sexta-feira, 14 de setembro de 2018

4385) "O Tempo Desconjuntado" (14.9.2018)





Saiu há pouco tempo minha tradução, pela Suma de Letras, para Time Out of Joint  (1959) de Philip K. Dick, com o título O Tempo Desconjuntado.

Philip K. Dick escreveu esse romance numa época em que mantinha uma dupla persona literária. Estava dividido entre dois mundos, duas possibilidades de carreira como escritor.

Dick se achava qualificado para escrever romances do chamado mainstream (novelas realistas, psicológicas, ambientadas na vida cotidiana e normal) e romances de ficção científica.

Não seria o primeiro nem o último autor a se preocupar com essa encruzilhada.

Antes de 1959, ele escreveu romances mainstream, psicológicos: Gather Yourselves Together, Voices From the Street, Mary and the Giant, A Time for George Stavros, Pilgrim on the Hill, The Broken Bubble of Thisbe Holt. Alguns se perderam; outros só foram publicados décadas depois.

E produziu romances de FC como The Cosmic Puppets, Solar Lottery, The World Jones Made, Eye in the Sky, The Man Who Japed .

É preciso lembrar também que ele não era um escritor convencional, aquele que trabalha pacificamente de seis a oito horas, e depois vai ajudar os filhos no dever de casa, ou então vai aparar a grama do jardim.

Dick sempre teve uma relação problemáticas com as drogas. No caso dele, um californiano típico dos anos 1960, curiosamente a predileção não era por maconha, LSD, cocaína, heroína, etc.  Dick era viciado em comprimidos, tarja-preta de farmácia, que ele conhecia a fundo e tomava em combinações complicadíssimas.

Foi isso que o tornou capaz de escrever sem parar, sem comer direito, sem dormir direito. Eye in the Sky, de 1957, tem 255 páginas na edição da Ace Books; foi escrito em duas semanas.

Como acontece com qualquer escritor de pulp fiction, a escrita de P. K. Dick é um jorro, uma cachoeira, um derramamento incessante de peripécias mal-e-mal mediadas pela consciência. Já escrevi aqui no blog sobre o modo como o ato de escrever é um estado alterado de consciência, e como os autores da pulp fiction acabaram criando sua própria versão da “escrita automática” proposta por André Breton e os surrealistas.

O Tempo Desconjuntado me dá a impressão de um texto mais trabalhado, mais elaborado, mais revisado do que outros que Dick estava produzindo naquela fase. É um dos seus melhores livros, mas meio escanteado pela crítica.


O Tempo Desconjuntado tem a substância daquela tradicional xilogravura antiga que define o “conceptual breakthrough”: o indivíduo que perfura “a redoma do mundo”, “a bolha de Truman”. Ele rompe o hemisfério realista que o cerca e descobre que o mundo de verdade é um mundo de ficção científica onde a Terra está em guerra com a Lua.

Como em Truman, o personagem rompe a casca de dentro para fora, movido por uma paranóia, um estranhamento, a certeza de que estão acontecendo coisas inexplicáveis no mundo. Ele está disposto a ter seu mundo destruído, mas quer saber a verdade.

A cidade em que vive Ragle Gumm é uma cidade dos anos 1950; ele tem memórias da guerra, do tempo em que serviu num posto meteorológico numa ilha remota. Servir o exército numa guerra e ter que ficar vigiando nuvens pode ser péssimo para uns, adequado para outros.

Gumm sai de lá transformado num sujeito que, sem saber como, levado meramente pelo instinto e pelo esforço, adivinha diariamente onde vai tem mais probabilidade de cair uma bomba inimiga.

Gumm é um antecessor deste típico herói da FC cyberpunk, “o sujeito comum que tem um talento que ele usa mas não sabe explicar”. É o Case do livro Neuromancer e é Cayce Pollard da trilogia “Blue Ant”. É o seer, o homem que tem visões, e que na FC se transforma no homem cuja cabeça recebe algoritmos e os manipula de igual para igual.

É a pessoa cujo olho percebe detalhes, e cuja mente percebe padrões, e é capaz de tomar decisões quase sempre corretas em frações de segundo.

É o percebedor de padrões de regularidades, como os idiots savants que não conseguem se alimentar sozinhos mas resolvem em poucos minutos uma operação matemática complexa e enorme.



Esse mesmo tipo vamos encontrar depois em várias obras de Robert Silverberg, como o Martin Carvajal de The Stochastic Man (1975) cuja antevisão estatística abalava campanhas políticas e o mercado de ações, e o David Selig de Uma pequena morte (“Dying Inside”, 1972), o telepata que chegando à vida adulta começa a perder seus poderes mentais.



Anteriores ao protagonista deste livro de Dick são as raridades parapsicológicas que Theodore Sturgeon descreve em O Homem Sintético (“The Dreaming Jewels”, 1950) ou em More than human (1953). Não são heróis propriamente de inteligência superior. Desajustados sociais, marginais meio romantizados, esquisitos mas humanos. Pessoas que fazem algo sobrenatural, algo raro que pode ser útil, na paz e na guerra.

A Guerra Fria foi uma época em que todos os “talentos selvagens” relativos à mente foram sendo testados. Desde o LSD administrado sem aviso às cobaias, como na recente série de TV Wormwood quanto aos delírios de laboratório deixando sequelas.

Ou as verbas investidas em paranormalidade (há uma versão jocosa disto em Homens Que Olhavam Para as Cabras, 2009, de Grant Heslov), ou a criação de um “Arquivo X” só para rastrear o lumpen-sobrenatural.

É meio repetitivo falar em Guerra Fria como grande influência na obra de Dick, mas essa paranóia constante aparece em quase tudo dele. Não o medo do Comunismo ou do Nazismo, que aparecem citados em poucos livros. Mas o medo da sociedade de vigilância e punição a ser instalada para poder produzir uma defesa contra a ameaça comunista e nazista.

A Guerra Fria era a ameaça de uma guerra atômica que nunca chegou a acontecer (a não ser para duas cidades do Japão), e para que ela não acontecesse criaram-se imensas estruturas militares, tecnológicas, jurídicas, financeiras. A atual Sociedade da Hipervigilância pode até nem ter sido o objetivo inicial da Guerra Fria, mas é resultado dela.

É ao mesmo tempo a sociedade do espetáculo, da vigilância, da interconexão, do acompanhamento. De certa forma,Time Out of Joint é mais uma das obras de P. K. Dick onde um personagem parece dizer: “descobri que sou o homem mais importante do mundo”. Foi este o título de uma tradução portuguesa deste livro.


O paranóico descobriu-se no centro de um mundo que o conhece e acompanha suas ações com ansiedade. E não só isto: o mundo em que ele vive foi criado para ele, em função dele, é um paraíso classe-média feito à sua imagem e semelhança.

Já a vida pessoal de Truman Burbank, no filme de Peter Weir, é apenas o mais bem produzido reality show da Terra, e com uma cereja no bolo: o imenso novelão é encenado à revelia do personagem principal, para quem aquilo é uma cidade de verdade. Ele pensa que aquele trabalho é de verdade, que aquela esposa é de verdade...

Por isso que Truman Burbank gostava de tomar cerveja. Nenhum filósofo, nenhum cientista pode dizer que aquela cerveja que ele tomava ali não era real.

O Tempo Desconjuntado tem algumas das melhores páginas “philipkdickianas” da literatura de FC, aqueles trechos onde a fachada do Real se rasga e deixa entrever alguma coisa que existe por trás.

E no faz sentir admiração por um personagem que decide ir em frente e confirmar uma dessas duas hipóteses: ou eu fiquei louco, ou o mundo em que eu vivia era uma mentira.












terça-feira, 11 de setembro de 2018

4384) Lamentos sertanejos (11.9.2018)




“Ó Deus, perdoe esse  pobre coitado, que de joelhos rezou um bocado, pedindo pra chuva cair sem parar”.

Esta é a “Súplica Cearense”, de Gordurinha, gravada por Ari Lobo.


Essa música é um clássico de um tipo de canção nordestina que alguns chamam de protesto, mas eu acho que “protesto” é um guarda-chuva amplo demais, cabe desde certas litanias de Bob Dylan até o Faces do Subúrbio ou Mano Brown.

Poderíamos chamar esse gênero de queixume nordestino, com a desvantagem de que queixume parece a muitas pessoas uma palavra apequenadora, quando não é essa a intenção.

Lamento seria melhor; um lamento sertanejo, como o de Dominguinhos e Gilberto Gil: “Por ser de lá, do sertão, lá do cerrado, / lá do interior, do mato, / da caatinga, do roçado...”

Considerado como subgênero, podemos pendurar aí títulos como “Meu Cariri” e “Aquarela Nordestina” de Rosil Cavalcanti; “Triste Partida” de Patativa do Assaré, com Luís Gonzaga; “Acauã” de Gonzaga.

Mas a súplica do nordestino daquele canção inicial de Gordurinha não é a súplica de um mero desgraçado. Acaba sendo na verdade uma intimação. Um questionamento feito a Deus pelo nordestino, cara a cara, sem intermediários. O tête-à-tête é respeitoso, mas altivo. “Meu Deus, se eu não rezei direito o senhor me perdoe, eu acho que a culpa foi – desse pobre que nem sabe fazer oração...” 

Existe um sarcasmo impotente nessa auto-depreciação diante do monarca. Não é um apequenamento. É a polidez do herói de cordel, respeitoso, chapéu apoiado ao peito, questionando diplomaticamente o Dono do Mundo na presença de toda a sua corte de vizires.

Sim que o “ai ai meu Deus, tenha pena do Nordeste” da “Aquarela Nordestina” acaba se revelando um gemido mesmo, mas a variedade de tons e de filosofias nessas letras mostra que não se trata de se queixar da vida. Em sua maior parte, essas canções são painéis visuais, panorâmicas vagarosas. Numa paisagem visualmente perfeita como a da letra de Rosil Cavalcanti:


No Nordeste imenso, quando o sol calcina a terra,
não se vê uma folha verde na baixa ou na serra.
Juriti não suspira, inhambu seu canto encerra,
não se vê uma folha verde na baixa ou na serra.

Acauã bem do alto do pau-ferro canta forte
como que reclamando nossa falta de sorte.
Asa branca sedenta vai chegando na bebida;
não tem água a lagoa – já está ressequida.

Ou então um retrato de uma pequena odisséia social nos versos de Patativa do Assaré em "Triste Partida":


(...)
O carro já corre no topo da serra
olhando pra terra seu berço, seu lar,
aquele nortista partido de pena
de longe ele acena, adeus meu lugar...

No dia seguinte já tudo enfadado
e o carro embalado veloz a correr,
tão triste coitado falando saudoso
um seu filho choroso exclama a dizer:

– De pena e saudade papai sei que morro,
meu pobre cachorro quem dá de comer?
Já outro pergunta: – Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato, Mimi vai morrer...

Essas canções, são lamentos, sim, são queixas sem grandes esperanças, são o mergulho corajoso rumo ao fundo do poço para ver se depois dele existe uma saída.

Vi uma vez em algum curta-metragem sobre o sertão uma voz em off perguntar a um velho sem dentes, de roupa rasgada, quase centenário:

– O senhor acha que o sofrimento do povo daqui é muito?...

O velho olhou para um lado, cuspiu de banda e retorquiu:

– É mió dizer que sim, né? Se disser que é pouco, mandam mais.

Essa capacidade para a auto-ironia acompanha passo-a-passo a tendência ao lamento, à súplica, ao desespero melodramático que tanto encanta o sertanejo pobre quando transformado em literatura, como em certos romances de cordel:

Nasci num berço de dores
criei-me entre os pesares
a dor, a tristeza e pranto
são meus extremosos lares
meu fado foi o carrasco
que sepultou-me nos mares. (...)

Que sorte tenho, ó meu Deus
que tudo de mim se esconde
se como não sei o que
se durmo não sei aonde
se choro ninguém me afaga
se chamo ninguém responde.

Ó mar, se algum dia ainda
passar aqui povo meu
revele uma desdita
que assim jamais se deu
dizei que dentro de ti
Cecília Afra morreu.

(A Estória de Cecília Afra – Três Suspiros de uma Esposa, de Teodoro Ferraz da Câmara, 1904-1960)

Essa veia do lamento retórico exprime uma das contradições do temperamento do sertanejo pobre: quanto mais seco, mais atenção ele presta ao derramamento sentimental; quando mais rude, mais vulnerável a imagens hiperbólicas de extravasamento de emoções.

Como se essa linguagem poética de queixumes-em-altas-vozes fosse a única maneira possível de jogar para fora tanto sofrimento curtido em silêncio ao longo de décadas por pessoas que têm vergonha de chorar ou de se emocionar em público.

Daí que os grandes momentos da emoção sertaneja acabam sendo os momentos mais contidos, onde um apocalipse inteiro se condensa numa sextilha, num par de versos, numa trova, num pequeno espaço de texto onde se deposita o peso de uma vida inteira de derrotas e aprendizados.

Como os versos de Leandro Gomes de Barros, tantas vezes recitados por Ariano Suassuna:


Se eu conversasse com Deus
iria lhe perguntar:
por que é que sofremos tanto
quando viemos pra cá?
Que dívida é essa que o homem
tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
como é que ele é feito;
que não dorme, que não come,
e assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
a gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
e outros que sofrem tanto,
nascidos do mesmo jeito,
criados no mesmo canto?
Quem foi temperar o choro
e acabou salgando o pranto?











quinta-feira, 6 de setembro de 2018

4383) Dez grandes jogos do Treze (6.8.2018)




(time do Treze, com Garrincha)


Mário Vinicius Carneiro é hoje o historiador do Treze Futebol Clube, posto que herdou informalmente do inesquecível Severino Marinho Leite. Seu livro Treze Futebol Clube: 80 Anos de História (A União, 2006) é uma obra imensa e preciosa, tornada minúscula apenas diante da gigantesca tarefa a que se propôs: contar a história do clube mais querido e mais heróico da Paraíba.

Ele me pede, para outro trabalho, um breve relato de “dez jogos inesquecíveis” do Galo. Eu poderia enumerar aqui dez vitórias arrasadoras, entre milhares. Mas prefiro destacar jogos que, independente do seu resultado, tenham sido marcantes na minha história pessoal como torcedor.

1)
Durante muitos anos eu, garoto ainda, lamentei não ter podido assistir a partida de 6 de janeiro de 1961 quando o Treze empatou em 1x1 com o Dínamo, de Bucarest. Consta que foi o primeiro jogo internacional realizado em Campina Grande. Não foi o primeiro jogo internacional do Treze: em 16 de dezembro de 1951 o Galo havia perdido de 3x2 para o Vélez Sarsfield (Argentina), num amistoso em João Pessoa. O Dínamo ficou sendo uma espécie de lenda em Campina; o pessoal dizia que no primeiro tempo o sol forte castigou os romenos, mas quando o sol foi esfriando eles botaram pra correr e deram uma prensa no time do Galo.

2)
Outro jogo histórico foi quando o Treze enfrentou a Seleção da Romênia no Estádio Presidente Vargas, em 8 de fevereiro de 1968. O time romeno era mais ou menos o mesmo que dois anos depois seria derrotado pelo Brasil na Copa do Mundo do México. O grande detalhe esse jogo foi a presença de Garrincha jogando pelo Galo. Nessa época, o grande Mané vivia viajando pelo Brasil, jogando partidas por clubes de qualquer lugar, por uns trocados. Gordo e sem muita força para driblar, mas (segundo os que tomaram umas e outras com ele) simpático e bem humorado. Só fez uma jogada certa: pegou a bola quase na lateral do campo e fez um cruzamento longo na cabeça de outro atacante, e o Estádio inteiro ficou de pé ao mesmo tempo.

3)
Não posso deixar de fora o dia histórico em que o Galo se tornou campeão paraibano invicto de 1966, derrotando o Campinense por 1x0, gol de Cocó. O presidente do Galo era Edvaldo do Ó, também reitor da Universidade Regional , que costumava bater de frente com quem se atravessasse. O Treze nesse ano rompeu com a imprensa e editou seu próprio jornal (“A Tarde”); as rádios eram proibidas de transmitir os jogos no Estádio Presidente Vargas. Um ano antes, quando o campeonato de 1965 ainda estava em curso, ele havia anunciado pelo rádio: “Este campeonato já está perdido, mas eu prometo à torcida que no ano que vem o Treze vai ser campeão invicto”.

4)
Tem jogos que nem são tão importantes assim, mas a gente não esquece. Por volta de 1976 Treze e Campinense estavam numa fase de grandes contratações. O Galo tinha contratado desde o ano anterior o meia Soares e o atacante João Paulo. Foi marcado um amistoso no Amigão, uma espécie de caça-níquel de pré-temporada, e o Treze derrotou o Campinense por 2x0, gols de Soares e João Paulo. A imprensa rubronegra estrilou, queixando-se de que os reforços do time Raposa não tinham chegado a tempo para o jogo. E foi marcada uma partida revanche para a semana seguinte, no mesmo local. E dessa vez o Campinense entrou completo, com todas as novas estrelas reluzindo. E o Treze ganhou de 2x0, gols de Soares e João Paulo. Foi o famoso “jogo replay”.

5)
Em 8 de dezembro de 1974, um jogo histórico do Galo no antigo Estádio Leonardo da Silveira, na capital. O Treze precisava de uma vitória sobre o Botafogo para conquistar o quarto e último turno de um campeonato onde o Campinense já ganhara os três primeiros. A BR-230 ficou congestionada nesse dia de tantos ônibus e carros partindo para João Pessoa. A torcida alvinegra invadiu o Estádio e vibrou do começo ao fim com a vitória por 2x1, gols de Fernando Canguru de cabeça e Vandinho. Foi um jogo literalmente “ganho pela torcida”.

6)
Nessa mesma época, o Treze inaugurou os refletores do Estádio Amigão num amistoso com o Flamengo carioca, em 13 de agosto de 1975. Isso foi no auge do meu envolvimento como torcedor. Lembro que passei a noite da véspera nos fundos do Cine Babilônia (cujo gerente, Luiz Teixeira, era trezeano autêntico), dando instruções ao pintor de cartazes (cujo nome não lembro agora) para pintar as faixas que íamos levar no dia seguinte, das quais só lembro os dizeres de uma: “O Treze saúda a imprensa, / testemunha da sua História”. Com a bola rolando, o Treze abriu o placar logo no início com João Paulo, e o Flamengo virou com dois gols de Zico, vencendo por 2x1.

7)
Seria meio ufanista registrar como inesquecíveis apenas as vitórias. As derrotas também são. Vou escolher como exemplo a da decisão do Campeonato Paraibano em 8 de fevereiro de 1965, um jogo noturno no “Plínio Lemos” (o estádio do Campinense). O Campinense ganhou por 2x1, de virada, com um jogador a menos (Zé Preto foi expulso no 1º. tempo), com um gol de cabeça de Zé Luiz. Três anos depois eu estava trabalhando na Reitoria da FURNe com Zé Luiz, e disse a ele que jamais o perdoaria por aquele gol, ao que ele deu uma grande gargalhada (pois agora já estava jogando no Treze.) Naquela “noche triste”, ensopei três travesseiros de choro.

8.
Não foi propriamente um jogo, mas ficou na história. Em 1974 o Treze estava há não sei quantos jogos sem ganhar do Campinense, um “tabu” que já durava mais de um ano. Muita coisa, considerando-se que em um ano os “maiorais” jogam várias vezes entre si. E então veio o “Torneio Início” do Campeonato Paraibano, um costume que não existe mais, onde os todos os times do campeonato disputam partidas de 15 ou 20 minutos em 2 tempos, decididas nos pênaltis em caso de empate. Nesse ano o Treze venceu o Guarabira, o Botafogo-PB e na decisão o Campinense, todos pelo placar de 2x0. Foi esse jogo que revelou o artilheiro Fernando Canguru, que marcou os 2 gols da decisão e virou grande ídolo do Galo.

9.
Tentei me lembrar de alguma grande goleada, porque goleada é sempre uma festa. E me veio à memória um período de uns dois meses, entre julho e agosto de 1973, em que o Treze aplicou uma série de goleadas em times paraibanos: 8x1 no Santos (de João Pessoa), 8x0 no Esporte (de Patos), 8x1 no Guarabira e 10x0 no Santa Cruz (de Santa Rita). Nessa época, eu assistia todos os jogos na arquibancada atrás do gol do portão de entrada, e era uma festa. Quando o Treze pegava a bola e partia em nossa direção, começava um coro frenético: “Lá vem, goleiro! Lá vem!”  E era um bombardeio, porque tínhamos um ataque muito bom, com Assis Paraíba, Vandinho, Zé Pequeno, Haroldo e outros. Quando a “carga da brigada ligeira” partia e a arquibancada ficava toda de pé, era uma beleza, nunca me diverti tanto.


10.
E para não ficarmos apenas nos jogos da antiga, registro um que curiosamente vi na tela do computador, poucas semanas atrás: Caxias 1x3 Treze, em Caxias do Sul, quando o Treze conseguiu a ascensão para a série C do Brasileirão. Uma partida impecável do Galo, que sofreu o gol de abertura, empatou ainda no primeiro tempo, virou no começo do segundo e fechou-a-tampa no finzinho com um gol sensacional de contra-ataque.


Cada jogo do Galo é uma página da História!  Amar um time de futebol é ser casado com o Imprevisível e virar sócio do Acaso. Eu vivo dizendo que larguei o vício, e de repente olha eu aqui.


(Esta crônica foi publicada no meu livro "A Fonte dos Relâmpagos", Editora Arribaçã, Cajazeiras, 2022) 









domingo, 2 de setembro de 2018

4382) Bertsolaris (2.9.2018)




Já escrevi aqui no blog sobre os Bertsolaris, os repentistas em verso do país basco, na Espanha. É uma tradição que em alguns pontos se assemelha muito à do repente nordestino.

Os “bertsolaris improvisados” equivalem ao nosso repente, com ou sem acompanhamento musical; os chamados “bertsos escritos” equivalem ao nosso folheto de cordel. Apesar do idioma basco ser algo quase alienígena, sua cultura oral se organiza em gêneros não muito diferente dos nossos, como é sugerido por esta tabela:


Os bertsos, ou versos (no sentido que usamos para “estrofe”), fazem parte da vida cotidiana e podem ser improvisados a qualquer momento, se ocorrer a alguém um tema e um bom verso. Em áreas de alta voltagem poética, como o Vale do Pajeú, no meio da uma conversa desabrocha um mote que mal é anunciado e alguém já se dispõe a glosar. Faz parte da cultura local. Isto significa que na platéia daqueles ginásios lotados há um bom número de pessoas que sabem como se faz um verso, distinguem entre clichê e novidade, e tanto sabem reconhecer um verso bom quanto sabem fazê-lo. Não se trata de uma platéia de especialistas, mas de público e artistas estarem mergulhdos na mesma cultura viva, e exigente.

Este clip aí abaixo é de um festival de poesia improvisada num ginásio, para 17 mil pessoas. Sorteiam-se temas para improvisos; um detalhe que eles enfatizam, é que o verso tem que ser feito obrigatoriamente do ponto de vista de um personagem específico. “Na mesma competição posso ser Obama, depois uma bicicleta velha, depois um pescador, depois um jogador do Athletic de Bilbao, um amante abandonado, etc.” diz um poeta.


É um verso improvisado a capella, não há acompanhamento, e a melodia é uma coisa que me parece meio canto gregoriano.

O formato mais frequente é o de duas quadras justapostas, rimas geralmente XAXA-XBXB. Algumas vezes as duas últimas linhas são repetidas, para encerrar.  Os versos têm geralmente oito sílabas.

Seus festivais têm algo dos nossos congressos de violeiros, multidões na expectativa de ouvir o surgimento de grandes versos. Em outros momentos, o que se tem é a tensão crispada de uma mesa-de-glosas no sertão. Um poeta explica assim o melhor método para improvisar (e eu concordo inteiramente): prepara-se primeiro uma chave-de-ouro eficaz, um verso final com peso. E depois a pessoa vem ao começo e sai improvisando, compondo o resto de modo a desembocar nesse final. A “queda do verso”, antes de repetir o mote, como se diz entre violeiros.

Um exemplo de “tema” como eles empregam: um cantor, Mendiluze, fará um órfão, que nunca teve problema com esta condição e que quando adulto se tornou riquíssimo. Hoje, os criados trouxeram a sua presença um homem (que vai ser interpretado pelo outro cantor, Egaña) que alega ser seu irmão gêmeo. Os dois improvisam um diálogo em versos cada qual do ponto de vista do seu personagem. Cada um diz duas quadras, alternadamente.

Pode ser uma dimensão enriquecedora para bons improvisadores. De certo modo, uma certa herança teatral: é um repente dialogado através de máscaras momentâneas. Não são apenas versos. Há um mínimo de dramaturgia implícita, os versos criam uma cenazinha, um entremez relâmpago.

Em outras competições eles sorteiam, como no Nordeste, um tema específico e um tipo-de-estrofe específico, e o cantador deve improvisar dentro desses limites.

Aqui mais um clip, Antoni Egaña cantando sozinho:


“Você é um jornalista, sentado à mesa na redação para escrever seu último artigo”. O cantador dá alguns passos até o microfone, concentra-se e canta suas estrofes quando as sente prontas na mente. O festival parece mais com uma mesa-de-glosas contemporâneas do que com os congressos de violeiros. A ausência da música instrumental é notável, porque o ginásio inteiro prende a respiração enquanto o poeta pensa.

É como as mesas de glosas que tenho visto em algumas cidades, principalmente na região de Tabira e de São José do Egito (PE). Eu acho aquilo O Mais Silencioso Espetáculo da Terra, porque são cinco ou seis pessoas sentadas numa mesa, pensando, e uma multidão olhando a gota de suor na testa deles, e prendendo a respiração a cada instante a mais de demora. E de repente, um verdadeiro grito de gol, com a linha final do verso.

Aqui, mesa de glosa em Tabira (PE):


Esses temas dos bertsolaris sugerindo diálogos são uma certa teatralização do ato de improvisar, porque exigem contexto, exigem personagem, exigem uma mentalidade especial dizendo aquelas palavras. Parece inclusive com alguns tipos de exercícios de improviso, entre atores, em que se sorteiam alguns elementos, como local, pessoas, algum acontecimento, para que eles improvisem na situação descrita.

Tira um pouco do universo da música, para a qual a cantoria tem perdido grandes improvisadores, que agora gravam forró ou canção romântica ou repertório regional. As mesas-de-glosa estão mais próximas dos bertsolaris do que de um festival de violeiros. É o verso puro, cantado a capella, de um lado; e a estrofe complexa onde é preciso encaixar a idéia produzida pelo tema dado alguns segundos atrás.

Uma cantora famosa de bertsolaris, Maialen Lujanbio:


Nas mesas de glosa, os improvisos são feitos pela ordem. Um mote é sorteado, anunciado a todos, deixado em destaque num telão ou num notebook ou num quatro de parede, bem visível para os improvisadores e para o público. O primeiro poeta na ponta da mesa faz seu verso, e somente depois dese se desincumbir será a vez do número 2 mostrar seu verso, e assim por diante. No segundo sorteio, começa-se pelo poeta 2, para proover rodízio de posições.

Outra mesa de glosa em Tabira (PE):


Há teorizações de todos os tipos sobre as vantagens e desvantagens da mesa de glosas. Dois pontos me parecem corretos: ser o último da fila tem a vantagem de dar mais tempo para pensar, para estar com o verso pronto na ponta da língua. E tem a desvantagem de ver os colegas que o antecederam usar as melhores possibilidades de rimas. Como todos são obrigados a rimar com as palavras do mote, às vezes a palavra tem pouco repertório de rimas, e repetir uma rima já usada por um colega é considerado um pecado venial em muitos círculos poéticos.

Se o mote for, por exemplo, “abrindo a janela eu vejo / mil olhos no firmamento”.  Talvez minha primeira idéia seja dizer alguma coisa sobre os astros e findar com a Lua que é feita de queijo. Mas pela escassez de rimas é bem possível que antes de mim alguém lembre da rima “queijo” e refaça o mesmo raciocínio. Se ele recitar uma glosa assim, aí vou ter que começar tudo de novo, e às pressas, para ter verso pronto quando minha vez chegar.


E às vezes o poeta sabe que o verso que ele pensou é muito melhor do que aquele que o precedeu, e que se o verso agradar, o público perdoará e esquecerá depressa a repetição. 







sexta-feira, 31 de agosto de 2018

4381) Variações em torno do pós-vida (31.8.2018)




Eu imagino às vezes que existe uma seita no norte da Mongólia para quem o inferno consiste em não se ter consciência dele.

Explicando melhor: o inferno não é um lugar diferente da Terra. É a ilusão de estar vivendo ainda, no mesmo mundo onde existia antes de morrer. Uma ilusão sádica, que Swedenborg anteviu ao seu modo, num texto recolhido na Antologia da Literatura Fantástica, de Borges, Casares & Ocampo:

Os anjos me comunicaram que quando Melanchton faleceu foi-lhe destinada no outro mundo uma casa ilusoriamente igual à que tivera na terra. (Ocorre o mesmo com todos os recém-chegados na eternidade, e por isso acreditam que não morreram.)
(Swedenborg, “Um teólogo na morte”)

A pessoa morre durante o sono, mas em espírito acorda na manhã seguinte e tudo lhe parece ser a continuidade daquela vida anterior.

Só que a pessoa agora está (para usar a linguagem cibernética) rodando numa simulação do tempo que viveu na Terra. Um simulacro no qual ele não percebe nenhum erro de continuidade.

Seria de fato interessante que não existisse o Inferno convencional (fogo, tridentes, demônios sádicos, etc.). O morto teria que prosseguir vivendo.

Ou, melhor ainda: voltaria ao instante do nascimento.  Teria que repetir tudo, passar por todas as mesmas circunstâncias de bebê, criança, jovem, etc.  E poderia haver dois modos de replay: modo amnésico e modo aprendizado.

Não estou delirando – tem um conto de Machado de Assis que consiste exatamente nisso: “A Segunda Vida” (em Histórias Sem Data, 1884). Um tal de José Maria afirma ter morrido e nascido de novo, com memória da vida passada; isto o levou a, da segunda vez, ter uma vida muito pior do que a primeira, porque a memória o deixava receoso de cometer erros. Com isso acabou privando-se de uma infinidade de coisas e cometendo a mesma quantidade de erros, só que de outra espécie.

Este seria o “modo aprendizado”, a chance de fazer alguém consertar, no pós-vida, as mancadas que deu.

O “modo amnésico” (o cara nasce de novo, mas não lembra de nada) coloca um problema filosófico: a gente não lembra do que aconteceu e pensa que esta vida aqui é a primeira e única. O que pode ser o presente caso.  Quantos milhares de vezes não já terei tentado escrever o presente artigo?

Podemos imaginar uma seita para quem o Paraíso não precisasse ser o Paraíso convencional (nuvens, asas, harpas). Seria um Paraíso bem parecido com a vida que a pessoa desfrutou na Terra. Como a pessoa fez por merecer algum tipo de recompensa, essa pós-vida se assemelharia à vida física, seria quase um prolongamento benigno dela.

A pessoa fica vivendo numa casa parecida com a sua, e acontecem-lhe coisas parecidas com o que na vida em carne e osso lhe provocaram boas reações; e la nave va. Esse Paraíso seria uma mistura de “volta sentimental” e “amnésia protetora”. Uma dona de casa viverá uma rotina de refeições que dão certo e faxinas leves; um Hell’s Angel terá aventuras ruidosas e inconsequentes.

O Inferno desse mundo seria, simetricamente, uma vida onde tudo acontecia da maneira errada. Doenças, dívidas, contratempos, desemprego... O sujeito não entende (ele pensa que ainda está na vida terrena) por que seu time sofre derrotas tão acachapantes para equipes menores, ou porque a mulher o trai, ou por que o patrão no escritório sabota seus projetos e retém seu contracheque.

O cidadão afrouxa a gravata, pára pra tomar um cafezinho no bar da esquina (o café é frio, com gosto de rato) e pensa: “Porra, que inferno, o que foi que eu fiz pra ter que passar por isso tudo?”. E não saberá o quanto está perto da Verdade.













quarta-feira, 29 de agosto de 2018

4380) Contracapa de Reddit (29.8.2018)




(ilustração: Theo Ellsworth)


&  se a Natureza entrasse em greve nem ela mesma escapava

&  a arte de fazer perguntas tão claras que não têm necessidade de resposta

&  se no mundo houvesse justiça para todos a gente nem ia perceber a existência da justiça

&  os círculos concêntricos daquela pedra que caiu na água no ano passado ainda não chegaram nas margens

&  basta aceitar o Absurdo e tudo começa a fazer sentido

&  apanhar e não reagir, não por bondade, mas por estratégia

&  certas mentes precisam orbitar em torno de um valor absoluto qualquer, senão viram farofa no ventilador

&  se você ensinar um prisioneiro a garatujar memes na parede da cela, pode até deixar a porta aberta

&  a palavra “amor” é uma espécie de dinheiro que compra qualquer coisa

&  ninguém escapa de uma guerra, nem mesmo quem sobrevive

&  toda mudez será castigada

&  tem dias que eu estou tão puto que dá vontade de sair pra rua só pra reagir a um assalto

&  quando eu morrer, até de dor de dente eu vou sentir falta

&  a verdade é que se existisse um mosteiro medieval para ateus, eu já estava lá há muito tempo

&  o que acontece com meu corpo durante o sono é metade conserto e metade desmoronamento

&  na democracia a gente tem a chance de escolher os próprios sequestradores

&  a mente humana fica teimando em tirar conclusões, mesmo quando dispõe apenas de três palavras, meia vírgula e um ponto de exclamação com validade vencida

& às vezes a gente pensa que chegou a uma síntese mas o que tem em mãos é um coquetel de incongruências

&  um bom indício de como o mundo funciona é que uma doença pode ser contagiosa, mas a saúde não é

&  o Paraíso é tentar comer carne de sol com um talher de pano

&  o governo é uma espécie de Robin Hood institucionalizado, que toma dos ricos e distribui com os pobres

&  o mundo é assim: Deus entrega os produtos e o Diabo organiza a logística

&  o mundo é um diálogo de surdos e uma mímica de cegos

&  aquela sensação de receber a encomenda de uma Ilíada e pensar que um soneto bastaria

&  o futuro está tão incerto que nem sombra eu tô projetando

&  técnica e espontaneidade não são antônimos, são complemento um ao outro, como perna esquerda e perna direita

&  é um cara tão sem autoridade que se ele tanger uma galinha a galinha fica

&  o Himalaia desconhece o centímetro

&  a violência pode até ser inevitável, mas não é indispensável

&  o planeta vive nos mostrando como se faz para sobreviver a si mesmo

&  troco dez quilos de amor por duzentas gramas de respeito

&  certas pessoas são o mau hálito do mundo

&  para dar inspiração poética, tanto faz um cavalo, um cavaleiro, ou uma carga da cavalaria

&  a dor alheia não diminui a nossa, senão o sadismo imperava

&  o fogo não decifra o que consome

&  o problema dos elogios é que eles acabam inflacionando a expectativa de terceiros

&  cada caso é um cazzo

&  sou contra a pena de morte, basta cortar as duas mãos e furar os olhos

&  se não fosse a grande imprensa, não teríamos como esconder tanta coisa que acontece no país

&  algumas empreitadas nossas dão tão certo que a gente chega fica com uma espécie de remorso

&  o grande perigo hoje em dia é ir dar uma volta nas redes sociais e ser atingido por uma fala perdida

&  poesia é quando alguém escreve FOGO num quarto escuro e o quarto se clareia

&  quem passa o tempo todo pedindo calma é porque está precisando

&  uma banda de rock composta por oito integrantes, todos guitarristas

& um mundo pós-apocalíptico onde poços de gasolina vazios são usados como porão de guardar prisioneiros

&  até mesmo uma indústria de roupinhas para cachorros deve achar que presta um serviço à humanidade












sexta-feira, 24 de agosto de 2018

4379) Bellamy, Machado de Assis e Borges (24.8.2018)




Um dos romances de antecipação científica mais famosos do século 19 foi Looking Backward 2000-1887, de Edward Bellamy, publicado pela primeira vez em 1888. Grande sucesso de público. Diz-se que foi o terceiro livro de autor norte-americano a atingir a vendagem estupenda que atingiu, comparando-se apenas a A Cabana do Pai Tomás (1851) de Harriet Beecher Stowe e Ben Hur (1880) de Lewis Wallace.

Looking Backward conta a história de Julian West, um rapaz de 1887 que adormece um sono hipnótico e desperta no futuro, no ano 2000, na mesma cidade de Boston onde morava, só que agora a cidade faz parte de um futuro utópico e socialista.

O livro segue o padrão normal das utopias do século 19 e começos do século 20 – alguém chega de supetão numa sociedade futura ou remota, espanta-se com as transformações sociais, e recebe a companhia de um cicerone que vai explicar-lhe como aquele mundo funciona. O mundo de Bellamy, no caso, é racionalista, socialista (embora ele evite a palavra), cheio de pequenas justiças compulsórias.

Bellamy pode ter também influenciado várias obras obscuras mas importantes da literatura utópica ou especulativa brasileira, tais como São Paulo no Anno 2000 de Godofredo E. Barnsley (1909) ou O Reino de Kiato de Rodolpho Teófilo (1922).




Mas nem é disso que quero falar, e sim de certo curioso efeito narrativo do livro. Antes de contar aos seus leitores “futuros” como foi parar no mundo deles, Julian West começa dizendo o ano em que nasceu.


O começo de Looking Backward diz (tradução minha):


CAPÍTULO I

Vi pela primeira vez a luz do dia na cidade de Boston, no ano de 1857. “O quê!”, vocês dirão, “mil oitocentos e cinquenta e sete? Que erro mais curioso. Ele quis dizer mil novecentos e cinquenta e sete, é claro.” Peço perdão, mas não houve nenhum erro. Eram cerca de quatro horas da tarde do dia 26 de dezembro, um dia após o Natal, no ano de 1857, não de 1957, quando eu respirei pela primeira vez o vento leste de Boston, o qual, posso garantir ao leitor, naquele período remoto se caracterizava pela mesma qualidade penetrante que tem neste ano da graça de 2000.

A surpresa sugerida, é claro, é porque os leitores de 2000 não podem acreditar que o rapaz tenha 143 anos.

Pode-se comparar o início desse livro com o início do conto de Machado de Assis, “O Imortal” (1882), publicado pela primeira vez na revista A Estação (Rio de Janeiro), entre julho e setembro de 1882, como folhetim seriado.

Assim começa o conto de Machado:


— Meu pai nasceu em 1600...

— Perdão, em 1800, naturalmente...

— Não, senhor, replicou o Dr. Leão, de um modo grave e triste; foi em 1600.

Estupefação dos ouvintes, que eram dois, o Coronel Bertioga, e o tabelião da vila, João Linhares. A vila era na província fluminense; suponhamos Itaboraí ou Sapucaia. Quanto à data, não tenho dúvida em dizer que foi no ano de 1855, uma noite de novembro, escura como breu, quente como um forno, passante de nove horas. Tudo silêncio. O lugar em que os três estavam era a varanda que dava para o terreiro. Um lampião de luz frouxa, pendurado de um prego, sublinhava a escuridão exterior. De quando em quando, gania um seco e áspero vento, mesclando-se ao som monótono de uma cachoeira próxima. Tal era o quadro e o momento, quando o Dr. Leão insistiu nas primeiras palavras da narrativa.

— Não, senhor; nasceu em 1600.

É visível a semelhança retórica das duas aberturas. Anuncia-se a data (remota) do nascimento do personagem, há uma reação de espanto, uma correção é sugerida, mas o narrador reafirma, e começa uma transição para uma concretude dramática que faz esquecer o resto.

Quando percebi essa semelhança imaginei que Machado (1839-1908), ao escrever seu conto fantástico estaria meio que citando Bellamy (1850-1898), escritor contemporâneo seu. Só depois me dei conta de que o conto de Machado é anterior ao romance de Bellamy.

As Carpideiras do Plágio já começam a puxar seus enormes lenços, mas peço que façam uma pausa enquanto concluo minha argumentação. Bellamy, pelos relatos de que se dispõe, concebeu seu romance e trabalhou nele entre 1880 e 1887. Seria capaz de ler em português? Teria tido acesso à revista A Estação? Teria não apenas lido o conto de Machado, mas gravado na memória o recurso estilístico desta abertura?

Note-se que a semelhança não é entre os dois argumentos, os dois enredos. Em casos assim, é muito mais simples imitar uma obra que não se leu. Basta que outra pessoa tenha lido a obra original e faça um resumo; nesse resumo o segundo autor pode se inspirar para fazer a obra derivada. (Yann Martel afirma que leu apenas um resumo do livro de Moacyr Scliar, Max e os Felinos, para escrever seu A Vida de Pi, que foi acusado de plágio.)

O que há de semelhante é apenas o jeito de começar a história que desde o título promete tratar de alguma transgressão temporal: a afirmação de uma data espantosa, depois uma dúvida, depois uma reafirmação. Detalhe que pode perfeitamente ser omitido por quem se dispuser a resumir qualquer um dos dois textos. Semelhança de uma dúzia de linhas. A gente só percebe porque se trata do início de ambas as histórias.

Se a dúvida fosse ao contrário (“Machado imitou Bellamy?”), seria teoricamente mais plausível – se não fosse a questão da data. Machado era bem informado, lia (e traduzia) do inglês, tinha acesso a livros importados. Mas... quando escreveu “O Imortal” o livro de Bellany não existia ainda.

Mais interessante do que a discussão das precedências, porém, é a comparação estilística.

O texto de Bellamy, pelo menos nessa “cabeça” selecionada, é seco e preciso, apesar de uma certa coloquialidade meio forçada, aos olhos de hoje.

Machado, que fazia aberturas brilhantes, faz mais uma, não na dúvida cronológica, ou “cronoclásmica”, sobre quem nasceu quando, mas porque ele traça um verdadeiro diorama visual, com pinceladas de escuro e claro. O silêncio, a varanda, o lampião. A contraluz, e o vento.

É um parágrafo muito visualizador, e, recortado do presente contexto, poderia abrir um “capítulo 1” de muitos escritores de aventuras.

Machado não escrevia grandes cenas de ação épica, mas quando um detalhe de suas histórias precisa de uma ilustração vívida, sólida, indicando ambientação, tensão narrativa, aquarela social, ilustração de revista, ele faz com pinceladas assim.

E se alguém achar pouco a coincidência ou ressonância entre ele e Bellamy, há o episódio daquela figura de linguagem que eu chamo a Indecisão Borgiana, quando o Autor discorre em voz alta para o Leitor sobre a sua dúvida quanto ao nome de um personagem, à época em que aquilo se deu, ao cenário de uma trama. Em vez de fundar a narrativa numa ponto geográfico ou cronológico preciso, ele faz esse ponto flutuar sem causar problema.



No “Tema do Traidor e do Herói” (1944, Ficções), Borges abre com este parágrafo (tradução de Maria Julieta Graña e Marly de Oliveira Moreira, Sabiá, 1989):

Sob a notória influência de Chesterton (narrador e exornador de elegantes mistérios) e do conselheiro áulico Leibniz (que inventou a harmonia prestabelecida), imaginei este argumento, que escreverei talvez e que já de algum modo me justifica, nas tardes inúteis. Faltam pormenores, retificações, ajustes; há zonas da história que não me foram ainda reveladas; hoje, 3 de janeiro de 1944, vislumbro-a assim.

A ação transcorre num país oprimido e tenaz: Polônia, Irlanda, a república de Veneza, algum estado sul-americano ou balcânico. Digamos (para comodidade narrativa) Irlanda; digamos 1824.

Ou seja, ninguém está querendo que a gente contamine de realidade essa história que podia acontecer em muitos tempos, em muitos lugares. (Seria interessante uma antologia seguindo as dicas acima.)


No conto “O Homem no Umbral” (1952, O Aleph (tradução de Flávio José Cardozo, Globo/MEC, Porto Alegre, 1972), Borges desta vez faz um preâmbulo onde atribui toda a história que se segue a um relato de um diplomata. Depois diz:

A exata geografia dos fatos que vou contar importa muito pouco. Além disso, que precisão conservam em Buenos Aires os nomes de Amritsar ou de Udh? Baste-me dizer, pois, que naqueles anos houve distúrbios numa cidade muçulmana e que o governo central enviou um homem forte para impor a ordem. Esse homem era escocês, de um ilustre clã de guerreiros, e no sangue levava uma tradição de violência. Uma só vez meus olhos o viram, mas não esquecerei [...]

Para o narrador tanto faz estar ambientando sua história nesta ou naquela cidade da Índia. O local pode ser qualquer um. O que vale mesmo é o que vem depois dessa incerteza topográfica: Baste-me dizer, pois... . Borges investe pesado no realismo; não é um quadro a óleo cheio de detalhes e de profundidade de campo, como o do conto de Machado. Ele prefere jogar na mesa uma situação concreta de história que pode ser militar, de aventura, de faroeste ou samurai. Não é tão visual quanto a pintura de Machado, mas tem energia dramatúrgica. É um peão-quatro-de-rei que qualquer leitor entende e aceita.

Engraçado como Borges também cria seus precursores, porque esse falso-vacilo como filigrana de estilo surge com variações em seus relatos. E talvez só em retrospecto eu perceba o quanto isso já está em Machado, em muitos trechos como no citado acima:

A vila era na província fluminense; suponhamos Itaboraí ou Sapucaia. Quanto à data, não tenho dúvida em dizer que foi no ano de 1855, uma noite de novembro, escura como breu, quente como um forno, passante de nove horas.

A mesma dúvida quanto à cidade (a cidade tanto faz, não influi na narrativa) e logo em seguida ele pular para um início preciso e já em movimento. Isso quando Borges nem era nascido, mas ninguém me garante que semana que vem, procurando outra coisa, eu não encontre um terceiro exemplo para comparar com os de Machado e dos outros.




(antologia de Roberto Causo, Ed. Devir, que inclui o conto "Um Imortal" de Machado de Assis)