência da confusão de A, e desse modo nós e mais nós vão sendo amarrados uns sobre os outros.


(Bogdanovich dirigindo Owen Wilson)

Os diálogos deste filme não chegam a ser woodyanos, mas, e daí? Bogdanovich é apenas um cinéfilo que virou diretor. Allen era um comediante stand-up, cujas frases de uma-linha foram mortais durante meio século, o que não é pouco. Não importa, neste caso: Bogdanovich arranjou um elenco que se vira com espontaneidade e leveza, e é tudo que o filme pede.
 
Um outro aspecto “udiálem” que vejo (além das locações novaiorquinas) é no uso de um fio condutor meio memorialístico: no caso, a ex-garota de programa (Imogen Poots, ótima) costurando os fatos com seus comentários; a narrativa que Allen usou largamente (A Era do Rádio, Poucas e Boas, Broadway Danny Rose etc.)
 
E há outro detalhe: nos filmes de Allen (tal como neste exemplo de Bogdanovich) ele escolhe como alvo o mundo das artes: o teatro, o cinema, a TV, as artes plásticas, a música popular...
 
É o mundo que ele conhece, o mundo em cujas coxias sem luz ele se move sem tropeçar. São as proverbiais ansiedades, as neuroses costumeiras, as fantasias de sempre. Allen já mexeu com mafioso, com cientista louco, com guerrilheiro, com soldados napoleônicos, com assaltantes... Mas seu universo é o universo dos artistas, aquele que todo mundo que é de fora pensa que conhece, e não sabe da missa um terço.
 


 
 

domingo, 9 de janeiro de 2022

4782) Mortes romanceadas (9.1.2022)



Escrever ficção baseada em pessoas reais é uma coisa perigosa, principalmente se as pessoas ainda estiverem vivas. Quanto mais remoto o morto famoso, mais fácil usá-lo num romance: aí estão centenas de filmes fazendo fanfic com a vida alheia, desde Napoleão até Billy the Kid, desde Leonardo da Vinci até Sigmund Freud.
 
Numa entrevista à revista Locus (# 492, janeiro 2002), Kim Stanley Robinson comenta esse tipo de saia-justa literária:
 
Não é aconselhável criticar pessoas reais do passado, quando você lhes atribui palavras que afinal são suas. Isto se mistura ao problema ético de todo biógrafo, um problema que eu mesmo não gostaria de encarar. Howard Waldrop, por exemplo, demonstra uma afeição verdadeira pelos “personagens reais” que retrata, e isso pode contornar o problema, mas se você está criticando esses “personagens reais” eles não passam de alvos que você cria para poder derrubar.
 
Joyce Carol Oates encarou esse desafio em sua coletânea de contos Wild Nights! - Stories About the Last Days of Poe, Dickinson, Twain, James and Hemingway (Harper Collins, 2008). Em cinco histórias, ela ficcionaliza os últimos dias de vida de cinco personalidades literárias dos EUA (com pequenas variantes – cada conto tem uma proposta própria). Algum leitor-fã poderá se sentir ofendido.
 
Vejamos desde logo o conto “Grandpa Clemens & Angelfish, 1906”. Ao que parece, o grande Mark Twain tinha um certo fascínio estético pelas garotinhas pré-púberes e adolescentes, entre dez e dezesseis anos. Ele criou um clube chamado “Angel Fish and Aquarium Club”, com garotas a quem ele dava presentes e tratava como suas “netinhas”. Pois bem, é o que basta para Joyce Carol Oates compor um conto devastador onde o escritor torna-se amigo e afetuoso correspondente de uma garota e depois a abandona, quando ela atinge “a idade desinteressante”. Seus últimos momentos de vida são um pesadelo em que ele é perseguido por garotinhas que o espancam, rindo às gargalhadas.
 
Igualmente cruel (e igualmente inspirado em fatos reais) é o conto “The Master at St. Bartholomew’s”. O mestre é Henry James, o rei do subentendido e do understatement, o prestidigitador de sentimentos não-expressos, desejos inefáveis e tragédias mudas. Em plena Primeira Guerra Mundial, num chá elegante com senhoras da sociedade londrina, ele impulsivamente se oferece como voluntário para ajudar na recuperação de soldados ingleses feridos.
 
Começa aí uma descida aos infernos que horroriza e fascina James, um homem tímido, tido como homossexual reprimido durante a vida inteira, e que talvez tenha morrido virgem. Ao penetrar nas enfermarias repletas e caóticas do hospital St. Bartholomew’s, ele se vê diante da tragédia do corpo, da miséria do corpo, dos salões sufocantes com cheiro de mijo, de peido, de bosta, de carne gangrenada, de cotos de membros decepados. É o mundo de todas as coisas desagradáveis (sujeira corporal, penicos cheios, vômito) que nunca tinham encontrado espaço na sua ficção, uma ficção voltada para salões elegantes, chás-das-cinco, “garden parties”. E, ao que parece, ali naquele inferno nauseabundo o mestre encontra um sucedâneo do amor.
 
Diante disto tudo, fico sem saber como classificar “Papa at Ketchum, 1961”, em que a escritora acompanha o monólogo interior de Ernest Hemingway na decadência física, emocional e mental dos dias que precederam seu suicídio em 2 de julho de 1961. A reta final do autor de O Velho e o Mar foi algo triste. Vi em algum lugar uma de suas últimas entrevistas filmadas: ele precisava ler num papel as próprias respostas. Ferimentos de guerra, acidentes, diabetes, bebida, depressão, tudo contribuiu para que ele vivesse um processo ladeira-abaixo em seus derradeiros anos.
 
Joyce C. Oates descreve esses dias como o pesadelo de um machão que fez da força e da valentia a viga central da própria vida, e se vê agora reduzido a um velhote gagá, apoiando-se numa bengala e bebendo escondido. É um retrato cruel (mais uma vez), mas provavelmente autêntico, inclusive no modo como ele repete para si mesmo de que modo irá carregar a espingarda de dois canos, sentar na cadeira, apoiar a coronha no tapete (porque no chão liso ela pode deslizar), apertar o gatilho com o dedão do pé descalço...
 
Não é uma leitura leve. E por mais que o protagonista seja pouco simpático, a gente acaba admirando a mera obstinação de um homem que foi ferido na guerra, teve problemas graves de saúde a vida inteira, na velhice foi submetido a pesadas terapias de eletrochoque, tomava remédios tarja-preta, bebia constantemente, mas teimava e resistia. Até que...
 
Hemingway não foi o único da família a se suicidar: seu pai Clarence, sua irmã Úrsula, seu irmão Leicester e sua neta Margaux morreram da mesma forma.



Estes três contos podem ser considerados como narrativas bastante realistas, admitindo-se a liberdade ficcional de fantasiar pensamentos, devaneios, pesadelos, etc.  O mesmo não acontece com o conto que abre o volume: “Poe Posthumous, or The Light-House”. É um conto despudoradamente fantástico. A premissa é de que Poe, no mês de outubro de 1849 em que morreu, teria ao invés disso encontrado uma espécie de mecenas que assumiu suas dívidas e despesas, e em troca disso o enviou para tomar conta, sozinho, de um farol localizado a duzentas milhas da costa do Chile.
 
Joyce C. Oates revela que a idéia para este conto lhe veio de um fragmento de poucas páginas, deixado inédito pelo próprio Poe, “The Light-House” – fragmento este que também foi usado recentemente como ponto de partida para o filme O Farol (2019) de Robert Eggers, com Willem Dafoe e Robert Pattinson.
 
Aqui, um link para o texto original de Poe:
 
https://eapoe.org/works/tales/lightha.htm
 
Oates parte desta idéia inicial de Poe, de um homem encarregado de cuidar sozinho de um farol, e desenvolve uma narrativa meio gótica, porque o farol em si é uma estrutura “de origem desconhecida”, que remonta a “antes da chegada dos conquistadores espanhóis”, e cuja escadaria apresenta um número diferente de degraus, cada vez que ele faz a contagem. E é uma história também meio lovecraftiana, porque as tempestades frequentes naquela latitude começam a trazer para as “piscinas” rasas formadas na rocha seres com aparência feminina, ao mesmo tempo repulsivas e atraentes, as “ciclófagas”. E mais não digo.
 
Se o conto sobre Poe já tem uma aura de ficção científica, o texto de Oates sobre Emily Dickinson, “EDickinsonRepliLuxe”, nos conduz para um futuro próximo onde é possível comprar ciborgues domésticos, feitos à imagem e semelhança de vultos famosos, celebridades da História.
 
O sr. e a sra. Krim são um casal mais ou menos afluente, marido endinheirado e esposa com ambições culturais (ela se considera poeta). Os dois adquirem uma ciber-réplica de Emily Dickinson e é ao mesmo tempo engraçado e patético acompanhar o nervosismo da dona da casa, que passa o dia espreitando sorrateiramente “Emily” em suas andanças pela casa. O ciborgue, aliás, tem a aparência externa da pessoa original, menos a estatura, que não ultrapassa um metro e meio.
 
Isto dá à “Emily” algo de boneca, mas ela tem iniciativa, apesar de ser introspectiva e tímida. Prepara e serve o chá, cuida das próprias roupas... e enquanto isto a sra. Krim vive na sua cola, ansiosa para presenciar o momento em que a grande poeta irá produzir um poema novo, um poema que não tinha sido escrito ainda, e esse poema terá sido escrito na casa da sra. Krim!  É a glória.


Joyce Carol Oates (nascida em 1938) é uma escritora respeitada nos EUA, mas raramente é citada nos textos sobre literatura fantástica e FC.  Há um bom verbete sobre ela na “Science Fiction Encyclopedia” (https://sf-encyclopedia.com/entry/oates_joyce_carol)  Pela avaliação de John Clute nesse texto, as duas décadas deste século têm mostrado uma inclinação cada vez maior da autora pelas narrativas fantásticas.
 
Ela já ganhou por três vezes o principal prêmio da literatura de horror, o Bram Stoker Award, com Zombie (1996), The Corn Maiden and Other Nightmares (2011) e Black Dahlia and White Rose: Stories (2012), além do World Fantasy Award por Fossil Figures (2011).
 
O livro que comentei aqui, Wild Nights!, foi publicado no Brasil sob o título Descanse em Paz, com tradução de Elisa Nazarian. Ao que parece, saíram edições pela Texto Editores e pela LeYa.


 
 








quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

4781) O mundo sem os Beatles: "Yesterday" (6.1.2022)


Um truque frequente da ficção fantástica é imaginar o nosso mundo quase igual ao que é – mas com uma mudança essencial, radical. Tudo igual – menos aquilo.
 
E mais: tudo igual, menos aquilo... e as consequências daquilo. Há inúmeras histórias alternativas em torno de premissas como (olha o maior clichê de todos) a vitória de Hitler na II Guerra Mundial. Ou a derrota da União, na Guerra Civil norte-americana. Ou um império romano onde não existiu Jesus Cristo. Ou um mundo onde a América não foi descoberta.
 
Adolfo Bioy Casares imaginou um mundo sem os celtas (“A Trama  Celeste”). Kim Stanley Robinson imaginou um milênio inteiro sem a Europa (que teria sido dizimada pela Peste Negra), em The Years of Rice and Salt.  E assim por diante.
 
Essas ausências podem ser menores, e mais idiossincráticas, mais peculiares. Georges Perec imaginou um mundo sem a letra “E” (La Disparition), e Damon Knight imaginou um mundo sem a letra O (“O”). Stanislaw Lem imaginou uma máquina capaz de “desexistir” qualquer coisa começando com “N” (The Cyberiad).
 
E Danny Boyle, com seus roteiristas Richard Curtis e Jack Barth, imaginou um mundo de pesadelo onde os Beatles jamais teriam existido. Existe o rock, os produtores, os executivos de gravadora, existem bandas... mas não os Beatles.
 
Yesterday (2019) é um filmezinho simpático de sessão da tarde, cujo argumento bem poderia ter sido concebido para uma série tipo Além da Imaginação.


Jack Malik (Himesh Patel) é um roqueiro comum, tentando decolar na carreira. Tem a seu lado a amiga e empresária Ellie (Lily James), apaixonada por ele em segredo. Uma noite, ele sofre um acidente no instante em que um fenômeno totalmente Twilight Zone interrompe por doze segundos toda a energia do globo. Quando sai do hospital, ele constata que o mundo é o mesmo – só que ninguém conhece os Beatles. Nem mesmo o Google.
 
O passo seguinte para ele (com um remorso e uma hesitação bem desenvolvidos no roteiro) é dizer a todo mundo que é o autor de musiquinhas como “Back in the USSR”... “Yesterday”... “Hey Jude”...
 
O enredo é sem muitas surpresas. Em seguida à premissa inicial, brotam piadinhas menores, bem distribuídas. Além dos Beatles, no novo mundo de Jack Malik não existem nem cigarros nem Coca-Cola – e ninguém percebe. Nada é insubstituível.


O Danny Boyle deste filme nem parece o autor de Trainspotting (1996), aquele filme cru, debochado, angustiado e cínico sobre rapazes escoceses que não têm o que fazer da vida. Trainspotting é um filme alternadamente pessimista e bem-humorado, fala de droga, de crime, de trambique, de solidão, de amizade, de autoritarismo, de carinho.
 
Lembra os filmes britânicos dos anos 1960 sobre rapazes sem rumo das vilas operárias e da baixa classe média, filmes como Billy Liar (1963) ou Saturday Night, Sunday Morning (1960), ou Gosto de Mel (1961), ou The Loneliness of the Long Distance Runner (1962) e tantos outros. Nada de Hollywood, na Grã-Bretanha daquele tempo. Uma vida amarga, uma vida em preto-e-branco, uma vida sem graça, sem amor, sem liberdade, sem alegria, sem pílula, sem sexo. Uma vida onde os Beatles (ainda) não existiam.


Um ponto de inflexão na carreira do diretor talvez seja o premiado Quem Quer Ser Um Milionário? (2008), que é uma história beeeeem Hollywoodiana (ou “Bollywoodiana”) sobre o rapaz humilde que vira milionário.
 
Jack Malik, o herdeiro espiritual dos Beatles em Yesterday, nada tem dos rapazes de Trainspotting: Não é um personagem visível (mesmo com o esforço do ator que o interpreta). É uma silhueta de papelão destinada pelo roteiro a ser um milionário, num filme todo articulado com a previsibilidade de um conto-de-fadas para adultos. (Ao que parece, todo adulto, hoje em dia, acredita que pode se tornar milionário.)


O mais interessante no filme de Boyle é o modo como o mundo fantástico procura acomodar suas camadas.  A natureza tem horror ao vácuo. Uma vez postulada a existência de um universo paralelo onde os Beatles nunca se formaram, a narrativa se desenvolve como se aquelas canções continuassem latentes, num limbo, pedindo para serem escritas, pedindo para surgir à tona.
 
E Jack Malik percebe a sua enorme responsabilidade. Como somente ele (aparentemente) lembra da existência dos Beatles, cabe-lhe trazer ao mundo todo o cancioneiro do quarteto de Liverpool. Um momento particularmente amargo do filme é quando vemos que Jack não lembra a letra de “Eleanor Rigby”, com a aterrorizante certeza de que, se ele não lembrar, a canção nunca vai ser gravada.
 
Carl Sagan, em seu livro Cosmos (1980), comenta a facilidade com que os tesouros culturais se perdem com o passar dos milênios, e a gente não se dá conta. Sagan lembra que das 123 peças teatrais atribuídas a Sófocles apenas sete sobreviveram. Como podemos ter certeza de que eram estas as melhores?
 
É como (diz ele) se conhecêssemos apenas duas peças de um tal William Shakespeare: Coriolano e Conto de Inverno, e tivessem chegado a nós apenas os títulos de outras, como Hamlet, Macbeth, Romeu e Julieta...
 
É este o drama de Jack Malik, porque tudo passa a depender da memória dele, da sua capacidade de recordar letras, melodias, harmonias, concepções de arranjo... Porque ele corre o risco de ficar existindo num mundo onde se perderam “For No One”, “Happiness Is a Warm Gun” ou “Here Comes The Sun”, mas em compensação talvez ele consiga lembrar tintim por tintim “Not a Second Time”... “Little Child”... “The Night Before”...



É um pouco como o drama do personagem de Borges no conto “Pierre Menard, autor do Quixote”. O fictício escritor francês quer reescrever “de memória” o livro de Cervantes. Por sorte, o livro não se perdeu, tudo é apenas um projeto quixotesco do autor, mas vendo Yesterday não há como não pensar que reescrever de memória algumas canções dos Beatles é quase tão difícil quanto reescrever o Quixote.
 
O filme de Danny Boyle é bobinho, é sessão-da-tarde, mas acaba sendo indiretamente uma homenagem à memória, à capacidade de salvar alguma coisa através da lembrança. Como no Fahrenheit 451 (livro de Ray Bradbury, filme de François Truffaut), em que num futuro onde os livros são proibidos a existência de uma obra depende apenas da sobrevivência de uma pessoa (uma só, em toda a humanidade) que traz aquele livro todo de cor em sua lembrança.












segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

4780) Resoluções para 2022 (3.1.2022)



(foto: "D. Quixote e os Moinhos Elétricos", by BT)



Tornar menos desfocadas as letras dos livros e as legendas dos filmes.
 
Adquirir um robô da Boston Dynamics para trazer do supermercado refrigerante, mineral, cerveja, vinho, suco.
 
Avistar um OVNI e não perceber do que se trata.
 
Inventar um novo esquema de rimas para o soneto.

Criar um sistema industrial de aproveitamento das fibras do coco verde.
 
Anagramatizar em português um poema de Pablo Neruda, um de Arthur Rimbaud e um de W. H. Auden.
 
Juntar todo meu dinheiro e montar uma agência de banco, para viver de juros.
 
Já que estou sem aparelho de som na sala, comprar pelo menos uma luz estroboscópica!
 
Beber como se não houvesse amanhã (e aí é que não vai haver mesmo).
 
Escrever um romance onde todos os personagens masculinos têm os nomes de ex-jogadores do Treze, e ver quantos anos leva até alguém perceber.
 
Abrir o restante das caixas da mudança de dois anos atrás.
 
Fotografar a parte inferior do meu rosto e imprimi-la em uma dúzia de máscaras.
 
Enviar pedidos-de-desculpa telepáticos para todo mundo, e dormir em paz.
 
Visitar os cinco Estados brasileiros que me falta conhecer.
 
Caminhar dez voltas em torno do Maracanã toda vez que for dia de jogo.
 
Doar minha biblioteca a dez instituições culturais diferentes, e entregá-la a quem chegar primeiro.
 
Aprender a me portar como um cavalheiro.
 
Raspar a cabeça e tatuar um labirinto.
 
Trocar as cordas do violão (vamos e venhamos, dois anos é demais).
 
Comemorar o centenário da Semana de Arte Moderna repetindo seus eventos, e chamando-a de Semana de Arte Antiga.
 
Visitar livrarias discretamente e autografar cada exemplar de livro meu que houver por lá.
 
Assistir a pelo menos uma peça no teatro, um show no bar, um filme no cinema.
 
Mandar pintar um retrato meu     a óleo, todo velho, deformado, cheio de feridas, e escondê-lo no sótão.
 
Capturar os pássaros que pousarem na janela, escrever um poema em suas asas, e soltá-los.
 
Aproveitar o carnaval para ler Mikhail Bakhtin.
 
Amarrar o boi no pé da cajarana (por via das dúvidas).
 
Passar as minhas noites fugindo do inferno, dançando no escuro, subindo por onde se desce, cantando na chuva, brincando nos campos do Senhor.
 
 
 
 


quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

4779) A tradução e as cascas de banana (30.12.2021)



Ri bastante agora de tarde com uma postagem de Carlos Alberto Mattos, no Facebook. Para quem não conhece, Carlinhos é um dos grandes críticos de cinema neste país. Por paixão, profissão e determinismo histórico ele é obrigado a ver centenas, quiçá milhares, de filmes por ano. 

Não é fácil ser crítico. Bom é ser cinéfilo: o sujeito que só vê o que gosta, ou o que lhe desperta a curiosidade. O crítico de cinema é como um psiquiatra: é obrigado a examinar o que se passa nas cabeças alheias, e isso nem sempre é agradável de ver.
 
A obrigação de ver tanta coisa nos leva aos pântanos dos filmes dublados ou legendados. O trabalho de produzir legendas/dublagem de filmes é um dos territórios mais atoladiços desta profissão, e as chances de sobrevivência são menores  do que as de quem cruza a pé o Raso da Catarina.
 
Eis a queixa de Carlos:
 
Equívocos costumeiros de tradução que me irritam profundamente na legendagem de filmes:
- "Last night" por "Noite passada" em vez de "Ontem à noite"
- "Just do it" por "Apenas faça" em vez de "Faça, e pronto"
- "At the end of the day" por "No fim do dia" em vez de "No fim das contas"
- “By the book" por "Pelo livro" em vez de "Segundo as regras" ou "Como manda o figurino".
 
Ri bastante, ri com gosto. Foi a primeira gargalhada do dia, e talvez a última do ano. E o fiz por uma razão muito simples: a de que já cometi todos os erros acima, ao traduzir.  Provavelmente ainda os cometerei de novo, porque se a experiência dos erros passados ensinasse alguma coisa a um ser humano nós já estaríamos vivendo em alguma pós-Utopia.
 
É preciso fazer uma ressalva importante, para as pessoas que não traduzem. Tradução de filmes (para legendagem ou dublagem) é um terror, um sufoco, um serviço onde geralmente o profissional recebe uma maçaroca de frases em inglês, impressas em papel, e tem que vertê-las para o português sem ver o filme ou sequer escutar os diálogos que está traduzindo. E naquela base do: “Olha, são só 30 páginas, queremos isso amanhã de tarde, sem falta.”
 
Qual o problema com os exemplos de Carlos? Para mim, tudo reside no fato de que todas essas formas que ele critica (com razão), parecem corretas, soam corretas, simplesmente porque estão coladas, obedientemente, ao sentido das palavras.
 
Entra aqui o meu Primeiro Postulado de Tradução, que reza: “A gente não traduz palavras, traduz frases”.
 
(Algum espertinho vai querer aperfeiçoar isto estendendo o conceito para “parágrafo”, etc.  Fique à vontade, ou, como se diz na tevê, seja meu convidado.)
 
Existem frases-prontas em inglês nas quais a gente deve ignorar as palavras, porque temos equivalentes úteis em português. É o caso de “By the book” que pode ser traduzido por “Como manda o figurino”, e vice-versa.
 
Eu já traduzi “Just do it” por “apenas faça” (não sei onde, nem quando; apenas fiz). Parece fazer sentido, não é mesmo? A gente chega a esquecer que “just” é uma das palavras mais dispensáveis do inglês, um mero reforço, um expletivo, ou (como dizia John Lennon) uma palavra que a gente enfia no verso quando tem uma sílaba faltando. Mesmo quando necessária, é uma palavrinha arroz-de-festa. O “Faça, e pronto” sugerido por Carlos troca essa palavra-chuchu por um termo muito mais substancial, impositivo.
 
Sigo muitos tradutores nas redes sociais, e vou apanhando pelo caminho as cascas de idéias que eles jogam fora. Algum tempo atrás a tradutora Jana Bianchi, no Twitter, comentava que depois de ver a frase “What do you mean?!” cansativamente repetida desistiu de traduzir como “O que você quer dizer?!” e passou a usar “Como assim?!”.
 
Solução perfeita, porque plenamente coloquial (há alguns casos em que a outra seria melhor – um juiz interrogando uma testemunha no tribunal, p. ex.), plenamente “nossa”, e com o efeito extra de manter a sonoridade do original.
 
(Digressão: Eu posso cometer erros bobos, mas sempre que possível gosto de ficar próximo das sonoridades do texto em inglês – sonoridades vocálicas ou consonantais, etc. Quando consigo fazer minha frase traduzida rimar com o original, considero um pequeno triunfo. É o caso de “What do you mean?” e “Como assim?”. Necessário? Talvez não. Importante? Sim, com certeza. Na prosa de ficção principalmente, na prosa literária, há efeitos sinestésicos constantes, obtidos com os fonemas, com os padrões de ritmo das frases, as cadências marcadas pelas sílabas.)
 
E outra coisa. As palavras desencadeiam respostas diferentes, e o tradutor tem que adivinhar a resposta pretendida pelo autor em inglês, e tentar descobrir ou inventar um equivalente em nossa língua.
 
Um dos meus exemplos preferidos é uma frase que vi num filme legendado na TV. Madrugada, um escritório meio às escuras, dois ladrões arrombando um cofre. Ouve-se uma sirene aproximando-se à distância, a freada de um carro diante do prédio. Um ladrão exclama: “Christ! The cops are coming!” A legenda, aplicadamente, traduz: “Cristo! Os tiras estão vindo!”
 
Está certo? Está errado? Digamos que dá-pro-gasto. O importante (diria um autor) é que nossa intenção sobreviva.
 
Mas o tradutor poderia dizer, chegando mais perto do tom coloquial imposto pela cena: “Meu Deus, lá vem a polícia!”  Em português, “Meu Deus” é mais frequente como interjeição (de surpresa, susto, desagrado, etc.) do que “Cristo” ou “Jesus Cristo” (que entra nessa frase como Pilatos no “Credo”). E um tradutor mais cascudo ou mais irreverente poderia tentar traduzir como: “Agora fudeu, chegaram os hômi.”
 
Está certo? Está errado? Em tradução a gente não procura apenas o certo em detrimento do errado. Procura o que se “adéqüa” mais, o que se encaixa melhor, o que dá um recado instantâneo e vai embora, o que reflete implicitamente o meio social do personagem falante e do contexto em que a frase é dita...
 
Traduzir não é transpor, é refazer. A sorte é que não se refaz partindo do zero.
 
 






segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

4778) O ser e o seu contrário (27.12.2021)



(Ursula LeGuin, por Camila Fernandes: Instagram @mila.f.arte)
 
Na década de 1960, Ursula LeGuin deu início à série de livros de fantasia conhecida como “Earthsea” (“Terramar”). Era para ser uma trilogia apenas, mas novas idéias foram surgindo, e a série foi aumentando. Interrompeu-se com a morte da autora, com um total de seis livros, sendo cinco romances e uma coletânea de contos. Talvez haja mais alguma coisa, que desconheço.
 
As histórias de Earthsea ocorrem num planeta imaginário e num arquipélago com dezenas (talvez centenas) de ilhas de todos os tamanhos. Algo como o Havaí ou o Japão, por exemplo, só que em escala maior. Um mundo composto de uma parte fixa, as ilhas, e uma parte móvel, o mar, por onde todos se deslocam continuamente. Uma civilização de canoeiros e navegadores.
 
Esse nome composto, Terramar, me chamava a atenção porque revelava ser um paradoxo assimilado. Terra e Mar são tidos como antônimos, como contrários, mas na verdade são espaços que se complementam para formar uma terceira coisa que necessariamente inclui eles dois, e que poderíamos chamar de o(a) Terramar ou a(o) Marterra.


O mesmo poderia ser aplicado ao nosso planeta, não é verdade?  Ele é chamado de Terra mas cerca de três quintos dele, quase dois terços, são cobertos pelo mar. E por baixo do mar existe mais terra. E nas superfícies de terra existem rios, lagos, e outras coisas que valem como infiltrações do mar, ou do elemento líquido. Nosso planeta bem poderia ter o nome de Terramar.
 
Tudo isso tem a ver com a visão de LeGuin, uma escritora que traduziu para o inglês o Tao Te King (“O Livro do Caminho Perfeito”, de Lao Tse), e para a qual os polos opostos existem, mas cada extremidade de um oposto está permeada, invadida, impregnada pelo outro. É dentro do Yang que cresce o Yin, é dentro do Yin que cresce o Yang. O mar está cheio de terras, a terra está cheia de mares. A Terra é composta de terra e mar.
 
Isto e mais uma série de exemplos me levou a formular o seguinte postulado:
 
Em nossa cultura, temos o hábito, ao tratar de uma entidade composta por dois elementos distintos e aparentemente contrários, de dar a esse conjunto o nome do mais visível desses elementos, o elemento predominante, o mais imediatamente perceptível. É ele quem “batiza”, “registra” e denomina essa dualidade.
 
Poderíamos chamar nosso planeta de Mar, porque nele os oceanos predominam; mas escolhemos chamá-lo de Terra, porque é onde vivemos, e portanto consideramos egoisticamente a terra mais importante do que o mar.


(Yin-Yang, por Aimará Decor)
 
Ocorreu-me que tratamos do mesmo jeito o dia e a noite. Um dia é um espaço de 24 horas, o tempo de uma volta completa do planeta em torno de si mesmo.  Ora, acontece que em cada momento desse giro uma parte do planeta está voltada para a luz e outra parte para a sombra. Chamamos aos momentos de luz “Dia” e aos momentos de sombra “Noite”.
 
O Dia, portanto, é algo composto de duas metades: o Dia e a Noite.
 
Essa analogia pode ser ampliada para um terceiro exemplo? Talvez.  Estive pensando na questão da memória, por exemplo. Andei vendo entrevistas de alguns psicólogos e neurocientistas, e me chamou a atenção o modo como eles se referem à memória como um processo que envolve tanto o lembrar quanto o esquecer. A memória não é apenas a atividade de lembrar, é também a de esquecer, de deletar, de descartar, de substituir, de “gravar por cima” das coisas anteriormente gravadas.
 
A Memória é um processo complexo que envolve a memória e o esquecimento. Ou, para ser mais preciso, a Lembrança e o Esquecimento.
 
Penso também na dualidade entre o nosso corpo e a nossa mente. Tudo em nossa cultura nos induz a ver as duas coisas não apenas como diferentes, mas como antagônicas. Não são! A mente faz parte do corpo, do ponto de vista físico: ela depende do cérebro, da medula espinhal, dos nervos que comandam nossos movimentos etc. 
 
A mente é um fenômeno provocado no cérebro pelos sentidos, mas que ganhou um grau espantoso de autonomia e de auto-referencialidade (eita!), tornando-se capaz de administrar a si mesma, num processo constante de retro-alimentação. Mas ela é parte do corpo e não existe sem o corpo. A chama faz parte da vela.
 
O Corpo, portanto, é um processo complexo que inclui o Corpo e a Mente.


(Luiz Antonio Simas e "O Corpo Encantado das Ruas")
 
Vendo há algum tempo uma entrevista de Luiz Antonio Simas, o autor do Dicionário Social do Samba (com Nei Lopes), O Corpo Encantado das Ruas e outros livros, grande pesquisador da cultura popular, registrei este comentário dele:
 
Eu sou um sujeito que trabalho muito com a dimensão do cruzamento. Trabalho muito com a dimensão do “cruzo”, a dimensão do encontro. Tem um princípio da cosmopercepção de mundo que é Bantu, que é Bakongo, os povos que vieram ali do norte de Angola, do antigo Império do Congo e tal...  E o Bakongo diz sempre uma coisa que eu acho muito interessante: “O ser não é ele ou o outro. O ser é ele e o outro”. E o campo da cultura é um campo de circularidade né?
 
Não sei se estou entendendo certo, mas acho que isso bate um pouco com a minha idéia de que a noção do dia como “o contrário da noite” é útil em vários aspectos, mas a noção de dia como a soma entre o que chamamos dia e o que chamamos noite é mais completa. E assim por diante.





sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

4777) Natal 2021 (24.12.2021)



(ilustração: Yuri Malkov)

1
... e a Terra esturra em chamas de agonia
e mesmo assim não pára de crescer.
O mar, cobrindo a área de lazer,
está da cor de água-de-cimento.
O cortejo parou por um momento
frente ao portão lacrado onde se esconde
a multidão que ouve e não responde
o pesado metal de uma trombeta.
Os ciclones fervilham no planeta
varrendo o pó da civilização.
 
2
É sonho de uma noite de verão
quando acordo, com a lua no meu rosto,
e não sei se é Natal ou se é agosto
que me espreita na fresta da cortina?
E um trator enferruja na piscina.
E uma tribo acampou na catedral.
E tem gente trocando o sangue em sal.
E cachorros gritando a noite inteira
que esta vida é um livro com a primeira
e a última página faltando.
 
3
Quantas noites me restam, procurando
fazer o sol deter-se antes que nasça?
Escrevendo sextilhas com fumaça?
Martelando a bigorna do juízo?
Ninguém sabe de mim. O que eu preciso
é criar, é ser mais, é seguir sendo
como os galhos de mato que crescendo
dilaceram as teias das aranhas;
é crescer, como crescem as montanhas;
e passar – como passam todas elas.
 
4
Como naufragam tantas caravelas,
ou Maceió, que afunda em sumidouros;
o abismo engolindo seus tesouros,
uma cidade a se afogar na terra...
Ou o estrídulo som da motosserra
decepando a medula das sequóias,
e a cidade renderizando as nóias,
e o vírus de plantão se propagando...
e eu correndo, eu fugindo e eu pisando
nos corações de vidro no caminho.
 
 
5
E a multidão me arrasta, e eu sozinho,
e eu nunca mais dormi de olho fechado
e não consigo ficar acordado
(um zumbi esbarrando nas cadeiras);
pandemia comendo pelas beiras
e a alegria embandeirando a sala
e eu fiquei como quem perdeu a mala
numa estação do trem de língua estranha
ou o alpinista que sobe a montanha
e lhe falta a coragem pra descer.
 
6
É Natal!  Outro ano chega ao Z.
Meu Natal incompleto, esburacado,
falta uma banda sempre, falta um lado,
e o machado do tempo está se erguendo...
Não importa se o prédio está ardendo;
minha vida mental é só em mim.
Me deixem quéto, aqui, no meu cantim,
no aconchego da minha quarentena...
Eu capto o mundo inteiro em minha antena,
e afundarei com esse mundo em paz.
 
7
E chegam os bordões celestiais,
Papais Noel, guirlandas, fios de luzes...
Nos presépios, milhares de Jesuses
multiplicam as vidas severinas,
os jingobells, árvores naftalinas,
o vinho sub-20 em cada taça,
o brinde, a selfie, o riso, a uva-passa,
a dor entrelaçada à esperança
(quanto livro perdeu-se na mudança!)...
Passou um ano, e chega mais um dia...
 
 







terça-feira, 21 de dezembro de 2021

4776) Oito cidades (21.12.2021)

 

1
Nome: Simsim. População: Flutuante. Descrição: A cidade-espelho situada numa área com cerca de 10 km2, no deserto de Ambilach. Todas as superfícies e todas as construções tridimensionais (casas, pontes, monumentos) são repetidos por drones reflectivos em movimento constante. Esse processo teve início pela multiplicação desordenada das microcâmeras flutuantes de vigia ao espaçoporto local, o maior do planeta. O efeito potencializa a cidade, tornando-a aparentemente muito maior do que sua estrutura física original. Chamada por alguns velhos pilotos dos anderespaço “O Olho da Mosca”, perdeu importância militar e estratégica ao longo dos séculos, mas tornou-se referência cultural e meta-arqueológica. Reflexos na cultura popular: um ciclo fractal de canções, em forma de cânon, fazendo citando os “oito milhões de histórias na cidade grande” e potencializando esse número a cada nova história contada.
 
2
Nome: Vão-da-Cabra. População: 20 mil. Descrição: Cidade incrustada nas galerias refrescantes da serra escarpada que acompanha um trecho calcinante do deserto de Cumaru. Uma temperatura que é um alívio no verão, e serve de abrigo aos pastores de cabras selvagens. No inverno, basta trocar o roteamento dos canais de ventilação e canais exaustores, e é possível ter algum conforto bem agasalhado. Num ecopacto que envolvia uns vinte mil seres, tem um sistema de galerias para os humanos, e três sistemas não misturados para diferentes animais domésticos.
 
3
Nome: Don Perenna. População: 18.500. Descrição: Vila tradicional num rincão remoto da Espanha, onde ainda se cantam serestas com lutes e se cultivam as tradições do Bicho Sem Cabeça, do Monta-Leão, e da Corrida da Falsa Fuga. Nesta cerimônia, criou-se o costume de, em dias aleatórios, soltar nas ruas os prisioneiros de alguma cadeia local, os quais invariavelmente supõem que estão fugindo do cárcere por um descuido dos guardas. Os presos que conhecem a festividade muitas vezes deixam-se ficar na cela, sem esperanças. A maioria foge; o divertimento da população local é fingir que está lhes dando refúgio ou contribuindo para sua fuga, quando na verdade tudo se encaminha para levá-los de volta às mãos dos guardas. Noites assim são de festa ininterrupta, gritaria, quebra-quebra, risos, foguetões, tiroteios; e um alto índice de mortalidade em mesas de bar, tanto por consunção quanto por divergências.
 
4
Nome: Ambrellis. População: 7 mil. Descrição: A cidade-aqueduto, onde todas as pessoas vivem à sombra de um aqueduto construído milhares de anos atrás por outra civilização. As fontes de água já se esgotaram há séculos, mas a estrutura, em pedra esculpida, permanece. Com mais de vinte quilômetros de comprimento, o antigo aqueduto fornece a única sombra possível no deserto de Khytian. À medida que o sol executa seu movimento pendular ao longo das estações do ano, os moradores transferem pouco a pouco suas tendas para a parte com maior extensão de sombra.
 
5
Nome: Burguenthal-le-Couan. População: 320.  Teve toda sua população dizimada pela guerra há mais de um século, e tornou-se uma cidade corredor-da-morte. Os habitantes atuais descendem todos de alguma das famílias exterminadas, e só eles têm direito de morar na cidade, como forma de dar continuidade â suas linhagens. Um véu de lendas e superstições cobre a cidade, e algumas mortes inesperadas de turistas e visitantes fizeram propagar na região o boato infundado de que pessoas de fora que durmam lá correm o risco de morrer em circunstâncias misteriosas. Indivíduos condenados à morte no cantão de Villesburg, a que a cidade pertence, pedem para passar ali sua última noite. Há casos de pessoas que vão para lá com a intenção deliberada de praticar o suicídio, numa média de três por ano.
 
6
Nome: Caramanduva. População: 1.350. A cidade das casas com uma cozinha em comum. Todas as casas foram construídas duas a duas, com uma parede comum a ambas. Cada uma tem entrada própria, salas, quartos, corredores, banheiros. No fim de tudo, há uma cozinha ampla, larga, que serve às duas casas. Através dela as famílias interagem, e podem ter acesso ao interior da casa do vizinho. Mudar-se para uma casa em Caramanduva implica em aceitar essa convivência onde se vive numa linha delicada entre intimidade e privacidade, amizade e respeito.
 
7
Nome: Spinspace. Cidade agregativa formada por cápsulas em flutuação orbital livre em torno do planeta Acton 3. Cada cápsula (que eles chamam de “casas”) tem capacidade para até dez pessoas em compartimentos separados. Estão todas ligadas por feixes de cabos de nanofibra, e através deles recebem energia e telecomunicação. Acidentes e construção de novas casas mantêm a população da cidade oscilando em torno de 1 milhão de habitantes, num cinturão interconectado que circunda o equador do planeta.
 
8
Nome: Balde do Açude. População: 2.500. Em meados da década de 1960 a prefeitura de Santa Maria da Posse (PB) construiu, com verbas da Sudene e do governo do Estado, um açude que serviria para o abastecimento da sua população. O açude secou dentro de pouco tempo, e o crescimento de um bairro periférico próximo fez com que seu terreno fosse invadido pela população, que limpou o mato do local antes ocupado pelas águas, e ali começou a instalar barracos, e depois casas de alvenaria. A comunidade declarou sua independência do município em 2005, proclamando-se “Território Livre de Balde do Açude”. O prefeito local ameaça desviar um rio próximo para submergi-los. Santa Maria da Posse continua com problemas de abastecimento.





 




sábado, 18 de dezembro de 2021

4775) Paraibês (18.12.2021)




(Flávio Tavares, "Engenhos do Brejo Paraibano")


O linguajar nordestino não consta apenas de palavras exclusivas, palavras que só se usam por lá. Também inclui expressões, frases-feitas, “ditados” compostos por palavras que todo mundo usa, mas numa combinação diferente. Por isso, gera mal entendidos de vez em quando, porque quem é de fora fica tentando colocar essas palavras tão familiares num contexto diferente.

 

Quer se parecer

Parece um pouco; lembra um pouco.  “Aquela moça ali na mesa do canto quer se parecer com uma prima minha”.  “Chegando lá você procura Fulano, é um cara baixinho, que quer se parecer com Getúlio Vargas”.  O “quer se...” não implica vontade por parte da pessoa: funciona apenas como atenuante, em casos onde dizer “Fulano se parece com Sicrano” seria exagerar a semelhança.

 

Fazer besouro

Acho que em todas as escolas, de todos os continentes, em todas as épocas, garotos e garotas fizeram isto. Consiste em produzir um zumbido com os pulmões e as cordas vocais, mas com a boca fechada e o olhar inocentemente posto em alguma coisa inofensiva: “Mmmmmmm...” O professor levanta o olhar, vê a turma aparentemente entretida com seus deveres e exercícios, ninguém abre a boca, mas o zumbido irritante se eleva, e parece vir de todos os lugares ao mesmo tempo. Quando a turma está fazendo besouro no auge, de vez em quando um mais atrevido eleva um barulho de avião-dando-rasante: “Mmmmm... uuuóóóóóiinnn... mmmmmm...”

 

Pagar o novo e o velho

Pagar pelos mal-feitos antigos e pelos mais recentes; pagar os pecados.  “Venha cá, seu cabra, que você agora vai me pagar o novo e o velho!”  “Eu só estou esperando chegar em casa, que esses meninos vão me pagar o novo e o velho”.  Existe a variante “pagar o grosso e o fino”:

 

Eu juro pelo meu rifle

que o Padre José Paulino

cai sempre na ratoeira

e paga o grosso e o fino;

não há de casar mais homem

nem batizar mais menino.

(Leandro Gomes de Barros, "Antonio Silvino, o rei dos cangaceiros", em "Literatura popular em verso, Antologia, Tomo II", pag. 108)

 

Cobrar xêxo

Está aí uma expressão complexa. “Cobrar xêxo” (o acento é necessário, para não deixar dúvida quanto à pronúncia) é jogar pedrinhas ou bolas de papel amassado, em alguém, não para machucar, mas para irritar. “Xêxo” significa pedrinha, “seixo”. Mas “passar um xêxo” também significa “calote, cano, o ato de se escapulir sem pagar a conta”. Talvez por causa disso quando alguém joga uma bola de papel etc noutra pessoa, diz que está “cobrando um xêxo”, ou seja, cobrando algo que o outro supostamente lhe deve.

 

Bater pino

Recuar, desistir, fugir vergonhosamente diante de uma situação difícil. “A gente combinou que ia reclamar das notas com o professor, mas quando foi na hora uns dois ou três bateram pino e foram embora”.  Também se usa para qualificar uma pessoa: “Eu não confio em combinar essas coisas com Fulano, ele é muito batedor de pino, já umas duas vezes deixou a gente na mão.”  Também se usa assim, para descrever a ação: “Vocês viram o discurso do ministro Fulano ontem na TV? Eita batida de pino da porra!”

 

Queimar o chão

Partir bruscamente.  “Ele disse que ia ficar aqui no fim-de-semana, mas quando deu no sábado de manhã ele queimou o chão e na hora do almoço estava em João Pessoa.”  Por analogia a um carro que arranca de maneira brusca, queimando os pneus no asfalto.

 

Maldar

Interpretar com malícia um fato qualquer. “Você não devia sair sozinha com seu namorado e chegar uma hora dessa, os vizinhos ficam maldando”.  Também se usa uma forma atenuada, apenas para indicar que se está atento para segundas intenções, ou para detalhes pouco esclarecidos: “Esse livro diz que é primeira edição, mas eu maldo que é uma reimpressão, porque fui comparar com a que eu tenho e vi que nele já tem alguns erros corrigidos”.

 

Pegar ar

Enraivecer-se, ficar furioso, ficar puto.  "Fulano anda muito nervoso...  Já é a segunda vez que eu digo uma brincadeira besta e ele pega ar comigo""A gente acertou uma laranja no bandeirinha... rapaz, ele pegou um ar que só tu vendo!"  "Me disseram que ela achou não sei o que na carteira do marido e pegou o maior ar com ele."   "Não pegue ar, não, rapaz!  Você sabe que eu tô só brincando!"   Origem: talvez o fato de que o sujeito irritado "incha" como um pneu sendo enchido de ar.

 

Ir por dentro chupando imbu

Ir caminhando, sem pressa e sem afobação. Usa-se muito quando se quer diminuir a importância de ir a pé; para dizer que o trajeto não vai ser tão cansativo assim. O “por dentro” sugere a tomada de algum atalho, e o imbu (ou umbu) entra na história como complemento fantasioso, como quem diz: “Fica tranquilo, eu vou por aqui, me distraindo”.