sábado, 23 de novembro de 2013

3351) "Os Amantes da Ponte Nova" (23.11.2013)




Vi este filme (Os amantes da Pont Neuf, de Leos Carax, com Juliette Binoche) sem muita expectativa a não ser o fato de que Holy Motors, do mesmo diretor, foi talvez o melhor filme que vi no ano passado, e um dos mais desconcertantes dos últimos tempos. Os amantes... é de 1991 e conta a história de um casal de jovens sem-teto em Paris, que dormem na Pont Neuf, que está passando por uma reforma estrutural. Fechada ao trânsito, a ponte se torna algo tão isolado quanto um terreno baldio; como o forte do filme não é o realismo naturalista, não vemos um operário sequer trabalhando nos reparos. A ponte vive deserta, sem pedestres, sem interferências, e ali os personagens vivem sua vidinha: o junkie Alex, todo ralado, pé no gesso, muleta, cicatrizes de drogado pelo corpo inteiro, engolindo fogo na praça para sobreviver; Michelle, pintora que está ficando cega e rompeu com a família; e Hans, um velho que largou tudo para viver na rua com a esposa alcoólatra e agora, viúvo, acostumou-se àquilo.

É um filme menos surreal e mais linear do que Holy Motors, e acabou sendo o filme francês mais caro da época, porque o diretor teve que reconstruir cenograficamente a Ponte e os prédios em volta do rio. Durante todo o filme, Paris é um mero conjunto de figurantes passando ao fundo, meio fora de foco. O foco é todo nos sem-teto. O espaço onde Alex e Michelle vivem seus desencontros é uma espécie de ilha-da-fantasia; é patético quando, anos depois, eles marcam encontro na ponte, no inverno, e veem aquele local ocupado por carros, transeuntes, neve, como se tudo aquilo tivesse invadido o quarto de dormir dos dois.

Carax gosta de sequências longas, vagamente encaixadas na narrativa, que lhe permitem brincar com a câmara, a montagem e os atores, como numa sequência de fogos de artifício no céu, um passeio de lancha + esqui, e depois um longo plano dos dois correndo nus numa praia. O filme tem aquela sintaxe não-explicativa em que uma cena intrigante corta para algo completamente diferente como se nada tivesse acontecido. Os personagens são trancados, misteriosos, ressentidos, de modo que qualquer ação insólita que praticam (são muitas) parece natural, pois não sabíamos direito o que esperar deles. O diretor usa bem o recurso de eliminar todos os sons ambientes, com exceção de um (ou da música) para dar uma impressão de irrealidade, de alucinação. A vida dos moradores de rua mostra o tempo inteiro aspectos de sordidez e de liberdade, sem os clichês da crítica social, e só com uma ou outra escorregada num lirismo e num melodrama que lembram os filmes de Chaplin.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

3350) Clássicos da Zahar (22.11.2013)






Estou me devendo há algum tempo um comentário sobre a coleção Clássicos Zahar, que essa Editora vem lançando há algum tempo. São títulos que a gente pode chamar de clássicos populares – aqueles autores que hoje ocupam um lugar mais ou menos respeitável nas Histórias da Literatura, e que ao mesmo tempo produzem livros fáceis de ler, bem escritos, histórias interessantes contadas de um jeito envolvente. Livros que foram para minha geração o que Harry Potter e O Senhor dos Anéis têm sido para os mais jovens.

São todos livros em domínio público (autores falecidos há mais de 70 anos, de um modo geral). Isso significa que a editora economiza os 10% de direitos autorais que se paga sobre o preço de capa. Algumas editoras aproveitam isso para aumentar sua margem de lucro. Outras reinvestem isso, ou parte disso, em traduções caprichadas, prefácio e introduções, notas críticas e comentários ao texto, reprodução de ilustrações da edição original.

É mais ou menos o que tem feito a Zahar, numa série de clássicos em capa dura, como O Corcunda de Notre Dame de Victor Hugo (tradução, apresentação e notas de Jorge Bastos, ilustrações da edição original) ou O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas, com tradução (vencedora do Prêmio Jabuti) de André Telles e Rodrigo Lacerda, uma edição de bolso com 1.663 páginas. Os mesmos tradutores verteram (e comentaram) A Mulher da Gargantilha de Veludo e outras histórias de terror, também de Dumas.

Já falei nesta coluna sobre as aventuras de Sherlock Holmes editadas e comentadas por Leslie Klinger; as notas são copiosas e, embora alguns críticos as considerem supérfluas ao texto em si, valem como uma profusão de janelas hipertextuais sobre a Inglaterra, sobre Conan Doyle, sobre a Ciência, a História e a Geografia da época. Na minha pilha de leitura está aqui do lado O Lobo do Mar de Jack London, que nunca li, e que tem tradução de Daniel Galera, apresentação de Joca Reiners Terron, notas e glossário de Bruno Costa.

O que é um clássico? Arrisco-me a dizer que é um livro que se torna mais novo e mais rico a cada reedição, porque a soma total do que tem a oferecer nunca se esgota. Um livro que se expande ao ser visto e comentado por sucessivas gerações de estudiosos. A edição de O Mágico de Oz de L. Frank Baum tem tradução de Sérgio Flaksman, apresentação de Martin Gardner, prefácio de Gustavo Franco, notas de Juliana Romeiro, ilustrações originais. Cada edição assim é única, é o texto clássico emoldurado pelas ressonâncias que produz naquele país, naquela época. Se daqui a um século algum livro meu for tratado assim, nem vou sentir falta dos direitos autorais.


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

3349) Os cordéis de Pepys (21.11.2013)






Quando o inglês Samuel Pepys (1633-1703) faleceu, deixou uma imensa e bem cuidada biblioteca de mais de 3 mil volumes, uma das maiores de seu tempo (a coleção está hoje em Magdalene College, Cambridge). 

No meio daquilo tudo, inclusive raríssimas primeiras edições da época, havia uma coleção de mais de 1.800 baladas populares (letras de canções impressas de um só lado, em papel barato, como também se usou no Nordeste) e 115 folhetos de cordel (chamados “chapbooks” na Inglaterra). 

Pepys foi membro do Parlamento e Secretário Naval da Inglaterra; era um homem culto e influente. E tinha curiosidade pelo fervilhar cultural de seu tempo, inclusive a chamada literatura popular, além de admirar as soluções gráficas desses folhetos e baladas. 

Os 115 “chapbooks” colecionados por ele foram alvo de uma antologia organizada por Roger Thompson (Samuel Pepys’ Penny Merriments, New York, Columbia University Press, 1977)

Os chapbooks de Pepys são livros pequenos, em torno de 8,5 por 14 cm, enquanto nosso cordel mede cerca de 11 por 16. As ilustrações são em xilogravura; na Inglaterra, espalhadas ao longo do livrinho, enquanto que no Nordeste há uma só, na capa. E os chapbooks ingleses eram geralmente em prosa, enquanto quase a totalidade do cordel brasileiro é em verso.

Thomas divide a coleção de Pepys em oito temas. 

1) “História”, incluindo eventos históricos, lendas, vidas de personagens como Henrique VIII ou Robin Hood. 

2) “Mágica”: textos sobre crendices populares, quiromancia, astrologia, previsões do futuro, personagens como o Pequeno Polegar (Tom Thumb) ou o Dr. Fausto.  

3) “Crítica social”: condenando o alcoolismo, a vadiagem, a mendicância, o uso errado da terra, a usura, o falso moralismo.  

4) “Namoro”: regras de conduta e etiqueta para os namorados, e conselhos para o casamento e a administração do lar. 

5) “Gracejos e piadas”, semelhantes às nossas coletâneas de anedotas em almanaques e revistinhas.  

6) “Guias práticos”, com instruções culinárias, farmacêuticas e para outros tipos de necessidade cotidiana. 

7) “Histórias de malandros”, que têm um apelo universal e são, ao seu modo, precursores dos nossos cordéis sobre Pedro Malazarte, Cancão de Fogo, etc. 

8) “Relações conjugais e extra-conjugais”, histórias maliciosas de adultérios, traições, situações equívocas, numa linguagem cheia de duplos sentidos, ou claramente de encontro aos padrões de moral da época.

Havia cordel (ou “romanceiro popular”) na Inglaterra, na França, na Espanha, em Portugal, em todo canto. É o encontro entre as histórias simples da memória coletiva e a impressão barata de um livrinho cujo preço, uma moedinha, até os pobres podem pagar.












quarta-feira, 20 de novembro de 2013

3348) Crimes da ciência (20.11.2013)





(Ming)



A Ciência é admirável e terrível. Algo como um espetáculo que nos atrai, do qual não conseguimos afastar os olhos, mas se chegarmos muito perto corremos o risco de ser destruídos. 

Ela se baseia na busca de fatos e de constantes (as chamadas “leis da natureza”) objetivas, que existem no mundo. “Objetivos” quer dizer coisas que existem fora da nossa consciência, algo que não depende de nossa consciência para existir. 

Como dizia Philip K. Dick, "realidade" são todas as coisas que não desaparecem quando a gente deixa de acreditar na existência delas.

Nessa busca do que é objetivo, do que é coletivo, geral, universal, as ciências precisam muitas vezes considerar secundário todo indivíduo, todo caso isolado, toda pessoa. 

O que buscam, em princípio (tenhamos sempre cuidado com as generalizações – cada ciência tem métodos e objetivos diferentes), é o que há em comum entre todos os indivíduos. Nessa busca de constantes universais, os indivíduos às vezes saem perdendo.

Foi o caso que a imprensa noticiou assim: “Cientistas Matam Acidentalmente o Animal Mais Velho do Mundo”

Era um molusco oceânico descoberto perto da Islândia em 2006. Os cientistas calculam a idade deles contando os anéis em sua concha, por dentro e por fora. A avaliação era de que o molusco tinha 507 anos quando foi descoberto, mas a contagem era imprecisa. Para chegar ao número certo, seria preciso abrir a concha e olhar dentro. 

Foi o que eles fizeram, certamente tomando o máximo de cuidado. Nem sempre o máximo é o bastante, e durante o processo o bicho morreu. 

O que lembra aquela piada, em que o doente diz: “Doutor, o que é que eu tenho?”, e o médico: “Fique tranquilo, saberemos na autópsia”.

Temos o direito de sacrificar um ser vivo só para saber com “certeza científica” a idade que ele tem? Os cientistas provavelmente não teriam feito o que fizeram se tivessem certeza de que isso mataria Ming (até nome o molusco recebeu!). 

Não é o mesmo caso daquele lenhador norte-americano que meteu a motosserra numa árvore (há poucos anos) para ver que idade tinha, e descobriu que era A Árvore Mais Velha do Mundo. Neste caso, os anéis internos do tronco não poderiam ser cortados sem matar a árvore; no do molusco, acho que os cientistas tinham alguma chance de poupar o espécime.

É, amigos, a vida é frágil. Como disse G. K. Chesterton em Orthodoxy

“Dê uma pancada num vidro, e ele não durará um instante; deixe-o em paz, e ele vai durar mil anos. (...) A felicidade depende de não fazermos algo que podemos fazer a qualquer instante, e que, muitas vezes, não é muito claro para nós que não devemos fazê-lo.” 

Quando sabemos, é tarde demais.










terça-feira, 19 de novembro de 2013

3347) Erros de tradutores (19.11.2013)




Volta à imprensa e às redes sociais a discussão sobre erros de tradutores, em função de alguns livros recentes. Como passo 4 ou 5 horas por dia amarrando esse tipo de pingo dágua, me conforta perceber que não sou o único que erra, que erros podem ser perdoados, e que o mundo não se acaba quando a gente paga um mico.

Cito um post no Facebook da tradutora Denise Bottmann, figura exigente e respeitada na profissão: “A gente erra: seja o erro de ler errado, por distração, seja o erro de não saber direito o sentido e trocar alhos por bugalhos, seja o erro qualquer erro, errado em suma. Nenhum leitor deveria, sugestão minha, esperar uma plena reconstituição / restituição / recriação etc. do original, claro, mas tampouco esperar algo prístino, imaculado, impecável. A gente erra. Não de vez em quando, uma vez a cada morte de papa. Não, erra sempre, o tempo todo, seja aquela coisa mais crassa, idiota mesmo, seja aquela distração imperdoável, seja aquela simplificação grosseira ou qualquer outra coisa”.


Entre os resenhadores da imprensa, virou um hábito escolher o pior erro do tradutor para denunciar em público. (Poucas vezes vejo um resenhador abrir um parágrafo só para destacar um grande acerto, uma solução feliz encontrada pelo tradutor.) O desprestígio da profissão conduz a um círculo vicioso. Os erros se multiplicam graças à presença de centenas de pessoas mal preparadas, verdes, que traduzem porque precisam de dinheiro ou porque “moraram dois anos nos EUA e sabem inglês”. Alguns desses até poderiam virar bons tradutores, com o tempo, mas foram ridicularizados num caderno literário e desistiram. (Conheço casos.)

Um tradutor não é uma pessoa “que sabe inglês” (ou o que for). É um escritor. Quem não é escritor, jamais traduzirá. Escritor (tradutor) de literatura, de humanidades, de livros técnicos, de filosofia, de poesia: cada ofício destes exige talentos diferenciados. E sempre sabendo que o que estamos produzindo não é, nunca, um equivalente perfeito do original. A tradução é um jogo onde se perde o tempo todo, onde é proibido ganhar, e onde o teto possível é o empate.

O pior erro, aliás, não é nem quando a gente “come mosca” e não vê. É quando ocorrem certas coisas que somos incapazes de resolver de uma maneira melhor, e vão para a página assim, mancas, falhadas, porque não podemos deixar aquela linha em branco e não conseguimos encontrar (nem mesmo recorrendo aos amigos) uma solução satisfatória. O que fazer? Admitir o fracasso, assimilar a perda, respirar fundo e encarar o próximo parágrafo, com a esperança de que os próximos mil acertos insignificantes ajudem a curar aquela ferida, que é só nossa.


domingo, 17 de novembro de 2013

3346) Mistérios do Facebook (17.11.2013)






(by Eduardo Salles)



Uma das coisas mais fascinantes das redes sociais é o fato de que, quando temos um número grande de seguidores ou amigos, temos direito a vislumbres rapidíssimos e enigmáticos da vida de pessoas que conhecemos só superficialmente, ou que nem fazemos idéia de quem são. 

Parece uma lei-não-escrita dessas redes que cada um de nós é livre para postar o que bem entender; mas, devido ao excesso de exposição pública, é melhor não ser demasiado explícito. 

Vai daí que as redes sociais são um terreno fértil para a Insinuação, a Indireta, a Vagueza Proposital, a Alfinetada Sutil, a Cotovelada de Quem Não Está Mais Aqui, a Ameaça Pública Velada, o Queixume Com Destino Certo...

Você vai correndo a tela, olha aqui, olha acolá, e de repente se depara com alguém que posta: “Muita gente pensa que só quem cai pra baixo é a chuva, mas não perde por esperar!”. 

Como sou um cara meio paranóico, tudo que leio penso que é comigo, até as quadras de Nostradamus. Aí, verifico direitinho quem é a pessoa, peço ao Facebook para exibir nossa amizade, acabo me tranquilizando. Não é comigo. 

Mas quando retorno à página, um sujeito de má catadura acabou de postar: “De falsos intelectuais este Facebook está cheio, mas tudo bem, isso me dá motivos para gargalhadas, e faz bem à saúde!”. Recuo, desconcertado. Que mal fiz eu ao barbudo para ele me chamar de pseudo-intelectual? Meia hora para me auto-dissuadir, para me refazer.

Você se distrai com as postagens de uns e de outros, este aqui indicando um clip de erros de continuidade no cinemão blockbuster, outro mostrando um número ao vivo de Django Reinhardt, outro com a lista dos dez gols mais bonitos na votação da Fifa... O mundo vira um parque de diversões inofensivo, ou uma confeitaria onde as guloseimas são de graça e não empanturram. 

Mas de repente, surge aquela postagem lacônica de alguma senhora: “Uma certa pessoa deveria tirar o cavalinho da chuva pensando que está com a bola toda. Não está não, mas vai descobrir da pior maneira possível”. Meu dia desmorona. O que foi que eu fiz a essa postante? Nem reconheço o nome! 

Clico, verifico a foto, a verdade é que nunca a vi mais gorda, tenho até vontade de comentar seu post dizendo isso, mas se ela já está belicosa é capaz até de levar a mal.

O que me salva são os mistérios positivos. Uma moça posta: “Tiiinnn-tiiinnn... Gente, não caibo em mim (é caibo que se diz? Xapralá!), estou com uma novidade ma-ra-vi-lho-sa mas por motivos óbvios não posso tornar público ainda. # felizdavida”. 

Continuo sem saber quem é, o que será que lhe aconteceu; mas a luz alheia também nos ilumina, e por essa noite vou dormir feliz.








sábado, 16 de novembro de 2013

3345) Lord Byron's Night (16.11.2013)



(foto: Dani Barcellos)

Estive na 59a. Feira do Livro de Porto Alegre, para dois compromissos dentro do evento Tu Frankenstein, dedicado à literatura fantástica. O primeiro, um bate-papo com Duda Falcão e João Pedro Fleck, organizadores do evento, e os tradutores César Alcázar e Guilherme Braga. O outro, um desafio curioso. Como sabem os fãs da literatura de terror, em 1816 os poetas Lord Byron e Percy Shelley (este com sua noiva Mary) se encontraram na mansão do primeiro, às margens do Lago Genève (ou Lago Leman), na Suíça. Numa noite chuvosa, eles e mais alguns convidados propuseram uns aos outros o desafio de cada um escrever uma história de terror. Algum tempo depois, surgiram dois clássicos da literatura fantástica: O Vampiro, de John Polidori (um dos amigos presentes, e médico pessoal de Byron) e Frankenstein, ou o Moderno Prometeu de Mary Shelley.

O desafio gaúcho, chamado informalmente “Lord Byron’s Night”, consistiu em colocar 18 escritores para passar uma noite em claro dentro da Biblioteca Pública de Porto Alegre (que está fechada para restauração), sem poder sair, sem conexão de Internet, da noite do sábado até o amanhecer do domingo, com o compromisso de cada um entregar, no fim do prazo, um conto de terror. Temas e ambientação foram deixados a cargo de cada um; a única exigência era que a Biblioteca aparecesse, fosse como local da história (em parte ou no todo), ou por conter uma livro ou documento que iria desencadear o enredo, etc. No andar térreo, um bufê com sanduíches, salgados, refrigerantes, café e cerveja – para manter todo mundo inspirado e desperto.

A Biblioteca é mais antiga, mas o prédio atual, em reforma, é de 1922, e tem paredes, tetos e decoração extremamente interessantes. Iluminação indireta criava um ambiente soturno. O grupo de escritores incluía os argentinos Federico Andahazi (autor de O Anatomista) e Gustavo Nielsen, o francês Alexis Aubenque, os norte-americanos Sean Branney e Christopher Kastensmidt (este radicado no Brasil há 12 anos), e os brasileiros Felipe Guerra, João Pedro Fleck, Duda Falcão, Marcelo Amado, Celly Borges, Guilherme Braga, Cesar Alcázar, Carlos Patati, Bráulio Tavares, Simone Saueressig, Felipe Castilho, Max Mallmann e Carlos André Moreira. Os contos deverão ser reunidos numa antologia com lançamento previsto para a 60a. Feira, daqui a um ano.

Foi uma rara sensação passar a noite escrevendo, cercado pelo tlec-tlec de 17 notebooks, com pausas de hora em hora para um café e um bate-papo com os colegas, e produzir, das 21 horas às 3 da manhã, um conto de 3.200 palavras, num regime de total improviso (eu não sabia o que ia escrever até digitar a primeira frase).


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

3344) Viva Millôr! (15.11.2013)




(Quinho)



Millôr Fernandes foi escolhido como homenageado da Flip, Festa Literária de Paraty, um dos mais importantes eventos literários do país. E logo começaram os aplausos, de um lado, e os apupos, do outro. 

Vou logo avisando que estou do lado dos aplausos, e olha que eu participei de um abaixo-assinado defendendo a escolha de Lima Barreto para essa homenagem. Não deu Lima; deu Millôr. É justo?

Na rejeição de alguns a Millôr há uma defesa da “literatura propriamente dita” contra a sua contaminação por outras atividades. 

Entre nós, literatura significa romance, conto e poesia. Para ser grande escritor é preciso ter sido grande numa dessas três áreas. Tanto que aí estão os homenageados anteriores: romancistas/contistas (Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Amado, Machado de Assis, Graciliano Ramos), poetas (Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade. Carlos Drummond), com a ressalva de que alguns se destacaram também em outras áreas. 

Restam os casos do dramaturgo Nelson Rodrigues, mas este também foi um romancista de peso; e do sociólogo Gilberto Freyre, mas pode-se argumentar o impacto cultural e o brilho estilístico do que escreveu.

Millôr não foi romancista, nem contista, nem poeta. Foi autor de crônicas, epigramas, parábolas, anedotas, aforismos, versinhos de ocasião. Foi excelente tradutor, e dramaturgo de sucesso. Foi um dos nossos melhores artistas gráficos, mas isto “não é literatura”. 

Tinha opiniões claras (de muitas das quais discordo, aliás) e corajosas. Ganhou inimizades porque vivia alfinetando os balões da vaidade de muitos figurões e mostrando que eram feitos de 1% de plástico e 99% de vazio.

A grande contribuição de Millôr não foi na área da ficção nem da poesia, e sim na área da linguagem. Na área da fala-escrita, dos jeitos de dizer. Poucos manejaram a língua brasileira com a mesma versatilidade e habilidade dele. Como outros jornalistas, pegou uma língua pesadona, balofa, e deu-lhe leveza e graça de bailarina ou de craque de futebol. 

Foi um dos maiores fazedores de frases num país que é fértil nesse tipo de talento; e se alguém disser que frase não é literatura é porque pensou no assunto pela primeira vez neste momento.

Isto ele compartilha com Lima Barreto: a linguagem simples, direta e riquíssima. Sua originalidade vem da ousadia das idéias expressas em palavras simples. Millôr combateu a prosa enfatiotada e oca, o beletrismo oratório que levou antas e mais antas às Academias e aos manuais escolares. 

Combateu o Monstrengo Pomposo, aquela prosa “capaz de acrisolar no cadinho do vernáculo as emoções candentes que diuturnamente se estiolam na labuta do louvor às Musas...” Vôte.










quinta-feira, 14 de novembro de 2013

3343) Eu me lembro 3 (14.11.2013)




Eu me lembro que a música com que se apagavam as luzes e abriam as cortinas no Cine Avenida era o tema de Charada de Henry Mancini. 

Eu me lembro de ter visto um trote universitário com todo mundo sujo, rasgado, careca, portando cartazes falando em De Gaulle e em pesca de lagostas. 

Eu me lembro do restaurante Bolero, que eu olhava lá da rua e via os guardanapos de linho dobrados dentro dos copos, como se fossem lírios. 

Eu me lembro dos chapeados que carregavam balaios na feira, usando na cabeça uma rodilha de pano sobre um chapéu feito com o couro de uma bola de futebol.

Eu me lembro da manchete gigantesca na primeira página de um jornal: “Amanhã, Lunik revelará se há vida na Lua”. 

Eu me lembro da primeira vez em que eu guardei um chocolate no bolso da camisa da farda do colégio e ele derreteu. 

Eu me lembro das saladas-de-frutas com sorvete da Flórida, e de como a colher era de um metal mais pesado do que as de lá de casa. 

Eu me lembro do coro de “shhh, shhh” no cinema quando aparecia na tela o condor da Condor Filmes, que Aldir Blanc descreveu como “e o urubu sai voando...”.

Eu me lembro de Cauby Peixoto na sacada da Rádio Borborema, cantando “Conceição” a-capella para a multidão que não pôde entrar para vê-lo cantar no palco-auditório. 

Eu me lembro da sinuca Gato Preto, dos quadros nas paredes com páginas de revista mostrando fatos bizarros tipo “Ripley’s Believe it or Not”. 

Eu me lembro  do confeito Gasosa, redondo, cujo papel era azul e branco e tinha o desenho de taças de espumante. 

Eu me lembro de quando minha Tia Adiza me levou para ver um filme de Oscarito no Cine São José, e num dos trailers apareceu uma mulher nua!

Eu me lembro dos primeiros LPs em 33 rotações, e eu gostava porque dava para ler o título da música enquanto o rótulo girava. 

Eu me lembro que no Presidente Vargas quando faltavam uns dez minutos para o fim do jogo abriam-se os portões para a entrada de quem não podia pagar, e a gente chamava isso “a hora dos miseráveis”. 

Eu me lembro quando apareceram os primeiros cinzeiros de sala que ficavam sobre um saco de veludo cheio de areia. 

Eu me lembro da campanha para prefeito entre Severino Cabral e Newton Rique. (Ou “Pé de Chumbo” e “Mão de Seda” para os adversários). 

Eu me lembro de um casarão na Rua Vidal de Negreiros que em 1958 foi o Colégio das Lurdinas e em 1965 foi a sede e concentração do Treze. 

Eu me lembro das bolas de couro Drible, número 3, compradas a Fuba Véi na Casa Esporte; a número 5 era o tamanho profissional. 

Eu me lembro dos meninos descendo a rua Miguel Couto nos carrinhos de rolimã, e que quando vi a primeira foto de um kart achei uma coisa de ficção científica.







terça-feira, 12 de novembro de 2013

3342) Cinema Paralelo (13.11.2013)



(Shane Smith) 

A cada dia que passa eu acho a Rússia o país mais bizarro e mais interessante do mundo. Eu não moraria lá nem com uma bolsa milionária, mas o laboratório de situações terminais em que se tornou o antigo Império dos Czares e antiga União Soviética é um espetáculo fascinante para quem curte “o estranho, o bizarro, o inesperado”.

Vi o documentário Cinema Paralelo (http://bit.ly/PlUJ3I), com cerca de meia hora, sobre o cinema “underground” que floresceu no país nos anos finais da URSS, botou a cara pra fora meio timidamente nos anos Gorbachev, e agora sob a ditadura de Putin está retornando aos subterrâneos onde nasceu e se criou.

O Cinema Paralelo era um tipo de cinema propositalmente malfeito, “trash”, amalucado, surrealista, indecente, grosseiro. A certa altura do documentário de Shane Smith e Eddy Moretti, um entrevistado diz: “A Rússia tem uma arte ‘underground’ extraordinária, e uma arte oficial terrível.”  Boris Yukhananov, os irmãos Igor e Gleb Aleinikov (o primeiro, já falecido; o segundo, hoje diretor da segunda maior estação de TV do país) fizeram filmes chocantes, anárquicos, que Shane define assim: “Gente maluca fazendo filmes malucos baseados em teorias intelectuais ultra-radicais”.

Oleg Kulik é um artista performático que fez parte desse movimento (ele viajou pela Europa interpretando o papel de um cachorro: nu, puxado pela coleira por um assistente). Agora, fundou uma religião, da qual é o Messias: a Religião do Nada. Quem continua na ativa é Yvgeni Yufit, criador do “Necro-Realismo”. No período comunista, não era permitido mostrar a morte, mostrar bundas, mostrar infelicidade. Assim, Yvgeni decidiu colocar todas essas coisas nos seus filmes. Teve filmagens interrompidas, filmes apreendidos, mas de um modo geral ele e seus colegas eram considerados apenas idiotas e malucos.    

Um dos subgrupos mais interessantes é o Cinema Álcool, “Alcho-Cinema”. Segundo Andre Silvestrov, é “um projeto conceitual na fronteira entre arte, entretenimento e álcool”. Seu colega Pavel “Pasha” Liabazov sugere: “E sócio-arte”. Depois, Silvestrov completa: “É uma alternativa à pornografia do Ocidente.” Em que consiste o Cinema Álcool? Eles juntam numa sala um grupo de seis a dez pessoas (sempre homens, ao que parece) e essas pessoas começam a beber e conversar sobre tudo: política, arte, cinema... E não há câmera. Pelo menos no dia em que a equipe de Shane Smith registrou uma filmagem do Cinema Álcool, somente as câmeras dele próprio estavam presentes. Fica a impressão de que é algo na linha do Cinema Espiritual Paraibano dos anos 1960: o pessoal num bar, bebendo e descrevendo o filme que tem na cabeça.