sexta-feira, 1 de novembro de 2013

3332) "The Golden" (1.11.2013)




Não sou um grande leitor de histórias de vampiros e o grande romance de vampiros, para mim, sempre foi e continua a ser o Drácula de Bram Stoker (1897). Existem outros, por certo; mas agora tenho a certeza de que numa prateleira dos melhores deve existir espaço para The Golden (1993) de Lucius Shepard, que acabei de ler. Shepard é um autor que nunca me decepciona, embora dele eu só conhecesse contos, alguns deles memoráveis: “A Spanish Lesson” (1985; pessoas em férias numa praia da Espanha descobrem um portal para um mundo de pesadelo), “Bound for Glory” (1988; um trem fantasmagórico viajando pelo interior); “Only partly here” (2003; um operário no Ground Zero encontra fantasmas de vítimas das Torres Gêmeas); “Nomans Land” (1988; um náufrago numa ilha é envenenado por aranhas alucinógenas). Este último eu traduzi para a edição brasileira da Isaac Asimov Magazine.

The Golden transcorre durante cerca de três dias e noites alucinantes, por volta de 1860, num castelo da Europa, durante o encontro d’A Família, a dinastia de vampiros que domina o continente. A Família tem ramificações rivais e fervilha em política. O objetivo desse encontro é apresentar “the golden”, uma jovem cujo sangue foi purificado e cultivado durante gerações, para ser saboreado por uns poucos felizardos (o sangue é descrito no livro em termos muito próximos dos usados pelos enólogos para falar de vinhos). Na primeira noite, a “golden” é assassinada, e o protagonista, Michel Beheim, um vampiro que foi chefe de polícia em Paris, é encarregado da investigação.

É um romance de detetive, um romance de intrigas palacianas (porque os vampiros são todos aristocratas, sofisticados, ambiciosos, cruéis, “traíras”) e uma história de terror sobrenatural que extrai muito do seu impacto na descrição do Castelo Banat, uma construção gigantesca com quilômetros de altura e de extensão, e uma arquitetura interna que lembra os espaços fantásticos de Escher e Piranesi, além de castelos literários famosos como o Gormenghast (1946-59) de Mervyn Peake. A prosa de Shepard é consistentemente brilhante, rebuscada, exótica, colando-se ao tema e ao ambiente como uma pele. Seus personagens são sempre problemáticos, com caráter oscilante, sujeitos a vilezas e a decisões erradas, e sempre pagando caro o preço de seus vacilos. Shepard é um dos melhores autores da Fantasia Tenebrosa (“dark fantasy”) norte-americana; tem um universo moral próprio onde não faz muita diferença se o gênero é FC, terror ou fantasia. É um mundo sombrio, violento, de imaginação desmedida e insólita, que se torna mais real pelo vigor da sua prosa e pela crueza dos seus sentimentos.


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

3331) Ghost Watchers (31.10.2013)



“Ghost Watchers” é um clube criado em 1998 por um grupo de entusiastas do espíritismo. Não pertencem à religião espírita; são indivíduos que tratam a mediunidade, a vida após a morte e a comunicação com os espíritos de maneira científica, pragmática. 

Investem nas faculdades mediúnicas (que têm de nascença) com o auxílio de drogas legais, disciplinas, exercícios de atenção e de concentração. 

Ficam sensíveis à presença do ectoplasma, de cujas manifestações, dizem, o mundo está cheio, mas são tão irreais para nós quanto um arco-íris para um cego.

Existem reservas de espíritos em determinadas regiões, assim como reservas de pássaros em certas áreas no campo. Na noite em que entrevistei membros do grupo, eles estavam concentrados, passeando como se fossem turistas, no quadrilátero de quatro esquinas: o vetusto hotel, a praça confortável, o cinema outrora imenso, e uma fila de restaurantes lado a lado. 

Fizemos uma visita guiada. Meu favorito foi um menino com a camisa de um time de futebol (que nenhum de nós sabia qual era), fazendo proezas na faixa de pedestres enquanto os carros o trespassavam como a um holograma. Numa alameda lateral da praça vimos desfilar um casal, a mulher com um bebê vistoso ao colo, o homem com chapéu panamá e bengala de castão. Também registramos a presença de uma moça com a blusa aberta, o cabelo preso, rindo e falando num orelhão invisível, ou que talvez não existisse mais ali.

A ruela lateral do teatro é uma mina, porque para ali convergem, mecanizados pelo hábito ou atraídos pela concha repleta de calor humano, todos os vagabundos invisíveis que não entendem direito o que está se passando. 

Vi um exemplar de flashers, aqueles espectros que surgem de repente, tornam real uma cena incrivelmente vívida, e somem logo sem deixar rastros, consumida toda a energia que tinham. 

Vi um Ecto-penitente, que se gruda ao braço dos passantes e o acompanha desfiando seu rosário de penas, cuja depressividade a vítima acaba assimilando sem ter noção do que lhe acontece.

Na segunda noite (de um sábado para um domingo), vimos um número maior, porém menos nítido ou menos focado. Casais de namorados, grupos de amigos abraçados, cantando rua afora. Pessoas conversando baixinho durante horas. 

Explicaram-me que, ao contrário da crença popular, os fantasmas ficam revivendo seus momentos felizes, não vêm pedir nada, prantear nada. Vem visitar este mundo porque é aqui que deixaram gravadas suas lembranças. “É como se o mundo,” disse-me ele, “fosse o suporte onde estão aprisionadas as lembranças deles, e eles ficassem girando nelas, e assim se tornam eternos”.




quarta-feira, 30 de outubro de 2013

3330) Por que não deu certo? (30.10.2013)




(by Niki Feijen)


Até agora não entendo. 

Tudo era céu de brigadeiro e mar de almirante. Tudo fluía sem solavancos, tudo se encaixava com um clique sólido e controlado, e daí em diante era apenas seguir o manual, ir conforme o figurino, não inventar, fazer o feijão com arroz, tocar a bola no meio de campo e esperar que os mecanismos continuassem no tiquetaque reconfortante de tudo que se desenrola de acordo com o planejado. 

E era tão bom olhar o horizonte e imaginar mil horizontes de possibilidades, um leque de possibilidades felizes competindo entre si por nossa atenção.

Falta de esforço não foi. Não foi por falta de suor físico e de angústias mentais. Nem por falta de insônias,  naturais ou provocadas por agenciações químicas de toda ordem. 

Também não foi por falta de sono, esse eterno bom conselheiro, esse apaziguador de tormentas, só que no presente caso o solvente universal não funcionou e na manhã seguinte o enorme pedregulho continuava intacto e parecia até mais cheio de arestas. 

Tentou-se tudo, e de todo jeito. Não deu certo.

Quando as coisas não dão certo, até os mais encarniçados resolvedores-de-problemas precisam se conformar com o irremediável, precisam engolir o sapo, assimilar o golpe, administrar a dor, aceitar que de agora em diante o argueiro faz parte do olho e o tigre vai morar com a gente. 

E não deixa de ser divertido observar como um Himalaia de argumentos começa a ser transferido de lugar para re-equacionar a conjuntura, e o dicionário está cheio de rasuras e borrões pois as palavras estão mudando de significado.

É difícil ter paciência para enfrentar as intermináveis perguntas alheias, porque os sucessos nunca despertam tanta curiosidade quanto os fracassos; e quando se espalha a má nova de que uma empreitada qualquer deu com os burros nágua e a vaca no brejo, orelhas se empertigam em volta do mapa múndi, olhares se dirigem todos para a vítima indefesa ou para o réu sem fiança. 

Todos querem saber por que foi, como foi, como não foi, o quê que aconteceu, o que poderia ter sido feito e não foi, o que não deveria ter sido feito e acabou sendo. 

Nos olhos dos perguntadores brilha a ansiedade em recolher lições e aplicá-las em seu próprio futuro, e a cintilação maligna de quem, enquanto anota, vai pensando: “Tá vendo? Bem feito”. 

É duro quando não dá certo, chega a dar vontade de dizer que a alegria do possível êxito não compensa o risco da depressão pelo possível fracasso, mas quem somos nós para dar conselhos – porque se nosso conselho valesse de alguma coisa era justamente porque somos alguém capaz de fazer as coisas darem certo. E dessa vez – é pena! – não deu.



terça-feira, 29 de outubro de 2013

3329) Lou Reed (29.10.2013)



(foto: Lou Reed)

Vivemos celebrando roqueiros como Janis Joplin, Jimi Hendrix, Amy Winehouse, que viveram todos os seus 27 anos no fio da navalha. O que dizer de quem estendeu esse prazo até os 71?  Lou Reed foi no rock a cara de um decadentismo high-tech que juntava rock americano com vanguarda poética fin-de-siècle, uma cultura da dissipação, um hedonismo dark.  Ao mesmo tempo, pegou carona na estética da androginia e do livre-amorismo dos beatniks e dos hippies que o antecederam. Seu primeiro grande voo foi sob a asa do rei da vanguarda dândi, Andy Warhol, e seus últimos anos foram vividos ao lado de Laurie Anderson, uma performer-pop que podia fazer-lhe frente, com luz e estética próprias. 

Era um cantor limitado mas bastava-lhe cantar um minuto para o ouvinte entender que os critérios ali eram outros. Quando em “Walk on the Wild Side” ele diz: “and the colored girls say / doo doo dooo...” é como se a música ainda não estivesse pronta e ele a estivesse mostrando a um amigo, descrevendo o que elas fariam neste trecho. Há um livro de Philip K. Dick em que o cara para diante de uma barraca de refrigerantes e quando vai fazer o pedido a barraca desaparece e fica em seu lugar, no chão, um papel onde está escrito: “Barraca de Refrigerantes”. Lou Reed diz: “Aqui, as morenas fazem du-du-du...”

Um jornal de São Paulo registrou no saite, durante o domingo: “Morre o guitarrista Lou Reed”. É um pouco como dizer “morre o dançarino Renato Russo” ou “morre o pandeirista Ringo Starr”. Reed tem uma frase famosa, que diz mais ou menos: “Uma música com um acorde está ótima, com dois está tudo OK, com três a gente já está entrando no domínio do jazz”. Uma estética não muito diferente da de Erasmo Carlos, que dizia algo assim, “três acordes e deixa que eu me viro”.

Poeta de vários estilos mas sempre à vontade nos domínios do Beat, da cultura que tenta juntar esses dois extremos: excesso e refinamento. Tinha interfaces poéticas com Ginsberg, tinha algo da autodestruição contemplada de Bukovski. Tem algo do ascetismo tecno-gótico de William Gibson, mas com uma carga de erotismo que em Gibson se manifesta pouco. Nunca pareceu levar o rock excessivamente a sério, mas ao mesmo tempo levou-o o bastante para ficar rico com ele, e para que os que gostam de rock o reconhecessem como um dos seus.

Morreu após um transplante de fígado, aos 71 anos. Para quem se aplicou quase todo tipo de droga e de excesso que lhe foi acessível, é uma façanha comparável aos mais de 80 anos de William Burroughs. Um dia, a longevidade dos nossos roqueiros causará espanto e incredulidade num mundo futuro em que gente assim jamais ultrapassa os vinte e cinco.


domingo, 27 de outubro de 2013

3328) Uma tarde de domingo (27.10.2013)




Dona Valquíria abriu o forno, tocou na pizza com um garfo e calculou mais dois minutos. Fechou o forno e foi até a sala. Checou o relógio da parede e viu que faltavam cinco minutos para o maldito futebol. Seu Elói estava diante da TV: ajeitou as almofadas, depois colocou o controle remoto do lado direito, a lata de cerveja (ainda fechada) sobre a mesinha, começou a limpar os óculos da beira da camiseta. “Perdi a hora”, pensou ela, “era pra ter ligado o forno uma hora atrás, mas Vilminha me telefona logo hoje para dizer que o avô morreu”. (What kind of atmosphere do you think the author wants to create? What is the story going to be about? What kind of story might it be? What are the most important things you have noticed so far?) 

“Quem joga hoje, amor?” perguntou ela por mera diplomacia. “Adivinhe”, murmurou ele, olhos aparafusados na tela. Ela sentou no sofá, pousou a mão no joelho dele, olhou a tela disposta a participar. Tudo por um domingo sem tensões, pensou ela. Seu Elói abriu a Skol, a espuma espirrou, ele virou um gole e disse: “Toda a história da humanidade foi um preparativo para hoje à tarde. É hoje ou nunca. Ou a gente ganha ou eu vou enfartar.” (Have your expectations changed at all?  What words begin to increase the tension of the story?) 

Dona Valquíria sorriu e disse, “Ah, Elói, lá vem você com drama. É só um jogo.” Ele deu um gole, beijou o rosto dela e disse: “É o jogo da classificação, deixa eu ficar alegre antes, porque não sei como vou estar depois.” “Tudo seu é um drama”, disse ela retribuindo o beijo, e foi conferir o forno. (What do you think will happen now? Is there more tension now? What has caused it?) 

Ela trouxe dois pratinhos, com talheres, e duas fatias triangulares de pizza. “Calabresa,” pediu ele, de olhos na tela, onde a bola já rolava. Ela olhou a imagem, perguntou: “O jogo é aqui em Campina?”. Ele: “Não, é lá no chiqueiro deles”. “Vamos cruzar os dedos,” disse ela, mastigando e sinceramente torcendo para o Treze ganhasse. “Incrível,” pensou ela, “como os homens se deixam arrebatar por uma narrativa coletiva... Vou ver o jogo, e 2ª.feira faço algumas brincadeiras com meus alunos... Tem que haver uma ponte para atrair esses meninos de hoje para a Literatura Inglesa do Século XIX.  Quem sabe vendo futebol eu consigo entender melhor o elemento épico ou trágico em Joseph Conrad ou em Kipling?...” (What did you think of the last line? Is the ending hinted at earlier in the story in any way? Did you enjoy the story? Does the ending raise more issues, or close the argument? Is it a story you will remember? If so, what are the elements that make it memorable?)


sábado, 26 de outubro de 2013

3327) Hotel Glória (26.10.2013)




Faço tantas críticas ao capitalismo nesta coluna que em breve vou despertar a desconfiança do FBI, o qual rapidamente avisará a nossa Polícia Federal. Meia dúzia de agentes vestidos de Arquivo X irão se debruçar sobre as páginas do meu blog Mundo Fantasmo e, depois de uma noite insone cheia de café e cigarros, concluirão: “Ele simpatiza com o comunismo”. Certo e errado. É certo que simpatizo com esse nobre movimento. Mas é certo também que simpatizo com o Anarquismo, o Surrealismo, a Música Barroca, a Mecânica Quântica, a Poesia Concreta, a Pintura Abstrata, o Rock Progressivo e uma porção de outros movimentos que para mim são até mais importantes do que as idéias de Marx, Engels, Brecht, Maiakóvski e Chico B.

Reli o parágrafo anterior e percebo que já estou lá na esquina. Melhor voltar. Minhas críticas ao capitalismo não pretendem substituí-lo por outro sistema econômico, porque na minha idade acho que não me adaptaria. Sou capitalista, e, como certos peixes de água salgada, não sobreviveria em água doce. Mas até mesmo por compartilhar esse destino já sei que o capitalismo é um Titanic destinado ao plâncton submarino, e não ao porto de Nova York.

Irei direto ao ponto: o Hotel Glória, do Rio de Janeiro. É a mais recente vítima do bipolarismo capitalista num país indefeso como o nosso. Aqui, qualquer sujeito capaz de pedir um vinho de 2 mil dólares num jantar põe Governos, Ministérios e Congressos aos seus pés. Foi o caso do trêfego Eike Batista, que construiu um castelo de fumaça, um transatlântico de papel, uma pirâmide de gelo, e convenceu Deus e o mundo de que era um dos homens mais ricos do mundo. O mundo acreditou, e avalizou todos os seus projetos; Deus fez valer a voz da razão, e transformou tudo em cinza e debêntures.

O Hotel Glória, que visitei inúmeras vezes, era um dos edifícios mais nobres e interessantes do Rio de Janeiro. Eike, no auge da própria onda, incumbiu-se de reformá-lo para a (fatídica) Copa do Mundo. A revista Piauíde outubro registra: “Em 2010, o BNDES liberou 146,5 milhões de reais do fundo ProCopa e teve início a reforma misteriosa. (...) Detalhes do novo desenho só vieram a ser divulgados em abril de 2012, quando os custos da reforma já eram estimados em 300 milhões de reais. (...) O hotel (...) hoje está à venda por 225 milhões de reais (...). Do charmoso prédio neoclássico sobrou um gigantesco canteiro de obras em fase de desmanche”. Foi maldade? Não, porque o capitalismo não é necessariamente mau. O capitalismo – esse capitalismo de hoje, viciado em zeros e “ões” – é bêbado. Dinheiro é a mais viciante das drogas, e, pelo que se vê, a mais desorientadora de todas elas.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

3326) Memórias de um Mágico (25.10.2013)






“A mão é mais rápida do que o olho,” disse ele. Ergueu as mãos de dedos longos; mostrou as palmas, vazias, depois o dorso delas, com veias grossas e manchas marrons. Começou a encher o cachimbo, enquanto eu me servia de outra taça de vinho. Ele continuou: “Quando eu tinha nove anos, estava com minha família num restaurante de Marselha. Havia um copo vazio perto da borda da mesa, e ao gesticular eu bati nele com a mão, assim.”  Fez um gesto rápido, como de quem esbofeteia uma criança.  Soltou uma baforada e sorriu. “Peguei o copo antes que tocasse o chão. Ninguém queria acreditar no que tinha visto.”  Eu sorri e disse: “Foi verdade ou foi truque?”  “Verdade,” disse ele, “porque sempre fui rápido. Sabe por quê? Porque fazia antes de pensar. O olho via, a mão agia.  Esperar pelo cérebro seria fatal.”

Corri os olhos pelo salão com paredes cobertas de cartazes, onde o rosto e o nome dele apareciam numa variedade de cores, formas, fotos, desenhos, em mais línguas do que eu era capaz de decifrar. “Mas,” disse ele, “voltando ao que falamos há pouco, não há muita diferença entre tirar da cartola um coelho ou um pássaro. Os dois são difíceis. Sempre é difícil lidar com seres vivos. O resto... pufff!” Com a interjeição, tirou do fornilho aceso do cachimbo um filete de água cristalina, trouxe-o pendurado entre as pontas do indicador e do polegar, como uma fita, e o fez enrodilhar-se dentro de um copo vazio. Estendeu-me. Bebi sem hesitar. Era água limpa, fresca.

“Fogo, água, terra, ar, substâncias comuns ao nosso mundo como pano, papel, madeira ou metal... Tudo isto é fácil.” Ele cerrou os dedos, e ao abri-los tinha na palma da mão uma moeda de cobre com meu nome e meu rosto gravados. (É uma das lembranças dele que guardo até hoje.) “Pode publicar isto na sua revista,” continuou, “porque seus leitores o olharão como meu pai me olhou naquela noite”. Tossiu, deu um gole de vinho, voltou a fumar.

Prosseguiu: “Há pessoas capazes de ler pensamentos, de levitar, de mover coisas com a mente... Eu não. Eu produzo coisas que segundos atrás não existiam, mas tenho que usar uma cartola, um lenço colorido, um biombo – senão, ninguém acreditará no que está vendo.” Tirou da taça de vinho um rei de ouros gotejante, amassou-o, entregou-me uma chave idêntica à do meu carro. “Para fazer mágica, é preciso contar com a expectativa do público pela mentira, pelo truque. Se eles descobrissem que é tudo verdade, apedrejariam o mágico e incendiariam o teatro. É melhor que acreditem numa verdade mais confortável – por exemplo: que a mão é mais rápida do que o olho”. Estendeu-me a mão aberta: na palma dela um olho se abriu, e piscou para mim.


3325) Seu Nilo (24.10.2013)






Meu pai se gabava de ser capaz de passar 24 horas recitando de memória sonetos dele e de seus poetas preferidos (Olavo Bilac, Emilio de Menezes, Augusto dos Anjos) e inúmeros outros. 

Quando eu tinha 8 ou 10 anos, nas paredes da nossa casa havia, emoldurados, um retrato a carvão de Castro Alves, a reprodução de uma foto de Lampião, uma página de revista com uma foto de Bilac e o soneto “Dualismo” (que ainda sei de cor), uma foto de meu avô Braulio, que não cheguei a conhecer.

Tinha somente o curso secundário, foi tipógrafo, encadernador (ainda tenho livros encadernados por ele), funcionário público (foi chefe de gabinete de três reitores da URNe, atual UEPB), jornalista e radialista (na Rádio Borborema e Diário da Borborema, principalmente). 

Era organizadíssimo, “caxias”, muito severo com os funcionários, mas muito justo. Nos fins de semana, era um grande boêmio, bebia bastante, gostava de se cercar de gente alegre. 

Era desafinado e não cantava, mas o terraço da nossa casa vivia cheio de gente tocando violão e cantando; ele se limitava a acompanhar, batendo com uma faca numa garrafa. Gostava de fazer paródias de músicas conhecidas e em casa improvisava um soneto sobre qualquer bobagem que acontecia, o que divertia todo mundo.

Torcia pelo Sport do Recife (a cidade em que cresceu), pelo Flamengo, e pelo Treze; eu herdei essas três paixões. Temos fotos dele ao lado de Dida (do Flamengo) e de Telê (do Fluminense) quando esses times jogaram em Campina Grande. 

Colecionava revistas de futebol (Manchete Esportiva, Revista do Esporte, Gazeta Esportiva Ilustrada), encadernadas;  encadernou também tudo que conseguiu juntar sobre as Copas de 58 e 62. Esse material acabou se perdendo devido ao mofo, pois nossa casa no Alto Branco era muito úmida. 

Também colecionava dicionários, porque era charadista e enigmista, colaborador de muitas revistas Brasil afora sob o pseudônimo de Pequeno Polegar (era baixinho).

Não ligava muito para cinema. O único filme que o vi elogiar foi Ziegfield, o Criador de Estrelas, e seu ator preferido era Edward G. Robinson. 

Gostava de ler Coelho Neto, Humberto de Campos, Guerra Junqueiro, bem como folhetins (Ponson du Terrail, Michel Zevaco, Xavier de Montepin) e romances policiais tipo Shell Scott. 

Gostava de trabalhos manuais, de mexer com serrote, martelo, etc. Durante muitos anos teve um mimeógrafo no quarto dos fundos, com o qual ganhava a vida imprimindo boletins, quando estava desempregado. 

Eu me habituei a chamá-lo de “Seu Nilo” desde pequeno, e esse tratamento ficou para o resto da vida. Meu pai completaria hoje, 24 de outubro de 2013,  cem anos de idade. Agora, tomarei uma em sua memória. Tin-tin!







quarta-feira, 23 de outubro de 2013

3324) "Sanitário" (23.10.2013)




O que leva as pessoas a fazer revistas de quadrinhos? Não rende dinheiro (pelo menos não nos primeiros dez anos). Dá um trabalho enorme, é esnobado por alguns intelectuais, é ignorado pela imprensa... Bastariam estes sintomas para provar que as HQs são uma forma de arte pela arte, feita por gente que descobriu que 1) sabe fazer aquilo; e 2) gosta de fazer aquilo. E isto são condições necessárias e suficientes para fazê-lo.

Sanitário (revista HQ de Campina Grande – www.coletivowc.com.br) está cheia desse entusiasmo nos seus roteiristas e ilustradores. Humor, imaginação, uma dose do cinismo e da brutalidade que são “o Espírito do Tempo”, e com os quais temos de conviver, porque os tempos agora são assim. A revista lançou dois números temáticos: 1) “O Mundo Ainda não Acabou” e 2) “Grandes Monstros da Humanidade”. Alguns têm mais técnica; outros, têm idéias mais surpreendentes, mesmo que a técnica ainda seja na base da tentativa.

Em HQ, a idéia é essencial. A história tem que ter interesse, os personagens não podem ser apenas ilustrações do texto. Os diálogos têm que ser uma destilação e concentração do que seria dito, pra não perder tempo. Muitas vezes o cara tem isso, sabe fazer isso, mas não é um grande desenhista. A solução, ao meu ver, é transformar suas limitações em qualidades. Ao invés de tentar desenhar com A ou B, concentrar-se nas virtudes que tem (seja traço, seja enquadramento, seja textura, seja figurativismo bem resolvido... o que for).

No universo brasileiro da HQ, da tirinha, do cartum, existem grandes desenhistas, de técnica refinada: Laerte, Mike Deodato, Mutarelli, Shiko, Rafael Grampá, Fábio Moon & Gabriel Bá... Cada um desenha de um jeito totalmente diferente dos outros, mas todos tem o que em música a gente chama “domínio do instrumento”. Por outro lado, alguns dos melhores quadrinhistas atuais são pessoas que tecnicamente ninguém chamaria de grandes desenhistas: Bruno Maron, Alan Sieber, André Dahmer, além de mestres de uma geração anterior, como os falecidos Henfil e Glauco. Não têm “essas técnicas todas”, mas, por-cima-de-pau-e-pedra, cada um criou um estilo pessoal.

Estilo é a tensão entre o que a gente sabe fazer muito bem e o que a gente não consegue fazer de jeito nenhum. Um Henfil não tem a mesma técnica figurativa de um Laerte, mas isso não importa, porque ele é capaz de dizer tudo que quer usando aquilo que tem. Entre a rapaziada do Sanitário há quem domine a técnica “oficial”, há quem esteja inventando uma técnica própria, e há que esteja na encruzilhada entre as duas coisas. É a foto da nuvem, de um momento que não se repetirá, porque cada um irá numa direção diferente.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

3323) Eike Batista (22.10.2013)




Eike Batista é um personagem épico dos nossos tempos, e não digo isto com ironia, ou melhor, a ironia evidente da frase tem como vítima os tempos, e não o valoroso cavalheiro-de-indústria. Há pouco tempo ele era o sétimo homem mais rico do mundo, o mais rico da América Latina, e agora, pelo andar da carruagem, em 2015 vai estar me pedindo dinheiro emprestado.

A trajetória de Eike tem tudo a ver com os nossos tempos, os tempos de riqueza virtual, sem lastro físico na produção, um ouro feito de tinta, uma fortuna feita de zeros e cifrões em tal quantidade que hipnotizam avalistas e fiadores incautos. Já tivemos grandes empreendedores brasileiros, desde o Visconde de Mauá até Delmiro Gouveia, homens que quebraram a cabeça e deram a vida para fazer deste país uma grande potência de acordo com os critérios deles. Mas Eike talvez esteja sendo (sua epopéia está longe de ter se encerrado) o que mais de perto corresponde a uma faceta essencial do caráter brasileiro, aquela que sempre sonha com um passo mais largo que as pernas, aquela que sempre conta com o ovo no cu da galinha, aquela que comemora a vitória futebolística com a bola ainda rolando e o placar em aberto.

Em 2012 Eike tinha uma fortuna avaliada em 30 bilhões de dólares; quebras e fracassos sucessivos de suas empresas geraram um efeito dominó que reduziu essa fortuna a 200 milhões, em julho deste ano. No espaço de menos de um ano e meio, ele perdeu 99% do que tinha. E isto não significa apenas que ele tinha dinheiro e agora não tem mais. Grande parte do dinheiro dele tinha dono. Era de outras pessoas (acionistas, credores, emprestadores, etc.), e sua fortuna mudou de sinal, o “Deve” engoliu o “Haver” e ameaça engolir, como um black hole cósmico, o próprio aventureiro.

Eike parece aquele rapaz do conto “A nota de mil dólares”, sobre o qual já escrevi nesta coluna (aqui: http://bit.ly/1cEtmtA). Um rapaz acha na rua uma nota de mil dólares e, crendo-se rico, tem um surto de dinamismo e incendeia (no bom sentido) a economia da cidadezinha onde vive. Depois percebe que a nota era falsa, mas o bem já estava feito: a cidade agora está fervilhante de atividade. É o caso de Eike, coitado. No caso dele, não foi bem uma nota, foi algo como um cheque de mil dólares que ele preencheu, assinou, e foi passando adiante. Milhares de fiéis, entre eles o governador e o prefeito do Rio de Janeiro, ajoelharam-se diante desse talismã e abriram as carteiras. Voilà! – o cheque não tinha fundos. Mas – convenhamos – quando uma catástrofe acontece, que seja grande, que seja épica, que seja uma história para se contar aos netos. Eu já estou começando.