quarta-feira, 19 de junho de 2013

3216) O Inominável (19.6.2013)





Dá pra pensar em dois escritores mais diferentes do que H. P. Lovecraft e Samuel Beckett? Eu diria até que a zona de intersecção entre o universo de leitores de um e de outro é bastante estreita. 

Pode até haver gente que tenha lido alguma coisa de um e alguma coisa do outro, mas gente que conheça bem (e admire) a obra de um e de outro é uma arquibancada meio vazia.


“Estávamos sentados sobre um arruinado túmulo do século 17, ao fim da tarde de um dia de outono no velho cemitério da cidade de Arkham, e estávamos especulando sobre o Inominável”. 

Assim começa um conto de Lovecraft, “The Unnamable” (1939). Expressões como inominável, indizível, sem fala, etc são frequentes no terror lovecraftiano, que despeja sua descarga numa medula pré-verbal que todos nós temos e que não é comandada pela linguagem, pelo menos a linguagem com que nos defendemos da realidade durante o dia a dia.  

Anne Sexton, numa carta de 1963, dizia: 

“As palavras me incomodam. Acho que é por isso que sou poeta. Eu fico me forçando a falar das coisas que permanecem mudas dentro da gente. Meus poemas só chegam quando eu já quase perdi a capacidade de articular uma palavra. De falar, de certo modo, do infalável. Produzir um objeto a partir do caos... Para dizer o que? Um último grito no vazio”.

Ninguém celebrou o Inominável tão bem quanto Samuel Beckett, cuja obra parece uma tentativa de recobrir com linguagem incompreensível a falta de sentido da existência humana. 

L’Innomable é um romance de 1953, que de romance só tem mesmo a designação, porque os críticos se divertem sugerindo novos nomes de gêneros literários para incluir obras assim, monólogos aparentemente desconexos em que a mente do narrador dá voltas e mais voltas sobre si mesma, narrando ações que talvez sejam imaginárias ou descrevendo ambientes que talvez não existam. Personagens sem nome, ou que mudam de nome no meio da história, ou que afirmam ser falso seu nome.

O inominável de Lovecraft é o horror monstruoso. Em certo momento percebemos que o mundo hospeda criaturas poderosas e malignas que se divertem destruindo seres humanos fisicamente, ou levando-os à loucura. 

O inominável de Beckett é o horror existencial. Em certo momento percebemos que o mundo não hospeda nada além da cortina de aparências materiais de que é feito. A relação entre as coisas e a linguagem é uma mera convenção, porque todas as coisas, em sua essência, são inomináveis, são uma existência pura, selvagem, monstruosa. 

Guimarães Rosa registra, entre os muitos nomes do Diabo, o Não-Sei-Que-Diga. É algo forte demais, pesado demais, capaz de rasgar qualquer invólucro verbal com que se procure contê-lo.








segunda-feira, 17 de junho de 2013

3215) Não são 20 centavos (18.6.2013)




Tudo indica que esta semana também vai ser de gente protestando nas ruas e a polícia descendo o cassetete. Dizem as autoridades e uma parte da imprensa que as manifestações têm como objetivo o vandalismo. É mentira. Vândalos e desordeiros se infiltram em qualquer multidão, até em torcida de futebol comemorando título. Alguns são manifestantes que querem sinceramente protestar mas também aproveitam para descarregar a raiva em vidraças e lixeiras. Outros são os habituais arruaceiros inimigos infiltrados, agindo contra a manifestação para sujar sua imagem. (É o que em política partidária se chama a “turma da pesada”, que ganha para ir aos comícios dos adversários e aprontar confusão.) E existem baderneiros que nem sabem do que se trata, não estão nem aí para o motivo da passeata, querem apenas a adrenalina do confronto e da depredação. Nenhum protesto de rua consegue se vacinar totalmente contra esses três tipos, mas isso não é motivo para proibir os protestos.

Protestos na rua não agradam a todo mundo. Causam transtorno, sim. Já fiquei preso no trânsito, já perdi compromisso, já me prejudiquei. Quem está numa ambulância pode se prejudicar mais ainda. Mas a verdade é que certas mudanças só acontecem depois que o caldo entorna. Autoridades são meio surdas, não escutam indivíduos, mas escutam multidões. Se um governo pudesse apertar um botão e acabar com as passeatas, qualquer um deles – direita, esquerda, centro – faria isso. Governo não gosta de protesto, gosta de voto.

O aumento nos preços das passagens coincide com muitos outros problemas (educação, segurança, moradia, meio ambiente, saúde) e, numa conjunção perversa, com a Copa das Confederações. E aí fica insultantemente visível o compromisso dos nossos governos (federal, estaduais, municipais) e todos os partidos com o capitalismo internacional, representado neste caso pela Fifa. O povo gosta de futebol, mas não gosta do modo sobranceiro, arrogante e acintoso com que a Fifa entra na casa alheia ditando ordens, impondo seus esquemas de exploração comercial, tratando nosso governo e nosso povo como capachos.

A Fifa e seus estádios de um bilhão de reais, que vão ficar às moscas depois da Copa do Mundo, deixando, como sempre, buracos irremediáveis nos orçamentos, e ajudando o Brasil a subir no ranking da “Forbes” dos “países com maior número de milionários” – acho que ganharemos mais algumas centenas deles depois destas Copas. Não, o problema não são vinte centavos, são bilhões e bilhões de reais, trilhões talvez, que existem, foram pagos, e deveriam estar tendo outra utilização. Mas os governos só escutam quando há milhões de pessoas nas ruas dizendo a mesma coisa.


domingo, 16 de junho de 2013

3214) Bloomsday (16.6.2013)






(Joyce, por Charles Burns)



O Bloomsday, comemorado em 16 de junho, é o dia das homenagens, libações e brincadeiras dedicadas à memória de James Joyce (1882-1941). 

Para os que não sabem, é o dia em que ocorre a ação completa do romance mais famoso do escritor, o Ulisses (1922). Ele quis celebrar o dia de seu primeiro encontro com sua futura esposa, Nora Barnacle, e com isto consagrou o 16 de junho como um dos dias mais famosos da literatura.

Ulisses já tem três traduções brasileiras, as de Antonio Houaiss, Bernardina Pinheiro e Caetano Galindo, mas as obras mais acessíveis do autor são Dublinenses e Retrato do Artista Quando Jovem

Joyce criou para si (ajudado por discípulos, exegetas e herdeiros) um mito complexo que atraiu pessoas diferentes por motivos diferentes. Ele é o Gênio Incompreendido, o Quase-Cego Que Sabia Tudo De Cor, o Escritor de Textos Indecifráveis, o Poeta Ribaldo do Submundo, o Erudito Sem Disciplina. 

Era cheio de facetas inconciliáveis, e seus seguidores às vezes se acusam mutuamente de estarem distorcendo seu pensamento ou de “não terem entendido” sua obra.

Quem quiser estudar mais a fundo o Ulisses, tem muitos caminhos. 

O saite “Notes on Ulysses” de Gerry Carlin e Mair Evans (http://bit.ly/ok9mzM) é um índice comentado de todos os episódios do livro, e ajuda o leitor a se orientar na leitura e na busca de referências.  

O guia de John P. Anderson (http://bit.ly/192MS0L) oferece 25 páginas grátis e as 613 páginas (em PDF) por 17 dólares; dá pra conferir se vale a pena.  

“Ulysses: The Classical Text” (http://bit.ly/wjCd2R) é um saite com facsímiles de documentos sobre as querelas editoriais, jurídicas e autorais do livro, bom para quem quiser se aprofundar nessa história tão espinhosa. 

“Ineluctable Modality” (http://bit.ly/12DXV1s) é um saite dedicado a imagens de diversos artistas (britânicos, na maioria) inspirados pela obra de Joyce.

Por outro lado, “James Joyce Music” (http://bit.ly/cT6MFm) é dedicado a todas as aparições de música nas obras de Joyce (que tocava violão e gostava de cantar cançonetas obscuras); é possível adquirir o CD. 

Se você quer ler Ulisses mas se perde na geografia, o “Mapping Bloomsday” (http://bit.ly/y5Zd3I) dá um auxílio cartográfico bastante útil. 

Uma medida do sucesso de Joyce é a existência deste saite (http://nyti.ms/12jSByT), que reúne tudo já publicado sobre ele no New York Times a partir de 1919. 

E finalmente o saite The Modern Word (www.themodernword.com), do qual sou colaborador (e de onde retirei estes links), tem a página “The Brazen Head” com uma espantosa quantidade de material de e sobre Joyce, sua vida e sua obra. Sendo assim... Cuidado na vida, e mãos à obra!








sábado, 15 de junho de 2013

3213) Drummond: "Quero me casar" (15.6.2013)



(Drummond, por Glen Batoca)

O tema do amor na poesia de Drummond tem dois tratamentos principais, o profundo e o brincalhão. Somente com o livro póstumo O Amor Natural o poeta revelou um terceiro caminho que corria por fora, o do tratamento erótico. Em Drummond coexistiam um filósofo desencantado com o mundo e um guri sempre disposto a travessuras. Isso se manifesta em seu tratamento de temas como o amor, o namoro, a paixão, o casamento, o sexo –  palavras que não são sinônimas entre si, como geralmente se imagina.

“Quero me casar” é um dos poemas travessos mais simples do poeta: “Quero me casar / na noite na rua / no mar ou no céu / quero me casar. //  Procuro uma noiva / loura morena / preta ou azul / uma noiva verde / uma noiva no ar / como um passarinho. / Depressa, que o amor / não pode esperar!”. Essa dicção pseudo-naïf se refinou em poemas mais maduros, e igualmente desconcertantes, como “O Mito” (“Sequer conheço Fulana...”), “Canção para Álbum de Moça” (“Bom dia: eu dizia à moça / que de longe me sorria”), “Amar-Amaro” (“Por que amou por que amou / se sabia / proibido passear sentimentos...”), “O amor bate na aorta” (“Cantiga do amor sem eira / nem beira...”), “Caso pluvioso” (“A chuva me irritava. Até que um dia / descobri que maria é que chovia”), e outros.

Todos estes poemas se dividem entre paixão e distanciamento, desespero e gozação, carência e ironia, ajoelhamento devoto diante da amada e cambalhota esperta pra longe dizendo “eu, hein?”. No final ora predomina um, ora o outro, outra se travam num empate, ou num impasse. Amor e humor são misturados como café e leite. E isto lembra o famoso micro poema de Oswald de Andrade, tão citado como símbolo do Modernismo: “AMOR / humor”. Uma palavra é o título, a outra é o poema. Oswald parece sugerir que o amor verdadeiro não é outra coisa senão o humor, neste caso (imagino) a capacidade de rir das coisas e rir das mesmas coisas, de pensar em uníssono, num “matrimônio de mentes sinceras” (como dizia Shakespeare). Na mão de Drummond, o amor inclui o humor, mas não como sua essência, e sim um “poder moderador”. Ele nos salva do amor mal compreendido e mal utilizado, o amor sombrio demais, destrutivo demais, o amor diluído em água com açúcar ou o amor de toxinas concentradas em veneno.

A receita de Drummond exprime, melhor do que a de Oswald, a flechada-no-coração que o Modernismo desferiu no Romantismo. A noção de amor do Romantismo foi um episódio psicótico na história da cultura. O Modernismo foi uma espécie de terapia de choque, sacudindo o paciente e dizendo “meu amigo, caia na real!”. A luta entre os dois não acabou, mas o fato de haver pelo menos uma alternativa já é um avanço.


sexta-feira, 14 de junho de 2013

3212) Os Manipuladores (14.6.2013)




Não sei a quem coube a escolha de nosso trio para trabalhar um personagem como Mr. Morris Sternson, secretário do Athletic Club de Londres. Um caráter pesadão, com pouco jogo de cintura, uma vida totalmente careta e inatacável. Seria difícil torná-lo possível de praticar o Tresloucado Gesto. O Roteiro exigia que fosse ele o autor de um atentado político, aos 42 anos, mas quando ele nos foi entregue já estava com mais de 30 e tendo passado por várias equipes. Nosso grupo era novo; queríamos mostrar uma certa virtuosidade, queríamos nos exibir um pouco. Aceitamos.

Nas três horas de tutorial percebemos que tinham deixado o algoritmo dele se cercar de loops intransponíveis, e ter criado níveis de defesa nunca vistos. Ao que parece deram-lhe alguma autonomia, pensando com isto dar-lhe liberdade; mas ele usou a autonomia para se encouraçar, se entrincheirar por trás de fractais sucessivas de si mesmo. Foi MC Seven que teve a idéia de desequilibrá-lo mentalmente, e eu complementei: “Melhor que loucura: minar seu senso de realidade”, para, quando chegado o momento do Tresloucado Gesto, ele estivesse fácil de induzir.

Aos 33 anos conseguimos apresentá-lo a um mesmerista (na casa de Sir Elroy, que ele muito reverenciava), a uma poetisa surrealista (que demos um jeito de introduzir em sua casa como amiga de sua esposa) e a um filósofo. Em poucos meses ele indicava melhoras e ao fim de um ano e meio estava envolvido com tertúlias teosóficas, e frequentava o chá do Bleeding Gate, um pub de existencialistas irlandeses. D8 Blue ironizou, disse que desse jeito Mr. Sternson iria praticar um gesto ainda mais tresloucado um ano antes do devido. Eu descobri que uma livraria próxima ao Club tinha livros de Philip K. Dick, traduções de Fernando Pessoa. Conseguimos fazer com que a frequentasse e por fim chegasse aos livros.

Dois meses antes do dia em que deveria cometer o Tresloucado Gesto, Mr. Sternson tinha separado da esposa, transformado em cash quase todos os imóveis e letras de câmbio que possuía, e tinha criado num subúrbio londrino um templo de onde era o teólogo e o contabilista. Criou uma seita que seguia os princípios da metafísica do Bispo Berkeley misturados ao “laser lilás” de P. K. Dick.  O dia do Tresloucado Gesto passou em brancas nuvens. Nada aconteceu ao potentado que nessa ocasião (como sabiam todos os Manipuladores do Futuro) ficou dez minutos vulnerável, fora das vistas de sua escolta, graças ao caos do trânsito londrino após o Blecaute. Nunca mais na História seria tão fácil mudar a História. Mas o Futuro estava jogando-se todo nessa tentativa, e voltaria a tentar. Cedemos a vez ao próximo desafiante.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

3211) Contracapa de Android (13.6.2013)




(by Catrin Arno)

&  estou inventando um espantalho eletrônico para afugentar spam  &  uma caveira com os olhos intactos nas órbitas  &  ele apostou comigo que seria capaz de musicar um livro de Clarice Lispector  &  um cardume de peixinhos virtuais flutuando à toa pela sala quando a TV entra em standby  &  às vezes a gente deseja até a III Guerra Mundial contanto que não tenha de entregar aquele texto na segunda-feira  &  no futuro o GPS dos taxistas será fornecido por uma franquia do Grand Theft Auto  &  eu escrevo mais concentrado do que ciclista descendo ladeira  &  toda tartaruga tem dentro do casco uma sala com poltrona, luminária, lareira e uma estante cheia de clássicos encadernados  &  um leque de papel de seda em chamas, e a madame se abanando nem aí  &  serpentes com serpentes menores dentro de si como bonecas russas  &  tinha uns olhos de quem sobreviveu a alguma coisa séria  &  na parede, o retrato emoldurado de um time com uma das silhuetas faltando  &  bendita a certeza de que um dia terei esquecido o que hoje me atormenta  &  a diferença entre a humanidade e os lemmings é que a humanidade explica por quê corre tanto  &  não sei o que é pior, se o primeiro dia num emprego ou se o último  &  dividir o tempo em dias, meses e anos é como dividir o mar com cordões esticados  &  um câncer não é muito diferente de uma pérola  &  escrever é desenterrar ruínas de si mesmo  &  saudade dos meus trinta anos, quando eu via alguém sofrer e não sofria  &  tô como cego em tiroteio, me desviando quando sinto o calor da bala  &  ainda deve existir algum país onde se publica anualmente um catálogo com o email e o celular de todos os seus habitantes  &  numa discussão de casal a letra perde logo o sentido e tudo que importa é domesticar a melodia do outro  &  nem todo poema contém poesia, assim como nem todo ruído é música  &  valei-me Nossa Senhora dos Desafogados  &  minha coluna dói tanto que não sei como não acorda todos os moradores do edifício  &  aquele momento de prazer indescritível quando alguém termina de fazer uma pergunta cuja resposta a gente sabe  &  um telefone toca no necrotério e ninguém levanta para atender  &  o pé de coelho não deu muita sorte ao coelho de onde saiu  &  um temporal daqueles que lavam a cidade e a deixam ainda mais suja  &  tem sujeito capaz de desenterrar uma pirâmide mas que não tem paciência para limpar a terra de um caco de cerâmica  &  um rei vestindo paletó e gravata equivale a um palhaço vestindo paletó e gravata  &  e lá vou eu mundo afora com meu apito de chamar peixes, minha pedra de guardar palavras, minha parede de acordar o sol  &  



quarta-feira, 12 de junho de 2013

3210) A Tragédia dos Tronos (12.6.2013)




A série Game of Thrones pôs no ar recentemente o episódio “The Rains of Castamere”, que produziu um choque considerável no público. Sem revelar muitos detalhes, posso dizer que o episódio mostrou a morte violenta, em circunstâncias especialmente cruéis, de personagens muito queridos pelo público. Perdi a conta dos twitters e dos posts que vi, de pessoas reclamando em altas vozes (e muita gente chorando, com sinceridade) a morte dos personagens.  E uma queixa se repetia, em cada voz, em cada nome: “Odeio você, George R. R. Martin... Nunca mais quero assistir essa série de novo...”

E no entanto tenho certeza de que quase todos voltarão a assistir essa série que já matou outros personagens queridos e que a esta altura já deixou claro, mesmo para o mais obtuso dos espectadores, que vai matar muitos mais. Porque uma coisa de que mesmo o espetáculo popularesco não pode abrir mão é a tragédia. Por que motivo as platéias de Shakespeare gostavam tanto daquelas histórias onde nada dava certo, onde pessoas boas morriam mortes cruéis, onde namorados simpáticos por quem todo mundo torcia acabavam se matando por causa de um mal entendido?  Por que aquelas platéias rudes e ignorantes de meio milênio atrás voltavam para casa satisfeitas, após uma catarse tão deprê?  Que tipo de diversão é esse?

Disse o autor de A Song of Ice and Fire (o ciclo dos romances em que se baseia Game of Thrones): “As pessoas lêem livros por motivos diferentes. Alguns lêem para o seu conforto. E alguns dos meus ex-leitores disseram que sua vida é dura, a mãe está doente, o cachorro morreu, e eles lêem ficção para fugir. Não querem ser atingidos na boca por algo horrível. Quando se lê um certo tipo de ficção, onde o cara vai sempre ficar com a garota e os mocinhos vencem no fim, isso reafirma a você que a vida é justa. (...) Mas isso não é o tipo de ficção que eu escrevo, na maioria dos casos. Certamente não é o que ‘Ice and Fire’ é, que tenta ser mais realista sobre o que é a vida. Ele tem alegria, mas também tem dor e medo. Acho que a melhor ficção captura a vida em todas as suas luzes e trevas”.

Uma das funções da tragédia é restituir à arte a possibilidade de parecer com a vida. Sem os finais trágicos de uns filmes, os finais felizes dos outros se diluiriam entre si, numa só névoa de perfume barato. A tragédia de Romeu e Julieta precisa estar sempre visível no horizonte, para que cada filmezinho de amor com Hugh Grant e Julia Roberts possa ter seu final feliz, aquele final que nos garante que, daquela vez, a vida real ficou do lado de fora e não pôde entrar. A vida real que é sinônimo da inevitabilidade da morte.


terça-feira, 11 de junho de 2013

3209) A piada do incêndio (11.6.2013)



Analisar piadas é uma espécie de tarefa impossível ou de missão inútil. É como dissecar uma mulher bonita ou empalhar raios de sol.

Millôr Fernandes já teve um espaço no Pasquim em que ele reproduzia um cartum qualquer e depois o analisava, sempre começando com: “Evidentemente...” Eram gozações, como se um marciano que nada soubesse da nossa cultura e do nosso modo de ver as coisas quisesse analisar o comportamento de personagens de um cartum.

Mas eu tenho um princípio ideológico que não respeita nem o humor. É esse: “Se achar bom, pare e questione: Por que foi que eu achei bom? Se achar ruim, idem. Se achar engraçado, idem: Por que foi que eu ri?”

Vejam esta piada. Uma menina chega correndo ao quartel dos bombeiros. “Moço, me ajuda, minha casa está pegando fogo!”. O bombeiro responde: “Fique calma! Como surgiu o fogo?”, e a menina: “Na Pré-História, eu não sei exatamente, mas me ajuda por favor!!!”.   Eu ri, mas depois de rir eu sempre faço a pergunta: por que foi que eu achei graça?

Reexaminar suas emoções e reações durante um fato, mesmo fato bobo como uma piada, é um talento que qualquer um pode desenvolver. Ninguém nasce sabendo. Quando li essa piada, ainda há pouco, eu senti um misto de deboche e de piedosa ternura em relação à menina. A casa dela está pegando fogo, mas ela parece viver tão preocupada com as notas da escola que reage à pergunta do bombeiro como se fosse uma pergunta de um professor.

Toda piada (como toda história de mistério, segundo Isaac Asimov) se baseia em um elemento que pode ser visto ou interpretado de maneiras diferentes por diferentes pessoas. Esta piada surgiu quando alguém pensou nos dois sentidos possíveis da frase “como surgiu o fogo?”. Essa frase é o núcleo da piada.

E percebemos que de certo modo nós estamos atribuindo mais gravidade ao incêndio da casa do que a própria menina. O que lembra a frase de Ernesto Sábato, que volta e meia eu cito: “Enquanto o mundo for mundo, sempre haverá um homem que se preocupa com o universo enquanto sua casa pega fogo, e uma mulher que se preocupa com sua casa enquanto o universo pega fogo”.
 
No breve instante da “punchline”, a menina atribuiu valores equivalentes a um e a outro.

O que é tocante e nos enternece é ver o funcionamentozinho da mente ingênua, porque no estado de alarme da garota ela responde como se fosse a coisa mais natural do mundo, ao dar um alarme de incêndio para o bombeiro, ele lhe fazer uma “pergunta de prova oral de História”.

No mundo dela, é melhor responder ao que os adultos perguntam, mesmo que as perguntas deles pareçam uma coisa totalmente inadequada à gravidade da situação.






domingo, 9 de junho de 2013

3208) Fantasia tecnológica (9.6.2013)




Há muitas maneiras de classificar os gêneros literários, e de acordo com o sistema de classificação, a mesma obra pode pertencer a gêneros diferentes. (É como na Física Quântica – mudou o parâmetro de observação, muda o resultado, ainda que o fenômeno seja o mesmo.) 

Vejam Star Wars. É ficção científica, se julgarmos pela presença de espaçonaves, robôs, voos interplanetários. Mas de ciência, mesmo, tem pouquíssima coisa ali. Asimov brincava (afetuosamente) com a série dizendo que ela era a respeito das batalhas de aviões da I Guerra Mundial.

Se começarmos a ler romances à procura de obras que empreguem o método científico (observação, dedução, indução, experimentação, uso do raciocínio lógico) talvez cheguemos à conclusão surpreendente de que o romance policial (o de mistério detetivesco) costuma ser muito mais científico do que a maioria da ficção científica.

Esta se baseia largamente em outras coisas: aventura, imaginação fantástica, plots reciclados da mitologia e das lendas clássicas. Ciência, mesmo? Só na obra de radicais como Greg Bear, Greg Egan ou Gregory Benford (não sei o que têm os Gregs para serem tão cartesianos).

Nos romances de detetives o que vemos é uma aplicação constante, minuciosa e inflexível da lógica científica. 

Indícios são recolhidos e examinados. Detalhes fora do comum são observados e registrados. Hipóteses são formuladas, e, quando é o caso, testadas. Cada hipótese deve ter uma resposta satisfatória para explicar cada indício recolhido (se a vítima foi estrangulada mas há uma mancha de sangue no teto, tem que haver uma explicação para ela).

Um detetive como Philip Marlowe ou o Comissário Maigret não é um físico nem um químico, mas costuma raciocinar com o mesmo rigor, e até mais, se considerarmos que ele lida com as imprevisíveis emoções e reações humanas, para as quais não existem as regras quase absolutas que vigoram nas Ciências Exatas (que aliás são cada vez menos exatas quanto mais as vemos de perto, como sabe quem as pratica). 

O detetive examina indícios em torno de um fato anormal e os compara com a normalidade, para tentar entender o que aconteceu. É tão científico quanto um médico avaliando um paciente novo ou um mecânico de oficina abrindo o capô de um carro que acabou de chegar via reboque. O pensamento que põem em prática é o pensamento científico, com todas as suas vantagens e suas limitações. 

Se procurarmos esse pensamento fora da FC hard, será difícil encontrá-lo, principalmente no cinema. O que existe ali é o bom e velho pensamento mágico revestido de aparato pseudo-tecnológico, pois a maioria daquelas máquinas não funcionaria no mundo real.


sábado, 8 de junho de 2013

3207) Traduzindo Bovary (8.6.2013)




Por que motivo uma obra literária tem que ser traduzida cinco, dez, vinte vezes? A explicação mais à mão é que as traduções anteriores não ficaram boas, e é preciso superá-las, fazer algo melhor. Esse “melhor”, contudo, nunca é unânime. Um livro tido como intraduzível como o Ulisses de Joyce já tem três traduções brasileiras, as de Antonio Houaiss, Bernardina Pinheiro e Caetano Galindo. Cada uma é uma maneira diferente de contar a mesma história.  As anteriores não são boas? Por que não? São apenas maneiras diferentes de dizer. Há leitores, inclusive, para quem o capítulo “X” ficou melhor na tradução de Fulano e o “Y” na de Sicrano. Questão de afinidade com certos estilos, certas propostas linguísticas.

Li uma matéria (http://nym.ag/d20hEK) sobre numa recente tradução em inglês de Madame Bovary, feita por Lydia Davis, que já traduzira Proust (Du coté chez Swann). Flaubert era um perfeccionista neurótico, obsessivo. É lícito imaginar que se ele folheasse qualquer tradução de um livro seu cairia ciscando. Para que traduzir um autor assim? Cada tradutor imagina que entendeu a intenção dele e é capaz de reproduzi-la em sua própria língua. E, afinal, a prosa é mais maleável do que o verso. Traduzir um romance é como fazer a versão de uma canção com licença para mudar a melodia.

Lydia Davis reclama da mania dos tradutores de colocarem coisas que não havia no original. Mostra uma página cheia de marcas a lápis e diz: “São coisas que o tradutor inglês adicionou: ‘dawdled’, ‘slowly’, ‘for their meeting’, ‘pirouetting’, ‘thronging’...” Palavras adicionadas para “esquentar” uma descrição ou para ajudar o leitor a entender melhor o trecho. Ela parece ser da Escola Caxias de Tradução: a editora Viking a fez redigir uma introdução onde explica uma porção de detalhes como letras maiúsculas inexplicáveis, ou tempos de verbo que não batem entre si. Estão no original, e ela insiste em reproduzi-los assim.

Isto é certo? É errado? Michael Dirda, citado na matéria, dizia que se a gente sacudir as páginas de Madame Bovary não cai nada. Que tradução humana pode dizer o mesmo? Temos o direito de tirar o que tinha, botar o que não tinha, com a mera intenção de dizer o que o autor disse? Podemos corrigir as incoerências ou discrepâncias do autor? É certo desmanchar um parágrafo inteiro e refazê-lo de outra forma, porque não está no espírito da língua portuguesa dizer as coisas daquele jeito? Ninguém sabe a resposta, porque resposta não existe, existe somente a necessidade de continuar tentando, e que cada tradução, longe de apenas “superar” as anteriores, aprenda algo com elas.