quinta-feira, 3 de abril de 2014

3463) Outra entrevista (3.4.2014)




PERGUNTA) Oi Braulio, é um prazer estar neste chat em tempo real. Como foi que você descobriu o cordel? Aarão. 
RESPOSTA) Fala Aarão, tu deve ter um trauma de levar falta na hora da chamada, hem? Bem, eu via aquela fila de folhetos suspensos horizontalmente no ar e alguma coisa me dizia: tem mutrêta! tem mutrêta!  Aí descobri o cordel. 

PERGUNTA) Oi BT, valeu estar aqui, sou seu fã. Por que você enche tanto a bola desse tal de Borges? Hnbem14.  
RESPOSTA) Olha, Hnbem14, eu acho que Borges é um dos maiores xilogravadores que o Nordeste já teve, e que ainda tem, porque se você cruzar a cidade de Bezerros rumo ao sertão vai ver do lado esquerdo da rodovia o ateliê dele; dê uma parada e olhe, que é uma beleza.

PERGUNTA) Senhor Braulio, por que motivo o paraibano é tão discriminado no Sul Maravilha? dezessete700.  
RESPOSTA) Olha, 17, se você aceitar se diminuir por causa de um rótulo qualquer você nunca vai ser maior do que esse rótulo. Minha ordem do dia é mostrar ao mundo que os paraibanos são mais produtivos, mais inteligentes, mais criativos e mais gente boa do que todos os outros povos; claro que não vou conseguir nunca, mas o que conta é o resíduo.  

PERGUNTA) Como é possível que você goste do cinema de um verme catatônico chamado Jean-Luc Godard? ladyL.  
RESPOSTA) Minha querida ladyL, caso seja isso mesmo: o cinema de Godard é um extremo, é para ser usado só em casos extremos, como a primeira e a última tecla do piano; é um marco miliário, é um parâmetro, é um farol; se você ultrapassar aquele ponto, saiba que já não é mais o teclado, não é mais o cinema.

PERGUNTA) Oi Trupizupe, beleza, quanta coisa meu velho, sensacional ver isso, a Internet, o mundo, a juventude, cacete, tudo bom demais, e você aqui, arrasando. Valeu! Aqualung71. 
RESPOSTA) Eita, tás aqui também?  Beleza digo eu, você não sabe metade do montante. Grande abraço e te cuida.  

PERGUNTA) Meu caro Braulio, pode-se servir a dois senhores, o rock-and-roll e o cordel? Unhadegato. 
RESPOSTA) O artista serve apenas a uma senhora, a Poesia; e esse grupos a servem também, cada qual em seu templo, que um do outro não distam mais que alguns passos. 

PERGUNTA) Boa noite. O senhor acha que o senhor representa bem a Paraíba, longe da Paraíba? Brejeira10. 
RESPOSTA) Olhe, Brejeira10, eu acho que represento bem todo mundo, qualquer que seja o filtro de escolha: os paraibanos, os poetas, os nascidos em ano terminado com zero, os branquelos destros, os virginianos, os tigres chineses, o escambau. Minha obrigação moral é não envergonhar nenhum desses grupos, sempre levando em conta que uns são bem cheios de si, e outros nem percebem que existem.




quarta-feira, 2 de abril de 2014

3462) "Pacto de Sangue" (2.4.2014)



Para alguns historiadores do cinema, este é o filme que começou (ou pelo menos cristalizou numa forma nítida, pois antecessores havia muitos) o filme policial “noir”, que (como tantas outras coisas da cultura pop) os norte-americanos inventaram e os franceses descobriram. Double Indemnity (1944), baseado num excelente romance de James M. Cain, foi dirigido por Billy Wilder, e roteirizado por Wilder e Raymond Chandler. Foi um período em que o chamado Código Hays imperava em Hollywood, passando um pente-fino moralista nos roteiros e nos filmes prontos. Contando uma história sórdida de adultério, traição, ganância e assassinato, o filme conseguiu driblar a censura e mostrar um lado da América que a América, em plena guerra, saturada de propaganda democrática e triunfalista, não fazia questão de revelar.

Este filme talvez seja a mais bem sucedida das contribuições de Chandler para o cinema (ele viria a negar com veemência que tivesse restado algo seu em, por exemplo, Pacto Sinistro de Hitchcock, embora seu nome apareça nos créditos).  O filme tem pequenos detalhes seus, como por exemplo a tornozeleira (“anklet”) de ouro usada pela personagem de Barbara Stanwyck; um detalhe presente no romance A Dama do Lago e ausente no livro em que o filme se baseou. Pacto de Sangue tem também a única imagem preservada de Chandler: ele faz uma aparição hitchcockiana numa cena em que o protagonista, interpretado por Fred MacMurray, caminha por um corredor.

No mais, o filme é uma antologia de efeitos fotográficos magistrais: contrastes de claro/escuro, composições em linhas paralelas, superposição de tons de cinza, ângulos expressivos, presença subliminar de sombras e de reflexos. O “noir” norte-americano deve muito ao expressionismo alemão que fez parte da formação do diretor Wilder, um estilo que ele retomaria depois em Crepúsculo dos Deuses e outros filmes. O mundo desses filmes é uma espécie de caverna repleta de reflexos, imagens duplas ou distorcidas, linhas que se entrecruzam como flechas num campo de batalha, corpos aparentemente sólidos que se desfazem ao saírem do cone de luz de uma lâmpada...  O filme noir é um filme realista na superfície (nada acontece ali de fantástico, nada de impossível pelas leis naturais) mas é um realismo totalmente subjetivo, soma do mundo exterior iluminado e nítido e do mundo mental dos personagens, que nele se projeta sobre a forma de “clima”; daí ser uma forma especial de expressionismo. Realistas são as cenas de escritório de Fred MacMurray com os colegas; expressionistas as cenas dele com a mulher fatal que o arrasta para o crime e a morte.




segunda-feira, 31 de março de 2014

3461) A palavra websaite (1.4.2014)



Na escola somos tantas vezes punidos por erros de ortografia que, das duas uma: ou o sujeito manda tudo pro inferno e continua a escrever “concerteza”, ou vira um Inquisidor espanhol, de fogueira em punho, pronto para imolar o primeiro que der uma escorregada.  Eu, por mim, acho que o pior erro de escrita é o que muda o sentido do que se estava querendo dizer, o que prejudica a comunicação. Não sendo assim, é um pecado menor, como mau hálito ou maus modos à mesa. Feio pra danado, mas fácil de corrigir.

Leitores vêm às vezes me corrigir o modo como escrevo certas palavras.  As mais notórias são “saite” e “websaite”.  Sempre tem um bom samaritano para me explicar que são termos em inglês, e que se escrevem “site, website”.  Beleza.  Acontece que uma das dinâmicas apropriativas da língua portuguesa é justamente esquecer como as palavras são escritas na língua de origem, e escrever o modo como nós as pronunciamos aqui. Funcionou assim com futebol, abajur, mídia (cujos originais são “foot-ball”, “abat-jour”, “media”) e mil outros.  Bato de novo numa das minhas teclas preferidas: a linguagem é primeiro falada e escutada, só depois é escrita e lida. Nosso caminho intuitivo para formação de palavras é o som, não as letras com que aludimos a ele.

A grafia inglesa “site” nos sugere instintivamente a pronúncia “síte”. Já com “saite” não tem dúvida nenhuma. Já se cogitou (e ainda se pratica) a substituição por “sítio” (“vi isso num sítio na Internet”), mas aos meus ouvidos isso não encaixa 100%. Sítio me parece uma palavra muito contaminada por outros usos. Saite é uma palavra nova para um conceito novo.

Já me brandiram triunfantes um argumento: “Então, por que escrever websaite, e não uebsaite?”.  Explico.  Esse dáblio inicial não tem perigo de ser confundido com o som de “vê”, até pela quantidade de Williams, Washingtons, etc. à nossa volta.  Nunca vi nenhum novato dizer “vebsaite”. Conserva-se a pronúncia, e neste caso conserva-se a grafia. Uma solução salomônica, que nos ajuda a identificar com presteza todo esse campo temático (“webmaster, web design”, etc.) através da letra escrita, sem prejuízo do som pronunciado.

Não espero que a língua portuguesa vá consagrar essa grafia só em atenção a minha modesta pessoa. Mas a língua é assim. As novas formas são propostas por qualquer um, como eu e você. Nunca saberemos a mecânica que faz umas dessas formas “pegarem” e outras não. (Corrigindo: não temos, por enquanto, meios confiáveis de averiguar por que motivo umas pegam e outras não.)  Cabe a cada um que propõe uma forma saber pelo menos explicar por que a está propondo. O resto é com o tempo e o vento.


domingo, 30 de março de 2014

3460) Escolhendo títulos (30.3.2014)



Ainda sobre a questão do título de um livro (ou de uma obra de outra natureza, mas que comporte um título): sua escolha deveria ser objeto das mesmas discussões madrugada adentro que os casais geralmente fazem para escolher o nome de um bebê.  Com um fator de dificultação a mais, porque o nome do bebê basta ser interessante e agradável, não tem a obrigação de condensar a essência do bebê (que nem existência tem ainda, coitado, quanto mais isso), ao passo que título de livro precisa ser tão elucidativo quanto um nome próprio, tão personalizado quanto uma impressão digital e tão expressivo quanto um rosto.

No blog de Marcelino Freire “Ossos do Ofídio” (http://bit.ly/N2DOm8) li uma divertida discussão de Clarice Lispector com dois colegas. Ela queria intitular um livro seu A veia no pulso. Fernando Sabino foi contra, porque achou que o título sugeria Aveia no pulso. João Cabral disse que o título era ótimo, que não se tratava de um cacófato, e que as veias e o pulso são coisas que a mente associa uma à outra sem muito esforço, de modo que só um idiota entenderia errado. Aliás, o livro acabou se chamando A Maçã no Escuro – muito melhor, pelo meu gosto.

O jovem romancista perseguia o escritor veterano e enchia-lhe o saco pedindo sugestão de título para um romance. Um dia o cara se encheu e disse: Me diga uma coisa. Aparece algum tambor no seu livro? O rapaz: Não, não aparece.  Ele: Bom. Tem alguma corneta? O rapaz: Claro que não!  Ele:  Então está aí seu título: Sem Tambor nem Corneta!

Esse tipo de definição por exclusão lembra o conselho de Mark Twain de que sempre que se fosse criar uma biblioteca a primeira coisa a fazer seria não comprar os livros de Jane Austen. “Mesmo que nenhuma outra obra venha a ser comprada,” dizia Twain, “só pelo fato de não ter nenhum livro dessa senhora já será uma excelente biblioteca”.

Que ave misteriosa e insondável, a Coruja da Desinspiração, habitava o campanário mental de Machado de Assis, quando ele, a certa altura, anunciou que seu próximo romance seria intitulado Último?  (Não foi: é o atual Esaú e Jacó).  Ver que mesmo um indivíduo capaz de alguns títulos primorosos, como é o caso de Machado, considera usar um título tão torto e instável como Último, mostra que nenhuma fórmula esgota as possibilidades da resposta lá fora, de centenas, de milhares de pessoas diferentes. Você está acostumado a ler Os Pardaillans, ou Anos de Tormenta ou A Mansão Misteriosa, aí de repente ergue um livro no balcão da livraria e lê: Um Pouco Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo, você se pergunta que palavrão é aquele. Aí compra – porque o título inquietou. 


sexta-feira, 28 de março de 2014

3459) É o jeito (29.3.2014)




Sim, o jeito é manter a cabeça fria, o olho focado, a mão pronta, os pés afastados, os nervos zumbindo acesos como um cabo de alta tensão de Itaipu.  

Cruzar correndo a superfície do lago, confiando na tensão superficial daquela água pouco sujeita a ondas. 

Saltar na hora do atropelamento para sair do chão no primeiro impacto e cair depois no vácuo do carro, que já seguiu seu caminho.  

Driblar uma bala perdida não é mais difícil do que fintar um miúra abufelado.  Não tem perigo que a gente não consiga eludir, não tem catástrofe que não se possa atenuar, não tem beco sem saída onde não haja uma janela baixa que alguém deixou só encostada, não tem estava-escrito que a gente não possa pedir vistas no processo e reabrir um questionamento.

É o jeito. 

Seguir em frente como a água do rio, escorrendo por onde der passagem, ou como a ave de arribação que não tem a mínima idéia de como está se orientando mas sabe que um dia chega.  

Claro que a batalha é ferrenha e muitos tombam pelo meio do caminho, e é bem provável que eu tombe também, só que não vou tombar aqui, vou tombar, se for o caso, lá depois daquela volta da estrada, depois daquela montanha bem azulzinha, mas aqui, não.  

O jeito é teimar, o jeito é continuar respirando, antes de tudo o mais, e o fato de que hoje respirei em paz o dia todo resolveu estes 95% dos meus problemas, então que venha o restante.

O jeito é tentar não dar murro em ponta de faca, não abrir janelas na parede a golpes de cabeça, não pular do prédio sem reparar se a providencial carroça-de-feno está estrategicamente colocada no ponto exato.  

Também é preciso saber tergiversar, sofismar, botar panos quentes, tapar o sol com uma peneira, ficar acordado a noite inteira, fazer redemunho de carrossel. Jeito pra tudo tem, a vida é uma bolinha que vem e você tem só que ficar rebatendo, a vida toda ela vindo e você rebatendo, porque quando erra só erra uma vez.

Jeito. Quando você menos espera, em pleno começo do Dilúvio, você se lembra que tinha feito uma arca trinta anos atrás, só pra se divertir durante uma tarde!..  

Você cai do arame rumo ao chão sem rede mas alguém rebobina e você sobe às avessas: era um filme, e você não existe. 

Mesmo na jaula dos leões ou no porão dos abutres haverá alguma porta secreta ou gaveta com fundo falso, e você escapa para um universo mais negociável. 

Ninguém pode garantir que o jeito significará necessariamente a salvação, mas o fato é que pra tudo tem jeito.  Sempre tem a terceira face da moeda, a serrilhada. Tem o rio reto, tem o pulo do gato e o salto do cavalo, tem o sexto lado do pentágono e a nobre arte de avançar mais uma casa no tabuleiro.


3458) 1984 de Orwell (28.3.2014)




Reli agora este livro que eu tinha lido apenas uma vez, em 1971, e fiquei pasmo: era exatamente o mesmo livro que eu lembrava.  Claro que durante esse período o cinema (Michael Radford) e o rock (Rick Wakeman) reavivaram a memória, mas não é qualquer livro que grava as coisas assim na memória da gente, como cinzel no metal. 

Nineteen Eighty-Four (o título original é por extenso) já foi apontado como o livro mais depressivo, ou mais pessimista, de toda a literatura, e até como “o livro que matou George Orwell”, pois o autor, trabalhando em condições difíceis, viu sua tuberculose piorar ao longo de 1948, quando concluiu o livro, publicado em junho de 1949.  Ele morreu em janeiro de 1950.

Para muita gente a obra de Orwell foi profética ao criar conceitos como o do Big Brother, que deixou de ser simplesmente a pessoa do ditador paternal, tipo Stálin ou Getúlio, e tornou-se sinônimo da sociedade supervigiada, com uma câmara-tela espiã em cada aposento. (Não literalmente – mas hoje sabemos que qualquer atividade eletrônica nossa é tão sujeita a espia quanto o diário manuscrito que Winston Smith escondia em seu apartamento, na esperança de que ninguém o revistasse.)  

O reality show que adotou esse nome acabou dando-lhe uma curiosa e atual conotação.  O Big Brother não é apenas alguém que vigia você. É alguém que faz você querer vigiá-lo o dia inteiro, passar o dia pensando nele, na programação dele, e se viciar nas imagens oferecidas por ele 24 horas por dia.

Criação de Orwell, a palavra “duplipensar” (doublethink) é muito citada mas não se incorporou à nossa linguagem, se bem que o hábito do duplipensamento seja cada vez mais generalizado. Sem duplipensar ninguém sobrevive. 

Políticos que mudam de lado e de credo com a maior das convicções, e num estalar de dedos “trocam o sinal” de seus aliados e adversários. Senhoras e senhoras respeitáveis que às escondidas mantêm vícios proibidos (drogas, sexo, etc.). Funcionários públicos trabalhando para um governo que desaprovam. 

Casais que traem e escondem.  Amigos que mentem e escondem.  Pais e filhos que mentem e escondem uns dos outros.  Isso é invenção dos tempos modernos?  Não: é da natureza humana, e volta em qualquer sociedade decadente, ou sob pressão. 

Por um lado, é a hipocrisia (e a cautela) de quem não pode revelar o que pensa. Por outro, é a disponibilidade permanente que se induz na população para que abrigue na mente idéias opostas. 

O povo tem que estar pronto para achar que “X” é bom e que “X” é ruim. Nunca se sabe de qual das duas opiniões o Big Brother vai precisar para seus objetivos, que, de qualquer modo, ninguém jamais saberá quais são.






quinta-feira, 27 de março de 2014

3457) Numa casca de noz (27.3.2014)



Vi uma postagem numa rede social, numa troca de idéias entre tradutores, comentando um livro que traduziu assim um título em inglês: A História das 40 Horas de Devoção em uma Casca de Noz. O original deve ser algo como The History of the 40 Hours’ Devotion in a Nutshell. A expressão “in a nutshell” tem o sentido de: “de forma resumida, de forma compacta, em poucas palavras”. Talvez tenha origem na famosa frase do Hamlet de Shakespeare: “O God, I could be bounded in a nutshell, and count myself a king of infinite space—were it not that I have bad dreams.”  Algo como: “Oh, Deus, eu podia ser trancado numa casca de noz e me considerar um rei dos espaços infinitos, não tivesse os sonhos maus que tenho”.

Dessa fonte clássica, talvez, veio a expressão popular “in a nutshell”, ou quem sabe ela já era popular no tempo do dramaturgo. Em todo caso, é uma dessas frases feitas, em torno de uma imagem fortemente concreta, de que a língua inglesa é rica. “Money makes a hole in his pocket” poderia ser traduzido por “dinheiro na mão dele é vendaval”, mas a imagem física da frase original suportaria ser vertida diretamente. (Ressalva: o personagem estaria deixando de dizer um clichê banal, e dizendo uma frase aparentemente fora do comum.) “I put my foot in my mouth yesterday” é mais visual do que, e tão coloquial quanto, “rapaz, eu ontem paguei o maior mico”.

Expressões populares tipo provérbios, comparações, frases feitas, aforismos, usam muitas vezes de uma força imagética que tanto tem de vívida quanto de meio sem sentido. Falar de corda em casa de enforcado?  Cor de burro quando foge?  Contar com o ovo no cu da galinha?  Pegar ar (=irritar-se)? E quando a gente traduz expressões estrangeiras, elas têm expressões de função equivalente em português, mas usando imagens completamente diversas. E algumas dessas frases, traduzidas com aquela literalidade de Millôr Fernandes em The Cow Went to the Swamp, ficam muito engraçadas, porque ninguém as diz assim em português. 

Muitas vezes a gente precisa traduzir “drunk as a lord” por “bêbado como um gambá”, mas “bêbado como um lorde” passaria imagem diferente, um contexto diferente; passaria uma ironia diferente, e como tal seria uma frase com luz literária própria. Outras não transporiam tão bem; mas quando alguma frase transpõe, o resultado literário pode ficar interessante. Se um sueco traduzir “Fulano pegou ar” para o idioma sueco conseguindo transmitir a idéia de algo inflável que vai inchando até estar bufando e a ponto de explodir... Se ele traduzir assim, pode ficar mais interessante do que a expressão equivalente lá deles.


quarta-feira, 26 de março de 2014

3456) Ferrovia subterrânea (26.3.2014)


“The Underground Railroad” foi uma organização clandestina criada nos EUA para facilitar a fuga de escravos.  Era uma série de endereços ao longo de uma linha, como uma linha de metrô onde em cada “estação” era possível esconder-se, descansar, alimentar-se, etc., mas o trajeto entre uma e outra geralmente era feito pelos fugitivos na base do “cruze os dedos e seja o que Deus quiser”.  Há um bom livro que reúne histórias de escravos e abolicionistas: Forbidden Fruit – Love Stories from the Underground Railroad de Betty DeRamus (New York, Atria, 2005).  De pouso em pouso, os escravos fujões se afastavam cada vez mais, indo rumo ao Norte, já que a maior parte da mão-de-obra escrava vivia no Sul.

Não sei se houve algo parecido aqui no Brasil, mas Joaquim Nabuco em Minha Formação (1900) faz referências às atividades abolicionistas de André Rebouças. No capítulo 21 de seu livro, Nabuco transcreve um itinerário redigido por Rebouças para a fuga de escravos paulistas rumo ao Ceará:

“Caminho de Ferro Subterrâneo do Alto São Francisco ao Ceará Livre. Estação inicial: São Paulo, junto ao túmulo de Luís Gama. Segunda estação: Pirassununga.  Terceira estação: Cachoeira de Mogi-Guaçu.  Quarta estação: Em pleno sertão, com rumo de Nordeste; o Sol deve amanhecer à direita e cair, à tarde, à esquerda.  Quinta estação: Piunhi, nascente do rio São Francisco, acompanhando sempre o belo rio, abundante de peixes e de frutos deliciosos.  Sexta estação: De um lado Goiás livre; do outro o sertão da Bahia, onde não há capitães-do-mato.  Sétima estação: Na Vila da Barra, onde começam as grandes cachoeiras do São Francisco.  Oitava estação: No varadouro das águas do São Francisco, para as do Parnaíba. Nona estação: no Paraíso – no Ceará Livre.”

Nabuco avalia esse texto de Rebouças como “pura fantasia, mas tão cheio para todos nós de vestígios de sua originalidade, de toques de sua generosa sensibilidade, quase impessoal”. 

Foi por acaso que descobri esse “exército das sombras” protegendo os negros dos EUA. Joguei “underground railroad” no Google para fazer uma pesca de livros de FC que usassem essa imagem. Por que?  Por causa do romance de Emilia de Freitas A Rainha do Ignoto (1899), descrevendo uma ilha no litoral do Ceará, onde se chega por um trem subterrâneo, num reino só de mulheres. O livro tem influências feministas e abolicionistas.  Na época em que a autora cearense escreveu, a expressão devia circular na imprensa abolicionista da época, e o que fez ela?  Recriou fisicamente essa expressão que antes era meramente metafórica.  No livro dela, entra-se numa gruta, pega-se o trem subterrâneo, chega-se à ilha.


terça-feira, 25 de março de 2014

3455) Escrever em 360 graus (25.3.2014)




(ilustração: "Random Access", Gilbert Gorsky, 1998)


Um professor nos disse uma vez: 

“Imagine toda a cena que quer escrever. Não somente o que vai ser de fato escrito, mas tudo o mais que há em volta. Faça o que for escrito refletir esse em-volta, que ficou apenas subentendido”.  

Isso era numa oficina, se bem me lembro em torno da cena de uma discussão ou briga dentro de um bar. Dois personagens numa mesa começam uma altercação, insultam-se, berram, agarram-se, e ficam brigando durante uma página inteira.  A pergunta do professor era: o bar estava vazio? Ninguém por perto? Ninguém se meteu?  Ninguém reclamou do barulho?  Ninguém olhou? Cadê as reações das pessoas em volta?

Era isso que Raymond Chandler tentava mostrar quando comparava o romance policial “hardboiled”, que ele ajudou a aperfeiçoar, com os romances policiais ingleses dos anos 1920. Nos livros norte-americanos, dizia ele, “há uma impressão maior de cenário, como se a mansão de Cheesecake Manor existisse de fato, e não apenas a parte mostrada pela câmara.”  

Este último detalhe mostra a ironia dele com o artificialismo de Hollywood, pois num filme, para mostrar uma discussão como aquela do bar, nem sempre é preciso construir o bar inteiro, basta construir as partes que a câmara vai enquadrar.  

Mas o escritor (até porque trabalha “a custo zero”) tem a obrigação de imaginar cada cena em 360 graus, não necessariamente para mostrar, mas para convencer o leitor de que o que não foi mostrado também existe.

Geralmente nos satisfazemos com a primeira idéia, quando é boa, e deixamos de ir em busca da segunda, que seria ainda melhor.  

Quando Billy Wilder estava fazendo Five Graves to Cairo, o ator/diretor Erich von Stroheim (um daqueles carecas durões tipo Vin Diesel) interpretava o marechal alemão Rommell, “a Raposa do Deserto”. O maquiador foi lhe aplicar um bronzeamento no rosto, para indicar que ele estava exposto ao sol africano. Stroheim avisou: “Deixe branco da testa pra cima, para todo mundo ver que eu estava de quépi”.

Stroheim, aliás, é o mesmo cara que ao dirigir um filme na época do cinema mudo exigiu que a campainha da casa (do cenário) funcionasse de verdade. Alguém ironizou: “O público vai escutar?”  E ele: “Não, mas o ator que está dentro da casa vai, e é diferente a reação de alguém ouvindo uma campainha de verdade e se virando, e a de alguém que meramente recebeu instruções para se virar”. 

Mesmos em livros profissionais, de autores consagrados, vê-se o tempo todo cenas que ocorrem em lugares públicos mas parecem ter ocorrido dentro de uma bolha, ou de um aquário, como se só os personagens da cena fossem reais e o resto fosse uma projeção de “chroma key” ao fundo.



domingo, 23 de março de 2014

3454) Distrito Vermelho (23.3.2014)



Dioclécio (nome de fantasia para efeito do presente texto) me confidenciou isto durante um litro de Ballantine’s e um pato-ao-maracujá, no terraço do “Silverado”, uma palhoça à beira-mar onde um publicitário bem sucedido pode beber a sós com um escritor desempregado. O comercial deles concorria a um prêmio, na Europa. A agência bancou a ida dele e da esposa ao festival. Dois dias antes, a caçula dele teve uma pneumonia. A esposa, heroicamente, ofereceu-se para ficar, e ele iria buscar o prêmio dele.  Lá vai Dioclécio, sozinho, fora do Brasil pela primeira vez, para Amsterdam.

“Bebi menos e extrapolei menos do que planejei no voo de ida,” explicou ele. Para a maioria dos homens casados, a mera sensação de não estar sendo vigiado produz uma resposta eufórica de tal magnitude que se basta a si mesma.  As esposas deveriam relaxar e ver a novela. O máximo que 53,7% deles ousarão é ficar bêbados a sós num quarto de hotel.

Na primeira brecha lá vai Dioclécio para o Red Light District. “Fui ver as atrações típicas,” defendeu-se ele, “vi até o Museu Van Gogh!...”  Era uma madrugada de inverno dezembral, mortífero, matador. “Foi engraçado,” disse ele, “vi que ela era brasileira porque dançava legal, e tinha uma camisa da Seleção Brasileira na vitrine. Achei que lá dentro podia evitar o frio, que era de deixar o rosto da gente dormente, paralisado, meu Deus, que coisa.”

Um minuto depois Dioclécio estava dentro da cabine e tentava explicar à mulher que na verdade não pretendia manter relações com ela, ooops, mas sendo assim, ok, calma, tudo bem, claro, na boa, mas agora, agora que podemos respirar, será que ela sabe o quanto está sendo explorada? E ela lhe diz: “Conterrâneo, bem se vê que você nunca teve que dar pra não passar fome. Isso aqui é bom demais. Garantia estatal, fiscalização sanitária, pagamento garantido, e, vou te contar, aqui aparecem mais nerds deslumbrados do que serial-killers com problemas. Nunca trabalhei tanto, daqui a pouco vou ter que botar meia-sola, porque a demanda é impressionante. Volte pro Brasil e dê lembrança à ordem e ao progresso.”

Vejam como é bom frequentar o Primeiro Mundo! Dioclécio pegou o prêmio e voltou para casa, um novo homem, para viver uma nova vida. “É engraçado,” disse-me ele, “resolvi largar meu emprego justamente na hora em que aquela garota me deu de bandeja a melhor das desculpas para ele...”  Comprou um lugar na Serra, perto de uma cachoeira, começou a fabricar pão, a dar aulas de violão, e a família me parece muito feliz desde então; inclusive nunca mais a menina teve pneumonia.  Então de alguma maneira deve ter sido uma mudança positiva.