quarta-feira, 21 de agosto de 2013

3270) Escrever e cortar (21.8.2013)





Parece que foi Hemingway, ou Graciliano Ramos, ou Carlos Drummond, ou John Ruskin, ou Armando Nogueira, quem disse: “Escrever é cortar palavras”. 

Um conselho útil, uma boa frase de efeito. Mas tem um porém. Cortar o que? Para cortar, é preciso ter escrito alguma coisa. E se alguma coisa foi escrita e precisa ser cortada, é porque foi escrita em excesso. De modo que o conselho tem duas partes, com a primeira subentendida; o conselho completo seria: “Escrever muito, e depois sair cortando”. 

O que aliás tem sintonia com outra frase famosa, esta sim, de Hemingway: “Escreva bêbado. Revise sóbrio”. Conselho que pode incomodar os abstêmios, de modo que podemos substituí-lo por: “Escreva com entusiasmo, corte sem piedade”.

Não vale para todo mundo, é claro. Acho que James Joyce, Balzac, cortavam muito pouco. Cada vez que recebiam as provas da gráfica, enchiam as margens com novas frases, novos parágrafos inteiros. E os tipógrafos ficavam malucos. (Refazer essas coisas, naquele tempo, dava um trabalho insano.) 

Guimarães Rosa cortava muito, mas o texto não se reduzia, porque tudo que ele cortava substituía por outra coisa. (As antigas edições de seus livros, pela José Olympio, reproduziam páginas inteiras de provas revisadas por ele em letra desenhadinha, meticulosa, legível demais, como se pedisse desculpas aos tipógrafos.)

Escreva entusiasmado (se for esse o seu temperamento como escritor), escreva com exuberância, com exaltação, jogando no papel tudo que lhe passar pela cabeça. Descreva com detalhes, prolongue os diálogos, tente cobrir com palavras tudo que sua imaginação lhe sugerir. Naquele momento de escrever, abre-se uma janela em nossa mente, que depois se fecha. O que você está acessando naqueles minutos já não acessará na manhã seguinte; então, despeje tudo na página, antes que o portal se feche.

No dia seguinte, pegue uma caneta e vá cortando, sem pena. Veja entre essas frases qual delas merece ficar; veja qual delas já contém (ou sugere) as que estão indo para o lixo. 

Em geral, quando escrevemos, repetimos muito. Em diálogos principalmente. Dizemos a mesma coisa de duas ou três maneiras diferentes. Estamos ainda no processo de descoberta, por aproximações sucessivas. No dia seguinte, começa o processo seguinte, o de cristalização. O que estava ali só para ajudar, só para servir de veículo, pode desaparecer. 

Como um copo de água com sal, onde a água se evapora e deixa o sal no fundo. O sal é o texto que vai para o livro. Mas se esse texto for realmente bom, será possível sentir nele a presença da água que o trouxe até ali. 

Corte sem piedade. Cada palavra que você corta aumenta o valor das que ficam.







terça-feira, 20 de agosto de 2013

3269) Os ódromos (20.8.2013)



Circula a notícia de que a PM carioca sugere a criação de um Manifestódromo onde venham a se concentrar os novos protestos populares, que estão causando transtorno à cidade. É como se dissessem: “Um milhão de pessoas uma vez por ano, tudo bem, mas 500 gatos pingados todo dia não pode!”.

Há um paradoxo curioso e talvez insolúvel na criação de um espaço delimitado e oficial para protestos públicos. Tudo que os governos e as autoridades querem é controlar esses protestos, dizer o que pode, o que não pode, como vai ser, como não vai. O governo quer ser o coreógrafo do protesto, o carnavalesco da manifestação. Demarcar um lugar, estabelecer um horário (“é permitido protestar aqui das 6 às 8 e meia...”), disciplinar a produção sonora (“bater latas pode, soltar fogos não”), gravar e filmar quem entra e quem sai... Qualquer governo fará o possível para conseguir isso.

Por outro lado, tudo que manifestantes, protestadores, anarquistas, baderneiros, vândalos e rebeldes em geral querem é justamente não se deixarem controlar dessa forma. Para eles, liberdade concedida não é liberdade, protesto consentido não é protesto, revolta autorizada não é revolta. E têm razão, não é mesmo? Talvez o resultado prático traga contratempos para todo mundo, inclusive para mim (que fico preso no engarrafamento) mas filosoficamente não posso contestá-los.

Tudo que termina em “ódromo” fica com um cheiro de coisa fake, coisa falsificada, marca de fantasia. Não sei se foram Brizola e Darcy Ribeiro que batizaram com esse nome o Sambódromo carioca (foi Darcy, com certeza, quem criou a expressão “Praça da Apoteose”). O modelo, claro, foi o Autódromo de Jacarepaguá; durante a construção da Passarela do Samba, o termo “sambódromo” surgiu na imprensa e acabou pegando. Logo depois, veio o Camelódromo da Rua uruguaiana, para onde foram recambiados todos os camelôs e ambulantes que transformavam o centro do Rio num enorme mafuá. Hoje, o Camelódromo funciona que é uma beleza, vive cheio de gente, é um dos lugares mais tupinipunks do Rio de Janeiro, e o centro está virando o mesmo mafuá de antigamente.

Sambistas, camelôs, manifestantes... Esse tipo de gente é incontrolável, tanto pela sua mania de só fazerem o que querem quanto pelo fato de que parecem brotar de um formigueiro inesgotável. Muitas autoridades adorariam montar uma frota de cargueiros e embarcá-los para a Mauritânia ou a Indonésia. Como não podem, recorrem às pranchetas dos técnicos e ao concreto das empreiteiras. Talvez daqui a poucos anos o Rio tenha um “ódromo” a mais, o que não quer dizer que terá manifestantes, baderneiros ou vândalos a menos.


domingo, 18 de agosto de 2013

3268) O mundo do sucesso (18.8.2013)






(by Laurie Lipton)



Um escritor famoso faz uma viagem para outro país e, em cartas para os amigos, comenta a recepção que teve e a vida social em que mergulhou. Dois trechos:

1) “Esta cidade me engoliu como uma planta carnívora engole uma mosca. Tenho vivido sem fôlego há cerca de cinquenta dias. A vida aqui consiste em uma série de encontros marcados com uma ou duas semanas de antecedência: almoço, coquetel, jantar, festa à noite, são estas as várias fases de um dia, permitindo-me conhecer novas pessoas o tempo todo, para marcar novos almoços, novos jantares, novas festas e assim por diante, ao infinito. (..) Isto aqui não é a terra do imprevisto, mas é a terra de uma vida mais rica, onde todas as horas do dia estão preenchidas; a terra que nos dá a sensação de estar em plena atividade, mesmo que muito pouca coisa seja feita, a terra onde a solidão é impossível (só passei sozinho uma única noite, das cinquenta em que estou aqui).”

2) “Não me sinto feliz e estou terrivelmente rouco devido à laringite. A farra aqui é muito intensa. Você vai para um almoço com oito pessoas e no dia seguinte cinco delas o convidam para jantar. Assim, tudo que você consegue fazer é comer, beber e se entediar”.

Tudo indica que se trata do mesmo sujeito falando sobre o mesmo ambiente, mas as duas cartas têm origem diferente. 

A primeira é do italiano Ítalo Calvino falando sobre sua estadia em Nova York a partir de 1959, quando recebeu uma bolsa para passar seis meses nos EUA. 

A segunda é do norte-americano Raymond Chandler falando sobre sua estadia em Londres, em 1955, quando viajou para a Inglaterra tentando fugir à depressão causada pela morte de sua esposa.

Calvino era um rapaz de 36 anos, cheio de entusiasmo; Chandler um homem de 67, alquebrado pela bebida e pela perda recente de Cissy. Os dois, no entanto, transmitem em poucas linhas a sensação de vertigem do indivíduo caído de paraquedas no mundo da boemia e do sucesso. 

Um mundo onde não há distinção entre noite e dia, entre dentro e fora. Onde se dorme de luz acesa, vestido, com o quarto cheio de gente. Onde taças cheias de champanhe milionário esquentam esquecidas no parapeito da janela ou na bancada do banheiro. 

Onde há sempre alguém rindo e alguém gritando, onde a música não pára, onde se olha pela janela e não se sabe se é o fim da tarde ou o amanhecer, onde carros cheios de gente inebriada e lânguida percorrem a cidade, fechando um bar aqui, abrindo um bar acolá, onde as contas são pagas sem ser conferidas, onde as histórias são contadas dezenas de vezes, onde as gargalhadas se misturam na mesma algazarra que ora parece melodia, ora raiva, ora terror.









sábado, 17 de agosto de 2013

3267) Armagedon das abelhas (17.8.2013)




Na Bíblia, as pragas do Egito e outros fenômenos apocalípticos envolviam manifestações de caos no mundo dos animais e dos insetos (pragas de gafanhotos, rãs, etc.). Na vida real, são as abelhas que estão dando o alarme. Falei em 2007 aqui nesta coluna (“A debandada das abelhas”: http://bit.ly/11PVSo9) sobre o fenômeno da “Desordem do Colapso das Colônias”, que nos últimos seis anos dizimou cerca de 10 milhões de colmeias. Estudos recentes indicam que o pólen recolhido por essas abelhas está contaminado por um verdadeiro coquetel de pesticidas; já foram descobertos 21 agrotóxicos diferentes em uma única amostra.

Os cientistas dizem que a absorção de fungicidas era considerada inofensiva para as abelhas, pois eles se dirigem contra a população de fungos. A gravidade da situação trouxe um elemento de tensão a mais entre a Rússia e ao EUA. A Rússia questiona o uso de inseticidas chamados “nicotinóides”, que, afetando a população das abelhas, pode desequilibrar a cadeia ecológica e comprometer a produção de alimentos do mundo inteiro. Houve irritação, dias atrás, num encontro entre Vladimir Putin e o Secretário John Kerry. Dois dos principais nicotinóides (Actara e Cruiser) são fabricados pela Syngenta, baseada na Suíça, parte de um grupo que inclui outros gigantes como Monsanto, Bayer, Dow e DuPont e controla quase a totalidade de pesticidas, plantas e sementes geneticamente modificadas.

Críticas pesadas vêm sendo feitas ao governo Barack Obama pela promulgação de leis que liberam as grandes empresas para produzir e comercializar material geneticamente modificado, e pelo fato de que o presidente colocou pessoas ligadas à Monsanto (como Roger Beachy, Michael Taylor e outros) em postos-chave do governo. O peso político dessas empresas, e o modo como seus lobistas estão incrustados em Washington, não permite imaginar que venham a perder influência no futuro próximo.

Sem querer ser apocalíptico, mas as cadeias ecológicas são tão bem encaixadas que não precisa de muita coisa para produzir desastres localizados. Basta lembrar episódios de proliferação descontrolada como a de coelhos na Austrália, de pardais nos EUA, de abelhas africanas nas Américas. A ficção científica já imaginou inúmeros cenários de catástrofes ecológicas globais onde há mais interesse em explorar as consequências do que as causas, mas como ainda estamos na fase das causas, são elas que nos interessam do ponto de vista prático. Com os milhões de toneladas de agrotóxicos despejados no mundo todos os anos, é só uma questão de tempo. A cada década que passa, as possibilidades de um colapso ecológico se multiplicam por todos os lados.


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

3266) "Breaking Bad" final (16.8.2013)



Começou a temporada final do seriado (TV a cabo, HBO) Breaking Bad. O derradeiro capítulo tinha deixado alguns milhões de pessoas penduradas na borda da falésia, ou no parapeito de um arranha-céu. Houve o salto. O vácuo. O negror de um tempo. E de repente o retângulo negro se ilumina. Surge um homem de barba ruiva e óculos, arrombando uma casa abandonada, onde garotos praticam manobras bobburnquistianas numa piscina vazia. Ele invade essa casa onde há um nome próprio cruelmente pichado numa parede interna entre as ruínas, e atravessa uma cenografia que transmite de modo competente a idéia de longo tempo passado. Pega o que tinha ido pegar, e cai fora dali, não sem cruzar casualmente com alguém.

Breaking Bad é história de uma descida ao inferno de um sujeito que acha ter carta-branca para defender sua família. Nerd incurável, o negócio de Walter White não é droga: é planejamento, competência, ciências exatas e – agora, depois de tudo que passou – instinto assassino rumo ao topo do pódio. A lentidão bouleversante da terrível certeza de seu adversário Hank, uns olhos claros como olhos de zumbi de lenta iluminação, depois que caiu a ficha, ou melhor, a tampa de bueiro. O folhear febril dos dossiês, num clip de resumo. Um grande momento de tragédia grega, ou, no mínimo, aqueles momentos em que o personagem descobre o que a platéia já sabia há tempos.

Uma esgrima verbal em normal e itálico num balcão de lava-carros. Skyler vira Mrs. Heisenberg pra cima de uma intrusa. Um interminável diálogo Repo Man entre dois malucos, que pode dar aos detentores da franquia Star Trek pretexto para uma bilionária indenização. Cinco milhões de dólares de mão em mão e ninguém quer, dinheiro de sangue, dinheiro não vale nada mesmo, dinheiro na mão é vendaval. Momentos de tensão. Um ping-pong rápido de grafologia, dedicatórias em plano de detalhe, o espectador, saturado de informação, assinando embaixo de cada desfecho, ou quase todos.


O confronto em que A interpreta uma coisa para B com quem dialoga e outra para a platéia subentendida. O momento do arranque de máscaras de ambos. Hank não é um grande detetive num ranking sherlockiano, mas é um cara pentelho, vasculhador, que tem a intuição correta sobre os crimes que têm acontecido, mas não conseguiu (talvez por cegueira emocional, preventiva) enxergar a verdade que vê agora.  Dois indivíduos, um que se defende como um tigre, outro que tem todos os motivos para o ódio e a vingança, cada qual com a família do outro nas mãos. Momento sertanejo, com “slide guitars” tipo Sérgio Leone, num hardboiled bolañesco em Albuquerque, Estado do Novo México.


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

3265) Os ensaios de Wallace (15.8.2013)





Este volume de ensaios de David Foster Wallace (Cia. Das Letras, 2012) tem um título que parece uma correntinha de clips: Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo (tradução satisfatória para o original: “Getting Away from Already Pretty Much Being Away From It All”). A tradução é de Daniel Galera e Daniel Pelizzari, que cortam um dobrado, com competência, para traduzir a prosa errática, precisa, absurdista de Wallace. O livro tem ensaios variados: um texto curto e perceptivo sobre o humor na obra de Kafka; uma análise em câmera lenta e stop motion dos prodígios que Roger Federer realiza numa quadra de tênis; uma aula magna em que ele diz aos estudantes, basicamente, que a vida é chata, e que cabe a nós torná-la excitante e maravilhosa através do esforço conjunto da imaginação e da vontade; uma reportagem gastronômica que desanda num questionamento do nosso direito de matar lagostas em água fervente.

Wallace é uma mistura de satírico feroz e humanista compassivo, tão frequente na literatura dos EUA. Ele consegue, num mesmo parágrafo, mostrar todo o ridículo do comportamento de um grupo de pessoas e ao mesmo tempo nos despertar uma certa simpatia por elas. Isto é mais visível nos dois primeiros (e mais longos) ensaios do livro. O primeiro, que lhe dá o título, é sua cobertura da Feira Estadual de Illinois, uma dessas feiras agro-industriais-precuárias que misturam comércio e lazer. Eu gostaria de ver o choque cultural que esse texto produziria num habitante de um grotão qualquer, alguém que não vê TV e tem apenas uma vaga idéia do que sejam os EUA. O próprio Wallace, que passou a infância e a adolescência em Illinois, quase se apavora diante daquele evento de desbragado consumismo, mau gosto, glutoneria, tacanhice, ostentação kitsch e ingenuidade caipira. E ao mesmo tempo ele parece estar pondo o braço sobre os ombros do leitor e dizendo: “Pssst... nós também somos assim”.

O outro ensaio é “Uma Coisa Supostamente Divertida que Eu Nunca Mais Vou Fazer”. Outra reportagem encomendada, desta vez sobre um cruzeiro num navio de luxo pelo Mar do Caribe, em “uma entre as mais de vinte linhas de cruzeiro que operam atualmente a partir do sul da Flórida” (o ano era 1995, mas ouvi relatos recentes de uma viagem assim; não mudou muita coisa). Comentarei em detalhe esse texto numa próxima coluna, mas basta lembrar que Wallace, até por não ser um jornalista, e sim um escritor, mergulha nessas empreitadas de corpo inteiro e alma aberta, e equilibra de maneira prodigiosa o olho atento, o espírito incrédulo, o humor ferino e uma prosa permanentemente criativa sem traços de beletrismo.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

3264) Pentagrama misterioso (14.8.2013)




Assim como os cristãos têm uma tendência a ver a figura de Jesus em manchas de infiltração na parede, pedaços de pão cobertos de mofo, carapaças de caranguejo e outros suportes improváveis, o pessoal das Teorias da Conspiração costuma enxergar Satanás a torto e a direito. O ótimo site “io9” publicou há pouco as fotos de um local no Cazaquistão onde teria sido avistado “um Pentagrama diabólico” traçado em escala gigantesca na paisagem. Quem vê essas coisas, provavelmente, são adolescentes e aposentados com tempo para passear o dia inteiro no Google Earth e descobrir coisas suspeitas na paisagem, assim como tem gente que passa o dia inteiro filmando o céu e encontrando objetos que voam e que eles não são capazes de identificar.

Pentagrama, ou pentáculo (também pentaclo) é o termo que descreve a estrela de cinco pontas, às vezes inscrita num círculo. É essa a imagem que o pessoal flagrou no Google Earth, de uma altura de 400 metros ou 1.200 pés. (Aqui: http://bit.ly/1crYTRs.) Autoridades do Cazaquistão explicaram que se trata de um parque circular, cortado por alamedas (margeadas por algumas árvores, bem visíveis na foto) que traçam a forma de uma estrela. Como a obra data dos anos da União Soviética, é normal o uso da estrela, bastante comum em bandeiras e símbolos da época.

Teorias conspiratórias e místicas fazem o tempo todo esse tipo de leitura de formas e números elementares. A estrela de cinco pontas pode ser um símbolo satânico, mas pode ser também a estrela soviética, a estrela da Texaco, a estrela do xerife do faroeste, a estrela dos Tupamaros, e mais uma porção de coisas. (Algum tempo atrás, alguém descobriu pentagramas no mapa de Washington D.C.; qualquer cidade com traçado paralelo e avenidas oblíquas pode estar coberta de pentagramas, dependendo do ângulo de inclinação dessas diagonais.) Pessoas com manias de números atribuem sentidos cabalísticos ao 3, ao 7, ao 12 e assim por diante, e não lhes faltam exemplos, porque não nos faltam milhares de casos em que esses números aparecem, por serem números básicos. (Quero ver gente me apontar a presença reiterada, na natureza ou na cultura, de números como o 611 ou o 1573.)

Formas geométricas básicas estão por toda parte. A pirâmide, o círculo, a espiral, a cruz (ou o X)... Quando não estão na natureza estão na cultura, porque resultam das nossas experiências visuais mais simples de desenho, de produção de símbolos. Cada um vê nessas formas o que sua cultura lhe ensinou a ver. Antes do século 20, a suástica era um símbolo presente em decorações, em vasos, em insígnias religiosas. O nazismo a contaminou de horror e de opróbrio.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

3263) Paulo César Pinheiro (13.8.2013)





Cerca de duas mil músicas compostas, mais de mil gravadas: Paulo César Pinheiro é um dos grandes compositores da MPB. Tido, em geral, apenas como letrista, por ter sido assim que começou, depois passou a compor melodias próprias, gravou discos cantando, publicou livros de poemas e um romance. É um desses compositores cuja obra sustentaria a programação inteira de uma rádio, e de quem seria possível criar uma lista de dezenas de sucessos para surpreender o público dizendo: “todas estas músicas são do mesmo autor”.

Histórias das Minhas Canções (Editora LeYa, 2010) reconstitui a história por trás de algumas dessas canções. Às vezes é o processo criativo que Paulo César desvenda, o modo como uma idéia inicial vai se transformando em palavras e estas vão puxando novas idéias para dentro. Outras vezes é a história em torno da canção: o que motivou os parceiros, as circunstâncias da composição, etc. Às vezes uma música fica vários anos sem ser terminada, esperando um verso, um refrão. Outras vezes é feita em poucos minutos; muitas vezes (no caso de PCP) para responder um desafio tipo: “duvido você botar letra nessa melodia agora mesmo”.

Encontrei nesse livro a história de alguns grandes clássicos da minha memória afetiva pessoal (“Canto das Três Raças”, “Pesadelo”, “Lapinha”, “Tô voltando”, “Vou deitar e rolar”...). Algumas canções marcantes que ajudaram a consagrar o poeta (“Espelho”, “Além do espelho”, “Um ser de luz”, “Cordilheiras”...). As parcerias com Lenine (“Candeeiro encantado”, “Leão do Norte”). As canções de sensibilidade cósmica (“As Forças da Natureza”) e de futurismo apocalíptico (“O dia em que o morro descer e não for carnaval”). Um repertório gigantesco que começa com o samba, mas se amplia em todas as direções a partir do samba.

Fiquei conhecendo algumas letras extraordinárias, cuja música completa pretendo rastrear no YouTube. E algumas experiências lúdicas como “De palavra em palavra”, montada com linhas das canções de João Gilberto, e “Nonsense”, montada com frases em português que também podem ser ouvidas em francês (“Longe / l’ ange / tentar- / tant tard / -se persuadi-la / se perds soir d’île..”). Filho de um paraibano de Campina Grande, Paulo César Pinheiro tem um veio profundo ligado com o Nordeste, outro com a África e a cultura africana, mas é acima de tudo um menino nascido perto da Praia de Ramos e que aprendeu a fazer samba na Mangueira. Seus versos têm a técnica impecável dos eruditos e o suingue imprevisível  da cultura oral, da fala das esquinas, da gíria das ruas; os versos como jangadas acompanhando o ondear das águas da melodia e do batuque.


domingo, 11 de agosto de 2013

3262) Editores (11.8.2013)




(by Arcimboldo)

Autores vivem reclamando que as editoras precisam “prestigiar o autor nacional”. Essa queixa deveria ser dirigida não às editoras comerciais, mas aos programas de formação de bibliotecas, por exemplo. (Os quais, aliás, prestigiam bastante.) Uma editora particular é um risco auto-sustentado. Os livros precisam pagar as despesas materiais da editora, e dar um lucro que possibilite ao editor as duas coisas que se faz com lucro: botar uma parte em sua conta pessoal e reinvestir outra parte.

Administrar uma editora não é diferente de fazer filmes ou manter um jornal. Há um trabalho artístico ou de comunicação a ser realizado, mas isso precisa render dinheiro, a menos que todos os envolvidos tenham outra fonte de renda e façam aquilo apenas por realização pessoal. Todo editor sonha que lhe caia nas mãos um livro que venda muito, que em pouco tempo multiplique seu capital e lhe permita reinvestir na estrutura física da editora: melhores salas, melhores computadores, profissionais mais qualificados, com melhores salários, etc. E também reinvestir nos autores – publicar livros com menor apelo comercial, mas de que a editora gosta, e acha que vale a pena revelar. O que um editor não deveria fazer é apostar todo seu capital apenas em livros difíceis, ou apenas em autores desconhecidos, ou apenas em autores ainda imaturos mas que são primos da namorada ou cunhados do irmão dele.

Se eu fosse editor, procuraria títulos que pudessem se pagar rapidamente, e que fossem marcantes de alguma forma, para chamar a atenção para o nome e o catálogo da editora. Às vezes, editoras pequenas surgem do nada e se tornam grandes porque descobriram um filão editorial a que ninguém estava dando muita atenção. Outras vezes, um editora pequena emplaca um best-seller, ganha rios de dinheiro, mas o proprietário, em vez de reinvestir, gasta tudo em carros de luxo e cruzeiros marítimos, e se apavora quando o segundo livro lançado não rende tanto quanto o primeiro.

“E o editor grande, que teria cacife para bancar o jovem autor?”, pergunta alguém. A resposta é que isso é uma possibilidade, mas cada editor só publica o que gosta. Se eu for dono de uma editora ninguém pode me obrigar a publicar um livro que eu (=minha equipe) ache ruim ou desinteressante. Se o livro não é bem escrito ou não tem um tema que valha a pena, por que eu o publicaria? Que o autor bata em outra porta. Por outro lado, acho meio covardes os editores que dizem: “Seu livro é excelente, mas não publico porque acho que vai vender pouco.” Se ele gosta e não publica, a única desculpa possível é que já esteja endividado demais e não queira correr o risco de aumentar o prejuízo.

sábado, 10 de agosto de 2013

3261) História de um Brasil (10.8.2013)




Nossa fantasia de ascensão social, cem anos atrás, no que foi chamado a “Belle Époque” carioca, era em torno de uma fantasia vagamente aristocrática, imitação de uma aristocracia vista e interpretada à distância, por sinais exteriores que tanto podiam sugerir refinamento quanto frivolidade, tanto nobreza de princípios quanto brutalidade de processos. Nos anos 1880, uma certa classe média urbana tinha Paris como norte magnético, e como ideologia um Iluminismo pragmático, e tentava transpor para a convivência republicana os investimentos acumulados na monarquia. Trocava-se o veículo na esperança de se conseguir manter o trajeto; o discurso, como se dá em tantas revoluções ou golpes de Estado, ganhava um tom de triunfalismo, que serviu naquele momento para fomentar a ilusão de que grandes mudanças estavam ocorrendo no país.

A abertura de portas promovida pela República, a mudança parcial nas regras do jogo e a presença de novos jogadores na mesa (principalmente os militares) ajudou a cultivar a sensação de que o país mudara, embora a mudança mais perceptível só ocorresse com o populismo da ditadura Vargas, que se manteve no poder pagando uma parte da dívida social que a primeira República assumira e vinha administrando em banho-maria.

A segunda metade do século 20, partido ao meio pela II Guerra, trouxe uma mudança no andar de cima, com a hegemonia cultural norte-americana sucedendo à européia. O Norte magnético deixou de ser Paris ou Lisboa, transferiu-se para Nova York ou Hollywood, e desta vez a invasão tecnológica (cinema, rádio, TV) passou o rodo nas ruínas da mentalidade aristocrática. Sem extingui-la de todo, o que talvez seja impossível: subsiste em bolsões urbanos afluentes e no avesso-da-costura representado por um certo tipo de feudalismo rural à moda antiga, que por sua vez está sendo empurrado para os recantos do mapa por um ruralismo predatório, impessoal, expansão da mentalidade urbano-industrial, impiedosa, voraz, mas que pelo menos se justifica, diante do delírio financeiro transnacional, com o álibi da produção de alimentos e da geração de empregos.

O lema utópico da bandeira positivista, “Ordem e Progresso”, revelou aos poucos sua verdadeira natureza: “Controle Ideológico e Acumulação de Capital”. A fantasia de ascensão social de hoje dispensa o aristocratismo, o refinamento, o iluminismo. Em seu extremo mais saudável, resume-se a trabalho honesto e consumo conspícuo. No extremo oposto, é a filosofia de enriquecimento a qualquer custo, a demonstração constante do poder do dinheiro, e o desprezo acintoso por qualquer atividade que não envolva grandes lucros ou generosas despesas.