quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
3432) Entrevista (26.2.2014)
PERGUNTA – Sr. Braulio, o momento atual da literatura envolve impasses que, ao que parece, não estão sendo resolvidos de maneira satisfatória nem pela crítica, que, presa a critérios estabelecidos, demonstra pouca maleabilidade para acompanhar o fôlego criativo dos novos autores, nem pelos próprios autores, que apesar da garra e da adrenalina características das novas gerações tendem a perder de vista o específico literário e a dissipar suas energias em atividades extra-página, por assim dizer, tais como incontáveis sessões de autógrafos, palestras, aparições em talk-show da TV, participações em festas literárias e bienais do livro, realização de oficinas, manutenção de websaites, divulgação nas redes sociais, e todo um conjunto de práticas menos voltadas para a criação literária do que para a divulgação dos resultados dessa mesma criação. Para alguns, trata-se de uma tática de sobrevivência em que a literatura, sempre encurralada nas fatias mais estreitas da divisão do mercado, procura adotar para si uma postura mais agressiva através da ênfase em táticas da publicidade e da propaganda, o que traz a mente a filosofia de trabalho de alguns filmes de Hollywood, que destinam 100 milhões de dólares para a feitura do filme e 150 milhões para a sua divulgação. Ora, isso acaba criando um aparente impasse entre duas funções paralelas com que qualquer escritor em qualquer época sempre se defrontou, a necessidade de produzir livros e a de divulgá-los, sabendo-se que qualquer uma delas estará sempre subtraindo da outra tempo, esforço e energia. O que se coloca diante dos autores, no entanto, parece ser algo mais complexo do que a mera organização do tempo de trabalho, porque salta aos olhos o fato de que escritores mais afeitos às tarefas propagandísticas do que ao fazer literário parecem estar colhendo frutos mais substanciais do que aqueles que não se sentem muito à vontade em aparições públicas diante de platéias e de câmeras, seja por timidez, seja pela fadiga resultante dos incessantes compromissos, viagens, idas e vindas, etc., seja até por uma compreensível irritação diante da expectativa, que parece também ser típica dos leitores de hoje, de que um escritor seja também uma espécie de showman ou de garoto-propaganda de si mesmo. O senhor acha que, neste contexto, caberia aos autores em geral uma atenção maior ao desenvolvimento da própria escrita, a fim de que a literatura não venha a se tornar, como parece estar ocorrendo em outras atividades como o próprio jornalismo, um território dominado pelos mais fluentes, os mais extrovertidos, os mais semelhantes aos atores de cinema e de televisão? RESPOSTA – Sim.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
3431) Estação Botafogo (25.2.2014)
O
Cineclube Estação Botafogo (sinto muito, só sei chamá-lo assim) está ameaçado
de fechar, por dívidas e outros problemas.
Ele foi no Rio de Janeiro, nos anos 1980, o que a Cinemateca do MAM
tinha sido quinze anos antes. Multidões superlotavam aquela calçada estreita
para rever Blade Runner numa época em que ele não estava acessível na
torneira de cada computador. Íamos todos atraídos pelos mesmos filmes, filmes
imprevisíveis que imantavam pessoas afins. Foi saindo de uma sessão de Billy
Liar de John Schlesinger que encontrei com Homero de Carvalho (hoje na
Fiocruz) e o poeta/publicitário Ulisses Tavares, meu “primo”, e pude fazer esta
apresentação histórica: “Homero, este é Ulisses. Ulisses, este é Homero”; e
fomos tomar cerveja.
Nos
distantes anos 1980 não havia a atual proliferação de bares dali até a Praia de
Botafogo, e os poucos balcões disponíveis eram tão disputados quanto as últimas
poltronas nas sessões de despedida (quando uma cópia em celulóide cujo
certificado de censura estava para vencer era exibida pela última vez antes de
ser incinerada. O mundo já foi mais absurdo.)
O
Estação, contudo, não é apenas a memória afetiva de todos nós. Era para mim,
recém-chegado ao Rio, a revelação de uma realidade empresarial que jamais teria
passado pela minha cabeça. Coincidiu com
outras iniciativas da rapaziada carioca que fizeram um sucesso estrondoso, tais
como o Circo Voador e o Planeta Diário, todos decolando quase ao mesmo tempo.
Era possível fazer sucesso e ganhar dinheiro fazendo o que cada um gostava, e
atraindo um público capaz de gostar também e de entender tudo.
O
Estação precisa sobreviver. O mercado
precisa dele, precisa de grupos capazes de criar os sucessos do futuro, e não
apenas de realimentar os blockbusters que já chegam pagos lá de fora. Foram as
sessões no Estação que fizeram Down by Law de Jim Jarmusch ser batizado em
português Daunbailò, porque os fãs não admitiam outro nome. E senti ali a força que um movimento de fãs,
intenso, diversificado, pode exercer num mercado onde se aposta somente no que
é “tiro certo”. Não penso apenas no
passado distante; onde mais eu teria podido ver They Live e Holy Motors em
2013, senão ali?
domingo, 23 de fevereiro de 2014
3430) Histórias de espiões (23.2.2014)
O romance de espionagem teve seu “boom” a partir dos anos 1960, auge da Guerra Fria, mas já vem de longe. Se brincar, remonta até a Baronesa de Orczy e suas aventuras do “Pimpinela Escarlate” ajudando nobres a fugirem da guilhotina durante a Revolução Francesa. Muitos escritores ilustres não apenas escreveram romances de espionagem, como também trabalharam como espiões para a Inglaterra – foi o caso de Somerset Maugham na I Guerra Mundial e de Graham Greene na segunda.
É
de Maugham o romance Ashenden – o Agente Secreto (1928), na verdade um
“fix-up” – conjunto de narrativas unificadas mediante um personagem, tema ou
ambientação. (O livro serviu de base
para o filme homônimo de Hitchcock.) O protagonista é um escritor convocado
para ajudar o Serviço Secreto britânico na Europa durante a Guerra. Suas
missões incluem vigiar pessoas, facilitar contatos, mas também ajudar na
execução de um ou outro agente inimigo. Não é uma leitura para os fãs de Ian
Fleming ou de John Le Carré, que turbinaram a dramaticidade do gênero em termos
de suspense, intensa movimentação, enredos intrincados como armações de xadrez.
Maugham se baseou em suas experiências, e o livro tem aquele teor meio vago e
inconcluso dos acontecimentos da vida real.
Quem
foi grande fã do livro foi Raymond Chandler, para quem (em 1949) o romance de
Maugham estava “muito à frente de qualquer outra história de espionagem já
escrita”, e chegou a pedir ao seu editor inglês uma cópia autografada (e
conseguiu). Disse ele: “É como se houvesse o tempo inteiro algo vago e sinistro
por trás das cortinas. Na maioria dos outros livros, você apenas tem medo do
cara com um revólver.”
Além
do jogo político-ideológico, sempre tenso e interessante, o romance de
espionagem, melhor do que qualquer outro, explora essa sensação imprecisa de
perigos invisíveis, intenções duplas ou triplas por trás de cada ação, dúvida
constante sobre cada personagem. Em Ashenden, a espionagem é o reino do
mistério constante, onde o agente segue as instruções sem saber ao certo para
que servem, ou o quê, precisamente, está em jogo.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
3429) O que não vou ver (22.2.2014)
Peguei um táxi em João Pessoa e fui conversando com o motorista. O celular tocou, ele cortou a ligação, e começamos a falar sobre a utilidade dos celulares. Daí a pouco estávamos imaginando como seriam os celulares do futuro. E nesse momento Zé Antonio, ou Zeca (como ele é mais conhecido) falou: “Quer saber de uma coisa? Todo mundo tem saudade do tempo antigo, do que já passou. Pois eu não. Eu tenho saudade do que eu não vou ver.” E eu entendi na hora, porque é exatamente isso que eu sinto às vezes: a nostalgia de saber que depois da minha morte o avanço da ciência vai continuar, novas descobertas e invenções vão surgir, coisas interessantes vão pipocar por todos os lados, diariamente, e eu não vou estar aqui para arregalar os olhos feito um menino e dizer: “Eita!”
A
saudade é uma sensação de perda (como dizia Pinto do Monteiro – “saudade só é
saudade quando morre a esperança”), e não é só o passado irrecuperável que a
gente perde, é também o futuro inatingível. E ninguém pode nos proibir de
chamar “saudade” a essa angústia pela perda de um futuro que, por definição,
vai nos sobreviver. É uma saudade antecipada que brota em quem gosta da vida,
quem acompanha as coisas do mundo – seja os campeonatos de futebol, os filmes que
ganham o Oscar, as eleições, as conquistas espaciais, os novos livros, as novas
músicas... Que infinidade de coisas boas eu não vou perder, somente porque não
estarei mais aqui?
Numa
coluna de anos atrás (aqui: http://bit.ly/1gAye5F) sobre o Tempo,
propus uma definição pessoal: “O Passado é tudo aquilo que ocorreu antes do meu
nascimento. O Presente é tudo que começou a ocorrer desde então. E o Futuro é
tudo que irá ocorrer após o instante da minha morte.” Nosso Tempo de vida é um presente contínuo
(pois a única realidade que de fato experimentamos é o presente, o
aqui-e-agora), inundado de referências do passado e de expectativas pelo
futuro. Quando temos saudade da infância
temos saudade de um “passado presente”, pois somos capazes de lembrar dele
agora. E quando pensamos no que vamos fazer no ano que vem, é um “futuro
presente”, que já nos alegra com suas coisas boas ou já nos influencia com seus
problemas.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
3428) A Vida e os Tempos de Mauricinho Caô (21.2.2014)
Cap. 1 – De como Mauricinho Caô nasceu de 7 meses em berço de ouro, e foi criado como príncipe-de-gales até os 7 anos, na mansão de seu pai, dono de uma indústria de semáforos, em Vila Mariana.
Cap. 2 – De como as incompetências governamentais e a condição de
capitalismo periférico em um país subdesenvolvido (segundo o pai dele)
conduziram a família à ruína, ao desespero, e a uma casa de um só andar e
apenas quatro quartos em Vila Madalena.
Cap. 3 – De como a “nova vida, mais realista” (segundo a mãe dele) teve
influência direta no cardápio, no mobiliário e no figurino de todos da família,
menos no de Mauricinho, que, sendo o caçula, continuou sendo tratado a
pão-de-ló pelos pais e pelas três irmãs mais velhas e eternamente solteiras.
Cap.
4 – De como o destino dele foi determinado quando conheceu seu primeiro motel
aos 22 anos, ao lado da filha de um deputado, que tinha 38 e era mais fatal do
que um Smith & Wesson.
Cap. 5 – De como Mauricinho esteve à altura desse
combate e nos anos seguintes não fez outra coisa senão voltar a travá-lo, com
socialites de variada estirpe, até virar assessor em Brasília com belo salário,
verba de representação e ajuda-de-custo/moradia.
Cap. 6 – De como alguém teve a infeliz idéia
de conseguir para Mauricinho uma vaga de assessor diplomático de embaixada,
logo onde, no Afeganistão.
Cap.
7 – Dos primeiros doze meses que Mauricinho passou naquele inferno de sol,
poeira e novas experiências olfativas.
Cap. 8 – De como Mauricinho foi raptado sem querer por extremistas talibãs
, que nada queriam com ele, queriam apenas a van em cujo portamalas ele se
escondeu ao começar o tiroteio durante a
travessia do deserto de Kalamashiri.
Cap. 9 – De como, descoberto, Mauricinho pediu pelo amor de Alá que não
o matassem, e jurou fé no Alcorão com tamanho fervor que os hirsutos e
maltrapilhos guerrilheiros se entreolharam, se comoveram, e o cobriram de
beijos de solidariedade islâmica.
Cap.
10 – De como a chegada de Mauricinho coincidiu com uma complicada conjunção
lunar e sideral que prometia algo como um messias (segundo algumas versões) ou
farta colheita de papoulas (segundo outras).
Cap. 11 – De como Mauricinho deixou a barba crescer, visitou Meca,
aprendeu a usar armamento pesado, impressionou os talibãs com seu conhecimento
de Geografia, reuniu um exército de dez mil homens e invadiu o Paquistão, onde
foi fragorosamente derrotado, conduzido a Guantánamo, interrogado, e, sabe Deus
como, perdoado no ato, condecorado pelo presidente Obama, e retornou ao Brasil
como representante de uma firma de escuta eletrônica sediada, logo onde, em
Vila Mariana.
3427) Autores meticulosos (20.2.2014)
(manuscrito de Kafka)
Li na adolescência uma frase de Kafka que volta e meia recordo. Era mais ou menos assim: “Escrever é trabalhoso. Quando consigo colocar uma palavra no papel, não tenho senão esta, e tudo recomeça.”
Para autores assim, como o próprio Kafka, Raymond Chandler, Georges Perec, escrever é como levantar um muro. Tem que fabricar um tijolo. Colocá-lo no lugar. Depois fabricar o tijolo seguinte. E por aí vai.
É o contrário da impressão que eu tenho de certos autores (Nelson Rodrigues, Henry Miller, Jack Kerouac, Chesterton, Walter Gibson que escrevia a série The Shadow) para os quais escrever é sinônimo de abrir uma torneira: já está tudo pronto para ser escrito, o único trabalho é controlar o fluxo.
De um lado
da rua, moram os autores meticulosos cuja escrita é um avanço penoso mas
seguro, onde a cada dia de trabalho são produzidas algumas linhas, mas pelo
menos se supõe que serão definitivas.
Na calçada oposta moram os autores fluentes, caudalosos, que redigem dezenas de páginas num dia de atividade veloz e ininterrupta. Estes – descontando-se, sempre, os que visam apenas a quantidade sem qualidade – parecem ter um mecanismo automático de escolha que faz sua prosa fluir sem maiores considerações caso-a-caso. Quase como se, tendo descoberto uma maneira original, espontânea e variada de dizer o que pretendem, eles já a tivessem automatizado a ponto de produzi-la sempre que necessário, sem muita reflexão.
Na calçada oposta moram os autores fluentes, caudalosos, que redigem dezenas de páginas num dia de atividade veloz e ininterrupta. Estes – descontando-se, sempre, os que visam apenas a quantidade sem qualidade – parecem ter um mecanismo automático de escolha que faz sua prosa fluir sem maiores considerações caso-a-caso. Quase como se, tendo descoberto uma maneira original, espontânea e variada de dizer o que pretendem, eles já a tivessem automatizado a ponto de produzi-la sempre que necessário, sem muita reflexão.
Robert
Silverberg (autor de Uma pequena morte, Crônicas de Majipoor) conta que
teve duas fases distintas em sua carreira. Na primeira foi de uma produtividade
recorde:
“Eu escrevia com espantosa rapidez, vendendo quinze histórias em junho de 1956, vinte no mês seguinte, catorze (incluindo uma serialização em três partes) no outro mês.”
Tempos depois, ele dizia: “Tornei-me como os outros mortais, e tenho que redigir duas, ou três, ou às vezes dez versões de cada página antes de poder fazer a datilografia final.”
“Eu escrevia com espantosa rapidez, vendendo quinze histórias em junho de 1956, vinte no mês seguinte, catorze (incluindo uma serialização em três partes) no outro mês.”
Tempos depois, ele dizia: “Tornei-me como os outros mortais, e tenho que redigir duas, ou três, ou às vezes dez versões de cada página antes de poder fazer a datilografia final.”
A autoconsciência do autor que recebe o upgrade de uma pulp fiction para uma New Wave paga o preço de uma teorização filosófica para cada frase. Por que este plano e não outro?, perguntava Jean-Luc Godard, brechtianamente, estancando o fluxo do delírio e mandando os diretores pensarem. Por que esta palavra? pergunta Kafka.
E depois de longas assembléias com seus heterônimos ele concorda que a palavra é mesmo aquela. Escreve-a no papel. E tudo recomeça.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
3426) Lima Barreto: ser doutor (19.2.2014)
Tempos atrás houve um bafafá num edifício residencial do Rio porque um morador, que era juiz ou advogado, discutiu com um empregado do prédio por algum motivo, e se irritou quando o rapaz o chamou de “Seu Fulano” em vez de “Doutor Fulano”.
O caso foi parar na polícia, na imprensa e nos tribunais, onde finalmente surgiu uma sentença afirmando que ninguém era obrigado a chamá-lo de doutor somente porque ele tinha curso superior. (Há um certo consenso de que “doutor” não é quem é advogado ou médico: é quem tem doutorado, e fim de papo.)
Nesse
titulozinho se esconde, por um lado, a empáfia dos bem-nascidos a quem sempre
se destinou o ensino superior no país, e, por outro, a ânsia de ascensão social
dos humilhados e ofendidos que acham que um anel no dedo e um diploma na parede
irão branquear sua pele e europeizar seu sobrenome.
Ninguém exprimiu com mais ironia essa sofrida ilusão do que Lima Barreto (ele também mulato e pobre) em Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), quando o personagem prepara sua ida para o Rio de Janeiro, onde pensa ter garantido um emprego e a possibilidade de custear seus estudos.
Diz Isaías, no capítulo 1:
Ninguém exprimiu com mais ironia essa sofrida ilusão do que Lima Barreto (ele também mulato e pobre) em Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), quando o personagem prepara sua ida para o Rio de Janeiro, onde pensa ter garantido um emprego e a possibilidade de custear seus estudos.
Diz Isaías, no capítulo 1:
“Ah!
Seria doutor! Resgataria o pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria
o suplício premente, cruciante e onímodo de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda a gente. Seguro do
respeito à minha majestade de homem, andaria com ela mais firme pela vida em
fora. Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar, dizer bem alto
os pensamentos que se estorciam no meu cérebro. (...) Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título,
tinha poderes e alcances múltiplos, vários, polifórmicos... (...) De posse
dele, as gotas de chuva afastar-se-iam transidas do meu corpo, não se animariam
a tocar-me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor dos raios
solares escolheria os mais meigos para me aquecer, e gastaria os fortes, os
inexoráveis, com o comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado, de anel
no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado e grosso, como um sapo antes de ferir a
martelada à beira do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor, como passou? Como está,
doutor?”
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
3425) O entretenimento (18.2.2014)
O entretenimento é aquela parte da cultura (“cultura” entendida aqui como “qualquer sinal da presença humana no planeta”) que nada questiona, nada exige: só quer dar prazer. É uma atividade legítima, mas pode se tornar tão viciante quanto esses tiragostos químicos tipo Cheetos, Pringle, Ruffles, etc.: coquetéis de estimulantes do paladar, concebidos para gerar um consumo compulsivo.
Qualquer entretenimento é cultura, e qualquer atividade
cultural pode servir de entretenimento. A música, p. ex., vem servindo como
entretenimento “gratuito” através de shows em praça pública, mediante cachês
astronômicos. Se uma prefeitura paga 300
mil reais por um show não vai ter verba para apoiar folguedos populares,
realizar festivais de curta-metragem (o “cinema que não dá lucro”), patrocinar
mostras de teatro, realizar concursos literários, etc. O tal entretenimento
vira um câncer da cultura, crescendo descontroladamente e ameaçando o resto.
Ele se expande porque essa é a natureza de qualquer indústria de grande retorno
financeiro. No caso dos governos, o retorno é eleitoral: divirta o povo e ganhe
o seu voto; faça o povo pensar e você tem um problema em mãos. Sempre foi
assim.
Não sou contra o entretenimento. Ele é a beirinha de
cultura que resta aos exaustos, aos esgotados, aos embrutecidos por um dia
inteiro de trabalho estafante e sem sentido, sem falar nas horas intermináveis
de ida e volta nos trens desconfortáveis e nos ônibus repletos. Se eu passasse
o dia assim, quando chegasse em casa de noite não ia querer ler um romance
difícil. Ia desabar na frente da TV, que ainda é a forma mais simples de coma
induzido.
O entretenimento, porém, se esgota em si mesmo, não deixa
nada além do alívio momentâneo que produz. Passado o alívio, retornam os
problemas de sempre, e continuamos sem saber como encará-los. Existe, porém,
uma cultura que encara esses problemas. Para ser apreciada, ela requer a
mobilização plena do nosso espírito, da nossa inteligência, da nossa empatia,
da nossa emoção, da nossa capacidade de levar a vida a sério e questionar as
coisas.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
3424) Os começos de Lovecraft (16.2.2014)
(Ilustração: Abigail Larson)
A gente fala de vez em quando sobre “como começar um conto”
(ou um romance), sempre de acordo com aquela idéia de que é preciso fisgar o
leitor desde o início, impedir que ele pule adiante e vá ler outra coisa.
É um conselho que se encontra em muitos manuais respeitáveis de escrita, com exemplos ilustres que volta e meia estou citando aqui; mas para mim é um típico recurso da pulp fiction, da ficção popular voltada para fatos insólitos e adrenalina turbinada.
H. P. Lovecraft, o criador dos Mitos de Cthulhu, tem alguns exemplos bem típicos, recordados neste pequeno apanhado de D. T. Wynne (http://bit.ly/LIH3yY) sobre algumas aberturas famosas dos seus contos.
É um conselho que se encontra em muitos manuais respeitáveis de escrita, com exemplos ilustres que volta e meia estou citando aqui; mas para mim é um típico recurso da pulp fiction, da ficção popular voltada para fatos insólitos e adrenalina turbinada.
H. P. Lovecraft, o criador dos Mitos de Cthulhu, tem alguns exemplos bem típicos, recordados neste pequeno apanhado de D. T. Wynne (http://bit.ly/LIH3yY) sobre algumas aberturas famosas dos seus contos.
Lovecraft começa “O Horror de Dunwich” (1929) dizendo:
“Quando um viajante que cruza a parte central de Massachusetts toma o caminho errado na encruzilhada da estrada de Aylesbury, pouco depois de Dean’s Corners, ele penetra numa região deserta e intrigante.”
O conceito essencial da história é que o viajante mergulha no desconhecido sem o perceber, meramente por ter escolhido o lado errado numa bifurcação. A obscuridade do destino é ressaltada pela precisão geográfica das coordenadas. Tudo é conhecido mapeado, tudo está sob controle, mas... se o cara pegar o desvio errado...
O começo de “The Descendant” (1938) é um dos mais
impactantes que conheço:
“Em Londres existe um homem que grita todas as vezes em que tocam os sinos das catedrais”.
Mais uma vez o horror e o estranho vêm grudados como sanguessugas a um conceito relativo à ordem (os sinos das igrejas funcionam como relógio, como veículo de mensagens, etc.), trazendo ainda por cima a conotação religiosa.
Um dos seus contos mais famosos, “O Chamado de Cthulhu”
(1928) começa com uma de suas frases clássicas de desdém pela Razão:
“A coisa mais misericordiosa do mundo, creio eu, é o fato de a mente humana ser incapaz de correlacionar tudo quanto ela contém.”
Para Lovecraft, vivemos num mundo absurdo e maligno, mas felizmente não o percebemos – porque só temos olhos para os fatozinhos banais da nossa vida diária.
“Estávamos sentados sobre um arruinado túmulo do século 17, ao fim da tarde de um dia de outono no velho cemitério da cidade de Arkham, e estávamos especulando sobre o Inominável”.
Aqui está, mais do que o terror, o espírito antiquado e seiscentista do autor, e a revelação de seu temperamento. Ele era alguém que, num fim de tarde dourado e tranquilo, sentava-se ao lado de um amigo para remexer nas entranhas do Universo, e descobrir a fonte primordial do Estranho, do Bizarro, do Inesperado.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
3423) A testemunha (15.2.2014)
Tive um pesadelo terrível. Eu vinha por uma rua tranquila, e dois carros bateram num cruzamento. Um deles arrancou um samboque do paralamas do outro, mas o motorista manobrou, aprumou o carro e fugiu. A motorista do outro desceu, nervosa. Pegou a bolsa e tirou o celular para ligar. Nisso um rapaz arrebatou-lhe a bolsa e saiu correndo. Algumas pessoas o perseguiram, mas ele subiu numa árvore, pulou um muro, acabou fugindo. Eu me vi minutos depois numa delegacia, como testemunha.
Policial: “O senhor viu o acidente e o furto?”. Eu: “Sim,
senhor.” Ele: “Como foi?” Eu: “Ela ia na
preferencial, mas o outro carro avançou, bateu no dela e fugiu.” Ele: “Que carro era?”. Eu: “Um carro cinzento, esse
cinza-prateado.” Ele: “Qual era a
marca?”. Eu: “Não sei.” Ele: “Era de duas ou de 4 portas?” Eu: “Não sei.” Ele: “Nacional ou importado?” Eu: “Não sei.” Ele: “Tá bom, como era a aparência do carro,
o formato dele?” Eu: “Era um desses
carros novos, desenho elegante, carro de passeio mesmo.” Ele: “E as rodas, como eram?”. Eu: “Tipo redondas, com pneus.” Ele: “Quem vinha dirigindo, homem ou
mulher?” Eu: “Não olhei.” Ele: “Reparou na placa?”. Eu: “Não.” Ele: “Tá bom. Viu o assaltante roubar a
bolsa?” Eu: “Sim.” Ele: “Que tipo de bolsa era?” Eu: “Bolsa de mulher”. Ele: “Sim, mas que estilo? Era uma dessas
Louis Vuitton, ou bolsa comum?” Eu: “Não
sei bem. Pode ter sido uma Louis Vuitton comum.” Ele: “Por onde o assaltante fugiu?” Eu: “Subiu numa árvore e pulou para dentro de
um muro.” Ele: “Naquela calçada tem uma
mangueira e um flamboiã. Cada uma dá
para um quintal diferente. Em qual das duas ele subiu?” Eu: “Não sei, são iguais.” Ele: “O senhor não sabe a diferença entre uma
mangueira e um flamboiã?” Eu: “Não
senhor.” Ele: “Então dane-se, pode acordar.” Acordei.
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