segunda-feira, 16 de setembro de 2013

3292) A crítica literária (15.9.2013)






Antonio Cândido já esboçou mais de uma vez a diferença entre o crítico literário acadêmico, que praticamente só lida com os nomes consagrados, e o crítico de jornal, que recebe os livros recém-lançados pelas editoras e tem apenas alguns dias para ler o texto e formar opinião a respeito. 

Essa crítica diária, enfrentando textos de autores novos e ainda desconhecidos, envolve o risco de quem salta no trapézio sem ter por baixo a rede de proteção.



Diz Cândido: 

“Não é fácil escrever todas as semanas sobre livros do dia, feitos muitas vezes por autores desconhecidos, a respeito dos quais não se tem a menor referência. Por isso digo que um crítico como Álvaro Lins, que acertava sempre e produzia artigos bem escritos, de grande densidade e destemor, enfrentava dificuldades maiores do que, por exemplo, Augusto Meyer, que escrevia não sobre o livro da semana, de autor frequentemente desconhecido, mas sobre Camões, Cervantes, Machado de Assis, Dostoiévski, Pirandello, Rimbaud.”  

Escrever sobre os clássicos é mais cômodo, mesmo quando o crítico traz uma visão nova, emite um juízo arriscado, ou se envolve numa polêmica. O clássico todo mundo já sabe do que se trata. É território ainda não totalmente desbravado, mas território conhecido.



O difícil é receber um livro de alguém sobre quem não se tem muita informação – um autor estreante, por exemplo – e se deparar com um texto inquietante, desconcertante, cheio de coisas novas e inesperadas que tanto podem refletir genialidade quanto maluquice. O risco de emitir uma opinião errada é grande. O crítico não sabe como aquele livro vai ser avaliado pelos seus colegas, ou pelo público. Precisa se manifestar. 

Ainda hoje são conhecidos os casos de críticos que num primeiro momento reduziram a pó a obra de Carlos Drummond ou de Guimarães Rosa, e que depois ou se retrataram ou se encarniçaram, por auto-defesa, nessa recusa teimosa.


“O jornalismo crítico é uma grande escola e, de certo modo, um teste importante, requerendo intuição certeira, rapidez de apreensão, capacidade de decidir e clareza de escrita,” diz Antonio Cândido, e continua: “Reconheço em mim um pouco dos requisitos mencionados, que me permitiram, por exemplo, reconhecer imediatamente o valor de três estreantes desconhecidos: João Cabral, Clarice Lispector, Guimarães Rosa. Cometi erros paralelos, dando importância a autores que não a tinham, supervalorizando livros fracos de autores famosos; mas não me lembro de nenhum erro calamitoso, isto é, considerar de primeira plana quem não era ou desqualificar alguém de alto nível. Mas talvez a memória esteja manobrando a meu favor…”






sábado, 14 de setembro de 2013

3291) "Riverão Sussuarana" (14.9.2013)




Viajando a Minas para participar do VI Festival Sagarana, tive um sobressalto quando a nossa van, num trecho estreito da estrada, sombreado de perto por folhagens, cruzou uma pontezinha e junto dela vi a placa discreta: 

Ribeirão Suçuarana. 

Não tinha como não lembrar imediatamente do único romance publicado por Glauber Rocha, que eu não sabia ter o seu título inspirado num lugar de verdade. 

Riverão Sussuarana saiu pela Record em 1978, e teve uma reedição em 2012 pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina. Foi mais um desses “romances experimentais” que explodem a linguagem narrativa, e eu o colocaria na mesma prateleira do Catatau de Paulo Leminski, Os morcegos estão comendo os mamãos maduros de Gramiro de Mattos, Me segura que eu vou dar um troço de Waly Salomão, etc. 

Livros fortemente marcados pela contracultura dos anos 1970, e por experiências com a linguagem que remetem tanto a James Joyce quanto aos autores “beat” norte-americanos (William Burroughs, Jack Kerouac, etc.).


Já o livro de Glauber remete a Guimarães Rosa; na verdade é uma extensa glosa aos temas do autor mineiro, que inclusive é personagem nos trechos iniciais. Glauber (narrando na primeira pessoa) e Rosa juntam-se à tropa que está tangendo uma boiada, e vão ao encontro de Riverão Sussuarana, cuja trajetória de vida ele descreve assim: 

“O pai do Riverão roubou o cavalo Joaquim dum cigano. Deu em fogo. Mataram o cigano e o pai de Riverão perdeu os ovos. Foi decapitado. Riverão criou-se pelo tio Ernesto Galvão que lhe cortou o dedo mindim. Lhe fez jurar vingança. Crescido Riverão foi discípulo de Peralva, um pistoleiro gaúcho. Entrou na Pensão Pedroza e matou os assassinos do pai. Preso, tocou fogo na cadeia e fugiu pra Bahya”.


O livro mistura pastiches bem feitos do Grande Sertão com as teorias conspiratórias e messiânicas de Glauber em seus últimos anos. Conforme era seu estilo na época, as letras K, W, Y e Z são usadas fartamente. Glauber escreve “Cachoeyraz”, “Tyradentes Kryszto”, “Komunysmo”, etc. 

Há trechos quase concretistas, outros que lembram roteiros de filme. 

Na página 214, surge do nada um parágrafo desconcertante: “A morte de minha irmã Anecy Rocha, no Marçabril carioca de 1977, arrebentou a estrutura de Riverão Sussuarana, e é o que acontece: várias páginas são dedicadas às discussões sobre a morte da atriz, que caiu no poço de um elevador. (Glauber inclui no livro dois contos escritos pela irmã.) 

Uma obra excêntrica, com lampejos da grande vigor literário aqui e ali, que precisa ser lida por quem se interessa por Glauber e por Guimarães Rosa.









sexta-feira, 13 de setembro de 2013

3290) Frederik Pohl (13.9.2013)








No dia do meu aniversário a ficção científica perdeu Frederik Pohl, aos 94 anos. Li poucos livros dele (que é um autor muito prolífico) mas talvez seja um dos que mais me influenciaram. Na adolescência li a tradução de Os Mercadores do Espaço, escrito em parceria com Cyril M. Kornbluth, uma das sátiras mais devastadoras do gênero. Um mundo futuro que é caótico, miserável, explorado, mas onde todo mundo é feliz, devido à publicidade. Ela convence a todos de que estão bem, mas tudo que é descrito horroriza o leitor ou lhe provoca gargalhadas sádicas. O livro acompanha as aventuras de um publicitário que cai em desgraça e é “apagado” da realidade (à maneira de Philip K. Dick). Acho que influenciou, logo cedo, minha desconfiança em relação a essa ilustre atividade profissional. (Um amigo me disse uma vez: “Se você entrasse para a publicidade ficaria rico”, e eu disse: “Prefiro morrer de frio embaixo dum viaduto”, o que ainda não é impossível que aconteça.)

O livro de Pohl que me conquistou foi sua autobiografia The Way the Future Was (1978). Pohl, nascido em 1919, tornou-se leitor e fã de FC muito cedo, e com menos de 20 anos já era tudo: autor, editor, agente. Ocupou todas as funções nesse mercado que cresceu junto com ele. Era de um otimismo cético como poucos, bem-humorado, crítico, tinha uma mentalidade atenta e pragmática que não o impedia de embarcar em projetos quixotescos que davam com os burros nágua e dos quais ele saía endividado e gargalhando. Não cheguei a ler alguns dos seus livros mais elogiados, como a série “Gateway”. Lembro sua vinda ao Brasil em 1990, com a esposa Elizabeth Anne Hull (que ele chamava “Bettyann”, aludindo ao livro de Kris Neville) e Charles N. Brown (editor da Locus). O CLFC-Rio organizou uma recepção no salão de festas onde morava Rubenildo Barros, na Praia Vermelha. Nessa noite ele autografou meu exemplar de The Way..., e Brown tirou minha foto com Gumercindo Dórea, publicando-a depois na Locus.

Pohl, voltando de um dia estafante em São Paulo, teve disposição para conversar comigo e com José Fernandes durante mais de uma hora, ao anoitecer, em seu hotel. Por algo que comentei ele me aconselhou a leitura de um conto de R. A. Lafferty, que eu nunca lera e desde então tornou-se um dos meus contistas preferidos. Sua esposa me filiou à SFRA (Science Fiction Research Association), da qual depois vieram a fazer parte Jesus de Paula Assis, Roberto Causo e (atualmente) Alfredo Suppia. Seu blog The way the future blogs é cheio de vívidas memórias pessoais e de comentários rápidos e certeiros sobre mercado editorial, literatura de FC e o futuro da humanidade.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

3289) Eu me lembro 2 (12.9.2013)




Eu me lembro dos chaveirinhos com uma imagem de linhas horizontais, que a gente mexia o chaveirinho e a imagem se movia. 

Eu me lembro de filmes intitulados “Tanganica, o inferno na selva”, “Ao sul de Sumatra”, “Curuçu, a besta do Amazonas”. 

Eu me lembro de vestir e calçar coisas com o nome de Topeka, Sete Vidas, Bamba, Samelo, Volta ao Mundo, BanLon. 

Eu me lembro de meu pai jogando no Presidente Vargas à noite, numa preliminar qualquer entre Gordos x Magros. 

Eu me lembro dos candeeiros do quarto de dormir, e da sensação de triunfo de quando me pediam para aumentar ou diminuir a chama, o que se conseguia girando uma rodinha de borda serrilhada. 

Eu me lembro das espirais Sentinela, que vinham duas a duas, encaixadas como um yin-yang, verdes, quebradiças, e do suportezinho metálico onde eram fixadas, e da espiral de cinzas partidas que deixavam no chão.  

Eu me lembro do gato que caiu dentro de um dos tonéis de água que havia em nosso quintal, e destruiu as unhas nas paredes internas tentando escapar, e não conseguiu. 

Eu me lembro de ficar parado olhando as mil variações de cores da fonte luminosa da praça, segurando a mão de minha mãe. 

Eu me lembro de um carrinho de empurrar que meu pai fez para mim aos oito anos com latas de goiabada como rodas, e que eu depois usei como bateria, empunhando duas colheres-de-pau da cozinha.

Eu me lembro do dia em que eu vi na estante de livros uma lagartixa morta, ressequida, presa embaixo de um livro sob o qual tentara passar e ficara presa, e o livro era a Bíblia. 

Eu me lembro da gemada com gema de ovo, açúcar e farinha. 

Eu me lembro da girafa em tamanho quase natural na calçada das Casas José Araújo, e lembro que sonhava em roubá-la para filmar o poema de Buñuel. 

Eu me lembro  do nosso conjunto “pé de palito” de móveis de sala, o sofá coberto de plástico azul, as poltronas amarela e laranja, e que o plástico do sofá se rasgou e minha mãe disse que foi porque eu ficava lendo e passando a unha no plástico até cortar, mas não foi.

Eu me lembro dos meninos andando de barco, num domingo de sol, nas águas do Açude Novo.  

Eu me lembro de que quando minha mãe chegou gritando que Jânio tinha renunciado eu estava lendo “A cidade submarina” de Conan Doyle.  

Eu me lembro dos picolés enrolados em papel, e de que eu não gostava do de rainha (castanha) porque os farelos se acumulavam na ponta. 

Eu me lembro de ficar olhando as meninas sendo barradas no colégio quando iam usando sutiã preto por baixo da blusa branca (não podia). 

Eu me lembro de ter usado sapatos de meu pai com enchimento de algodão no bico, porque meu pé era menor, e pedaços de papelão dentro, quando estavam furados na sola.






quarta-feira, 11 de setembro de 2013

3288) Você é o escritor? (11.9.2013)


(Dashiell Hammett)

Quando Dashiell Hammett, o autor de O Falcão Maltês, passou alguns meses preso, ficou amigo do funcionário que cuidava da biblioteca da cadeia. Hammett foi preso em 1951 por se recusar a testemunhar contra seus amigos comunistas (ele próprio era membro do Partido) durante a famosa “caça às bruxas” em Hollywood. Ele aproveitou para botar a leitura em dia, e leu obras como Jane Eyre de Charlotte Bronte, Almas Mortas de Gogol, Tess of the d’Urbervilles e Judas o Obscuro de Thomas Hardy, além de obras de Dostoiévski e Victor Hugo.

O rapaz da biblioteca tinha uma perplexidade: o fato de que os livros de Hammett estavam ali na estante, e o autor estava preso na própria cadeia! Alguma coisa não batia. Era o escritor que não podia ser preso, ou o preso que não podia ser escritor? Hammett achava graça: “Já ouviu falar em André Gide? Ele disse que eu sou um escritor comparável a Balzac”.

Jorge Luís Borges trabalhou durante nove anos numa biblioteca municipal de Buenos Aires, um desses empregos públicos modestos e levemente humilhantes onde os escritores tantas vezes se refugiam. Procurava evitar a convivência muito estreita com os outros funcionários, cujas conversas só giravam em torno de “corridas de cavalos, partidas de futebol e estórias obscenas.” Diz ele que certa vez um colega, folheando uma enciclopédia, achou na seção de literatura o nome de um tal Jorge Luís Borges e chamou-lhe a atenção para a coincidência: “Olhe só!... Até a data de nascimento dele é igual à sua!”. Para o bibliotecário, uma coincidência naquele nível de detalhe era algo mais provável do que aquele sujeito tímido, meio apalermado, ser alguém importante.

O nome nas enciclopédias ou a obra nas estantes parecem não ter nada a ver com as pessoas a que pertencem. Não há muito em comum entre o best-seller adaptado em Hollywood e aquele homem magro, com dentadura postiça, de 57 anos, que passa os dias lendo e olhando os retratos da netinha. O nome na enciclopédia, é claro, não pode se referir àquele funcionário míope, distraído, que passa as intermináveis horas do expediente lendo a obra de Gibbon, de Faulkner, de Virginia Woolf. Existe uma lógica intuitiva nesse tipo de visão, no ato de distinguir entre o homem que escreveu os livros e o homem que está vivendo a vida. Mais do que se imagina, são dois homens diferentes. O homem que escreve é um acesso temporário de concentração, energia, lucidez, paciência e fúria que acomete aquele indivíduo manso. É o “daemon”, que o ser humano pode receber de vez em quando, mas não poderia hospedar 24 horas por dia, sob pena de arder de repente, consumir-se na fogueira da combustão espontânea.


terça-feira, 10 de setembro de 2013

3287) Festival Sagarana (10.9.2013)




No aeroporto de Brasília entra-se na van e pega-se a estrada na direção oeste. Daí a meia hora já se está em território de Goiás, seguindo pela GO-346 e mais adiante em território mineiro pela MG-479. Os últimos 20 minutos são feitos numa estrada de terra marrom-avermelhada (a cor que sempre associei ao título do livro de J. G. Rosa). Ultrapassa-se uma ponte de madeira, depois outra, atravessa-se Uruana de Minas, a “Cidade das Cachoeiras”. Sagarana é um pequeno distrito do município de Arinos, um assentamento de pessoas beneficiadas pela reforma agrária do Incra, que estão ali desde 1970. Uma daquelas pontes de madeira que atravessamos fica sobre o rio Urucuia, o das “águas vemelhas”, tão presente nas histórias de Guimarães Rosa.

O Festival Sagarana existe há seis anos, e envolve discussões de interesse local (meio ambiente, educação, etc.) e espetáculos variados de dia e de noite. Nos dois dias que passei lá, vi shows de violeiros como Pereira da Viola, Chico Lobo e o português Pedro Mestre, além de reencontrar amigos e parceiros como Siba e a banda Cabruêra, e ver artistas mineiros como Carlos Farias e Victor Santana. Os debates passam por muitos assuntos, mas Guimarães Rosa é o ponto de partida e de chegada das discussões: foi ele quem colocou aquela região no mapa do mundo. Participei de uma mesa que tinha, entre outros, Waldo Lima do Valle, Fred Maia e Almir Paraca, falando sobre a busca do sertão profundo. Repeti que os cangaceiros e beatos de hoje são, nas cidades, os traficantes de drogas e os falsos religiosos. 

O lugar é tão afastado que o celular não dá sinal, mas existe uma banda larga wireless muito boa, instalada permanentemente ali graças ao Festival. A conexão cumpre hoje o papel que o rádio cumpria em contos como “Dão-Lalalão”, em que as rádio-novelas são escutadas, acompanhadas, discutidas, polemizadas. O sertão sempre encontrou uma antena para escutar o mundo.

Imensos tapetes de grãos amarelos cobrindo a planura de horizonte a horizonte, rios brilhando como se cobertos por escamas prateadas de peixe ao entardecer, uma cúpula geodésica feita de bambu, um enduro a pé com bonés e cajados, um boneco de Paulo Freire com um monitor de PC no colo, uma luthieria que fabrica violas, um desfile de fanfarras escolares, com paletós e dragonas, embaixo de um sol de rachar, três caras jogando sinuca no Pont’s Bar enquanto na calçada deserta um carro estronda baticum eletrônico, um mutirão de fiandeiras, jovens fazendo roda de ciranda ao som de viola do Alentejo, riachos com nomes como Córrego Pasto dos Bois ou Ribeirão Suçuarana, que correm para o mar como os sertanejos de Glauber Rocha.




domingo, 8 de setembro de 2013

3286) As fases de Saturnino (8.9.2013)




Na infância, Saturnino teve um momento em que, onde estivesse, agia como uma antena capaz de dissipar tanto a formação de trovoadas quanto a de discussões. Fazendo uma pergunta a um, interrompendo outros, pedindo algo a um terceiro. Bastava-lhe isso para controlar a quantidade de luz que vinha do céu e (uma frase que ele leu uma vez numa revista) “o clamor furioso dos elementos”. Ou seja, para evitar que festas degenerassem em confrontos, discussões regredissem a sopapos.

Depois Saturnino teve um período em que desacertou o passo com o planeta. O emprego que arranjou na oficina gráfica de um jornal (daqui a pouco vai ser preciso explicar o que é isso) exigia que ele pegasse à meia-noite e largasse às oito da manhã, com meia hora para almoço. Seu dia passou a ser assim: acordar, ver o por-do-sol, a noite, a madrugada, o nascer-do-sol, ir pra casa, sono até o próximo entardecer. Ele fazia cálculos permanentes, como um turista no estrangeiro convertendo moedas em cada transação que faz ou que planeja.

Até Picasso teve um período azul, de modo que Saturnino teve uma fase decadente. Decadentismo sofisticado, carregado de ideologia e de floreios literários. Experimentou de tudo, riscou cada nome numa lista de muitas páginas. Encenou bacanais de cem pessoas, num palácio da costa de Dubai. (Se bem que o decadentismo de Saturnino nunca pisou descalço o asfalto quente dos fatos: as descrições acima são colhidas nos palavrosos diários que manteve durante essa época, quando tentou escrever contos em francês.)

Veio por fim uma coisa que ele, anos depois, iria chamar O Borrão. Uma coisa sem forma, que cada vez que era lembrada era distorcida e adulterada, e carimbada assim ao ser guardada de novo. O Borrão foi um período de oito ou dez anos subsequentes ao anterior. “Nada aconteceu”, disse ele depois numa entrevista, “a não ser que eu fiquei vivo cada minuto desses anos.”

Depois do Borrão (diz seu primeiro biógrafo) veio um período que para Saturnino não é nada especial, mas ele, o biógrafo, chama A Avataridade. É a condição das pessoas capazes de deixar atrás de si uma figura, uma fisionomia, um jeito de andar e de falar, um jeito talvez de vestir, ou de que forma se divertir, ou se amar. Antigamente perguntava-se se o cinema tinha alma. Hoje pergunta-se: Saturnino é uma pessoa, é uma sucessão de pessoas, é uma sucessão de personagens? Ele é como as megaestrelas pop, os políticos confraternizadores e dionisíacos, os rostos da publicidade ou do talk-show  - os quais são avatares, sims, com uma vida mais rasa mas com maior perspectiva de permanência a longuíssimo prazo do que a carne fraca que os criou.

3285) Pedro Cancha (7.9.2013)



Um dos melhores filmes do recente VIII Comunicurtas, em Campina Grande, foi o documentário de Luciano Mariz, Cancha – antigamente era mais moderno, sobre uma das figuras mais lendárias de Campina, Pedro Souto Guimarães, o famoso “Pedro Cancha”. É um documentário que mergulha sem receio no mundo do personagem, dando-lhe asas para voar na própria imaginação, além de ter um equilíbrio de alta qualidade em direção de arte, fotografia, iluminação, edição.

Em 1967, o costureiro recifense Marcílio Campos sugeriu que num clima tropical o uso do saiote seria uma boa opção para os homens – mais arejado, mais higiênico. (E, como cantou Luiz Gonzaga sobre a minissaia feminina, “facilita”.) Uma teoria que já tinha sido defendida por Gilberto Freyre e por Flávio de Carvalho (que em 1956 desfilou de saiote pelas ruas de São Paulo). A matéria deu o que falar em Campina, mas o episódio modernista/paulista andava esquecido. A turma do Calçadão propôs: E se a gente saísse na frente, com alguém usando isso? Campina, como se sabe, sente-se na obrigação de estar sempre na vanguarda de tudo.

O problema é que precisavam de um voluntário para usar a indumentária, e quem teria coragem? Alguém lembrou de Pedro Cancha, que morava em Zé Pinheiro e era dono do cabelo mais comprido da cidade, numa época em que cabeludo era insultado e escarnecido nas ruas (eu mesmo o fui, inúmeras vezes), e mesmo apedrejado e perseguido. Pedro Cancha era rude, brabo, musculoso, e tinha um cabelo maior do que o de Benito de Paula. Foi procurado. Topou. Alguém correu em casa e trouxe um saiote da mulher ou da filha. Levaram Pedro para a escada da redação do “Diário da Borborema” (onde eu trabalhava). Fotografaram-no em “contre-plongée”, de baixo para cima (a foto está no filme).

No dia seguinte o jornal saiu com a foto de Cancha na capa, e esgotou edições sucessivas. Mais uma vez, Campina se equiparava às grandes capitais! Foi organizado um desfile em carro aberto pela Maciel Pinheiro, diante de uma multidão dividida (como toda multidão) entre o aplauso entusiasmado e a vaia rancorosa. Pedro, de saiote, em pé no carro, gritava: “Juventude campinense! O mundo está mudando! Viva a liberdade!”. Algo assim.

Vieram novos tempos e novas modas, e o assunto foi morrendo. Em 1997, trinta anos depois do histórico desfile, Rômulo Azevedo fez uma reportagem de TV sobre o fato, e redescobriu Pedro Cancha, ainda morando em algum lugar remoto de Campina Grande. Recordaram o fato, comentaram, e por fim Rômulo perguntou o que ele achava do “mundo de hoje”, tantos anos depois. E Pedro Cancha respondeu, desalentado: “O passado era mais moderno”.





quinta-feira, 5 de setembro de 2013

3284) Carlos Fernando (6.9.2013)




(Carlos Fernando, no carnaval do Recife)

Meu último encontro com Carlos Fernando foi em 2009, no Recife, no aniversário de Aluísio Maluf, numa roda de violão que entrou pela madrugada, todo mundo tocando sambas e forrós puxados do fundo do baú, e Alceu Valença regendo a roda num coral cantando “Pressentimento” de Elton Medeiros: “Ai, ardido peito, quem irá entender o teu segredo?...” Foi uma bela noite de farra, e Carlinhos, com sua voz rouca e olhar encatitado, ficava entre uma música e outra, de dedo em riste, verbalizando manifestos estéticos em favor de um determinado ritmo ou esculhambando com a falta de memória do país, “ninguém conhece mais uma música linda como essa!”.

Carlos Fernando é o autor de “Banho de Cheiro”, gravado por Elba Ramalho (“Eu quero um banho de cheiro, eu quero um banho de lua, eu quero navegar...”), um dos seus sucessos que tocaram mais insistentemente nos últimos trinta anos. Compôs algumas das canções mais lindas de Pernambuco, em parceria, principalmente, com Geraldo Azevedo e Alceu. Mas foi, acima de tudo, um defensor do frevo, não somente o frevo como música instrumental para se fazer o passo nas ruas e nos bailes durante o Carnaval, mas o frevo como um dos gêneros atemporais, não-sazonais, da Música Popular Brasileira.

Acho que foi Capiba quem disse uma vez que o frevo poderia ser algo como o jazz, um tipo de música vibrante, complexo, envolvente, que poderia ser composto, tocado e dançado no mundo inteiro, independentemente de nacionalidade ou época. Carlos Fernando não tinha uma formação musical complexa – na verdade, era mais letrista, embora tivesse um senso melódico muito apurado. Seu frevo não era o frevo instrumental das orquestras, era o frevo de canções com letra, no modelo de Capiba e Nelson Ferreira. O seu projeto Asas da América (1979-1999) foi uma das maiores iniciativas de um só artista em defesa de um gênero que já houve na MPB. Compondo, produzindo, escolhendo cantores e arranjadores, Carlinhos botou Chico Buarque, As Frenéticas, Alcione, Jackson do Pandeiro + Gilberto Gil, Caetano Veloso, para cantar frevo. Gravou Tadeu Mathias, Terezinha de Jesus, Lenine & Lula Queiroga (talvez a primeira gravação conjunta dos dois), Flaviola e outros artistas nordestinos que surgiam na época.

Carlos Fernando faleceu semana passada, no Recife, aos 75 anos. Seu último trabalho, acho, foi a compilação 100 Anos de Frevo – É de Perder o Sapato, um CD duplo de 2007. Precisando checar alguns nomes e datas, procurei um verbete sobre ele na Wikipédia: não existe. Quem nos salva são os estrangeiros. Visitem este saite em espanhol, as Asas estão todas lá: http://bit.ly/17vsyRX. 


3283) A fofoca (5.9.2013)



(Andreas Paul Weber, O boato)

A fofoca corresponde a uma atitude mental infantilóide e maligna, de quem se auto-gratifica com pequenas maldades (porque até as grandes maldades exigem algum tipo de grandeza). 

A fofoca tem duas faces. Uma é a fofoca verdadeira: você descobre alguma coisa negativa (comprometedora, constrangedora, problemática) sobre alguém e espalha essa informação, pelo prazer mórbido de ver exposto em público o deslize ou o desvio de conduta de alguém com quem não simpatiza. (Ou mesmo de uma pessoa qualquer – muitas fofocas são propagadas com indiferença para com a pessoa que está sendo alvejada, apenas pelo prazer de prejudicar alguém, como quando a galera jogava um plástico cheio de mijo na arquibancada do Maracanã).

Outra face é a fofoca inventada.  Talvez seja melhor chamá-la de “fase”, porque parece ser um estágio que vem depois do outro, uma espécie de pós-graduação. O prazer de estragar (ou pelo menos atrapalhar) a vida alheia é tão grande que o fofoqueiro não pode ficar à espera de que alguma coisa denunciável aconteça. Parte logo para a invenção, e quando é assim, sai de baixo que vem tijolo.

A fofoca se reflete naquela figura jurídica chamada de “calúnia, injúria e difamação” (existe aliás uma distinção, entre estas categorias, que até hoje me escapa.). Nasce de um prazer perverso e sem proveito externo, como o de um garoto que se diverte trocando o conteúdo do saleiro e do açucareiro, escondendo a carteira do pai, queimando insetos com álcool, afrouxando o degrau de uma escada. Tem gradações de seriedade que vão desde a travessura e a peraltice até o crimezinho sádico, que pode indicar uma psicopatia qualquer.

A fofoca, praticada com requintes de premeditação e de estratégia, é uma forma de tiro pelas costas. É o passatempo de mentes mesquinhas que por autodefesa querem amesquinhar tudo à sua volta. A reação do sujo que só sossega quando prova que o "limpo" é um mal-lavado.

Não é de admirar, então, que haja toda uma imprensa voltada para esse tipo de atividade: os paparazzi que registram desde celulites até adultérios, as colunistas que revelam a intimidade alheia sob pretextos cada vez mais tênues, os comentaristas políticos que vivem plantando insinuações ou indiscrições para adquirir um poder que não obteriam de outra forma, as colunas de olho grande e boca pequena cochichando meias verdades a meia voz. 

A fofoca é, a rigor, um subproduto da vida helmíntica, parasitária, de quem se nutre da existência alheia e fica mais feliz com um fracasso alheio do que ficaria com um triunfo próprio. Ninguém está a salvo dela, ninguém tem a certeza de que nunca será sua vítima ou seu praticante.