quinta-feira, 3 de junho de 2021

4710) Minhas canções: "Alpinista Social" (3.6.2021)



Algumas músicas dão um trabalho danado pra fazer. A gente mexe nelas durante meses, às vezes durante anos, até achar que ficaram com jeito. Outras não: parece até que chegaram prontas.
 
Esta aqui surgiu numa tarde meio ociosa, o telefone tocou e era Lenine, com uma idéia e uma proposta. Ele vinha tentando entrar na rinha disputadíssima de músicas para trilha sonora de novelas da TV Globo. Além de render alguns caraminguás em direitos autorais, isso servia como uma boa vitrine para compositores e intérpretes.
 
Corria o ano de 1990, pelo que calculo. Tínhamos acabado de compor um samba, “Virou Areia”, que ganhara um dos prêmios no Festival de Avaré, a FAMPOP. A esta altura já tínhamos composto alguns sambas de sucesso para os blocos da Zona Sul (Suvaco do Cristo, Simpatia é Quase Amor). Que tal emplacar um samba numa novela? A novela da vez era Lua Cheia de Amor, que a Globo estava gravando e estrearia em breve. Ele pegou o carro e foi lá em casa, no Catete.

 
O conceito – música de novela tem que ter um conceito – era simples. A personagem se chamava Kika Jordão, e ia ser interpretada por Arlete Salles. Era uma mulher de classe média fascinada pelas colunas sociais, pela vida das socialites, e querendo se enturmar no meio delas. Uma mulher sem muita classe, querendo bancar a “phyna” e batendo na trave o tempo todo. O marido trabalha com algo relativo a roupas, tecidos, etc.
 
Em inglês a expressão para esse tipo de gente é “social climber”, alpinista social. Foi esse o ponto de partida. Lenine fez uma levada inicial, cantarolada na base do tã-rã-rã, do lá-rá-rá, e os versos foram surgindo.
 
Apesar da idade ela nunca se cansa
de entrar nessa dança e sair no jornal...
E tem sempre um plano
por debaixo do pano:
ela é alpinista social...


(Arlete Salles, como "Kika Jordão")
 
“Por debaixo do pano” é uma alusão talvez pouco sutil à profissão têxtil do marido. Tínhamos que falar um pouco nas pessoas que querem “falar estrangeiro” ou citar nomes de gente famosa, e esta foi talvez a estrofe mais divertida de fazer:
 
Vira a noite no drink a pensar no overnight
no hi-fi do society ela rodou...
 
O “overnight”, de triste memória, era a aplicação financeira que os bancos faziam diariamente para manter o poder de compra dos correntistas. Numa época em que havia inflação de até 2 ou 3% ao dia, na virada-da-noite era preciso recuperar essa perda.
 
Pensamos então em falar em gente famosa, porque Kika Jordão teria o cacoete habitual de dizer que “era assim com” A, B, ou C.  Na época, o comandante Jacques Cousteau vinha ao Brasil com frequência, não seria impossível alguém no Rio dizer que já tomara algum “champã” com ele. E veio o verso:
 
Plástica no nome, pra não dar vexame;
de francês só conhece Jacques Cousteau.
 
O problema é que não encaixava na métrica! O nome do cara tem quatro sílabas, não havia como encaixá-lo naquelas três notas. Precisávamos de um nome igualmente francês de três sílabas – e o que nos ocorreu foi Belmondo, o famoso Jean-Paul Belmondo de Acossado, que, trinta anos atrás, era mais lembrado do que agora. E ficou: “De francês só conhece Belmondo...”
 
(No YouTube, quem transcreveu a letra não conhecia o ator, e teve que se virar com “Belle Mondeau”, que não deixa de ser uma saída interessante.)


(Jacques Cousteau + Belmondo)
 
Mas os compositores eram (são) teimosos que só um par de mulas, e nenhum dos dois queria abrir mão do nome do bravo oceanógrafo. E assim saíram-se com esta preciosidade, iniciando a estrofe seguinte:
 
E já que custou
tanto a chegar        
no sopé da montanha principal...
 
Com este, garantimos nosso lugar de honra entre os “20 Trocadilhos Mais Infames da MPB”.
 
Lenine gravou a música, com um ótimo arranjo e uma orquestração arrasante. Arlete Salles deu um baile com a personagem. E durante meses chega dava gosto ver as presepadas cênicas depois das quais ela dava uma rabissaca e saía de rua afora, com um sobe-som da música:
 
Lá vai ela, nas pegadas da moda...
 
Pense numa música feita em duas ou três horas, à base de café e bolacha Maria!  Fiquei muito satisfeito, e durante os meses seguintes pensava com meus botões: “Olha aí, como foi simples... Em uma tarde, abri para mim um caminho profissional novo: compositor de trilhas sonoras de novelas!  Vou emplacar muitas outras músicas nas novelas da Globo!”.
 
Ledo engano. Pra mim, foi a primeira... e única.
 
 
*******
 
A gravação de Lenine:
ALPINISTA SOCIAL
(Lenine / BT)
 
Apesar da idade ela nunca se cansa
de entrar nessa dança e sair no jornal...
E tem sempre um plano
por debaixo do pano:
ela é alpinista social...
 
Vira a noite no drink a pensar no overnight
no hi-fi do society ela rodou...
Plástica no nome, pra não dar vexame;
de francês só conhece Belmondo.
 
E já que custou tanto a chegar
no sopé da montanha principal,
ela se preza, ajoelha e reza
para ser alpinista social.
 
Lá vai ela, nas pegadas da moda,
na alta roda, quer passar sem pedigri...
Defasada, mas é boa aluna,
topa qualquer uma, nessa pressa de subir...
 
Lá vai ela... no hi-fi do society
Lá vai ela... quer sair no jornal
Lá vai ela... por debaixo do pano
Lá vai ela... alpinista social
Lá vai ela... sem pedigri
Lá vai ela... nessa pressa de subir
Lá vai ela...
 
 
 




 





segunda-feira, 31 de maio de 2021

4709) O beijo radioativo da morte (31.5.2021)



 
Kiss me Deadly (1955), dirigido por Robert Aldrich, teve no Brasil o título de O Beijo da Morte. É um desses filmes que “estouram a costura” dos gêneros cinematográficos, unindo elementos disparatados, contraditórios. Toda vez que o filme vai se encaminhando na direção de um clichê previsível, escorrega e vai noutro rumo.
 
Começa pelo protagonista. Mike Hammer é o detetive particular criado por Mickey Spillane, apologista do machismo e da violência. Acho que li um ou dois romances de Spillane, que de fato tem esse viés meio sadístico, com longas cenas de espancamento e de violência física descritas com visível prazer. Se os leitores dele compraram ingresso para ver isso, quebraram a cara. A única cena “spillanesca” no filme é quando Hammer fecha uma gaveta nos dedos do médico gordinho que se recusa a entregar-lhe um objeto-chave para a solução do mistério.
 
E Hammer não aparece como nenhum brucutu. Interpretado por Ralph Meeker, ele está até bastante “meek”, embora sempre carrancudo quando se confronta com a polícia. E também dá uma de indiferente quando recebe os afagos de sua secretária-amante Velda (Maxine Cooper), aquela típica assistente devota sem a qual o detetive não conseguiria juntar as pistas. Os dois têm boas cenas, e alguns diálogos memoráveis (Ele: “Você nunca está por perto quando eu preciso de você.” Ela: “Você nunca precisa de mim quando eu estou por perto.”).


É um filme “noir” pelo estilo visual, pela fotografia de Ernest Lazslo, cheia de ângulos caprichados e iluminação em alto contraste. E pela sensação de perigo desconhecido e iminente. Nem o público nem o detetive fazem a menor idéia do que está acontecendo, e de por que tanta gente aparece morta de uma hora para outra.
 
Existe uma fronteira pouco nítida entre o policial “noir” e o policial “hardboiled”. Em geral, usam-se esses dois termos com a mesma função, tanto na literatura quanto no cinema. Há uma distinção, contudo, se quisermos ser mais precisos.
 
O “noir” é geralmente uma história de indivíduos meio fracassados, atormentados, metidos em crimes, ameaças, situações-limite, lutando contra tudo. São homens e mulheres anônimos, civis comuns, perdidos na selva urbana e entrando em choque com as feras, metendo-se em situações de crime sem saber ao certo por quê.
 
O “hardboiled” é o romance ou filme sobre indivíduos durões, resolutos, às vezes violentos, mas sempre implacáveis, que enfrentam forças superiores à sua. Frequentemente é um detetive particular que bate de frente com a polícia, com os bandidos, com a imprensa, com a Justiça. São sujeitos cínicos, calejados, às vezes sedutores, inteligentes o bastante para fazerem deduções detetivescas, e impacientes o bastante para descer a porrada quando precisam resolver logo uma pendência.




O Beijo da Morte é uma mistura dos dois, porque no cinema o filme “hardboiled” não me parece ter criado uma estética visual específica, e o “noir” sim. Alguns grandes filmes com a estética “noir” (fotografia, iluminação, cenários) são A Marca da Maldade (1958) de Orson Welles, O Terceiro Homem (1949) de Carol Reed, Pacto de Sangue (1944) de Billy Wilder... Filmes com influência do Expressionismo Alemão e com aqueles ângulos extravagantes, um claro-escuro violento, efeitos de iluminação móvel (faróis de carro que passam, lâmpada que balança, lanternas elétricas nas mãos, etc.). Cenários às vezes bizarros, às vezes filmados em ângulos ameaçadores.
 
E ao mesmo tempo o roteiro de A. I. Bezzerides desenvolve uma situação típica de filme hardboiled, onde o detetive, a polícia e os bandidos formam um triângulo de ameaças mútuas numa correlação de forças que se altera a cada cena, a cada nova morte, a cada nova surpresa, mas o detetive durão assume sempre aquela atitude de quem “não abre nem prum trem”.


Aí entramos em outra reviravolta. Mike Hammer se meteu nesse mistério porque resolveu dar uma carona a uma mulher misteriosa, vestida apenas numa capa, que vinha correndo à noite pela rodovia. Os dois são presos por bandidos, a mulher é torturada e morta, e Hammer decide que vai, se não propriamente vingá-la, pelo menos entender por que ela representava uma ameaça para alguém.
 
Kiss Me Deadly dá algumas triscadas de leve na ficção científica ou pelo menos no policial high-tech que viria a se consagrar no futuro em filmes como A Conversação (1974) de Francis Coppola. Ele nos mostra na casa/escritório de Hammer uma secretária eletrônica que utiliza um gravador-de-rolo daqueles antigos. Engenhocas assim já existiam em 1955, mas o que tento imaginar hoje é o impacto que a visão desse aparelho, na casa de um detetive, produziria na platéia.

 
E o filme tem um dos “McGuffins” mais intrigantes na história do cinema. “McGuffin” é uma expressão atribuída a Alfred Hitchcock para designar o objeto que todo mundo (detetive, bandidos, polícia) luta para obter. Pode ser dinheiro, jóias, drogas, documentos, planos secretos de um submarino atômico... No fim não importa, dizia Hitchcock; ele está ali somente para botar em movimento o mecanismo das mortes e das perseguições.
 
O primeiro McGuffin da história é uma mensagem que a mulher da cena inicial deixa para Hammer. No momento em que ele lhe dá carona no carro, ela diz que se chama Christina, em homenagem à poetisa Christina Rossetti. O detetive dá a essa informação a carga de irrelevância que seria de se esperar da parte de um detetive de Mickey Spillane. Mais tarde, porém, ele descobre no apartamento da mulher um livro da poetisa, leva-o consigo, e mediante uma dedução consideravelmente facilitada pelo roteirista do filme, acaba chegando ao segundo McGuffin.
 
Que é uma caixa misteriosa, guardada num armário de um clube. Quando Hammer encontra a caixa, comenta em voz alta que ela parece muito quente. Ao entreabri-la, escapa-se dali uma luz de calor intenso, que acaba queimando sua mão. E no clímax da narrativa outra pessoa abre de vez a caixa e ela se transforma, como um personagem advertira pouco antes, na Caixa de Pandora. A caixa capaz de libertar todos os males do mundo.


Subentende-se que a caixa continha alguma coisa radioativa (é bom lembrar que o filme surgiu apenas dez anos depois de Hiroshima), se bem que cientificamente isso suscita mais desconfiança do que respostas. Não importa: é a guinada final de um filme que era ao mesmo tempo um policial “noir” e um “hardboiled”, e que na sua reta final vira a esquina bruscamente rumo à ficção científica, mas a FC de filmes muito pouco científicos como Tarantula (1955) de Jack Arnold ou O Mundo em Perigo (1954) de Gordon Douglas.
 
Essas pequenas heresias genéricas acabaram tornando Kiss Me Deadly um filme memorável no meio de tantos outros, cinematograficamente superiores, mas que mantêm do começo ao fim a coerência de gênero – como O Falcão Maltês (1941) de John Huston ou The Big Sleep (1946) de Howard Hawks.
 
E a “caixa da morte luminosa” deixou uma impressão duradoura no cinema dos EUA. Dois ou três exemplos me vieram logo à memória, e uma pequena busca no Internet Movie Data Base me trouxe outros. A abertura da Arca da Aliança no final de Os Caçadores da Arca Perdida (1981) de Spielberg, derretendo todo mundo com sua luz mortífera. O misterioso alienígena escondido na mala do carro-em-fuga do subclássico Repo Man, a Onda Punk (1984) de Alex Cox. A bola luminosa que concentra em si toda a maldade do mundo, no desenho-antologia Heavy Metal, Universo em Fantasia (1981) de Gerald Potteron. E mais, e mais...
 
Como diria alguma divindade cínica, tatuada e sob o efeito de um poderoso psicotrópico: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos derreterá”.


(O filme pode ser visto por quem se associar, e o preço é bem compensador, ao saite de streaming Belas Artes À La Carte, que recomendo.)








sexta-feira, 28 de maio de 2021

4708) Falatório nordestino (28.5.2021)




(foto: Campina à noite, por Leydson Jackson)

São jeitos de falar, jeitos de dizer que se fala em vários lugares do Nordeste. Se se usa em outras regiões, é porque foram nordestinos que levaram para longe.
 
PEGAR
Um expletivo para dar mais força ao verbo que vem em seguida. “Fui reclamar de minha filha, ela pegou e saiu da sala sem responder.” “Minha mãe disse que se eu deixasse a cama desarrumada ela me botava de castigo, aí eu peguei e deixei, pra ver se era mesmo”.
 
Também se usa o verbo “ir” num sentido semelhante, de mero reforço. “Eu duvidei que Fulano conseguisse beber um café quente como aquele, pois o danado foi e bebeu”.
 
PEITICA
Teimosia, implicância.  “Ele fica de peitica comigo porque sabe que eu já fui namorado da noiva dele, mas qual é a culpa que eu tenho?”

O cunhado dissera que, pessoal, amanhã era Carnaval!  Numa alegria estranha que Deisi talvez não tivesse, concentrada ainda na aula que dera. Mas a irmã continuou na peitica, reclamona, reprovando inclusive a aula.
(Marilene Felinto, O Lago Encantado de Grongonzo, pag. 139)
 
NÃO DAR UM PREGO NUMA BARRA DE SABÃO
Diz-se de alguém muito preguiçoso ou muito rico, que não faz o menor esforço.  “Ela é quem sustenta e casa e cuida dos filhos, o marido não dá um prego numa barra de sabão e ainda pede dinheiro a ela pra ir beber.”
 
PARA O ANO
No ano que vem. Usa-se também “para o mês” e “para a semana” (esta última, sempre em contração: “pra semana”).  “Pra semana começam as aulas, é bom ir logo procurar seu material do colégio”.  “Eu vou viajar ao Rio para o mês, se tiver alguma encomenda pode ir preparando”.  “Para o ano vai ter eleição, aí você vai ver gente aqui prometendo calçar a rua.”  
 
Curiosamente, vale notar que no caso do mês e do ano não se usa, nunca, a forma contraída (“pro mês”, “pro ano”).
 
É DA VEZ QUE...
O mesmo que “É dessa vez que...”: “Se o pneu do carro furar, é da vez que eu me lasco: deixei meu estepe no carro de meu irmão.”  É uma dessas expressões apenas expletivas, intensificadoras, que podem ser extraídas da frase sem mudar seu sentido ou sua estrutura.
 
SIMÃO - O que eu vou fazer é escrever três folhetos arretados, três folhetos chamados “O Peru do Cão Coxo”, “A Cabra do Cão Caolho” e “O Rico Avarento”.  Vendo tudo e é da vez que fico rico!
(Ariano Suassuna, A Farsa da Boa Preguiça, Ato III)
 
É DE ROSCA?
Pergunta que se faz quando alguma coisa está demorando muito.  “Ô garçon, esse sanduíche é de rosca?  Tem mais de dez minutos que eu pedi!”   O termo implica uma comparação entre um prego, que se enfia ou se arranca de uma vez só, com um parafuso, que é preciso enroscar ou desenroscar.
 
GARAPA
Água com açúcar.  É uma espécie de remédio universal para pessoas que levam um susto, crianças que choram de noite, pessoas com tonteiras, etc.  Também se usa para descrever uma briga desigual, geralmente na expressão « pegar garapa » : « Olha, eu não vou brigar com um cara pequeno do seu tamanho, não gosto de pegar garapa. »  Por extensão, qualquer coisa muito fácil de preparar, ou de obter.
 
-- O cinema é o diabo, seu Ramalho.  O senhor não imagina.  São uns beijos safados, língua com língua, nem lhe conto.  Provavelmente as moças saem de lá esquentadas.
-- Devem sair, concordava seu Ramalho.  Por isso há tanta gente de rédea no pescoço.
-- Que réde!  Hoje não há rédea.  Um sujeito corre atrás de uma saia, pega a mulher, larga, pega outra, e é aquela garapa.
(Graciliano Ramos, Angústia, pag. 104)
 
GAZEAR
Fazer gazeta; matar aula. Bi-transitivo: “Já faz três dias que eu gazeio, amanhã vou ter que assistir aula.”   “Toda quarta-feira eu gazeio as duas últimas aulas e vou ver o treino no campo do Treze.”
 
A Rua Manoel Pereira de Araújo estendia os grandes braços contaminados para o encontro da orgia; escancarava a bocarra velha para receber o ósculo pestilencial da luxúria, para cantar “a canção prostituta do ludíbrio”.
A artéria comportava a sua cotidiana paisagem: grupos de boêmios; cavaquinhos repetindo Waldir Azevedo; estudantes que gazeavam aulas do Alfredo Dantas; adolescentes discípulas de Maria Garrafada – o ABC do amor campinense --; cães vadios virando latas de lixo ao meio-fio; radiolas rodando discos de Nelson Gonçalves; a brisa gelada movimentando a dança sem ritmo dos papeluchos do calçamento, sacudindo o jaquetão de casimira de Moacyr Tiê; Horácio Bacanácio cantando samba de breque de Jorge Veiga.
(Orlando Tejo, Zé Limeira, Poeta do Absurdo, pag. 203)
 
MORRENDO DE FOME
Com uma certa fome; com apetite.  A expressão é usada em geral sem a menor intenção de exagero.  "Ih, já é meio-dia e eu estou morrendo de fome.  Vamos comer um sanduíche?"   O nordestino diz "estou morrendo de fome" nas mesmas circunstâncias em que um carioca diz "estou cheio de fome": apenas para comentar que está na hora de comer alguma coisa.
 
BOTAR SENTIDO
Vigiar, tomar conta, ficar de olho em algo.  "Fulana!  Bota sentido nesse leite que está no fogo, enquanto eu vou ali no quintal."
 
Naquela cocheira erma, feia, triste, com um vigia dia e noite para botar sentido nos coches e não deixar que os gringos mais afoitos roubassem as pratas, era esse cupê alegre o único com fama de assombrado ou encantado.
(Gilberto Freyre, Assombrações do Recife Velho, pag. 94)
 
DAR PRA...
Equivale a « começar a.... »« Fulano agora deu pra chegar em casa bêbo toda terça-feira, não sei o que é que tá acontecendo. »   « Esse menino agora deu pra mentir, se não levar uma surra vai virar um problema. »  Também se usa com sujeito impessoal :  « Ultimamente deu pra chover todo dia de manhã, eu não sei o que é isso. »

Subindo mais um pouquinho
Pra Santa Cruz visitar
As pernas dão pra doer
A roupa dá pra molhar
O suor por todo canto
Se não tiver fé no santo
É obrigado a voltar.
 
(Minelvino Francisco da Silva, “Aparição de Nossa Senhora das Dores e a Santa Cruz do Monte Santo”)
 
TÉSA
(Atenção: palavra masculina, vogal “E” com som aberto).
Dar “um tésa” é o mesmo que “dar um carão” ou “dar uma subida”: repreender asperamente.  “Fui lá na casa dela e dei-lhe um tesa na vista de todo mundo, pra ele ficar sabendo com quem está se metendo!”
R. Magalhães Jr. registra “Dar o tesa com alguém” como expressão equivalente a “Entesar-se com alguém”, registrada no Dicionário de Morais com o sentido de “Ter-se a duras, encrespar-se com ele, não se lhe acanhar”.
 




terça-feira, 25 de maio de 2021

4707) Raízes da literatura (25.5.2021)



("repangalejando")

 
Uma vez, em Campina Grande, a sessão do “Cinema de Arte” exibiu o filme de François Truffaut, A Noiva Estava De Preto. É a história de uma mulher misteriosa que vai matando, de um em um, vários homens que não a conhecem, e não sabem por que motivo estão sendo mortos.
 
Na sessão em que eu estava, o projecionista trocou um rolo lá pelo meio do filme. Em vez do rolo número 4, por exemplo, ele passou o rolo 5, deixou correr até o fim, e quando deu pelo erro, colocou o 4, o que só fez piorar as coisas. O resultado é que surge uma cena anterior a um dos crimes, e o personagem que tinha acabado de morrer aparece vivo de novo.
 
Silêncio sepulcral na platéia. Um cara atrás de mim falou baixinho:
 
– Oxente, o caba não tinha morrido?
 
O amigo dele respondeu:
 
– Isso é cinema de arte, rapaz. O caba morre... envivece...
 
O episódio é verdadeiro, e engraçado, pela situação e pela reação do espectador. Ele tem, contudo, um aspecto que me faz rir em dobro. É a palavra escolhida pelo cara para exprimir o que sentia diante daquilo. A história não seria igualmente engraçada se ele tivesse dito: “Isso é cinema de arte, rapaz. O caba morre... fica vivo de novo...”.
 
O humor se dá muitas vezes pela via de uma reação verbal inusitada diante de um fato inusitado. Não só o humor. A poesia. A paixão. O assombro. O deslumbramento da descoberta. O paroxismo do medo. A vertigem de viver.
 
Tudo isso é capaz de provocar, em algumas pessoas, uma reação de improviso verbal que vai às raias do improvável, dependendo de quem é aquele indivíduo, de que vocabulário dispõe, que educação teve ou deixou de ter, que recursos verbais costuma empregar em sua vida comum.
 
Lá vou eu de novo pagar direitos autorais a Guimarães Rosa, em seu trecho exemplar de “São Marcos” (em Sagarana, 1946), o famoso episódio das palavras com “canto e plumagem”, onde ele justifica tais improvisos:
 
...e, ao descobrir, no meio da mata, um angelim que atira para cima cinquenta metros de tronco e fronde, quem não terá ímpeto de criar um vocativo absurdo e bradá-lo – Ó colossalidade! – na direção da altura?
 
O povo, esse inventador da língua, costuma arrancar não se de onde essas palavras imprevistas, para poder ficar pau-a-pau com o mundo, quando este lhes propõe um imprevisto qualquer.
 
Não é de outra natureza a reação do menino lá do interiorzão da França, que aos 7 ou 8 anos foi levado pelo pai à cidade, pela primeira vez, e a cidade perto da fazendinha deles era algo como Reims ou Chartres, onde avulta uma daquelas catedrais góticas capazes de deixar Stendhal estendido no chão, de mero assombro.
 
O guri foi, e voltou com o pai. A mãe e a avó lhe perguntaram se gostou de conhecer a cidade, ele disse que sim, e aí perguntaram-lhe o que ele achou da catedral. Ele hesitou alguns instante, e então deu um salto no meio da sala, plantou uma bananeira, e ali ficou, equilibrando-se, em resposta.
 
Quando o mundo nos propõe alguma experiência buleversadora-de-conceitos, temos o impulso verbal, o impulso vital de responder à altura, e é nesses instantes que alguém se descobre poeta.
 
Não se deve confundir esse impulso com o impulso do escritor erudito que fica durante horas folheando dicionários e Thesaurus em busca de uma palavra rara, sofisticada, expressiva. “Ó, minha amada, os teus olhos tão miríficos...”  Não senhor. Só vale se for de improviso, se a pesquisa durar um segundo, um batimento cardíaco, um piscar de olhos. Tem que ser uma busca instantânea por um glossário guardado na memória inconsciente para uma ocasião especial – que é agora.
 
Ainda circula nas redes sociais um vídeo feito em algum lugar do Brasil onde se mostra um céu noturno, tempestuoso, com chuva forte e raios, e de repente um menino grita: “Eita, mãe! Olha só como tá repangalejando!...”
 
É um neologismo maravilhoso, porque nota-se que o garoto misturou, no seu deslumbramento, duas palavras que ele já tinha escutado, “relampejando” e “relampagueando”, e acabou fundindo as duas na vertigem do momento. Está certo! É exatamente para isso que serve a língua. Para estar à altura de momentos únicos em nossa vida.
 
Os poetas de verdade são sensíveis a essa necessidade de “estourar a costura” do idioma quando é preciso dizer algo que a linguagem comum não comporta. Carlos Drummond, em seu poema satírico “Ao Deus Kom Unik Assão” (em As Impurezas do Branco), diz:
 
Eis-me prostrado a vossos peses,
que sendo tantos todo plural é pouco...
 
De fato, “pés”, apenas, é um plural muito mixuruca diante dessa potestade multípede (quadrúpede, diriam as más línguas).
 
 




sábado, 22 de maio de 2021

4706) Quem foi Conan Doyle (22.5.2021)



 
Quando eu tinha uns dez anos de idade, minha tia Adiza me comprou de presente (em módicas prestações, e remessas mensais) a coleção Obras de Conan Doyle, que a Editora Melhoramentos estava lançando. Eram 26 volumes, divididos em três coleções de cores diferentes: “Sherlock Holmes” (vermelha, 9 volumes), “Ficção Histórica” (azul, 8 volumes) e “Contos e Novelas Fantásticas” (verde, 9 volumes).
 
Todo mês ela pagava uma prestação, e ia comigo ao Correio, na Praça da Bandeira, receber um pacote com 2 livros; isso aconteceu durante treze meses. A primeira remessa trazia Um Estudo em Vermelho e A Companhia Branca. Preciso dizer que são até hoje dois dos meus livros preferidos?



 
Tive a coleção inteira, reli cada volume vinte vezes, e tenho ainda. Recomprei tudo nos sebos cariocas – porque pra mim as traduções recentes não têm interesse. Eeu quero o mesmo livro, a mesma capa, a mesma tradução, a mesma fonte.
 
Doyle é conhecido apenas como o criador de Sherlock Holmes, um mérito que qualquer escritor invejaria, mas de certa forma é uma injustiça para com o grande escritor que ele foi. Ninguém admira Holmes mais do que eu, que gosto até dos defeitos; mas me sinto no dever de reconhecer que a ficção histórica e a ficção científica de Doyle são ainda superiores às aventuras do maior detetive do mundo.

 
Eu aconselharia o leitor a conhecer este díptico de aventuras medievais, ambientado no século 14: The White Company (1891) e O Escudeiro Heróico (Sir Nigel) (1905-06). Os dois abordam o mesmo personagem, mas em cronologia inversa.
 
No primeiro livro, o jovem Aleine Edricson abandona o mosteiro onde era estudante e sai pela Inglaterra afora, tendo aventuras de estrada até tornar-se escudeiro do nobre Sir Nigel Loring, líder da Companhia Branca, uma espécie de milícia independente de soldados mercenários. É um Bildungsroman, um romance de formação que mostra um rapaz ingênuo, intelectual e cheio de conceitos abstratos deparando-se com a malícia, a rudeza, a violência e o bom humor da vida real.
 
No segundo livro, Doyle retroage no tempo e conta a juventude do próprio Sir Nigel, um rapaz de família nobre mas arruinada que consegue tornar-se cavaleiro e conquistar glórias no campo de batalha, durante a Guerra dos Cem Anos entre a Inglaterra e a França.

Outro personagem notável de Doyle é o Brigadeiro Gerard, Étienne Gerard, dos hussardos de Conflans. Um jovem oficial do exército de Napoleão: fanfarrão, conquistador, brigão, vaidoso, simpático, meio ingênuo... Um personagem engraçado mas complexo, um tipo de desenho psicológico que Doyle sabia executar muito bem. 

Ele “faz uma ponta” no romance Reminiscência de um Império (“Uncle Bernac”, 1897), mas suas aventuras propriamente ditas foram recolhidas em forma de contos, em dois volumes impagáveis: As Façanhas do Brigadeiro Gerard (1896) e As Aventuras de Gerard (1903). É um personagem que muitas vezes imaginei sendo interpretado no cinema por Gérard Depardieu com 30 anos de idade.



 
Além das aventuras serem divertidas e mirabolantes, Doyle consegue mostrar (isso está principalmente em Uncle Bernac) a pessoa de Napoleão, o modo como se relacionava com generais e nobres à sua volta.

Outro personagem doyleano, este bem mais famoso, é o grande Professor Challenger, que ele explorou em alguns romances de FC que estão entre o que a literatura inglesa produziu de mais interessante em sua fase vitoriana de “Scientific Romances”.


O mais famoso, e o melhor, é O Mundo Perdido (“The Lost World”, 1912), em que um grupo de exploradores ingleses vem à Amazônia e descobre seres pré-históricos ainda vivos. No livro, o Monte Roraima teria se separado do resto do terreno por um sismo qualquer, e graças a isto seres como iguanodontes, pterodáctilos e outros continuaram vivendo e reproduzindo-se. É Doyle em sua veia julioverniana, com um grupo de exploradores (Prof. Challenger, Lord John Roxton, Prof. Summerlee e o jovem jornalista Malone) atravessando a floresta, correndo perigos e discutindo sem parar.
 
O Veneno Cósmico (“The Poison Belt”, 1913) pega o mesmo grupo de personagens enfrentando uma situação apocalíptica: a Terra penetra numa região do espaço ocupada por um gás que ameaça matar envenenada a humanidade inteira. Eles conseguem se isolar, e depois percorrem a cidade de Londres deserta, coberta de cadáveres, até que... Mas não darei spoilers.
 
Challenger é um personagem explosivo, amedrontador, capaz de gestos afetuosos e de vociferações aterrorizantes contra a família, os amigos, os empregados. “Cheio de razão” (como se diz na Paraíba), não admite ser contestado nem questionado, e por isso quando se mete em alguma enrascada o leitor sente-se vingado um pouquinho. É o que ocorre em contos semi-humorísticos como “Quando o Mundo Gritou” e “A Máquina Desintegradora”, incluídos no volume O Veneno Cósmico.


Tem também
A Cidade Submarina (“The Maracot Deep”, 1929), em que um inventor meio maluco, o Dr. Maracot, cria uma batisfera que o leva ao fundo do mar, onde ele descobre uma espécie de Atlântida protegida por uma cúpula e entra em contato (e em choque) com essa civilização submarina.
 
Os contos fantásticos e de FC de Doyle são todos imaginativos, movimentados, e eram escritos para publicação nas revistas da época. Curiosamente, boa parte desses contos foi reunida aqui em duas coletâneas cujos títulos se fincaram na minha memória. Eu pensava que eram dois gêneros literários “oficiais”, de modo que na adolescência ainda passei muitos anos lendo um conto qualquer de um Fulano qualquer e classificando: “Isto aqui é um conto da-penumbra-e-do-invisível”.



Outro romances mostram Doyle em sua atividade constante, obstinada, de tornar-se uma espécie de sucessor de Sir Walter Scott em termos de romances históricos. Doyle pesquisava muito para escrever seus livros, e não foram poucas as vezes em que, lendo alguma coisa sobre a Inglaterra medieval, me deparei com episódios históricos que eu já tinha lido, tintim por tintim, em seus romances. Tinha sobre Scott a vantagem de uma prosa mais moderna, mais ágil, um olho observador enriquecido por todo um século 19 de realismo literário. Seu uso do diálogo é fluente, vívido, para romances de um século atrás. Seus tipos humanos são memoráveis.


 
A Curiosa História de Rodney Stone ("Rodney Stone", 1896) narra como o boxe surgiu na Inglaterra (o autor tem também uma coletânea chamada Contos do Ringue e de Guerra), como um canal de ascensão social para um jovem de origem humilde. Os Refugiados (“The Refugees”, 1893) funciona como dois romances num só: na primeira parte, vemos a corte francesa de Luís XIV, católica, na época em que era tramada a perseguição e exílio dos protestantes huguenotes; n segunda parte, esses huguenotes desembarcam na América do Norte e ali se envolvem em aventuras com índios, colonos, vaqueiros e caçadores.
 
Sobre o primeiro romance histórico de Doyle, A Narrativa de Miquéias Clarke (1889), escrevi aqui:
 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2020/10/4631-o-soldado-e-o-fanatico-religioso.html
 
Uma excelente recolha de seus contos fantásticos, insólitos, “da penumbra e do invisível”, foi publicada recentemente pela Editora Bandeirola:


A obra de Conan Doyle demonstra que os gêneros literários são uma criação dos editores, dos livreiros e da imprensa, muito mais do que dos escritores. O meio século em que durou a carreira de Doyle (entre 1880 e 1930 aproximadamente) foi um período que a literatura da Inglaterra talvez nunca venha a igualar, em qualidade e quantidade. Doyle tinha como contemporâneos, concorrentes, e muitas vezes como amigos, autores como H. G. Wells, H. Rider Haggard, Arthur Machen, G. K. Chesterton, M. R. James, Oscar Wilde, Bram Stoker, Algernon Blackwood, Lord Dunsany, Rudyard Kipling, R. L. Stevenson...
 
Todos esses autores escreviam o que se chama hoje de romances policiais, romances de aventuras, romances de ficção científica, romances de costumes, romances de crítica social, romances de horror... Escreviam com liberdade, com ousadia, usando as fórmulas do momento mas sem se deixarem usar por elas. Tinham algo a dizer, e não uma receita a repetir. Cada um deles tinha uma voz literária própria, capaz de dobrar diante de si as convenções de qualquer gênero artificialmente criado pelos classificadores.
 
Hoje, 22 de maio, é a data do 162º. aniversário de nascimento do escritor. Aqui embaixo, coloco o link para o saite "Literatura Policial", que compartilhou esta entrevista, talvez o único registro da voz e da imagem de Doyle falando para uma câmera de cinema. Durante dez minutos, ele comenta a origem dos romances de Sherlock Holmes e do seu interesse posterior pelo Espiritismo.
 
https://literaturapolicial.com/2017/05/19/assista-ao-video-de-arthur-conan-doyle-falando-sobre-sherlock-holmes/
 





quarta-feira, 19 de maio de 2021

4705) "Love, Death & Robots": O Gigante Afogado (19.5.2021)




 

Uma das séries de FC mais simpáticas que tem na Netflix é Love, Death & Robots – uma série de animação, em episódios curtos, com histórias bem escolhidas (é uma série no formato “antologia”, com histórias independentes entre si), técnica em geral excelente, e boa variedade de estilos.
 
Entrou há pouco tempo a Temporada 2, e tive uma certa surpresa em ver que a temporada se encerra com a adaptação de um conto famoso de J. G. Ballard, “The Drowned Giant” (1964), adaptado e dirigido por Tim Miller.
 
É a história de um corpo humano gigantesco, que aparece de repente numa praia da costa da Inglaterra. Um homem jovem, morto. Aparentemente normal, não fosse pelo fato de que tem uns quinze metros de altura. O narrador da história é um professor que está fazendo pesquisas na biblioteca local, e narra o acontecido, e tudo que se seguiu – uma história que deixou nele uma marca profunda.
 
A ficção científica de J. G. Ballard é impregnada de uma atitude de espanto silencioso e contido diante de fatos extraordinários. Seus narradores em geral observam mais do que agem, e quando agem é porque são forçados a isso pelos fenômenos espantosos a sua volta. Reagem com preocupação, susto, terror, conforme o caso, mas sua atitude é basicamente de aceitação de um fato consumado.
 
Quando aquele corpo gigantesco vem dar na praia, ninguém (nem no conto, nem no filme) questiona a existência de uma pessoa com aquelas dimensões. A surpresa de todos é rigorosamente a mesma que seria de se esperar caso fosse uma baleia morta. Susto, curiosidade: nenhum questionamento do tipo “mas isto é impossível, é fantástico”.



No conto de Ballard, a presença física do cadáver é esmagadora, é como uma prova de si mesma, que dispensa explicações.
 
O que eu achava fascinante era em parte a escala imensa de suas dimensões, o enorme volume de espaço ocupado por seus braços e pernas, que pareciam confirmar a identidade de meus próprios membros em miniatura, mas, acima de tudo, o mero e categórico fato de sua existência. Não importa o que fosse suscetível de dúvidas em nossa vida: o gigante, morto ou vivo, existia de forma absoluta, proporcionando a nós um vislumbre de um mundo feito de “absolutos” similares, dos quais nós, espectadores ali naquela praia, éramos apenas cópias imperfeitas e pouco significativas.
(trad. BT)
 
Como um Gulliver naufragado, o corpo do gigante vem dar na praia mas já chega morto, indefeso, e nós, em nossa Lilliput, somos capazes de subir nele, fazer molecagens, pixações, pequenas profanações que precedem o desmonte final.
 
Um fluido escuro e salobro minava dos cotos dos membros que tinham sido amputados, manchando a areia branca e os mariscos. Ao caminhar sobre os pedregulhos da praia, notei que uma certa quantidade de piadas, slogans, suásticas e outros sinais tinham sido recortados na pele já cinzenta, como se o início da mutilação daquele colosso imóvel tivesse liberado um fluxo reprimido de rancor. O lobo de uma orelha tinha sido varado por uma estaca pontiaguda de madeira, e uma pequena fogueira tinha sido acesa no centro do peito dele, enegrecendo a pele.
 
A adaptação de Tim Hill é excelente, captando com perfeição o tom do original, com uma animação figurativa sóbria, que produz a necessária impressão de realidade, essencial para o efeito pretendido por Ballard.


Há poucas divergências em relação ao conto. No livro, o corpo aparece vestido com uma espécie de tanga feita de tecido; no filme, está nu. No livro, o ir e vir das ondas mexe com o cadáver, muda sua posição e o faz vir para mais perto da areia; no filme, ele fica encalhado o tempo todo no mesmo ponto. Apenas divergências mínimas.
 
Amputado, desmanchado, o gigante feito em pedaços vai sendo distribuído pela cidade, para empresas que fabricam fertilizantes ou alimento para o gado. Um dos seus ossos vai parar, simbolicamente, na fachada de um “Açougue Ballard’.


 
Love, Death & Robots tem se mostrado uma série de grande virtuosismo técnico e de bom gosto na escolha dos argumentos: vários episódios se baseiam na obra de outros autores muito bons, como Harlan Ellison, Joe Lansdale, Michael Swanwick, Joe Scalzi etc.  Alguns episódios têm um clima infantil, estilo Toy Story, outros são mais adultos. Há uma boa variedade de temas, ambientações, tratamentos visuais, traço, técnicas de animação, lembrando um pouco aquela “estética de revista” de filmes como Heavy Metal. Com episódios curtos, entre 10 e 20 minutos, cada temporada vale como uma boa antologia de contos.
 
O conto de Ballard foi publicado pela primeira vez em sua coletânea The Terminal Beach (1964), e já em 1965 saiu na Playboy norte-americana com o título “Souvenir”. Foi incluído na antologia do Prêmio Nebula, Nebula Award Stories (1965, ed. Damon Knight) e também em The Book of Fantasy (1988), a versão em inglês da famosa Antología de la Literatura Fantástica organizada por Jorge Luís Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo (não aparece na edição argentina que possuo, e que é bem anterior).  







domingo, 16 de maio de 2021

4704) Dicionário Aldebarã XXII (16.5.2021)




("Castelo e Sol", Paul Klee, 1928)

O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.


“Viamag”: a emoção contraditória de receber uma notícia importante (ruim ou boa), absorver seu significado, avaliar todas as consequências possíveis daquele fato, preparar-se para elas, e algum tempo depois receber o desmentido (bom ou ruim), e ter que se adaptar de volta à antiga situação.
 
“Jancib-tan”: o ato de partilhar alguma coisa com alguém: um pão, uma fruta, um copo de bebida, um guarda-chuva para atravessar uma rua. Estende-se para outras situações mais abstratos: assistir juntos um espetáculo, ouvir uma música, lembrar um fato passado, ou estarem os dois juntos por coincidência no momento de algum acontecimento importante para o mundo.
 
“Teressimbe”: conjunto de dois espelhos presos entre si por uma haste, e virados um para o outro. Usa-se para se pentear, cortar, tingir os cabelos, porque assim pode-se ver ao mesmo tempo a frente do rosto e a parte de trás da cabeça.
 
“Kaprilla-kambe”: refere-se às situações tensas em que dois indivíduos, ou grupos de indivíduos, estão presentes ao mesmo tempo num território disputado pelos dois, mas não desejam deflagrar um conflito imediato, de modo que ou simplesmente fingem ignorar a presença dos outros (como se fossem invisíveis) ou limitam-se a cumprimentos formais e lacônicos, como se não estivessem se reconhecendo mutuamente.
 
“Tezillen”: termo (que tanto pode ser usado em tom elogioso quanto em tom depreciativo) para indicar qualquer objeto que se destaca em um conjunto: uma pessoa de passo errado num batalhão em marcha, um livro desalinhado na estante, uma árvore verde no meio de um grupo de árvores ressequidas (ou o contrário), o melhor ou o pior aluno da classe.
 
“Onderrid”: pequenas moedas artesanais, rememorativas, com frases curtas e imagens, que as pessoas confeccionam em casa e que levam consigo para depositar num local que lhes recorda uma pessoa querida que já faleceu. Servem como homenagens simbólicas dedicadas ao morto, como se dissessem “lembrei-me de você quando visitei novamente esta praia, este restaurante, esta árvore”.
 
“Kottig”; certas perturbações nervosas que fazem uma pessoa perder ao mesmo tempo o sono e a noção do tempo, e passar uma noite inteira acordada, entregando-se a tarefas banais ou excêntricas, sentindo o tempo inteiro a impressão de que passaram-se muitos dias e o sol não nasceu.
 
“Jurukammi”: qualquer situação humana que envolva grande número de pessoas e onde a quantidade passa a se sobrepor às individualidades envolvidas, como numa guerra, um acidente com muitas mortes, uma multidão que protesta.
 
“Lilevald”: a sensação crescente de premonição que se tem à medida que se aproxima uma data de grande importância pessoal ou coletiva, sensação que consiste numa mistura de medo e de determinação, e onde se tem a impressão de que as possibilidades tornam-se cada vez mais numerosas à medida que a hora se aproxima e os acontecimentos convergem todos para o mesmo ponto.
 
“Darrib”: literalmente, “pequeno dia”; o horário noturno em que a lua aparece no céu, principalmente quando está cheia, deixando a noite mais clara e permitindo que as pessoas acordem levantem, conversem, visitem-se umas às outras, executem alguma tarefa necessária na noite bem iluminada.
 
“Pessaf”: costume pouco saudável durante as festas, comemorações etílicas, etc., de juntar numa só caneca os restos de diferentes bebidas que estão espalhados, e coagir alguém a beber tudo, à custa de promessas, ameaças, apostas, etc.
 
“Megssen”: a idéia de algo que apesar de ter inteireza e individualidade próprias pode ser visto também como parte de um todo maior: um elo numa corrente, um segmento de reta, um copo de água, um indivíduo na sua linha de antepassados e descendentes, uma lembrança, uma história, um país.