domingo, 11 de maio de 2014

3496) O Eu poético (11.5.2014)



Fernando Pessoa defendeu em inúmeros textos em prosa (e até em poemas) o conceito de poesia dramática, a poesia que em vez de ser uma confissão intensamente pessoal do autor é uma poesia meio teatralizada, onde o autor inventa pessoas e situações e fala em nome desses personagens imaginários. Ele fez isto há um século, mas grande parte das pessoas que leem poesia continuam presas a um conceito de Eu Poético que resulta de uma compreensão limitada do lirismo. Vejo muita gente dizer: “Fulano faz poesia lírica, então tudo que ele está exprimindo são os verdadeiros sentimentos dele”. 

O Eu Poético não é uma afirmação de opiniões, é a investigação momentânea de estados emocionais.  Não é o que o poeta pensa oficialmente sobre aquele tema (a amada, o seu país, o destino da humanidade, etc.): é o que ele está pensando naqueles momentos em que se sente motivado a escrever.  Ele pode estar sujeito a emoções momentâneas de entusiasmo, raiva, desespero, euforia, espírito moleque e assim por diante.  Escreverá, naquela hora, movido por esse estado de espírito.  Nada o obriga a dar naquele poema uma opinião definitiva sobre algo.  Como dizia Drummond, “hoje ama, amanhã não ama”. Se produzir um poema hoje e outro amanhã, dizendo o por quê de amar ou de não amar, ambos os poemas, mesmo contraditórios, serão verdadeiros.

A poesia lírica é a impressão mental do presente do poeta, daquele estado emocional que o faz pegar na caneta. Emoções, o poeta as sente o tempo todo, como qualquer pessoa, mas há emoções que começam a se cristalizar em palavras, em imagens verbais, e é como se ele pensasse: “essa aqui eu consigo dar uma forma”. E ele pega na caneta. É uma poesia contraditória, porque o ser humano oscila o tempo todo entre emoções conflitantes. Meu exemplo preferido quanto a isto é a poetisa chilena Violeta Parra. Ela tem uma canção, “Gracias a la vida” (“Gracias a la vida / que me ha dado tanto...”) que é uma das canções mais belas de alegria de viver, capaz de ajudar a tirar alguém de uma depressão.  E escreveu outra, “Maldigo del alto cielo” (aqui: http://tinyurl.com/ocklytn), que é uma canção de maldição, de desespero, de chutar o balde e desistir do mundo. Qual das duas exprime os verdadeiros sentimentos da poetisa? Ambas.

Poetas sempre usaram o que Pessoa chamou de poesia dramática, mas geralmente se limitavam a ser um personagem; no máximo dois ou três, e mesmo assim parecidos, não-contraditórios. O Modernismo teve essa fator de libertação. Quando o poeta diz “eu”, não fala apenas em seu nome, fala em nomes de pessoas que ele nunca foi, mas que o leitor talvez tenha sido ou seja, e por isto se identifica.


sábado, 10 de maio de 2014

3495) Mini-contos de terror (10.5.2014)




(Minha contribuição ao gênero chamado Dark Quarks – contos de terror em duas frases.)

1) Na esperança de engravidar, ela recitou preces, fez simpatias, preparou um berço, e toda noite ia olhar para ele. Uma noite havia alguém lá. 

2) O chão cedeu durante a fuga e ele afundou até a cintura numa lama espessa.  Quando tentou nadar seus braços ficaram presos. 

3) Quando a luz do elevador apagou, ele ficou aborrecido.  O medo só começou quando ouviu um rangido profundo e o elevador começou a mover-se lateralmente, cada vez mais depressa.

4) Ao enfiar o pé na bota esquerda e amarrar os cadarços experimentou com prazer aquela sensação protetora. Ao enfiar o outro, sentiu a ferroada na sola do pé. 

5) Ele morava sozinho, e levantou no meio da noite para atender as insistentes batidas na porta da frente. Somente ao acender a luz da sala viu o braço descarnado que começava a se enfiar por baixo da porta. 

6) Ele percebeu que tinha se perdido na caatinga, e desceu do jipe para se orientar pelas estrelas. Quando o jipe arrancou sozinho, começou o rumor na mata.

7) Morando à beira de um bosque, sempre achou que seus inimigos eram os lobos. Até o dia em que fugindo de um lobo caiu dentro de um poço vazio e aí começaram seus problemas. 

8) O poema saiu inteiro, num jato, como se já viesse pronto, uma, duas páginas, os dedos voando no teclado, perfeito. “Deseja salvar as alterações?” “Não”.

9) Brincando no parque, a garotinha foi seguida por um homem mal encarado. Assustada, pediu carona no carro de uma moça, respirou aliviada, mas a motorista parou o carro na esquina e o homem entrou no banco traseiro. 

10) A festa do casamento foi divina, a viagem agradável, o hotel da lua-de-mel era um paraíso. Mas ela não esperava que na suíte nupcial estivessem quatro amigos do marido, fumando e bebendo, à espera.

11) Acordou num lugar desconhecido, numa cama de metal, coberto de ataduras ensanguentadas. Antes que pudesse sequer pensar, um celular começou a tocar dentro do seu estômago. 

12) O quarto à noite começou a se encher de mosquitos formando uma nuvem alongada, quase sólida. A nuvem esvoaçou até perto da cama e desligou o ventilador para ficar mais à vontade. 

13) Ao ouvir o terceiro sinal, ajeitou o black-tie, o smoking, flexionou os dedos e dirigiu-se para o palco, pressentindo rumor de casa cheia. Chegando ao proscênio, deparou-se com mil e duzentos caiapós armados e pintados para a guerra. 

14) Uma ventania súbita e um vozerio na rua o levaram à janela, de onde avistou a praia, seca, numa extensão de centenas de metros. Procurou o mar com os olhos e o viu no horizonte, erguendo-se até a metade do céu, como uma naja armando o bote.


sexta-feira, 9 de maio de 2014

3494) Reescrever os clássicos (9.5.2014)



Rola na internet uma polêmica sobre a edição de obras de Machado de Assis, reescritas para alcançar um público mais amplo, substituindo palavras consideradas difíceis, como “sagacidade”, por palavras como “esperteza”.  A intenção é tornar Machado mais conhecido pelas gerações mais jovens, as quais, por motivos que nem adianta começar a discutir num espaço tão curto, têm um vocabulário pequeno. (Por alguma razão, autoridades sempre acham que a melhor maneira de curar o vocabulário reduzido dos leitores é obrigar os escritores a diminuírem o seu.)

Gosto de ver adaptações de obras literárias para o cinema, o teatro, a ópera, as histórias em quadrinhos, os videogames e assim por diante. Geralmente acho que o resultado das adaptações é ruim, mas isso não cancela a importância da tentativa. Temos inclusive livros com adaptações destinadas aos jovens, feitas por Paulo Mendes Campos, Orígenes Lessa, Monteiro Lobato, muita gente boa. Mas nessas edições sempre se fez uma ressalva, enfatizando termos com “adaptar”, “recontar”, “nas palavras de”, etc.  Sempre que peguei um desses livros, sabia que não era o original. O perigo, creio, está em começar a publicar as obras de Machado de Assis sem a prosa de Machado de Assis, e atribuir o resultado a ele.

Machado é as-palavras-de-Machado, assim como Van Gogh é as-pinceladas-de-Van-Gogh. A arte de um escritor é feita de suas escolhas verbais, sua opção por palavras comuns ou extraordinárias, seu modo de organizar as frases, os termos específicos e bem pensados que ele emprega, sempre com intenção estética. Todas as pessoas que leem e entendem Machado de Assis viram algum dia essas palavras pela primeira vez, não entenderam, tentaram deduzir pelo contexto, e foram em frente. Ninguém entende uma palavra nova na primeira vez que a encontra. É preciso a repetição, em outros contextos.  Se tirarem isso do leitor, que chance de aprender lhe restará?

Mexer nisso pode ter intenções didáticas, mas deve-se deixar claro ao leitor que aquilo é a adaptação de uma obra de Machado, não é o livro que Machado escreveu. Vai dar certo? Sei lá.  Talvez estejam, com a melhor das intenções, formando uma geração de pessoas incapazes de ler Machado de Assis.  Ler Machado é acessar o vocabulário de Machado, as figuras de linguagem de Machado, o tornear das frases que ele fazia como ninguém. E que é preciso tempo para assimilar, entender, ser capaz de saborear. Eu não gostaria de ver Capitu, a “cigana oblíqua e dissimulada”, ser transformada por um redator qualquer em “cigana indireta e fingida”. Porque quando uma coisa começa desse jeito, é desse jeito que acaba.



quinta-feira, 8 de maio de 2014

3493) Contracapa de WhatsApp (8.5.2014)



(ilustração: Ron Miller)

&  no discurso político, a veemência é um mero ensaio para a violência  

&  o mais democrático do carnaval é o direito de sair à rua sem usar nenhuma fantasia  

&  o tempo que me resta é curto demais para que eu o desperdice lendo o que não me agrada, não me tumultua, não me ilumina  

&  um poema é a rachadura na vidraça por onde o sol surpreende com um arco-íris  

&  não adianta exigir honestidade aos desonestos, é como exigir vegetarianismo aos felinos  

&  toda letra de bolero se torna possível depois das duas da manhã  

&  ser fã é considerar a si próprio um mero efeito colateral de algo mais importante  

&  a política é a arte da esperança obrigatória, da amnésia por conveniência, do regateio infinito  

&  você sabe que está ficando importante quando todo mundo começa a lhe prestar favores sem você nem pedir  

&  aquela sensação de pequeno lorde inglês estudando entre atiradores de bumerangue lá num outback da vida  

&  confiar, mas verificando; desconfiar, mas discretamente  

&  dá pena pensar em todas as gírias brilhantes que se evaporaram sem chegar ao papel  

&  basta uma coisa dentro de uma mochila para varrer Manhattan do mapa  

&   a memória é uma ponte elástica ligando o passado ao futuro  

& até hoje nenhum cientista conseguiu provar por a+b que é possível provar alguma coisa por a+b  

&  a gente se esforça tanto e no fim vira apenas o rei da gafe, o campeão do mico, o especialista em meter os pés pelas mãos  

&  criança de rico é bonsai, criança de pobre é erva daninha  

&  toda comida tem algo de veneno  

&  o sujeito está com o saldo bancário no vermelho e ainda passa uma tarde preocupado com a Conjetura de Riemann sobre os números primos  

&  inventou um vibrador que diz “quer casar comigo?” e ficou rico  

&   certos jogos de futebol deixam a alma da gente mais massacrada do que a grama onde aconteceram  

&  mandar é como obedecer: depois que o cara acostuma aquilo vai por si só  

&  um apartamento flutuando sobre o abismo até que alguém abre a porta  

&  ser imortal é estar condenado à prisão perpétua sem chance de fuga  

&  a única vez que tentei conversar com uma árvore ela me disse: vai correr, aproveita que tem perna!  

&  há duas maneiras de perder uma mulher: tratá-la como um mero animal, e tratá-la como alguém sem animalidade nenhuma  

&  o poeta é um voyeur clandestino espiando as frestas dentro de si mesmo  

& ainda veremos políticos contratando romancistas para escreverem biografias deles onde tudo deu certo  

&  depois de uma noite de bebida incessante e escrita furiosa, eu apago a luz e me aconchego aos ácaros  

&  você paga a vida com a vida, e o que o mundo lhe dá é troco  &


quarta-feira, 7 de maio de 2014

3492) O nome do celular (7.5.2014)



Quando aparece uma novidade tecnológica, ela muitas vezes já vem batizada do laboratório (pelos técnicos que a criaram) ou da fábrica (pelos marqueteiros que vão colocá-la ao alcance do público).  Mas também acontece do produto sair com um nome e bem depressa a rua batizá-lo de novo. O produto na rua é outra coisa. É como você batizar um filho de Gumercindo e descobrir que no colégio ele virou Gugu.

O caso do telefone celular é interessante porque nos EUA ele é chamado de “cell phone” e na Inglaterra de “mobile”, e neste caso, pelo menos, seguimos os EUA. A gente não diz “Liga amanhã pro meu móvel”, embora a expressão “telefonia móvel”, para falar da indústria, seja corrente na imprensa e nos documentos jurídicos.

Um blog (aqui: http://tinyurl.com/qcroh6c) fez um levantamento sobre o modo de chamar esse aparelho em vários países. É um levantamento informal, mas em princípio merece uma olhada. O nome “cellphone” (e derivados, como “celular”) é predominante nos EUA, Brasil e Filipinas, e presente na Argentina e Cuba.  O termo “móvel”, nos seus derivados como “mobile”, predomina no Irã, Espanha, Dinamarca, Reino Unido, Nova Zelândia, Índia, Holanda.

Há outros termos interessantes,  como por exemplo “portable”, em francês, que se alterna com “mobile”, porque também é usado para computadores portáteis. A Coréia, a Alemanha, a Indonésia e a China usam “handphone” (ou “handy”), “telefone de mão”, que é simples e intuitivo.  Na Turquia, o também óbvio “pocket phone”, “telefone de bolso”, que seria o meu preferido numa votação, até porque me lembra “pocket book”.  Israel usa “Pelefon” que o saite em inglês traduz por “wonder phone”, “fone maravilha”.

Aqui no Brasil começamos usando “telefone celular” que foi logo abreviado para “celular” para distingui-lo do “telefone de linha”. Todo mundo diz: “Não me liga no telefone, liga no celular”.  Usamos também assim: “Não me liga no fixo, liga no celular”. “Fixo” é uma denominação retroativa, porque esse tipo de telefone só foi chamado assim depois que os telefones móveis apareceram. A interferência mais criativa do Brasil foi criar a piada do “telefone molecular”, que consiste em chamar um moleque, dar-lhe um recado e dizer que vá correndo. É uma cena machadiana (os personagens de Machado de Assis não vivem sem um moleque de recados capaz de disparar pela cidade afora para levar mensagens urgentes), mas ao mesmo tempo fico imaginando um tradutor estrangeiro de um romance nosso que se deparasse com esta expressão; se o contexto não desse mais informações, pensaria tratar-se de uma história de ficção científica.


terça-feira, 6 de maio de 2014

3491) Policarpo Quixote (6.5.2014)



É quase um lugar comum da crítica dizer que Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911) de Lima Barreto é um romance sobre a loucura. A trajetória do protagonista é comparada à loucura mansa de Dom Quixote, que vive num mundo mental diferente da “realidade consensual” das pessoas à sua volta. O Major Quaresma, no entanto, é um cidadão muito mais integrado ao mundo. Trabalha numa repartição; conhece pessoalmente o Presidente da República; compra um sítio; dedica-se à agricultura; alista-se como voluntário no exército durante uma revolta armada... Ou seja: faz o que outros cidadãos também fazem ou gostariam de fazer. Não come merda nem rasga dinheiro, e toda vez que atravessa uma rua chega inteiro do outro lado.  Doido, ele não é. Ou pelo menos não é mais do que eu.

E no entanto o major acaba internado num sanatório, tal como aconteceu com o próprio Lima Barreto. Por que?  Porque cismou que o Brasil tinha que ser diferente. É a megalomania do paranóico, o qual acredita que o mundo inteiro gira em redor do seu umbigo, que o mundo inteiro espera dele intervenções grandiosas e decisivas. Quaresma é acometido de surtos de amor fervoroso pela Pátria, convence-se do grande destino que a espera, e tudo que quer é sacudir o povo brasileiro pelos ombros, despertá-lo, pô-lo de pé, encaminhá-lo para seu grande destino. Isto é ser doido?  No Brasil, parece que sim.

Lima Barreto diz: “O primeiro fato surpreendeu, mas vieram outros e outros, de forma que o que pareceu no começo uma extravagância, uma pequena mania, se apresentou logo em insânia declarada.”  O requerimento que ele faz à Câmara propondo que o tupi seja adotado como língua oficial do Brasil fica famoso da noite para o dia.  Quaresma, por assim dizer, torna-se um meme das redes sociais da época. “Publicado em todos os jornais, com comentários facetos, não havia quem não fizesse uma pilhéria sobre ele... Uma ilustração semanal publicou-lhe a caricatura e o major foi apontado na rua.”

A não ser em casos graves e extremos, um doido pode viver em paz e ser considerado apenas como excêntrico ou “cheio de manias”. O erro de Quaresma é tornar-se visível, primeiro pelo requerimento, depois quando por distração faz enviar um ofício em tupi (que fizera como mero exercício) na repartição onde trabalha. Tivesse ficado em casa com sua mania, seria deixado em paz. Seu erro é o erro de todos os idealistas: querer colocar em prática seus ideais. É o erro dos filósofos que não se contentam em explicar o mundo, querem mudá-lo também. Todo mundo aceitaria Dom Quixote lendo seus livros de cavalaria e sonhando em paz. Mas pegou em armas?  É doido.


domingo, 4 de maio de 2014

3490) Jovens tradutores (4.5.2014)


Muitos jovens (ou nem tanto) me perguntam às vezes: “Como se faz pra trabalhar como tradutor?”  O mais simples é mandar um email para uma editora, dizendo que quer traduzir e as suas áreas de preferência. Eu costumava dizer: “Traduzo do inglês, e tenho bom conhecimento de ficção científica, fantasia, terror e policial”.  Minhas primeiras traduções (sob pseudônimo) foram de romances de amor tipo Sabrina ou Bianca, e livrinhos de faroeste. Pegue. É treinamento, é um aprendizado sobre você mesmo. Não ligue se o livro é bom. Faça o melhor possível. Se você é incapaz de traduzir um livro ruim, nunca vai traduzir um livro bom.

Às vezes eu juntava à carta um pequeno texto (1 ou 2 páginas) com um exemplo de tradução feita por mim.   Escolhia um conto curto ou trecho de livro, mandava o original e minha tradução para eles terem uma idéia.  Isso não elimina uma fase indispensável: a editora lhe manda um texto (em geral um capítulo de um livro) e lhe dá um prazo, digamos uma semana.

É o teste. Todo mundo passa por isso, se nunca traduziu profissionalmente, mesmo que tenha todos os diplomas de Cultura Inglesa ou Aliança Francesa. Saber uma língua não implica saber traduzir. Saber traduzir é saber escrever. Ser tradutor é ser escritor. Se você não se acha capaz de escrever um livro saído de sua própria cabeça, seja literatura ou não-ficção (um livro técnico sobre sua profissão, por exemplo), como diabo vai ser capaz de escrever em português um livro de outro cara, escrito noutra língua?

Se você pode dar tempo integral a isso, ótimo. Se não, reserve algumas horas por dia só para traduzir. Não importa se num dia você fez dez páginas e no outro só fez uma. O importante é avançar. E não ficar muito tempo “longe do livro”. Às vezes a gente fica duas, três semanas sem pegar na tradução, pensando em fazer um “esforço concentrado” no final; isso pode dar certo, ou não. Escolha o método que produza melhores resultados.  

Para ganhar dinheiro com tradução você precisa ser do tipo que gosta de escrever, porque vai ter que escrever e reescrever muito. Hoje, tudo ajuda o tradutor sério: Google, Google imagens, dicionários online, fóruns online, redes sociais onde a galera troca figurinhas e tira dúvidas entre si.  Tradução não é uma coisa para ser feita às pressas e entregue antes do prazo. Se pedem para o dia 30 e você no dia 25 já terminou, não mande ainda. Volte ao começo e vá passando um pente fino. Estourar o prazo é uma coisa chata, mas pior ainda é entregar antes do prazo, só pra mostrar serviço, um trabalho cheio de pequenos defeitos, de esquecimentos, de repetições, de coisas que teria dado para ajeitar.


sábado, 3 de maio de 2014

3489) Policial existencialista (3.5.2014)



Albert Camus afirmou que, ao escrever o clássico O Estrangeiro (1942) estava tentando escrever um daqueles romances de crime-norte-americanos que gostava de ler, e que ficaram conhecidos como “roman noir” (batizando depois o gênero cinematográfico do “film noir”), devido a uma famosa coleção francesa de capas pretas.  Para alguns puristas pode parecer uma heresia a noção de que o Filósofo do Absurdo estava querendo imitar autores como Dashiell Hammett, mas o Romance Policial Existencialista, gênero que acabo de batizar neste momento histórico, tem raiz nesse curioso movimento de trocas culturais entre EUA e França.

O movimento se dá mais ou menos assim: a cultura popular dos EUA produz alguma coisa que faz relativo sucesso em seu país mas é esnobada pelos intelectuais. Algum tempo depois, intelectuais franceses descobrem aquilo, maravilham-se, e começam a imitá-lo ou dedicar-lhe exegeses. Com esse súbito acesso de respeitabilidade, geralmente a obra original passa a ser vista com mais atenção no país de origem. Cineastas como Samuel Fuller e Jerry Lewis são muito mais respeitados na França do que em sua terra. Edgar Allan Poe talvez tivesse sumido no submundo da literatura de gênero se não fosse Baudelaire. E o romance de crime ganhou esse verniz existencialista graças a praticantes como o próprio Camus, Alain Robbe-Grillet etc.

O romance policial, além do lado de enigma e mistério, tem um lado “social”, de mostrar o que existe por baixo do tapete da civilização.  E pode ser também a grande literatura trágica do nosso tempo, porque nada melhor do que o crime para exprimir a tragédia humana.  A tragédia da civilização fora-dos-eixos, da vida que não deu certo, dos destinos individuais presos na teia dos acasos, fatalidades e outros ingredientes da tragédia grega. Alguns tentam fazer isso recheando seus enredos com reflexões filosóficas.

Se de fato considerarmos O Estrangeiro (que poderia ter se chamado “O Estranhamento”, no sentido brechtiano de “ver as coisas pelo lado de fora”) como a grande obra do gênero, juntamente com Crime e Castigo de Dostoiévski, é pela sua disposição de não comentar nada, não explicar nada, não fazer notas de pé de página direcionando ideologicamente a tragédia que estava narrando. Apenas os fatos nus e crus, contados no tom de voz monocórdio de quem se lembra de absolutamente tudo mas não caiu-a-ficha de absolutamente nada. Assim como a história de Édipo é a tragédia do Destino (tudo estava escrito; é impossível escapar), a de Meursault é a tragédia do Acaso: nada está escrito, tudo está sendo criado a cada momento, e é impossível escapar.


sexta-feira, 2 de maio de 2014

3488) Foi sinistro o negócio (2.5.2014)



Véio, foi sinistro o negócio. Sabe essas noite que o caba sai sem saber pra quê e acaba virando o bagulho mais surreal? Apois eu tava de bobeira na pensão e desci pra comprar cigarro, não foi nem que o cigarro acabou, eu que fiquei assim, sabe aquela nóia que o cigarro vai acabar de madrugada? Aí enfiei a bermuda, calcei uma havaiana e fui lá no bar de Mirim dar um alô na galera e comprar um maço. Fui só rapidinho, eu nem ia beber nem nada, porque oito da manhã tinha uma entrevista de emprego. Saco esse moído de entrevista, mas fazer o quê, a pensão já atrasou de novo e o véio já tava enchendo o saco. Meu irmão, quando em entro lá quem eu vejo, Carminha minha ex, bêba que só a desgraça, batendo boca com um gordo, o caba puxando ela pelo braço, assim feito dono dela. Eu cheguei, ‘meu irmão, qué que tu tá aprontando aí com a guria’, pois ele já tava alterado, num é que o filadaputa virou logo a mão na minha cara?!  Aí não prestou não, me fiz logo numa cadeira e estiquei o condenado no chão com a cabeça aberta, quis arrastar ela pra calçada já pensando em levar pro quarto e comer, quando eu vejo se levanta dois caba que tava com o caba, vem os dois por cima de mim. Aí foi porrada que comeu e mesa virada, a mulherada gritando e derrubando garrafa e copo, um dos caba me pegou mesmo aqui, olha só como tá, eu perdi o fôlego, véio, foi sinistro. Mas Mirim se atravessou pra apartar, segurou o caba, mas o outro veio por trás, meu irmão, caraio, o caba enterrou uma faca em Mirim mesmo por aqui, lado direito de baixo pra cima, e correu. Nessa hora eu num vi mais nada, quebrei uma garrafa e fui atrás do caba. Ele subiu no beco e a gente subiu atrás, nessa já vinha o irmão de Mirim e mais dois, atrás de mim. Meu irmão, aí foi desgraça muita. O caba se escondeu na casa dum povo, e a gente botou porta e janela abaixo, o povo gritando e a gente tacando a mão preles sair da frente, quando a gente chegou na cozinha o canto mais limpo, o caba saiu pelos fundos. A gente botemo atrás!  Mas aí uns amigos do caba apareceram não sei de onde, e começou a rolar tiro. Um deles me agarrou numa esquina, que azar da porra que eu saí sem calçar minha bota, senão eu tinha afundado os dente do cachorro, mas a bala comeu no beco e nós rolando agarrado. Aí chegou polícia, começou aquele foi-não-foi, levaram a gente pra Nona, eu tive que pedir um celular emprestado e ligado pra Dra. Vívia, aquela do motel. Foi sinistro, véio, tive que recolocar a véia em circulação, maior saia justa mas ela foi firmeza, soltou a gente tudo, e pior, saí dali às 7 da manhã, direto pra entrevista do emprego, sou muito mole, véio, adivinha o resultado.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

3487) Garcia Márquez (1.5.2014)



(Garcia Márquez, por Charles Burns)

A imprensa do mundo inteiro está dando um balanço na obra literária de Garcia Márquez, falecido recentemente. Não direi que ele era uma unanimidade junto ao público e à crítica; conheço pessoalmente gente que não gosta, que o acha meio “macumba para turistas”, um “folclorizador da miséria, como Jorge Amado” (já ouvi isto). Eu não acho. A leitura de Cem Anos de Solidão aos 20 anos mudou minha compreensão da literatura e da América Latina. Curiosamente, muitos que não gostam de Márquez são fãs de Borges.  Veem Borges como o que todo latino-americano deveria ser: civilizado, lendo latim e alemão, conhecendo a filosofia clássica e pensando de forma apolínea (Borges detestaria essa descrição, aliás injusta; é o modo como ele é visto, não o que ele era). Márquez era um escritor formado em redação de jornal, esquerdista, bigodudo, plebeu total.

Seu discurso de recebimento do Prêmio Nobel traça duas linhas paralelas de sua visão da América Latina, dando substância ao que veio a se chamar de realismo mágico. Por um lado, há os aspectos bizarros e extraordinários da realidade física e mental do continente, tudo que parece estranho aos que vêm do Hemisfério Norte e determinam o que é normal e o que não é. Por outro lado, há a espantosa desigualdade social do continente, resultado da pororoca inicial e posterior convivência entre a brutalidade do colonizador e a do colonizado (aqui se praticava a escravidão, o canibalismo, os sacrifícios humanos).

Nos seus romances, muitos detalhes atribuídos ao realismo mágico eram meras reconstituições de fatos históricos. Nisso, Márquez dava uma lição que autores tão diferentes como Tim Powers ou Bruce Sterling souberam utilizar bem: pegue da realidade o que ela tiver de mais inacreditável, e deixe sua ficção apenas um ponto abaixo. Qualquer crítico que listar as coisas mais impossíveis do enredo vai quebrar a cara ao ver que eram reais.

Na outra mão desse processo, Márquez fazia relatos jornalísticos, reconstituições de episódios reais, com os artifícios da ficção: Relato de um Náufrago, Notícia de um Sequestro, A Aventura de Miguel Littín clandestino no Chile... Alguns amigos meus (e alguns críticos literários) se queixam de que isso não é jornalismo, porque Márquez mudava detalhes, personagens ou situações para acomodá-los a sua conveniência narrativa. Muito bem, que não seja jornalismo, que seja então ficção inspirada em fatos reais. O que importa é que a volúpia narrativa está toda ali, e eu não sei se Euclides em Os Sertões ou Graciliano em Memórias do Cárcere foram mais fiéis aos fatos do que ao significado dos fatos. Há uma diferença.