sábado, 12 de junho de 2021

4713) O pantelho do detalhe (12.6.2021)




(foto: Mari Lezhawa)

A gente estava numa mesa de restaurante, eram pessoas amigas entre si, professores de uma Universidade, e eu estava lá meio de convidado. Entraram numa discussão qualquer, e esse cara começou a exclamar:
 
– Pessoal, por favor! La paz, la paz!
 
Houve uma gargalhada geral. O fato de ele dizer em espanhol não me chamou a atenção, era apenas um modo de dizer, né? Como quando alguém nos entrega um objeto e a gente diz: “Gracias!”. Um enfeite verbal pra dizer algo comum.
 
Depois eles me explicaram. Era uma gíria da turma deles, porque anos atrás eles tinham recebido ali na Universidade, para dar uma palestra, um professor latino-americano, com muitas homenagens e salamaleques. No dia seguinte o professor ia embora, rolou um almoço de despedida. Aquelas situações em que uma turma de admiradores “bebe cada palavra” do visitante ilustre. Imagine um grupo de psicanalistas recebendo Jacques Lacan.
 
Alguém fez uma pergunta importante e o ilustre começou a responder algo como:
 
– Esta é uma questão muito grave. Para mim, o fator decisivo disto, para Latinoamérica, encontra-se na Bolívia. Vocês conhecem a Bolívia?
 
– Já estive na capital – disse um professor. – Passei uma semana em La Paz.
 
– Perdão – disse outro professor. – A capital da Bolívia é Sucre.
 
– Como assim? – disse o primeiro. – Todo mundo sabe que é La Paz.
 
– La Paz é apenas a sede do governo – disse um terceiro.
 
– E então? – disse o primeiro. – A sede do governo é a capital. É La Paz, portanto.
 
– Não, é Sucre – disse um quarto. – Chama-se capital constitucional.
 
– O país tem duas capitais, então? – perguntou uma professora. – E como é que faz quando---
 
– De acordo com a Constituição, só tem uma – interrompeu o quarto professor. – Que é Sucre.
 
– Vá resolver alguma coisa com o governo de lá, e vão lhe mandar para La Paz – disse o primeiro, que já tinha visitado a cidade.
 
O resultado (me contaram) é que todos se engalfinharam na discussão desse ponto. O almoço acabou, o visitante ilustre teve que partir porque o carro veio buscá-lo, e ninguém ficou sabendo qual era o fator decisivo para Latinoamérica. Desde essa época, eles criaram a expressão “La Paz” para implorar: “Gente, está-se discutindo uma coisa mais importante, não é preciso esclarecer esse detalhe agora”.


O problema é que existem seres humanos, virginianos em sua maioria, que não permitem o menor erro ou imprecisão passar diante dos seus olhos. Tem que parar o desfile de 7 de setembro inteiro, fazem com que dez mil estudantes fiquem marcando passo à espera, enquanto um inspetor se insinua no meio de um pelotão para ajeitar uma trunfa que o vento assanhou. Proibido qualquer coisa fora do lugar! – eis a palavra de ordem.
 
É uma característica do espírito nerd essa obsessão pelo detalhe. O nerd é o resultado de uma mutação genética destinada a resolver importantíssimos problemas da Humanidade numa era de aceleração tecnológica onde mais e mais coisas atingem um nível inédito de complexidade, em virtude de especificações decididas num micro-nível por força do uso de computadores. Precisamos de mentes humanas capazes de distinguir essas nuances.
 
O nerd é um filtro de exatidão. É como um browser que recusa uma senha ou uma URL de 150 dígitos se um deles estiver errado. A gente não pode convencer o browser de que “é praticamente a mesma coisa”. O browser foi programado por um nerd e lhe dirá: “Na verdade, é teoricamente a mesma coisa, mas na prática há a diferença de um dígito, e isto invalida o comando.”
 
Não duvido de que ainda veremos mesas-redondas em eventos científicos com três ou quatro nerds comparando diante da platéia suas versões conflitantes da dízima de “Pi” ou do algoritmo de frequência dos números primos. O rapaz da mesa de som poderá se perguntar qual é a serventia disso para a espécie humana, mas ele está errando o alvo. A espécie humana surgiu para ser capaz de um dia (século vinte, vinte e um, por aí) produzir esses indivíduos capazes de negar o Oscar a um filme porque na cena tal aparece a sombra de um microfone.


Deus está nos detalhes, diz um velho provérbio, e o Diabo está na percepção deles. Esses indivíduos catadores-de-lêndeas são capazes de perceber o que é invisível a todos. Quando incomodam, não o fazem por mal. Você mostra a um deles a foto de sua mãe vestida de noiva e ele diz: “A manga do vestido está desfiada”. Não é culpa dele. Está em seu DNA.
 
Não esqueço uma discussão que vi a respeito de um filme de faroeste. Chamamos o filme de faroeste, e foi o quanto bastou para que um debatedor erguesse o dedo e nos lembrasse que a história era ambientada num Estado qualquer, que já não lembro, mas que ficava na Costa Leste dos EUA.
 
“Sim,” disse alguém, “mas trata-se da história de bandidos que assaltam uma diligência e se refugiam numa fazenda, sequestrando a família do fazendeiro, até que os vaqueiros vêm em socorro do patrão e o libertam. Fazenda, gado, vaqueiros, revólveres, tiroteios, cavalos: é um faroeste”. “Mas, como, se a história se passa no Leste?” insistia o rapaz. Isso foi há uns 40 anos, e provavelmente ainda estão lá, as barbas brancas arrastando no chão sobre as teias de aranha, e não chegaram a um acordo.


Eles são sensíveis à minima incoerência. São como o canário que os trabalhadores nas minas de carvão levam consigo para dentro do poço. O canário é excessivamente sensível a qualquer emanação de gás, e quando um deles cai duro é sinal de que está na hora de evacuar a mina, antes que o gás comece a afetar os seres humanos.
 
Os indivíduos detalhistas são assim: eles são sensíveis a defeitos, erros, incoerências, imperfeições, inexatidões de todo tipo, e antes que essas coisas cheguem a um ponto de incomodar os seres humanos, eles acusam o golpe, ficam pálidos, com sudorese, apontando a página de um livro: “Faltou a crase, faltou a crase!”.
 
Por isso, quando a gente escreve ou quando fala em público, precisa estar sempre na defensiva. Pode haver um deles na platéia. Qualquer afirmação generalizante, tipo “como sabemos, o brasileiro gosta muito de música”, fará erguer-se um braço no auditório e com ele o brado: “eu não gosto!”. Para prevenir ressalvas desse tipo foram criadas expressões atenuantes como “em geral”, “na maioria dos casos”, “em grande parte dos casos”, “normalmente”, “cerca de “, “aproximadamente”... Servem para exorcizar esses indivíduos prontos a brandir uma exceção toda vez que a gente enunciar impensadamente uma regra.
 
E então o jeito é dizer “La Paz!...” – e ir em frente.
 






quarta-feira, 9 de junho de 2021

4712) Cinco cinéfilos (9.6.2021)


1
O pessoal conta que, no tempo em que Campina Grande tinha cinemas de rua, havia um tal de Dr. Gregório, advogado, que morava na Desembargador Trindade. Ele trabalhava a manhã toda no escritório que dividia com dois sócios, no centro. Voltava para almoçar em casa, dormia a sesta, e por volta das 3 da tarde trocava de roupa e subia devagar a Rua Irineu Joffily, rumo ao centro, o que o faria passar obrigatoriamente pelos dois cinemas locais, o Cine Babilônia e depois o Cine Capitólio. O costume dele era comprar ingresso num dos dois (as sessões da tarde eram às 15:30), entrar e assistir o começo da sessão, o cinejornal, os trailers, em pé junto à cortina da entrada. Depois, assistia cinco minutos do filme. Se o filme fosse interessante ele avançava e ia sentar lá na frente. Se achasse o filme chato saía, subia até o Calçadão e passava a tarde tomando café pequeno no São Braz e falando da vida alheia.
 
2
Trudi Haasse, veterana crítica teatral de Durban, confessou numa entrevista ao programa Nesta Hora, da TV local, que sua paixão pelo teatro começou, curiosamente, na infância. Trudi tinha uma irmã de dezoito anos; a família, muito conservadora, só permitia que o namorado dessa irmã mais velha a levasse ao cinema se levassem Trudi consigo. O casal de jovens ia ao cinema quase todos os dias, apenas para namorar em paz. A garota, a partir dos oito anos, foi submetida a uma dieta constante de filmes de todos os tipos: dramas, comédias, faroestes, policiais, terror, desenhos animados, crítica social... Quando chegou à adolescência, entrou para um grupo de teatro, tornou-se atriz, iluminadora, diretora, autora, e por fim exerceu a crítica teatral, em alto nível, por mais de quatro décadas. Quando um entrevistador lhe perguntou certa vez por que optou pelo teatro, ela confessou: “Não suporto cinema.”
 
3
Quando o Cine Pathé, ali perto da Savassi, funcionava como Cinema de Arte para as platéias belorizontinas, havia um casal que sempre ia nas sessões da tarde. Ele era baixinho mas muito empertigado, vestido sempre de terno preto, chapéu, cavanhaque, uma figura meio anacrônica. Era cego e tinha sempre ao lado a esposa, que o conduzia pelo braço. Ela dirigia o carro, ajudava-o a descer, comprava os ingressos. Uma vez eu estava sentado perto do casal e a ouvi contando o filme a ele. O filme era Tempo de Guerra, de Godard, um filme em preto-e-branco, tela pequena, produção quase artesanal. Ela descrevia paisagens coloridas, em Cinemascope, heroísmos de baioneta em punho, mocinhas tímidas encolhendo-se de susto diante de soldados barbudos, e dava um jeito de encaixar a narrativa com aqueles sons e aqueles diálogos lacônicos em francês. Virei-me disfarçadamente. Ele sorria, de olhos fechados, e a mulher não tirava os olhos da tela, enquanto dizia: “Centenas de soldados marchando num campo nevado... Ah, que céu azul tão belo... agora uma chuva da paraquedas cor-de-laranja...”
 
4
Um amigo meu tinha uma tia idosa, em Cajazeiras, que ia religiosamente ao cinema uma vez por ano. O advérbio se justifica, porque ela era muito católica, e toda Semana Santa ia ver A Paixão de Cristo.  O filme que ela via era uma cópia de propriedade do cinema, e era sempre o mesmo, bem antigo, aquele filme preto-e-branco, granulado, a imagem meio aceleradazinha. Mas o mundo se moderniza, e teve um ano em que o dono do cinema resolveu inovar, e na Sexta-feira Santa exibiu O Rei dos Reis, filmão cinemascope, colorido, com Jeffrey Hunter no papel de Cristo. Dona Fulaninha foi ao cinema meio no piloto automático, comprou o ingresso sem prestar atenção, mas com cinco minutos de filme retirou-se da sala de projeção e saiu bufando de raiva. Chegou em casa indócil, reclamando da heresia. A família quis acalmá-la: “Mas titia, que que tem que eles resolvam mudar de filme?” E ela, escandalizada: “Que que tem? Botaram um filme de mentira, americano, com um ator fingindo que é Jesus! Eu quero ver é o filme de verdade, o do Calvário, com o Jesus verdadeiro!”  Ninguém teve coragem de contar.
 
5
Nos velhos tempos, os cinemas principais de Campina Grande tinham três sessões por dia. A matinê, sempre às 15:30; e duas sessões à noite, sempre às 19:00 e às 21:00, a não ser nos casos daqueles filmes que extrapolavam, como E o Vento Levou. Nesse tempo, também, não havia o costume ditatorial de esvaziar a sala após uma sessão. Terminava o filme, acendia-se a luz, e quem quisesse continuar assistindo podia ficar, ir no banheiro, comprar balas na sala de espera, e depois voltava lá para dentro. Muitas vezes fiz isso apenas por causa do futebol: via a primeira sessão completa, esperava para ver de novo o Canal 100 na segunda, e depois ia embora.
 
Nos tempos de cineclube, não foram poucas as vezes que eu via o filme à tarde, saía do cinema às 17:30, corria para casa, jantava, voltava correndo, via o filme de novo às 19 e às 21. Fiz isso com O Anjo Exterminador, O Homem do Prego, Help, Mickey One, O Ente Querido... A gente sabia que depois daquele dia (as sessões de “Cinema de Arte” eram um dia apenas) nunca mais teria chance de rever o filme.
 
E aqui entra o caso de um conhecido meu, vamos chamá-lo Nestor. Ele trabalhava de balconista no comércio, era casado, tinha filhos pequenos. E gostava de cinema. Só tinha um problema: de tarde não podia ver filme, porque estava trabalhando. A loja fechava sempre por volta de 7, 7 e meia, porque era preciso conferir contas, material, sei lá o que. O fato é que ele só ficava liberado por volta das 8 da noite. E não queria ver a sessão das 9, porque terminava às 11 e ele gostava de botar os filhos pra dormir.
 
Nestor criou um hábito. Fosse qual fosse o filme, ele saía da loja direto pro cinema, comprava ingresso e assistia a segunda metade do filme. Esperava no intervalo, continuava lá na segunda sessão, e via o filme até a parte em que tinha chegado. Aí saía – era sempre por volta de 10 horas, 10 e pouco. Ele ainda chegava em casa (na 4 de Outubro) e pegava as crianças acordadas. E desenvolveu uma ciência da leitura fílmica. Dizia ele:
 
– Rapaz, é só ir pegando as pistas, sacando a história, vendo quem são os personagens, prestando atenção ao fim. No intervalo eu repasso tudo na memória. Quando começa a segunda sessão, é uma beleza, o filme vai começando e cai uma ficha atrás da outra, tudo se explica, tudo se encaixa, tudo é “ah, então era por isso”, “logo vi que tinha sido assim”, “puxa, quem diria”... O cinema é uma grande arte, a toda hora tem um mistério que não se acaba, uma surpresa que ninguém espera.
 





domingo, 6 de junho de 2021

4711) O que é "fansplaining" (6.6.2021)



Os dicionários urbanos dos anos mais recentes registraram uma palavra de origem inglesa que logo se fixou no uso geral: mansplaining. É formada por “man” (homem) e “explain” (explicar).
 
Refere-se ao hábito (irritante, de fato) dos homens que se sentem no dever de explicar um assunto difícil a uma mulher, mesmo quando ela notoriamente entende daquilo tão bem quanto eles, ou melhor.
 
Não importa se a mulher tem 55 anos e é doutora em teatro elisabetano, e o homem tem 30 e acabou de ler uma peça de Shakespeare pela primeira vez. O simples fato de ela ter mencionado o dramaturgo no meio de um bate-papo no jantar da casa de alguém é o bastante para o cidadão passar a explicar a ela que nem tudo que se atribui a Shakespeare deve ser levado ao pé da letra, porque é bem provável que um tal de Francis Bacon tenha escrito aquelas peças, porque sobre Bacon sabe-se muita coisa, enquanto que Shakespeare era um sujeito anônimo, com poucas referências biográficas, então a lógica nos leva a admitir que ele deve ter servido de testa-de-ferro para que os textos de Bacon fossem encenados, porque---
 
E por aí vai, até ele recitar de memória um artigo que leu na Superinteressante.
 
Todo homem (inclusive eu) já incorreu nesse tipo de descortesia, cuja raiz está na suposição de que os homens sabem de tudo e as mulheres não sabem de nada. O mansplaining é um tipo específico de paternalismo. Pode se dar de forma agressiva, humilhante, mas muitas vezes se dá com trajes de boa vontade, de solicitude, uma atitude meio paternal por parte de um intelectual grisalho e estabelecido, que se dispõe a contradizer e esclarecer uma senhorita mais jovem, mostrar os pontos onde ela está errada, ensinar-lhe o caminho certo, a realidade das coisas.
 
Só não faça como aquele sujeito que depois de uma sessão como essa, sobre um tema científico qualquer, aconselhou a jovem: “Para entender melhor, leia o livro da Doutora Fulana de Tal”, e ela respondeu: “Eu sou a Doutora Fulana de Tal”.
 
Nos últimos tempos surgiu um termo derivado: fansplaining. É quando um fã de uma coisa qualquer (banda de rock, série de TV, gênero literário, etc.) julga-se o grande conhecedor de todos os meandros e todos os detalhes daquele assunto, mas movido por um espírito de generosidade se dispõe a dar explicações de 45 minutos sobre qualquer detalhe que por acaso alguém mencione erradamente no meio da conversa.


– Pois é... Existe uma mania de dizer que a obra dos Beatles é apolítica, que só fala de amor e de bobagens psicodélicas. Eles esquecem uma música como “Revolution”, onde Lennon dizia claramente que ---
 
– Sim, mas a qual “Revolution” você se refere? Não deve ser “Revolution 9”, que é uma colagem de sons.
 
– Não, é a outra, o lado B do compacto de “Hey Jude”.
 
– Sim, mas é esta gravação do compacto, ou a que foi chamada “Revolution 1” e saiu no “Álbum Branco”?
 
– É a mesma música.
 
– Perdão, não é. São gravações diferentes de uma mesma idéia, com diferentes mixagens, alterações na letra... Uma foi gravada entre maio e junho de 1968, e a outra em julho.
 
O fã é uma mistura de aluno CDF e de concorrente a programas como O Céu é o Limite. Decora vorazmente livros e mais livros sobre um assunto, na esperança de que alguém pergunte de repente no meio de uma conversa: “Quem foi mesmo o ator que fez o papel de Calígula em O Manto Sagrado, alguém sabe?...”  e ele vai pigarrear discretamente e dizer em tom casual: “Ora, ora, não terá sido Jay Robinson?...”


Demonstrar conhecimento factual é mais importante para o verdadeiro nerd do que defender uma opinião subjetiva, mas ele não recua diante desta outra possibilidade. Como ele sabe milhares de fichas técnicas de cor, acha que isso o capacita a ter poder de veto sobre as opiniões alheias. Mesmo sobre as do artista cuja obra está em discussão.


O escritor Neil Gaiman está agora às voltas com esse problema, porque sua série de quadrinhos The Sandman está para ser adaptada numa série de TV, e ele está aguentando o fansplaining de alguns admiradores sobre o que a série pode e não pode fazer, sobre as características raciais ou de gênero dos personagens que ele próprio criou, sobre o desenvolvimento dos argumentos, etc. e tal.
 
Gaiman se dá o trabalho de passar parte do dia nas redes sociais explicando que quis dizer isso e não aquilo quando escreveu as histórias, que criou os personagens deste ou daquele jeito... No fundo, ele sabe que é impossível criar uma obra, vê-la sendo lida por centenas de milhares de pessoas, e esperar que essas leituras sejam todas parecidas com a dele. Não é assim que funciona.
 
O autor não pode impor uma leitura única sobre a obra que escreveu, mas se ele que é o autor não pode, por que um fã poderia?
 
A função da obra é produzir (voluntariamente ou não) uma multiplicidade de leituras divergentes, convergentes, discordantes, contraditórias, complementares, mutuamente reveladoras... É assim que a criação literária (e artística em geral) se impregna na cultura de seu tempo e permanece viva.
 
Para isso ela precisa de leitores, de críticos e de fãs. Críticos e fãs são dois conjuntos que hoje em dia se interseccionam cada vez mais, numa época em que milhões de fãs produzem blogs (como é o meu caso com o Mundo Fantasmo), podcasts, canais do YouTube, etc., para divulgar suas opiniões.
 
Uma obra sobre a qual todo mundo esteja de acordo é uma obra que nunca será checada, relida, reavaliada, discutida, questionada, atacada, defendida, mantida viva e acesa na memória das pessoas, 100 ou 200 anos depois de aparecer.
 
O autor desencadeia esse processo. Ele tem todo o direito de discordar de algumas interpretações do seu texto, mas não pode sonhar em ter todas elas sob controle.
 
Por isso eu admiro a cara de pau, a singeleza e a tranquilidade de Gabriel Garcia Márquez quando se refere às discussões dos críticos de Cem Anos de Solidão:
 
Todo bom romance é uma adivinhação do mundo. Os críticos assumiram, por sua conta e risco, a grave responsabilidade de decifrá-los, e é preciso esperar que o façam. Não me refiro, é claro, às incontáveis alusões de caráter privado que há no meu livro, e que somente meus amigos íntimos podem descobrir: que cada data corresponde ao aniversário de alguém, que uma personagem tem o mesmo temperamento da minha mulher, que os nomes que alguém pretende pôr nos filhos são os nomes dos meus filhos... e mais mil coisas que é impossível descobrir pela simples leitura do romance. O que me alarma, por outro lado, é que ninguém tenha assinalado uma só das 42 contradições que eu mesmo descobri depois de publicar o livro, nem os seis erros graves que me foram indicados pelo tradutor italiano, e que não vou corrigir nas futuras edições, nem nas outras traduções, porque não seria uma atitude honesta.
 
(entrevista a Armando Durán, Revista Nacional de Cultura, Caracas, setembro de 1968)
 


 




quinta-feira, 3 de junho de 2021

4710) Minhas canções: "Alpinista Social" (3.6.2021)



Algumas músicas dão um trabalho danado pra fazer. A gente mexe nelas durante meses, às vezes durante anos, até achar que ficaram com jeito. Outras não: parece até que chegaram prontas.
 
Esta aqui surgiu numa tarde meio ociosa, o telefone tocou e era Lenine, com uma idéia e uma proposta. Ele vinha tentando entrar na rinha disputadíssima de músicas para trilha sonora de novelas da TV Globo. Além de render alguns caraminguás em direitos autorais, isso servia como uma boa vitrine para compositores e intérpretes.
 
Corria o ano de 1990, pelo que calculo. Tínhamos acabado de compor um samba, “Virou Areia”, que ganhara um dos prêmios no Festival de Avaré, a FAMPOP. A esta altura já tínhamos composto alguns sambas de sucesso para os blocos da Zona Sul (Suvaco do Cristo, Simpatia é Quase Amor). Que tal emplacar um samba numa novela? A novela da vez era Lua Cheia de Amor, que a Globo estava gravando e estrearia em breve. Ele pegou o carro e foi lá em casa, no Catete.

 
O conceito – música de novela tem que ter um conceito – era simples. A personagem se chamava Kika Jordão, e ia ser interpretada por Arlete Salles. Era uma mulher de classe média fascinada pelas colunas sociais, pela vida das socialites, e querendo se enturmar no meio delas. Uma mulher sem muita classe, querendo bancar a “phyna” e batendo na trave o tempo todo. O marido trabalha com algo relativo a roupas, tecidos, etc.
 
Em inglês a expressão para esse tipo de gente é “social climber”, alpinista social. Foi esse o ponto de partida. Lenine fez uma levada inicial, cantarolada na base do tã-rã-rã, do lá-rá-rá, e os versos foram surgindo.
 
Apesar da idade ela nunca se cansa
de entrar nessa dança e sair no jornal...
E tem sempre um plano
por debaixo do pano:
ela é alpinista social...


(Arlete Salles, como "Kika Jordão")
 
“Por debaixo do pano” é uma alusão talvez pouco sutil à profissão têxtil do marido. Tínhamos que falar um pouco nas pessoas que querem “falar estrangeiro” ou citar nomes de gente famosa, e esta foi talvez a estrofe mais divertida de fazer:
 
Vira a noite no drink a pensar no overnight
no hi-fi do society ela rodou...
 
O “overnight”, de triste memória, era a aplicação financeira que os bancos faziam diariamente para manter o poder de compra dos correntistas. Numa época em que havia inflação de até 2 ou 3% ao dia, na virada-da-noite era preciso recuperar essa perda.
 
Pensamos então em falar em gente famosa, porque Kika Jordão teria o cacoete habitual de dizer que “era assim com” A, B, ou C.  Na época, o comandante Jacques Cousteau vinha ao Brasil com frequência, não seria impossível alguém no Rio dizer que já tomara algum “champã” com ele. E veio o verso:
 
Plástica no nome, pra não dar vexame;
de francês só conhece Jacques Cousteau.
 
O problema é que não encaixava na métrica! O nome do cara tem quatro sílabas, não havia como encaixá-lo naquelas três notas. Precisávamos de um nome igualmente francês de três sílabas – e o que nos ocorreu foi Belmondo, o famoso Jean-Paul Belmondo de Acossado, que, trinta anos atrás, era mais lembrado do que agora. E ficou: “De francês só conhece Belmondo...”
 
(No YouTube, quem transcreveu a letra não conhecia o ator, e teve que se virar com “Belle Mondeau”, que não deixa de ser uma saída interessante.)


(Jacques Cousteau + Belmondo)
 
Mas os compositores eram (são) teimosos que só um par de mulas, e nenhum dos dois queria abrir mão do nome do bravo oceanógrafo. E assim saíram-se com esta preciosidade, iniciando a estrofe seguinte:
 
E já que custou
tanto a chegar        
no sopé da montanha principal...
 
Com este, garantimos nosso lugar de honra entre os “20 Trocadilhos Mais Infames da MPB”.
 
Lenine gravou a música, com um ótimo arranjo e uma orquestração arrasante. Arlete Salles deu um baile com a personagem. E durante meses chega dava gosto ver as presepadas cênicas depois das quais ela dava uma rabissaca e saía de rua afora, com um sobe-som da música:
 
Lá vai ela, nas pegadas da moda...
 
Pense numa música feita em duas ou três horas, à base de café e bolacha Maria!  Fiquei muito satisfeito, e durante os meses seguintes pensava com meus botões: “Olha aí, como foi simples... Em uma tarde, abri para mim um caminho profissional novo: compositor de trilhas sonoras de novelas!  Vou emplacar muitas outras músicas nas novelas da Globo!”.
 
Ledo engano. Pra mim, foi a primeira... e única.
 
 
*******
 
A gravação de Lenine:
ALPINISTA SOCIAL
(Lenine / BT)
 
Apesar da idade ela nunca se cansa
de entrar nessa dança e sair no jornal...
E tem sempre um plano
por debaixo do pano:
ela é alpinista social...
 
Vira a noite no drink a pensar no overnight
no hi-fi do society ela rodou...
Plástica no nome, pra não dar vexame;
de francês só conhece Belmondo.
 
E já que custou tanto a chegar
no sopé da montanha principal,
ela se preza, ajoelha e reza
para ser alpinista social.
 
Lá vai ela, nas pegadas da moda,
na alta roda, quer passar sem pedigri...
Defasada, mas é boa aluna,
topa qualquer uma, nessa pressa de subir...
 
Lá vai ela... no hi-fi do society
Lá vai ela... quer sair no jornal
Lá vai ela... por debaixo do pano
Lá vai ela... alpinista social
Lá vai ela... sem pedigri
Lá vai ela... nessa pressa de subir
Lá vai ela...
 
 
 




 





segunda-feira, 31 de maio de 2021

4709) O beijo radioativo da morte (31.5.2021)



 
Kiss me Deadly (1955), dirigido por Robert Aldrich, teve no Brasil o título de O Beijo da Morte. É um desses filmes que “estouram a costura” dos gêneros cinematográficos, unindo elementos disparatados, contraditórios. Toda vez que o filme vai se encaminhando na direção de um clichê previsível, escorrega e vai noutro rumo.
 
Começa pelo protagonista. Mike Hammer é o detetive particular criado por Mickey Spillane, apologista do machismo e da violência. Acho que li um ou dois romances de Spillane, que de fato tem esse viés meio sadístico, com longas cenas de espancamento e de violência física descritas com visível prazer. Se os leitores dele compraram ingresso para ver isso, quebraram a cara. A única cena “spillanesca” no filme é quando Hammer fecha uma gaveta nos dedos do médico gordinho que se recusa a entregar-lhe um objeto-chave para a solução do mistério.
 
E Hammer não aparece como nenhum brucutu. Interpretado por Ralph Meeker, ele está até bastante “meek”, embora sempre carrancudo quando se confronta com a polícia. E também dá uma de indiferente quando recebe os afagos de sua secretária-amante Velda (Maxine Cooper), aquela típica assistente devota sem a qual o detetive não conseguiria juntar as pistas. Os dois têm boas cenas, e alguns diálogos memoráveis (Ele: “Você nunca está por perto quando eu preciso de você.” Ela: “Você nunca precisa de mim quando eu estou por perto.”).


É um filme “noir” pelo estilo visual, pela fotografia de Ernest Lazslo, cheia de ângulos caprichados e iluminação em alto contraste. E pela sensação de perigo desconhecido e iminente. Nem o público nem o detetive fazem a menor idéia do que está acontecendo, e de por que tanta gente aparece morta de uma hora para outra.
 
Existe uma fronteira pouco nítida entre o policial “noir” e o policial “hardboiled”. Em geral, usam-se esses dois termos com a mesma função, tanto na literatura quanto no cinema. Há uma distinção, contudo, se quisermos ser mais precisos.
 
O “noir” é geralmente uma história de indivíduos meio fracassados, atormentados, metidos em crimes, ameaças, situações-limite, lutando contra tudo. São homens e mulheres anônimos, civis comuns, perdidos na selva urbana e entrando em choque com as feras, metendo-se em situações de crime sem saber ao certo por quê.
 
O “hardboiled” é o romance ou filme sobre indivíduos durões, resolutos, às vezes violentos, mas sempre implacáveis, que enfrentam forças superiores à sua. Frequentemente é um detetive particular que bate de frente com a polícia, com os bandidos, com a imprensa, com a Justiça. São sujeitos cínicos, calejados, às vezes sedutores, inteligentes o bastante para fazerem deduções detetivescas, e impacientes o bastante para descer a porrada quando precisam resolver logo uma pendência.




O Beijo da Morte é uma mistura dos dois, porque no cinema o filme “hardboiled” não me parece ter criado uma estética visual específica, e o “noir” sim. Alguns grandes filmes com a estética “noir” (fotografia, iluminação, cenários) são A Marca da Maldade (1958) de Orson Welles, O Terceiro Homem (1949) de Carol Reed, Pacto de Sangue (1944) de Billy Wilder... Filmes com influência do Expressionismo Alemão e com aqueles ângulos extravagantes, um claro-escuro violento, efeitos de iluminação móvel (faróis de carro que passam, lâmpada que balança, lanternas elétricas nas mãos, etc.). Cenários às vezes bizarros, às vezes filmados em ângulos ameaçadores.
 
E ao mesmo tempo o roteiro de A. I. Bezzerides desenvolve uma situação típica de filme hardboiled, onde o detetive, a polícia e os bandidos formam um triângulo de ameaças mútuas numa correlação de forças que se altera a cada cena, a cada nova morte, a cada nova surpresa, mas o detetive durão assume sempre aquela atitude de quem “não abre nem prum trem”.


Aí entramos em outra reviravolta. Mike Hammer se meteu nesse mistério porque resolveu dar uma carona a uma mulher misteriosa, vestida apenas numa capa, que vinha correndo à noite pela rodovia. Os dois são presos por bandidos, a mulher é torturada e morta, e Hammer decide que vai, se não propriamente vingá-la, pelo menos entender por que ela representava uma ameaça para alguém.
 
Kiss Me Deadly dá algumas triscadas de leve na ficção científica ou pelo menos no policial high-tech que viria a se consagrar no futuro em filmes como A Conversação (1974) de Francis Coppola. Ele nos mostra na casa/escritório de Hammer uma secretária eletrônica que utiliza um gravador-de-rolo daqueles antigos. Engenhocas assim já existiam em 1955, mas o que tento imaginar hoje é o impacto que a visão desse aparelho, na casa de um detetive, produziria na platéia.

 
E o filme tem um dos “McGuffins” mais intrigantes na história do cinema. “McGuffin” é uma expressão atribuída a Alfred Hitchcock para designar o objeto que todo mundo (detetive, bandidos, polícia) luta para obter. Pode ser dinheiro, jóias, drogas, documentos, planos secretos de um submarino atômico... No fim não importa, dizia Hitchcock; ele está ali somente para botar em movimento o mecanismo das mortes e das perseguições.
 
O primeiro McGuffin da história é uma mensagem que a mulher da cena inicial deixa para Hammer. No momento em que ele lhe dá carona no carro, ela diz que se chama Christina, em homenagem à poetisa Christina Rossetti. O detetive dá a essa informação a carga de irrelevância que seria de se esperar da parte de um detetive de Mickey Spillane. Mais tarde, porém, ele descobre no apartamento da mulher um livro da poetisa, leva-o consigo, e mediante uma dedução consideravelmente facilitada pelo roteirista do filme, acaba chegando ao segundo McGuffin.
 
Que é uma caixa misteriosa, guardada num armário de um clube. Quando Hammer encontra a caixa, comenta em voz alta que ela parece muito quente. Ao entreabri-la, escapa-se dali uma luz de calor intenso, que acaba queimando sua mão. E no clímax da narrativa outra pessoa abre de vez a caixa e ela se transforma, como um personagem advertira pouco antes, na Caixa de Pandora. A caixa capaz de libertar todos os males do mundo.


Subentende-se que a caixa continha alguma coisa radioativa (é bom lembrar que o filme surgiu apenas dez anos depois de Hiroshima), se bem que cientificamente isso suscita mais desconfiança do que respostas. Não importa: é a guinada final de um filme que era ao mesmo tempo um policial “noir” e um “hardboiled”, e que na sua reta final vira a esquina bruscamente rumo à ficção científica, mas a FC de filmes muito pouco científicos como Tarantula (1955) de Jack Arnold ou O Mundo em Perigo (1954) de Gordon Douglas.
 
Essas pequenas heresias genéricas acabaram tornando Kiss Me Deadly um filme memorável no meio de tantos outros, cinematograficamente superiores, mas que mantêm do começo ao fim a coerência de gênero – como O Falcão Maltês (1941) de John Huston ou The Big Sleep (1946) de Howard Hawks.
 
E a “caixa da morte luminosa” deixou uma impressão duradoura no cinema dos EUA. Dois ou três exemplos me vieram logo à memória, e uma pequena busca no Internet Movie Data Base me trouxe outros. A abertura da Arca da Aliança no final de Os Caçadores da Arca Perdida (1981) de Spielberg, derretendo todo mundo com sua luz mortífera. O misterioso alienígena escondido na mala do carro-em-fuga do subclássico Repo Man, a Onda Punk (1984) de Alex Cox. A bola luminosa que concentra em si toda a maldade do mundo, no desenho-antologia Heavy Metal, Universo em Fantasia (1981) de Gerald Potteron. E mais, e mais...
 
Como diria alguma divindade cínica, tatuada e sob o efeito de um poderoso psicotrópico: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos derreterá”.


(O filme pode ser visto por quem se associar, e o preço é bem compensador, ao saite de streaming Belas Artes À La Carte, que recomendo.)








sexta-feira, 28 de maio de 2021

4708) Falatório nordestino (28.5.2021)




(foto: Campina à noite, por Leydson Jackson)

São jeitos de falar, jeitos de dizer que se fala em vários lugares do Nordeste. Se se usa em outras regiões, é porque foram nordestinos que levaram para longe.
 
PEGAR
Um expletivo para dar mais força ao verbo que vem em seguida. “Fui reclamar de minha filha, ela pegou e saiu da sala sem responder.” “Minha mãe disse que se eu deixasse a cama desarrumada ela me botava de castigo, aí eu peguei e deixei, pra ver se era mesmo”.
 
Também se usa o verbo “ir” num sentido semelhante, de mero reforço. “Eu duvidei que Fulano conseguisse beber um café quente como aquele, pois o danado foi e bebeu”.
 
PEITICA
Teimosia, implicância.  “Ele fica de peitica comigo porque sabe que eu já fui namorado da noiva dele, mas qual é a culpa que eu tenho?”

O cunhado dissera que, pessoal, amanhã era Carnaval!  Numa alegria estranha que Deisi talvez não tivesse, concentrada ainda na aula que dera. Mas a irmã continuou na peitica, reclamona, reprovando inclusive a aula.
(Marilene Felinto, O Lago Encantado de Grongonzo, pag. 139)
 
NÃO DAR UM PREGO NUMA BARRA DE SABÃO
Diz-se de alguém muito preguiçoso ou muito rico, que não faz o menor esforço.  “Ela é quem sustenta e casa e cuida dos filhos, o marido não dá um prego numa barra de sabão e ainda pede dinheiro a ela pra ir beber.”
 
PARA O ANO
No ano que vem. Usa-se também “para o mês” e “para a semana” (esta última, sempre em contração: “pra semana”).  “Pra semana começam as aulas, é bom ir logo procurar seu material do colégio”.  “Eu vou viajar ao Rio para o mês, se tiver alguma encomenda pode ir preparando”.  “Para o ano vai ter eleição, aí você vai ver gente aqui prometendo calçar a rua.”  
 
Curiosamente, vale notar que no caso do mês e do ano não se usa, nunca, a forma contraída (“pro mês”, “pro ano”).
 
É DA VEZ QUE...
O mesmo que “É dessa vez que...”: “Se o pneu do carro furar, é da vez que eu me lasco: deixei meu estepe no carro de meu irmão.”  É uma dessas expressões apenas expletivas, intensificadoras, que podem ser extraídas da frase sem mudar seu sentido ou sua estrutura.
 
SIMÃO - O que eu vou fazer é escrever três folhetos arretados, três folhetos chamados “O Peru do Cão Coxo”, “A Cabra do Cão Caolho” e “O Rico Avarento”.  Vendo tudo e é da vez que fico rico!
(Ariano Suassuna, A Farsa da Boa Preguiça, Ato III)
 
É DE ROSCA?
Pergunta que se faz quando alguma coisa está demorando muito.  “Ô garçon, esse sanduíche é de rosca?  Tem mais de dez minutos que eu pedi!”   O termo implica uma comparação entre um prego, que se enfia ou se arranca de uma vez só, com um parafuso, que é preciso enroscar ou desenroscar.
 
GARAPA
Água com açúcar.  É uma espécie de remédio universal para pessoas que levam um susto, crianças que choram de noite, pessoas com tonteiras, etc.  Também se usa para descrever uma briga desigual, geralmente na expressão « pegar garapa » : « Olha, eu não vou brigar com um cara pequeno do seu tamanho, não gosto de pegar garapa. »  Por extensão, qualquer coisa muito fácil de preparar, ou de obter.
 
-- O cinema é o diabo, seu Ramalho.  O senhor não imagina.  São uns beijos safados, língua com língua, nem lhe conto.  Provavelmente as moças saem de lá esquentadas.
-- Devem sair, concordava seu Ramalho.  Por isso há tanta gente de rédea no pescoço.
-- Que réde!  Hoje não há rédea.  Um sujeito corre atrás de uma saia, pega a mulher, larga, pega outra, e é aquela garapa.
(Graciliano Ramos, Angústia, pag. 104)
 
GAZEAR
Fazer gazeta; matar aula. Bi-transitivo: “Já faz três dias que eu gazeio, amanhã vou ter que assistir aula.”   “Toda quarta-feira eu gazeio as duas últimas aulas e vou ver o treino no campo do Treze.”
 
A Rua Manoel Pereira de Araújo estendia os grandes braços contaminados para o encontro da orgia; escancarava a bocarra velha para receber o ósculo pestilencial da luxúria, para cantar “a canção prostituta do ludíbrio”.
A artéria comportava a sua cotidiana paisagem: grupos de boêmios; cavaquinhos repetindo Waldir Azevedo; estudantes que gazeavam aulas do Alfredo Dantas; adolescentes discípulas de Maria Garrafada – o ABC do amor campinense --; cães vadios virando latas de lixo ao meio-fio; radiolas rodando discos de Nelson Gonçalves; a brisa gelada movimentando a dança sem ritmo dos papeluchos do calçamento, sacudindo o jaquetão de casimira de Moacyr Tiê; Horácio Bacanácio cantando samba de breque de Jorge Veiga.
(Orlando Tejo, Zé Limeira, Poeta do Absurdo, pag. 203)
 
MORRENDO DE FOME
Com uma certa fome; com apetite.  A expressão é usada em geral sem a menor intenção de exagero.  "Ih, já é meio-dia e eu estou morrendo de fome.  Vamos comer um sanduíche?"   O nordestino diz "estou morrendo de fome" nas mesmas circunstâncias em que um carioca diz "estou cheio de fome": apenas para comentar que está na hora de comer alguma coisa.
 
BOTAR SENTIDO
Vigiar, tomar conta, ficar de olho em algo.  "Fulana!  Bota sentido nesse leite que está no fogo, enquanto eu vou ali no quintal."
 
Naquela cocheira erma, feia, triste, com um vigia dia e noite para botar sentido nos coches e não deixar que os gringos mais afoitos roubassem as pratas, era esse cupê alegre o único com fama de assombrado ou encantado.
(Gilberto Freyre, Assombrações do Recife Velho, pag. 94)
 
DAR PRA...
Equivale a « começar a.... »« Fulano agora deu pra chegar em casa bêbo toda terça-feira, não sei o que é que tá acontecendo. »   « Esse menino agora deu pra mentir, se não levar uma surra vai virar um problema. »  Também se usa com sujeito impessoal :  « Ultimamente deu pra chover todo dia de manhã, eu não sei o que é isso. »

Subindo mais um pouquinho
Pra Santa Cruz visitar
As pernas dão pra doer
A roupa dá pra molhar
O suor por todo canto
Se não tiver fé no santo
É obrigado a voltar.
 
(Minelvino Francisco da Silva, “Aparição de Nossa Senhora das Dores e a Santa Cruz do Monte Santo”)
 
TÉSA
(Atenção: palavra masculina, vogal “E” com som aberto).
Dar “um tésa” é o mesmo que “dar um carão” ou “dar uma subida”: repreender asperamente.  “Fui lá na casa dela e dei-lhe um tesa na vista de todo mundo, pra ele ficar sabendo com quem está se metendo!”
R. Magalhães Jr. registra “Dar o tesa com alguém” como expressão equivalente a “Entesar-se com alguém”, registrada no Dicionário de Morais com o sentido de “Ter-se a duras, encrespar-se com ele, não se lhe acanhar”.
 




terça-feira, 25 de maio de 2021

4707) Raízes da literatura (25.5.2021)



("repangalejando")

 
Uma vez, em Campina Grande, a sessão do “Cinema de Arte” exibiu o filme de François Truffaut, A Noiva Estava De Preto. É a história de uma mulher misteriosa que vai matando, de um em um, vários homens que não a conhecem, e não sabem por que motivo estão sendo mortos.
 
Na sessão em que eu estava, o projecionista trocou um rolo lá pelo meio do filme. Em vez do rolo número 4, por exemplo, ele passou o rolo 5, deixou correr até o fim, e quando deu pelo erro, colocou o 4, o que só fez piorar as coisas. O resultado é que surge uma cena anterior a um dos crimes, e o personagem que tinha acabado de morrer aparece vivo de novo.
 
Silêncio sepulcral na platéia. Um cara atrás de mim falou baixinho:
 
– Oxente, o caba não tinha morrido?
 
O amigo dele respondeu:
 
– Isso é cinema de arte, rapaz. O caba morre... envivece...
 
O episódio é verdadeiro, e engraçado, pela situação e pela reação do espectador. Ele tem, contudo, um aspecto que me faz rir em dobro. É a palavra escolhida pelo cara para exprimir o que sentia diante daquilo. A história não seria igualmente engraçada se ele tivesse dito: “Isso é cinema de arte, rapaz. O caba morre... fica vivo de novo...”.
 
O humor se dá muitas vezes pela via de uma reação verbal inusitada diante de um fato inusitado. Não só o humor. A poesia. A paixão. O assombro. O deslumbramento da descoberta. O paroxismo do medo. A vertigem de viver.
 
Tudo isso é capaz de provocar, em algumas pessoas, uma reação de improviso verbal que vai às raias do improvável, dependendo de quem é aquele indivíduo, de que vocabulário dispõe, que educação teve ou deixou de ter, que recursos verbais costuma empregar em sua vida comum.
 
Lá vou eu de novo pagar direitos autorais a Guimarães Rosa, em seu trecho exemplar de “São Marcos” (em Sagarana, 1946), o famoso episódio das palavras com “canto e plumagem”, onde ele justifica tais improvisos:
 
...e, ao descobrir, no meio da mata, um angelim que atira para cima cinquenta metros de tronco e fronde, quem não terá ímpeto de criar um vocativo absurdo e bradá-lo – Ó colossalidade! – na direção da altura?
 
O povo, esse inventador da língua, costuma arrancar não se de onde essas palavras imprevistas, para poder ficar pau-a-pau com o mundo, quando este lhes propõe um imprevisto qualquer.
 
Não é de outra natureza a reação do menino lá do interiorzão da França, que aos 7 ou 8 anos foi levado pelo pai à cidade, pela primeira vez, e a cidade perto da fazendinha deles era algo como Reims ou Chartres, onde avulta uma daquelas catedrais góticas capazes de deixar Stendhal estendido no chão, de mero assombro.
 
O guri foi, e voltou com o pai. A mãe e a avó lhe perguntaram se gostou de conhecer a cidade, ele disse que sim, e aí perguntaram-lhe o que ele achou da catedral. Ele hesitou alguns instante, e então deu um salto no meio da sala, plantou uma bananeira, e ali ficou, equilibrando-se, em resposta.
 
Quando o mundo nos propõe alguma experiência buleversadora-de-conceitos, temos o impulso verbal, o impulso vital de responder à altura, e é nesses instantes que alguém se descobre poeta.
 
Não se deve confundir esse impulso com o impulso do escritor erudito que fica durante horas folheando dicionários e Thesaurus em busca de uma palavra rara, sofisticada, expressiva. “Ó, minha amada, os teus olhos tão miríficos...”  Não senhor. Só vale se for de improviso, se a pesquisa durar um segundo, um batimento cardíaco, um piscar de olhos. Tem que ser uma busca instantânea por um glossário guardado na memória inconsciente para uma ocasião especial – que é agora.
 
Ainda circula nas redes sociais um vídeo feito em algum lugar do Brasil onde se mostra um céu noturno, tempestuoso, com chuva forte e raios, e de repente um menino grita: “Eita, mãe! Olha só como tá repangalejando!...”
 
É um neologismo maravilhoso, porque nota-se que o garoto misturou, no seu deslumbramento, duas palavras que ele já tinha escutado, “relampejando” e “relampagueando”, e acabou fundindo as duas na vertigem do momento. Está certo! É exatamente para isso que serve a língua. Para estar à altura de momentos únicos em nossa vida.
 
Os poetas de verdade são sensíveis a essa necessidade de “estourar a costura” do idioma quando é preciso dizer algo que a linguagem comum não comporta. Carlos Drummond, em seu poema satírico “Ao Deus Kom Unik Assão” (em As Impurezas do Branco), diz:
 
Eis-me prostrado a vossos peses,
que sendo tantos todo plural é pouco...
 
De fato, “pés”, apenas, é um plural muito mixuruca diante dessa potestade multípede (quadrúpede, diriam as más línguas).
 
 




sábado, 22 de maio de 2021

4706) Quem foi Conan Doyle (22.5.2021)



 
Quando eu tinha uns dez anos de idade, minha tia Adiza me comprou de presente (em módicas prestações, e remessas mensais) a coleção Obras de Conan Doyle, que a Editora Melhoramentos estava lançando. Eram 26 volumes, divididos em três coleções de cores diferentes: “Sherlock Holmes” (vermelha, 9 volumes), “Ficção Histórica” (azul, 8 volumes) e “Contos e Novelas Fantásticas” (verde, 9 volumes).
 
Todo mês ela pagava uma prestação, e ia comigo ao Correio, na Praça da Bandeira, receber um pacote com 2 livros; isso aconteceu durante treze meses. A primeira remessa trazia Um Estudo em Vermelho e A Companhia Branca. Preciso dizer que são até hoje dois dos meus livros preferidos?



 
Tive a coleção inteira, reli cada volume vinte vezes, e tenho ainda. Recomprei tudo nos sebos cariocas – porque pra mim as traduções recentes não têm interesse. Eeu quero o mesmo livro, a mesma capa, a mesma tradução, a mesma fonte.
 
Doyle é conhecido apenas como o criador de Sherlock Holmes, um mérito que qualquer escritor invejaria, mas de certa forma é uma injustiça para com o grande escritor que ele foi. Ninguém admira Holmes mais do que eu, que gosto até dos defeitos; mas me sinto no dever de reconhecer que a ficção histórica e a ficção científica de Doyle são ainda superiores às aventuras do maior detetive do mundo.

 
Eu aconselharia o leitor a conhecer este díptico de aventuras medievais, ambientado no século 14: The White Company (1891) e O Escudeiro Heróico (Sir Nigel) (1905-06). Os dois abordam o mesmo personagem, mas em cronologia inversa.
 
No primeiro livro, o jovem Aleine Edricson abandona o mosteiro onde era estudante e sai pela Inglaterra afora, tendo aventuras de estrada até tornar-se escudeiro do nobre Sir Nigel Loring, líder da Companhia Branca, uma espécie de milícia independente de soldados mercenários. É um Bildungsroman, um romance de formação que mostra um rapaz ingênuo, intelectual e cheio de conceitos abstratos deparando-se com a malícia, a rudeza, a violência e o bom humor da vida real.
 
No segundo livro, Doyle retroage no tempo e conta a juventude do próprio Sir Nigel, um rapaz de família nobre mas arruinada que consegue tornar-se cavaleiro e conquistar glórias no campo de batalha, durante a Guerra dos Cem Anos entre a Inglaterra e a França.

Outro personagem notável de Doyle é o Brigadeiro Gerard, Étienne Gerard, dos hussardos de Conflans. Um jovem oficial do exército de Napoleão: fanfarrão, conquistador, brigão, vaidoso, simpático, meio ingênuo... Um personagem engraçado mas complexo, um tipo de desenho psicológico que Doyle sabia executar muito bem. 

Ele “faz uma ponta” no romance Reminiscência de um Império (“Uncle Bernac”, 1897), mas suas aventuras propriamente ditas foram recolhidas em forma de contos, em dois volumes impagáveis: As Façanhas do Brigadeiro Gerard (1896) e As Aventuras de Gerard (1903). É um personagem que muitas vezes imaginei sendo interpretado no cinema por Gérard Depardieu com 30 anos de idade.



 
Além das aventuras serem divertidas e mirabolantes, Doyle consegue mostrar (isso está principalmente em Uncle Bernac) a pessoa de Napoleão, o modo como se relacionava com generais e nobres à sua volta.

Outro personagem doyleano, este bem mais famoso, é o grande Professor Challenger, que ele explorou em alguns romances de FC que estão entre o que a literatura inglesa produziu de mais interessante em sua fase vitoriana de “Scientific Romances”.


O mais famoso, e o melhor, é O Mundo Perdido (“The Lost World”, 1912), em que um grupo de exploradores ingleses vem à Amazônia e descobre seres pré-históricos ainda vivos. No livro, o Monte Roraima teria se separado do resto do terreno por um sismo qualquer, e graças a isto seres como iguanodontes, pterodáctilos e outros continuaram vivendo e reproduzindo-se. É Doyle em sua veia julioverniana, com um grupo de exploradores (Prof. Challenger, Lord John Roxton, Prof. Summerlee e o jovem jornalista Malone) atravessando a floresta, correndo perigos e discutindo sem parar.
 
O Veneno Cósmico (“The Poison Belt”, 1913) pega o mesmo grupo de personagens enfrentando uma situação apocalíptica: a Terra penetra numa região do espaço ocupada por um gás que ameaça matar envenenada a humanidade inteira. Eles conseguem se isolar, e depois percorrem a cidade de Londres deserta, coberta de cadáveres, até que... Mas não darei spoilers.
 
Challenger é um personagem explosivo, amedrontador, capaz de gestos afetuosos e de vociferações aterrorizantes contra a família, os amigos, os empregados. “Cheio de razão” (como se diz na Paraíba), não admite ser contestado nem questionado, e por isso quando se mete em alguma enrascada o leitor sente-se vingado um pouquinho. É o que ocorre em contos semi-humorísticos como “Quando o Mundo Gritou” e “A Máquina Desintegradora”, incluídos no volume O Veneno Cósmico.


Tem também
A Cidade Submarina (“The Maracot Deep”, 1929), em que um inventor meio maluco, o Dr. Maracot, cria uma batisfera que o leva ao fundo do mar, onde ele descobre uma espécie de Atlântida protegida por uma cúpula e entra em contato (e em choque) com essa civilização submarina.
 
Os contos fantásticos e de FC de Doyle são todos imaginativos, movimentados, e eram escritos para publicação nas revistas da época. Curiosamente, boa parte desses contos foi reunida aqui em duas coletâneas cujos títulos se fincaram na minha memória. Eu pensava que eram dois gêneros literários “oficiais”, de modo que na adolescência ainda passei muitos anos lendo um conto qualquer de um Fulano qualquer e classificando: “Isto aqui é um conto da-penumbra-e-do-invisível”.



Outro romances mostram Doyle em sua atividade constante, obstinada, de tornar-se uma espécie de sucessor de Sir Walter Scott em termos de romances históricos. Doyle pesquisava muito para escrever seus livros, e não foram poucas as vezes em que, lendo alguma coisa sobre a Inglaterra medieval, me deparei com episódios históricos que eu já tinha lido, tintim por tintim, em seus romances. Tinha sobre Scott a vantagem de uma prosa mais moderna, mais ágil, um olho observador enriquecido por todo um século 19 de realismo literário. Seu uso do diálogo é fluente, vívido, para romances de um século atrás. Seus tipos humanos são memoráveis.


 
A Curiosa História de Rodney Stone ("Rodney Stone", 1896) narra como o boxe surgiu na Inglaterra (o autor tem também uma coletânea chamada Contos do Ringue e de Guerra), como um canal de ascensão social para um jovem de origem humilde. Os Refugiados (“The Refugees”, 1893) funciona como dois romances num só: na primeira parte, vemos a corte francesa de Luís XIV, católica, na época em que era tramada a perseguição e exílio dos protestantes huguenotes; n segunda parte, esses huguenotes desembarcam na América do Norte e ali se envolvem em aventuras com índios, colonos, vaqueiros e caçadores.
 
Sobre o primeiro romance histórico de Doyle, A Narrativa de Miquéias Clarke (1889), escrevi aqui:
 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2020/10/4631-o-soldado-e-o-fanatico-religioso.html
 
Uma excelente recolha de seus contos fantásticos, insólitos, “da penumbra e do invisível”, foi publicada recentemente pela Editora Bandeirola:


A obra de Conan Doyle demonstra que os gêneros literários são uma criação dos editores, dos livreiros e da imprensa, muito mais do que dos escritores. O meio século em que durou a carreira de Doyle (entre 1880 e 1930 aproximadamente) foi um período que a literatura da Inglaterra talvez nunca venha a igualar, em qualidade e quantidade. Doyle tinha como contemporâneos, concorrentes, e muitas vezes como amigos, autores como H. G. Wells, H. Rider Haggard, Arthur Machen, G. K. Chesterton, M. R. James, Oscar Wilde, Bram Stoker, Algernon Blackwood, Lord Dunsany, Rudyard Kipling, R. L. Stevenson...
 
Todos esses autores escreviam o que se chama hoje de romances policiais, romances de aventuras, romances de ficção científica, romances de costumes, romances de crítica social, romances de horror... Escreviam com liberdade, com ousadia, usando as fórmulas do momento mas sem se deixarem usar por elas. Tinham algo a dizer, e não uma receita a repetir. Cada um deles tinha uma voz literária própria, capaz de dobrar diante de si as convenções de qualquer gênero artificialmente criado pelos classificadores.
 
Hoje, 22 de maio, é a data do 162º. aniversário de nascimento do escritor. Aqui embaixo, coloco o link para o saite "Literatura Policial", que compartilhou esta entrevista, talvez o único registro da voz e da imagem de Doyle falando para uma câmera de cinema. Durante dez minutos, ele comenta a origem dos romances de Sherlock Holmes e do seu interesse posterior pelo Espiritismo.
 
https://literaturapolicial.com/2017/05/19/assista-ao-video-de-arthur-conan-doyle-falando-sobre-sherlock-holmes/