quarta-feira, 28 de agosto de 2013

3276) O robô apaixonado (28.8.2013)




É uma dessas pegadinhas da Internet. Me lembra a história de São Tomás de Aquino no mosteiro. Os jovens monges, para zoar com ele, começaram a gritar, olhando pela janela: “Vinde ver, irmão Tomás! Vinde ver um boi voando!”. O santo veio à janela e pôs a cabeça para fora, procurando o boi. Os rapazes riram e disseram: “Acreditastes mesmo que um boi pode voar?” E ele respondeu: “Achei mais fácil um boi voar do que um religioso mentir.”

A história é provavelmente apócrifa, mas como a li no livro de leitura do colégio, aí vai ela, para não ficar por perdida. Algumas pegadinhas manipulam nossa tendência a acreditar em algo que, mesmo impossível, faz sentido dentro da nossa cultura. Por exemplo: um robô apaixonado. Acreditei piamente na notícia quando vi isto aqui: http://bit.ly/16BCgE8), só para vê-la desmentida minutos depois. Kenji é o robô desenvolvido nos laboratórios da Toshiba, programado para emular (imitar) emoções humanas. Ele desenvolveu comportamentos afetivos e protetores para com uma boneca, com a qual passava o dia abraçado. Quando a boneca lhe era retirada, ele perguntava por ela, insistentemente. O problema principal surgiu quanto Kenji passou a agir do mesmo jeito com uma estagiária que todo dia atualizava seus softwares. Querendo reproduzir com ela o que fazia com a boneca, Kenji recusou-se a deixar a moça sair do cubículo, e foi preciso desligá-lo.

Tudo mentira, claro. A “notícia” já foi desmentida desde 2009 (ver aqui: http://bit.ly/10sf1b5). Por que motivo eu acreditei, então? Acho que porque a história do robô me lembrou a história de Bispo do Rosário. Bispo era um doido, o que não é muito diferente de ser um robô. É um ser a quem se pode atribuir pensamentos e intenções, mas tem limitações evidentes que para nós são mais visíveis do que as nossas, e é imprevisível. Bispo apaixonou-se pela psicóloga que tratou dele na Colônia Juliano Moreira. Tratava-a como se ela fosse Nossa Senhora. No seu mundo delirante, ela era uma representação de beleza, de pureza, de amor desinteressado.

Quer dizer – isso é uma “viagem” minha em cima dos relatos feitos sobre Bispo. Sei tão pouco dos pensamentos de Bispo quanto sei do robô Kenji, mas nunca duvidei da possibilidade de algum deles se apaixonar. Se a história de Kenji é inventada, tanto faz; estamos na contagem regressiva para a produção do primeiro robô capaz de se comportar como uma pessoa apaixonada. E como saberemos se a paixão é verdadeira? Aí, amigos, ninguém sabe. Dependemos sempre da decisão de acreditar, porque jamais saberemos o que se passa noutra pessoa. Quanto a isto, estamos tão desamparados quanto um robô ou um doido.


terça-feira, 27 de agosto de 2013

3275) A Cena do Diretor (27.8.2013)


(Polanski em Chinatown)

Nos filmes de Alfred Hitchcock tem sempre a cena em que ele aparece ao fundo, entre os figurantes. Quando menos se espera, ou quando já se está cansado de esperar, lá está Hitchcock, sentado num ônibus ao lado do herói (O Homem que Sabia Demais, 1956) ou vendo a porta de um ônibus se fechar na sua cara (Intriga Internacional, 1959). 

O escritor Tim Powers desdenhava esse macete. Achava um exibicionismo meio infantil, que atrapalhava a credibilidade emocional do filme: “Você está assistindo uma cena que se supõe séria e tensa, e aí, de repente começa a apontar: '- Lá está Alfred!'  Estraga tudo.”

A Aparição do Diretor virou cacoete, já utilizado de toda maneira por todo o mundo. Mas o que eu acho mais interessante são aquelas aparições meta-hitchcockianas, que vão além do que o que o gordinho fez. 

São cenas com sua própria dramaturgia, seu próprio impacto, e o diretor não está ali apenas dando adeusinhos para o eleitorado. Está carregando em si um papel, numa cena forte, e com a obrigação de defendê-lo bem diante de sua própria equipe técnica. 

Caso emblemático de “Cena do Diretor”: Roman Polanski em Chinatown (1974), no papel do gangster janota que pega um canivete e abre a narina de Jack Nicholson.

Não me refiro àqueles filmes em que o diretor é de certa forma o protagonista, como F for Fake (1974) de Orson Welles ou A Noite Americana (1973) de François Truffaut.  Em casos assim o filme já é concebido em torno da imagem do diretor-ator, o filme todo é a presença dele.  

A Cena do Diretor é quando ele dirige a si mesmo e aparece nesse momento específico, e praticamente não mais; uma cena curta, mas de peso. Marca presença, tanto quanto Hitchcock; mas seu aparecimento não é um “gimmick” meramente publicitário, como o do mestre, é um produto estético. Afinal, é uma cena de filme! Uma coisa tão obra-de-arte quanto uma sextilha.

John Huston é uma das poucas coisas boas que houve em seu A Bíblia (1966), aquele Noé grandalhão, apocalíptico, desbocado. 

Luís Buñuel só apareceu na tela na primeira e demolidora cena de Um cão andaluz (1928), como o homem que empunha e navalha e nos ensina a “ver com outro olho que o habitual”, como disse Jean Vigo. 

Martin Scorsese faz um passageiro patético e surtado numa das melhores cenas de Taxi Driver (1976). 

Quentin Tarantino é literalmente mandado pelos ares na cena em que aparece em Django Livre (2012), realizando com ironia sádica tanto uma fantasia dos seus fãs quanto a dos seus desafetos. 

A Cena do Diretor é uma figura de linguagem do cinema que pode até ter sido incrementada pela brincadeira de Hitchcock, mas virou algo muito mais interessante.





domingo, 25 de agosto de 2013

3274) Memória de cantador (25.8.2013)





(José Gonçalves, foto Roberto Coura)



“Cantar repente é como mentir, o cara precisa ter boa memória. O repentista precisa tanto de uma memória farta quanto precisa de ligeireza no repente. Como ele pode ter ligeireza se a memória dele não for bem organizada, e bem cheia de coisas? 

"O cara precisa lembrar, na hora que lhe vem uma idéia de um verso, no instante das palmas, e quando as palmas diminuírem ele tem que entrar cantando, ele tem que saber se aquele verso é dele mesmo ou é um dos milhares de versos dos outros que ele sabe de cor. Muitas vezes o cara canta um verso alheio sem perceber e nunca teve essa intenção, mas passa a ser tido como aproveitador. Melhor evitar.

“Precisa ter boa memória para os nomes das coisas: dos lugares, das pessoas, de todo mundo que está presente naquela noitada, naquela viagem, naquele acontecimento. 

"Tem que saber também as informações dos livros, e aí o céu é o limite, mas ele tem que ter. Não adianta estar cantando sobre o Papa ou sobre um craque do futebol se não hora H errar ou não souber o nome do Papa ou o apelido do craque.

“Precisa ter boa memória também porque às vezes acontece de você ir fazer um verso e o verso não sair muito bom, por umas escolhas erradas de rima, ou qualquer besteira assim. Aí, não sei quantos anos depois, acontece uma chance de você poder voltar àquele verso, você improvisar aquele verso de novo, e o fato de já ter pensado nos problemas dele ajuda você agora a organizar as palavras de uma maneira melhor. O nome disso também é improviso.

“Precisa ter boa memória também para reconhecer o verso alheio que está sendo imitado ou repetido pelo companheiro, para ficar alerta e usar essa informação do modo que lhe convier. Porque acontece de, sem ser combinado, alguém se pegar com um decorado e você ficar queimando óleo pra inventar versos do nada. Pra depois dividirem a bandeja por igual.

“Quando se canta decorado é preciso ter boa memória para não se atrapalhar no que já sabe e já fez. Quando se está improvisando é preciso ter memória para não repetir, e para achar rápido o nome, a data, o detalhe de cada um. 

"Um cara uma vez pagou na bandeja com um cordão de ouro dessa grossura, só porque eu lembrei o nome do sítio onde ele tinha nascido, e das pessoas com quem ele passou a infância. 

"Ficar a vida toda brincando mentalmente com nomes de lugares e de pessoas, agrupando esses nomes pelo tamanho, pela rima, pela cadência, escolhendo rimas por afinidade e deixando-as próximas. Às vezes bastam duas linhas perfeitas para fechar uma sextilha; o resto pode ser deixado para resolver na hora, no calor do momento, às vezes sai até melhor do que o que já veio preparado.”




sábado, 24 de agosto de 2013

3273) A visita do Conde (24.8.2013)




(by Ralph Eugene Meatyard)

A morte repentina do Conde d’Aureville, em 1897, emocionou a Bretanha inteira, e ao seu funeral compareceram autoridades de oito países. Era autor de romances, de crônicas da corte, e de uma vasta correspondência com fidalgos e damas de toda a Europa. Sua coleção de documentos políticos foi doada ao Vaticano, mas sua biblioteca pessoal era o deleite dos pesquisadores de muitos países. Uma noite, no salão octogonal da biblioteca, estavam pesquisando documentos e fichários dois biógrafos (o húngaro Besolz e o alemão Scarblitz) e uma estagiária (a canadense Strumm). Os três trabalhavam a uma distância mediana entre si, por entre as estantes e arquivos. Naquela noite, foi como se uma mão gigantesca tivesse girado num botão. Houve como que uma ionização na atmosfera, o ar estralejou de energia, como se um toque de ponta de dedo emitisse um raio.

Eles se refugiram correndo junto à mesa central do aposento, onde a turbulência parecia ser menos intensa. No centroda sala, numa cascata de tremulações coloridas, apareceu o Conde d’Aureville. Sobranceiro, fornido, o chapéu de pluma arrogante, os copos da espada pronta para o desembainhar. Mas estava sereno, e olhou nos olhos cada um dos três intrusos. Sua voz era calma. Deu a cada um o direito a uma pergunta.

Besolz ergueu o braço. “Sire, estou consultando vossa correspondência, mas não sei quem é a tal Sereia que vos escrevia tanto.”  O Conde o encarou e disse: “Se és pesquisador mesmo basta dizer: é a mesma que um dia dirá sob outro nome que aprendeu comigo a amar a noite.”  Besolz assentiu devagar, com uma cara de quem já conseguiu metade do que queria.

“E tu?”, perguntou o Conde. “Mais de mil cartas militares,” queixou-se Scarblitz. “Tenho estudado muito mas não entendo tantas manobras, tantos armamentos, tantas combinações.” “Nem eu,” disse o Conde. “Limitei-me a copiar as cartas de uns generais para os outros, e dos outros para os uns. Ser político é ter uma dedução correta sobre o que acontece, com dados colhidos pelos outros.” O homem ficou calado. O Conde continuou: “Esquece isso. Procura minhas cartas com os ministros da Polônia e da Transbalcânia. Todo o resto é consequência dessas.”

Virou-se para a moça de rabo-de-cavalo louro. Ela lhe disse: “Senhor, há um código, não é verdade? Não o decifrei ainda mas percebi uma intercalação de letras sem sentido. É um código?” A imagem do Conde tremulou e, com um relâmpago cegante, desapareceu. Os três mal acreditaram no que tinham ouvido. Na manhã seguinte, a canadense apareceu morta durante o sono, com uma expressão de triunfo no rosto claro.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

3272) David Foster Wallace e o navio (23.8.2013)



Em seu volume de ensaios
Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo (Cia. Das Letras, 2012), David Foster Wallace relata a empreitada que recebeu da revista Harper’s: fazer uma semana de cruzeiro pelo Caribe num navio de luxo, e relatar suas impressões. 

O texto resultante, “Uma Coisa Supostamente Divertida Que Eu Nunca Mais Vou Fazer”, é alternadamente fantástico, engraçado, assustador, intrigante. Como sou um escritor profissional e Wallace também o era, recorro ao senso ético da profissão para supor que ele não inventou nada daquilo. Sua interpretação dos fatos é a mais subjetiva e distorcida possível (ele mesmo o admite várias vezes), mas se os fatos forem mesmo aqueles o mundo é um lugar muito fantástico. Comparado a ele, Salvador Dali é um Mondrian.

As 125 páginas do ensaio são uma mistura do jornalismo gonzo de Hunter Thompson e da nostalgia claustrofóbica de E La Nave Va.  

Documenta a hipertrofia das glândulas consumistas que Henry Miller já tinha diagnosticado em Pesadelo Refrigerado e a cafonice endinheirada de True Stories de David Byrne ou de Heaven de Diane Keaton. 

Tem a voltagem de algumas das reportagens de Bruce Sterling ou William Gibson (só que com humor). E nos faz sentir o tempo inteiro a flutuação escheriana entre um corredor na Ilha de Caras e uma escada num filme de David Lynch. A terrível revelação de que o Sonho Americano é, e sempre foi, uma “bad trip” gerada por um LSD com defeito de fábrica.

Wallace observa, interage, recorda e escreve ora como um filósofo pessimista, ora como um adolescente travesso, ora como um intelectual mergulhando em espirais vertiginosas de associações de idéias dentro de idéias num torvelinho que se exprime por meio de suas famosas notas gigantescas de pé de página que se desdobram diante dos olhos do leitor como bonecas russas contendo outras bonecas, numa construção-em-abismo sem fim. 

Curiosamente, é um olhar tipicamente masculino, embora não machista, pelo tom do seu discurso, a empáfia das descrições técnicas, a auto-ironia peculiar, o prazer infantil das sugestões escatológicas, a camaradagem rude com os serviçais... 

Um grande livro, mas não consigo imaginar uma mulher gostando dele, pelo menos as mulheres para as quais se destina a chamada “literatura do olhar feminino”. Se isso de fato existe, o olhar de Wallace é um olhar masculino, mesmo que ele não dê muita importância aos aspectos de gênero. Ele tem uma irreverência e uma fascinação de rapaz adolescente pelos aspectos numéricos, verbais e técnicos do mundo que está descrevendo. E desenvolveu um estilo que é ao mesmo tempo produto desse mundo e caricatura crítica dele.







quinta-feira, 22 de agosto de 2013

3271) TV Vigilância (22.8.2013)



(Videodrome, de David Cronenberg)

As discussões a respeito do uso da TV daqui pra frente têm que considerar que a TV está deixando de ser apenas espetáculo. Continuamos vivendo na tal “Sociedade do Espetáculo”, mas quando tudo vira espetáculo, o poder magnético do espetáculo se dilui, se redistribui ao longo de toda a cadeia. A TV Espetáculo tenta se manter como pode, mas cresce uma coisa nova: a TV Vigilância, produzida pelos milhares de câmeras espalhadas pelas autoridades nas ruas, praças, prédios, etc.  Agora surgiu sua contrapartida: uma TV Vigilância da população. Com os novos meios de transmissão individual, cada pessoa pode se transformar numa TV ao vivo.

As transmissões recentes da Mídia Ninja varam o dia, a noite, a madrugada, transmitindo ao vivo manifestações ou reuniões, mas sofrem uma crítica constante: “Quem diabo tem tempo para acompanhar uma manifestação em tempo real? Quem pode ficar a noite toda em casa sentado, assistindo uma passeata?” Amigos já me disseram: “Acho simpático, mas prefiro o compacto de 3 minutos sobre a passeata, feito pelas TVs convencionais”.

Eu vejo essas manifestações. Como? Abro uma aba no TwitCasting, solto ali a transmissão da Mídia Ninja, abaixo o som, troco de tela e fico trabalhando, ou então maximizo a imagem e fico lendo numa poltrona próxima. Quando a voz do narrador sobe de tom, olho para a tela. (É assim que vejo futebol, aliás. Não fico grudado no futebol os 90 minutos. Eu deixo ligado – e leio, escrevo, trabalho, toco violão, e só presto atenção “quando o bicho pega”.) Não é espetáculo, é uma parte do ambiente, algo que está sempre ali, como o rádio que acalenta as fantasias das donas-de-casa que cozinham, ou como a muzak que atenua a promiscuidade demográfica dos elevadores.

A TV Vigilância, aliás, não é nada de novo. Darei um exemplo: a TV Câmara e TV Senado. Quem assiste aquelas tediosas transmissões dos bate-bocas e dos bate-papos dos nossos bravos congressistas? Resposta: muito pouca gente, mas é bom saber que votações de leis e defesas de projetos podem ser acompanhados por alguns milhares de indivíduos interessados no que vai ser discutido naquela tarde ou noite. Aliás, a transmissão de algumas CPIs tem dado índices de audiência sensacionais para uma TV “chapa branca”. Esse tipo de vigilância não é para dar Ibope nem para ser assistido no dia-a-dia – mas precisa estar presente no dia-a-dia, para que grupos diferentes de pessoas assistam, de acordo com o interesse de cada um. É o contrário da TV espetáculo, em que “o Brasil para pra assistir o capítulo da novela”. E volto ao meu bordão: se o Governo vigia o Povo, o Povo deve usar a mesma tecnologia para vigiar o Governo.


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

3270) Escrever e cortar (21.8.2013)





Parece que foi Hemingway, ou Graciliano Ramos, ou Carlos Drummond, ou John Ruskin, ou Armando Nogueira, quem disse: “Escrever é cortar palavras”. 

Um conselho útil, uma boa frase de efeito. Mas tem um porém. Cortar o que? Para cortar, é preciso ter escrito alguma coisa. E se alguma coisa foi escrita e precisa ser cortada, é porque foi escrita em excesso. De modo que o conselho tem duas partes, com a primeira subentendida; o conselho completo seria: “Escrever muito, e depois sair cortando”. 

O que aliás tem sintonia com outra frase famosa, esta sim, de Hemingway: “Escreva bêbado. Revise sóbrio”. Conselho que pode incomodar os abstêmios, de modo que podemos substituí-lo por: “Escreva com entusiasmo, corte sem piedade”.

Não vale para todo mundo, é claro. Acho que James Joyce, Balzac, cortavam muito pouco. Cada vez que recebiam as provas da gráfica, enchiam as margens com novas frases, novos parágrafos inteiros. E os tipógrafos ficavam malucos. (Refazer essas coisas, naquele tempo, dava um trabalho insano.) 

Guimarães Rosa cortava muito, mas o texto não se reduzia, porque tudo que ele cortava substituía por outra coisa. (As antigas edições de seus livros, pela José Olympio, reproduziam páginas inteiras de provas revisadas por ele em letra desenhadinha, meticulosa, legível demais, como se pedisse desculpas aos tipógrafos.)

Escreva entusiasmado (se for esse o seu temperamento como escritor), escreva com exuberância, com exaltação, jogando no papel tudo que lhe passar pela cabeça. Descreva com detalhes, prolongue os diálogos, tente cobrir com palavras tudo que sua imaginação lhe sugerir. Naquele momento de escrever, abre-se uma janela em nossa mente, que depois se fecha. O que você está acessando naqueles minutos já não acessará na manhã seguinte; então, despeje tudo na página, antes que o portal se feche.

No dia seguinte, pegue uma caneta e vá cortando, sem pena. Veja entre essas frases qual delas merece ficar; veja qual delas já contém (ou sugere) as que estão indo para o lixo. 

Em geral, quando escrevemos, repetimos muito. Em diálogos principalmente. Dizemos a mesma coisa de duas ou três maneiras diferentes. Estamos ainda no processo de descoberta, por aproximações sucessivas. No dia seguinte, começa o processo seguinte, o de cristalização. O que estava ali só para ajudar, só para servir de veículo, pode desaparecer. 

Como um copo de água com sal, onde a água se evapora e deixa o sal no fundo. O sal é o texto que vai para o livro. Mas se esse texto for realmente bom, será possível sentir nele a presença da água que o trouxe até ali. 

Corte sem piedade. Cada palavra que você corta aumenta o valor das que ficam.







terça-feira, 20 de agosto de 2013

3269) Os ódromos (20.8.2013)



Circula a notícia de que a PM carioca sugere a criação de um Manifestódromo onde venham a se concentrar os novos protestos populares, que estão causando transtorno à cidade. É como se dissessem: “Um milhão de pessoas uma vez por ano, tudo bem, mas 500 gatos pingados todo dia não pode!”.

Há um paradoxo curioso e talvez insolúvel na criação de um espaço delimitado e oficial para protestos públicos. Tudo que os governos e as autoridades querem é controlar esses protestos, dizer o que pode, o que não pode, como vai ser, como não vai. O governo quer ser o coreógrafo do protesto, o carnavalesco da manifestação. Demarcar um lugar, estabelecer um horário (“é permitido protestar aqui das 6 às 8 e meia...”), disciplinar a produção sonora (“bater latas pode, soltar fogos não”), gravar e filmar quem entra e quem sai... Qualquer governo fará o possível para conseguir isso.

Por outro lado, tudo que manifestantes, protestadores, anarquistas, baderneiros, vândalos e rebeldes em geral querem é justamente não se deixarem controlar dessa forma. Para eles, liberdade concedida não é liberdade, protesto consentido não é protesto, revolta autorizada não é revolta. E têm razão, não é mesmo? Talvez o resultado prático traga contratempos para todo mundo, inclusive para mim (que fico preso no engarrafamento) mas filosoficamente não posso contestá-los.

Tudo que termina em “ódromo” fica com um cheiro de coisa fake, coisa falsificada, marca de fantasia. Não sei se foram Brizola e Darcy Ribeiro que batizaram com esse nome o Sambódromo carioca (foi Darcy, com certeza, quem criou a expressão “Praça da Apoteose”). O modelo, claro, foi o Autódromo de Jacarepaguá; durante a construção da Passarela do Samba, o termo “sambódromo” surgiu na imprensa e acabou pegando. Logo depois, veio o Camelódromo da Rua uruguaiana, para onde foram recambiados todos os camelôs e ambulantes que transformavam o centro do Rio num enorme mafuá. Hoje, o Camelódromo funciona que é uma beleza, vive cheio de gente, é um dos lugares mais tupinipunks do Rio de Janeiro, e o centro está virando o mesmo mafuá de antigamente.

Sambistas, camelôs, manifestantes... Esse tipo de gente é incontrolável, tanto pela sua mania de só fazerem o que querem quanto pelo fato de que parecem brotar de um formigueiro inesgotável. Muitas autoridades adorariam montar uma frota de cargueiros e embarcá-los para a Mauritânia ou a Indonésia. Como não podem, recorrem às pranchetas dos técnicos e ao concreto das empreiteiras. Talvez daqui a poucos anos o Rio tenha um “ódromo” a mais, o que não quer dizer que terá manifestantes, baderneiros ou vândalos a menos.


domingo, 18 de agosto de 2013

3268) O mundo do sucesso (18.8.2013)






(by Laurie Lipton)



Um escritor famoso faz uma viagem para outro país e, em cartas para os amigos, comenta a recepção que teve e a vida social em que mergulhou. Dois trechos:

1) “Esta cidade me engoliu como uma planta carnívora engole uma mosca. Tenho vivido sem fôlego há cerca de cinquenta dias. A vida aqui consiste em uma série de encontros marcados com uma ou duas semanas de antecedência: almoço, coquetel, jantar, festa à noite, são estas as várias fases de um dia, permitindo-me conhecer novas pessoas o tempo todo, para marcar novos almoços, novos jantares, novas festas e assim por diante, ao infinito. (..) Isto aqui não é a terra do imprevisto, mas é a terra de uma vida mais rica, onde todas as horas do dia estão preenchidas; a terra que nos dá a sensação de estar em plena atividade, mesmo que muito pouca coisa seja feita, a terra onde a solidão é impossível (só passei sozinho uma única noite, das cinquenta em que estou aqui).”

2) “Não me sinto feliz e estou terrivelmente rouco devido à laringite. A farra aqui é muito intensa. Você vai para um almoço com oito pessoas e no dia seguinte cinco delas o convidam para jantar. Assim, tudo que você consegue fazer é comer, beber e se entediar”.

Tudo indica que se trata do mesmo sujeito falando sobre o mesmo ambiente, mas as duas cartas têm origem diferente. 

A primeira é do italiano Ítalo Calvino falando sobre sua estadia em Nova York a partir de 1959, quando recebeu uma bolsa para passar seis meses nos EUA. 

A segunda é do norte-americano Raymond Chandler falando sobre sua estadia em Londres, em 1955, quando viajou para a Inglaterra tentando fugir à depressão causada pela morte de sua esposa.

Calvino era um rapaz de 36 anos, cheio de entusiasmo; Chandler um homem de 67, alquebrado pela bebida e pela perda recente de Cissy. Os dois, no entanto, transmitem em poucas linhas a sensação de vertigem do indivíduo caído de paraquedas no mundo da boemia e do sucesso. 

Um mundo onde não há distinção entre noite e dia, entre dentro e fora. Onde se dorme de luz acesa, vestido, com o quarto cheio de gente. Onde taças cheias de champanhe milionário esquentam esquecidas no parapeito da janela ou na bancada do banheiro. 

Onde há sempre alguém rindo e alguém gritando, onde a música não pára, onde se olha pela janela e não se sabe se é o fim da tarde ou o amanhecer, onde carros cheios de gente inebriada e lânguida percorrem a cidade, fechando um bar aqui, abrindo um bar acolá, onde as contas são pagas sem ser conferidas, onde as histórias são contadas dezenas de vezes, onde as gargalhadas se misturam na mesma algazarra que ora parece melodia, ora raiva, ora terror.









sábado, 17 de agosto de 2013

3267) Armagedon das abelhas (17.8.2013)




Na Bíblia, as pragas do Egito e outros fenômenos apocalípticos envolviam manifestações de caos no mundo dos animais e dos insetos (pragas de gafanhotos, rãs, etc.). Na vida real, são as abelhas que estão dando o alarme. Falei em 2007 aqui nesta coluna (“A debandada das abelhas”: http://bit.ly/11PVSo9) sobre o fenômeno da “Desordem do Colapso das Colônias”, que nos últimos seis anos dizimou cerca de 10 milhões de colmeias. Estudos recentes indicam que o pólen recolhido por essas abelhas está contaminado por um verdadeiro coquetel de pesticidas; já foram descobertos 21 agrotóxicos diferentes em uma única amostra.

Os cientistas dizem que a absorção de fungicidas era considerada inofensiva para as abelhas, pois eles se dirigem contra a população de fungos. A gravidade da situação trouxe um elemento de tensão a mais entre a Rússia e ao EUA. A Rússia questiona o uso de inseticidas chamados “nicotinóides”, que, afetando a população das abelhas, pode desequilibrar a cadeia ecológica e comprometer a produção de alimentos do mundo inteiro. Houve irritação, dias atrás, num encontro entre Vladimir Putin e o Secretário John Kerry. Dois dos principais nicotinóides (Actara e Cruiser) são fabricados pela Syngenta, baseada na Suíça, parte de um grupo que inclui outros gigantes como Monsanto, Bayer, Dow e DuPont e controla quase a totalidade de pesticidas, plantas e sementes geneticamente modificadas.

Críticas pesadas vêm sendo feitas ao governo Barack Obama pela promulgação de leis que liberam as grandes empresas para produzir e comercializar material geneticamente modificado, e pelo fato de que o presidente colocou pessoas ligadas à Monsanto (como Roger Beachy, Michael Taylor e outros) em postos-chave do governo. O peso político dessas empresas, e o modo como seus lobistas estão incrustados em Washington, não permite imaginar que venham a perder influência no futuro próximo.

Sem querer ser apocalíptico, mas as cadeias ecológicas são tão bem encaixadas que não precisa de muita coisa para produzir desastres localizados. Basta lembrar episódios de proliferação descontrolada como a de coelhos na Austrália, de pardais nos EUA, de abelhas africanas nas Américas. A ficção científica já imaginou inúmeros cenários de catástrofes ecológicas globais onde há mais interesse em explorar as consequências do que as causas, mas como ainda estamos na fase das causas, são elas que nos interessam do ponto de vista prático. Com os milhões de toneladas de agrotóxicos despejados no mundo todos os anos, é só uma questão de tempo. A cada década que passa, as possibilidades de um colapso ecológico se multiplicam por todos os lados.