terça-feira, 17 de junho de 2014

3527) Tá tendo Copa (17.6.2014)




Antes de tudo: sou a favor das manifestações, desde o começo. Quero que continuem, e que desmascarem as políticas dos governos (federal, estaduais e municipais, bem como do legislativo e do judiciário), políticas que prejudicam a população e favorecem apenas os grandes grupos econômicos, construtoras, bancos e financeiras, etc.  Sou a favor de qualquer manifestação que denuncie as tramóias da Fifa. É um grupo de trambiqueiros internacionais em grande escala, que veem nosso povo com desprezo e nosso país como um antro de otários fáceis de corromper porque são desonestos de nascença.

Tirando isto, toda Copa do Mundo é uma festa do futebol para otimistas como eu, que acham que os resultados não são combinados com antecedência ou manipulados de última hora, numa reunião a portas fechadas entre representantes da Fifa e das duas seleções que jogarão logo mais. É preciso despregar do futebol (o que é dificílimo) essa gosma de dinheiro sujo e de ambição corporativa. O jogo em si é uma beleza, pelo choque entre estilos diferentes de jogar, formas diferentes de talento (o talento, por definição, é individual, multiforme, de possibilidades inesgotáveis).

A pior coisa que pode acontecer nesta Copa é qualquer violência contra os visitantes. Acho que a regra da hospitalidade é sagrada, e qualquer violência (do anfitrião contra o hóspede, ou do hóspede contra o anfitrião) é vergonhosa. (Assistam Game of Thrones, onde este tema é recorrente.)  Vamos deixar que todos torçam em paz pelos seus times, chorem suas derrotas, comemorem suas vitórias. Inclusive quando, e se, nos derrotarem. Sei que é pedir demais a meros torcedores. Continuarei pedindo.

Gosto mais de futebol bem jogado do que da Seleção Brasileira. Em 1974 e 1978 torci pela Holanda, que na época era o melhor time do mundo.  Em parte, também, torci contra a Seleção para ser contra o governo (era a época da ditadura), mas hoje acho que isso é bobagem. A Seleção representa mais o povo do que o Governo, mesmo que este pegue carona nos seus triunfos.  Os governos passam e a Seleção fica.

Não faço questão de que o Brasil seja campeão. Preferiria alguma seleção que joga bem e nunca foi. (Menos os EUA, que são a Roma Imperial de hoje.) Quero que a Copa seja alegre, festiva, disputada, com grandes jogos e grandes jogadas, que revele novos craques, que consagre os antigos, que ajude alguns a encerrar suas carreiras de cabeça erguida. No esporte, só um é campeão; mas há incontáveis motivos para orgulho e celebração, mesmo quando se é derrotado. Quero que a festa na rua seja bonita, e que após o final todo mundo vá embora pensando: “Obrigado, Brasil”.


domingo, 15 de junho de 2014

3526) De onde vêm as idéias? (15.6.2014)




(ilustração: Bill Waterson)


Todo escritor é obrigado a responder essa pergunta em qualquer bate-papo, palestra, chat via Internet. Cada um se vira como pode. A resposta não é difícil de dar, mas existe um acordo entre escritores profissionais de que é proibido revelar esse segredo aos leitores, aos críticos e aos escritores não-profissionais. 

É um pouco como os rituais da Maçonaria, a senha de acesso ao mainframe da CIA e a idade das atrizes do cinema. Correndo o risco de ser metralhado por mafiosos numa noite chuvosa numa rua deserta, revelarei alguns desses lugares secretos de onde vêm as idéias para as obras literárias. 

No Rio de Janeiro há uma galeria, na rua Marquês de Abrantes, com uma daquelas maquininhas de vender balas mediante fichas. Quem pede a ficha mais cara tem acesso a um depósito de balas que são ocas e trazem idéias para histórias no seu interior, enroladinhas em papéis como os do “biscoito da sorte”.  

Em Melbourne (Austrália), no aeroporto, basta pedir a versão atualizada do “Guia de Ruas”: a cada cinco páginas haverá um pequeno box impresso com idéias para histórias. 

Em Seattle, há uma casinha de subúrbio sempre trancada, mas a porta dos fundos fica aberta. Numa lata de leite em pó no armário, há idéias. 

Em Lodz, na Polônia, podem-se receber mentalmente idéias de uma árvore no jardim municipal, mediante uma espécie de wifi, não de mensagens concretas.

Curiosamente, foram localizadas três cidades onde as idéias podem ser recolhidas num cofre de fechadura quebrada no guarda-volumes da respectiva estação rodoviária: são elas Feira de Santana (Bahia), Ipatinga (MG) e Vancouver (Canadá).  

Nas minhas anotações consta também um supermercado em Vila Mariana (São Paulo) onde as pessoas que compram sacos de batatinhas Ruffles deparam-se às vezes com um saco (de cor inesperadamente verde) cheio de idéias anotadas e dobradinhas.  

Viajando fora do Brasil e precisando escrever, já encontrei idéias distribuídas como brinde a quem tomasse o café da manhã numa padaria no Largo do Areeiro, em Lisboa.

Há um filtro de barro que goteja idéias numa fonte dos banhos públicos, em Omã.  

Há um calendário em Baía da Traição com uma idéia atrás de cada folhinha que se arranca. 

Há uma ampulheta em Roraima onde a areia ao cair revela uma idéia que logo se desmancha e também se esvai em grãos.  

Moradores de Kalamazoo (EUA) reportam uma afloração de idéias à superfície de uma mina onde nenhum minério mais restava.  

Em Lyon, surgem envelopes apátridas de idéias, jamais abertos, apenas tendo duas inscrições pelo lado de fora, lidas com desvelo, e em seguida reenvelopados intactos e remetidos para produzir idéias em alguém.





sábado, 14 de junho de 2014

3525) A volta do piquenique (14.6.2014)



(ilustração: Tudor Dulhaz)

Me contaram (tantas vezes que para mim virou uma repousante verdade) que quando eu tinha oito ou dez anos eu morava numa casa ali perto da Mata da Bombinha, do lado de lá da universidade. No colégio me chamavam de Aluado, porque eu era um garoto arredio e diferente dos outros. Eu não entendia as aulas, isso eu me lembro. E do pouco delas que me lembro não entendo até hoje.  Essa escola ficava junto da Praça da Fonte. Meus pais me levavam de manhã e me pegavam no fim da tarde; eu almoçava lá.

Um dia (disseram) a turma foi fazer um piquenique e um passeio guiado na mata, com três professoras e dois assistentes. A escola era séria e as precauções eram grandes, mas parece que houve um momento em que todas as crianças foram para um lado e eu para outro. Eu me perdi. Durante horas todos quase perderam o juízo. Muita preocupação e desespero, achando que, sendo eu quem era, algo terrível devia ter me acontecido.

O que eles só deduziram depois, comparando provas e lembranças, foi que eu vi algo que me era familiar, algum caminho na mata que eu já tivesse trilhado antes, e por algum motivo tivesse achado que era naquele rumo que esperavam que eu fosse.  Quando deram pela minha falta e conseguiram organizar um mínimo de expedição de busca, eu já devia estar muito longe. Ao longo da manhã e da tarde eu caminhei pela Mata da Bombinha, até que (isso eu me lembro, ninguém me contou) ao me virar de repente enxerguei a rua que levava à rua que levava à rua que levava à minha rua. 

Havia pouca gente. Já começava a escurecer. Ao chegar em casa, vi que estava fechada, meus pais deviam ter saído e éramos só nós três. Eu não sabia de nada, só sabia que estava morto de cansado. Cruzei a rua sem ser visto, a porta da cozinha estava trancada, mas havia a escada na garagem e o postigo no sótão. Vivia desferrolhado, quase como se fosse uma coisa planejada. Entrei, fui para o meu quarto, desabei, dormi.  Pouco depois fui despertado por gritos de uma multidão onde reconheci meus pais, pessoas com farda de polícia, pessoas com farda de médico, pessoas empunhando os celulares, apressadas. Estavam me procurando há cerca de oito horas.

Eles não sabem (nem eu vou dizer) que durante aquele tempo afundei caravelas, contemporizei com dragões, neutralizei criptonitas, fugi da bela dama sem mercê, galguei o trono, pisei no planeta, domei burros brabos, compus sestinas, violei pirâmides, matei o tempo mil vezes e mil vezes voltei a matá-lo em suas mil ressurreições, e outra coisa que me lembro é que na hora eu me julguei merecedor do resultado final daquilo tudo. A única coisa de que me lembro é que já fui rei de alguma coisa.


sexta-feira, 13 de junho de 2014

3524) Números literários (13.6.2014)




Existem números literários, assim como existem números circenses ou números musicais.  Um conjunto de elementos organizados de maneira bem específica e que devem ser reconstituídos, refeitos, diante de uma platéia de conhecedores.  Um pouco como a execução de música mediante partitura.  

A perseguição à diligência é um número do cinema de faroeste: havia técnicos especializados nela, etc.  

A reunião dos suspeitos diante dos quais o detetive rememora as pistas do caso e acusa o criminoso é um número da literatura policial.  

A torta-na-cara é um número dos palhaços, o trevo-de-Brasília (ou sei lá que nome lhe dão) é um número da Esquadrilha da Fumaça, e a briga-mortal-à-beira-do-abismo é um número cinematográfico obrigatório em mais gêneros do que me atrevo a enumerar.

O número é tipicamente um efeito literário que não apenas já foi feito antes, mas é tão conhecido que acaba se tornando um desafio técnico. Como certos números musicais que requerem perícia de execução do instrumentista, ou saltos acrobáticos e complexos no skate ou na prancha de surfe.  

Isso se torna interessante quando aplicado à prosa de ficção porque possibilita um escape para escritores profissionais que vivem de escrever com velocidade e em abundância.  A pulp fiction dos anos 1930-40, as HQs e os filmes de super heróis, o mistério policial, são gêneros onde a exploração de infinitas variantes de alguns números básicos chega a prejudicar a verossimilhança dos enredos, que tornam-se barrocos, e depois maneiristas em excesso.

A descoberta de um cadáver por alguém inocente. O triângulo amoroso.  O stand-off de armas em punho entrecruzadas.  A fuga pelos dutos subterrâneos.  O documento vital escondido num quarto, ou numa casa, e que deve ser encontrado.  O encontro com o próprio duplo, ou sombra, ou reflexo.  

Quando situações assim se apresentam, estão retornando pela décima ou vigésima vez, já fazemos idéia de seu formato e de como funciona, e temos sempre a expectativa de ver uma nova variante que mereça aplauso.

Há escritores que são mestres na execução de tais números (“Fulano escreve cena de tribunal bem pra caramba”) e acabam meio que vivendo dessa reputação, produzindo histórias e criando universos onde essa sua especialidade se torne mais necessária. 

Os crimes de quartos fechados de John Dickson Carr, os padrões dos criminosos seriais (incontáveis autores), os crimes dentro de um labirinto de Borges, forçaram os limites do gênero, tornaram-se  uma espécie de virtuosismo autoral.  

Um tour-de-force onde, como Sergei Bubka, o desafio do autor é tentar ir um pouco mais longe do que foi na vez passada.




quinta-feira, 12 de junho de 2014

3523) Pessoas desaparecidas (12.6.2014)



(ilustração: José Oiticica Filho, 1953)

Por mim, podia ser um gênero literário à parte. Nítido, com um conjunto de situações essenciais, de premissas capazes de abrir para o autor um infinito de possibilidades para a exploração de lugares, pessoas, tipos, situações bizarras ou patéticas.  Estou me referindo ao Romance da Pessoa Desaparecida, que tanto pode acontecer do ponto de vista dos que procuram esse indivíduo quanto do ponto de vista do próprio desaparecido, em sua nova condição.

Desaparecer significa sumir sem deixar rastro nem notícia, sumir sem ser mais alcançado por nenhuma das pessoas com quem se tinha vínculos (família, amigos, trabalho).  Às vezes, a pessoa aproveita uma circunstância fortuita para trocar de identidade e se fingir de morto (O Passageiro: Profissão Repórter, de Antonioni). O conto “Wakefield” de Nathaniel Hawthorne (que incluí na minha antologia Contos Fantásticos no Labirinto de Borges) fala de um homem que some de casa e fica vigiando a esposa durante anos, às escondidas.

Não vou incluir, neste capítulo, pessoas que foram simplesmente assassinadas e seu corpo nunca foi localizado.  Meu interesse é por pessoas que tomaram a decisão de sumir, sumiram, estão vivas e incógnitas.  Sumiram por dívidas, por desespero, por problemas familiares, por aventura, por desorientação mental, não importa. É a famosa pessoa que sai para comprar cigarros e nunca mais se sabe dela, que pegou um ônibus e não chegou ao destino, que limpou a conta no Banco e evaporou-se.

O romance Quarenta Dias de Maria Valéria Rezende cria sua variante: uma mulher começa a tentar localizar, numa cidade que mal conhece, uma pessoa de quem só sabe o nome e que parou de dar notícias à família.  E nessa busca, ela própria, que está vivendo uma vida meio troncha, de expectativas cortadas, numa meia-idade meio sombria, percebe que para tentar achar um desaparecido é preciso desaparecer também. 

Nossas cidades são cheias de desvãos, de espaços baldios, de territórios públicos para onde são empurrados milhares de pessoas sem rosto e sem nome diante do mundo.  Quem entra naquele espaço torna-se tão invisível quanto um porteiro, um ascensorista, uma doméstica. É o mundo dos sem-teto, dos sacoleiros, das pessoas que dormem em rodoviárias ou salas de espera de hospitais, que lavam e secam a roupa nas fontes das praças. Quem são?  Não sei, nunca parei para conversar com esses ETs.  Podem ter desaparecido como a Luísa Porto de Drummond,  como a Anastasia da família do czar, ou simplesmente como alguém que quis deixar para trás um nome sujo na praça, um rosto desprezado por alguém, uma vida que chegou a um beco-sem-saída e o jeito foi pular o Muro.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

3522) Doukipudonktan (11.6.2014)



(Zazie no Metrô, Cosac Naify, 2009)

Raymond Queneau, um dos meus autores mais queridos (ver aqui: http://tinyurl.com/lprpneb) escreveu de tudo e refletiu sobre tudo. Um dos seus assuntos preferidos era a diferença (para ele gigantesca) entre o francês escrito e o falado.  Francês é uma língua invocada, cheia de partículas enigmáticas, letras mudas, hífens e acentos e sinais diacríticos eriçados em todas as direções. Parece aqueles apartamentos de viúvas idosas e chiques, repletos de bibelôs, adereços, quinquilharias ornamentais preservadas a todo custo.

Queneau sugeriu a criação de um “neo-francês”, depilando o idioma de todas essas franjas descartáveis. Não colou, claro. É mais fácil a Vigilância Sanitária de lá proibir certos queijos. Queneau comentava a tendência do francês a uma “coagulação fonética” em que os sons tendem a se fundir e as letras a se multiplicar. No texto “Écrit em 1937” (em Bâtons, Chiffres et Lettres, 1965), ele faz longos comentários sobre este tema e conclui: “On népa zabitué, sétou. Unfoua kon sra zabitué, saira toussel.” (Estas palavras exóticas, ditas em voz alta, serão entendidas por quem as ouvir; é o neo-francês fonético, mandando a etimologia às favas.)

Seu romance mais famoso, Zazie no Metrô (1959) começa com uma palavra mágica: “Doukipudonktan?”. É a pergunta que se faz o personagem, incomodado pelo odor corporal das pessoas amontoadas na estação à espera do trem. A palavra é a coagulação de “D’où qu’il pue donc tant?”.  Virou um teste para os tradutores.  Em inglês (o romance foi traduzido por Barbara Wright) encontrei “Holyfart watastink?” e “Howcanaystinksotho?” (o segundo é citado num saite, sem atribuição).

 Em português, a tradução lusitana de Alexandre Rodrigues (Círculo de Leitores, Lisboa, 1974) simplifica: “Donde parte este cheirete?”.  Em 1985 saiu pela Rocco a tradução de Irène Monique Harlek Cubic, que diz: “Pômakifedô!”.  A versão mais recente (2009) é a de Paulo Werneck para a Cosac Naify: “Dondekevemtantofedô?”. 


Só a análise dessas versões, das opções possíveis, das escolhas feitas, das pequenas infidelidades e dos volteios criativos, daria um artigo imenso.  Mas é um bom exemplo daqueles momentos em que dificilmente, em cem traduções, teremos duas iguais. A aglutinação sonora e semântica duma palavrinha assim é de tal porte que ela vira um nó indeslindável. É preciso inventar outra palavra, e nesses momentos a tradução se torna meio psicografia. É preciso entender como Queneau pensava, imaginá-lo tendo nascido no Brasil e como ele inventaria em português essa palavra de abertura. Que equivale a um “provocativo movimento”, a uma declaração de princípios, a um manifesto estético e social.



terça-feira, 10 de junho de 2014

3521) Meu São João (10.6.2014)



Meu São João espiritual começou na quarta-feira dia 4, no XIII Forum de Forró em Aracaju.  Três dias de palestras, debates e shows, tendo como homenageados este ano Antonio Barros & Cecéu (PB), Zé Calixto (PB), Edgard do Acordeon (SE) e Rogério (SE).  O Forum se realiza todos os anos na capital de Sergipe, e foi lá, em edições anteriores, que tive a alegria de bater longos papos com Almira Castilho (ex-parceira de Jackson do Pandeiro), Carmélia Alves (a Rainha do Baião), Dominguinhos, Onildo Almeida, D. Iolanda (viúva de Zé Dantas), o pesquisador cearense Nirez, o compositor João Silva e muitas outras pessoas ligadas ao mundo da música nordestina.

O São João para nós, nordestinos, é uma espécie de Copa do Mundo musical que dura um mês inteiro. Uma febre de festas que se estende por trinta dias e que no fim nos larga numa cama, extenuados e felizes.  A festa é a festa e se justifica por si só; mas a vida não é somente a festa. É trabalho também, e não devemos esquecer que quando estamos bebendo e dançando, bem satisfeitos, aqueles músicos em cima do palco estão trabalhando.  Estão se divertindo, também, mas sobrevivem daquilo (ao contrário de nós) e é do interesse deles todos que, assentada a poeira da festa, tenha havido algum tipo de proveito profissional para isso tudo. 

Vai daí que o Forum do Forró é um espaço onde se discutem as questões artísticas e profissionais do forró. O que é o forró?  Quais os estilos musicais que ele inclui?  Quem são os grandes criadores, e que tipo de parâmetros eles deixaram para nós?  O forró pertence ao ano inteiro ou só ao São João?  O forró de hoje ainda é rural ou já é todo urbano?  Como conviver com as “bandas de forró eletrônico” que arrancam cachês milionários das prefeituras do interior?  O que fazer com instrumentistas geniais que não arrastam multidões gigantescas mas são os responsáveis pela manutenção da tradição e pelo alto nível técnico do gênero?

O forró pé-de-serra é como a Lua: míngua, míngua, e quando parece que vai desaparecer começa a crescer de novo.  Já aconteceu antes e vai continuar acontecendo: e mais, a mesma coisa aconteceu e acontece com o cordel, a cantoria de viola, o samba de raiz e tantas outras formas de arte espontâneas e populares que precisam concorrer com formas industriais e planejadas. O São João está começando; que seja um momento de festa e também um momento de reflexão sobre os rumos da festa. Porque a festa é do povo, que fica, e não dos poderes, que passam.  Somos nós, os artistas, cantores, compositores, que devemos tomar a frente para manter vivo esse tipo de música. O resto passará, como já passou.


domingo, 8 de junho de 2014

3520) A Defenestração (8.6.2014)



Defenestramos o vereador Romualdo Bimbim, notório apostador de brigas-de-galo, administrador de uma camuflada rede de cambistas de ingressos de futebol e de shows de axé, devorador de picanhas gratuitas no restaurante Panela Cheia, cujo dono chantageava mercê de uma obscura transação de alvarás falsificados, comedor de menininhas selecionadas a dedo nas favelas por duas ou três assistentes sociais cuja mão ele molhava com perfumes de contrabando, notório incomodador da vizinhança em dias de jogos do Real Madrid cujos gols eram celebrados com foguetório e balbúrdia.

Defenestramos o dr. Aristarco Pompeu, rábula de porta de delegacia, rabiscador de habeas-corpus de emergência para playboys que reagem com bafafá à menor ameaça de bafômetro, assacador de consumidores inadimplentes, meeiro de indenizações fraudulentas despachadas na calada da noite mediante segredo de justiça e propinas pontuais, calígrafo-forjador emérito de chancelas e rubricas, viciado compulsivo em café, cigarros, baralho e rivotril.

Defenestramos a Dra. Vanessa Kamylla, socialite militante, perua por questão de foro íntimo, professora doutora em alguma coisa que ela nem lembra mais, futura herdeira de terrenos devolutos que abrigam parte da cracolância local, patronesse de feiras, quermesses, leilões, bazares e festivais de caridade, enóloga intuitiva com má memória para nomes e datas, aliciadora de conluios políticos à sorrelfa, colecionadora de cartões de crédito, habituê de shoppings de Miami e de cruzeiros no Caribe, esposa acarinhante e langorosa do septuagenário Dr. Cordeiro.

Defenestramos Deda Cambão, empresário no ramo de import-and-export, colecionador de Rolexes e de iPhones, candidato à perda da barriga mediante jet-ski e piscina térmica, membro do conselho de onze sociedades patronais, cognominado Narina de Titânio pelos colegas do clube Quintas Sem Lei, embolsador-sênior de comissões, percentagens e por-foras, campeão inconteste de cavalo-de-pau na madruga em pleno retão.

Defenestramos Mariinha Itajari, matriarca encanecida de edis e de sicários, de burgomestres e de atravessadores, de sinhazinhas maquiavélicas e de implacáveis viragos, três-parcas-numa-só bordando o bilro dourado e sangrento da fortuna da família, anotadora das datas de morte na mesma Bíblia e com a mesma letra onde anotara a do nascimento, esfinge em si mesma protegida por carranca e silêncio, octogenária de artérias frias, medusa bórgia, palavra final nas sentenças sem volta, gárgula de carne e osso contempladora da cidade indefesa através da mesma janela por onde a defenestramos, e por onde, vigor havendo, defenestraremos todos.


sábado, 7 de junho de 2014

3519) Dicionário Shakespeare (7.6.2014)



O mundo da literatura está cheio de proezas ociosas, como calcular a percentagem de trissílabos na prosa de Graciliano. Uma dessas empreitadas quiméricas está sendo levada a efeito pelos caras que encontraram um dicionário inglês cheio de anotações manuscritas, e cismaram que era o dicionário que William Shakespeare usava como  referência ao escrever suas peças.

Fui lá no saite (http://tinyurl.com/oreosrz) dar uma olhada. Existe todo esse friquitício (lamento, leitores não nordestinos – explico depois) a respeito das palavras que o dono do dicionário sublinhou e que aparecem em peças do dramaturgo. Há uma visível mão-grande na direção de tentar comprovar a hipótese, mas é isso mesmo, afinal hipóteses são para isso, para a gente sugerir, propor e vê até onde consegue fazer as pessoas apostarem nela.  Existe uma dramaturgia da História, um gênero que consiste em relatar que “as coisas aconteceram assim”.

Vejam esta matéria: http://tinyurl.com/lzjme9r. Não sou um grande leitor de Shakespeare, na verdade só conheço bem duas peças dele (“Hamlet”, “Macbeth”), não li as exegeses de Harold Bloom, seu laudador maior, mas falando de poeta para poeta o interessante de Shakespeare é a aparente facilidade de suas imagens. Ele faz um símile ou uma alegoria qualquer e você pensa: “É exatamente isso”. Talvez pareçam óbvias a leitores do século 21, mas pode ser que leitores do século 17 pensassem: “Meu Deus, nunca me ocorreria dizer isso assim”. Para mim, o Poeta diz as coisas de uma maneira que parece a única possível para descrever aquilo.

O dicionário de Shakespeare não difere muito da camisola de Marilyn Monroe ou do biquíni de Brigitte Bardot, que colecionadores arrematam. Este objeto é precioso, porque esteve em contato com alguém precioso, predestinado, extraordinário. A criação cultural envolve leilões de opiniões, de teses, de explicações do mundo. “Minha tese é de que Fulano foi o dono deste livro, baseado em tais e tais indícios. Se discordar, beleza, apresente suas informações que conflitam com as minhas.”  Um dia a ciência vai estar tão avançada que a gente vai mostrar um manuscrito do século um e provar que foi escrito por alguém do século dez.

Achar o dicionário de Shakespeare seria tão útil (ou tão inútil) quanto achar a bússola quebrada que foi usada por Américo Vespúcio, ou a Bíblia que Lutero violentou com tinta negra e letra gótica.  Achar o mapa da ilha do tesouro.  Achar o resíduo sagrado de um personagem sagrado.  Cada novo farrapo de texto que se descobre de um autor parece estar disfarçadamente zombando de tudo que o precedeu, parece saber que seria lido por último.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

3518) "Histórias da Velha Totônia" (6.6.2014)




Veio parar nas minhas mãos um livro de José Lins do Rêgo que eu nunca tinha lido: Histórias da Velha Totônia (1936), uma coletânea de histórias de Trancoso que Zé Lins diz ter escutado, quando era menino, dessa velhinha que andava de engenho em engenho, contando suas histórias.  A 21a. edição de José Olympio é de 2010; como o livro é curtinho, sobre espaço para vários textos explicativos e para as ótimas ilustrações de Tomás Santa Rosa, da edição original.

Esse livro parece ter sido o inspirador de outro publicado no ano seguinte: Histórias de Tia Nastácia de Monteiro Lobato, muito mais conhecido, até porque Lobato tem um público infantil historicamente estabelecido, ao contrário de Zé Lins.  Presumir influências é sempre arriscado – pode ser que Zé Lins tenha ouvido falar que Lobato estava preparando um livro de histórias de Trancoso e resolveu adiantar-se, lançando primeiro o seu.  Em todo caso, o de Zé Lins tem apenas quatro histórias, contra 43 do livro de Lobato. (E há duas em comum: “O Sargento Verde” e “O príncipe pequeno”/”O homem pequeno”).

Comparando as histórias vê-se que Monteiro Lobato reproduz o conto da maneira mais despojada possível, mas Zé Lins (talvez por dispor de menos material) capricha no enchimento. O que em Lobato se resolve com “Um dia apareceu um moço, também muito lindo, querendo casar com ela”, dá a Zé Lins assunto para uma página inteira (em “O Sargento Verde”).  O autor literário, em geral, quando pega esse tipo de narrativa aumenta os diálogos, as descrições, etc. – aumenta somente o material acessório, até por um certo pudor de mexer no esqueleto, na estrutura narrativa.

No seu livro, Zé Lins se queixa se que “as velhas Totônias estão desaparecendo”.  O livro é de quase 80 anos atrás, e como o Nordeste ainda é cheio, hoje, de velhinhas contando histórias, podemos imaginar que no momento exato em que Zé Lins escrevia havia algumas Totônias (ou Nastácias) nascendo por toda parte.  A maior contadora-de-histórias paraibana, Luzia Tereza (1909-1983) tinha 27 anos quando o livro dele saiu, e certamente ainda não tinha aprendido a maior parte do repertório que a tornaria famosa.

O número dessas pessoas tende a diminuir, mas mesmo que diminua é possível fazer com que elas não desapareçam. Não se trata apenas de amparar e documentar as velhinhas que passam adiante as histórias da memória oral.  Mas fazer com que elas não falem só para os pesquisadores e os gravadores – falem para as meninas e meninos de hoje, as mocinhas e os rapazinhos de hoje.  Alguns deles, quem sabe, estarão daqui a 70 anos recontando a histórias de Luzia Teresa, de Tia Nastácia e da velha Totônia.