sábado, 2 de maio de 2015

3804) Que fim levou? (3.5.2015)



(foto: John Stanmeyer)

Que fim levou Marquinho Honolulu, lá de Olinda, que estava em todas as festas, não cantava, não dançava, ficava só sentado fumando e olhando as meninas, volta e meia se apaixonava pela namorada de alguém e entrava num processo etílico que durava meses, e a quem eu tentei inutilmente explicar como era o sistema correto, 4-4-3-3, de fazer sonetos?

Que fim levou Dona Terta, que todo dia pegava uma cadeira de palhinha, levava até embaixo de uma árvore frondosa em frente à oficina mecânica onde trabalhava seu filho único, Rondismar, e ficava ali fazendo crochê e ouvindo música no radinho de pilha, assim como quem não quer nada, e ai dos colegas de oficina se por causa disso mangassem de Rondismar, que tinha dois metros e cem quilos?

Que fim levou Vânder de Souza, que estudou comigo no Estadual da Prata, bem católico, bem certinho, e o único cara que eu já vi fazer um problema de palavras-cruzadas sem olhar o desenho, apenas ouvindo a gente dizer o enunciado e o número de letras, mantendo na memória cada letra de cada casa já preenchida?

Que fim levou Sônia Lima, a flor do meu bairro, musa unânime dos adolescentes locais, que desfilava inatingível do alto de seus três anos a mais do que eu, loura, nórdica, simpática, que se formou em enfermagem, e, dizem os invejosos, acabou casando com o primeiro doente a quem atendeu?

Que fim levou Dona Amarílis, doceira, quituteira, mãe de cinco filhos, esposa exemplar, que aos cinquenta anos ganhou numa loteria qualquer (e nem foi essas fortunas todas, porque acabou em menos de dois anos), largou tudo e foi viver com um primo em Caruaru?

Que fim levou Dandinho, que morava perto da bodega de Seu Anísio, trabalhava numa oficina, e um dia apareceu de cabeça raspada e disse que estava fazendo um treinamento ninja secreto para entrar na Polícia Federal, mas antes do fim da semana a irmã dele revelou que era piolho?

Que fim levou Seu Sueldo, aquele velho que vivia se balançando numa cadeira no terraço, com um caderninho na mão, anotando coisas, não se sabe o que, porque não era jornalista nem policial, era um ferroviário aposentado, e talvez por isso mesmo vigiasse tanto a rua, antes do filho ser transferido para uma agência bancária em Conselheiro Lafaiete e levá-lo consigo?

Que fim levou Valdir Bamba, amigo de um primo meu, que trabalhava no Zoológico de Dois Irmãos do Recife, e um dia tomou umas caebas, chegou triscado no trabalho, teve um bate-boca com um supervisor que quase resulta em tiro ou peixeirada, mas resultou apenas em Valdir Bamba sair abrindo tudo quanto foi gaiola e jaula, e promovendo um pandemônio que levou dias para ser corrigido?




3803) Livros interferidos (2.5.2015)



(ilustração: Ekaterina Panikanova)

Artes plásticas e literatura são primos distantes que de vez em quando passam férias na casa um do outro. Já falei aqui do artista Tom Philips, cujo livro-obra A Humument (1970) é famoso. Philips pegou um romance vitoriano achado num sebo e interferiu no texto com aquarela, nanquim, lápis de cor, etc., deixando intactas algumas frases e palavras, que, lidas no novo contexto, acabam contando uma nova história. O próprio título já é uma mutilação do título original, A Human Document. O livro, de W. H. Mallock (1892), é uma obra em domínio público. Cada página pintada por Philips sobre o texto original é uma pequena obra de arte em si. Fui agora dar uma olhada no saite (http://www.tomphillips.co.uk/humument) e vi que já existem cinco edições de A Humument, cada uma delas com novas páginas recriadas.

A russa Ekaterina Panikanova faz algo um pouco diferente. Ela pega uma certa quantidade de livros, abre-os em uma página qualquer e os arruma, abertos, em filas e colunas, como quadrados do xadrez. E usa isso como se fosse uma tela, pintando (aplicando colagens, desenhando, etc.) quadros bem amplos, com cada um dos livros abertos recebendo apenas um detalhe da pintura geral. Alguém pode lamentar que os livros sejam inviabilizados para a leitura, mas a verdade é que ela inutiliza apenas um exemplar de cada um, o que não é nada diante dos milhões de livros que vão direto para o lixo todo dia. E o trabalho é uma beleza, como pode ser visto aqui: http://tinyurl.com/mp8qqxl.

A própria literatura interfere fisicamente no livro impresso. O romancista Jonathan Safran Foer pegou em 2010 o livro do alemão Bruno Schulz, A Rua dos Crocodilos (segundo ele, o seu livro favorito) e, onde Tom Philips usou técnicas da pintura, ele as usou da escultura. As páginas do exemplar original foram recortadas, com trechos inteiros retirados (com gilete e estilete, imagino), fazendo com que pelas aberturas aparecessem frases de páginas mais adiante misturando-se às da página aberta. Este pequeno clip do YouTube (http://tinyurl.com/mwtenoq) dá uma idéia do resultado final.

Um livro (dizia Borges) não é uma explicação do universo, é apenas um objeto a mais adicionado a ele. O fato do livro de papel resultar num objeto o transforma de produto em matéria-prima. Vira material de recriação para quem tiver imaginação e paciência não só para criar, mas também para fruir a obra resultante. Obras desse tipo são uma contribuição interessante ao debate sobre livro eletrônico e livro de papel, mostrando que este último, mesmo passivamente, pode ser interativo de muitas maneiras, basta ter uma boa idéia e técnica para executá-la.


quinta-feira, 30 de abril de 2015

3802) "Twin Peaks" (1.5.2015)



Completam-se 25 anos do lançamento da série de TV Twin Peaks, criada por David Lynch. Há uma continuação em projeto, se bem que o diretor, como toda estrela que se preza, esteja fazendo um certo foi-não-foi a respeito de orçamento. Estou aproveitando para dar uma olhada geral na série, pois na época vi vários episódios fora de ordem, tive que ler na imprensa o enredo, portanto não considero que tive a experiência estética verdadeira de quem vê a história por ordem cronológica desde o começo. Estou tendo agora, quando revi em alguns dias a primeira temporada inteira.

Twin Peaks é uma cunha do “uncanny” enfiada na fórmula-padrão do seriado de TV norte-americano. É um Dallas refilmado pelo Buñuel do México, com paisagens do Maine de Stephen King. Menos inquietante / espantoso / perturbador / violento / surreal do que filmes como Eraserhead (1976), O Homem Elefante (1980), Veludo Azul (1986) ou Coração Selvagem (1990), que ele àquela altura já tinha feito, no cinema. Lynch desembarcou na TV com o cacife desses filmes demolidores, e se apropriou do formato de narrativas tipo Peyton Place, sobre as mazelas ocultas por baixo do esmalte, xampu e batom de uma cidade perfeita nos moldes norte-americanos. Só que Peyton Place, Dallas e outros descascam apenas a casca de fora dessas feridas. Lynch afunda o bisturi e puxa lá de dentro alguma coisa que não vemos porque até a câmara se afasta, para mostrar a paisagem através da vidraça partida.

A música de Angelo Badalamenti produz um clima de ansiedade crescente, que vai surgindo, vai cercando, vai envolvendo.  Lynch sabe dar um clima ominoso a uma cena banal, como duas pessoas conversando, apenas com o uso de uma massa sonora subliminar que parece um tsunami de ameaça prestes a arrastar aquelas pessoas para longe.  Sua trilha lembra Philip Glass, pelo uso recorrente de pequenas frases musicais aparentemente simples, assobiáveis, células melódicas que grudam na memória; e lembra Sérgio Leone pelo “crescendo” épico que arrebata tudo e todos, uma música de melodrama sem constrangimento, talvez porque se trate de um melodrama existencial e metafísico e as possibilidades de sentimentalismo água-com-açúcar estejam canceladas desde o primeiro acorde.

Uma das maneiras de usar o melodrama na narrativa de hoje é não se curvar a ele, não lhe dar as rédeas, mostrar desde logo ao público que o lado melodramático daquela história é apenas um elemento a mais, mas que o diapasão está sendo fornecido por outro conjunto de intenções. O melodrama é a cobertura do bolo, mas o que há por baixo dela é outra coisa, que só será descoberta na hora da mordida.




quarta-feira, 29 de abril de 2015

3801) Pequenos personagens (30.4.2015)



O pequeno personagem é aquele que aparece pouco, em segundo plano, mas nem por isso tem que ser um personagem menor ou sem importância. Às vezes aparece em apenas uma cena, mas é bastante para se tornar inesquecível. 

No cinema, isso fica muitas vezes por conta do ator. O ator Ned Beatty fez um papel secundário em Rede de Intrigas (“Network”, 1976) de Sidney Lumet, aparecendo em apenas uma cena do filme, e concorreu ao Oscar de Melhor Coadjuvante. (Não que eu ache um Oscar uma grande coisa, mas eles lá acham.) Dizia ele: “Nunca recuse um trabalho, por menor que pareça. Trabalhei neste filme um dia apenas, e fui indicado ao Oscar”.

A literatura parece mais propensa a valorizar os personagens menores. No livro de R. L. Stevenson O Médico e o Monstro, o Dr. Jekyll tem uma casa cheia de criados que pouco aparecem; mas o romance Mary Reilly (1990) de Valerie Martin, usa como protagonista uma dessas empregadas, e reconta o drama do ponto de vista dela. 

Algo parecido foi feito recentemente no romance francês Meursault, contre-enquête (2013) de Kamel Daoud, cujo foco é no irmão do árabe assassinado na praia pelo narrador de O Estrangeiro (1942) de Albert Camus.

No prefácio de seu romance O Mundo de Rocannon (1966), Ursula LeGuin explica seu protagonista lembrando que ele aparecia rapidamente no conto “O Colar de Semley” (1964), como um etnólogo que a heroína encontra noutro planeta. Depois (diz ela) ele começou a surgir na sua mente, dizendo: “Ei, eu sou Rocannon! Conte minha história!”, e ela o fez. Muitos personagens hoje famosos fizeram sua primeira aparição em circunstâncias parecidas.

Um personagem shakespeariano inesquecível é Falstaff, que aparece nas duas partes de Henry IV (1597?, 1599?) e As alegres comadres de Windsor (1602). Em 1966, Orson Welles lhe deu o papel de protagonista do filme Chimes at Midnight, aproveitando cenas das peças e trazendo o personagem para o foco principal. 

Algo parecido fez o dramaturgo Tom Stoppard quando dedicou uma peça inteira a dois personagens bem secundários de Hamlet, em Rosencrantz and Guildenstern are Dead (1966). São dois amigos do príncipe Hamlet que fazem breves aparições na peça, e no texto escrito por Stoppard eles se tornam o ponto de vista através do qual a história do Reino da Dinamarca é contada. 

Desenvolver um personagem secundário de uma obra conhecida poderia ser um bom exercício de oficina literária, para mostrar como uma mudança de ponto de vista, sem alterar os fatos concretos, pode determinar uma reviravolta no significado da história original. Nenhuma história é a mesma quando os fatos são narrados por outro ponto de vista.





terça-feira, 28 de abril de 2015

3800) Traduzir FC na China (29.4.2015)



Um manuseado trocadilho italiano diz: “Traduttore, tradittore”. Tradutor: traidor. Vi recentemente uma versão em espanhol dizendo que este estóico profissional “no es um traidor, sino um traedor”. Um trazedor: alguém que traz para nosso alcance algo que estava lá do outro lado do mundo. Gostei mais desta. Ambos os epítetos, aliás, dão certinho com o que tradutores chineses andam fazendo com livros de ficção científica ocidentais.

Dizem que a China tem um público de um bilhão de leitores. Lá, a FC tem historicamente um perfil didático, educativo, voltado para a divulgação da ciência entre os jovens. Ambiente mais que propício, por exemplo, para se traduzir Jules Verne. A tradução, contudo, enfrenta problemas, principalmente de ordem cultural – o leitor sabe pouco a respeito do Ocidente. Uma matéria de Ken Liu no saite io9 (aqui: http://tinyurl.com/ljshjas) mostra a verdadeira paráfrase realizada no primeiro parágrafo de Da Terra à Lua de Jules Verne (1865).

O texto original diz: “Durante a Guerra da Secessão dos Estados Unidos, um novo clube, muito influente, foi criado na cidade de Baltimore, em plena Maryland”. Uma tradução chinesa, feita via japonês, diz: “Quem já estudou a geografia e a história do mundo conhece um lugar chamado América. Quanto à Guerra da Independência americana, qualquer criança sabe que foi um acontecimento que fez o mundo estremecer, um feito que deve ser frequentemente relembrado e nunca esquecido. Bem: entre todos aqueles Estados que participaram da guerra, um deles se chamava Maryland, cuja capital, Baltimore, era uma famosa cidade fervilhante de multidões e com um intenso tráfego de cavalos e carruagens. Nessa cidade havia um clube, de magnífica aparência, e quando alguém via a bandeira americana hasteada e tremulando ao vento, experimentava um sentimento de admiração e reverência”.

O único erro factual é confundir a Guerra da Secessão com a Guerra da Independência; mas a necessidade de fornecer contexto a adolescentes chineses leva o tradutor a uma completa reescrita do texto original. Muitas vezes um tradutor insere duas ou três palavrinhas inócuas para esclarecer um detalhe no próprio texto, de maneira fluente, evitando as notas de pé de página, que muitos editores e leitores detestam. Essas interferências devem ser guiadas pelo bom senso e pelo desconfiômetro. Verne é um dos autores mais mutilados da história. Muitas edições “para jovens” suprimem por inteiro as explicações químicas ou físicas que ele queria transmitir aos jovens de seu tempo. Edições assim estão ainda no estado selvagem da tradução literária.



segunda-feira, 27 de abril de 2015

3799) Game of Thrones 2015 (28.4.2015)



A série Game of Thrones (HBO) começou sua quinta temporada há três fins de semana. Há quem ache a série inferior aos livros, mas da minha parte tenho feito desde o início o caminho inverso. Vejo a série primeiro, e depois leio os capítulos correspondentes aos trechos que mais me interessam, em busca de maior riqueza, textura, espessura, as armas imbatíveis do texto literário.

GoT está para a Fantasia Heróica tradicional tipo O Senhor dos Anéis um pouco como o bang-bang italiano estava para o faroeste clássico dos EUA, onde havia uma divisão mais clara entre os bons e os maus, os certos e os errados. Os westerns spaghettis trouxeram maior cinismo, maior sujeira (o western clássico era limpinho demais, feito-em-estúdio demais) e maior realismo ao gênero. Na fantasia, somos forçados a constatar que a política do mundo moderno não parece muito com as epopéias alegóricas de Tolkien: parece, sim, com o jogo de sacanagens, traições, vinganças, crueldades e covardias que vemos entre as “elites brancas” de Westeros.

A lenta progressão da história induz (em nós) expectativas de vitórias ou de desgraças que não se confirmam. Essas guinadas ressaltam o modo imprevisível como o entrechoque de variáveis faz mudar as regras do jogo no transcorrer da partida. Na luta pelo poder em Westeros, cada aparente triunfo pessoal (Snow eleito comandante da Guarda, Arya refugiando-se em Braavos) cobra um sacrifício que não foi previsto. Sansa é levada de volta ao antigo castelo de sua família, mas o preço é casar-se com Ramsay Bolton, um dos psicopatas mais sádicos da série (há vários). E os autores não desdenham um clichê: se um personagem está fugindo incógnito e pede para ir disfarçado a um lugar público, a probabilidade de que seja descoberto paga 1 por 1 na Bolsa de Apostas.

O formato de série parece dar aos diretores mais folga para desenvolver efeitos dramáticos que precisam de tempo: suspense, expectativa, surpresa, reviravolta de caráter dos personagens. Nem sempre acontece. Um filme de duas horas em geral fecha seu foco num número menor de pessoas, e alonga os minutos sempre que necessário, mas uma série assim é um mural, e num mural não existem close-ups. Isso nos dá o paradoxo de numa temporada de dez episódios de 1 hora vermos cenas com excelente potencial dramático serem resolvidas às pressas pela necessidade de passar logo para a próxima linha narrativa, porque são muitas. Não importa. Para mim, a série fornece o impacto visual dos cenários e dos rostos, o carisma dos atores, o arrebatamento rítmico dos episódios bem construídos. Depois, vai-se ao livro pela substância, pela essência; a Coisa em Si.



sábado, 25 de abril de 2015

3798) A carência retórica (26.4.2015)



Uma coisa que me inquieta nas discussões das redes sociais e nos comentários de websaites é a imensa truculência, grosseria e estupidez com que as pessoas se exprimem quando estão discutindo algo que as incomoda. 

A Internet levantou o tapete do Brasil e nos mostrou o que estava oculto há muitas gerações. A liberdade de “dizer o que bem entender” tem sido usada por essas pessoas para insultar e agredir verbalmente qualquer bode expiatório que passar pela sua frente. E não venham me dizer que é a “Direita hidrófoba” que faz essas coisas. É todo mundo, de um extremo ao outro, e principalmente nos dois extremos.

Vou deixar de lado os que são meio psicopatas, os que aceleram o carro pra cima de uma passeata, os que se desentendem numa fila e daí a pouco matam um desconhecido com seis tiros, os que se juntam para linchar uma pessoa que foi confundida com outra. São pessoas em ebulição permanente, a ponto de explodir, e para elas tudo é pretexto. 

Casos perdidos, e não é neles que penso. Penso nas pessoas que não são assim (entre as quais amigos, conhecidos meus) e que “do nada” produzem frases de uma violência e um teor ofensivo que... não vou dizer que me assustam, porque não me assusto com nada, e em matéria de violência verbal sou capaz de entestar com qualquer um. Mas não creio que a “indignação cívica” baste para justificar não apenas as coisas que são ditas, mas o vocabulário rasteiro, brutal com que são ditas.

Por que o fazem? Chamo isso de carência retórica. Pessoas que precisam exteriorizar um sentimento muito intenso que brota numa região primitiva, pré-verbal. 

Tive um amigo que era o entusiasmo em pessoa, era um tipo como Maiakóvski (“sou coração dos pés à cabeça”). Chegava com um livro e dizia: “Esse livro é a coisa mais absolutamente genial e sensacionalmente maravilhosa que eu já vi em toda minha vida”. Dizia variantes disso, dez vezes por dia, com dez coisas diferentes. Eu dizia: “Rapaz, por que tu não inventa um elogio que prescinda de hipérboles?” (eu falava assim aos 18 anos).

Somente entusiasmos desse tipo, só que de repulsa, justificam expressões como as que a gente vê nas redes sociais, escritas por gente que sabemos educadas, por gente que sabemos terem bons sentimentos e bom caráter (coisas que têm apenas um pouco a ver com opções políticas), mas que parecem estar sempre de palavrão em riste para desferi-lo na direção de um político, um artista, uma pessoa que saiu no jornal devido a um acontecimento qualquer. 

Essa carência retórica mostra, acima de tudo, que o que o indivíduo diz passou por longe de sua consciência. Brota direto do lugar onde alguém lhe cravou os implantes mentais.





3797) "Haxan, a feitiçaria" (25.4.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão, haverá debate com o prof. Sérgio Almeida.)

Hoje será exibido Haxan – a Feitiçaria Através dos Tempos de Benjamin Christensen. Realizado em 1922, é uma co-produção dinamarquesa-sueca inspirada no famoso livro O Martelo das Feiticeiras (“Malleus Maleficarum”), o guia dos interrogadores de bruxas do século 15. Foi o filme escandinavo mais caro de sua época. O diretor pesquisou uma imensa iconografia relacionada a deuses, demônios, bruxas, duendes, criaturas monstruosas, espíritos malignos, e muitos episódios foram encenados com atores.

Haxan não é um filme de ficção nem é um documentário tradicional. Sua pesquisa tem um perfil até didático (é engraçado ver hoje a “vareta do professor” indicando os detalhes das imagens mencionados no texto). As tentativas de dramatização de situações não chegam a ganhar um caráter ficcional, são como ilustrações animadas. Xilogravuras, iluminuras, desenhos: o diretor reuniu uma impressionante quantidade de material.

Há uma corrente importante do fantástico literário (e cinematográfico) que nasce desse caldo espesso de milhares de anos de superstições, animismo, violência, preconceitos, alucinações coletivas.  A escritora Kathryn Cramer disse certa vez que “o Fantástico é a linguagem da mente submetida a extrema tensão”. É o transbordamento do inconsciente sobre o consciente, no indivíduo, e, coletivamente, o transbordamento de milhares de anos de superstição sobre a racionalidade duramente conquistada em séculos mais recentes.  Temos hoje um verniz de ciência e pragmatismo cobrindo milênios de alucinação, fanatismo, terrores religiosos.


Haxan reproduz os aspectos mais sombrios desse mundo em que seres humanos, diabos, animais e deuses se transformavam uns nos outros mediante uma fórmula mágica, uma poção, um ritual. É o mundo das feiticeiras de Salem e do Macbeth de Shakespeare, do Inferno de Dante e de Anne Rice. Estamos longe do fantástico sofisticado, na linha de Jorge Luís Borges, em que se discutem aspectos e paradoxos do espaço e do tempo. Haxan é uma viagem ao interior da mente humana e aos pesadelos que ela guarda nos seus porões. Não são os paradoxos delicados e inquietantes de René Magritte ou de Salvador Dali: é o mundo de Hieronymus Bosch, repleto de duendes, demônios, seres híbridos de animal e gente. As criaturas que abrem os olhos quando apagamos a luz. 



sexta-feira, 24 de abril de 2015

3796) O fantástico todoroviano (24.4.2015)


Tzvetan Todorov, em sua Introdução à Literatura Fantástica, produziu uma das mais úteis tentativas de definição do Fantástico. Tão útil que acabou se tornando um problema para críticos e teóricos. Muitos acham que a maneira como Todorov via o gênero era “a maneira certa”, e que as outras são erradas. O que é um engano, claro. Eu chamo a fórmula criada por ele “O Fantástico Todoroviano”, pois abarca uma boa parte do gênero, mas não o esgota. Nenhuma fórmula esgota um gênero, que pode (como o próprio Todorov admitia) ter seu perfil modificado pelo aparecimento de uma obra diferente de todas as anteriores.

Todorov reconhecia dois extremos numa escala das narrativas do sobrenatural. Num extremo, o Maravilhoso: histórias totalmente irreais, imaginárias, sem vínculo com nossa realidade. No outro, o Estranho, histórias que têm algo de insólito ou extraordinário, mas no final admitem uma explicação realista, não-sobrenatural. O Fantástico (para ele) seria uma oscilação intermediária, histórias onde o personagem, ou o autor, ou o leitor, ou os três, não conseguem decidir se os fatos narrados são de fato sobrenaturais (o que levaria a história para o terreno do Maravilhoso) ou têm explicação realista (o que a levaria na direção do Estranho).

O livro original de Todorov é de 1970. Duvido que ele não conhecesse então a famosa Antologia da Literatura Fantástica de Borges, Bioy Casares e Silvina Ocampo (São Paulo: Cosac Naify, 2013, tradução de Josely Vianna Baptista). No prólogo (a antologia é de 1940) diz Bioy Casares:

“Os contos fantásticos podem ser classificados, também, pela explicação: a) os que se explicam pela ação de um ser ou de um fato sobrenatural; b) os que têm explicação fantástica, mas não sobrenatural (“científica” não me parece o adjetivo conveniente para essas invenções rigorosas, verossímeis, à força de sintaxe); c) os que se explicam pela intervenção de um ser ou de um fato sobrenatural mas insinuam, também, a possibilidade de uma explicação natural (“Sredni Vashtar”, de Saki); os que admitem uma alucinação explicativa. Essa possibilidade de explicações naturais pode ser um acerto, uma complexidade maior; geralmente é uma fraqueza, um subterfúgio do autor, que não soube propor o fantástico com verossimilhança.”

Note-se que a quarta via sugerida por Bioy (“alucinação explicativa”) pode perfeitamente estar contida na terceira, pois uma alucinação seria uma “explicação natural” – o que vimos é um delírio do personagem. Não tenho à mão agora o livro de Todorov para ver se ele cita Bioy, mas me parece clara a influência, ou no mínimo a convergência de raciocínio entre os dois.



quinta-feira, 23 de abril de 2015

3795) Contracapa de Instagram (23.4.2015)



escrever uma prosa que se choca com o osso e nem toca a pele  &  tem pessoas que tratam a gente como poupança, na hora em que precisar sabe que vai ter  &  as grandes cidades estão cheias de viajantes-no-Tempo analfabetos, em busca de emprego  &  nenhum aprendiz deixa de ser aprendiz quando se torna um mestre  &  o pulo do gato o leva à terceira margem do rio, assim como o salto do cavalo o liberta da Planolândia  &  os idealizadores dos bulevares temiam a guerrilha em surdina e não contavam com o estouro do vândalos  &  o mundo piscou o sol e de repente era outro dia  &  o alquimista está para a Química assim como o físico quântico está para a Física  &  torcer contra a Copa e torcer pela Seleção exigem que o cérebro vire um anel-de-Moebius  &  tem gente que pega o ônibus errado e fica teimando que o motorista não sabe o caminho  &  um aborígene reunindo toda sua coragem e bebendo da água de um poço ainda sem nome  &  o cinema é a domesticação do relâmpago  &  tenho medo de qualquer animal pequeno demais para eu montar nele  &  um casal são dois abismos abraçados, cada um com medo de cair dentro do outro  &  tem gente que brada pela ética, considera o dever cumprido e cai na gandaia  &  melhor do que ser titular é ser o reserva que entra no fim e decide  &  “catarse” é quando todos os espectadores de uma peça de teatro assoam o nariz ao mesmo tempo  &  tem aumentado a demanda de perucas com cérebro acoplado  &  tão mal camuflado quanto um submarino amarelo  &  preciso de um espelho quebrado que todo dia de manhã faça jus aos meus cacos  &  a aparência é uma parte da essência, mesmo quando se esforça para ser seu contrário  &  há momentos em que o equilíbrio geral de uma situação importa mais do que a aplicação localizada de uma virtude qualquer  &  quando a gente vê alguém que sempre acerta começa a achar que ele acerta sempre  &  simbolismo é ver uma imagem extraordinária e usar a retórica para transformá-la num conceito banal  &  um rio é tudo quanto acontece entre a nascente e a foz  &  eita, Brasil, parece que vem por aí mais meio século de divã  &  como diria Neném Prancha, pena de morte é uma coisa tão séria que o carrasco deveria ser o Presidente da República  &  o mundo é um oceano de idéias esperando que a gente abra os olhos e os ouvidos para invadir a mente  &  a Pátria é a peleja dos sem teto contra os sem limite  &  se bons sentimentos produzissem boa literatura minha avó tinha ganho um Prêmio Nobel  &  imaginei um exército de galinhas carnívoras e pensantes adentrando a cidade, e desimaginei rapidinho  &  tem veneno que você só percebe quando toma a derradeira dose  &