sexta-feira, 10 de maio de 2013

3182) O sense-of-wonder (10.5.2013)






A expressão “sense of wonder”, um dos conceitos chaves da ficção científica, significa algo como “sentimento ou sensação de maravilhamento, de assombro, de deslumbramento” e busca reconstituir aquela epifania de olhos arregalados dos garotos de 11 anos que pegavam uma revista de pulp fiction como Amazing Stories e se deparavam com histórias sobre fendas transdimensionais através das quais se vislumbrava uma cidade futurista em outro planeta, ou uma máquina do tempo que levava caçadores para safaris jurássicos, ou a descoberta de uma Atlântida viva e florescente sob uma cúpula no fundo do mar, ou sobre três crianças tidas como retardadas que, juntas, compunham a mente mais poderosa da humanidade...

Era a sensação de ser capaz de imaginar um mundo além do mundinho restrito casa-cinema-parque-escola da maioria dos garotos urbanos, ou casa-riacho-cavalos-escola dos garotos rurais. A FC cresceu investindo na receptividade dos adolescentes às idéias malucas, idéias transgressoras, idéias fora de esquadro. Idéias que inquietavam e incomodavam os pais excessivamente preocupados com as notas do boletim e as futuras perspectivas de emprego. Faz parte de ser pai viver assim; e faz parte de ser jovem essa permanente disposição para se maravilhar, se entusiasmar, se apaixonar por idéias arrevezadas, teorias insólitas, enredos mirabolantes. Ser jovem é acreditar que tudo é possível. Quando a gente deixa de acreditar nisso, não importa em que idade, deixou de ser jovem.

Para um adolescente, não há muita diferença entre ler sobre o Budismo ou ler sobre o Mercerismo que Philip K. Dick inventou em Do androids dream of electric sheep?. Não há muita diferença entre EUA & Cuba e os planetas gêmeos (um capitalista, o outro anarquista) de Os despossuídos de Ursula Le Guin. Tudo existe no território impreciso das coisas que acabamos de conhecer. É mentira? É verdade? No momento não importa: importa a emoção vívida da descoberta, aquele “Puxa vida, nunca imaginei que...”, aquela mistura de êxtase, receio, curiosidade, vontade de seguir em frente para ver onde é que aquilo vai dar. Os garotos vão ser cientistas? As garotas vão ser romancistas? Não importa. Seja qual for o seu destino, serão, sempre, pessoas capazes do prazer de imaginar.

As revistas de FC dos anos 1930-40 tinham nomes onde apareciam palavras como “amazing”, “astounding”, “wonder”, “astonishing”, “fantastic”. Tudo que é extraordinário, maravilhoso, deslumbrante, imaginativo podia aparecer naquelas páginas amareladas onde ficou gravado o inconsciente coletivo de meio século de escritores para quem a Terra não era o bastante e o céu não era o limite.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

3181) O Dono do Mundo (9.5.2013)






Nossa literatura sempre gostou de contar a história dos Donos do Mundo. Qualquer cara merecedor desse título, mesmo em escala regional, merece um romance ou um filme 35mm, não é verdade? 

O regionalismo nordestino nos deu inúmeros donos-do-mundo na pessoa dos fazendeiros de Jorge Amado, José Lins do Rêgo, e por aí vai. Cada senhor de engenho ou criador de gado sabia-se dono de um mundo, e como era o único mundo de que ele tomava conhecimento, essa consciência era invulnerável a argumentos.

O Cinema Novo e o Realismo Mágico trouxeram uma dimensão extra a esse mito. O Dono do Mundo deixou de ser objeto de análises e descrições históricas e pulou direto para a categoria de mito, de lenda, de personagem maior-que-a-vida. 

Em O Senhor Presidente de Astúrias, O Outono do Patriarca de Garcia Márquez, Cabeças Cortadas de Glauber Rocha e inúmeras outras obras o Dono do Mundo é um indivíduo neurótico, desmedido, imprevisível, alucinado... 

Como os deuses bêbados das antigas mitologias, ele detém o poder total sobre nosso mundo mas não tem o menor controle sobre as próprias emoções. Como os reis bêbados (nos quais, certamente, o conceito antigo de Deus se inspirou), podem nos dar hoje a fortuna, amanhã o cadafalso, e depois de amanhã chorar nossa ausência.

A ficção científica está transpondo esse conceito para os ricos do nosso tempo. São aqueles bilionários, CEOs de megacorporações, políticos, altos funcionários, etc., que praticamente vivem em seus jatinhos, saltando de capital em capital e costurando a rede das finanças globalizadas. 

São o Hubertus Bigend dos livros de William Gibson, o governador Huey Hugelet de Bruce Sterling, o Weyland (Guy Pearce) do filme Prometheus... Não são indivíduos onipotentes, por mais poderes que tenham. São guerreiros envolvidos em conflitos que nós, formiguinhas perdidas na poeira das ruas, mal somos capazes de vislumbrar.

Ninguém melhor do que a FC para recuperar a aura mítica, surpreendente, aterrorizante e fascinante, daqueles ditadores latino-americanos “capazes de horrores e de ações sublimes”. 

São personagens de estatura mítica pela dimensão cósmica de sua ambição, crueldade, esperteza, magnetismo. Um pouco semideuses, um pouco super-heróis, não têm poderes de natureza física como Superman. Seu poder é totalmente social (os cargos que ocupam) e psicológico (as qualidades que têm). Projetamos neles nossos medos e nossas ambições. 

Eles são, de certo modo, o que qualquer um de nós seria se de uma hora para outra se tornasse bilionário, poderoso, influente, respeitado, paparicado. A FC é a única literatura que pode descrever adequadamente os Donos do Mundo de nosso tempo.









quarta-feira, 8 de maio de 2013

3180) Um gringo e o Brasil (8.5.2013)





Gosto de registrar aqui na coluna maneiras alheias de ver o Brasil, principalmente quando são estrangeiros que observam, de dentro, nossa cultura. “De dentro” significa que aprendem o português, vêm morar aqui, alugam casa, arrumam emprego, botam os filhos nas escolas, usam o supermercado, o hospital, a oficina mecânica, o correio. A gente só entende uma cidade (estrangeira ou não) quando vive nela dessa maneira. Pra mim não cola esse papo de viajar para uma cidade, ficar num hotel, conhecer meia dúzia de praias, shopping-centers e restaurantes, e depois voltar para casa. Turista não conhece nada, turista passa através.

Ethan é um norte-americano do Colorado que viveu em Belo Horizonte e publicou num blog (http://bit.ly/137suZA) suas opiniões sobre nosso povo. Ethan se admira com nossas frutas (“o Brasil tem mais variedade de frutas do que qualquer outro país do mundo”) e com o fato de que “almoço, aqui, é sempre feijão, arroz e mais alguma coisa”. Ele acha o brasileiro “o povo mais hospitaleiro do mundo”, e observa que a qualquer momento que encontra alguém comendo ou bebendo a pessoa o convida a compartilhar. Ele se admira de que no Brasil a cerveja (“a cerveja brasileira é a mais gelada do mundo”) seja uma bebida coletiva: “Pede-se uma garrafa grande para a mesa, e vários copos, e quando seu copo fica vazio e você quer enchê-lo, enche primeiro os copos das outras pessoas; não já falei como os brasileiros são amigáveis?”.

Ele estranha que as pessoas tomem café em copinhos de plástico, não só porque queima os dedos, mas porque a bebida quente libera componentes químicos. Constata que por toda parte há coisas quebradas ou fora de uso, mas isso é normal no Brasil, a pessoa se acostuma: “agora, acho graça quando ouço os gringos reclamando”. Para ele, contudo, é esquisito ver numa loja cinco caixas e só uma pessoa atendendo, e ver na quitanda cinco pessoas atendendo e somente uma caixa registradora.

“As pessoas pensam que o Grande Canyon fica no Colorado”, diverte-se ele. Eu não achei muita graça, porque também pensava. (É formado pelo Rio Colorado, mas fica no Arizona.) Ele se queixa de que os motoristas são malucos, e que um trajeto de ônibus traz mais emoções do que uma corrida na montanha russa; mas em compensação as pessoas sempre se oferecem para segurar os pacotes de quem está em pé. “Demonstrações públicas de afeto”, diz ele, “são culturalmente aceitáveis aqui, seja num parque ou num restaurante, e é mais uma coisa com que você tem que se acostumar”. E avisa: “As pessoas sempre dizem ‘vamos combinar algo’, mas para você conseguir que isso aconteça vai ter que empregar toda sua iniciativa”.



terça-feira, 7 de maio de 2013

3179) Paulo Vanzolini (7.5.2013)





Dizer que São Paulo é o túmulo do samba é a típica alfinetada carioca que se perde no vazio - menos para os cariocas, é claro. Seria como os EUA dizerem que a França é o túmulo da ficção científica, só porque a FC de lá é diferente da deles. O samba paulistano é amplo, geral e irrestrito (a bênção Adoniran, a bênção Celso Viáfora), mas uma parte dele acaba de ir para o túmulo com o falecimento de Paulo Vanzolini.

É sempre chato lamentar a morte de quem a gente admira diante dos que não sabem de quem se trata. Vanzolini, que muitos jovens desconhecem, morreu dias atrás, aos 89 anos. Deixou no mínimo dois clássicos da nossa música: “Ronda” (“À noite eu rondo a cidade, a te procurar, sem encontrar...”), a canção que inspirou “Sampa” de Caetano Veloso; e “Volta por cima” (“Chorei, não procurei esconder; todos viram, fingiram, pena de mim não precisava...”), que incorporou ao linguajar brasileiro a sua triunfante frase final: “Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima!”.

Vanzolini surgiu na minha vida com essas duas músicas, que eu conhecia antes mesmo de imaginar quem as teria composto; mas principalmente através do LP Onze sambas e uma capoeira, uma espécie de ação entre amigos que eu acho que só comprei porque tinha Chico Buarque cantando duas faixas. Atirei no compositor de “A Banda” e acertei no autor de sambas magníficos como “Samba erudito”, “Praça Clóvis”, “Amor de trapo e farrapo”, “Juízo Final”, letras surpreendentes, carregadas de humor, ironia, percepção fina de um cronista do cotidiano.

Vanzolini na verdade era cientista, professor de Herpetologia (“ele ensina cobras e lagartos”, dizia Chico Buarque), fazia música nas horas vagas mas só acertava no alvo. Nunca se interessou pelo sucesso, compunha para si mesmo e para meia dúzia de amigos. Não tinha papas na língua e mandava torpedos ferinos na direção de quem não gostava. Suas músicas vão desde a mordacidade da “Capoeira do Arnaldo” (“Quando eu vim da minha terra / veja o que eu deixei pra trás: / cinco noivas sem marido / sete crianças sem pai / doze santos sem milagre / quinze suspiros sem ai / trinta marido contente / me perguntando "já vai?" / e o padre dizendo às beata: / "Milagre custa, mas sai") até o humor negro do “Samba do Suicídio”, onde o cara faz tudo para se matar e não consegue. (Escutem: tem tudo no You Tube).

Vanzolini parece nunca ter dado muita bola para o mercado da música, e infelizmente foi correspondido. É a música brasileira invisível, que hoje, graças à Web, está ao alcance de quem se interessa. Mas, como disse ele mesmo noutro samba: “Quando eu for, eu vou sem pena; pena vai ter quem ficar”.



domingo, 5 de maio de 2013

3178) As marcas do morto (5.5.2013)





Quando meu tio Fabriciano morreu, não chorei nem fiz drama, mas talvez eu tenha sentido sua morte mais do que a viúva e os dois filhos, para quem o velho (inválido, introvertido) era um entrave, uma sangria financeira. Eu era o único parente que o visitava, o único que era bem aceito. Recebi com uma surpresa formal a notícia de que ele tinha deixado para mim a estante de livros. Lá, ninguém tinha interesse por eles, e meu tio me fizera aquela última gentileza. Ademais, eram poucos, não mais de duzentos.

Folhear livros de um ausente é uma forma de seguir suas pegadas pelo mundo não-linear e ilimitado das idéias. Livros lidos, relidos, manuseados ao longo da vida. Trechos sublinhados, parágrafos inteiros circundados por uma linha firme e intencional, traços ondeados por baixo de termos duvidosos ou de erros de imprensa. Pequenos comentários em forma de pontos de exclamação, interrogação; asteriscos e setas puxando correções ou esclarecimentos.

Quando comecei a examinar seus livros preferidos uma estranheza foi surgindo. Era como escutar meu tio falando. Naqueles livros, que eu mal e mal conhecia, começou a surgir a voz dele, seus modos de dizer, seus aforismos, seu vocabulário. Abrindo um romance ao acaso me defrontei com o “viver é perigoso” que ele tanto usava ao derramar na palma da mão os comprimidos que mantinham seu coração batendo; era estranho ver aquilo nos lábios de um pistoleiro. Abrindo ao acaso alguns livros de poemas, espantei-me, sem compreender como ele enfiara por entre aquelas linhas seus lugares-comuns preferidos: “seria uma rima, não seria uma solução”; “quando a indesejada das gentes chegar”; “não sou alegre nem triste, sou poeta”. Sim, não havia dúvida, ali estava a voz do meu tio, sua melancolia, sua amargura, o sarcasmo com que ele corroia as junturas do seu mundo e naufragava irônico, levando consigo os que lhe mentiam, os que o tratavam como um traste velho.

A cada ocorrência eu fechava o livro, assombrado com aquela violação das leis naturais. Que alguém fizesse anotações às margens de um livro, é coisa normal. Mas não existe nenhum processo – que não pertença ao reino do fantástico – capaz de fazer um homem, à força de tanto ler um livro, incluir nesse livro uma frase sua. Uma espécie de transformação alquímica da tinta e do papel, fazendo o texto anterior se rearrumar, ceder espaço à frase nova, organizar-se em novos metros e novas rimas para receber as queixas em voz baixa que meu tio fazia nos fins de tarde, sofrendo o desdém da família, bebericando seu café preto e murmurando: “somente a ingratidão, esta pantera, foi tua companheira inseparável”.



sábado, 4 de maio de 2013

3177) Mundo sem gente (4.5.2013)




Diretores de filmes B interessados em fazer filmes pós-apocalípticos não precisam gastar um só dólar mandando construir cenários de papelão. O mundo está cheio de fábricas abandonadas, conjuntos residenciais virgens de inquilinos e já tomados pelo matagal, cidades fantasmas, hotéis de luxo hoje habitados somente por calangos e cascavéis. 

São muitas as causas. A grana-que-ergue-e-destrói-coisas-belas não para de conceber projetos novos, iniciá-los, e deixá-los pela metade. Reviravoltas econômicas levam uma região à falência e à desabitação, esvaziando cidades inteiras. A guerra, as epidemias, acidentes radioativos ou catástrofes naturais despovoam áreas enormes e deixam expostos à chuva e ao vento edifícios que já foram monumentais, deslumbrantes, repletos de pessoas.

The Atlantic (http://bit.ly/yyR5oJ) reúne fotos assim na página “A World without People”. 

Estátuas de Confúcio e de Lênin estão abandonadas no meio das ruínas. Em Fukushima, onde houve o acidente nuclear do Japão, a hera das casas invade pacificamente o asfalto onde não passa mais ninguém. Perto de Chernobyl, um parque de diversões abandonado onde as árvores estão prestes a cobrir a roda-gigante. 

Gansos e dinossauros de fibra de vidro parecem imagens surrealistas jogados no lixo de um parque temático em Berlim. Instalações construídas em Atenas para as Olimpíadas de 2004 estão sendo corroídas pela ferrugem e pela umidade, sem uso. Perto do aeroporto da Líbia, a estranha imagem de uma escada de avião abandonada no meio da rodovia.

Assim como em nosso corpo as células nascem, morrem e se substituem sem parar, o mundo avança às custas de uma destruição e criação constante. Marx falou certa vez que “a podridão é o laboratório da vida”, provavelmente querendo dizer que nas crises econômicas e sociais nem tudo se perde. Riquezas, forças, energias, tudo é canalizado para outras funções, e a roda vai rodando. 

O “mundo sem gente” do The Atlantic lembra aquela série do History Channel, “O Mundo Sem Ninguém”, que num exercício bem próximo da ficção científica visualiza em computação gráfica como ficariam nossas cidades dez anos depois do nosso desaparecimento; cem anos; mil anos.

Os ocidentais tiveram durante séculos a certeza de que o mundo está evoluindo (e em muitos aspectos está, sim) e de que nada pode interromper essa evolução (não dá para ter tanta certeza). Mas a civilização é uma estátua feita com palitos de fósforos. Ainda corremos o risco de nos transformar em estranhos no nosso planeta, tentando inutilmente reconstruir o saber tecnológico e conceitual que hoje nos dá a convicção precária de sermos os donos do mundo.



sexta-feira, 3 de maio de 2013

3176) Livros e drogas (3.5.2013)





("As drogas são malvadas. Elas fazem você perceber o quanto a realidade é uma porcaria.")

Carlos Drummond se referiu uma vez à “cocaína moral dos bons livros”. A palavra cocaína hoje está associada ao vício, ao tráfico, e a outras zonas de moral duvidosa, mas no tempo em que o poeta escreveu talvez estivesse mais associada à farmacologia e à automedicação recreativa de jovens inofensivos de classe média. 

Pedro Nava, num dos seus livros de memórias, lembra a época em que, durante as madrugadas de farra e boemia, ele e os amigos entravam numa farmácia e compravam cocaína, que na época era vendida livremente. O que era a cocaína para eles? Um aplicativo químico que, uma vez instalado, servia para “acelerar as asas do juízo”, como dizia Pinto do Monteiro. Vicia? Claro que sim. Até chocolate vicia, quanto mais um troço feito em laboratório.

Mas Drummond dizia mesmo é que os bons livros produzem um efeito moral tão estimulante quanto o efeito físico da droga. 

Há livros que, lidos e relidos, dão energia, alegria, vontade de viver, vontade de fazer um milhão de coisas. Há livros que deixam a cabeça da gente fervilhando de projetos, de coisas para pensar e para dizer, e de uma certa confiança em poder fazer isso tudo. 

Há livros cujo trato com a linguagem, com a palavra, deixam a gente tão eletrizado que bastam 15 minutos de leitura para render um dia de trabalho. Isso funciona com todo mundo? Infelizmente não. Só funciona com quem “é dos livros”, e isso leva tempo e convivência para adquirir; na maior parte dos casos é adquirido sem nem haver intenção. Quando o jovem leitor dá por si, está fisgado.  

É como adquirir uma habilidade, uma técnica; requer  vontade e vivência, requer o mergulho profundo nesses livros. A vantagem é que, em geral, basta a primeira leitura de um livro assim para nos mostrar que ele pode desempenhar essa função em nossa vida.

Em outro momento, Drummond diz: “Meu verso é minha consolação. Meu verso é minha cachaça”. E ele se compara ao capiau que toma sua lapadazinha de cana numa caneca de folha-de-flandres. Já é outra droga: a droga anestesiadora, consolatória, tipo “bebo para esquecer”. 

O verso (=o livro) dos outros, ao ser lido, é estimulante. O verso (=o livro) próprio, ao ser escrito, é uma consolação. O que lembra a famosamente humilde frase de Jorge Luís Borges: “Que os outros se orgulhem dos livros que escreveram – eu me orgulho dos que li”. O que a gente lê é sempre, irritantemente, melhor do que o que a gente escreve. 

Escrever, como se diz hoje, “é uma terapia”. Uma droga apaziguadora, um calmante para tocar a vida adiante. E foi Manuel Bandeira quem resumiu esse nosso dom de escolher: “Uns tomam éter, outros cocaína. Já tomei tristeza, hoje tomo alegria”.









quinta-feira, 2 de maio de 2013

3175) A Vida e os Tempos de Caps Loco (2.5.2013)





Cap. 1 – De como Caps Loco surgiu para o mundo através das redes sociais, numa enxurrada de posts barroco-surrealistas inconfundíveis pelo inusitado das propostas sócio-políticas (fascinantes, eticamente impecáveis, mas claramente inexequíveis), pelo peculiaríssimo vocabulário, pelo humor mordaz, pelo uso liberal mas sempre preciso dos expletivos pornográficos, e pela sua irritante mania de escrever TUDO EM CAIXA ALTA, PORQUE ELE DIZIA QUE OS VERDADEIROS GÊNIOS SÓ ESCREVEM EM LETRAS GARRAFAIS. 

Cap. 2 – De como sua presença nessas redes sociais começou a ser notada, depois curtida, depois comentada, depois compartilhada, depois questionada, depois investigada, e tornou-se por fim um fator de perplexidade porque mesmo hackers experientes com menos de dezoito anos de idade eram incapazes de rastrear o labiríntico roteamento de onde provinham as diatribes e catilinárias assinadas pela alcunha de Caps Loco. 

Cap. 3 – De como desencadeou-se uma verdadeira caçada, através da imprensa, por informações fidedignas, em busca da identidade, do endereço, da história pessoal e da fotografia de Caps Loco.  

Cap. 4 – De como dentro de seis meses não se falava em outra coisa no país inteiro, mas os posts de Caps Loco continuavam pipocando de maneira aleatória e imprevisível, enquanto ele zoava com a caça infrutífera dos paparazzi, dos detetives e da bancada censória.

Cap. 5 -  De como Caps Loco revelou a farsa por trás da entrega do Oscar daquele ano.  

Cap. 6 – De como Caps Loco forçou o ganhador do Prêmio Nobel de Economia a renunciar e pedir desculpas publicamente. 

Cap. 7 – De como Caps Loco interferiu nas negociações internas da União Européia e impediu que a Eslovênia fosse responsabilizada pela falência da Hyundai. 

Cap. 8 – De como Caps Loco hackeou, copiou e divulgou documentos secretos do Vaticano, forçando a excomunhão coletiva de todo o Colégio de Cardeais.

Cap. 9 – De como Caps Loco cometeu, durante as convulsões da Revolução Socialista que derrubou o governo da China, um pequeno deslize que revelou o endereço IP do principal computador que utilizava. 

Cap. 10 – De como uma força-tarefa internacional (que incluía representantes da Swat, do FBI, da Interpol, da Halliburton, da Craft, da Blackwater, da Yakuza, da Al-Qaeda, da bancada ruralista e da bancada evangélica) arrombou numa madrugada fria o bunker onde se localizava o computador vilão e descobriu, batucando furiosamente em seu teclado, um jornalista desempregado de 62 anos, rodeado de caixas de pizza e latas de cerveja, que se virou para as 114 armas apontadas pro seu crânio e berrou: “EI, CÊS SABEM COMO É QUE SE DESTRAVA ESSA PORCARIA AQUI?! VALEU!”.









quarta-feira, 1 de maio de 2013

3174) Escrever pensando (1.5.2013)





Isaac Asimov dizia que quem escreve sem clareza é porque pensa sem clareza. Todos os nossos pensamentos brotam de uma maneira meio indisciplinada, com as idéias se entrechocando numa espécie de movimento browniano de partículas. É preciso comprimir essas idéias, ajustá-las, direcionar todas no mesmo sentido, fazer com que se harmonizem umas às outras, e só então verbalizar o resultado. 

Não se deve escrever tudo que passa pela nossa cabeça. A não ser que a intenção seja produzir poesia surrealista. Deve-se pensar com intensidade, arrumar os pensamentos com clareza, verbalizar o resultado – e só então passá-lo para o papel.

Existem autores que têm facilidade para imaginar enredos, mas não para escrever histórias (são duas coisas bem diferentes!). E existem autores que são o contrário disso. No melhor dos mundos, aprenderiam a trabalhar de parceria, abrindo mão do egocentrismo do crédito individual. 

Por que motivo tudo tem que ter um autor único? “Um livro de Fulano e Sicrano”. Por que motivo isso seria menos artístico do que “uma canção de Fulano e Sicrano”? 

A ficção de gênero (policial, ficção científica, horror) é cheia de autores que na verdade são pseudônimos ocultando bem-sucedidas duplas de parceiros: Lewis Padgett, Eando Binder, Lawrence O’Donnell,  Robert Randall, Ellery Queen, Emma Lathen, Patrick Quentin, etc. Para não falar nas parcerias oficiais: Frederik Pohl e Cyril Kornbluth; Fletcher Pratt e L. Sprague de Camp; etc.

Os roteiristas de Hollywood descobriram na prática dois arquétipos básicos da profissão: “the sitter and the talker”. Tem um que é falador, sente-se mais à vontade andando de um lado para o outro e improvisando em voz alta as situações e os diálogos. O outro fica sentado, ouvindo, fumando e pensando. De vez em quando corrige o outro em algum detalhe. De vez em quando anota algo num papel. Caberá a ele organizar por escrito a história que o colega imagina, ajudado por suas dicas. Isso se chama co-autoria.

A música popular é muito estimuladora da parceria entre talentos muitos diferentes entre si: Lennon e McCartney; João Bosco e Aldir Blanc; Tom Jobim e Vinicius de Moraes; Rodgers e Hammerstein... 

Será que algum desses artistas pensou em algum momento que estava se diminuindo, ou abrindo mão de sua criatividade, somente por estar trabalhando em conjunto com outra pessoa? Duvido. 

Escrever é pensar: escrever juntos é pensar em conjunto. Às vezes dá mais trabalho do que pensar sozinho. Às vezes é capaz de salvar dois autores que, sozinhos, jamais conseguiriam produzir no nível de qualidade e complexidade que o trabalho em parceria lhes proporciona.








3173) Dois desabamentos (30.4.2013)




(O minarete de Aleppo)


Abri a página da Wikipedia para consultar alguma coisa e vi essas notícias lado a lado. (Intervalo: Sim, eu consulto a Wikipedia. Já trabalhei anos em enciclopédia. Toda enciclopédia tem erros. A Britânica tem tantos erros quanto a Wiki. Para informação básica, nomes, fatos, datas, títulos, números, todas são igualmente (des)confiáveis. E a Wiki eletrônica remete direto às fontes, coisa que no papel é impossível fazer. Fim do intervalo.) Bem, eis as notícias:

1) A destruição do minarete da mesquita de Aleppo (Síria), no último dia 24 de abril, na luta entre o governo e os rebeldes, que se acusam mutuamente de ter bombardeado o monumento. A mesquita já foi destruída e reconstruída várias vezes: após um incêndio em 1159, após a invasão mongol em 1260, etc. O minarete, construído em 1090, era a parte mais antiga ainda intacta. Agora, é uma pilha de tijolos quebrados e poeira.

2) O desabamento (no mesmo dia 24) de um prédio comercial de oito andares em Bangladesh. No prédio trabalhavam operários em confecções de tecidos, inclusive para empresas como Benetton, Walmart, etc. Na véspera do acidente tinham sido avistadas rachaduras, mas os proprietários garantiram que não era nada de mais. Na hora do desabamento, 9 da manhã, havia 3.122 pessoas no prédio; até agora há 348 mortos e mais de mil feridos.

Quando vi essas duas notícias lado a lado, me entristeci pela destruição do minarete, uma relíquia histórica; a queda do prédio cheio de costureiras não me abalou tanto. Pelo menos foi assim durante uns dez segundos, até que resolvi voltar, reler tudo e descobrir por que dou mais valor a um minarete do que a trezentas pessoas.

A questão, me parece, é que o minarete é um indivíduo, e aquelas pessoas não são. É um indivíduo porque tem nome, tem foto, tem descrição, tem uma história própria. É cercado de fatos históricos, de análises arquitetônicas. Milhares de turistas já o fotografaram. Já as costureiras anônimas de Bangladesh não têm individualidade, são uma massa amorfa de estatísticas. Ninguém jamais saiu do Rio de Janeiro para tirar foto com uma delas.

Por isto o jornalismo nos aconselha: particularize. Ninguém se comove com a morte de mil pessoas, mas alguém se comoverá se você disser que uma delas tinha 22 anos, se chamava Salima, morava com o pai viúvo, era casada com um músico, e tinha acabado de deixar a filhinha de 2 anos na creche do andar térreo. Basta essa breve silhueta (inventada: não tive coragem de ler as histórias reais) para que o jornalismo deixe de lado a impessoalidade da estatísticas sociológicas e se aproxime da literatura, a quem cabe, no fim das contas, contar a comédia e a tragédia humana.